Bereia Explica: Machosfera, grupos masculinistas e religião 

O Farol e a Forja” é o nome do evento promovido pelo ator Juliano Cazarré, que reacendeu o debate sobre discursos em torno da masculinidade e evidenciou a aproximação entre setores do conservadorismo cristão, discursos políticos e o ecossistema digital, conhecido como popularmente como “machosfera’. 

O evento, que foi divulgado como “o maior encontro de homens do Brasil”, e ganhou muito espaço nas mídias, provocou, ao mesmo tempo, uma intensa quantidade de críticas e reações nas redes digitais. O projeto, que reuniu cerca de 600 participantes para discutir masculinidade, cristianismo e o suposto “enfraquecimento dos homens atualmente”, expôs as tensões atuais sobre papéis de gênero no país. 

Embora o ator promotor da reunião tenha se defendido ao afirmar ser contra movimentos masculinistas extremistas, a iniciativa se insere em um ecossistema mais amplo e estruturado conhecido como “machosfera”. Nesta matéria, o Bereia explica  este  termo e os subgrupos nele contidos, como redpills, incels, Machonaria e Legendários

Aqui se aborda também como a machosfera se organiza nas plataformas digitais e de que forma os discursos propagados dialogam com agendas políticas e culturais no Brasil contemporâneo, especialmente no campo religioso. 

Para compor esta explicação, o Bereia ouviu dois especialistas: a doutora em Sociologia e  pesquisadora do Laboratório de Estudos de Religião e Política, da Fundação Joaquim Nabuco (PE) e colaboradora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) Ana Carolina Marsicano; o doutorando e mestre em Educação, pesquisador do Instituto de Estudos da Religião (ISER) Silas Veloso.

O que é a “machosfera”?

A machosfera é um termo que descreve um conjunto de comunidades digitais, compostas predominantemente por homens, que se articulam em torno de discussões sobre gênero, masculinidades e interações com mulheres. Para a pesquisadora Ana Carolina Marsicano, a definição vai além do debate que ganhou as redes sociais e sites de notícias:

“A machosfera é um ecossistema digital que transforma misoginia, ressentimento masculino e reação ao feminismo em conteúdo, identidade e negócio. Ela reúne influenciadores, fóruns, podcasts e comunidades que difundem visões hierárquicas sobre homens e mulheres, seja por meio do ódio explícito, seja por uma linguagem aparentemente moderada, científica, religiosa ou voltada ao autocuidado. Seu poder está justamente nessa capacidade de revestir desigualdades antigas com uma aparência moderna, racional e aceitável, ao mesmo tempo que converte conflito de gênero em engajamento, audiência e lucro”, explica.

No Brasil, a escala do fenômeno é alarmante. Um levantamento do observatório do NetLab da UFRJ, em parceria com o Ministério das Mulheres, mapeou  em 2024, a existência de conteúdo misógino em pelo menos 137 canais brasileiros no YouTube. Esses espaços digitais produziram mais de 105 mil vídeos, acumulando bilhões de visualizações e gerando fortunas por meio de cursos, mentorias e live streamings, monetizando o ódio e a frustração masculina.

Vocabulário para entender a machosfera e ambientes religiosos:

Misoginia

Embora o termo tenha origem na Grécia Antiga, designando o ódio ou aversão às mulheres, a relevância dele no debate contemporâneo está na forma como foi institucionalizado em práticas de controle social. Historicamente onipresente nas estruturas que estabelecem um poder masculino sobre mulheres (patriarcado). A misoginia opera como um mecanismo de reação contra a perda de privilégios masculinos, com a conquista de direitos pelas mulheres nas diferentes sociedades. Pedagogicamente, ela deve ser compreendida não apenas como um sentimento individual, mas como um sistema de preconceitos que busca manter a subordinação das mulheres por meio da desvalorização e da desqualificação do feminino. A misoginia gera diversas formas de violência, entre elas a física, a psicológica, a simbólica, a patrimonial. Ela assume novas facetas na era digital com pessoas misóginos atuando na promoção destas violências.

