Debate no segundo turno: Flávio Bolsonaro retoma apelo enganoso sobre gastos com cartões de crédito corporativo

Um dos temas abordados no debate entre os candidatos Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência da República realizado pela Rede Globo de Televisão, na noite de 23 de outubro passado, foram os gastos com o cartão corporativo. O tema surgiu no bloco final do programa, em que os candidatos se confrontaram com perguntas de tema livre.

Bereia checou esse ponto que, apesar de ter sido desprezado nas chamadas sobre as checagens de afirmações realizadas sobre o debate, seguiu muito comentado por eleitores nas redes digitais.

Ao ser questionado por Lula sobre a origem de seus recursos, que lhe permitiram adquirir uma casa de 10 milhões de reais, Flávio Bolsonaro rebateu perguntando o motivo de Lula não abrir o sigilo do cartão corporativo. O questionamento é enganoso, já que os gastos com os cartões corporativos da Presidência estão abertos e acessíveis via Portal da Transparência do governo. Alguns gastos são restritos, quando se enquadram em critérios como privacidade pessoal, como já explicou o portal de notícias G1.

O candidato do PL afirmou na sequência que os gastos do cartão corporativo seriam em viagens de luxo que Lula teria feito. Em sua resposta, Lula pede que os espectadores busquem no Google quem gastou mais no cartão corporativo, afirmando que o governo de Jair Bolsonaro (PL) teria gasto quase 30% a mais do que o governo atual.

Busca no Google

Os eleitores parecem ter atendido ao chamado: por volta das 23h, no momento em que o debate era realizado, o tema “quem gastou mais no cartão corporativo lula ou bolsonaro” obteve um pico de buscas, segundo dados da plataforma Google Trends, que aponta as tendências no site.

Na tarde do sábado, 24 de outubro, a busca continua ativa, com mais de 1.000% de crescimento, ocupando a oitava posição entre os termos mais buscados. Estava atrás apenas de pesquisas relacionadas a jogos de futebol e ao termo “checagem de fatos debate”, e à frente de outros assuntos relacionados ao debate, como quem teria ganhado o embate e a história sobre a perda do dedo por Lula.

A dúvida sobre quem gastou mais no cartão corporativo já havia sido levantada em outros momentos do debate político, e esclarecida por outras agências de checagem, como a Aos Fatos. Em 24 de fevereiro de 2026, a agência esclareceu o tema na checagem “Posts enganam ao comparar gastos de cartão corporativo de Lula e Bolsonaro”.

Diferentes tipos de cartões

O fato é que as comparações costumam ser feitas entre modalidades diferentes de cartões: os gastos de Bolsonaro se restringem a uma modalidade, já os de Lula abrangem três categorias, incluindo gastos emergenciais, como os realizados em tragédias climáticas.

O Cartão de Pagamento do Governo Federal (CPGF) cobre despesas de pequeno valor, como gastos com viagens, serviços especiais e outras questões sigilosas; o Cartão de Pagamento de Compras Centralizadas (CPCC) é utilizado para compra de passagens aéreas; e o Cartão de Pagamento da Defesa Civil (CPDC) é acionado em momentos de emergências públicas.

Em checagem, a agência Aos Fatos demonstrou que se considerados apenas os valores do CPGF referentes à Secretaria de Administração da Presidência da República, que abrange os gastos de Lula, o montante era de R$ 20,4 milhões nos últimos três anos. Já os gastos diretos do ex-presidente Bolsonaro ficaram em R$ 41,2 milhões (cerca de R$ 46 milhões, corrigidos pela inflação) entre 2019 e 2022.

Quanto aos gastos totais da Presidência da República, que reúne os de Lula, da primeira-dama Janja, da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), somam R$ 45,2 milhões no governo Lula entre 2023 e 2025, e R$ 82,4 milhões no governo Bolsonaro, em valores nominais, entre 2019 e 2022.

