“Auê”: uma canção evangélica desafia a cultura gospel e se torna alvo de mentiras

Nos últimos dias, a cena musical gospel brasileira foi sacudida por uma intensa controvérsia envolvendo a canção “Auê (A fé ganhou)” do Coletivo Candieiro. O Bereia verificou que a música se tornou centro de uma intensa onda de ataques e desinformação em plataformas como Instagram, TikTok e X (antigo Twitter). 

A produção, que integra o projeto audiovisual “O Grande Banquete”, gravado ao vivo em João Pessoa (PB), tem sido alvo de perfis de identidade religiosa conservadora que classificam a composição como “macumba gospel”, “invocação de demônios” e acusam seus autores de serem “servos de Satanás”. Bereia buscou informações em torno da produção, da identidade do grupo musical e confrontou críticas com ataques de violência verbal que circulam no ambiente digital.

A produção “O Grande Banquete” e a canção “Auê”

A música “Auê” faz parte do álbum “O Grande Banquete”, lançado no início deste 2026 pelo pastor e cantor Marco Telles, em parceria com o Coletivo Candieiro. Os compositores explicam que o álbum é concebido como um “sermão musical”, uma experiência sonora contínua composta por nove faixas que exploram a temática da hospitalidade divina e a inclusão dos “improváveis” no banquete do Reino de Deus. 

Ritmicamente, “Auê” é uma fusão de elementos da música popular brasileira, com forte presença da ciranda, do samba e de percussões nordestinas. A letra utiliza termos do cotidiano brasileiro para ilustrar a alegria da fé. A polêmica concentra-se em trechos como:

“Agora que o Zé entrou, e todo mundo viu / (…) Agora que a fé ganhou, e a Maria sambou / Sua saia balançou, alguém se incomodou”.

O que é o Coletivo Candieiro?

O Coletivo Candieiro não é uma banda vinculada a uma única denominação, mas o selo de um movimento de artistas cristãos, majoritariamente do nordeste do país, fundado por volta de 2019. O grupo é liderado por Marco Telles, que também é pastor da Igreja Luzeiro, em João Pessoa (PB). O propósito do coletivo, conforme manifesto publicado em seu site oficial e em entrevistas a veículos como Ultimato e Apenas Música, é “ecoar a voz e o canto da regionalidade com sotaque”, rompendo com a estética homogeneizada da indústria gospel do Sudeste. O grupo defende a “teologia da cultura”, buscando expressar a fé cristã através das linguagens e ritmos brasileiros, combatendo o que chamam de “elitismo litúrgico”.

Desinformação e ataques

As publicações verificadas pelo Bereia mostram que a polêmica não se restringe a uma mera divergência estética. Críticos, majoritariamente de vertentes teológicas e políticas mais conservadoras apontam para elementos na letra e no ritmo que, em sua visão, rompem com os padrões estabelecidos da música cristã. O uso da palavra “auê” – que significa barulho, agitação – e referências a figuras populares como “Zé” e “Maria”, além da incorporação de ritmos como ciranda e samba, foram interpretados por alguns como um perigoso flerte com o sincretismo religioso e uma diluição da pureza doutrinária cristã. 

A associação de “Maria sambou” com a figura de Maria Padilha, divindade de religiões de matriz africana, e a menção a “Zé” remetendo a Zé Pelintra, entidades afro-brasileiras, são exemplos das interpretações que alimentaram a controvérsia e causou repercussão negativa entre os mais conservadores agitando as redes sociais. Ouvidos pelo Bereia, os compositores Marco Telles e Filipe da Guia reafirmaram o que tem sido amplamente divulgado pelo grupo nas mídias sociais: que os nomes representam o “povo comum brasileiro” e que a intenção foi “representar o nosso povo e de forma nenhuma fazer alguma conexão ou associação a outra religião”.

