Suspeita de financiamento irregular na campanha do PL à Presidência envolve EUA e fazendas de IA

Circula no debate eleitoral a informação de que a campanha do candidato do Partido Liberal (PL) à Presidência da República Flávio Bolsonaro recebeu dinheiro da Rockbridge Network. A organização atua para financiamento político a partir dos Estados Unidos e foi fundada pelo vice-presidente daquele país James David Vance, que também preside o Senado dos Estados Unidos. 

A denúncia foi feita pelo candidato à Presidência da República Renan Santos (Missão) e ganhou repercussão neste setembro, em meio a uma eleição marcada pelo crescimento de anúncios pagos contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e por fazendas de conteúdo com inteligência artificial (IA) ligadas a apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O Bereia verificou o que está documentado, o que a lei proíbe e o que continua sem comprovação, para oferecer a leitores e leitoras um alerta sobre a manipulação de conteúdo em prol de determinadas campanhas eleitorais.

A denúncia e suas origens

Em 5 de setembro passado, durante discurso de campanha no Ceará, Renan Santos afirmou que a Rockbridge “entrou na campanha” de Flávio Bolsonaro e que os empresários Tallis Gomes e Pedro Sang seriam representantes da organização no Brasil e intermediariam os fundos de apoio. 

No seu perfil no Instagram, Tallis Gomes se define como “empreendedor serial, founder e presidente” da G4 Business. Pedro Sang é um empresário carioca proprietário da  operadora Sng Travel Turismo e da Sng Consult Empresarial. De acordo com Renan Santos, antes do apoio ao senador do PL, o grupo teria tentado apoiar o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos). Em outras apresentações públicas, Renan Santos repetiu a denúncia e alegou interferência interferência do governo de Donald Trump nas eleições brasileiras.

Os dois empresários acusados por Renan Santos negam o envolvimento. Tallis Gomes classificou a acusação de “cortina de fumaça” e afirmou que processará o candidato do Missão. Pedro Sang negou categoricamente as acusações e afirmou que os contatos com o grupo norte-americano se limitaram a sondagens para possíveis investimentos em tecnologia no Brasil. 

Segundo Sang, os planos foram totalmente abandonados, em maio de 2026, devido ao cenário político delicado do país, o empresário assegurou que “nunca houve nenhum centavo transacionado, nem para virar membro nem para nenhum projeto da Rockbridge, zero, zero”.

Os fatos documentados

A cronologia da denúncia começa no portal Amado Mundo: o jornalista Guilherme Amado revelou que Pedro Sang atuava dentro do comitê de campanha de Flávio Bolsonaro em São Paulo, em um casarão na Avenida República do Líbano, perto do Parque Ibirapuera. Pessoas com acesso à campanha relataram que ele se apresentava como “Pedro da Rockbridge”, usava uma sala no segundo andar, ajudou na montagem da estrutura do local e mantinha contato com integrantes do núcleo eleitoral, como o profissional de marketing Duda Lima. Em nota ao Amado Mundo, ele disse acompanhar a campanha “como cidadão preocupado com o futuro do meu país” e negou qualquer financiamento.

Somou-se a isso a divulgação de um memorando intitulado Prosperity Partnership, escrito em inglês por André Marinho, candidato do Partido Novo ao governo do Rio, que traz na capa o nome de Flávio Bolsonaro e oferece um Brazil integrado a uma cadeia estratégica e independente da China. Marinho assumiu a autoria do documento de 22 páginas, que foi publicado em 19 de março de 2026 e afirmou que a iniciativa foi pessoal e sem relação com a campanha. 

Porém, nove dias depois, em 28 de março, Flávio Bolsonaro subiu ao palco da Conservative Political Action Conference (CPAC), em Dallas, nos Estados Unidos, para apresentar o Brasil como a solução para o país reduzir sua dependência da China em minerais críticos, especialmente terras raras. O documento propõe parceria com os Estados Unidos para exploração de minerais críticos e terras raras, com projeção de US$ 50 bilhões a US$ 100 bilhões em investimentos.

