Sites religiosos e políticos exploram caso de suposto afastamento de diretor de escola de Sorocaba por transfobia

Circula em mídias sociais e sites religiosos a informação que o diretor da Escola Estadual Antônio Padilha, em Sorocaba (SP), foi afastado temporariamente de suas funções após barrar a entrada de uma aluna transexual no banheiro feminino.

De acordo com a publicação, duas alunas teriam reclamado da presença da estudante no banheiro. Após a intervenção, um grupo de alunos acusou o diretor de transfobia e a decisão de afastar o diretor partiu da Secretaria Estadual de Educação (Seduc-SP), que vai apurar a conduta do docente. 

Imagem: reprodução do site Pleno News

A notícia divulgada se repete da mesma forma em todos os sites, seguida de uma suposta nota oficial da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, dizendo que o desfecho do caso acontecerá após uma decisão do Conselho Escolar. Segundo o texto reproduzido, o órgão teria ressaltado que “repudia todo e qualquer tipo de discriminação, racismo ou LGBTQIAP+fobia dentro ou fora da escola”. Em todos os sites e portais não é indicada a fonte para a nota oficial , o nome de algum profissional da Secretaria de Educação ou mesmo da escola estadual. 

A nota também não se encontra no site da Secretaria de Educação. Por telefone, fomos orientados a entrar em contato com a Assessoria de Imprensa da Seduc-SP, que por sua vez respondeu ao e-mail pedindo um telefone para contato. Até o fechamento da matéria, não obtivemos resposta. 

Manifestações de apoio ao diretor

Nas mídias sociais, parlamentares se manifestaram contra o afastamento do docente. O vereador de Sorocaba Dylan Dantas (PSC) defendeu que o diretor não pode ser penalizado. O deputado estadual Douglas Garcia (Republicanos) também se pronunciou.

Douglas Garcia, representante do Movimento Conservador na Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP), publicou no Twitter trecho de seu discurso em plenário sobre a notícia do afastamento do diretor da escola: 

Imagem: reprodução do Twitter

Em seguida, o vereador Dylan Dantas (PSC), Representante do Movimento Conservador em Sorocaba fez duas publicações em seu perfil no Twitter

Imagem: reprodução do Twitter

Os parlamentares reproduzem apenas as notícias divulgadas pelos sites religiosos e não apresentam qualquer fonte ou informação nova que possa ser verificada. 

Homo/Transfobia nas escolas  escolas de Sorocaba e região e resistências 

O artigo “Ensinando a diversidade ou a transfobia. Um panorama da educação sobre diversidade sexual e de gênero nas escolas e sua intersecção com saúde mental”, publicado por Sara Laham Sonetti e Marcos Roberto Vieira Garcia, discute esse tema  no  panorama  nacional de forma mais ampla e na região de Sorocaba, em particular.

Segundo os autores, “a cidade de Sorocaba, embora seja sede de uma região metropolitana e esteja localizada próxima a São Paulo, se configura como um local de intensa propagação de discursos e práticas homo/transfóbicas”. 

Sara Laham e Marcos Roberto Vieira afirmam que: “As  escolas  de  Sorocaba,  infelizmente,  reproduzem  a  falta  de  aceitação  do  respeito  à  diversidade.  Como  veremos  mais  adiante  esse  processo  é  relacionado  à  presença  de  leis  municipais  que  implementam  normas  que  vão  no  sentido  contrário  das  medidas  protetivas,  sendo  em  si, medidas de dano e injúria às pessoas homossexuais e trans, além de reproduzirem erros conceituais, deixando claro o desconhecimento quanto a assuntos relacionados à identidade de gênero e sexualidade dos envolvidos na elaboração e aprovação das mesmas”.

Um exemplo disso, segundo os autores,“é a lei municipal nº 11.185 (SOROCABA, 2015), de 28 de setembro de 2015, que proíbe que o uso do banheiro ou vestiários nas escolas seja de acordo com o gênero com o qual a pessoa se identifica. Essa lei se aplica às escolas que atendem ao ensino fundamental, sejam elas públicas ou privadas. A aprovação desta lei municipal se deu no mesmo ano em que o Conselho Nacional de Combate à Discriminação e Promoções dos Direitos de Lésbicas, Gays, Travestis e Transexuais, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, aprovou uma Resolução versando o contrário, ou seja, garantindo o direito da pessoa frequentar o banheiro referente à sua identidade de gênero. Aprovada  por  15  votos  a  favor  e  03  contrários,  a  referida  lei  é  de  autoria  do  vereador  Irineu  Toleto  (PRB). Pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, o vereador disse que o objetivo da Lei era o de proteger “o psicológico das crianças, já que o ensino fundamental abrange alunos com idade entre 7 a 14 anos”.

O artigo esclarece que, “no mesmo discurso de que não considerar a identidade da pessoa para o uso do banheiro é considerado uma  “proteção”, o “não-falar” sobre  gênero  nas  escolas  também  é  colocado  como  uma  proteção, ao contrário do que apontam os estudos que afirmam a necessidade de se falar sobre gênero justamente para  possibilitar  a  proteção  para  as  crianças  e  adolescentes  que  sejam  ou  virão  a  ser  LGBTs  e  sofrem preconceitos diversos em função disso. Instituir uma lei que negue acesso ao banheiro segundo o gênero com que a pessoa se identifica acaba funcionando como uma educação subliminar contrária ao ensino do respeito, uma vez que é passada a mensagem de que ser trans é algo errado e que deve ser ignorado, corrigido ou punido.”

A respeito de identidade de gênero e a reação popular contra a lei, os autores explicam que, “cabe ressaltar que a expressão “identidade de gênero” foi definida de forma equivocada na referida lei, que afirma que “considera-se identidade de gênero o conceito pessoal, individual, psíquico e subjetivo, divergente  do  sexo  biológico,  adotado  pela  pessoa”.  Ou  seja,  presume-se  que  só  “teria”  identidade  de gênero quem fosse trans e não as pessoas cis. Essa falta de entendimento conceitual chegou aos olhos da Defensoria  Pública  de  São  Paulo,  que  enviou  ao  prefeito  de  Sorocaba  um  ofício solicitando  o  veto à lei  sancionada.  A polêmica acerca da referida lei se iniciou ainda durante a tramitação do projeto, que foi acusado de ser transfóbico e excludente. Houve manifestações populares na Câmara dos Vereadores em Sorocaba, com os movimentos LGBT se posicionando contra tal lei”.

“O prefeito da cidade vetou a lei recém-aprovada em  29/08/2015,  alegando  que  os  órgãos  da  Prefeitura  envolvidos  com  a  análise  do  projeto  foram procurados por segmentos sociais que pediram o veto do texto e que  a Secretaria da Educação local se manifestou sobre o assunto, lembrando que a Constituição prevê que o ensino deve ter como fundamento a igualdade de condições para o acesso e a permanência na escola. No entanto, esses esforços não foram suficientes e o veto foi derrubado em nova votação na Câmara dos vereadores em 22/09/2015, por 16 x 0. Os 3 vereadores que seriam a favor de manter o veto (do PT e PV) não votaram e não se manifestaram a respeito”

“Há  ainda  a  associação  feita  entre  o  acesso  ao  banheiro  a  pessoas  trans  e  possíveis  “abusos” decorrentes disso, no sentido de homens se “aproveitarem” da situação para assediar mulheres, como podemos ver no discurso do autor da referida lei, vereador Irineu Toledo: “O ensino fundamental, que está a cargo do município, vai do 1º ao 9º ano, com crianças de 6 anos a adolescentes de 14 anos. Isso significa que uma menina de 6, 7 ou 8 anos, de  acordo  com  a  portaria  do  governo  federal,  será  obrigada  a  conviver  no  banheiro feminino com um adolescente de 14 anos, bastando que ele, mesmo tendo um aparelho reprodutor masculino, se considere mulher. Como cerca de um em cada cinco estudantes brasileiros,  segundo  dados  oficiais,  estão  atrasados  na  escola  e  muitos  só  concluem o  ensino  fundamental  aos  16  anos,  a  situação  se  torna  ainda  mais  grave:  vamos  ter verdadeiros rapagões usando o banheiro das meninas”.  

“Observa-se que esse discurso inverte radicalmente o que tem sido denunciado por pesquisas e pela militância LGBT, acerca do frequente abuso direcionado às pessoas trans (em especial mulheres) quando são obrigadas a usarem o banheiro de acordo com o gênero que lhes foi designado ao nascerem”.

O que diz o Ministério da Educação

Existem projetos de lei no Congresso que buscam tratar destes temas, como o de nro. 5008/20 que proíbe expressamente a discriminação baseada na orientação sexual ou identidade de gênero em banheiros, vestiários e assemelhados, nos espaços públicos, estabelecimentos comerciais e demais ambientes de trabalho. 

