Vinho velho em odres novos: a machosfera na arena pública

As discussões sobre a “machosfera” e os debates que decorrem dela vêm ganhando espaço nas mídias nos últimos tempos. Seja por meio das produções publicizadas pelas plataformas de streaming seja nas mídias digitais, o tema vem sendo instrumentalizado por tocar em um ponto central  que acaba sendo normalizado: a misoginia (o ódio, o desprezo ou a aversão profunda contra mulheres e meninas expressos em discursos e atitudes de violência física e também simbólica e patrimonial). 

No último 12 de maio, o programa de TV GloboNews Debate recebeu o ator de novelas da Rede Globo Juliano Cazarré e a psicanalista, mestre e doutora Vera Iaconelli. O programa foi mediado pela participação do consultor em equidade de gênero Ismael dos Anjos.  

Ainda que o tom sutil do debate tenha sido amistoso, o tema é de grande relevância para os estudos de gênero no Brasil que vêm ao longo de muitas décadas rompendo barreiras que pareciam ter sido superadas.

Fortemente encabeçada por influenciadores norte-americanos e britânicos, a machosfera tem tido adesão em solo brasileiro. Bereia elaborou um panorama explicativo.

O que é a machosfera?

Documento da Organização das Nações Unidas (ONU), que trata da violência contra mulheres e meninas facilitada pela tecnologia, define machosfera como “uma rede descentralizada de comunidades digitais em múltiplas plataformas, como grupos de bate-papo, fóruns de discussão e blogs, unidas por sua oposição ao feminismo”.

Segundo a organização, a proliferação de conteúdo misógino em espaços online está se espalhando cada vez mais para plataformas de mídias convencionais, como a TV, o rádio, os impressos e o cinema. Com isso se  perpetuam as práticas de masculinidades nocivas e de normas sociais discriminatórias históricas que alimentam a violência contra mulheres e meninas.

Em plataformas como YouTube, Instagram e TikTok, homens masculinistas se tornam influencers. Eles  chamam essa propagação de “desenvolvimento pessoal” e cuidado com “relacionamentos”. De acordo com o documento da ONU Mulheres, dois terços dos jovens homens consomem regularmente conteúdo de influenciadores da masculinidade na internet.

Dentro desse universo digital, esses homens se retratam como vítimas do clima social atual, interpretado como de domínio do feminino, por meio de conteúdo diverso. Nele estão representações depreciativas de mulheres, discursos pejorativos sobre movimentos feministas e repetição de jargões  nocivos sobre igualdade de gênero e violência contra mulheres e meninas.

A machosfera é um termo guarda-chuva para comunidades online que têm promovido definições cada vez mais estreitas e agressivas do que significa ser homem – além de sustentar a falsa noção de que o feminismo e a igualdade de gênero ocorreram às custas dos direitos dos homens. Essas comunidades promovem a ideia de que o valor masculino está ligado ao controle emocional, à riqueza material, à aparência física e ao domínio do homem – especialmente sobre as mulheres.

A machosfera mira públicos masculinos em redes digitais, podcasts, comunidades de games, aplicativos de namoro e praticamente todos os espaços digitais. Muitos homens entram em contato com esse conteúdo ao buscar fóruns para falar abertamente sobre questões masculinas. Embora o conteúdo pareça voltado para o autodesenvolvimento masculino, muitos desses grupos promovem os velhos comportamentos nocivos com nova roupagem, como ensinar meninos e homens a se fortalecerem às custas dos outros.

As mulheres e as ideologias da machosfera

Embora os grupos pertencentes à machosfera não comunguem das mesmas crenças, a maioria tem a misoginia como característica comum. Em diferentes aspectos, a machosfera é oriunda de uma longa tradição de movimentos antifeministas.

Esses grupos difundem mitos, crenças que falseiam o pensamento crítico e mentiras baseadas em gênero. Bereia elenca algumas dessas ideias (as siglas dizem respeito aos termos em inglês justamente porque são tendências internacionais assimiladas e adaptadas por homens brasileiros).

  • Ativistas dos Direitos dos Homens (MRAs): usam uma linguagem mais acadêmica para afirmar que o feminismo e os direitos das mulheres – ao voto, à educação, a cargos de liderança – prejudicam os homens. Alegam que a sociedade é ginocêntrica, ou seja, dominada por interesses femininos.

Fonte: Warren Farrell – Considerado o “pai intelectual” do movimento. (Perfil do Instagram)

  • Movimento MGTOW (Homens Seguindo Seu Próprio Caminho): sustenta que a sociedade se coloca contra os homens e que a melhor opção é evitar as mulheres e até a própria sociedade.