Após a publicação do Amado Mundo, em 11 de setembro passado, Tallis Gomes protocolou notícia-crime, ou seja a comunicação formal do crime, contra Renan dos Santos, na Justiça Eleitoral do Ceará (83ª Zona Eleitoral de Fortaleza). O documento acusa o candidato do Missão por calúnia, difamação e injúria eleitoral, além de ameaça, pelo discurso de 5 de setembro e por Renan ter compartilhado imagem segurando arma. 

Após a denúncia, entre 11 e 13 de setembro, o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) protocolou uma notícia de fato com pedido de inquérito. O mesmo pedido foi replicado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), na Polícia Federal (PF) e na Procuradoria Geral da República. Foram solicitadas quebras de sigilo bancário, fiscal e telemático, busca e apreensão e cooperação internacional.

Mais recentemente, o PT recorreu novamente ao Supremo Tribunal Federal (ADPF 1178, sob relatoria do ministro Flávio Dino) e pediu medidas urgentes: abertura de inquérito pela PF, preservação de arquivos e contratos, coleta de depoimentos, análise contábil e cooperação internacional, além de mencionar o comitê de Flávio Bolsonaro e a sede nacional do PL como alvos de busca.

A coligação “Brasil Pronto Pra Mais”, em torno da campanha pela reeleição do presidente Lula,  apresentou, no TSE, uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) contra Flávio Bolsonaro e o candidato a vice Alfredo Gaspar e contra o deputado cassado do PL-SP, que vive nos EUA, Eduardo Bolsonaro, por abuso de poder econômico e político e uso indevido dos meios de comunicação. Se reconhecida, a ação pode levar à cassação dos registros e diplomas e à inelegibilidade por oito anos.

O que a lei diz e o que falta?

A legislação eleitoral brasileira veda doações de entidades ou governos estrangeiros a partidos e candidatos (Lei 9.504/97). O advogado especialista em direito eleitoral Fernando Neisser deu declarações à Agência Pública, em 14 de setembro: a entrada de recursos internacionais em campanha “é absolutamente proibida”, afirmou. Se comprovada, a conduta constitui abuso de poder econômico e pode levar a ação de investigação judicial eleitoral no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com cassação do registro, do diploma ou do mandato e inelegibilidade de oito anos. Pagamentos feitos por fora da campanha, acrescentou, podem configurar caixa 2.

“É uma grave irregularidade, constitui abuso de poder econômico, que, se for comprovado, levaria à instauração de uma ação de investigação judicial eleitoral perante o TSE e a condenação levaria à cassação do registro, do diploma ou do mandato, caso seja vencedor além de acarretar a inelegibilidade de oito anos.”

O PT protocolou pedido de abertura de inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF), além de representações no TSE, na Polícia Federal e na Procuradoria-Geral da República, citando Gomes e Sang como possíveis intermediários e pedindo quebras de sigilo e cooperação internacional. Até o fechamento desta matéria, nenhuma das autoridades havia confirmado a existência de transferência de recursos, como escreveu a Agência Pública em reportagem sobre o caso, “ainda não há provas de que isso tenha de fato acontecido”.

O cenário dos anúncios pagos e as fazendas de IA

A denúncia de um possível financiamento irregular da campanha de Flávio Bolsonaro por uma organização dos EUA, corre em paralelo ao suspeito crescimento da propaganda paga contra Lula. Levantamento do ICL Notícias, na biblioteca de anúncios da Meta, mostra que o gasto diário declarado com peças de anúncios contra o presidente e o governo subiram 123% em setembro, de R$ 15,4 mil para R$ 34,5 mil ao dia, e que as referências ao STF e ao ministro da Corte Alexandre de Moraes passaram de 3,3% para 14%.

