O dia de segundo turno das eleições registra muitas queixas de eleitores que encontram adversidades para exercer o direito ao voto. Além do cancelamento de voos com destino ao nordeste e da retirada de ônibus de circulação em várias cidades, a interrupção de energia elétrica e a disseminação de propaganda eleitoral irregular pelas mídias sociais influenciam na votação deste segundo turno.
Neste 25 de outubro, o monitoramento do NetLab UFRJ identificou que plataformas da Meta, dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, seguem distribuindo publicidade político-eleitorais nas plataformas durante o período de suspensão da propaganda no segundo turno.
Segundo as regras do TSE, durante o período de resguardo, que começa 48 horas antes das eleições, as plataformas não podem publicar anúncios político-eleitorais em nenhuma hipótese. Além disso, durante todo o período eleitoral, não podem recomendar candidatos e suas páginas organicamente, por meio de seus sistemas de recomendação algorítmicos, exceto para usuários que os seguem.
O levantamento do NetLab UFRJ identificou 394 anúncios político-eleitorais veiculados ilegalmente nas plataformas. Entre os casos encontrados, estão anúncios fraudulentos sobre valores esquecidos, promovidos por página que simula ser do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Há também anúncios de empresas que promoviam produtos com imagens de candidatos e um anúncio eleitoral publicado pelo ex-diretor da Polícia Rodoviária Federal (PRF) por Silvinei Vasques.
No aplicativo de vídeos Kwai, embora a Biblioteca de Anúncios apresentasse todos os anúncios eleitorais como “inativos”, foi constatado que 19 dos 21 anúncios de Flávio Bolsonaro (PL), cuja veiculação estava prevista até o dia 24, tiveram suas datas alteradas para incluir o dia 25, data da votação, e os dados extraídos da Interface e da API são inconsistentes.
Falta de energia não afeta a votação
Usuários das redes digitais também relatam a ausência de energia elétrica em locais de votação. De acordo com a deputada federal eleita Anielle Franco (PT-RJ), vários pontos do Complexo da Maré enfrentaram a falta de energia. De acordo com reportagem do G1, um cabo de energia de um colégio eleitoral de Fortaleza (CE) foi cortado propositalmente.
Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a urna eletrônica brasileira tem bateria que permite seu funcionamento por até dez horas em caso de interrupção do fornecimento de energia. Desse modo, o processo de votação na urna não é afetado.
Imagem: Publicação de usuário do C, 25 out 206
Mensagem sobre CPF cancelado
Relatos sobre o envio de mensagens por uma conta verificada da TIM no WhatsApp informando falsamente o bloqueio de CPFs também circularam pelas mídias sociais.
Diversos usuários do X (antigo Twitter) compartilharam imagens de captura de tela mostrando a mensagem que receberam. Apesar de alguns relatos mencionarem que o alvo principal das mensagens são eleitores do nordeste, usuários da região sul também afirmam terem recebido o comunicado.
Imagem: Publicação de usuário do X, 25 out 2026
Em apuração no Google Trends, Bereia apurou que as buscas pelo termo “CPF cancelado” tiveram um aumento de 5.000% em 25 de outubro. Dados da plataforma apontam que as buscas partiram de estados das regiões Sul, Sudeste e Nordeste, mas o estado do Piauí lidera o ranking, seguido de Santa Catarina, Paraná e Pernambuco.
Circulam amplamente nas redes digitais, neste 14 de outubro, denúncias de usuários da Meta AI no WhatsApp de que a ferramenta de inteligência artificial da empresa se recusa a gerar imagens de campanha para Lula (PT), mas atende ao pedido quando é dirigido a Flávio Bolsonaro (PL).
Diversos perfis nas mídias sociais compartilham vídeos e imagens dos testes, que apresentam as mesmas respostas: “Não consegui gerar a imagem que você pediu agora. Se quiser, posso descrever algumas ideias de estampa com o texto “Lula 13” pra você usar, ou tentar outro estilo de arte”.