A controvérsia, marcada inicialmente por estas interpretações, acabou sendo alimentada por desinformação. Alguns perfis publicaram vídeos da apresentação da música, com edições manipuladas, afirmando que a música conteria “mensagens subliminares” e que o ritmo de ciranda seria uma forma de “evocação espiritual não-cristã”.

Entre as mentiras levantadas na pesquisa do Bereia, destacam-se acusações de “satanismo” – postagens que classificam os integrantes como “intrusos do satanismo no meio evangélico”.

Imagem: reprodução/Youtube


Imagem: reprodução/Instagram

Imagem: reprodução/Instagram

Foram publicadas também afirmações de que o grupo estaria realizando um ritual sincrético oculto, com desconsideração ao histórico dos músicos e as explicações teológicas e poéticas que forneceram.

Apoios e defesa da pluralidade

Apesar dos ataques, o Coletivo Candieiro recebeu apoio de lideranças evangélicas de diferentes vínculos políticos e teológicos e de pessoas das igrejas, evidenciando que a aceitação da obra não está restrita a um único grupo.

Pastor Carlos Alberto Bezerra Jr.  Imagem: reprodução/Instagram

Pastor Alexandre Gonçalves. Imagem: reprodução/X

Pastor Luiz Sayão. Imagem: reprodução/Instagram

 

Pastor Kenner Terra. Imagem: reprodução/X

Sincretismo ou racismo religioso? A visão dos especialistas

Bereia ouviu o especialista em pluralismo religioso, pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, Prof. Dr. Cláudio Ribeiro sobre o caso. Para ele, a polêmica em torno da música está diretamente relacionada ao uso dos termos “Zé e Maria” como expressão do universo afro-brasileiro. Ele considera que essa controvérsia expõe uma dificuldade dos grupos evangélicos em lidar com elementos religiosos de matriz africana. Ribeiro é categórico ao afirmar:

“Quando as pessoas falam de sincretismo, elas estão escondendo o racismo que está dentro delas; elas não querem se misturar com elementos de outras religiões, em especial das comunidades negras. É um racismo religioso.”

Para o pesquisador, essa perspectiva lança luz sobre uma dimensão frequentemente ignorada no debate: o racismo religioso, onde a aversão a certas expressões culturais pode mascarar preconceitos mais profundos.

Já o músico Jorge Camargo, com uma trajetória sólida de 45 anos na cena musical evangélica, também ouvido pelo Bereia, destaca que a letra que menciona “a Maria sambou e o céu se abriu” gera desconforto por associar o samba ao ambiente de adoração. 

Para Camargo, essa é uma discussão antiga, pois “em nossas liturgias, a presença do corpo ou de danças sempre foi muito rechaçada sobre o argumento de que isso possa sensualizar ou carnalizar as nossas expressões de louvor e tudo mais.”  O músico defende que a dança deveria ter mais espaço, criticando a superficialidade ou os “cuidados excessivos” que cercam essa expressão, como se a carnalidade estivesse presente apenas nas manifestações artísticas culturais e não no “labor teológico, no labor da pregação”. 

Músico Jorge Camargo. Imagem: reprodução/Instagram

Camargo traça um paralelo histórico, lembrando que a figura do artista e do músico no Brasil, desde o início do século 20, foi muitas vezes associada ao “boêmio e que não gostasse de trabalhar”. Para ele, a reação a “Auê” é um “filme antigo” que se repete:

“Nada muda desde a década de 80, a arte chamada secular contaminando a arte cristã para os tradicionais.

No seu ponto de vista, o que está acontecendo com a canção ‘Auê’ parece mais do mesmo, parece a reprodução de um filme antigo; onde muda-se as personagens, muda-se o tema, o roteiro, mas a essência é a mesma. Esse misto de ignorância e, hoje com o advento das mídias sociais, também um componente de maldade e de agressividade gratuito.”