Redpills

Movimento masculinista surgido no início dos anos 2000 em fóruns nos Estados Unidos, e popularizado no Brasil com grande intensidade a partir de 2018, principalmente em redes digitais. Homens “redpills” apropriam-se da metáfora do conhecido filme “Matrix”, cujos personagens eram submetidos a uma pílula vermelha (red pill, no inglês) para “despertarem para a realidade”. Os adeptos deste movimento defendem  que a sociedade moderna é estruturada para favorecer as mulheres e prejudicar os homens, em um sistema que chamam de ginecocentrismo (uma característica ou comportamento em que mulheres se colocariam como o centro de tudo). A ideia é que homens precisam despertar para esta realidade e agir contra ela. Por isso, o grupo prega o desapego emocional e a adoção de estratégias defensivas nas relações afetivas, fundamentando sua visão em uma interpretação cínica e transacional da dinâmica de gênero. Há grupos mais radicais que apregoam o desrespeito à vontade das mulheres até mesmo em atos sexuais (o que resulta no incentivo a estupros).

Incels

O termo, que vem do inglês e significa “celibatários involuntários”, surgiu no final da década de 1990 em comunidades de apoio mútuo nos Estados Unidos. É composto por homens que atribuem sua incapacidade de estabelecer vínculos sexuais ou afetivos a fatores genéticos ou a uma suposta “decadência moral” causada pelo feminismo. O movimento sofreu uma radicalização agressiva ao longo dos anos 2010 em fóruns anônimos da internet, recrutando, principalmente, homens jovens. O discurso incel é marcado por ressentimento com mulheres, transformando frustrações em relacionamentos pessoais em uma ideologia de ódio coletivo que frequentemente desumaniza a figura das mulheres. A série de streaming “Adolescência” representou como ocorre o movimento e consequências dele.

Machonaria

Fundada no Brasil em 2018, a Machonaria apresenta-se como uma confraria cristã dedicada ao resgate do que define como “masculinidade bíblica”. O movimento surge como uma resposta direta à percepção de “emasculação” do homem moderno nas instituições religiosas e sociais, incentivando a retomada da liderança patriarcal no lar e na igreja. A base é a noção de que o homem é o cabeça e a estrutura central da família. Pedagogicamente, o grupo foca na disciplina e na responsabilidade espiritual do homem como provedor e protetor, embora a retórica religiosa frequentemente reforce modelos tradicionais de autoridade em oposição a masculinidades mais plurais. 

Legendários

Criado na Guatemala em 2015 e expandido para o Brasil no final da mesma década, o movimento Legendários utiliza experiências de imersão física extrema e espiritualidade para “quebrantar” o ego masculino diante do poder divino. O grupo busca forjar homens que sejam “inquebrantáveis” frente às tentações morais, promovendo uma estética de vigor, superação de limites e fraternidade guerreira. O movimento propõe uma masculinidade ativa e espiritualmente engajada, mas é destacado por uma ênfase na hierarquia rígida e na simbologia de força de um “homem alfa” (termo atribuído a animais dominantes em um grupo).

A pedagogia da masculinidade entrelaçada com religião

A forma como a machosfera constrói seus discursos, em especial em redes digitais, é o ponto central do alcance que tem. Os influenciadores e produtores de conteúdo apresentam uma visão de mundo na qual o homem deve ser o provedor, protetor, líder e centro moral da família. Às mulheres, reservam-se funções associadas ao cuidado, à maternidade e à submissão. Essa aproximação com a religião não é acidental. O pesquisador Silas Veloso tem estudado sobre redpills, um dos subgrupos mais radicais da machosfera.

“Os redpills não são um movimento religioso. O ponto analítico está nas zonas de contato. Parte desses discursos passou a usar vocabulários cristãos para explicar a ‘crise masculina’ como perda de Deus, disciplina, autoridade familiar e ordem natural”, afirma Veloso. 

No meio evangélico e católico conservador, essa “zona de contato” se manifesta na promoção da “masculinidade bíblica”, na defesa da chefia masculina e na rejeição do que é chamado de “ideologia de gênero”. A escola, nesse contexto, é frequentemente acusada de “feminizar meninos”, deslocando debates relevantes sobre respeito e consentimento para uma ideia de ameaça moral.

A interseção entre a machosfera, a religião e a política brasileira se explica, em grande parte, pela mobilização do medo e do ressentimento. A pesquisadora Christina Vital desenvolveu o conceito de “retórica da perda” para analisar o conservadorismo brasileiro. No artigo “Religião, masculinidade viril e retórica da perda na política brasileira”, ela demonstra como o extremismo conservador se alimenta de um desejo de retorno a um passado idealizado.