Imagem: Reprodução de interação de usuário com a IA do WhatsApp enviada ao Bereia
Já quando o comando é orientado a criar imagens para o candidato do PL, a ferramenta da Meta, empresa dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, gera os recursos visuais solicitados. Quando questionada sobre a diferenciação das resposta aos pedidos, a Meta AI registra que existe um bloqueio na verificação automática de segurança para os termos “Lula 13”.
“Não é uma decisão minha. Os dois pedidos são do mesmo tipo, arte política, e os dois deveriam funcionar. O que acontece é que a geração de imagem passa por um filtro automático de segurança separado. No caso do Flávio, o filtro liberou. No caso do Lula 13, nas duas vezes que tentei, esse mesmo filtro bloqueou e nem chegou a criar a imagem”, foi a resposta dada a uma usuária.
Imagem: Reprodução de interação de usuário com a IA do WhatsApp enviada ao Bereia
A campanha de Lula denunciou a diferença de tratamento entre o candidato petista e Flávio Bolsonaro (PL) ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). De acordo com nota publicada no site do Partido dos Trabalhadores, foram apresentadas provas de que a empresa usa seletividade algorítmica para tratar as duas campanhas de forma diferente.
Segundo a equipe de Lula, o que está ocorrendo não se trata de “mero erro técnico”, e sim uma manipulação do debate público, afetando diretamente a igualdade de oportunidades garantida por lei.
Atitude da Meta atinge democracia, aponta jurista
A situação, que levanta suspeita de interferência da Meta na campanha eleitoral, foi objeto de várias matérias em veículos jornalísticos como O Globo, Correio Braziliense, Uol e Estado de Minas.
Em entrevista ao jornal Uol News, o jurista Pedro Serrano comentou o caso e considerou que a diferenciação de tratamento entre os candidatos pelas mídias sociais é ilegal e que atinge a legitimidade das eleições.
“É importante que haja regulação dessa atividade das redes sociais de uma forma mais intensa, para que a gente não esteja sujeito a esse tipo de tratamento absolutamente ilegal, inconstitucional, imoral. E que acaba atingindo a legitimidade da eleição de um país como o Brasil, uma democracia jovem que a gente tem lutado tanto para manter”, disse.
Imagem: Reprodução do Youtube, UOL News, edição da manhã, 14 out 2026
Pedro Serrano também destacou a importância de regulamentação das mídias sociais:
“A Justiça eleitoral tem que intervir imediatamente com a sua força administrativa e jurisdicional, quando provocada, de imediato. O que nós temos que pensar na sociedade é que não tem cabimento que um instrumento de comunicação tão importante, que interfere tanto na democracia, na civilização, esteja na mão de iniciativa privada integralmente (…) Por hora, é só a justiça eleitoral agir. Mas nós como sociedade temos que pensar em ter uma regulação mais profunda desse tipo de atividade”.
Meta restringe campanha de Lula nas mídias sociais
Não é a primeira vez que uma plataforma da Meta apresenta restrições à campanha de Lula à reeleição em 2026. Em 10 de outubro, a equipe do candidato acusou a empresa de tentar interferir nas eleições brasileiras restringindo o alcance de publicações do petista para favorecer o adversário, Flávio Bolsonaro.
Durante o primeiro turno, a conta de anúncios de Lula foi retirada do ar pela Meta sem qualquer explicação ou justificativa formal naquela ocasião. De acordo com um levantamento elaborado pela Secretaria Nacional de Comunicação do PT, a página de Flávio Bolsonaro registrava, em média, 2,96 vezes mais engajamento do que a de Lula, embora tivesse 17,2% menos seguidores.
Outro episódio citado pelo secretário ocorreu em 8 de outubro, quando uma publicação da conta oficial de Lula teria sofrido uma interrupção no registro de visualizações, com impacto no alcance do conteúdo.
Em coletiva de imprensa em 10 de outubro, o secretário de comunicação do PT Éden Valadares afirmou que a situação se repetiu em outras publicações e em perfis que divulgavam manifestações de apoio ao presidente.
Após determinação do TSE para que a dona do Facebook prestasse esclarecimentos sobre os casos, em 13 de outubro, a Meta informou que o bloqueio indevido de anúncios da campanha de Lula se tratou de falha em seus sistemas globais. De acordo com a empresa, o erro na contagem de visualizações em posts da campanha do petista foi causado pelo mesmo problema.