O projeto tramita conjuntamente com outros que tratam de temas semelhantes e aguardam apreciação do Congresso Nacional, portanto, não existe obrigatoriedade do MEC se manifestar sobre o tema.

O processo que está sendo julgado no STF , recurso contra decisão do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, que negou indenização por danos morais a uma transexual que foi impedida de usar o banheiro feminino de um shopping center em 2008, teve o voto dos ministros Luís Roberto Barroso e Luiz Edson Fachin a favor do direito de transexuais usarem banheiros conforme sua “identidade de gênero”, ou seja, como se percebem, (homem ou mulher), independentemente do sexo a que pertencem.

Desta forma, como não existe lei específica do Congresso Nacional ou decisão do Supremo Tribunal Federal, portanto o Ministério da Educação ou a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, não estão obrigados legalmente a manifestar-se sobre a questão. 

O que é transfobia? 

Cotidianamente as pessoas transgênero são alvos de preconceito, desatendimento de direitos fundamentais (como a utilização de nomes sociais e também não conseguem adequar seus registros civis na Justiça), exclusão estrutural (dificuldade ou impedimento à educação, ao mercado de trabalho qualificado e até mesmo ao uso de banheiros) e de violências variadas, de ameaças a agressões e homicídios, o que configura a extensa série de percepções estereotipadas negativas e de atos discriminatórios contra homens e mulheres transexuais e travestis denominada transfobia, diz a Doutora em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações, pela Universidade de Brasília, Jaqueline Gomes de Jesus, em seu artigo “Transfobia e crimes de ódio: Assassinatos de pessoas transgênero como genocídio”.

A transfobia é caracterizada pelo ódio orientado aos transexuais, às pessoas que não se identificam com o seu gênero de nascimento. Tal comportamento pode ser manifestado pela violência física ou verbal contra essas pessoas. 

Em 2019, a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara aprovou o projeto que criminaliza a homofobia e a transfobia (PL 7582/14). O texto pontua crime hediondo o homicídio cometido contra lésbica, gay, bissexual, travesti, transexual, intersexo e demais pessoas trans. 

A proposta inclui no Código Penal o aumento da pena de um a dois terços no caso de o crime ser cometido em razão de homofobia ou transfobia. No entanto, esse aumento de pena só é empregado se a lesão for praticada contra autoridade ou agente público, integrantes do sistema prisional e seus respectivos cônjuges e parentes até terceiro grau.

De acordo com o texto, a ofensa à dignidade e ao decoro em razão de homofobia e transfobia também é considerada crime de injúria. A pena prevista nesse caso é a mesma de ofensa por questões de raça, cor, etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência, com reclusão de um a três anos e multa.

Deve-se considerar que a proposta não prevê injúria punível no caso de homofobia e transfobia quando houver manifestação de crença em locais de culto religioso, salvo quando houver incitação à violência. Portanto, não se sustenta a tese comum alegada por religiosos de que seria cerceamento do direito de crença ou perseguição religiosa, como aparece em postagens em mídias sociais:

Imagem: reprodução do Twitter

Transexuais no Brasil: violência e baixa expectativa de vida

De acordo com levantamento realizado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (Antra) e pelo Instituto Brasileiro Trans de Educação (IBTE), somente em 2020 foram assassinadas 175 pessoas trans, o que representa o segundo maior número de toda a série histórica, pouco abaixo dos 179 registrados em 2017. Os dados constam no Dossiê: Assassinatos e Violência Contra Travestis e Transexuais Brasileiras, 

Os números do levantamento nacional são corroborados pelo relatório do Trans Murder Monitoring de 2019 que apontam o Brasil como o país que mais mata transexuais no mundo. No ano de 2020 o número de assassinatos apontou crescimento e em 2021, como mostra o mesmo relatório, pode-se perceber uma leve diminuição. No entanto, é possível observar diferentes percalços que a população trans atravessa nos diversos espaços da sociedade.

Com o recrudescimento do conservadorismo no espaço público nos últimos anos, uma das esferas que mais se colocou resistente em favor das pautas conservadoras, foi a religiosa. A negação de direitos básicos como saúde e educação continuam sendo tônicas em favor de uma única política de governo que não contempla a todos.

No entanto, também é possível perceber que movimentos de afirmação religiosa e sexual têm procurado se estabelecer na sociedade, com o objetivo de além de servir de lugar de acolhimento, busca também ser um lugar de atuação política, mesmo sob ataques e ameaças, como os sofridos pela pastora e teóloga feminista Odja Barros, da Igreja Batista do Pinheiro, Maceió-AL. A religiosa faz uma leitura popular e feminista da Bíblia e é autora de diversos artigos sobre estes temas. As ameaças de morte vieram após a Odja Barros celebrar, em sua Igreja, a união de duas mulheres.  As ameaças foram prontamente repudiadas pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil – CONIC. 

Igrejas inclusivas e um novo olhar sobre as minorias

Imagens: divulgação

As chamadas igrejas inclusivas, que hoje no Brasil não se configuram mais como uma novidade, vêm abrindo as portas com uma nova proposta de igreja. Revisitando as Escrituras, a teologia inclusiva busca lançar luz sobre as minorias descritas nos textos bíblicos, ao passo que enfatiza o amor como ordenamento divino principal. De acordo com o pastor Marcos Gladstone, advogado, teólogo e também fundador da Igreja Cristã Contemporânea, “Jesus acolheu o leproso, acolheu o pecador, amou incondicionalmente pessoas que a religião descartava e hoje a gente vive isso dentro da Igreja Cristã Contemporânea. A gente vem para o nosso templo viver aquilo que Jesus também viveu ao pregar e acolher aquele que era excluído pela sociedade e, principalmente, pela Igreja. Na ICC não repetimos discursos de ódio e intolerância.” 

Igrejas inclusivas no Brasil como a Igreja Cristã Contemporânea – pioneira no Brasil – , a Cidade de Refúgio, Igreja da Comunidade Metropolitana, Congregação Cristã Nova Esperança, Arena Church Apostólica, Congregação Diante do Senhor, Igreja Apostólica Avivamento Incluso, Igreja Apostólica Novo Templo Internacional, Igreja Deus Vivo InclusivoIgreja Todos Iguais, em sua maioria localizadas no Estado de São Paulo e Rio de Janeiro evocam a diversidade e a liberdade de culto como premissas de suas denominações. 

A Igreja Cristã Contemporânea, ao listar os valores que regem a instituição, afirma que o Evangelho não mudou. A diferença desta igreja em relação às demais evangélicas é o acolhimento à comunidade LGBTQIA+. Quanto às demais doutrinas que regem a fé cristã, existem muitas semelhanças.

A Igreja da Comunidade Metropolitana  afirma ser de tradição protestante, ecumênica e inclusiva. o caráter inclusivo da igreja significa compreender a mensagem de Jesus Cristo de maneira não-fundamentalista, abrindo-se aos estudos e aos conhecimentos sobre a diversidade sexual e de gênero. 

A Arena Church Apostólica se define como uma igreja cristã afirmativa, que acolhe todas as pessoas. Defende que Deus não faz acepção de pessoas, e por isso crê que o amor de Cristo é incondicional e independe de sexualidade ou identidade de gênero.

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De acordo com as informações apresentadas, Bereia conclui que é imprecisa a informação que o diretor da escola estadual foi afastado preventivamente. Não foi obtida, até o fechamento desta matéria, resposta da Secretaria de Educação de São Paulo ao contato feito pelo Bereia, uma vez que a nota oficial não foi encontrada nos espaços digitais disponíveis. Todos os sites religiosos que publicaram sobre o caso divulgam exatamente as mesmas informações, sem fontes ou menções a funcionários públicos e profissionais da Seduc-SP ouvidos ou contatados. 

Embora não exista nenhuma lei ou decisão judicial, ou mesmo portaria do Ministério da Educação ou da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo com referência ao uso de banheiros por alunos e alunas transexuais, o respeito aos direitos das minorias é fundamental para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa, igualitária e democrática e tem sido buscado em várias políticas públicas.

Referências de checagem: 

Ministério da Educação. https://www.in.gov.br/materia/-/asset_publisher/Kujrw0TZC2Mb/content/id/1932471/do1-2018-01-18-portaria-no-33-de-17-de-janeiro-de-2018-1932467 Acesso em: 11 abr 2022.

Jusbrasil. https://nicolarj.jusbrasil.com.br/artigos/662330526/aluno-transgenero-podera-escolher-o-banheiro  Acesso em: 11 abr 2022.

Transrespect. https://transrespect.org/en/ Acesso em: 11 abr 2022.