“A valorização de um passado (em parte idealizado) e a centralidade que a retomada da autoridade e da ‘‘masculinidade viril’ têm na retórica da perda foram armas importantes na construção do governo de Jair Bolsonaro (PFL/PL, 2019-2022). Nesse sentido, a formação de padrões sociais, reguladores da ação coletiva, não visa retratar necessariamente a maioria, mas estabelecer distinções e hierarquias. A toxicidade do fenômeno reside em atores que procuram conduzir legitimamente esses sentimentos para ‘recolocar a sociedade nos eixos’, desrespeitando a pluralidade e os direitos humanos”, conclui Christina Vital. 

Um ecossistema de violência e lucro

O fenômeno da machosfera não pode ser compreendido apenas como um debate cultural, mas como um ecossistema que pode alimentar ciclos de violência real. A ONU Mulheres alerta que o abuso digital, a misoginia e os discursos de ódio online contribuem para a normalização da violência contra as mulheres no mundo físico. 

Imagens: Exemplo de ação violenta contra mulheres. Portal G1, 10 out 2025; BBC Brasil, 16 out 2025 

A tentativa de separar a machosfera radical (redpills, incels) da busca conservadora por valores tradicionais (como a Machonaria, Legendários e o evento do ator Juliano Cazarré) muitas vezes serve apenas para “lavar” a imagem do movimento, utilizando a religião e o bem-estar masculino como escudos contra críticas. No entanto, como demonstra pesquisa do NetLab da UFRJ, a monetização da frustração masculina e a defesa da hierarquia de gênero são as bases que sustentam esse ecossistema, seja nos fóruns anônimos ou em eventos com 600 pessoas em São Paulo.

O Bereia reforça sua atuação na vigilância contra a desinformação que circula em ambientes religiosos, reiterando que já checou sobre publicações da produtora Brasil Paralelo nessa direção. Trata-se de um documentário com mentiras e enganosos sobre a Lei Maria da Penha, que impõe punições a quem pratica violência doméstica e familiar contra mulheres. O vídeo foi retirado do ar pela Justiça por conta das distorções históricas e jurídicas que veiculava. Esse padrão de manipulação desinformativa manifestou-se de forma grave no marco dos 20 anos da Lei Maria da Penha, neste 2026.

A Rede Record de TV, seguindo a trilha da Brasil Paralelo, pautou uma entrevista com o ex-marido de Maria da Penha Maia Fernandes, para que ele, novamente, expusesse sua versão dos fatos em torno da violência, pela qual já foi condenado judicialmente, depois de tentar matar a ex-esposa, deixando-a paraplégica. A entrevista com Marco Antônio Heredia Viveros seria exibida como planejado, no Programa Domingo Espetacular da emissora, em 9 de agosto passado. Foram amplamente veiculadas na TV e nas redes digitais chamadas e trechos do conteúdo. 

O Instituto Maria da Penha recorreu ao Ministério Público do Ceará (MP-CE) para solicitar a não transmissão da entrevista, depois de não ter obtido resposta da emissora quanto ao mesmo pedido. O instituto, que atua há 17 anos na defesa das mulheres, recorreu a uma decisão judicial de 2024, que impôs medidas cautelares contra Viveros, incluindo a proibição de divulgar o nome ou a imagem de Maria da Penha Fernandes e de duas filhas. A organização alegou ainda a inexistência de duas versões (por isso, a entrevista estaria divulgando mentiras) e a possibilidade de uma nova onda de ataques digitais contra a vítima (o que já havia ocorrido com o documentário da Brasil Paralelo).

Além de tentar dar voz a um agressor condenado a Rede Record acabou provocando a prisão dele. Ao acatar a denúncia do Instituto Maria da Penha, o MP-CE decretou a reclusão de Marco Antônio Viveiros, em 10 de agosto, por descumprimento das determinações da da Justiça que o proibiam de citar a ex-mulher ou divulgar imagens e informações sobre ela. 

O caso acabou sendo objeto de mentiras e falsidades em publicações de políticos e grupos conservadores extremistas que transformaram Viveros e a Rede Record em vítimas de censura. Sobre isto, a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) divulgou nota, na qual repudia e registra indignação contra a produção da entrevista pela Rede Record. A organização  classifica como “escolha grave da emissora” e “desserviço”.