A campanha de Lula havia levado à Justiça informações sobre uma suposta rede de 255 contas associadas à disseminação de conteúdos e práticas de desinformação. Em resposta, a Meta afirmou ter analisado 35 perfis identificáveis no material citado na ação e informou ter desativado sete, sendo seis por reincidência em violações e um por identidade enganosa.
Grupo lança campanha ‘Meta, tira a mão da minha eleição’
Em 13 de outubro, a organização CTRL+Z – Transparência e direitos nas plataformas digitais lançou a campanha “Meta, tira a mão da nossa eleição”, que busca cobrar transparência e responsabilização da empresa sobre a moderação de conteúdos políticos durante as eleições brasileiras de 2026.
A iniciativa reúne relatos de remoções de publicações, suspensões de contas e restrições de alcance nas plataformas da Meta, com o objetivo de investigar como as políticas de moderação e os algoritmos da empresa podem afetar o debate público e a igualdade de condições entre candidaturas
A mobilização conta com uma petição para pedir que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) exija explicações da empresa sobre os critérios utilizados para remover conteúdos e restringir perfis.
Imagem: Reprodução do site da campanha “Meta, tira a mão da nossa eleição!”
Entre as reivindicações estão a restauração de publicações e contas retiradas indevidamente do ar, o fim das reduções de alcance sem notificação (prática conhecida como shadowban), a apresentação de dados sobre as decisões de moderação e a criação de canais de revisão humana com respostas em tempo hábil durante o período eleitoral.
A campanha também disponibiliza um formulário para que pessoas afetadas relatem problemas com suas contas e um kit de orientação para registrar reclamações nos canais administrativos.
Segundo dados apresentados pela CTRL+Z no site da mobilização, a organização já havia documentado mais de mil casos de restrições e banimentos, dos quais 22% envolveriam contas ou publicações retiradas do ar sem explicação. Esses números são levantamentos divulgados pela própria iniciativa.
*** No fechamento desta matéria, Bereia recebeu a informação de que o Ministério Público Federal abriu um procedimento administrativo para investigar a legalidade das práticas de moderação de conteúdo da Meta e da plataforma X durante as eleições.
A apuração foi motivada por uma representação das organizações Artigo 19, Conectas Direitos Humanos, Sleeping Giants Brasil e CTRL+Z, que reuniram mais de mil relatos de bloqueios, remoções de publicações e suspensões de contas de de comunicadores, jornalistas, veículos independentes de imprensa, entidades estudantis, coletivos de direitos humanos e cidadãos.
As entidades apontam possíveis restrições arbitrárias a manifestações políticas legítimas, com justificativas genéricas e falta de transparência.
Em ofício enviado às plataformas em 14 de outubro, a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC), órgão do MPF, estabeleceu o prazo de cinco dias para que as empresas expliquem os casos denunciados, esclareçam se as restrições decorreram de decisões judiciais ou de sistemas automatizados e informem quais mecanismos de notificação e contestação estão disponíveis aos usuários.
A investigação considera os direitos à liberdade de expressão, ao acesso à informação e à participação política, além do Marco Civil da Internet e do Código de Defesa do Consumidor. A documentação também foi encaminhada à Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE).
Existe um amplo uso da tecnologia voltado à prática e ao agravamento de violações dos direitos humanos em Israel por parte de empresas de tecnologia, como a Meta (que controla Facebook, WhatsApp e Instagram), no sentido de promover a censura, reter informações e indiretamente favorecer as estratégias do governo israelense no contexto das operações militares em Gaza no último ano.
A denúncia é do Centro Árabe para o Avanço das Mídias Sociais (7amleh) e aparece no relatório “Direitos digitais palestinos, genocídio e responsabilização das grandes tecnologias”, divulgado no mês de setembro pela organização. O documento aponta a Meta como uma das mais atuantes. O Observatório Palestino de Violações dos Direitos Digitais, ligado à 7amleh, identificou mais de 5.100 casos de censura digital e veiculação de conteúdo enganoso em plataformas como a de Mark Zuckerberg no período de 7 de outubro de 2023 a setembro de 2024.