Câmara dos Deputados.

https://www.camara.leg.br/propostas-legislativas/2264620 Acesso em: 11 abr 2022.  

https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=616270 Acesso em: 11 abr 2022.

https://www.camara.leg.br/noticias/703034-projeto-proibe-discriminacao-ao-uso-de-banheiros-publicos-de-acordo-com-a-identidade-de-genero/   Acesso em: 11 abr 2022.

https://www.camara.leg.br/propostas-legislativas/2255157 Acesso em: 11 abr 2022.

Politize. https://www.politize.com.br/equidade/blogpost/o-que-e-transfobia/ Acesso em: 12 abr 2022.

Igreja Contemporânea. https://www.igrejacontemporanea.com.br/sobre Acesso em: 18 abr 2022.

Igreja da Comunidade Metropolitana. https://www.icmrio.com/a-igreja/quem-somos/ Acesso em: 18 abr 2022.

Arena Church Apostólica http://arenachurch.com.br/ Acesso em: 18 abr 2022.

Catraca Livre. https://catracalivre.com.br/cidadania/marcos-gladstone/ Acesso em: 18 abr 2022.

Artigo. Escola e infância: a transfobia rememorada. https://www.scielo.br/j/cpa/a/xCs6X8XvktzLTCzDFsVygqR/?lang=pt&format=pdf Acesso em: 18 abr 2022.

Artigo. Os cães do inferno se alimentam de blasfêmcia https://econtents.bc.unicamp.br/inpec/index.php/csr/article/view/12598/7974  Acesso em: 18 abr 2022. 

Artigo Ensinando a diversidade ou a transfobia. Um panorama da educação sobre diversidade sexual e de gênero nas escolas e sua intersecção com saúde mental. https://periodicos.feevale.br/seer/index.php/revistapraksis/article/view/1913/2505 Acesso em: 18 abr 2022. 

Glossário de Gênero. https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2018/03/19/glossario-de-genero-entenda-o-que-significam-os-termos-cis-trans-binario.htm Acesso em: 18 abr 2022.

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Imagem de capa: reprodução do site Pleno News

As histórias de fé que ouvi em igrejas neopentecostais

Quando o assunto é igreja evangélica brasileira, o que pensam as pessoas que estão fora dela? E de quem elas lembram? Bispo Edir Macedo (Igreja Universal), Apóstolo Valdemiro Santiago (Igreja Mundial) e Pastor Silas Malafaia (Assembleia de Deus Vitória em Cristo) certamente estão entre as pessoas que vêm à mente de muita gente devido ao poder midiático de suas igrejas.

Sou filho de uma família pastoral com raízes na Igreja Batista Independente (de vertente pentecostal) e passagem pela Renascer em Cristo (uma das maiores promotoras da cultura gospel nos anos 1990 e 2000). Hoje frequento uma Igreja Batista. E fora do que via pela TV, eu conhecia pouco sobre outras denominações com grande poder midiático.

Mas por que as pessoas vão a essas igrejas? Em 2019, foi com essa pergunta que decidi fazer uma pesquisa de iniciação científica cujo objetivo era entrevistar fiéis de três igrejas neopentecostais (Mundial, Universal e Plenitude) e uma pentecostal (Assembleia de Deus do Brás). A maioria delas fica no “Corredor da Fé”, na Avenida Celso Garcia, no bairro do Brás, zona leste de São Paulo. Na época da pesquisa, eram 26 igrejas só naquele endereço. Baseado nas entrevistas que fiz naquele ano, produzi o podcast Histórias de Fé.

A compreensiva resistência ao jornalismo

As reações à chegada de um jornalista variaram. Na igreja do Apóstolo Valdemiro, ter me apresentado como jornalista evangélico fez os fiéis se abrirem mais. Numa entrevista até escutei que, se eu não fosse crente, uma pessoa teria tentado me confrontar e evangelizar. Já nas outras, precisei convencer autoridades religiosas de que não procurava prejudicar as igrejas com as entrevistas. 

A resistência é compreensível. As igrejas evangélicas brasileiras saltaram de 5% a 22% da população entre 1970 e 2010, de acordo os dados do Censo Demográfico do IBGE. Essa é uma grande e rápida mudança em um país de histórica hegemonia Católica Romana. Além disso, a representação desse grupo religioso ainda é carregada de estereótipos (ou até mesmo imprecisões) que eram bem mais fortes em décadas passadas.

É verdade que isso tem sido superado. Exemplo disso é que a Folha de S. Paulo dedicou, em 2019, matéria para os resultados de uma pesquisa do DataFolha. O levantamento concluiu que a “cara típica” do evangélico brasileiro é feminina e negra. Nas igrejas neopentecostais, elas representam 69% dos fiéis.

Mesmo assim, visitar essas igrejas – em especial as neopentecostais – foi confrontar-me com meus próprios preconceitos. Entrevistar fiéis enquanto mantinha opinião crítica à teologia da prosperidade e considerar que, às vezes, as chamadas experiências de avivamento com o Espírito Santo eram exageradas, me obrigou a entender as suas crenças em seus próprios termos.

Entender a fé do outro muda perspectivas

Essa chave muda tudo. Se olharmos apenas para o que acontece nos púlpitos sem acreditar nos programas de TV, a imagem que fica é de bispos e apóstolos que exploram a fé de pessoas pobres e com pouca instrução. Mas se o foco são as pessoas sentadas nos bancos – não meros cases de sucesso que dão testemunho – a situação muda.

No primeiro episódio, conto um diálogo que tive com uma fiel da Universal fora da igreja. Ela diz acreditar que pode obrigar Deus a fazer um milagre acontecer e até me citou que declarou que teria um emprego e conseguiu-o de um dia para outro. Essa crença entra em choque com a tradicional doutrina da soberania de Deus. Mas se oração, dízimos e ofertas não resultarem no milagre, para ela, é porque Deus faz o que quer. Então, o debate que importa não é se uma doutrina clássica e cara a outras tradições evangélicas está em jogo ou não, mas se a fé pregada pela igreja dá resultados.

Mas não só de resultados vive a fé desses evangélicos. O maior exemplo que tive foi minha última entrevistada, na Igreja Plenitude. Elissandra contou que retornou ao evangelho pela Plenitude depois de 22 anos “desviada” (gíria crente que designa quem se converteu e posteriormente deixou a igreja). Pouco depois de ter se batizado, sua filha teve uma doença que afetou toda a pele. Os médicos não achavam solução. A cura veio depois que ela comprou frascos com o sangue do cordeiro e azeite e passou no corpo da filha. “Então, eu não tenho motivo pra sair da igreja. Eu tenho motivo pra permanecer. Pra ficar. Pra ser fiel a Ele. Eu não tenho motivo pra sair. Porque ele me provou quem Ele é na minha vida. Ele me provou que Ele está comigo. E que Ele ouviu o meu clamor, a minha oração, porque eu ajoelhei e pedi pra Ele. E Ele me ouviu e Ele me respondeu no mesmo dia”, explicou Elissandra. 

Apesar disso, toda a sua família questiona sua fé e a chama de macumbeira – um termo muito ofensivo, já que essas igrejas entendem os cultos afro-brasileiros como demoníacos. Mas quando o assunto era o que a mantinha na Plenitude, ela atribuiu sua persistência ao avivamento com o Espírito Santo. Mesmo que a cura da filha tenha sido um sinal de Deus, me pareceu que Elissandra quer bem mais respeito da família do que negociar bênçãos materiais com Deus.

Compreender não significa fechar os olhos para os problemas

Ao final de toda a pesquisa, não deixei de ter sérias divergências com as pregações das igrejas as quais visitei. Discordo da Teologia da Prosperidade e da Guerra Espiritual, defendidas pelas igrejas neopentecostais. Às vezes, a admiração aos líderes das denominações me parece exagero.

Além disso, há um alinhamento institucional e quase acrítico ao Presidente da República Bolsonaro, para dizer o mínimo. Não é por acaso que o voto evangélico foi forte fator para a eleição do capitão. É claro que isso não é exclusividade das igrejas que visitei e os efeitos são prejudiciais tanto para quem é da igreja quanto para quem é de fora dela. 

Em poucos meses como repórter verificador no Bereia cheguei à triste conclusão que, não raramente, líderes evangélicos importantes desistem da verdade para espalhar desinformação, seja para criticar opositores do presidente ou defender o governo. Isso se tornou mais dramático com a pandemia de covid-19. O grande problema disso tudo é: se a igreja evangélica se associar tão fortemente ao governo Bolsonaro, como as pessoas de fora da igreja conseguirão distinguir a diferença entre ser evangélico e ser bolsonarista?

Reconheço que essas igrejas não se encerram nos programas de TV e que chegam nas vidas das pessoas. E mesmo quando discordo, eu entendo os pontos de vista desses fiéis. Qualquer diálogo sério com evangélicos depende de tentar compreendê-los.