Monitoramento do jornal O Estado de São Paulo contabilizou 5.677 anúncios relacionados ao STF e a ministros desde 16 de agosto, com gastos de até R$ 2,9 milhões, 74% deles em tom crítico à Corte. As metodologias de apuração do ICL e do Estadão diferem, mas apontam os mesmos resultados que explicitam o crescimento do gasto em anúncios contra o governo Lula e o STF.

Relacionado ao aumento dos gastos em mídia paga eleitoral, outro vetor da campanha digital contra o governo atual é a produção em escala de conteúdo com IA. O relatório “Produção em escala: fazendas de conteúdo com IA no Instagram nas eleições de 2026”, do Instituto Democracia em Xeque, obtido pelo Aos Fatos, identificou uma estrutura de 255 perfis que publicaram ou coassinaram 1.204 publicações, com 58 milhões de visualizações entre 15 de agosto e 15 de setembro. Essa estrutura compartilha audiência por meio de publicações colaborativas. 

No principal núcleo, em torno da página @narrativascuriosastv, estava @leoindiobolsonaro, perfil de Leonardo Rodrigues de Jesus, o Léo Índio, primo de Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro, foragido em investigação sobre a tentativa de golpe de Estado. As contas divulgavam um curso de R$ 167 que ensina a criar vídeos virais e a remover a marca d’água de conteúdos sintéticos. Flávio Bolsonaro  é o político mais citado nas legendas (34 publicações). O relatório, porém, não atribui aos políticos ou partidos a administração ou a coordenação das contas.

Além do candidato à Presidência da República pelo PL, o ministro do STF André Mendonça aparece em destaque entre os perfis, foram identificados 24 contas dedicadas a ele no Instagram, somando 5,6 milhões de seguidores até 16 de setembro.

  • Doze desses perfis existiam antes da crise entre ministros do STF destes setembro e apenas trocaram de nome; ao menos dois foram convertidos neste mês, após o estopim do caso Master.
  • @andremendoncas2, o maior deles, foi criado em novembro de 2024, mudou de nome oito vezes, recebeu selo de verificação em agosto e antes publicava conteúdo religioso, anti-LGBTQIA+ e sobre futebol. Não tem qualquer publicação anterior a setembro de 2026.
  • @andremendoncas3 foi criado em abril, mudou de nome duas vezes e realizou as primeiras publicações em 5 e 7 de setembro.
  • Amplificação articulada: @nikolasferreiradms3, que usa nome e imagem do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), convocou seguidores a seguir a @andremendoncas2; publicações idênticas e convocações para transferir audiência foram distribuídas por vários perfis, inclusive um que anunciou “240 mil seguidores em 24 horas”.

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Não há, até este momento, comprovação de transferência de recursos estrangeiros à campanha de Flávio Bolsonaro. Os fatos documentados desde a atuação de Sang na estrutura do comitê, o memorando estratégico com o nome do candidato e as viagens aos Estados Unidos são verdadeiros, mas não confirmam o repasse de dinheiro. Por isso, o Bereia classifica a denúncia como inconclusiva, uma vez que as evidências reunidas não permitem confirmar nem descartar a informação apurada. 

Bereia seguirá acompanhando as investigações, além da repercussão das fazendas de IA e atualizações referentes aos anúncios realizados durante a campanha eleitoral da Meta antes de compartilhar conteúdos políticos.

Referências:

AGÊNCIA PÚBLICA. Financiamento de grupo ligado a J. D. Vance pode ser maior escândalo da eleição. 14 set. 2026. Disponível em: https://apublica.org/2026/09/financiamento-de-grupo-ligado-a-j-d-vance-pode-ser-maior-escandalo-da-eleicao/. Acesso em: 24 set. 2026.

AMADO MUNDO. Disponível em: https://amadomundo.com/o-plano-de-flavio-para-alianca-com-eua-por-terras-raras/. Acesso em: 24 set. 2026.

ICL NOTÍCIAS. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/gastos-com-anuncios-na-meta-contra-lula/. Acesso em: 24 set. 2026.