O relatório também destacou a disseminação de campanhas com conteúdo desinformativo, com danos à liberdade de expressão, ao acesso à informação e ao direito à segurança. Vale lembrar que conteúdos falsos têm sido usados até para prejudicar as ações de ajuda humanitária em Gaza, segundo revela o documento.
A Human Rights Watch já havia denunciado em dezembro de 2023 graves violações aos direitos humanos aos palestinos de Gaza e também a censura imposta. Em um comunicado para apresentar o relatório que elaborou, a organização apontou a atuação da Meta ao dizer que as políticas e práticas da empresa “têm silenciado vozes em apoio à Palestina e aos direitos humanos palestinos no Instagram e no Facebook em uma onda de censura intensificada nas redes sociais“.
Na mesma nota, a Human Rights Watch destacou que no período de outubro a novembro do ano passado mais de 1.050 postagens foram removidas ou conteúdos suprimidos no Instagram e no Facebook, todas feitas por palestinos e apoiadores, incluindo aquelas que tratavam de abusos de direitos humanos.
A Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal Brasil), em postagem nas mídias digitais, reforçou o conteúdo da 7amleh ao dizer que a Meta mantém “laços profundos com o apartheid israelense e promove censura sistêmica e global de conteúdo sobre a Palestina e de denúncia do genocídio”. Outra acusação contra a Meta é que ela estaria subsidiando os israelenses com dados de WhatsApp de palestinos de Gaza que seriam usados nas ações de ataques e bombardeios, apontou a Fepal Brasil.
Na última semana, o religioso católico Frei Gilson teve perfis bloqueados em redes sociais digitais, e não conseguiu transmitir lives em que rezava o Rosário com seus seguidores. Segundo a Meta, empresa dona das redes em que Gilson foi bloqueado temporariamente, o bloqueio ocorreu por engano. Os acessos foram restabelecidos em cinco dias. Mesmo assim, discursos de perseguição religiosa ecoaram nas redes e na política. Bereia checou o caso e a propagação de possíveis conteúdos enganosos.
Imagem: reprodução Instagram
Desde 15 de agosto, o líder católico Frei Gilson, que tem 5,4 milhões de seguidores no Instagram, vem rezando o Rosário diariamente às 4h, em lives nas suas redes. Trata-se da Quaresma de São Miguel, que muitos fieis acompanham nas primeiras horas da madrugada.
Em 17 de setembro, no entanto, o religioso da Ordem das Carmelitas fez uma publicação, em seu perfil no Instagram, na qual relatava ter sido alvo de medidas restritivas por parte da rede digital. Na legenda, ele disse que, segundo o Instagram, sua conta havia transgredido uma das normas da plataforma.
Nesta mesma publicação, Gilson afirmou que, após sua equipe ter entrado em contato com o Instagram, a plataforma respondeu “dizendo que tudo havia sido um erro” e com um pedido de desculpas. Porém, mesmo com o esclarecimento, a publicação ensejou comentários que difundiam um discurso de perseguição religiosa.
Ainda hoje estão visíveis, na aba de comentários da publicação, frases como: “Já estava achando que o Alexandre de Moraes iria derrubar o Rosário”, “O inimigo querendo nos derrubar”, “Certeza de que estão tentando calar o nosso Frei”, “Só acontece com páginas de valores cristãos” e “Certeza que foi porque o senhor falou sobre aborto”.
Em uma das imagens publicadas, Frei Gilson compartilhou a mensagem recebida do Instagram, com a informação de que o bloqueio havia sido um engano e de que o conteúdo fora restaurado.
Imagem: reprodução Instagram
Discurso enganoso de perseguição a cristãos ganhou fôlego em comentários
No dia seguinte, 18 de setembro, uma segunda publicação informava: “Santo Rosário!!! Até o momento não estamos conseguindo fazer transmissão ao vivo pelo Instagram. Estamos ao vivo no YouTube!!!”. Na legenda, Frei Gilson informava: “Avisa todo mundo!!!”