“Não é razoável transformar em fonte jornalística privilegiada justamente aquele cuja violência deu origem a uma das mais importantes mobilizações legislativas brasileiras de proteção às mulheres — especialmente quando ele continua descumprindo determinações judiciais destinadas a proteger a própria vítima e suas filhas. Repudiamos a decisão da Rede Record de realizar essa entrevista. O jornalismo pode ouvir qualquer pessoa, mas responsabilidade editorial também significa saber quando uma entrevista não contribui para informar a sociedade, quando pode revitimizar uma mulher e quando acaba oferecendo espaço indevido a quem não deveria”, diz a nota da Fenaj, que pode ser lida na íntegra aqui.

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A articulação entre misoginia, conservadorismo religioso e da retórica política transforma ressentimento masculino em lucro e influência. Do evento “O Farol e a Forja” e dos encontros dos Legendários e da Machonaria aos canais do YouTube e perfis de mídias sociais com milhões de visualizações, a estratégia é a mesma: retomar hierarquias do gênero masculino sobre o feminino encobrindo-as com linguagem de autocuidado, ciência e fé. 

Em nome da informação digna, Bereia afirma que o  enfrentamento desse fenômeno exige atenção de instituições educativas, comunidades religiosas, famílias, plataformas digitais, Estado e sociedade civil, reafirmando que o enfrentamento da desinformação e da cultura de ódio contra mulheres e contra pessoas LGBTQIA+ é responsabilidade de todas as pessoas de boa vontade.

Algumas pesquisas sobre a machosfera citadas nesta reportagem são desenvolvidas em parceria entre a pesquisadora entrevistada Ana Carolina Marsicano e Maria Eduarda Antonino, também pesquisadora do  Laboratório de Estudos em Religião e Política (Laberp). O trabalho integra uma agenda de investigação voltada às relações entre gênero, religião e política no ambiente digital. Como parte dessa iniciativa, ambas também produzem uma série de conteúdos de divulgação científica sobre o tema no perfil do Instagram Gênero em Disputa.

Referências:

Uol

https://www.uol.com.br/splash/noticias/estadao-conteudo/2026/04/22/juliano-cazarre-e-criticado-apos-criar-evento-para-fortalecer-homens-incompreensivel.html.   Acesso em 10 ago 2026

NetLab

https://netlab.eco.ufrj.br/post/aprenda-a-evitar-esse-tipo-de-mulher-estrat%C3%A9gias-discursivas-e-monetiza%C3%A7%C3%A3o-da-misoginia-no-yout  Acesso em 11 ago 2026

Extra

https://extra.globo.com/entretenimento/noticia/2026/05/quanto-custa-participar-do-evento-de-juliano-cazarre-veja-programacao-palestrantes-e-o-que-ele-promete-ensinar.ghtml Acesso em 11 ago 2026

Nexo

https://pp.nexojornal.com.br/academico/2026/06/10/relacoes-entre-politica-religiao-e-genero-no-brasil-contemporaneo Acesso em 11 ago 2026

ONU Mulheres

O que é a Machosfera? | ONU Mulheres – Brasil  Acesso em 11 Ago 2026

Diadorim

Alvo de ataques transfóbicos, Erika Hilton tem 26 propostas sobre mulheres Acesso em 11 ago 2026

Veja 

A parcela de culpa da TV Record para prisão de ex-marido de Maria da Penha | VEJA Acesso em 11 Ago 2026

Lei Maria da Penha

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm  Acesso em 12 ago 2026

Senado
https://www12.senado.leg.br/noticias/infomaterias/2026/07/a-historia-por-tras-dos-20-anos-da-lei-maria-da-penha  Acesso em 12 ago 2026

G1
https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2026/08/10/por-que-o-instituto-maria-da-penha-pediu-a-suspensao-de-entrevista-com-o-ex-marido-da-ativista-cearense.ghtml  Acesso em 12 ago 2026


Fenaj
https://fenaj.org.br/rede-record-presta-desservico-ao-entrevistar-agressor-de-maria-da-penha/  Acesso em 12 ago 2026

Vinho velho em odres novos: a machosfera na arena pública

As discussões sobre a “machosfera” e os debates que decorrem dela vêm ganhando espaço nas mídias nos últimos tempos. Seja por meio das produções publicizadas pelas plataformas de streaming seja nas mídias digitais, o tema vem sendo instrumentalizado por tocar em um ponto central  que acaba sendo normalizado: a misoginia (o ódio, o desprezo ou a aversão profunda contra mulheres e meninas expressos em discursos e atitudes de violência física e também simbólica e patrimonial). 