Despesas pequenas versus Defesa Civil

O apelo sensacionalista aos gastos com cartões e seu uso com viagens por parte do governo não sobrevive à análise crua dos fatos. Considerando os gastos no atual ano de 2026, por exemplo, os R$ 365,19 milhões que abrangem todas as modalidades de cartões correspondem a 0,01% de todos os gastos públicos no mesmo período.

Além disso, os gastos com o CPGF, que abrange os de Lula e de outros 4.957 integrantes do governo, estão em cerca de R$ 72 milhões, equivalente a R$ 14 mil gastos por usuário ao longo do ano. Já o CPDC, que concentra os gastos com Defesa Civil, está em cerca de R$ 292 milhões. Isso significa que o montante é quatro vezes maior do que o do cartão de pequenas despesas.

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Referências:

Aos Fatos
https://www.aosfatos.org/noticias/posts-enganam-ao-comparar-gastos-de-cartao-corporativo-de-lula-e-bolsonaro/ Acesso em 24 out 2026

Portal G1
https://g1.globo.com/politica/noticia/2022/11/03/sigilo-de-100-anos-veja-quem-criou-e-como-funciona.ghtml Acesso em 24 out 2026

Google Trends
https://trends.google.com/trending?geo=BR&q=quem%20gastou%20mais%20no%20cart%C3%A3o%20corporativo%20lula%20ou%20bolsonaro Acesso em 24 out 2026

Portal da Transparência
https://portaldatransparencia.gov.br/cartoes?ano=2026 Acesso em 24 out 2026

Checagens do debate eleitoral: como diferentes veículos classificaram as falas de Lula e Flávio Bolsonaro

Após o debate entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), realizado em 23 de outubro na Rede Globo de Televisão, diferentes checagens foram divulgadas por veículos consolidados e por outros alinhados à direita. 

Bereia verificou que algumas checagens favoreceram a candidatura de Flávio Bolsonaro, e outras apontam que o candidato apresentou maiores taxas de uso de informações imprecisas e fatos falsos.

O criador de conteúdo Diego Ungari, formado em Direito pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e mestre em Administração, Organizações e Esfera Pública, publicou em seu perfil do Instagram uma análise das checagens promovidas por três veículos especializados – Agência Lupa, Aos Fatos e Estadão Verifica – e dois que atuaram exclusivamente no debateI – ICL Notícias e Ranking dos Políticos. Ungari aponta que as checagens da Lupa, do Aos Fatos e do Estadão Verifica utilizam como referência os parâmetros da International Fact-Checking Network – IFCN, em português Rede Internacional de Checagem de Fatos. Já ICL Notícias, que foi mais favorável a Lula, e o Ranking dos Políticos, que foi mais favorável a Flávio Bolsonaro, estão fora dos critérios da rede. O Ranking dos Políticos, inclusive, é uma das iniciativas que se autodenominam parciais em seu próprio site.

O IFCN, vinculado ao Instituto Poynter, foi fundado em 2015 e conecta mais de 170 organizações de checagem em todo o mundo, por meio de capacitação, eventos e colaboração. Seus parâmetros, seguidos pelo Bereia, contemplam imparcialidade, transparência das fontes, transparência de financiamento, transparência de método e correções abertas.

O que disse a Lupa

A Agência Lupa checou 43 afirmações de Lula e Flávio Bolsonaro – 16 do primeiro e 27 do segundo. Concluiu que Lula repetiu um erro sobre o Produto Interno Bruto (PIB) ao dizer que a economia não crescia acima de 3% desde 2010. Lula também atribuiu o “Tigrinho” ao governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), embora as apostas tenham sido autorizadas em 2018, durante o governo do ex-presidente Michel Temer (MDB), e exagerou ao dizer que acabou com a fome em 2012.