Nos comentários, alegações de perseguição religiosa continuavam: “Tem católicos que votam nessa esquerda”, “Senhor, livra o Brasil desse comunismo que estão querendo implantar”, “Está começando a perseguição religiosa”, entre outras que promoviam o mesmo discurso enganoso de perseguição.
Não havia, por parte da plataforma, nenhuma menção a restrição de conteúdo em razão de um posicionamento religioso. Também não havia – e não há, neste caso – qualquer envolvimento de entes governamentais ou do Estado brasileiro que permitam associar a queda das transmissões a perseguição religiosa ou à intenção de implantação do comunismo.
No mesmo dia 18, mais tarde, o perfil fez uma nova publicação sobre a situação com a plataforma. Na legenda, Frei Gilson informava: “Até o momento, o ‘Instagram’ ainda não liberou a ferramenta de transmissão ao vivo. Como vocês podem ver em um dos posts, fomos informados pelo Instagram que estamos bloqueados por 29 dias. No entanto, há uma contradição, pois em outro post o Instagram afirma que temos liberação para todas as ferramentas da plataforma”.
No dia 19, o perfil novamente informou seus seguidores: “Estamos ao vivo no YouTube. O Instagram ainda não liberou a transmissão ao vivo”. O público reagiu com comentários como “Guerra espiritual!!”, “Nós avisamos em 2022” e “Não podemos deixar o inimigo nos derrotar”. Alguns usuários, no entanto, pediam que as lives do Rosário apenas continuassem em outra plataforma enquanto o problema não fosse resolvido.
Plataformas da Meta, como Instagram e WhatsApp, contam com sistema de detecção de comportamento inautêntico e de conteúdos que possam ferir as diretrizes da comunidade. O Instagram tem, por exemplo, a prerrogativa de bloquear conteúdos quando há indícios de atuação fora dos padrões. Qualquer associação com intenções persecutórias ou de viés comunista não encontra sustentação na realidade.
Imagem: reprodução Instagram
Frei Gilson adere à tese de perseguição religiosa
No último domingo, 22, o caso ganhou repercussão a partir de uma nova publicação do perfil de Frei Gilson, que dizia: “ATENÇÃO!!! Quero, por meio deste post, informar que fui bloqueado em minhas comunidades do WhatsApp, nas quais me comunicava com 50 grupos. Além disso, hoje faz 5 dias que estou impedido de fazer transmissões ao vivo no Instagram, devido a um bloqueio que recebemos sob a alegação de termos transgredido as regras da plataforma”.
Na publicação, o religioso afirma que não transgrediu regras, que atua dentro das leis e pede orações aos fiéis. Ao final do texto, a mensagem: “É importante que você entenda o que está acontecendo. Evangelizar nunca foi fácil, desde os tempos da Igreja primitiva. Mas uma coisa é certa: não vamos parar. Se uma porta se fecha, vamos abrir outras. Não vamos parar”.
A publicação seguinte feita pelo perfil de Gilson subiu o tom. O religioso publicou um vídeo com a canção “A Nossa Fé” em que, na introdução, faz uma pregação sobre perseguição a cristãos. “Em todos os tempos, em todas as épocas, a Igreja de Jesus é perseguida. Em todas as épocas os cristãos são perseguidos. Se viverem o que tiverem que viver, sofrerão perseguições”, diz Gilson no vídeo.
A série de publicações, acrescida da adesão do líder carmelita à narrativa de perseguição, fortaleceu a propagação de discursos enganosos de perseguição a cristãos no Brasil, inclusive com reprodução por parte de atores políticos.
“Perseguição” chega ao Congresso Nacional
Naquele mesmo domingo, 22, a deputada federal católica Bia Kicis (PL-DF) publicou, em seu perfil no Instagram, um vídeo com os dizeres “Perseguição religiosa escancarada! Ódio ao Cristianismo! Basta!”. A legenda da publicação traz a seguinte mensagem: “A Meta bloqueou grupos do WhatsApp e suspendeu as lives do Frei Gilson nas quais ele reunia milhares de cristãos para rezar o terço. Ódio ao Cristianismo, mas, NÃO VÃO NOS CALAR!”.