No último 12 de maio, o programa de TV GloboNews Debate recebeu o ator de novelas da Rede Globo Juliano Cazarré e a psicanalista, mestre e doutora Vera Iaconelli. O programa foi mediado pela participação do consultor em equidade de gênero Ismael dos Anjos.  

Ainda que o tom sutil do debate tenha sido amistoso, o tema é de grande relevância para os estudos de gênero no Brasil que vêm ao longo de muitas décadas rompendo barreiras que pareciam ter sido superadas.

Fortemente encabeçada por influenciadores norte-americanos e britânicos, a machosfera tem tido adesão em solo brasileiro. Bereia elaborou um panorama explicativo.

O que é a machosfera?

Documento da Organização das Nações Unidas (ONU), que trata da violência contra mulheres e meninas facilitada pela tecnologia, define machosfera como “uma rede descentralizada de comunidades digitais em múltiplas plataformas, como grupos de bate-papo, fóruns de discussão e blogs, unidas por sua oposição ao feminismo”.

Segundo a organização, a proliferação de conteúdo misógino em espaços online está se espalhando cada vez mais para plataformas de mídias convencionais, como a TV, o rádio, os impressos e o cinema. Com isso se  perpetuam as práticas de masculinidades nocivas e de normas sociais discriminatórias históricas que alimentam a violência contra mulheres e meninas.

Em plataformas como YouTube, Instagram e TikTok, homens masculinistas se tornam influencers. Eles  chamam essa propagação de “desenvolvimento pessoal” e cuidado com “relacionamentos”. De acordo com o documento da ONU Mulheres, dois terços dos jovens homens consomem regularmente conteúdo de influenciadores da masculinidade na internet.

Dentro desse universo digital, esses homens se retratam como vítimas do clima social atual, interpretado como de domínio do feminino, por meio de conteúdo diverso. Nele estão representações depreciativas de mulheres, discursos pejorativos sobre movimentos feministas e repetição de jargões  nocivos sobre igualdade de gênero e violência contra mulheres e meninas.

A machosfera é um termo guarda-chuva para comunidades online que têm promovido definições cada vez mais estreitas e agressivas do que significa ser homem – além de sustentar a falsa noção de que o feminismo e a igualdade de gênero ocorreram às custas dos direitos dos homens. Essas comunidades promovem a ideia de que o valor masculino está ligado ao controle emocional, à riqueza material, à aparência física e ao domínio do homem – especialmente sobre as mulheres.

A machosfera mira públicos masculinos em redes digitais, podcasts, comunidades de games, aplicativos de namoro e praticamente todos os espaços digitais. Muitos homens entram em contato com esse conteúdo ao buscar fóruns para falar abertamente sobre questões masculinas. Embora o conteúdo pareça voltado para o autodesenvolvimento masculino, muitos desses grupos promovem os velhos comportamentos nocivos com nova roupagem, como ensinar meninos e homens a se fortalecerem às custas dos outros.

As mulheres e as ideologias da machosfera

Embora os grupos pertencentes à machosfera não comunguem das mesmas crenças, a maioria tem a misoginia como característica comum. Em diferentes aspectos, a machosfera é oriunda de uma longa tradição de movimentos antifeministas.

Esses grupos difundem mitos, crenças que falseiam o pensamento crítico e mentiras baseadas em gênero. Bereia elenca algumas dessas ideias (as siglas dizem respeito aos termos em inglês justamente porque são tendências internacionais assimiladas e adaptadas por homens brasileiros).

  • Ativistas dos Direitos dos Homens (MRAs): usam uma linguagem mais acadêmica para afirmar que o feminismo e os direitos das mulheres – ao voto, à educação, a cargos de liderança – prejudicam os homens. Alegam que a sociedade é ginocêntrica, ou seja, dominada por interesses femininos.

Fonte: Warren Farrell – Considerado o “pai intelectual” do movimento. (Perfil do Instagram)

  • Movimento MGTOW (Homens Seguindo Seu Próprio Caminho): sustenta que a sociedade se coloca contra os homens e que a melhor opção é evitar as mulheres e até a própria sociedade.