Flávio repetiu a falsidade de que Lula é o “pai do Tigrinho”, a edição enganosa da “cervejinha” e do roubo de celulares e a negação de que Jair Bolsonaro debochou de quem estava com falta de ar, além de dizer que vai “criar” a Casa da Mulher Brasileira, que existe desde 2013. A Lupa ainda classificou como “insustentáveis” três falas de Bolsonaro, entre elas a dos falsos R$ 30 milhões do Banco Master para o filme de Lula, por falta de provas do pagamento.

Das afirmações de Lula, 50% foram consideradas verdadeiras, 18,8% foram feitas sem contexto, 12,5% foram falsas, 12,5% subestimadas e 6,3% exageradas. 

Das de Flávio Bolsonaro, 18,5% foram consideradas pela Lupa verdadeiras, 29,6% foram feitas sem contexto, 22,2% foram falsas, 18,5% exageradas e 11,1% insustentáveis. 

Como a Lupa checou mais falas de Flávio e cada checagem tem peso diferente, os percentuais mostram a distribuição das classificações nesse debate, e não quem “mentiu mais” no geral.

Aos Fatos

O Aos Fatos checou 46 afirmações em tempo real – 23 de cada candidato. O texto lista apenas manchetes, sem classificações formais como as da Lupa, portanto os percentuais a seguir são uma classificação do Bereia, feita a partir delas.

Entre as falas de Lula, a maioria foi confirmada como verdadeira, como o recorde de exportações, os 700 novos mercados agrícolas, os 33,1 milhões de pessoas em insegurança alimentar grave e a taxa básica de juros (Selic) em 13% quando assumiu o governo. O principal erro foi dizer que a economia não cresceu acima de 3% após 2010, pois o PIB ultrapassou essa marca em 2011, 2021 e 2022. Ele falou a verdade sobre muitas obras paradas que herdou: disse 6 mil, mas subestimou esse número, já que o Tribunal de Contas da União (TCU) contabilizava 8.603 em abril de 2023.

Flávio teve mais afirmações contraditas pelo Aos Fatos, como o número de obras paradas no governo Lula (4.215, e não 11.500); o Auxílio Brasil de R$ 600, que foi concedido apenas no fim do governo Bolsonaro; a afirmação falsa de que Lula é o “pai do Tigrinho”; e a Casa da Mulher Brasileira, que já existe. 

Ele acertou ao falar da dívida bruta de R$ 11 trilhões e do aumento da população em situação de rua. Outras falas foram imprecisas, como as relativas às milícias, já que há evidências de ligação.

No total, 73,9% das falas de Lula (17) foram confirmadas, 17,4% (quatro) foram imprecisas ou sem contexto e 8,7% (duas) foram consideradas falsas ou enganosas. Entre as de Flávio Bolsonaro, 43,5% (dez) foram falsas ou enganosas, 39,1% (nove) foram imprecisas ou sem contexto e 17,4% (quatro) foram confirmadas. Como a classificação é do Bereia, ela pode diferir da dos checadores. Além disso, o Aos Fatos escolhe quais afirmações verificar, de modo que os percentuais descrevem esse debate, não quem “mentiu mais” no geral.

Estadão Verifica

O Estadão Verifica checou 44 falas – 22 de cada candidato – e utiliza etiquetas próprias, como “falso”, “enganoso”, “exagerado” e “falta contexto”. A página foi atualizada em 24 de outubro, e a checagem das obras paralisadas citadas por Flávio Bolsonaro, antes considerada verdadeira com base em dados de 2025, passou a ser classificada como falsa com o dado de abril de 2026, de 4.215 obras.

Nas afirmações de Lula, foram confirmadas as exportações recordes, a fala de Bolsonaro sobre o “bolsa-farelo” e o voto isolado do senador contra a licença-maternidade. Foram consideradas falsas as afirmações de que há fotos de Flávio Bolsonaro com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro (o que existem são áudios), de que Jair Bolsonaro é o “pai do Tigrinho” (ele não regulamentou a prática). A afirmação sobre o PIB foi classificada como enganosa.