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Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

Vídeo em que pastor Silas Malafaia pede “Fora, Crivella!” é usado de forma enganosa

Circula nas mídias sociais vídeo com intervalo entre 15 e 30 segundos em que o pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, Silas Malafaia, diria “Fora, Crivella” em seu programa de TV “Vitória em Cristo”. Bereia verificou que a fala de Silas Malafaia foi editada e tirada do contexto de sua oposição à corrida de Marcelo Crivella a Governador do Estado do Rio de Janeiro nas eleições de 2014. Malafaia tem se declarado neutro nas eleições para a Prefeitura do Rio em 2020, tendo apoiado apenas candidatos a vereança durante o primeiro turno.

A neutralidade de Silas Malafaia no segundo turno foi objeto de análise na coluna Diálogos da Fé do site da revista CartaCapital e foi abordada nas versões impressa e online do jornal O Globo. Nas análises se destaca como as igrejas da Assembleia de Deus e outras vertentes ancoradas em líderes midiáticos, como a de Silas Malafaia, não cederam votos para candidatos da Igreja Universal do Reino de Deus no Rio e em São Paulo (os candidatos da IURD nas cidades eram Crivella e Celso Russomano, respectivamente, ambos do Republicanos). Os votos demonstraram, mais uma vez, que evangélicos não são um bloco monolítico.

Já as críticas de Silas Malafaia contra Marcelo Crivella eram acentuadas nas eleições estaduais do Rio de Janeiro em 2014. Na época, Crivella fora para o segundo turno com Luiz Fernando Pezão (PMDB), e era questionado por Malafaia sobre suas ligações com a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Foram feitas acusações de “mentiroso” de ambos os lados. Um ano depois, Silas Malafaia mantinha a postura crítica pública ao bispo da IURD, só agindo favoravelmente a Crivella ante a ameaça de um segundo turno para a prefeitura da cidade com Marcelo Freixo, em 2016.

Desde então a relação dúbia entre os dois mobilizou a ironia de portais como o Sensacionalista, que fez uma coletânea dos tweets ambíguos de Silas Malafaia, mostrando o “antes e depois” da relação entre os dois pastores. A versão mais completa da declaração de 2014 de Silas Malafaia sobre Crivella pode ser encontrada aqui, em canal do candidato a deputado estadual pelo PSOL, na Bahia, em 2018, David Lopes Machado, sob o título “Silas Malafaia manda recado para Marcelo Crivella em 2014”. Silas Malafaia excluiu o respectivo vídeo de suas mídias oficiais.

O Coletivo Bereia classifica as postagens em mídias sociais que usam um vídeo de 2014, em que o pastor Silas Malafaia critica o candidato à Prefeitura do Rio de Janeiro como se fosse atual, como enganosas.

Trecho de vídeo descontextualizado (print aos 0:14 do vídeo que circula de forma enganosa)

Referências

O Globo, https://oglobo.globo.com/brasil/eleicoes-2020/liderancas-evangelicas-redefinem-apoios-no-rio-em-sao-paulo-no-segundo-turno-24759714. Acesso em: 22 nov. 2020.

A Pública, https://apublica.org/2020/11/silas-malafaia-sobre-esquerda-nao-tem-moleza-e-pau-e-ideologico/. Acesso em: 22 nov. 2020.

CartaCapital, https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/notas-preliminares-sobre-religiao-nas-eleicoes-2020/. Acesso em: 22 nov. 2020.

UOL, https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2020/11/21/crivella-paes-panfleto-fake-news.htm. Acesso em: 22 nov. 2020.

Veja, https://veja.abril.com.br/videos/em-pauta/debate-veja-2o-bloco-a-mistura-entre-politica-e-religiao/. Acesso em: 22 nov. 2020.

Youtube, https://www.youtube.com/watch?v=GnREQ6N_jU4. Acesso em: 22 nov. 2020.

BBC Brasil, https://www.bbc.com/portuguese/brasil-37818301. Acesso em: 22 nov. 2020.

Sensacionalista, https://www.sensacionalista.com.br/2016/10/31/10-tweets-do-malafaia-antes-e-depois-da-vitoria-de-crivella-que-parecem-coisa-do-sensacionalista/. Acesso em: 22 nov. 2020.

Youtube, https://www.youtube.com/watch?v=mI8NIUtt3HI. Acesso em: 22 nov. 2020.

Pastores da Igreja Universal Angola tomaram para si o controle de templos em Uganda

*Com contribuições de Elton Rodrigues

Foi noticiado pelo site Portal do Trono, em 23 de junho de 2020, que pastores da Igreja Universal do Reino de Deus em Angola tomaram para si o controle de templos em várias províncias do país, com rompimento com a direção da denominação aqui no Brasil.

De acordo com o Portal do Trono:

“os dissidentes acusam a presidência da igreja brasileira de promover evasão de divisas, expatriação ilícita de capital, racismo, discriminação, abuso de autoridade, imposição da prática de vasectomia aos pastores e intromissão na vida conjugal dos religiosos.”

O Coletivo Bereia verificou a veracidade deste conteúdo. Segundo a assessoria de comunicação da Igreja Universal, a organização religiosa está hoje presente em 24 dos 54 países africanos. Só em Angola tem 308 templos, conta com 40 mil pastores e aproximadamente 500 mil membros

Os dissidentes afirmam, segundo matéria da revista IstoÉ, que “o bispo Honorilton Gonçalves, ex-vice-presidente da Record, estaria perseguindo, punindo e intimidando bispos e pastores angolanos, com a imposição de vasectomia aos religiosos e abortos a duas esposas”. Por outro lado, representantes da Igreja Universal, por meio de nota, informam que o grupo espalhou “mentiras absurdas, como essa acusação de racismo”, com o objetivo de causar confusão na comunidade angolana.

“Basta frequentar qualquer culto da Universal, em qualquer país do mundo, para comprovar que bispos, pastores e fiéis são de todas as origens e tons de pele, de todas as classes sociais. Em Angola, dos 512 pastores, 419 são angolanos, 24 são moçambicanos, quatro vieram de São Tomé e Príncipe e apenas 65 são brasileiros”.

afirma a IURD em nota à reportagem

Em relação a obrigatoriedade da vasectomia nos religiosos, a Universal alega ser uma fake news “facilmente desmentida pelo fato de que muitos bispos e pastores da Universal, em todos os níveis de hierarquia da Igreja, têm filhos”.

Ao contrário do que foi dito pelos dissidentes, a instituição afirma que estimula “o planejamento familiar, debatido de forma responsável por cada casal”.

A Igreja Universal do Reino de Deus já estava envolvida em controvérsias em Angola e também em outros países africanos. Em janeiro passado, o diretor do Instituto Nacional para Assuntos Religiosos (INAR) de Angola Francisco Castro Maria, tinha admitido a possibilidade de encerrar as atividades da igreja se fossem comprovadas denúncias apresentadas contra lideranças que estavam sendo investigadas pelas autoridades governamentais. Publicada em 28 de janeiro de 2020, destacou que:

O INAR é vinculado ao Ministério da Cultura de Angola e as possíveis punições estão previstas na Lei de Liberdade Religiosa, aprovada em maio do ano passado (Lei n. 12/19). A Procuradoria-Geral da República daquele país abriu dois processos-crime contra a Igreja Universal. O primeiro visa apurar denúncias de atos contra a integridade de religiosos angolanos, como vasectomia forçadas. O segundo, investiga denúncias sobre envio de dinheiro ao exterior ilegalmente. Além disso, em novembro de 2019, mais de 300 pastores angolanos já tinham se rebelado contra a Igreja Universal. Eles divulgaram um manifesto com duras críticas à instituição e ainda levaram denúncias à Justiça angolana.

Bispo Honorilton (Reprodução: Youtube)

De acordo com matéria da RFI África, Pastores criticavam veemente a pressão da igreja para que se submetessem à cirurgia de vasectomia. “Não encontro respaldo bíblico para isso e não concordo. Não faz parte dos costumes do povo africano. Não é nossa cultura ficar sem ter filhos, sem procriar. Isso significa amor para vocês, brasileiros?”, questionou Nilton Ribeiro, missionário que disse já ter dedicado 27 anos de sua vida à Igreja.

A Igreja Universal, ainda em nota oficial, negou a acusação de perseguição aos pastores angolanos ao afirmar que

através do seu conselho disciplinar, avaliou a conduta e quebra de decoro dos mesmos junto à instituição. Alguns pastores foram desligados por desvio de conduta moral e quebra do estatuto da Igreja. Sobre a suposta perseguição, trata-se de falácias para tentar encobrir o real motivos dos seus desligamentos. Os pastores da Igreja Universal utilizam os bens da igreja para o trabalho do Evangelho. A partir do momento em que os mesmos são desligados da instituição, a Igreja deve ser ressarcida desses bens para que sejam direcionados a outros pastores no trabalho de ganho de almas”.

