Os museus, as fake news e o silêncio

Os museus, as universidades e as leis de fomento à cultura têm sido motivo para discussões e servido de munição para geração de fake news, conforme pesquisa realizada pelo LavMUSEU/UFMG. Nos casos das últimas exposições consideradas polêmicas, chamou a atenção o fato de o debate relevante sobre o papel da arte e dos museus ter-se dado nos porões dos grupos privados das redes sociais, no sigilo do inbox, longe dos principais veículos de comunicação.

A exposição acrescenta algo ao debate ou é mais do mesmo? Qual a contribuição do discurso, da expografia e da estética das obras para o campo artístico e para a reflexão de assuntos relevantes na contemporaneidade? Essas perguntas, entre outras, emergiram ao largo das polêmicas, restritas aos fóruns fechados de profissionais, ao círculo dos iniciados. Não obstante nossas respostas eventualmente divergentes para cada uma dessas indagações, ninguém (ou quase ninguém) da área cultural queria pôr lenha na fogueira e dar argumento ao opositor. Tínhamos praticamente um consenso, um inimigo em comum. E esse inimigo se chamava censura.

E assim, sob a cortina de fumaça dessas polêmicas, do aviltamento da liberdade de expressão, pouco se debateu sobre questões igualmente relevantes para a cultura e para a sociedade. Esse silenciamento é, em parte, também consequência das fake news. No lugar do diálogo saudável, reinou o espetaculoso imaginário, as notícias falsas, o bate-boca sem embasamento, a agressividade daqueles que, não raro, sequer têm o hábito de frequentar museus. Daqueles que desconhecem o velho clichê: não defender necessariamente o que o outro diz, mas a liberdade de dizê-lo. Ou recorrendo à acidez sem eufemismos de Comte-Sponville: “Cada um tem a estética que merece”. O caso é que gosto se discute, exceto quando o mais importante é garantir princípios essenciais, como a democracia e os direitos humanos. Aí prescindimos das demais reflexões para tentar livrar nossas instituições culturais das garras do cerceamento e da ignorância.

Combater as notícias falsas e reparar os danos causados pela explosão virtual são tarefas ingratas, mas temos de tentar assim mesmo. Um primeiro público que precisamos alcançar é formado pelos próprios frequentadores de museus, e essa tarefa deve começar pelo estabelecimento efetivo de diálogo com esses usuários, ampliando ainda a presença da instituição nas mídias digitais. Passa pelo desenvolvimento de sites e blogs de museus atraentes, funcionais, transparentes e completos, nos quais constem não somente os sucessos, mas também os fracassos da instituição, como suas tentativas frustradas de captação de recursos.

Precisamos falar abertamente sobre nossas dificuldades, para que os amantes do conhecimento e os visitantes assíduos se manifestem em prol da sobrevivência dos nossos museus. As paredes dos museus escondem o lado “profano” da arte, como diria Boris Groys. Suas coleções on-line e sites acabam por seguir essa mesma tendência que, se por um lado encanta o fruidor, por outro contribui para a desinformação acerca do cotidiano das instituições culturais, com seus desafios diários e orçamentos escassos.  

É preciso, portanto, atrair e mapear frequentadores e profissionais bem informados e engajados na causa cultural, potenciais ativistas digitais, que podem ser alcançados por meio das redes sociais institucionais, do marketing digital, do SEO (otimização para mecanismos de busca), da Web Semântica, da formação de bancos de e-mails de usuários, da produção de conteúdo sempre renovado e dinâmico para os blogs e sites de museus.

Esse conteúdo tem suas demandas peculiares: não lemos na tela como o fazemos no papel. Assim como não é adequado afixar nas exposições textos escritos para catálogos e livros, não devemos descolar as letras das paredes e jogá-las inadvertidamente nas páginas digitais. O veículo afeta o teor da mensagem, pelo menos o modo como é compreendida. Museólogos, curadores, historiadores, jornalistas e demais escritores do campo cultural precisam aprender novas habilidades, como redigir para as mídias sociais (a exemplo de técnicas de webwriting e UX writing).

Por fim, mas não menos importante, deve-se exigir que os meios de comunicação, ao menos aqueles com algum respeito à ética jornalística, publiquem na íntegra notas e cartas oficiais dos museus sobre temas polêmicos. É fundamental que as assessorias de comunicação utilizem esse recurso crucial: “pegar carona” nos cliques e compartilhamentos de cada reportagem sobre o museu, apresentando a versão oficial da instituição e dando voz ao contraditório. Jornais, agências de checagem de fatos e blogs sérios costumam ser sensíveis a esse direito, e essas publicações ainda são bastante difundidas, como revelam nossos levantamentos.

É urgente que os museus, a academia e a imprensa cultural reajam com mais propriedade a essa avalanche de desinformação que nos toma de assalto, antes que sejamos engolidos pela revolução digital, que não respeita o tempo individual de adaptação, que não espera os retardatários. Antes que sejamos derrotados pela nossa resistência ao inevitável: vivemos em um mundo digital. Nesse ritmo, corremos sérios riscos de sermos soterrados pelos gritos cada vez mais altos das fake news. Aos “vencedores”, o nosso silêncio? Sabemos que a luta virtual é árdua e, em alguns casos, inglória, mas simplesmente não podemos nos omitir.

Baixe o relatório da pesquisa: https://www.lavmuseu.org/fakenews/

Publicado originalmente no Boletim UFMG, n. 2044 de dezembro de 2018

Ana Cecília Rocha Veiga

Posted by Ana Cecília Rocha Veiga

Graduada em Arquitetura e Urbanismo, com doutorado em Arte e Tecnologia da Imagem pela Escola de Belas Artes (UFMG). Professora adjunta da Universidade Federal de Minas Gerais - Departamento de Teoria e Gestão da Informação da Escola de Ciência da Informação. Membro do ICOM (International Council of Museums).