Imagem: reprodução Instagram
No vídeo, Kicis afirma que Frei Gilson teve 50 grupos de WhatsApp bloqueados e foi censurado pelo Instagram, que o impediu de transmitir lives. A deputada sugere que as restrições à conta de Gilson ocorreram porque o Rosário estava sendo rezado e porque o religioso teria feito uma fala contrária à prática do aborto. Tais justificativas nunca foram usadas pela Meta, conforme mensagem da empresa que o próprio religioso compartilhou
A tese de que comentários sobre aborto teriam justificado o bloqueio foi repercutida pelo próprio Frei Gilson. Em uma outra postagem, publicada nos dias em que suas lives estavam bloqueadas, o carmelita contou que, há três anos, gravou três vídeos sobre o tema, e um deles não teve a mesma repercussão que os outros dois.
Segundo Gilson, o vídeo que teve a propagação restrita recebeu um alerta do YouTube com a informação de que o tema aborto não poderia ser tratado na plataforma. O conteúdo continua disponível na plataforma e contava com quase 130 mil visualizações até a publicação da matéria. Os outros dois vídeos já chegaram a 1 milhão e 2 milhões de visualizações. O fato de, em três vídeos, dois deles terem repercutido normalmente, sem interferência do YouTube, não pesa nas considerações do religioso.
Outro político que mencionou perseguição religiosa – neste caso, no Senado Federal – foi o senador Izalci Lucas (PL-DF). Na terça-feira, 24, ele levou à Sessão Plenária do Senado a informação de que contas ligadas a Frei Gilson haviam sido bloqueadas. O senador disse que entrou em contato com a Meta e recebeu a resposta de que houve equívoco por parte da empresa, e que o acesso às lives no Instagram e aos canais de WhatsApp vinham sendo normalizados.
Mesmo assim, ele afirmou estar preocupado com a possibilidade de perseguição religiosa: “Acontece uma coisa dessa, não é, onde o Frei Gilson simplesmente reza o Santo Rosário. A gente vê e fica preocupado que não esteja acontecendo também alguma perseguição, vamos dizer assim, religiosa, como vem acontecendo em outros países onde a ditadura reina, como as coisas estão caminhando aqui, nessa direção (…) espero que não haja nenhuma relação com a questão religiosa, mas lamentável que o Frei Gilson tenha tido mais de uma semana com o Instagram bloqueado”.
Discursos enganosos sobre perseguição a cristãos no Brasil
No mesmo domingo, 22, em que Bia Kicis fez seu protesto contra a suposta perseguição religiosa, o perfil de Frei Gilson no Instagram publicou e fixou uma postagem com a legenda: “Boas notícias!!! Quem ficou feliz???”. Em vídeo, Gilson diz que tanto seu perfil no Instagram quanto seus canais no WhatsApp haviam sido liberados. “Nossas redes voltaram, para que eu possa continuar rezando e evangelizando”, disse.
Nos comentários, fieis aliviados comemoraram o fim do bloqueio – que durou cinco dias -, mas o discurso de perseguição continuou: “A censura da extrema esquerda é uma ameaça de cada dia”, comentou um seguidor. Outro disse: “Eles tentaram nos calar, mas nossa fé é inabalável”.
A propagação do discurso de perseguição religiosa ou de “cristofobia” – um termo construído para justificar uma inexistente perseguição a cristãos no Brasil – tem tido ampla repercussão nas redes digitais e no meio político brasileiro. No recente caso que envolveu o Frei Gilson, a tese foi amplamente propagada, sem que houvesse indícios concretos de perseguição por parte da Meta, que efetuou os bloqueios e admitiu ter cometido um erro, ou de qualquer outra entidade.
Como Bereia tem alertado, os discursos sobre perseguição a cristãos têm ganhado terreno no Brasil, mas nem sempre estão em acordo com a realidade dos fatos. Muitas vezes, o discurso de perseguição ganha espaço nas redes digitais, mas também é comum encontrá-lo na política, propagado por líderes que fazem da fé suas plataformas eleitoreiras.
É comum que ocorra um apelo ao imaginário cristão e ao tema dos inimigos da fé como forma de explorar a fidelidade dos cristãos ao Evangelho, mesmo que não haja, de fato, uma perseguição em curso. O recente caso do Frei Gilson é um exemplo entre tantos.