De acordo com publicações recentes da BBC Brasil, o governo Bolsonaro foi pressionado para agir em favor da igreja brasileira no conflito angolano. As movimentações no Congresso Nacional para buscar apoio político partem do próprio presidente Jair Bolsonaro, do ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e do embaixador do Brasil em Angola, Paulino Franco de Carvalho Neto.

A IURD na África e o histórico de conflitos

A Igreja Universal do Reino Deus estabeleceu-se na África em 1992, inicialmente em Moçambique. Está presente atualmente em 24 países no continente, com cerca de 450 templos.

Nos países de língua portuguesa, a igreja foi inserida em um contexto pós-guerra civil, em que as pessoas estavam fragilizadas e com inúmeros problemas como a pobreza. Nesse sentido, tornou-se um terreno fértil para adesão de pessoas, tese reforçada pela pesquisadora social moçambicana Teresa Cruz e Silva, da Universidade Eduardo Mondlane, em entrevista à DW.

Templo da Igreja Universal em Nampula, Moçambique. (Foto: DW/Reprodução)

Em 2018 foram encerradas 700 igrejas em Ruanda. O governo local alegou que os estabelecimentos religiosos não tinham as condições mínimas de segurança e higiene para receberem os fiéis. Por outro lado, Phil Clark, pesquisador do Centro de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres (SOAS), em depoimento ao DW, acredita que há outro motivo para além da “proteção dos fiéis” para a ação: trata-se do medo de que o poder crescente dos religiosos possa influenciar a política.

“O Governo ruandês notou que essas igrejas também são um ‘negócio’, com poder econômico crescente. Esse poder é visto pelo grande número de fiéis que frequenta igrejas aos domingos de manhã, por exemplo. E esse é o tipo de coisa que o Governo quer conter”,

Phil Clark à DW
Igreja em Kigali (Foto: Getty Images/reprodução)

Em 2019, a BBC noticiou “Revolta contra Igreja Universal gera morte e crise diplomática em país africano”. Na ocasião, a cúpula da Igreja Universal tentou conter uma revolta popular que provocou a depredação de vários templos da igreja e a morte de um adolescente em São Tomé e Príncipe, um dos 23 países africanos onde a denominação brasileira está presente.

O imbróglio teve início ainda em 11 de setembro de 2019, quando um pastor são-tomense da Universal foi preso na Costa do Marfim, acusado de ser o autor de mensagens que denunciariam supostos abusos da igreja contra funcionários africanos.

Os textos atribuídos a ele acusavam a Igreja Universal de privilegiar pastores brasileiros e discriminar clérigos africanos. Segundo conteúdos postados em mídias sociais, a Universal impedia muitos pastores africanos de se casarem ou os obrigava a fazer vasectomia para que não tivessem filhos — assim, poderiam se dedicar integralmente à igreja. Polêmica que, em 2020, mais uma vez, teve destaque pelos meios de comunicação.

O autor também acusava bispos e pastores brasileiros de se apropriarem de valores financeiros recebidos pela igreja, além de “humilhar, insultar, esmagar e escravizar os (pastores) africanos”. Segundo o banco de dados da CIA, a agência de inteligência dos EUA, 2% dos são-tomenses frequentam a Igreja Universal. Sobre o caso da vasectomia, a Igreja afirmou que “o que a Universal estimula é o planejamento familiar, debatido de forma responsável por cada casal”.

Sobre o caso de Angola, em novembro de 2019, já havia sido noticiado pela BBC Brasil que “Pastores da Universal em Angola romperam com Edir Macedo e pedem expulsão de bispos brasileiros”. Em um movimento sem precedentes, pastores angolanos da Igreja Universal anunciaram uma ruptura com o fundador, bispo Edir Macedo, e com o restante da liderança brasileira da igreja, acusando-a de desviar recursos para o exterior, discriminar funcionários locais e de promover a esterilização de sacerdotes africanos.

Os casos polêmicos já vinham acontecendo naquele país desde 2013, quando a Universal foi suspensa temporariamente após 16 pessoas morrerem pisoteadas num culto da igreja.

Bereia classifica a notícia sobre pastores da Igreja Universal do Reino de Deus na Angola terem tomado o controle de templos para si em várias províncias do país, rompendo, assim, com a direção da denominação aqui no Brasil, como verdadeira.

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Referências de checagem

Portal do Trono. Bispos rompem com Edir Macedo na Angola e tornam Universal independente. Disponível em: https://www.portaldotrono.com/bispos-rompem-edir-macedo-igreja-universal-angola/ Acesso em 23 de julho de 2020

BBC. Revolta contra Igreja Universal gera morte e crise diplomática em país africano. Disponivel em: <https://www.bbc.com/portuguese/amp/brasil-50270551>. Acesso em: 08 de julho de 2020.

Gospel Mais. Líderes da Igreja Universal em Angola são expulsos dos templos por pastores locais. Disponivel em: <https://noticias.gospelmais.com.br/angola-lideres-igreja-universal-expulsos-templos-pastores-136577.html>. Acesso em 08 de julho de 2020

DW. A Igreja Universal do Reino de Deus e o “mercado da fé” em África. Disponível em: <https://amp.dw.com/pt-002/a-igreja-universal-do-reino-de-deus-e-o-mercado-da-f%C3%A9-em-%C3%A1frica/a-36930141>. Acesso em 08 de julho de 2020

Abril. Uma revolta dos fiéis da África contra a Igreja Universal. Disponivel em: <https://veja.abril.com.br/religiao/a-revolta-dos-fieis-da-africa-contra-a-igreja-universal/amp/>. Acesso em 08 de julho de 2020

DW. “Encerramento de 700 igrejas no Ruanda é um ato político”, diz especialista. Disponivel em: <https://amp.dw.com/pt-002/encerramento-de-700-igrejas-no-ruanda-%C3%A9-um-ato-pol%C3%ADtico-diz-especialista/a-42795460> . Acesso em 08 de julho de 2020.

Istoé. Bispos e pastores da Universal da Angola assumem gestão de unidades após rescindir com liderança no Brasil. Disponivel em:<https://istoe.com.br/bispos-e-pastores-da-universal-de-angola-assumem-gestao-de-unidades-apos-rescindir-com-lideranca-no-brasil/>. Acesso em 08 de julho de 2020

Uol. Sob investigação, Igreja Universal pode ser expulsa de Angola. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/rfi/2020/01/28/igreja-universal-pode-ser-expulsa-de-angola.amp.htm>. Acesso em 08 de julho de 2020.

Bispo Macedo, Covid-19 e a cloroquina

As influências do líder religioso mais poderoso do país durante a pandemia do novo Coronavírus

Na sexta-feira, 12 de junho, jornais de todo o país surpreenderam fiéis e seguidores do Bispo Edir Macedo, após a divulgação de uma nota oficial anunciando a cura do líder e fundador da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) do novo Coronavírus (Covid-19).

Segundo a nota, após o diagnóstico positivo, ele teria sido internado na segunda-feira, 08 de junho, no Hospital Moriah, em São Paulo.

Portador de doenças crônicas como diabetes e hipertensão, o bispo de 75 anos faz parte do grupo de risco, tornando-se mais suscetível a complicações. 

Durante a hospitalização, o líder religioso teria sido tratado com um coquetel de medicamentos que incluía a cloroquina.

Dr. Leandro Echenique
(Reproducão/ Instagram)

“Tomei todos os medicamentos indicados pelos médicos, entre eles a hidroxicloroquina, e estou bem“, afirmou Macedo.

De acordo com a equipe médica coordenada pelo cardiologista dr. Leandro Echenique e o urologista Dr. Ricardo Teixeira, Edir Macedo respondeu muito bem ao tratamento.

“Ele evoluiu sem intercorrências, apresentou uma ótima evolução clínica e se recuperou totalmente“, disse o cardiologista Leandro Echenique.

Edir Macedo Bezerra recebeu alta médica na sexta-feira, 12 de junho, após passar cinco dias internado.

Repercussão

A notícia de que Macedo foi contaminado pela Covid-19 começou a circular na noite de quinta- feira (11). De acordo com o portal da Revista Fórum, ao serem questionados, superiores da Record negavam a informação.

Todavia, o jornalista Erlan Bastos, do Portal Meio Norte, deu a notícia com exclusividade e adendos. Segundo o jornalista, o religioso estaria tentando manter sua internação totalmente em sigilo, usando o pseudônimo Josué, para não ser reconhecido nem exposto pela imprensa.

Após publicar no Twitter a notícia, o jornalista sofreu ameaças de fiéis que não acreditavam na veracidade da informação.

Com a ampla divulgação da internação e cura de Edir Macedo, vídeos e questionamentos rondam as redes sociais sobre a veracidade do caso.

Em resposta, o Bereia entrou em contato com a assessoria de comunicação do hospital solicitando uma nota sobre a internação do paciente. Segundo a assessoria, o Hospital segue o pedido de privacidade dos pacientes. E como o Sr. Edir já teve alta, não temos como dar nenhuma informação, apenas que passou pelo Hospital e teve alta.