Fonte: Gabriel Breier (Perfil do Instagram)

Outros discursos de ódio de gênero comuns na machosfera incluem:

Fonte: Mídia Ninja (Perfil do Instagram)

  • AWALT: sigla de “All women are like that” (“todas as mulheres são assim”), usada para rotular comportamentos femininos dos quais não se gosta ou concorda..
  • Femoids ou FHOs: significa “organismo humanóide feminino”, um termo ofensivo que sugere que mulheres são inferiores aos homens – e até mesmo à condição humana.
  • Hypergamous: termo usado pejorativamente para descrever e atacar mulheres que, supostamente, só se interessam por homens bonitos e bem-sucedidos financeiramente.

Fonte: RedPilledMen.ig (Perfil do Instagram)

  • Involuntary celibates (incels, celibatários involutários): acreditam que homens têm “direito” ao sexo e que as mulheres os privam disso propositalmente. A cultura extremista incel promove estupro e agressões e mistura outras ideologias, como racismo e homofobia. Incels já foram associados a atentados violentos em massa.

Fonte: Público (Perfil do Instagram)

  • Pick up artists (PUAs): ensinam a coagir mulheres para fazer sexo (em outras palavras, a prática de estupro) e ridicularizam o conceito de consentimento sexual.

Fonte: Manuela D’ávila (Perfil do Instagram)

Direitos das mulheres em xeque

Na machosfera, todos são prejudicados. A misoginia e a desigualdade de gênero prejudicam os homens, assim como as mulheres. De acordo com informações globais da Equimundo, homens que possuem visões rígidas sobre gênero têm maior propensão a comportamentos prejudiciais, como abuso de substâncias e ações de risco. Igualmente apresentam taxas mais elevadas de transtornos como depressão e ideias suicidas.

Os estereótipos masculinos na machosfera geram um ciclo. Quando meninos e homens não recebem estímulo para discutir sentimentos ou dificuldades, acabam buscando essas comunidades virtuais para obter orientações sobre relacionamentos, paternidade, ansiedade e saúde sexual.

Algumas características que envolvem ativamente rapazes com influenciadores da masculinidade:

  •  Relataram índices aumentados de desvalorização pessoal e ansiedade
  • Mostravam maior propensão a ingerir suplementos vitamínicos para buscarem ampliar desempenho físico e a se exercitar mesmo com lesões.
  • Tendiam a dar menos importância à saúde mental
  • Valorizavam mais a riqueza e a notoriedade entre amigos do sexo masculino.

Já os estereótipos referentes às mulheres operam na criação de mitos e hierarquias. Um estudo global em apoio ao movimento HeForShe, revela que jovens da chamada Geração Z (nascida entre 1997 e o início de 2010) são os mais vulneráveis à retórica sexista na internet. Ademais, atualmente, homens mais jovens tendem a sustentar ideias mais retrógradas sobre papéis de gênero em comparação aos mais velhos, sinalizando uma reação conservadora que coloca em risco avanços significativos em direção à igualdade.

Monetização do engajamento misógino

“Misoginia gera engajamento, e engajamento virou modelo de negócio”, conforme apontado por publicação do projeto Gênero em Disputa, em colaboração com o Laboratório de Estudos de Religião e Política da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A conclusão vem da análise sobre o programa GloboNews Debate, de 12 de maio, que tinha como tema “educação e papel dos homens nos tempos atuais”.

Em artigo publicado no Observatório da Imprensa, o doutor em Comunicação e Semiótica, professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS) Vitor Belem avalia o mesmo episódio. Para ele, “a dinâmica parecia organizada para potencializar confronto, reação e repercussão [com aparente concepção para] circulação posterior em cortes, chamadas e publicações isoladas”.

O autor é enfático em criticar a qualidade do debate, ofuscada pelo objetivo de alcance. Também considera a decisão editorial do programa, que prioriza a visibilidade de figuras nas redes em detrimento de critérios jornalísticos que legitimam um debate público para informar. Com o pretexto de promover espaço para opiniões divergentes, a programação da emissora repercutiu um discurso discriminatório, negacionista e carregado de extremismo político.

Segundo dados do Observatório da Indústria da Desinformação e Violência de Gênero nas Plataformas Digitais, projeto da NetLab UFRJ em parceria com o Ministério das Mulheres, do governo federal, 80% dos canais misóginos no YouTube contam com alguma estratégia de monetização.

O estudo mostra que os recursos nativos da plataforma são apenas parte do financiamento que a rede de vídeos viabiliza, já que o YouTube funciona como uma porta de entrada para outras plataformas — por vezes, ainda mais radicalizadas e com ainda menos mecanismos de controle, como canais no Telegram — articulando formas alternativas como a venda de produtos e serviços.