Fonte: Gabriel Breier (Perfil do Instagram)

Outros discursos de ódio de gênero comuns na machosfera incluem:

Fonte: Mídia Ninja (Perfil do Instagram)

  • AWALT: sigla de “All women are like that” (“todas as mulheres são assim”), usada para rotular comportamentos femininos dos quais não se gosta ou concorda..
  • Femoids ou FHOs: significa “organismo humanóide feminino”, um termo ofensivo que sugere que mulheres são inferiores aos homens – e até mesmo à condição humana.
  • Hypergamous: termo usado pejorativamente para descrever e atacar mulheres que, supostamente, só se interessam por homens bonitos e bem-sucedidos financeiramente.

Fonte: RedPilledMen.ig (Perfil do Instagram)

  • Involuntary celibates (incels, celibatários involutários): acreditam que homens têm “direito” ao sexo e que as mulheres os privam disso propositalmente. A cultura extremista incel promove estupro e agressões e mistura outras ideologias, como racismo e homofobia. Incels já foram associados a atentados violentos em massa.

Fonte: Público (Perfil do Instagram)

  • Pick up artists (PUAs): ensinam a coagir mulheres para fazer sexo (em outras palavras, a prática de estupro) e ridicularizam o conceito de consentimento sexual.

Fonte: Manuela D’ávila (Perfil do Instagram)

Direitos das mulheres em xeque

Na machosfera, todos são prejudicados. A misoginia e a desigualdade de gênero prejudicam os homens, assim como as mulheres. De acordo com informações globais da Equimundo, homens que possuem visões rígidas sobre gênero têm maior propensão a comportamentos prejudiciais, como abuso de substâncias e ações de risco. Igualmente apresentam taxas mais elevadas de transtornos como depressão e ideias suicidas.

Os estereótipos masculinos na machosfera geram um ciclo. Quando meninos e homens não recebem estímulo para discutir sentimentos ou dificuldades, acabam buscando essas comunidades virtuais para obter orientações sobre relacionamentos, paternidade, ansiedade e saúde sexual.

Algumas características que envolvem ativamente rapazes com influenciadores da masculinidade:

  •  Relataram índices aumentados de desvalorização pessoal e ansiedade
  • Mostravam maior propensão a ingerir suplementos vitamínicos para buscarem ampliar desempenho físico e a se exercitar mesmo com lesões.
  • Tendiam a dar menos importância à saúde mental
  • Valorizavam mais a riqueza e a notoriedade entre amigos do sexo masculino.

Já os estereótipos referentes às mulheres operam na criação de mitos e hierarquias. Um estudo global em apoio ao movimento HeForShe, revela que jovens da chamada Geração Z (nascida entre 1997 e o início de 2010) são os mais vulneráveis à retórica sexista na internet. Ademais, atualmente, homens mais jovens tendem a sustentar ideias mais retrógradas sobre papéis de gênero em comparação aos mais velhos, sinalizando uma reação conservadora que coloca em risco avanços significativos em direção à igualdade.

Monetização do engajamento misógino

“Misoginia gera engajamento, e engajamento virou modelo de negócio”, conforme apontado por publicação do projeto Gênero em Disputa, em colaboração com o Laboratório de Estudos de Religião e Política da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A conclusão vem da análise sobre o programa GloboNews Debate, de 12 de maio, que tinha como tema “educação e papel dos homens nos tempos atuais”.

Em artigo publicado no Observatório da Imprensa, o doutor em Comunicação e Semiótica, professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS) Vitor Belem avalia o mesmo episódio. Para ele, “a dinâmica parecia organizada para potencializar confronto, reação e repercussão [com aparente concepção para] circulação posterior em cortes, chamadas e publicações isoladas”.

O autor é enfático em criticar a qualidade do debate, ofuscada pelo objetivo de alcance. Também considera a decisão editorial do programa, que prioriza a visibilidade de figuras nas redes em detrimento de critérios jornalísticos que legitimam um debate público para informar. Com o pretexto de promover espaço para opiniões divergentes, a programação da emissora repercutiu um discurso discriminatório, negacionista e carregado de extremismo político.

Segundo dados do Observatório da Indústria da Desinformação e Violência de Gênero nas Plataformas Digitais, projeto da NetLab UFRJ em parceria com o Ministério das Mulheres, do governo federal, 80% dos canais misóginos no YouTube contam com alguma estratégia de monetização.