Devocional é mantido durante internação

Observamos que, ao longo da semana de internação, as mensagens diárias de exposição bíblica feitas pelo bispo e transmitida através de suas redes sociais foram gravadas em um ambiente distinto do habitual. Aparentemente, o cenário atual mostrava a imagem de um biombo como plano de fundo. O que difere dos espaços anteriores com paisagens e um requintado escritório com fotos da família Macedo. 

No primeiro vídeo, datado no dia 8 de Junho, supostamente o primeiro dia de sua internação, o bispo aparece em uma imagem desfocada e visivelmente desconfortável, se inclinando sobre a câmera para enviar a mensagem bíblica com o tema “aflição”, citando o Salmos 119:71: 

Foi-me bom ter sido afligido, para que aprendesse os teus estatutos “ 

Nos dias subsequentes, o cenário continuou o mesmo até sábado, 13 de junho. No domingo (14), em um cenário com quadros, Bispo Macedo agradeceu o carinho e revelou não ter sofrido muitas alterações durante a semana de internação, exceto “cansaço e falta de apetite”.

“Olá, meus amigos. Muito bom dia. Deus abençoe a todos vocês, como tem abençoado a mim. Eu gostaria de agradecer o carinho imenso, o amor e a atenção de todos aqueles que nos têm querido bem. Então, nós só esperamos que Deus possa recompensar a cada um de vocês, de acordo com o que Ele tem nos recompensado. Eu gostaria que você soubesse, minha amiga, meu amigo, que durante esses dias, essa semana toda, praticamente em convalescença. Quer dizer, recuperando, mas tomando os devidos cuidados, as devidas precauções, por orientações médicas. Você sabe, a gente já não é mais criança, nós temos já 75 anos, então essa idade já é um pouco delicada. Mas Deus tem nos guardado. Guardou a Ester, guardou as meninas, guardou os nossos colegas, Graças a Deus. 

“O que tenho aprendido com essa situação que nós vivenciamos é que tudo coopera para o bem daqueles que amam a Deus”, disse sorrindo. 

E continuou: “A gente fica irritado, a gente come menos, não quer comer nada. Eu não senti grandes ‘transformações’, só falta de apetite e um pouco de cansaço, por conta da situação do Coronavírus. Mas o que eu tenho pra dizer pra vocês é isso: Deus é grande, Graças a Deus. E uma das coisas que mais tem acentuado pra mim são os detalhes que Deus nos dá. Você não tem ideia de como, eu sempre valorizei muito, muito mesmo, o sol. Mas nunca valorizei tanto quanto nos últimos dias. O sol à pino. É como se Deus estivesse sorrindo pra mim, muito legal, mas muito legal mesmo”,  disse o Bispo sorrindo e continuou “Ele me abraçando, me protegendo, Ele me dando o seu calor e me dizendo: Eu estou aí com você, Graças a Deus.” 

“Então, minha amiga, meu amigo, fique firme porque o sol da justiça nunca, jamais, em tempo algum, vai enfraquecer. Ele sempre estará presente. Observe o sol. Hoje não tá um sol legal, hoje tá um tempo ruinzinho aqui em São Paulo, um ventinho frio, mas o sol vai sair, se não sair hoje, logo mais sai amanhã ou logo mais, mas ele vai se fazer presente, como se fosse Deus na nossa vida, brilhando pra gente, muito legal. Que Deus te abençoe, minha amiga, meu amigo, fique firme, você que tá passando nesse momento um tempo difícil, fique firme, porque Ele é com você, tanto quanto é comigo. A palavra dele não falha. Deus abençoe e tenha um excelente dia, no nome de Jesus”, concluiu. 

Posicionamento de Edir Macedo sobre a Covid-19

Antes mesmo das autoridades e órgãos de saúde se posicionarem sobre a pandemia do novo Coronavírus, a IURD publicava em seus canais midiáticos, textos e vídeos com chamadas apocalípticas sobre o “fim dos tempos” em relação ao Coronavírus na China.

No início da pandemia, o bispo Edir Macedo publicou um vídeo em 15 de março, no qual minimizava a gravidade do novo Coronavírus e afirmava que a pandemia era uma “tática de Satanás”, uma estratégia da mídia “para apavorar as populações e nações”. Para reforçar seus argumentos, o bispo compartilhou a gravação de um vídeo do médico patologista Beny Schmidt, que diz que o vírus não é patogênico nem letal. Essas informações, no entanto, vão contra evidências científicas e dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) que, até aquele momento, apontava que 3,9% dos casos já registrados da doença resultavam em morte.

Meu amigo e minha amiga, não se preocupe com o Coronavírus. Porque essa é a tática, ou mais uma tática, de Satanás. Satanás trabalha com o medo, o pavor. Trabalha com a dúvida. E quando as pessoas ficam apavoradas, com medo, em dúvida, as pessoas ficam fracas, débeis e suscetíveis. Qualquer ventinho que tiver é uma pneumonia para elas”, afirmava Macedo.

Após a polêmica em torno do vídeo e a exclusão feita pelo médico que o apoiou, a gravação foi retirada da plataforma,

Posicionamento da IURD sobre a Covid-19

Em 17 de março, após o polêmico vídeo envolvendo o bispo Edir Macedo, Renato Cardoso, responsável pela igreja em todo o mundo, desde 2017, genro de Edir Macedo e apresentador do programa The Love School, gravou um vídeo declarando o posicionamento da Igreja Universal sobre o novo Coronavírus. 

Em um dos trechos (18’10”), Renato disse que “o pior vírus é o medo que gera o pânico e problemas maiores”.

O porta-voz da Igreja declarou a aliança entre a Igreja Universal e o governo Bolsonaro (11’20”). Posicionando-se de tal forma que, suas palavras eram similares ao discurso de ministros que estavam na linha de frente:

“Primeiramente, quero falar da Igreja como aliada do governo. A igreja como aliada das autoridades (…) vocês devem ver a Igreja como aliada da sociedade às causas do governo. Eu sei que o governo está preocupado. O Brasil e o mundo estão à beira de um colapso comercial, parcialmente por causa deste pânico que está se alastrando e o governo quer prevenir esse colapso comercial ao mesmo tempo que, quer prevenir esse colapso do vírus.  Então, é um equilíbrio difícil a ser alcançado. É como uma balança. Como deter a contaminação do virus e não permitir que o país vá à falência?Não é um equilíbrio fácil.  Aí que a Igreja pode ajudar. Sabe porquê? Porque o povo da Igreja ouve a voz do pastor. O povo da igreja ouve a voz do seu líder religioso.  Seja o padre, seja o pastor, seja o monge, seja quem for, eles ouvem a voz dos seus líderes. Então, vocês precisam pensar se é inteligente cortar o contato dos líderes religiosos com os seus membros”.

Na época, fazendo coro com o governo e líderes neopentecostais, os principais pastores midiáticos, próximos da bancada evangélica, se opuseram ao fechamento das igrejas e negavam os riscos do Coronavírus.

Testemunho de cura na IMPD (Reprodução/ Instagram)

Em 24 de março, o membro da família Macedo, Bispo Renato Cardoso, voltou a declarar o posicionamento da Igreja, mas agora com um tom apocalíptico.

Em nota, a Igreja Universal disse que serviços religiosos foram considerados essenciais por decreto presidencial e que está tomando medidas de “cautela sanitária”, como oferecer álcool em gel e pedir para que os fiéis sentem longe uns dos outros nos locais onde os cultos estão sendo realizados — suspensos nos Estados que os proibiram.

“Nas localidades onde está proibida a realização de cultos em templos religiosos, a Universal está aberta apenas para orações individuais e auxílio espiritual, e observando todas as cautelas sanitárias”, diz a igreja.

Quem “inventou” o Coronavírus?

Logo no início de abril, em uma de suas palestras para casais, Cardoso brincou com a esposa no púlpito do Templo de Salomão dizendo ter “descoberto quem inventou o Coronavírus“, para a surpresa e constrangimento da esposa: 

“Só pode ter sido uma mulher que inventou o Coronavírus”, disse o bispo rindo.

“Só pode ter sido uma mulher, porque conseguiram cancelar o futebol, fechar os bares e manter os maridos em casa, só  pode ter sido uma mulher que inventou”, disse rindo, enquanto a esposa e herdeira de Macedo, Cristiane Cardoso, ria em silêncio.

Segundo o líder, “o bom humor é a válvula de escape para os estresses que inevitavelmente vem com o relacionamento. Então, decida não se deixar levar pelas más notícias e mantenha o bom humor”.

