
Manchetes publicadas após a deflagração da terceira fase da Operação Transparência, neste 14 de setembro, repercutiram a ação como uma iniciativa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino contra o deputado federal e pastor evangélico Cezinha de Madureira (PL-SP). A operação, no entanto, resulta de uma investigação conduzida pela Polícia Federal (PF) e de medidas judiciais determinadas no âmbito de um processo que tramita no STF, sob relatoria de Dino.
Cezinha de Madureira é um dos principais alvos da operação, que apura suspeitas de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. O Bereia verificou as informações e constatou que é enganosa a forma como parte das publicações apresenta a atuação de Flávio Dino ao personalizar no ministro uma ação decorrente de um processo que tramita institucionalmente no STF.
O que é a Operação Transparência 3?
A terceira fase da Operação Transparência foi deflagrada pela Polícia Federal para apurar possíveis crimes de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A ação é um desdobramento de uma investigação iniciada em dezembro de 2025 sobre possíveis irregularidades na destinação de emendas parlamentares. Quatro mandados de busca e apreensão, expedidos pelo STF, foram cumpridos no Distrito Federal e em São Paulo.
De acordo com a PF, a investigação aponta que integrantes do grupo teriam negociado com terceiros o pagamento de valores expressivos, condicionados ao resultado de processos judiciais, sob a alegação de que poderiam influenciar decisões. A corporação ressalta que não há elementos que indiquem a participação de integrantes do Poder Judiciário nos fatos apurados.
Entre os alvos está o deputado federal Cezinha de Madureira. Conforme informações da investigação, ele teria utilizado sua proximidade com ministros de tribunais superiores para intermediar interesses de terceiros. A decisão que autorizou a operação foi proferida pelo ministro Flávio Dino, relator do processo no STF.
Cezinha de Madureira e a investigação
A investigação também envolve as advogadas Valéria Rodrigues Linhares (esta referida nas mídias como esposa do deputado, o que ela nega), e Mariângela Fialek. A apuração investiga uma possível atuação conjunta entre os envolvidos para intermediar interesses de clientes perante tribunais superiores.
A decisão que autorizou a operação cita suspeitas relacionadas à atuação de Cezinha junto a ministros do STF e a contratos de honorários advocatícios. As informações, contudo, integram uma investigação ainda em curso e não representam conclusão sobre a prática dos crimes apurados.
Os valores apreendidos com Valéria Rodrigues
A relação de Valéria Rodrigues Linhares com a investigação ganhou outro elemento antes da deflagração da Operação Transparência 3. Em agosto passado, a Polícia Federal apreendeu R$ 510 mil em espécie que estavam na bagagem da advogada no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. O valor foi localizado durante uma inspeção de segurança antes de um voo para Brasília.

Na ocasião, a defesa de Valéria Rodrigues afirmou que o dinheiro tinha origem lícita e decorria de sua atividade profissional como advogada. O advogado Daniel Bialski declarou que os valores seriam comprovados e que a defesa solicitaria a devolução da quantia. Porém, não há, até o momento, comprovação pública de que o dinheiro apreendido no aeroporto tenha relação com os fatos investigados na Operação Transparência 3. A apreensão, portanto, deve ser apresentada como um episódio relacionado à advogada, mas não como prova de participação nos crimes investigados.
Valéria Rodrigues não é esposa do deputado Cezinha de Madureira como se cogita, mas tem vínculos profissionais anteriores com a família dele. Ela foi sócia do filho do deputado em uma rádio em São Paulo e esteve com ele no Ministério das Comunicações em 2024.
A relação Cezinha de Madureira-Daniel Vorcaro-André Mendonça
As conexões entre Cezinha de Madureira e o ministro do STF André Mendonça também ganharam destaque após a divulgação de mensagens e áudios extraídos do celular do banqueiro preso por golpes no sistema financeiro Daniel Vorcaro. Como o Bereia mostrou em matéria recente, o deputado evangélico articulou um encontro entre o empresário e Mendonça em local privado.