O estudo mostra que os recursos nativos da plataforma são apenas parte do financiamento que a rede de vídeos viabiliza, já que o YouTube funciona como uma porta de entrada para outras plataformas — por vezes, ainda mais radicalizadas e com ainda menos mecanismos de controle, como canais no Telegram — articulando formas alternativas como a venda de produtos e serviços.

Conclusão

A capacidade de geração de renda com conteúdos misóginos nas mídias digitais revela como o discurso de ódio contra mulheres é facilmente capitalizado. As plataformas digitais lucram com conteúdos polêmicos e com alto engajamento por meio de anúncios, sistema de assinaturas, doações em transmissões ao vivo, entre outras formas.

No campo político brasileiro, a misoginia e o discurso em oposição à igualdade de gênero encontram espaço para ecoar mentiras e desinformação, sobretudo no ambiente digital, com o intuito de minar o debate público sobre direito das mulheres e frear avanços contra a violência de gênero.

Conforme repercutido pelo Bereia, em checagens sobre número de feminicídios, Lei da Misoginia e abordagem da cultura incel em produção audiovisual de grande repercussão, mídias noticiosas e políticos com identidade religiosa propagam discurso desinformativo acerca desses temas nas mídias digitais. 

As publicações têm aderência em um contexto de polarização e valorização do discurso de ódio pelas big techs que não combatem, mas impulsionam este tipo de conteúdo nas plataformas digitais por meio de algoritmos. Responsabilizar, denunciar, fiscalizar e penalizar estas empresas é necessário para que ambientes digitais não se tornem espaços de livre circulação de conteúdos discriminatórios.

É fundamental que o combate à misoginia e a defesa dos direitos das mulheres sejam um compromisso de toda a sociedade, e que os ataques às mulheres sejam coibidos por meio de iniciativas de letramento de mídia, com especial atenção ao público masculino jovem, grande consumidor de conteúdos desse ecossistema.

Considerando que a machosfera opera como uma rede que captura homens atravessados pelas contradições do machismo e que se sentem afetados pelo avanço das conquistas das mulheres, é imprescindível promover ações de educação voltadas à desmistificação de estereótipos de gênero, o diálogo sobre as transformações sociais relacionadas aos papéis de gênero e a ampliação dos espaços de discussão sobre masculinidade.

Especialmente em um contexto de conteúdos impulsionados pela lógica de engajamento das plataformas digitais, é necessário refletir sobre o papel da imprensa e do debate público, com o devido compromisso informativo, educativo e de combate à desinformação no enfrentamento à discriminação de gênero, à violência contra mulher e à naturalização de discursos misóginos.

Referências:

Observatório da Imprensa

https://www.observatoriodaimprensa.com.br/jornalismo/nem-todo-debate-informa-quando-a-visibilidade-ocupa-o-lugar-do-repertorio/?fbclid=PAZnRzaAR9HbxleHRuA2FlbQIxMQBzcnRjBmFwcF9pZA8xMjQwMjQ1NzQyODc0MTQAAacJTbq4J_Jlq-O7KyzS6GjsI4R7P1oQcCXdrfytH58p7v9QCfLvpOncQ0zt6Q_aem_Q0jZyTzTdHRZaEWnssuM_Q 24 MAI 26

Coletivo Bereia

https://coletivobereia.com.br/pela-liberdade-de-expressar-aversao-a-mulheres-lei-da-misoginia-aprovada-no-senado-e-alvo-de-mentiras-e-circula-entre-religiosos/ 25 MAI 26

https://coletivobereia.com.br/deputada-federal-catolica-compartilha-informacao-enganosa-sobre-serie-adolescencia/ 25 MAI 26

https://coletivobereia.com.br/politicos-e-midias-noticiosas-usam-recorde-de-feminicidios-para-desinformar/ 27 MAI 26

ONU Mulheres

https://www.onumulheres.org.br/noticias/o-que-e-a-machosfera-e-por-que-devemos-nos-preocupar/ 27 MAI 26

Equimundo

https://www.equimundo.org/resources/men-and-gender-equality-a-global-status-report-in-15-headlines/  27MAI 26

He For She

https://www.teamlewis.com/heforshe/ 27 MAI 26

Jornal da USP

https://jornal.usp.br/articulistas/gaudencio-torquato/geracao-z-entre-o-desencanto-e-a-busca-por-sentido/ 27 MAI 26

NetLab

https://netlab.eco.ufrj.br/post/aprenda-a-evitar-esse-tipo-de-mulher-estrat%C3%A9gias-discursivas-e-monetiza%C3%A7%C3%A3o-da-misoginia-no-yout 28 MAI 26

Foto de capa: Unsplash

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