
Um episódio de intolerância religiosa registrado em cerimônia de batismo infantil na Igreja Católica, no bairro do Leblon, Zona Sul do Rio de Janeiro, ganhou destaque no noticiário e viralizou nas redes digitais nesta última semana de agosto. O ato religioso, que deveria representar um momento de celebração e união familiar, acabou marcado por constrangimento.
A família da bebê Yaminah afirma que o padre responsável pela celebração, se recusou a pronunciar o nome da criança durante o ritual, ao alegar que estaria relacionado a outro culto religioso. A família registrou queixa na Delegacia de Crimes Raciais e Delitosde Intolerância. Bereia verificou a veracidade das informações.
O caso
Segundo os pais, David Fernandes e Marcelle Turan, toda a preparação para o batismo católico da filha foi realizada com antecedência. O impasse teria surgido minutos antes da cerimônia, quando o padre Wagner Augusto, vigário da Paróquia Santos Anjos, chamou a avó paterna da menina e informou que não pronunciaria o nome da criança no ritual por considerá-lo “não cristão”.
“O padre chamou a minha sogra antes de começar o batismo e falou que não falaria o nome da nossa filha porque não era um nome cristão. Fomos conversar com ele na sacristia e ele repetiu que o nome estava ligado a um culto religioso e, por isso, não o pronunciaria. Ele sugeriu “Maria” antes do nome, mas não aceitamos” contou Marcelle Turan, em entrevista ao G1.
Durante o rito, a família afirma que o padre se referiu a Yaminah apenas como “a criança”, e evitava citar seu nome em todos os momentos da celebração.

Imagem: Recorte de um vídeo feito pela família durante a celebração. Reprodução: G1
No instante mais simbólico do rito, quando a água é derramada sobre a cabeça e o celebrante anuncia o nome da batizanda, o padre também deixou de mencionar o nome.

Imagem: Cerimônia de batismo da criança em uma igreja católica no Leblon, RJ. Reprodução: Metrópoles
Em vídeo registrado por uma tia há o momento em que a família solicita que o nome de Yaminah seja dito. Nas imagens, o religioso responde que “já havia falado”.
Os pais ressaltam que a escolha do nome tem valor afetivo e simbólico. Para eles, Yaminah, de origem árabe, representa justiça, prosperidade e direção, atributos considerados fortes e significativos. “É um nome bonito e importante para nós, não havia motivo para esse constrangimento”, afirmou a mãe da menina.
Há suspeita que o sacerdote católico tenha confundido o nome árabe Yaminhah com Yamins ou Iamins, termos de origem iorubá, associados a divindades femininas de tradições afro-brasileiras.
O Código de Direito Canônico, lei eclesiástica que rege a Igreja Católica, estabelece que, no sacramento do batismo, “os pais, padrinhos e párocos procurem não impor nomes alheios ao sentido cristão”.
Para o advogado da família, no entanto, não há fundamento para que o nome da criança seja considerado incompatível com a doutrina. “Sob nenhuma hipótese, sob nenhum tipo de interpretação, é possível entender que esse nome fira o preceito cristão. Muito pelo contrário: compreendemos que ele se alinha aos valores cristãos”, declarou Diogo Ferrari, que assumiu o caso em nome dos pais de Yaminah.
Origem do nome
Escolhido de forma cuidadosa pelos pais, o nome “Yaminah” tem origem árabe e deriva de Yameen, termo que significa “direita” ou “lado direito”, posição tradicionalmente associada a juramentos e votos solenes. Em culturas do Oriente Médio, o nome também é relacionado a vitória, boa sorte e força. Para a família, a recusa do padre em pronunciá-lo deixou uma marca negativa em um momento que deveria ser de celebração.
“Todos do lado paterno foram batizados nessa igreja. Planejamos tudo, enviamos os documentos e fizemos o curso de padrinhos. Não esperávamos passar por isso”, lamentou o pai da menina David Fernandes.
Com a queixa da família, a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) instaurou um inquérito para investigar a conduta do sacerdote como preconceito por raça, cor ou religião. A apuração segue sob sigilo.
Especialistas em religião afirmam que a escolha do nome não pode ser usada como impedimento para a realização do batismo. “Desde a década de 1980 não é obrigatório ter um nome de santo. Qualquer pessoa pode ser batizada com qualquer nome”, explica o professor de Ciências Sociais da Religião da Universidade Federal do Rio Janeiro (UFRJ) Rodrigo Toniol. De acordo com o pesquisador, sacerdotes podem até sugerir orientações pastorais sobre nomes, mas essas recomendações têm caráter apenas aconselhativo e não configuram motivo para negar o sacramento.
Em nota, a Arquidiocese do Rio declarou que repudia qualquer forma de discriminação e reafirmou o compromisso com o acolhimento, o diálogo e o respeito à diversidade cultural. A instituição informou ainda que o batismo em questão foi realizado conforme o ritual da liturgia católica para crianças e esclareceu que o nome não é citado em todos os momentos da celebração, mas em partes específicas do rito.
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Bereia classifica, portanto, as postagens e cortes de vídeo sobre o caso como verdadeiros, após verificação detalhada das informações disponíveis. A apuração confirmou que o padre se recusou a pronunciar o nome da criança durante o batismo, ao relacioná-la equivocadamente a outra religião, como registrado pela família, e que o episódio gerou constrangimento significativo. Especialistas em direito canônico e estudos da religião reforçam que o nome escolhido não constitui impedimento para a realização do sacramento, e indicam que a conduta do sacerdote não encontra respaldo nas normas da Igreja Católica.
Referências:
G1. https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/08/26/familia-diz-que-padre-se-recusou-a-falar-nome-de-crianca-durante-batismo-no-leblon.ghtml. Acesso em 28 de agosto de 2025.
O Globo. https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2025/08/27/familia-diz-que-padre-se-recusou-a-falar-nome-de-crianca-durante-batismo-no-leblon.ghtml. Acesso em 28 de agosto de 2025. Metrópoles. https://www.metropoles.com/brasil/familia-denuncia-padre-que-ignorou-nome-da-crianca-por-nao-ser-cristao. Acesso em 28 de agosto de 2025.