“Lula não feche minha igreja”: mentira antiga volta às redes, impulsionada por Nikolas Ferreira e perfis do PL

Falso

A frase e hashtag “Lula não feche minha igreja” dominaram o X no Brasil na noite de quinta-feira (8/10). O assunto ficou mais de duas horas em primeiro lugar entre os mais comentados da plataforma e, em cinco horas, de 17h05 a 22h25, somou cerca de 28 mil posts e oito milhões de visualizações, segundo levantamento do Bereia. A mentira sobre fechamento de igrejas no governo Lula é antiga e uma das que mais circulam em períodos eleitorais.

A nova onda de desinformação surge logo após a guinada na comunicação do governo Lula, que passou a apostar em influenciadores digitais, entre eles a deputada recém-eleita por Minas Gerais Ana Elisa (PT), alvo do conteúdo.

O ataque digital começou às 17h05, quando o deputado federal e evangélico Nikolas Ferreira (PL-MG) publicou um print atribuído à deputada eleita Ana Elisa (PT-MG) que associava o governo ao fechamento de igrejas. Ela nega a autoria. Ao portal Metrópoles, a jovem mineira disse que o print é uma montagem e que vai acionar o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Reprodução/Instagram

Poucas contas, muito alcance

O levantamento do Bereia mostra que a circulação foi puxada por um grupo pequeno de perfis alinhados à direita. Os quatro posts de Nikolas Ferreira, o primeiro deles com o print, passaram de 1 milhão de visualizações. Em seguida vieram os perfis @DudaCampopiano (791 mil), @chequeibrasil (426 mil), @republiqueBRA (291 mil), @CentralDireitaB (281 mil, em 15 posts) e @PrimeiroFront (232 mil). Os 321 posts de maior engajamento, publicados por apenas 181 contas, responderam sozinhos por 6,2 milhões das 8 milhões de visualizações.

O ritmo também chama atenção. No pico, entre 19h e 20h30, foram cerca de 9,4 mil posts por hora. Para comparação, a desinformação envolvendo a padroeira e o senador Flávio Bolsonaro, que o TSE mandou remover, teve 4,6 mil posts em dez dias. A onda desta quinta teve seis vezes esse volume em cinco horas.

Um monitoramento realizado pelo NetLab, da UFRJ, identificou 568 anúncios veiculados irregularmente. Pelo menos seis simulavam campanhas falsas do Tribunal Superior Eleitoral e divulgavam informações falsas sobre o processo de votação, como a possibilidade de votar pelo celular.

Fora do X, o alcance ainda era limitado até a noite de quinta. No Instagram, páginas de direita passaram a postar o print a partir das 18h03. No TikTok e no YouTube, o tema praticamente não apareceu.

Depois da repercussão, Ana Elisa relatou nas redes estar recebendo uma enxurrada de ameaças de morte.

Reprodução/Instagram

Uma mentira com longa história

A acusação de que Lula fecharia igrejas não é nova. O Bereia e outras agências de checagem desmentiram repetidas vezes essa alegação durante a campanha eleitoral de 2022. Naquele ano, circularam tuítes falsos atribuídos a Lula, nos quais ele supostamente afirmava que fecharia igrejas. O então candidato nunca publicou essas postagens. Também circulou um vídeo editado com cortes que alteravam o contexto de suas declarações para sugerir que ele defendia o fim dos templos religiosos.

A associação entre Lula, o Partido dos Trabalhadores (PT) e uma suposta ameaça às igrejas aparece em disputas eleitorais há décadas. Em levantamento publicado em outubro de 2022, o Bereia identificou que a alegação de perseguição a cristãos e de fechamento de igrejas esteve entre os temas mais recorrentes nas checagens produzidas pelo coletivo durante o período eleitoral. O levantamento contabilizou 26 matérias sobre o assunto entre fevereiro de 2021 e outubro de 2022, com aumento da circulação desse tipo de conteúdo a partir de agosto de 2021, quando pesquisas eleitorais passaram a indicar a força da candidatura petista.

A estratégia não se limitou à divulgação de frases falsas. Em 2022, também voltou a circular um vídeo gravado em 2018, apresentado sem informações sobre a data e as circunstâncias do episódio. A gravação foi usada para sugerir que havia uma mobilização contra igrejas, embora o material original retratasse uma situação específica, relacionada à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), e não uma iniciativa contra todas as instituições religiosas. Segundo a análise do Bereia, não havia registro de manifestação organizada contra igrejas durante a campanha eleitoral de 2022.

Naquele período, o relato também foi reforçado por declarações de políticos e lideranças religiosas. Em entrevista ao jornal O Globo, o então deputado e pastor evangélico na época, Marco Feliciano (PL-SP) admitiu que disseminava a ideia de que o PT fecharia igrejas evangélicas caso voltasse ao poder. A repetição dessa alegação ajudou a transformar a suposta ameaça em um argumento político dirigido ao eleitorado cristão.

O histórico de circulação mostra que a acusação é retomada em diferentes eleições, mesmo sem evidências que comprovem a existência de um projeto de fechamento de igrejas por parte de Lula ou do PT. A repetição do relato mobiliza o receio de perda da liberdade religiosa e apresenta uma ameaça sem comprovação como se fosse um risco concreto.

A Constituição Federal no artigo 5º, inciso VI, assegura a liberdade de consciência e de crença, além do livre exercício dos cultos religiosos. Por isso, alegações de que igrejas serão fechadas precisam ser acompanhadas de evidências verificáveis, como propostas, medidas oficiais ou decisões concretas. No caso das publicações que associam Lula ao fechamento de templos, o histórico de checagens do Bereia e de outras agências não encontram sustentação, o conteúdo é enganoso. 

Referências: 

O Globo. https://oglobo.globo.com/politica/eleicoes-2022/noticia/2022/08/fake-news-sobre-fechamento-de-igrejas-em-caso-de-vitoria-da-esquerda-tem-respaldo-de-deputado.ghtml. Acesso em 9 de out de 2026.

Constituição Federal. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em 9 de out de 2026.

Aos Fatos. https://www.aosfatos.org/noticias/tuites-atribuidos-a-lula-sobre-fechamento-de-igrejas-sao-falsos/. Acesso em 9 de out de 2026.

Lupa. https://www.agencialupa.org/jornalismo/2022/10/07/lula-padres-igreja/. Acesso em 9 de out de 2026.

Compartilhe