No primeiro pregão no dia seguinte à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência do Brasil, o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, a B3, despencou, fechando em 13,88%, aos 176.608 pontos. Foi a maior queda desde 16 de março de 2020, quando o indicador caiu 13,92%, em meio a chegada da pandemia de Covid-19 ao Brasil.
Logo nos primeiros minutos do pregão da segunda-feira, 26 de outubro, após atingir queda de 10%, a bolsa acionou o chamado circuit breaker, interrompendo os negócios como forma de controlar a situação. Mesmo assim, após a retomada o índice chegou a alcançar -17%, com leve recuperação até o fechamento em -13,92%. No dia seguinte, no pregão de terça-feira, 27 de outubro, a bolsa ainda fechou negativamente, em -0,51%, mas longe do índice recorde da véspera. Na tarde da quarta-feira, 28 de outubro, com o pregão ainda em aberto, o sinal continuava negativo, com queda de 2,78%.
Já o dólar chegou a valer R$ 5,60 na manhã de 26 de outubro, terminando o dia em R$ 5,40. A alta de 8% foi a maior desde janeiro de 1999. No dia seguinte, o dólar fechou em queda de 0,97%, a R$ 5,35. Na tarde de 28 de outubro, apresenta alta de 0,71%, sendo cotado a R$ 5,38.
Fé e economia
A situação foi o bastante para agitar o ambiente digital, inclusive de personalidades ligadas ao campo religioso. O coach Paulo Vieira, que é evangélico, com palestras na Igreja Batista da Lagoinha, aproveitou para postar em sua conta no Instagram um conteúdo sobre o “pânico generalizado”, para promover uma aula gratuita para que os seguidores não fiquem “à mercê do governo ou da Bolsa”.

Já o cantor evangélico Davi Sacer, derrotado nestas eleições na disputa por uma vaga de deputado federal por São Paulo pelo Partido Progressista (PP) foi ainda mais longe. Conforme divulgação do site de fofocas Fuxico Gospel em resposta a um post do jornalista e influenciador de direita Thiago Asmar, conhecido como “Pilhado” sobre a situação do mercado, Sacer comentou: “Espero que piore”. “Pilhado” previa que muitos eleitores de Lula perderiam seus empregos, e lamentava que mesmo quem votou “certo”, na sua visão, também pagaria por isso.