O encontro ocorreu em 14 de março de 2025, no Instituto Iter, em São Paulo, de propriedade do ministro do STF, e durou cerca de duas horas. Mendonça confirmou o encontro e afirmou que se limitou a ouvir Vorcaro e que o assunto tratado foi uma ação relacionada ao pagamento de precatórios (objeto de interesse do banqueiro, como Bereia informou).
As mensagens divulgadas indicam que Cezinha de Madureira organizou a reunião. O deputado teria tratado previamente com Mendonça sobre os problemas enfrentados pelo Banco Master com o Banco Central. Essas informações integram o contexto que colocou o deputado evangélico no centro das atenções após a deflagração da Operação Transparência 3.
O cuidado com a expressão “Dino mira”
Nas informações sobre a Operação da PF este 14 de setembro, algumas manchetes de veículos jornalísticos utilizaram expressões como “Dino mira”. Embora seja correto afirmar que o ministro do STF Flávio Dino foi quem autorizou as medidas judiciais, a formulação pode induzir o leitor a interpretar a operação como uma iniciativa pessoal do magistrado contra o deputado ou contra o ministro André Mendonça, com quem ele se relaciona.



Em matéria publicada pelo site Metrópoles, por exemplo, o redator da matéria afirma que “a operação foi autorizada pelo ministro Flávio Dino, adversário de Mendonça no STF”. A informação sobre a autorização é factual, pois o ministro Flávio Dino é relator do processo sobre irregularidades na concessão de emendas de deputados, objeto da operação, que tem Cezinha de Madureira envolvido. No entanto, a caracterização de Dino como “adversário de Mendonça” introduz uma perspectiva de conflito pessoal entre os ministros que não explica, por si só, a natureza da medida.
Dino é ministro do STF e relator do processo. A PF executou mandados expedidos pela Corte no âmbito da investigação. Portanto, embora seja correto informar que Dino autorizou a operação, é impreciso apresentar a ação como uma iniciativa pessoal do ministro contra o deputado, sem que haja qualquer elemento factual que justifique isto.
A distinção é relevante porque o relator exerce sua função dentro de um processo judicial submetido ao STF. Assim, essas expressões deslocam para a figura individual do ministro uma decisão tomada no exercício de uma competência institucional.
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Bereia verificou que é verdadeira a informação de que Cezinha de Madureira é alvo da Operação Transparência 3 e de que Flávio Dino autorizou as medidas. O caráter enganoso está em apresentar a operação como uma ação pessoal do ministro contra o deputado ou contra pessoas do seu relacionamento.
As medidas foram determinadas pelo STF, no âmbito de processo sob relatoria de Dino, e integram investigação conduzida pela Polícia Federal. Assim, ao informar sobre o caso, é importante diferenciar a atuação individual do relator no processo da atuação institucional do Supremo Tribunal Federal. A utilização de expressões que atribuem ao ministro, pessoalmente, a iniciativa de “mirar” o deputado pode produzir uma compreensão distorcida sobre a natureza da decisão judicial.
Referências:
GOV. https://www.gov.br/pf/pt-br/assuntos/noticias/2026/09/pf-deflagra-a-operacao-transparencia-3-para-apurar-trafico-de-influencia-junto-a-tribunais-superiores. Acesso em 14 de setembro de 2026.
Uol. https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/09/14/pf-operacao-transparencia-3.ghtm. Acesso em 14 de setembro de 2026.
G1. https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/09/14/advogada-valeria-rodrigues-linhares-e-alvo-de-operacao-da-pf-sobre-suspeita-de-trafico-de-influencia.ghtml. Acesso em 14 de setembro de 2026.
G1. https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/08/26/pf-apreende-r-510-mil-em-bagagem-de-mao-de-passageira-no-aeroporto-de-congonhas.ghtml. Acesso em 14 de setembro de 2026.


