Circulam amplamente nas redes digitais, neste 14 de outubro, denúncias de usuários da Meta AI no WhatsApp de que a ferramenta de inteligência artificial da empresa se recusa a gerar imagens de campanha para Lula (PT), mas atende ao pedido quando é dirigido a Flávio Bolsonaro (PL).
Diversos perfis nas mídias sociais compartilham vídeos e imagens dos testes, que apresentam as mesmas respostas: “Não consegui gerar a imagem que você pediu agora. Se quiser, posso descrever algumas ideias de estampa com o texto “Lula 13” pra você usar, ou tentar outro estilo de arte”.

Já quando o comando é orientado a criar imagens para o candidato do PL, a ferramenta da Meta, empresa dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, gera os recursos visuais solicitados. Quando questionada sobre a diferenciação das resposta aos pedidos, a Meta AI registra que existe um bloqueio na verificação automática de segurança para os termos “Lula 13”.
“Não é uma decisão minha. Os dois pedidos são do mesmo tipo, arte política, e os dois deveriam funcionar. O que acontece é que a geração de imagem passa por um filtro automático de segurança separado. No caso do Flávio, o filtro liberou. No caso do Lula 13, nas duas vezes que tentei, esse mesmo filtro bloqueou e nem chegou a criar a imagem”, foi a resposta dada a uma usuária.

A campanha de Lula denunciou a diferença de tratamento entre o candidato petista e Flávio Bolsonaro (PL) ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). De acordo com nota publicada no site do Partido dos Trabalhadores, foram apresentadas provas de que a empresa usa seletividade algorítmica para tratar as duas campanhas de forma diferente.
Segundo a equipe de Lula, o que está ocorrendo não se trata de “mero erro técnico”, e sim uma manipulação do debate público, afetando diretamente a igualdade de oportunidades garantida por lei.
Atitude da Meta atinge democracia, aponta jurista
A situação, que levanta suspeita de interferência da Meta na campanha eleitoral, foi objeto de várias matérias em veículos jornalísticos como O Globo, Correio Braziliense, Uol e Estado de Minas.
Em entrevista ao jornal Uol News, o jurista Pedro Serrano comentou o caso e considerou que a diferenciação de tratamento entre os candidatos pelas mídias sociais é ilegal e que atinge a legitimidade das eleições.
“É importante que haja regulação dessa atividade das redes sociais de uma forma mais intensa, para que a gente não esteja sujeito a esse tipo de tratamento absolutamente ilegal, inconstitucional, imoral. E que acaba atingindo a legitimidade da eleição de um país como o Brasil, uma democracia jovem que a gente tem lutado tanto para manter”, disse.