Nas afirmações de Flávio, foram classificadas como falsas as que dizem ser Lula o “pai do Tigrinho”, as obras paralisadas, o deboche de Jair Bolsonaro com a falta de ar e a “cervejinha” com roubo de celulares. Foram consideradas enganosas as afirmações sobre o pedágio zero, que vale apenas para novas concessões federais, e o Bolsa-Família de R$ 600, cuja proposta partiu do Congresso, e não do governo Bolsonaro à época. Ele acertou ao falar da carga tributária recorde e dos juros reais elevados.

Pela contagem do Bereia no Estadão Verifica, das afirmações de Lula, 36,4% foram verdadeiras (oito), 18,2% foram oferecidas sem contexto (quatro), 13,6% foram exageradas (três) e 18,2% foram falsas ou enganosas (quatro). Das de Flávio Bolsonaro, 22,7% foram falsas (cinco), 22,7% foram expressas sem contexto (cinco), 18,2% foram verdadeiras (quatro), 18,2% foram enganosas (quatro), 13,6% foram imprecisas (três) e 4,5% exageradas (uma). Somadas, as categorias falsa e enganosa representam 18,2% das falas de Lula e 40,9% das de Flávio.

ICL Notícias

O ICL Notícias, que realizou a checagem ao vivo com Eduardo Moreira e André Janones, acompanhada de comentários de jornalistas do canal, deu veredito explícito a 12 falas: quatro de Lula e oito de Flávio. As demais, como as relativas à “cervejinha”, ao “pai do Tigrinho” e à casa de R$ 10 milhões, aparecem apenas como relatos do debate, sem classificação.

Lula teve quatro falas classificadas como “verdadeiras”, entre elas a sociedade de Flávio com Willer Tomaz, baseada na suspeita da Polícia Federal (PF) encaminhada ao Supremo Tribunal Federal (STF), e a de que o salário mínimo seria inferior a R$ 900 sem os governos do PT. Flávio teve seis afirmações classificadas como “falsas”, como a de que Lula “mora em palácio”, a de que ele “massacra o agro”, diante do Plano Safra de R$ 622 bilhões, e a negação do deboche de Jair Bolsonaro com a falta de ar. Duas foram consideradas “imprecisas”: a falta de dipirona nas UBSs (responsabilidade das prefeituras) e a afirmação de que “está tudo mais caro”.

Pela avaliação do Bereia, 100% das afirmações checadas de Lula (quatro de quatro) foram verdadeiras. Entre as de Flávio, 75% (seis de oito) foram falsas e 25% (duas de oito) imprecisas. A amostra é pequena e desequilibrada, pois nenhuma afirmação de Lula recebeu etiqueta negativa, de modo que os percentuais não são comparáveis aos da Lupa, do Aos Fatos e do Estadão Verifica, que checaram entre 22 e 43 falas por veículo.

Também há divergências: o Estadão Verifica considerou inconclusiva a afirmação sobre a sociedade de Flávio Bolsonaro com Willer Tomaz, ao passo que o ICL a classificou como verdadeira. A própria página mostra que o canal está em disputa com a campanha de Bolsonaro, que pediu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a retirada de 241 publicações de três veículos, entre eles o ICL. Esse contexto deve ser considerado na leitura das classificações.

Ranking dos Políticos

O Ranking dos Políticos checou 137 afirmações – 63 de Lula e 74 de Flávio – e deixou 21 falas de fora da contagem, entre promessas, perguntas e ataques pessoais. O veículo utiliza apenas três etiquetas: verdadeira, imprecisa e falsa.

Entre as afirmações de Lula classificadas como falsas, estão a de que a transposição do Rio São Francisco é a “maior obra hídrica em funcionamento no mundo”, a de que o “Tigrinho” foi criado em 2022 e a de que a economia não cresce acima de 3% desde 2010. Foram imprecisas as 6 mil obras herdadas e o superávit de “85 bilhões de reais”, que seria em dólares. Entre as de Bolsonaro, foram falsas a “cervejinha” e a afirmação sobre juros reais de 20% no Plano Safra. Foram consideradas imprecisas, entre outras, o Bolsa-Família de R$ 600 e o “nunca fui investigado por milícia”.