Hospital Moriah

Braço comercial da operadora de saúde da IURD

Segundo a biografia “O reino: A história de Edir Macedo e uma radiografia da Igreja Universal”, escrita por Gilberto Nascimento, o bispo transcendeu “o cuidado com as almas, passando a se preocupar com a salvação dos corpos”. Isso porque, o empresário passou a oferecer serviços médicos hospitalares, “fazendo disso uma nova fonte de renda e economia”. 

“A Universal controla a operadora de plano de saúde “Life Empresarial Saúde”. Funcionários da Record, bispos e pastores usam o convênio médico”. Segundo o livro, “o desejo de Macedo é transformar a Life numa gigante do setor”.

“No mercado desde 2002, a empresa, dirigida pela médica e fiel da Universal Eunice Harue Higuchi, possuía 31,6 mil beneficiários. A operadora pretende contar com uma rede nacional de hospitais, sendo o primeiro deles inaugurado em São Paulo, em 2015, na antiga sede da Record, em Moema, próximo do aeroporto de Congonhas”.

Antes e depois do atual Hospital Moriah

Seguindo a estratégia de aproximar o Hospital de elementos da Universal e símbolos do judaísmo, Macedo deu o nome do hospital de “Moriah”, em alusão a colina rochosa onde o Rei Salomão construiu o templo para Deus e Abraão ofereceu o seu filho, Isaque, como sacrifício. Além de pontuar como seus valores o atendimento humanizado com enfoque no “amor ao próximo”, utilizando do versículo bíblico como orientação de atendimento.

Um ano antes, em 2014, foi inaugurado “O Templo de Salomão, considerado o segundo maior templo da América Latina.

Os investimentos na construção do Moriah totalizaram R$105 milhões de reais. A meta é faturar R$500 milhões ao ano. Inicialmente com 52 leitos, 31 deles são eletivos, 5 salas cirúrgicas, sendo uma delas híbrida; 11 de UTI e 10 leitos no pronto atendimento, além de 6 salas para consultas eletivas. Com equipamentos de última geração, o principal foco de atuação são as cirurgias de alta complexidade nas áreas de neurologia, cardiologia e ortopedia. Além do tratamento especializado em urologia e próstata.

Com capacidade para 5.000 atendimentos e 450 cirurgias por mês, o Hospital segue os padrões internacionais de tecnologia e segurança, sendo considerado um dos mais modernos do país.

Destaca-se o projeto arquitetônico do local, revestido por uma abóbada em vidro, que lembra arranha-céus do Emirados Árabes.

O Hospital-Hotel é um dos primeiros no Brasil a oferecer serviços “conceito 5 estrelas”, exclusivo para pacientes do exterior em busca de tratamento no Brasil. Oferecido a empresários, políticos, médicos e líderes influentes de países africanos.

Em denúncia feita por um ex-pastor da Universal, o Hospital Moriah  junto a outros hospitais de alta complexidade, como Albert Einstein e Sírio Libanês, teria isenção tributária caso realizasse atendimento filantrópico para pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). Todavia, o Hospital teria se recusado a atender pessoas “pobres”. O pastor relembra que era cobrado o pagamento de R$ 100 reais por pastor, porém, funcionários da igreja, como obreiros e pastores não podiam utilizar os serviços prestados pelo Hospital.

https://www.instagram.com/p/1MgaoMnlsN/?igshid=1xcqcmq11djez
Inauguração do Hospital (Reprodução/Instagram)

De acordo com o manual de contratação, a fé e a espiritualidade é um dos principais requisitos para a admissão. Logo, a maioria dos funcionários são fiéis da Igreja Universal. Além de frequentemente realizarem no complexo hospitalar congressos internacionais, palestras e estudos sobre medicina que envolvem a fé, como o evento “Jornada de Fé e Ciência” (AMEC) que reuniu profissionais de saúde cristãos.

Professores e cientistas renomados, das mais importantes universidades brasileiras realizam procedimentos cirúrgicos, aulas e palestras no Hospital Moriah. 

Ao todo, o grupo Life Empresarial Saúde também conta com uma unidade de atendimento ambulatorial com diversas especialidades e uma clínica especializada no tratamento de dores em São Paulo.

Em fevereiro deste ano, a empresa  Teixeira Duarte Engenharia e Construções foi responsável pela obra de expansão do Hospital Moriah, em São Paulo, e entregou recentemente o centro cirúrgico totalmente reformado e modernizado. 

Desde o início da pandemia, o hospital é considerado referência na prevenção do Coronavírus, com alas exclusivas para pacientes infectados. 

Ala específica para atender pacientes com Coronavírus (Reprodução/ YouTube)

Em agosto de 2009, com a suspeita de ser uma “empresa laranja” por ser  associada ao Grupo Universal, o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) – do Ministério Público de São Paulo – pediu à Justiça a quebra dos sigilos fiscal e bancário de todas as empresas e pessoas ligadas ao grupo Universal citadas em uma investigação da Receita estadual paulista, investigando assim, as empresas do religioso mais rico do país, incluindo a Life Empresarial Saúde.

Até o momento, a Life Empresarial Saúde soma quase 200 processos judiciais, muitos deles, oriundos de funcionários da Record TV que alegam práticas abusivas da emissora sobre a obrigatoriedade do pagamento do convênio de saúde suplementar. 

Durante o ato de homologação das demissões na sede do Sindicato dos Trabalhadores em Rádio, TV, e Publicidade da Bahia (Sinterp/BA), a coordenação tomou conhecimento de mecanismos de desprestigio e constrangimento aos funcionários, entre as quais: inabilidade do setor de Recursos Humanos; e preços abusivos do plano de saúde “Life Empresarial”que pertence ao próprio grupo da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD).”

Funcionários se queixam dos planos de saúde, considerados abaixo dos planos básicos das concorrentes, com poucas opções de hospitais e médicos, quanto de laboratórios.

Em contato com a assessoria de comunicação do hospital, o Bereia confirmou os dados citados acima, incluindo a internação do líder espiritual:

Sim, ele esteve internado no Moriah. O nome Moriah é apenas uma menção ao Monte Moriah, em Israel. O Hospital Moriah faz parte do Grupo Life Empresarial, que faz parte da Igreja Universal, assim como a Rede Record.

A cloroquina, Edir Macedo e Jair Bolsonaro

Imagem em inglês que diz “Deus salve a Cloroquina” (Reprodução/ Instagram)

Macedo foi tratado com um coquetel de medicamentos que incluía a cloroquina — como defende o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o novo protocolo do Ministério da Saúde — e está “completamente recuperado da doença”.

Após a alta e melhora do bispo, domingo (14), o Ministério da Saúde informou na segunda-feira (15) que ampliaria as orientações de uso da cloroquina e da hidroxicloroquina para o tratamento precoce da Covid-19.

Neste contexto, a figura de um líder religioso de destaque no Brasil faria toda a diferença na divulgação do medicamento. Dono da segunda maior emissora do país, a IURD tem mais de oito milhões de fiéis em mais de 180 países.

Logo, é perceptível que os posicionamentos do bispo Edir Macedo e da IURD sobre a Covid-19 e o uso da cloroquina estão alinhados com as opiniões de Jair Bolsonaro. No início da quarentena, no dia 21 de março, Bolsonaro anunciou em uma de suas lives: “Decidimos que os laboratórios químicos e farmacêuticos do Exército devem ampliar imediatamente a produção desse medicamento [cloroquina]”. 

Em 23 de março, o Laboratório Químico Farmacêutico do Exército (LQFEx) começou a produzir a cloroquina em larga escala. Segundo a Revista Veja, a média da produção do laboratório do Exército era em torno de 200 e 250 mil comprimidos a cada dois anos, já que ela era voltada ao consumo interno e para combater a malária. A nova meta de produção, em meio à pandemia, é o de 1 milhão de comprimidos por semana.

Em 25 de Março, o governo federal zerou o imposto de importação da cloroquina através da resolução nº 22/2020. Em sua conta no Twitter, o presidente explicou que a medida visa facilitar o combate ao novo coronavirus (Covid-19) e que os medicamentos são para uso exclusivo em hospitais e para pacientes em estado crítico”

No dia 31 de março, ele repetiu a promessa em rede nacional, dizendo ter ordenado “a fabricação de 1 milhão de comprimidos em 12 dias, de cloroquina, pelo Exército”,

No mesmo dia, em sua conta no Facebook, o presidente anunciou que o reajuste do valor dos medicamentos  seria adiado por dois meses, em razão da pandemia do novo coronavírus, após acordo com a indústria farmacêutica. 

De acordo com a Revista Carta Capital “antes de demitir Luiz Henrique Mandetta, o presidente Bolsonaro conseguiu dele um protocolo de prescrição da droga para pacientes do SUS em estado grave. Em 7 de abril, a autorização se estendeu a todos os pacientes internados. Mandetta caiu dez dias depois.”