Pedro Serrano também destacou a importância de regulamentação das mídias sociais:
“A Justiça eleitoral tem que intervir imediatamente com a sua força administrativa e jurisdicional, quando provocada, de imediato. O que nós temos que pensar na sociedade é que não tem cabimento que um instrumento de comunicação tão importante, que interfere tanto na democracia, na civilização, esteja na mão de iniciativa privada integralmente (…) Por hora, é só a justiça eleitoral agir. Mas nós como sociedade temos que pensar em ter uma regulação mais profunda desse tipo de atividade”.
Meta restringe campanha de Lula nas mídias sociais
Não é a primeira vez que uma plataforma da Meta apresenta restrições à campanha de Lula à reeleição em 2026. Em 10 de outubro, a equipe do candidato acusou a empresa de tentar interferir nas eleições brasileiras restringindo o alcance de publicações do petista para favorecer o adversário, Flávio Bolsonaro.
Durante o primeiro turno, a conta de anúncios de Lula foi retirada do ar pela Meta sem qualquer explicação ou justificativa formal naquela ocasião. De acordo com um levantamento elaborado pela Secretaria Nacional de Comunicação do PT, a página de Flávio Bolsonaro registrava, em média, 2,96 vezes mais engajamento do que a de Lula, embora tivesse 17,2% menos seguidores.
Outro episódio citado pelo secretário ocorreu em 8 de outubro, quando uma publicação da conta oficial de Lula teria sofrido uma interrupção no registro de visualizações, com impacto no alcance do conteúdo.
Em coletiva de imprensa em 10 de outubro, o secretário de comunicação do PT Éden Valadares afirmou que a situação se repetiu em outras publicações e em perfis que divulgavam manifestações de apoio ao presidente.
Após determinação do TSE para que a dona do Facebook prestasse esclarecimentos sobre os casos, em 13 de outubro, a Meta informou que o bloqueio indevido de anúncios da campanha de Lula se tratou de falha em seus sistemas globais. De acordo com a empresa, o erro na contagem de visualizações em posts da campanha do petista foi causado pelo mesmo problema.
A campanha de Lula havia levado à Justiça informações sobre uma suposta rede de 255 contas associadas à disseminação de conteúdos e práticas de desinformação. Em resposta, a Meta afirmou ter analisado 35 perfis identificáveis no material citado na ação e informou ter desativado sete, sendo seis por reincidência em violações e um por identidade enganosa.
Grupo lança campanha ‘Meta, tira a mão da minha eleição’
Em 13 de outubro, a organização CTRL+Z – Transparência e direitos nas plataformas digitais lançou a campanha “Meta, tira a mão da nossa eleição”, que busca cobrar transparência e responsabilização da empresa sobre a moderação de conteúdos políticos durante as eleições brasileiras de 2026.
A iniciativa reúne relatos de remoções de publicações, suspensões de contas e restrições de alcance nas plataformas da Meta, com o objetivo de investigar como as políticas de moderação e os algoritmos da empresa podem afetar o debate público e a igualdade de condições entre candidaturas
A mobilização conta com uma petição para pedir que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) exija explicações da empresa sobre os critérios utilizados para remover conteúdos e restringir perfis.

Entre as reivindicações estão a restauração de publicações e contas retiradas indevidamente do ar, o fim das reduções de alcance sem notificação (prática conhecida como shadowban), a apresentação de dados sobre as decisões de moderação e a criação de canais de revisão humana com respostas em tempo hábil durante o período eleitoral.
A campanha também disponibiliza um formulário para que pessoas afetadas relatem problemas com suas contas e um kit de orientação para registrar reclamações nos canais administrativos.
Segundo dados apresentados pela CTRL+Z no site da mobilização, a organização já havia documentado mais de mil casos de restrições e banimentos, dos quais 22% envolveriam contas ou publicações retiradas do ar sem explicação. Esses números são levantamentos divulgados pela própria iniciativa.
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No fechamento desta matéria, Bereia recebeu a informação de que o Ministério Público Federal abriu um procedimento administrativo para investigar a legalidade das práticas de moderação de conteúdo da Meta e da plataforma X durante as eleições.
A apuração foi motivada por uma representação das organizações Artigo 19, Conectas Direitos Humanos, Sleeping Giants Brasil e CTRL+Z, que reuniram mais de mil relatos de bloqueios, remoções de publicações e suspensões de contas de de comunicadores, jornalistas, veículos independentes de imprensa, entidades estudantis, coletivos de direitos humanos e cidadãos.
As entidades apontam possíveis restrições arbitrárias a manifestações políticas legítimas, com justificativas genéricas e falta de transparência.
Em ofício enviado às plataformas em 14 de outubro, a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC), órgão do MPF, estabeleceu o prazo de cinco dias para que as empresas expliquem os casos denunciados, esclareçam se as restrições decorreram de decisões judiciais ou de sistemas automatizados e informem quais mecanismos de notificação e contestação estão disponíveis aos usuários.
A investigação considera os direitos à liberdade de expressão, ao acesso à informação e à participação política, além do Marco Civil da Internet e do Código de Defesa do Consumidor. A documentação também foi encaminhada à Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE).
Referências
Correio Braziliense
UOL
g1
ICL Notícias
https://iclnoticias.com.br/ia-da-meta-impede-criacao-de-imagens-lula/
Partidos dos Trabalhadores
https://pt.org.br/campanha-do-presidente-lula-denuncia-interferencia-da-meta-democracia-em-xeque/
CTRL+Z
https://tiraamao.ctrlz.org.br Acesso em 14 out 2026
Youtube – Canal Uol
https://www.youtube.com/watch?v=i2h5J84Bocs&t=4375s
Ministério Público Federal