Das afirmações de Lula, 44,4% foram consideradas verdadeiras (28), 41,3% imprecisas (26) e 14,3% falsas (nove). Das de Bolsonaro, 64,9% foram verdadeiras (48), 28,4% imprecisas (21) e 6,8% falsas (cinco). O Ranking conclui que 55,6% das falas de Lula e 35,1% das de Flávio apresentaram algum problema. Esse resultado é o oposto do observado nas checagens da Lupa, do Aos Fatos e do Estadão Verifica, que apontaram mais problemas nas falas de Flávio Bolsonaro.

Parte da diferença está na classificação de cada afirmação. O Ranking considerou verdadeira a fala de Flávio sobre as mais de 11.500 obras paradas no governo Lula, já o Estadão Verifica e o Aos Fatos a classificaram como falsa, com base no dado de abril de 2026. O Ranking também considerou verdadeira a versão de que Jair Bolsonaro criticava a orientação de esperar pela falta de ar, ao passo que os outros quatro veículos classificaram essa fala como falsa. Além disso, o Ranking utiliza apenas três classificações e checou mais afirmações, o que dilui os conteúdos problemáticos entre um número maior de declarações verdadeiras. Por isso, esses percentuais não podem ser usados para determinar quem “mentiu mais” no geral.

Posicionamentos e uso dos dados de forma parcial

O Metrópoles também publicou avaliações sobre o debate. Colunistas do portal deram notas aos candidatos, e a média mostra um cenário dividido: Lula recebeu notas altas de Reinaldo Azevedo (oito), Igor Gadelha (nove) e Matheus Leitão (oito), já Tiago Pavinatto deu nota nove a Flávio e apenas um a Lula. Entre os pontos mais comentados estão o momento em que Flávio chamou Lula de “nove dedos” e precisou se desculpar, e o erro de Flávio Bolsonaro ao chamar a mãe da menina Ana Clara pelo nome da filha. Lula foi criticado por falar demais do passado, e elogiado por pautar o adversário em temas como Vorcaro e licença-maternidade.

A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) produziu uma arte para divulgar a matéria do Metrópoles como se fosse uma posição do veículo. No entanto, o conteúdo reúne opiniões individuais de colunistas, cada um com seu próprio olhar e sua própria nota, e não representa necessariamente um direcionamento editorial do Metrópoles.

Imagem: Reprodução/Redes sociais

Perfis de direita têm compartilhado checagens do Ranking dos Políticos como forma de apoiar seus posicionamentos. Contudo, não destacam nem explicam os métodos utilizados nas verificações ou o posicionamento parcial do veículo. Bereia checa esse ponto em nota específica. 

Como aponta Ungari, é necessário estar atento às informações e verificar se as classificações se baseiam em métodos transparentes e critérios consistentes, como os estabelecidos pela IFCN. 

O Bereia compilou em notas específicas as checagens das afirmações de Flávio Bolsonaro e de  Lula no debate de 23 de outubro.

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Referências

Agência Lupa: Na Globo, Lula repete erro sobre PIB; Flávio faz acusações falsas e já desmentidas contra petista

https://www.agencialupa.org/checagem/2026/10/23/ao-vivo-checagem-do-ultimo-debate-entre-lula-e-flavio-bolsonaro-no-segundo-turno/ Acesso em 24 out 2026.

Aos Fatos: Checamos Flávio Bolsonaro e Lula no debate da Globo

https://www.aosfatos.org/noticias/checamos-flavio-bolsonaro-lula-debate-globo/ Acesso em 24 out 2026.

