Eleições 2026 | “LGBTs na política são uma obscenidade”: violência política contra a diversidade em ambientes religiosos

A presença de pessoas LGBTQIA+ em cargos eletivos no Brasil tem sido acompanhada por uma escalada de violência política que transcende o debate de ideias e se ancora em discursos de ódio e desinformação. Expressões como “LGBTs na política são uma obscenidade” circulam em nichos digitais religiosos para provocar pânico moral e deslegitimar mandatos conquistados pelo voto popular. O Bereia analisa nesta matéria como essa violência se estrutura, o papel de lideranças religiosas nesse cenário e a importância dos mecanismos de proteção, como a cartilha do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre violência política de gênero.

O preconceito como ferramenta de exclusão política

A participação política de pessoas LGBTQIA+ é frequentemente alvo de discursos que buscam reduzir mandatos complexos a uma suposta “agenda de costumes” ou “ideologia de gênero”. Essa estratégia de desinformação visa desumanizar parlamentares, sugerindo que sua existência nos espaços de poder seria uma afronta aos valores cristãos. Lideranças religiosas e políticos de frentes conservadoras utilizam-se dessa retórica para inflamar suas bases eleitorais. O uso de termos como “obscenidade” ou “aberração” não é apenas uma ofensa pessoal, mas uma ferramenta política de exclusão que tenta convencer o eleitorado de que certas identidades são incompatíveis com a vida pública.

Um marco importante no combate a essas práticas é a definição de Violência Política de Gênero. Conforme a cartilha do TSE, que o Bereia já divulgou e analisa recorrentemente, essa violência se caracteriza por ações que visam impedir ou restringir os direitos políticos das mulheres e pessoas de gêneros diversos, por meio da imposição da força física ou de poder para causar danos e sofrimento. A legislação brasileira (Lei 14.192/2021) criminaliza condutas que humilhem, desprezem ou discriminem candidatas ou detentoras de mandato em razão do gênero. 

No entanto, parlamentares LGBTQIA+ enfrentam uma camada extra de violência: a transfobia e a homofobia institucionalizadas. Muitas vezes, o ataque não é apenas contra a atuação parlamentar, mas contra o direito básico de ser tratado pelo gênero com o qual se identifica, uma prática comum em sessões legislativas para desestabilizar e deslegitimar essas lideranças.

Casos emblemáticos: do ataque físico à deslegitimação da identidade

A violência política contra LGBTs no Brasil apresenta casos de extrema gravidade. A vereadora de Niterói (RJ) Benny Briolly (PSOL)  é um dos exemplos mais contundentes. Primeira mulher trans eleita na cidade, Briolly, de identidade religiosa umbandista,  acumula um histórico de agressões verbais e ameaças que a forçaram a sair temporariamente do país para garantir sua integridade física. Em março passado, a parlamentar foi alvo de violência física e hospitalizada após ataques em espaços públicos, evidenciando que a agressividade das redes transborda para o mundo físico.

Imagem: divulgação

Briolly destaca que a LGBTfobia na política se manifesta como uma tentativa de dizer a toda uma população que ela não pertence aos espaços de decisão. Para a vereadora, esse cenário exige um gasto de energia em defesa da própria existência que deveria ser canalizado para o debate de políticas públicas.

Ouvida pelo Bereia, Benny Briolly enfatiza que essa violência não é apenas um ataque individual, mas uma tentativa de silenciar toda uma população, gerando medo e desgaste emocional. No entanto, a vereadora ressalta a importância da representatividade:

“Mas, ao mesmo tempo, nossa presença é um ato de transformação. Cada pessoa LGBTQIA+ eleita rompe uma barreira histórica e mostra que a democracia só é completa quando todas as pessoas têm o direito de participar dela em igualdade de condições. Por isso, enfrentar a LGBTfobia na política não é uma pauta de uma minoria; é defender a própria democracia, o respeito aos direitos humanos e o direito de toda a sociedade de ser representada”. 