AOS FATOS. Bolsonaristas capturam perfis nas redes para inflar apoio religioso a Mendonça. 16 set. 2026. Disponível em: https://www.aosfatos.org/noticias/bolsonaristas-capturam-perfis-inflar-apoio-religioso-mendonca. Acesso em: 25 set. 2026.

AOS FATOS. Perfis reciclados e números inflados manipulam apoio político nas redes. 18 set. 2026. Disponível em: https://www.aosfatos.org/noticias/perfis-reciclados-numeros-inflados-apoio-politico-redes. Acesso em: 25 set. 2026.

AOS FATOS. Fazendas de IA inflam pauta da extrema direita com 255 perfis e mais de mil posts. 23 set. 2026. Disponível em: https://www.aosfatos.org/noticias/fazendas-de-ia-inflam-pauta-da-extrema-direita-com-255-perfis-e-mais-de-mil-posts/. Acesso em: 25 set. 2026.

INSTITUTO DEMOCRACIA EM XEQUE. Produção em escala: fazendas de conteúdo com IA no Instagram nas eleições de 2026. 2026. (Relatório obtido pelo Aos Fatos.)

NÚCLEO JORNALISMO. Republicação: Bolsonaristas capturam perfis nas redes para inflar apoio religioso a Mendonça. 16 set. 2026. Disponível em: https://nucleo.jor.br/republicacao/2026/09/16/bolsonaristas-capturam-perfis-nas-redes-para-inflar-apoio-religioso-a-mendonca. Acesso em: 25 set. 2026.

NÚCLEO JORNALISMO. Republicação: Fazendas de IA inflam pauta da extrema direita. 23 set. 2026. Disponível em: https://nucleo.jor.br/republicacao/2026/09/23/fazendas-de-ia-extrema-direita. Acesso em: 25 set. 2026. (Os mesmos textos foram republicados também pela Agência Pública.)

THE NEW YORK TIMES. Disponível em: https://www.nytimes.com/2024/11/20/us/politics/rockbridge-trump-vance-wiles.html. Acesso em: 24 set. 2026.

THE NEW YORK TIMES. Disponível em: https://www.nytimes.com/2024/10/30/us/politics/jd-vance-rockbridge-donors.html. Acesso em: 24 set. 2026.

REUTERS. Disponível em: https://www.reuters.com/world/us/tech-donor-network-co-founded-by-jd-vance-seeks-push-america-right-2024-08-20/. Acesso em: 24 set. 2026.

THE WASHINGTON POST. Disponível em: https://www.washingtonpost.com/technology/2025/11/04/chris-buskirk-maga-vance-post-trump/. Acesso em: 24 set. 2026.

ESTADO DE MINAS. Renan Santos acusa campanha de Flávio Bolsonaro de receber dinheiro trumpista. Disponível em: https://www.em.com.br/politica/2026/09/7498373-renan-santos-acusa-campanha-de-flavio-bolsonaro-de-receber-dinheiro-trumpista.html. Acesso em: 24 set. 2026.

ESTADO DE MINAS. Prosperity Partnership: entenda a polêmica envolvendo André Marinho, terras raras e os EUA. Disponível em: https://www.em.com.br/nacional/2026/09/7499913-prosperity-partnership-entenda-a-polemica-envolvendo-andre-marinho-terras-raras-e-os-eua.html. Acesso em: 24 set. 2026.

O GLOBO (Blog da Bela Megale). PT pede ao STF investigação de possível financiamento de organização trumpista para Flávio Bolsonaro. Disponível em: https://oglobo.globo.com/blogs/bela-megale/post/2026/09/pt-pede-ao-stf-investigacao-de-possivel-financiamento-de-organizacao-trumpista-para-flavio-bolsonaro.ghtml. Acesso em: 24 set. 2026.

Jornal da Record
https://www.youtube.com/watch?v=Q67AFy-ElQY Acesso em 28 set 2026

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