O que dizem os compositores de “Auê”

Em entrevista ao Bereia, o diretor criativo do Coletivo Candieiro e um dos compositores da canção pastor Marco Telles, oferece uma avaliação sobre o impacto de “Auê”. Ele acredita que o “burburinho” causado pela música no contexto das igrejas evangélicas se deve a um distanciamento da própria cultura brasileira:

“Acho que essa música causou tanto burburinho na igreja porque a igreja tem demonstrado um imenso afastamento de sua própria cultura, de seus traços mais elementares, dos seus símbolos de identificação própria. Como a música AUÊ resgata alguns dos símbolos e traços culturais do Brasil, isso soa estranho para a igreja.”

Essa avaliação sugere que a estranheza não reside na música em si, mas na desconexão de parte do evangelicalismo com as raízes culturais do país, preferindo modelos importados que, por vezes, não dialogam com a realidade local.

“Quando eu e Filipe estávamos compondo essa canção a gente só pensava na alegria de representar o povo brasileiro entrando na festa de Deus. A gente só queria representar que essa festa de Deus é um banquete para os improváveis, é uma festa que acolheu tanta gente diferente no mundo, tanta gente diminuta, tanta gente periférica e entre esses estamos nós os latino-americanos, que estamos na parte sul do globo e que historicamente estamos sempre submetidos a tanta exploração e tantas guerras culturais.

A gente agora tem a possibilidade de se ver na festa de Deus, de se ver na obra de Cristo, de se encontrar na obra de Cristo. Nossa única intenção foi representar o nosso povo e de forma nenhuma fazer alguma conexão ou associação a outra religião” destaca Telles.

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A partir desta apuração, Bereia avalia que “Auê” do Coletivo Candieiro, mais do que uma simples canção, tornou-se um catalisador para debates urgentes e necessários para o campo religioso. A controvérsia em torno da letra e do ritmo da canção não apenas expõe as tensões entre religião  e cultura musical, mas também revela questões mais profundas relacionadas à identidade cultural, ao racismo religioso e à forma como a fé se expressa em um contexto tão plural como o Brasil. 

A música, ao resgatar símbolos e traços culturais nacionais, força as igrejas e suas lideranças a confrontarem seu próprio espelho, questionando até que ponto estão dispostas a abraçar a riqueza da cultura brasileira sem cair em preconceitos ou em uma ditadura do mercado gospel”  que marginaliza expressões autênticas de fé. O “auê” gerado pela canção é, em última instância, um convite à reflexão sobre o futuro de uma fé que busca ser relevante e encarnada em seu próprio “chão”.

As críticas resultam de interpretações subjetivas e preconceitos culturais (racismo religioso) contra ritmos e termos da cultura popular brasileira. A verificação mostra que o Coletivo Candieiro possui fundamentação teórica e teológica para sua produção, e que as acusações de “invocação de demônios” são FALSAS pois carecem de base factual, servindo para alimentar o pânico religioso e a perseguição a artistas que buscam inovar na estética cristã nacional.

Referências

https://www.apenasmusica.com.br/entrevista/por-um-canto-com-sotaque-am-entrevista-coletivo-candiero Acesso em 10 fev 2026

https://www.ultimato.com.br/conteudo/colcha-de-retalhos-coletivo-candiero Acesso em 10 fev 2026

https://comunhao.com.br/musicas-gospel-au-e-controversia-entre-evangelicos/ Acesso em 10 fev 2026

https://www.instagram.com/reel/DUV_1sIEb1t/?igsh=Y3preGQycTM5emZu Acesso em 10 fev 2026

https://www.instagram.com/p/DUbhCw9Accz/?igsh=NmIwanl3bDFkMno2 Acesso em 10 fev 2026

https://x.com/pr_alexandregon/status/2019001176604152307?s=46 Acesso em 10 fev 2026

https://www.instagram.com/reel/DURuy-DDlCh/?igsh=MXYxYXFrNWRzam45dQ== Acesso em 10 fev 2026

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