Estadão Verifica: Debate na TV Globo: checagem em tempo real

https://www.estadao.com.br/estadao-verifica/debate-tv-globo-checagem-tempo-real-ao-vivo/ Acesso em 24 out 2026.

ICL Notícias: Começa o debate entre Lula e Flávio Bolsonaro com checagem do ICL

https://iclnoticias.com.br/comeca-o-debate-entre-lula-e-flavio-bolsonaro-com-checagem-do-icl-siga/ Acesso em 24 out 2026.

Ranking dos Políticos: Checagem do debate Lula e Flávio Bolsonaro na Globo

https://ranking.org.br/artigos/checagem-debate-lula-flavio-bolsonaro-globo-2-turno-2026 Acesso em 24 out 2026.

Metrópoles: Flávio Bolsonaro ou Lula? Colunistas analisam quem venceu o debate da Globo

https://www.metropoles.com/brasil/flavio-bolsonaro-ou-lula-colunistas-do-metropoles-analisam-quem-venceu-debate-da-globo-veja-notas Acesso em 24 out 2026.

Poynter (IFCN): Sobre

https://www.poynter.org/about/ Acesso em 24 out 2026.

Diego Ungari (perfil no Instagram): análise das checagens do debate

https://www.instagram.com/p/De4HzgxxgWH/ Acesso em 24 out 2026.

Plantão Bereia nas eleições: Justiça não proibiu debate da Globo. Decisões judiciais já afetaram o mesmo programa em eleições anteriores

É falsa a afirmação que ainda circula de que o Supremo Tribunal Federal (STF) ou a Justiça Eleitoral “censuraram” e impediram a realização do último debate presidencial da Rede Globo antes do primeiro turno das eleições de 2026. Decisões judiciais modificaram regras previamente estabelecidas pela emissora, mas nenhuma delas determinou o cancelamento do encontro. A decisão de não realizar o debate foi da própria Globo.

O debate estava marcado para 1º de outubro passado. Naquele mesmo dia, a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou que a emissora não exibisse o púlpito vazio de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que havia informado antecipadamente que não participaria, nem permitisse que os demais candidatos fizessem em perguntas ao ausente. Para a ministra, que atendeu a recurso da campanha de Lula, a ausência deveria produzir apenas a perda da oportunidade de participar daquela rodada e não ser usada para ataques ao candidato que não teria como responder. 

Horas depois, o ministro do STF Gilmar Mendes determinou a inclusão de Renan Santos (Missão) que havia sido descartado do debate pelas regras estabelecidas pela emissora, atendendo a recurso do deputado federal Paulinho da Força (Solidariedade-SP). Dias antes, o ministro do STF, que também preside do TSE, Nunes Marques tomou decisão semelhante, ao incluir o candidato Romeu Zema (Novo) no programa, atendendo a recurso da campanha dele. Zema também havia sido preterido pelas regras da emissora. Nenhuma dessas decisões, porém, determinou cancelar, interromper,  silenciar candidatos ou proibir o debate. 

Depois da determinação da participação de Renan Santos, o candidato Flávio Bolsonaro (PL) anunciou que também não compareceria, e, assim, a Globo decidiu cancelar o programa. Em nota exibida no Jornal Nacional, a emissora afirmou que as decisões judiciais de última hora provocavam “insegurança jurídica” e representavam, em sua avaliação, uma “interferência indevida” na liberdade dos veículos de organizar debates eleitorais. Portanto, a crítica à atuação judicial partiu da Globo, apesar de não ter havido reação à decisão da inclusão do candidato Zema, no dia anterior. Já cancelamento foi uma decisão editorial da emissora, não uma ordem do STF ou do TSE.

Flávio Bolsonaro classificou o episódio como “censura nas eleições”. A expressão, entretanto, é uma interpretação política sobre as decisões. O fato verificável é que o Judiciário alterou aspectos do formato e da composição do encontro, mas não proibiu sua realização ou a participação do candidato,  muito menos interferiu ou vetou conteúdo de suas declarações previstas.