Outro caso central é o da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP). Frequentemente atacada com o argumento de que “não é mulher”, Hilton enfrenta a violência política de gênero em sua forma mais crua: a negação da identidade. Ataques similares são dirigidos à deputada de identidade cristã Duda Salabert (PDT-MG), que convive com ameaças de morte constantes propagadas por  grupos extremistas. 

O legado do deputado David Miranda (falecido em 2023) também é um símbolo dessa resistência. Casado com o jornalista Glenn Greenwald, Miranda foi o primeiro vereador LGBT da história da Câmara do Rio e, posteriormente, deputado federal. Sua trajetória foi marcada por uma luta contínua contra ataques que misturavam homofobia com perseguição política, demonstrando como a orientação sexual é usada como arma de arremesso no debate público.

O papel da religião e o discurso fundamentalista

O uso da religião para justificar a violência política é destaque neste acompanhamento do  Bereia. Políticos com identidade religiosa frequentemente apregoam ataques verbais sob o manto da “liberdade de expressão” ou “defesa da fé”. Sobre este tema, o pastor anglicano Reverendo Arthur Cavalcante, que também é cientista da religião, foi ouvido pelo Bereia.  Líder da Paróquia da Santíssima Trindade, em São Paulo, ele   observou que a religião busca participação na esfera pública, mas que, dependendo dos interesses, pode atravancar políticas públicas ao impor valores de crença em detrimento do direito do outro. 

Imagem: SIMpodCRER/Youtube

Cavalcante alerta para o avanço do fundamentalismo, que se apresenta de forma complexa e muitas vezes negocia apoios políticos baseados exclusivamente no voto religioso, ignorando as reais necessidades da população. O reverendo anglicano aponta que lideranças progressistas têm buscado desmontar o discurso do “voto evangélico” monolítico, mostrando que o fiel também está preocupado com questões estruturais do país. Para ele, é urgente que setores das igrejas e movimentos sociais ocupem espaços legislativos onde o fundamentalismo já fincou raízes, garantindo que os direitos conquistados não sejam retrocedidos.

“Diante dessa complexidade, não podemos pôr todos dentro do mesmo cercado. Há possibilidades de diálogos com grupos religiosos mais conservadores que não se reconhecem nas pautas excludentes dos fundamentalistas e nem com os reacionários políticos.  Tenho notado, em alguns discursos de lideranças religiosas progressistas, uma sensibilidade sobre essa população religiosa, começando a desmontar o discurso do ‘voto evangélico’, como se aquele eleitor de fé não estivesse preocupado com a falta de emprego, educação de qualidade, inflação corroendo o seu poder aquisitivo, saneamento básico, acesso à saúde e segurança” conclui Cavalcante.

É fácil concluir que a violência política contra pessoas LGBTQIA+ é alimentada por uma engrenagem de desinformação que utiliza o pânico moral religioso como combustível. A deslegitimação de mandatos trans e homossexuais não é apenas uma questão de “opinião religiosa”, mas um crime previsto em lei que fere os princípios do Estado laico e da democracia brasileira. O combate a essa violência passa pelo fortalecimento das instituições, pela aplicação rigorosa das normas do TSE e pela desconstrução de discursos fundamentalistas que usam o sagrado para promover a exclusão.

Referências

BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Cartilha sobre Violência Política de Gênero.

Cartilla bras  acesso em 02 de julho de 2026

COLETIVO BEREIA. Arquivos cristianismo e violência política

Arquivos violência religiosa – Coletivo Bereia  acesso em 02 de julho de 2026

Brasil de Fato: Vereadora negra e transexual foi atacada

Vereadora Benny Briolly foi atacada nesta terça-feira (19) | Brasil de Fato 

Coletivo Bereia Desinformação: uma das dimensões da violência de gênero  

Desinformação e violência de gênero é tema de cartilha à disposição do público – 

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