Pânico do mercado
O que explica essa oscilação abrupta dos mercados e esse cenário de “quanto pior, melhor”? Ao que parece, os movimentos foram uma reação à reeleição de Lula, já que o mercado contava com a vitória de Flávio Bolsonaro (PL). Operadores já agiam na especulação financeira, estimulados pelos anúncios de cortes no orçamento federal feitos por Bolsonaro, após largar na frente no primeiro turno. Surpreendidos pelo resultado de domingo, os operadores de ações correram no dia seguinte para reagir ao que esperam da política econômica e fiscal do presidente reeleito.
“O pânico do mercado foi em boa medida a reversão das posições e expectativas que eles projetaram sob a vitória de Flávio Bolsonaro. Ou seja, a frustração não das condições reais da economia, é só uma manobra especulativa nesse momento”, afirma a professora da Faculdade de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do Instituto Tricontinental Juliane Furno, em entrevista ao Bereia.
“A Bolsa reage ao humor do dia, a uma declaração que o mercado não gostou, a um dado dos EUA, e isso vira manchete. Mas esse indicador mede sobretudo o investimento de portfólio, a compra de ações e títulos, que parte importante pode ser capital de curto prazo, esse capital entra e sai rapidamente, em busca de ganhos financeiros e especulativos”, explica Juliane Furno.
A economista já havia abordado a reação do mercado após o resultado do primeiro turno. Na ocasião, o sentido foi o inverso do visto agora, com a Bolsa subindo 7,7% e o dólar caindo 4,1%. Em artigo para o The Intercept Brasil, Furno lembrou que, durante o governo Lula, o Ibovespa já vinha mostrando alta, tendo subido cerca de 34% em 2025, melhor resultado desde 2016. Já o dólar fechou em abril abaixo de cinco reais, após muitos anos acima desta marca.
“O que a alta desta semana revela não é alívio diante de uma economia ruim, mas a expectativa de ganhar ainda mais com um governo que eles consideram mais alinhado aos seus interesses”, apontou a professora.
Economia real
Porém, nem só de bolsa de valores vive a economia de um país. Durante a entrevista ao Bereia, Juliane Furno reforça a importância da atenção para a atividade empresarial e industrial, por exemplo, além do investimento estrangeiro direto. “O empresário não investe porque o salário está baixo, por exemplo, ele investe porque tem expectativa de que vai ter para quem vender, e o consumo das famílias é o principal componente da demanda no Brasil. Quando a renda real e o emprego crescem, as vendas sobem, as empresas passam a usar mais da capacidade que já têm e, quando ela chega perto do limite, ampliam o investimento real”, explica.
A professora da UFF acrescenta: “uma renda estável e em trajetória de elevação também reduz a inadimplência e dá previsibilidade para as empresas planejarem a expansão. Em síntese, eu acho que a sustentabilidade da atividade empresarial depende de um mercado interno forte.”
Sobre política industrial, Furno reforça que a importância do setor como indutor do avanço tecnológico é fundamental. “Houve um tempo em que falar em política industrial parecia falar um palavrão, só que todas as grandes economias estão fortalecendo suas políticas industriais, e parte disso é com crédito, inclusive amplamente subsidiado. No caso do Brasil, crédito direcionado e uma parte dele subsidiada é fundamental para financiar setores de maior conteúdo tecnológico e elevado risco que o mercado privado sozinho não financia, porque envolvem prazos longos e risco elevado”, ressalta.
A pesquisadora avalia que “uma política industrial bem desenhada, como eu acho que é a que estamos construindo no Brasil, é fundamental para ampliar investimentos em setores de vanguarda, como inovação, adensamento das cadeias produtivas, biodiversidade. Isso tem condições de gerar empregos mais qualificados e ganhos de produtividade que se espalham pela economia”.
Juliane Furno também lembra a importância do Brasil não ficar tão exposto a crises externas, como vem ocorrendo atualmente com as guerras na Ucrânia e Irã. “Se a base fundamental do que o Brasil exporta são commodities e que nós importamos são bens industriais ficamos à mercê dos preços internacionais e do câmbio. A pandemia mostrou isso, quando faltaram insumos básicos de saúde. Os países que se desenvolveram, dos Estados Unidos à Coreia do Sul e à China, todos usaram política industrial.”
Sobre um dos principais temores do mercado, a questão fiscal, Furno reforça a importância do crescimento econômico como forma de promover mais arrecadação. “Equilíbrio fiscal é importante, mas ele é resultado do crescimento, e não sua pré-condição. A arrecadação fiscal depende muita da atividade econômica, por isso quando a economia cresce, a receita cresce junto”, explica a pesquisadora.
O “tesouraço” tão aguardado pelo mercado pode não ser a melhor saída para a questão fiscal, segundo Juliane Furno. “Cortar investimento público, por exemplo, para fechar a conta costuma sair caro, porque esse é o gasto com maior efeito multiplicador. O investimento público gera emprego, puxa o investimento privado e amplia toda a capacidade produtiva do país. Parece parodoxal, mas se o investimento público é cortado, a economia desacelera, a arrecadação cai e a relação dívida/PIB pode até piorar, porque o denominador encolhe. Ou seja, reduzir o investimento público pode ampliar a proporção da dívida sob o PIB, e não ao contrário”, explica a economista.
Outras mentiras
Na esteira do pânico propagado sobre temas econômicos, não foi só a reação do mercado financeiro que virou objeto de discursos apelativos. Diversas desinformações vêm circulando, como mentiras sobre criação de impostos para uso Pix e cartão de crédito, aumento do Imposto de Renda, formalização obrigatória para prestadores de serviços e até de que adultos que moram com os pais seriam notificados pela Receita Federal.
A educadora financeira, fundadora e CEO da Nath Finanças Nathália Rodrigues de Oliveira, que oferece conteúdos sobre educação financeira voltados, sobretudo, para pessoas de baixa renda, produziu duas publicações em seu perfil no Instagram para confrontar os principais conteúdos falsos que vêm circulando sobre temas econômicos.
Sobre a criação de impostos, ela demonstrou que seis afirmações são falsas, uma exagerada e apenas uma verdadeira, sobre o imposto seletivo, que incidirá sobre produtos como bebidas e cigarro.

Já em relação a boatos sobre um possível recuo do fim da escala 6×1 e de que o Bolsa Família seria cortado, Nathália Oliveira esclarece que quatro afirmações são falsas, uma está fora de contexto, outra é enganosa e apenas uma é verdadeira, sobre o aumento do teto do Micro Empreendedor Individual (MEI).

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Como a proposta do Bereia sugere, em meio ao caos informacional a que a população é submetida, é importante “separar o joio e guardar o trigo”. Ao se deparar com conteúdos falsos e enganosos, de tom sensacionalista, e apelativo, é importante buscar fontes confiáveis que promovam o esclarecimento daquela informação antes de compartilhar com outras pessoas de forma impulsiva, incentivado pelo tom alarmista do conteúdo.
Referências:
Terra
Poder360
Nath Finanças, Instagram
https://www.instagram.com/p/DfAjFeeFihy/?img_index=19&obrf=aHZrYTM0cmNkdzNh Acesso em 28 out 2026