Em uma matéria realizada no dia 17 de Abril, o Hospital  Moriah, usado como fonte frequente nas pautas do jornalismo da Record TV, revelou a cura do Coronavírus em pacientes que usaram a hidroxocloroquina. Mesmo sem estudos comprobatórios sobre sua eficácia, o medicamento é administrado no hospital de Edir Macedo, em pacientes com Covid-19 em “casos leves”. No dia, o Jornal da Record teve uma média de 9,9 pontos na audiência.

No mesmo dia, a agência Lupa desmentiu várias  informações falsas sobre o medicamento.

No Brasil, há 53 estudos registrados na Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) que analisam os efeitos da cloroquina a retrovirais, além de outras tecnologias como plasma sanguíneo e células tronco, em pacientes com Coronavírus.

Duas empresas privadas fabricam a cloroquina no Brasil: a EMS produz a versão genérica — a patente da cloroquina venceu há décadas. O grande desafio da EMS, que foi pioneira no setor de remédios genéricos no Brasil, é alcançar isoladamente a liderança no segmento que ajudou a desenvolver no País. Em uma briga de gigantes, a  também brasileira Medley, comprada pelo grupo francês Sanofi-Aventis por R$ 1,5 bilhão, em abril de 2009, lidera nessa área com 32,67% de participação.

Após várias declarações do uso da cloroquina pelo presidente norte-americano, apurou-se que Trump tem uma pequena participação financeira na Sanofi, empresa francesa que é uma das maiores fabricantes do medicamento. Além disso, uma das principais acionistas da Sanofi é uma empresa administrada por Ken Fisher, grande doador do Partido Republicano.

A outra empresa brasileira é a Apsen farmacêutica, com Renato Spallicci no comando, um ferrenho aliado de Jair Bolsonaro. Segundo a revista Exame, um plano emergencial foi feito para triplicar a produção do Reuquinol, com turnos extras nos fins de semana, mesmo sem comprovação de eficácia contra o Covid-19.

Ou seja, o estímulo ao consumo da cloroquina decorre da produção em massa do produto, feita por empresas aliadas ao governo e dos militares, através dos laboratórios das Forças Armadas.

Live do Presidente- ( Reprodução/ Facebook)

Em artigo escrito na Revista Questão de Ciência aponta que:

“à medida que a evidência científica de que o uso de hidroxicloroquina (HCQ), com ou sem o antibiótico azitromicina (AZ), no combate à COVID-19 em pacientes hospitalizados é, na melhor das hipóteses, inútil – quando não perigoso –, os apóstolos fervorosos da cura mágica abraçam, com gosto, uma manobra clássica do repertório das pseudociências: mudam de alegação, adotando uma que confunde com mais facilidade. No caso, a de que a combinação HCQ+AZ funciona sim, mas requer uso precoce, “bem no início dos sintomas”, antes que se faça qualquer exame diagnóstico.”

No dia 1º de junho, Jair Bolsonaro autorizou o reajuste nos preços dos medicamentos em até 5,2%. O aval foi publicado em edição extra do “Diário Oficial da União”

Segundo o jornalista Jamil Chade,”nas últimas semanas, o governo brasileiro chegou a comemorar a decisão da Casa Branca de destinar ao Brasil duas milhões de doses do remédio, enquanto o assessor de Jair Bolsonaro, Arthur Weintraub, sugeriu que “um tribunal de Nuremberg fosse estabelecido contra as pessoas que se recusarem a receitar o remédio”. 

Curiosamente, no início do ano, Nelson Mussolini, presidente executivo do Sindicato da Indústria Farmacêutica do Estado de São Paulo (Sindusfarma) disse:

Nosso setor é o último a entrar na crise e o primeiro a sair dela

Com o avanço da descoberta dos corticoides, na última semana, os Estados Unidos colocou fim aos estudos com hidroxicloroquina. De acordo com o Instituto Nacional de Saúde do país, o medicamento, elogiado por Donald Trump, não traz benefícios ao tratamento.

No Brasil, o cenário é outro, com a desistência internacional da cloroquina, a corrida agora é contra o prazo de validade, já que se acumulam caixas e mais caixas de produção do remédio. Sob a ajuda de Macedo e o pico da pandemia no país, médicos relatam que estão sendo ameaçados por não receitarem cloroquina.

A cura espiritual versus a cura pela cloroquina

A notícia da cura de Edir Macedo repercutiu na mídia nacional e internacional de modo que, em resposta ao COVID-19,  o milagre seria a cloroquina.

Com base na análise das representações sociais da doença e da cura divina, compartilhadas pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), cujo líder é o bispo Edir Macedo, sua postura e aderência ao uso da hidroxocloroquina difere da busca pela cura espiritual promovida nos cultos de exorcismos, terapêuticos e metafísicos da Igreja Universal.

A IURD está presente em 23 países africanos e a postura de Macedo foi questionada no artigo “E a água” escrito no jornal africano “O Pais“, ao ironizarem onde está o poder da “fogueira santa, a água que cura”. 

Segundo uma pesquisa recente do instituto Datafolha, os evangélicos continuam sendo um dos grupos em que Bolsonaro tem aprovação. E, embora a maioria dos evangélicos no Brasil seja a favor das medidas preventivas, o índice dos que são contra o isolamento e acham que a população deve sair para trabalhar (de 44%) é maior entre esses religiosos do que na população em geral (37%).

Em entrevista a BBC, o sociólogo Clemir Fernandes, do Instituto de Estudos da Religião (Iser), diz que os fiéis usam notícias cientificas para acreditar na eficácia do remédio:

“Muitas das pessoas que defendem o uso da cloroquina (remédio que está sendo testado e ainda não tem eficácia comprovada) compartilham pesquisas que foram feitas com a substância, por exemplo”, diz ele. “Se fosse uma descrença total por causa da religião, isso não aconteceria. Ou seja, é problema muito mais de posicionamento político e ideológico do que a dificuldade em encaixar a ciência com a espiritualidade.”

Portanto, Bereia conclui que, em meio à uma tríade de apoiador contumaz do governo, o empresário e líder espiritual, Bispo Macedo encabeça o papel daqueles que apoiam as políticas públicas com interesses, como citado no texto “Quando líderes religiosos barganham no mercado político”, de Magali Cunha:


“Em nome do negócio político, os olhos dos religiosos se fecham às injustiças do governo e às necessidades da população enquanto os valores da tradição cristã são relativizados.

Ainda segundo a  reportagem feita pela Pública, a aliança de Edir Macedo com Bolsonaro envolve a presidência da Câmara, cargos no governo e perdão de dívidas às igrejas.

Mas o que vemos é que vai além. O poder da cura não está mais em Cristo, mas na cloroquina. Como empresário que improvisa soluções “paliativas”, o poder está na reabertura das igrejas e no consumo da fé e, por último, o Coronavírus já não é mais uma “tática satânica”, ela é apenas uma gripe que dura uma semana e já tem medicamento para curá-la. 

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Referências de checagem:

Nota – IURD – Edir Macedo vence a Covid-19 e rece alta médica em São Paulo. Disponível em: https://www.universal.org/noticias/post/bispo-edir-macedo-vence-a-covid-19-e-recebe-alta-medica-em-sao-paulo

UOL – Edir Macedo e Covid-19 https://www.tvefamosos.uol.com.br/noticias/redacao/2020/06/12/edir-macedo-covid-19.amp.htm

Instagram – Imagem do dr. responsável por Edir Macedo, Leandro Echenique

Portalt5- https://blog.portalt5.com.br/nemteconto/2020/06/12/edir-macedo-estaria-internado-em-hospital-de-sp-com-covid-19-diz-jornalista/

Twitter Erlan Bastos – https://mobile.twitter.com/erlan_bastos/status/1271200490525798407

YouTube – https://youtu.be/QUKCLCm92bg

Youtube -https://youtu.be/O1r1wdh0g8A

Consultar bula de remédio -hidroxocloroquina www.consultaremedios.com.br/hidroxicloroquina/bula.amp

G1 – https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/06/15/ministerio-da-saude-orienta-que-droga-vetada-por-agencia-dos-eua-agora-tambem-seja-dada-a-criancas-e-gravidas-em-tratamento-precoce-contra-covid-19.ghtml

Congresso em Foco – https://congressoemfoco.uol.com.br/saude/edir-macedo-que-chamou-coronavirus-de-tatica-de-satanas-contraiu-covid-19/

YouTube – Fim do Mundo – https://youtu.be/dsNUZVQYrcI

DW – https://www.dw.com/pt-br/evang%25C3%25A9licos-fazem-coro-com-bolsonaro-e-negam-riscos-do-coronav%25C3%25ADrus/a-53000050

Youtube– Comunicado oficial Igreja Universal –Disponível em: https://youtu.be/il4Mv34Ubdk

Missão – Hospital Moriah – Disponível em: https://www.hospitalmoriah.com.br/o-hospital/missao-visao-e-valores/