Conclusão

A capacidade de geração de renda com conteúdos misóginos nas mídias digitais revela como o discurso de ódio contra mulheres é facilmente capitalizado. As plataformas digitais lucram com conteúdos polêmicos e com alto engajamento por meio de anúncios, sistema de assinaturas, doações em transmissões ao vivo, entre outras formas.

No campo político brasileiro, a misoginia e o discurso em oposição à igualdade de gênero encontram espaço para ecoar mentiras e desinformação, sobretudo no ambiente digital, com o intuito de minar o debate público sobre direito das mulheres e frear avanços contra a violência de gênero.

Conforme repercutido pelo Bereia, em checagens sobre número de feminicídios, Lei da Misoginia e abordagem da cultura incel em produção audiovisual de grande repercussão, mídias noticiosas e políticos com identidade religiosa propagam discurso desinformativo acerca desses temas nas mídias digitais. 

As publicações têm aderência em um contexto de polarização e valorização do discurso de ódio pelas big techs que não combatem, mas impulsionam este tipo de conteúdo nas plataformas digitais por meio de algoritmos. Responsabilizar, denunciar, fiscalizar e penalizar estas empresas é necessário para que ambientes digitais não se tornem espaços de livre circulação de conteúdos discriminatórios.

É fundamental que o combate à misoginia e a defesa dos direitos das mulheres sejam um compromisso de toda a sociedade, e que os ataques às mulheres sejam coibidos por meio de iniciativas de letramento de mídia, com especial atenção ao público masculino jovem, grande consumidor de conteúdos desse ecossistema.

Considerando que a machosfera opera como uma rede que captura homens atravessados pelas contradições do machismo e que se sentem afetados pelo avanço das conquistas das mulheres, é imprescindível promover ações de educação voltadas à desmistificação de estereótipos de gênero, o diálogo sobre as transformações sociais relacionadas aos papéis de gênero e a ampliação dos espaços de discussão sobre masculinidade.

Especialmente em um contexto de conteúdos impulsionados pela lógica de engajamento das plataformas digitais, é necessário refletir sobre o papel da imprensa e do debate público, com o devido compromisso informativo, educativo e de combate à desinformação no enfrentamento à discriminação de gênero, à violência contra mulher e à naturalização de discursos misóginos.

Referências:

Observatório da Imprensa

https://www.observatoriodaimprensa.com.br/jornalismo/nem-todo-debate-informa-quando-a-visibilidade-ocupa-o-lugar-do-repertorio/?fbclid=PAZnRzaAR9HbxleHRuA2FlbQIxMQBzcnRjBmFwcF9pZA8xMjQwMjQ1NzQyODc0MTQAAacJTbq4J_Jlq-O7KyzS6GjsI4R7P1oQcCXdrfytH58p7v9QCfLvpOncQ0zt6Q_aem_Q0jZyTzTdHRZaEWnssuM_Q 24 MAI 26

Coletivo Bereia

https://coletivobereia.com.br/pela-liberdade-de-expressar-aversao-a-mulheres-lei-da-misoginia-aprovada-no-senado-e-alvo-de-mentiras-e-circula-entre-religiosos/ 25 MAI 26

https://coletivobereia.com.br/deputada-federal-catolica-compartilha-informacao-enganosa-sobre-serie-adolescencia/ 25 MAI 26

https://coletivobereia.com.br/politicos-e-midias-noticiosas-usam-recorde-de-feminicidios-para-desinformar/ 27 MAI 26

ONU Mulheres

https://www.onumulheres.org.br/noticias/o-que-e-a-machosfera-e-por-que-devemos-nos-preocupar/ 27 MAI 26

Equimundo

https://www.equimundo.org/resources/men-and-gender-equality-a-global-status-report-in-15-headlines/  27MAI 26

He For She

https://www.teamlewis.com/heforshe/ 27 MAI 26

Jornal da USP

https://jornal.usp.br/articulistas/gaudencio-torquato/geracao-z-entre-o-desencanto-e-a-busca-por-sentido/ 27 MAI 26

NetLab

https://netlab.eco.ufrj.br/post/aprenda-a-evitar-esse-tipo-de-mulher-estrat%C3%A9gias-discursivas-e-monetiza%C3%A7%C3%A3o-da-misoginia-no-yout 28 MAI 26

Foto de capa: Unsplash