Importante também destacar que a suspensão de contas é ação frequente das plataformas que trabalham com algoritmos e práticas automatizadas, sujeitas a equívocos, como justificado ao Frei Gilson pela Meta. São periódicas as reclamações de usuários que têm suas contas suspensas tanto no Instagram quanto no Facebook. Isto reforça o questionamento sobre a falta de regulação sobre as dinâmicas das plataformas digitais, até hoje soberanas nas decisões sobre o que e como publicam, levandos em conta os altos níveis de lucro financeiro.
*A reportagem entrou em contato com Frei Gilson, mas não obteve resposta até a publicação da matéria.
Imagine um medicamento milagroso que promete a cura para a impotência sexual promovido pelo pastor Cláudio Duarte ou ainda gotinhas que prometem eliminar as dores decorrentes da fibromialgia anunciadas pelo padre Fábio de Melo. Pode parecer estranho, mas foi o que pesquisadores do Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais (NetLab) da UFRJ encontraram em cerca de 1.850 anúncios veiculados nas plataformas da Meta (Facebook e Instagram), entre 1º e 20 de julho de 2024.
Esses anúncios, além de explorarem a fé dos usuários, utilizaram a inteligência artificial (IA) para falsificar a voz e os vídeos dos líderes religiosos, dando a impressão de que eles apoiam os produtos. Foram identificadas 1.668 propagandas fraudulentas com a imagem de padres e pastores, entre eles Marcelo Rossi, Reginaldo Manzotti, Silas Malafaia e Rodrigo Silva.
As peças promoveram medicamentos sem eficácia científica, como tratamentos para dores articulares, fibromialgia e até produtos para emagrecimento. Além disso, alguns anúncios vendiam o livro “Guia da Mulher Sábia”, falsamente atribuído ao pastor Claudio Duarte.
Chama atenção de pesquisadores o fato de que os conteúdos circulavam livremente, sem qualquer aviso sobre o uso de IA. A Meta não moderou ou rotulou nenhum dos conteúdos, de acordo com o relatório. O caso pode colocar os usuários em risco, tanto financeiro quanto à saúde, ao serem induzidos a consumir produtos ineficazes e potencialmente perigosos.
Outro ponto de atenção está na estratégia de distribuição. Para explorar a confiança que os fiéis depositam nessas figuras religiosas, os anunciantes utilizaram técnicas de microssegmentação da Meta que facilitam a entrega desses anúncios para públicos específicos, como idosos e pessoas com problemas de saúde, alvos frequentes desses golpes.
De acordo com pesquisadores da UFRJ, “a exploração da imagem de padres e pastores sugere que dados sobre crença religiosa dos usuários podem ser usados pela Meta para entregar anúncios”. Esse dado é classificado como sensível devido a seu alto potencial discriminatório, de acordo com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Contudo, a Meta não disponibiliza os dados da microssegmentação aplicada pelos anunciantes nem do público atingido por esse tipo de anúncio.
Circula em grupos de Whatsapp de igrejas um documento assinado divulgado por uma suposta aliança empresarial das chamadas “Big Techs”, formada por Google, Meta, Twitter, Telegram e Spotify, denominada “Democracy Alliance” (Aliança Democracia, em inglês). Segundo a nota, com data de 2 de maio de 2023, as empresas de mídia teriam decidido suspender suas atividades no Brasil a partir de 4 de junho de 2023, caso a PL 2630/2020 seja aprovada.
Imagem: reprodução de falsa nota oficial das empresas de tecnologia
O Projeto de Lei 2630/2020
Conhecido de forma simplista como “PL das Fake News”, o Projeto de Lei 2630/2020 diz institui a Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet. No texto, o PL cria medidas de enfrentamento a disseminação de conteúdo desinformativo (falso e enganoso), bem como de material que estimule o ódio, o extremismo e a violência (as chamadas fake news) nas mídias digitais, sejam os perfis públicos ou privados, bem como visa à responsabilização das plataformas que não somente publicam mas monetizam (ganham financeiramente) com tais conteúdos.
Os artigos 3° e 4° expõem estes princípios e objetivos:
Art. 3º Esta Lei será pautada pelos seguintes princípios:
I – liberdade de expressão e de imprensa;
II – garantia dos direitos de personalidade, da dignidade, da honra e da privacidade do indivíduo;
III – respeito ao usuário em sua livre formação de preferências políticas e de uma visão de mundo pessoal;
IV – responsabilidade compartilhada pela preservação de uma esfera pública livre, plural, diversa e democrática;
V – garantia da confiabilidade e da integridade dos sistemas informacionais;
VI – promoção do acesso ao conhecimento na condução dos assuntos de interesse público;
VII – acesso amplo e universal aos meios de comunicação e à informação;
VIII – proteção dos consumidores;
IX – transparência nas regras para veiculação de anúncios e conteúdos pagos.
Art. 4º Esta Lei tem como objetivos:
I – o fortalecimento do processo democrático por meio do combate ao comportamento inautêntico e às redes de distribuição artificial de conteúdo e do fomento ao acesso à diversidade de informações na internet no Brasil;
II – a defesa da liberdade de expressão e o impedimento da censura no ambiente online;
III – a busca por maior transparência das práticas de moderação de conteúdos postados por terceiros em redes sociais, com a garantia do contraditório e da ampla defesa;
IV – a adoção de mecanismos e ferramentas de informação sobre conteúdos impulsionados e publicitários disponibilizados para o usuário.
O projeto é de autoria do senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), e é uma resposta aos mais de 50 projetos de leis para combate à fake news que circularam no Congresso Nacional até o ano de 2020, ano em que o PL foi apresentado. O projeto foi aprovado no Senado, depois de três anos de debates e encaminhado à Câmara de Deputados, onde está em debate e pode ser acompanhado pelo portal da Câmara legislativa.
Em matéria detalhada, o portal Boatos.org aponta como falsas as informações contidas na nota em circulação e lembra que “ao olhar o texto, já é possível ficar muito desconfiado. A mensagem segue o velho roteiro das fake news na internet. Ela apresenta caráter vago, extremamente alarmista e tem muitos erros de ortografia”.
Quanto à Democracy Alliance, a instituição não tem relações com as empresas de mídia citadas na falsa nota oficial”. Em seu site, a rede Democracy Alliance defende ser uma rede de doadores que se dedica à promoção de uma agenda progressista durante as eleições estadunidenses; O site explica que esta comunidade de doadores, formada por agentes políticos ligados às pautas de gênero, raça e classe, torna possível que estas pessoas “troquem experiências e conhecimentos com outros e alinhem recursos e estratégias com sindicatos, fundações progressistas, bem como indivíduos e famílias comprometidos com a construção de uma democracia mais inclusiva e equitativa”.
Bereia classifica como falsa a informação de que as empresas META, Spotify e Google haviam se unido e redigido um documento/comunicado sobre o fim de suas atividades no Brasil. Algumas empresas citadas manifestaram-se a respeito, negando a autoria da nota, que tampouco se encontra no site da alegada organização responsável , a Democracy Alliance.
Importa considerar que essas empresas de plataformas de mídias digitais são conglomerados que comandam o mercado mundial de consumo de informações virtuais. Uma suposta retirada de um país do tamanho do Brasil – o terceiro país do mundo a consumir redes sociais, e o primeiro da América Latina – dificilmente seria cogitada, pois representaria um prejuízo muito significativo para o altamente lucrativo mercado que estes conglomerados disputam, arena em que há muita concorrência.
Bereia lembra leitores e leitoras que o PL segue em trâmite legal, e o processo pode ser acompanhado pelo portal da Câmara dos Deputados.
* Matéria atualizada às 23:27 para correção de informações
Em notícia de última hora, o colunista do jornal Metrópoles, Guilherme Amado, revelou que lobistas da Câmara Brasileira da Economia Digital entregaram a deputados evangélicos um documento com a tese de que o PL 2630/20 poderia censurar versículos bíblicos.
Leia a coluna completa de Guilherme Amado neste link. A jornalista Tatiana Dias fez uma thread no Twitter sobre a Câmara Brasileira da Economia Digital.