Decisões judiciais em debates já ocorreram em outros processos eleitorais 

A Justiça arbitra controvérsias em debates televisivos há décadas, e decisões judiciais já afetaram diretamente programas da Rede Globo, sem provocar a discussão em curso nas redes.

Em 1994, normas eleitorais obrigavam as emissoras a garantirem a participação dos oito candidatos à Presidência ou organizar grupos segundo regras específicas. A Globo considerou o modelo inadequado e optou por não realizar debate presidencial. A própria Memória Globo registra as normas como motivo da decisão.

Situação semelhante ocorreu em 1998. Com 12 candidatos, a legislação determinava que todos fossem convidados ou que, sem acordo, os participantes fossem distribuídos por sorteio em diferentes encontros. A Globo considerou a fórmula inadequada; a recusa do então presidente Fernando Henrique Cardoso em participar também pesou para que não houvesse debate.

Em 2006, o TSE decidiu até que horário poderia durar o debate do segundo turno entre Lula e Geraldo Alckmin. A Globo pediu autorização para ultrapassar a meia-noite, mas o Tribunal rejeitou o pedido por unanimidade. A Resolução 22.452/2006 estabeleceu que o programa deveria terminar até às 24h.

O que aconteceu neste 2026

O episódio de 2026 teve características incomuns. Decisões de diferentes ministros, algumas tomadas poucas horas antes do programa, modificaram tanto a lista de participantes quanto a forma como a ausência de um candidato poderia ser apresentada. A própria Globo contestou essas intervenções e afirmou que elas produziram “insegurança jurídica”.

As decisões podem ser discutidas e questionadas juridicamente. O que elas não fizeram foi proibir a realização do debate. Não há censura como se apregoa em várias publicações  e nas palavras do candidato Flávio Bolsonaro. 

Intervenções da Justiça Eleitoral nas regras de debates presidenciais também não começaram em 2026. Em eleições anteriores, normas e decisões determinaram quem deveria ser convidado, quem poderia participar e até o horário máximo de um debate da própria Globo.

Em 2006, por exemplo, o TSE rejeitou pedido da emissora para que o debate entre Lula e Geraldo Alckmin ultrapassasse a meia-noite. 

Cadeira vazia? Depende do candidato!

No primeiro turno de 2006, Lula faltou ao encontro e a Globo exibiu sua cadeira vazia, enquanto adversários formularam perguntas que ficaram sem resposta. A exibição de um lugar vazio para marcar a ausência de um presidenciável também não foi uma prática uniforme da televisão brasileira. Em 1994, Fernando Henrique Cardoso faltou a debates realizados por Bandeirantes e Manchete; reportagens da época registraram e comentaram sua ausência, mas o Bereia não localizou registros de que as emissoras tenham mantido no cenário uma cadeira vazia em seu nome. 

Em 1998, FHC recusou-se a participar e não houve debates presidenciais televisionados. Diferentemente do que ocoreeu em 2006, com   a cadeira vazia de Lula.

Em 2014, o presidente do TSE decidiu, poucas horas antes do programa, que a emissora não era obrigada a incluir o candidato Zé Maria.

Em 2026, portanto, houve novas intervenções judiciais sobre o formato e a composição do debate, algumas delas de última hora. Nenhuma, porém, determinou que o programa fosse cancelado. A decisão de não realizar o encontro foi tomada pela Globo, que a justificou pela insegurança jurídica que, segundo a emissora, havia sido criada pelas decisões.

Foto: Antonio Augusto/STF

Editora-geral do Bereia defende que futuro do evangelho passa pela valorização do passado e da dimensão comunitária

O futuro do evangelho foi o tema de “Conversas Pastorais”, debate promovido pela Igreja Batista de Água Branca (IBAB) em 31 de outubro na cidade de São Paulo que contou com a participação da editora-geral do Bereia. Participaram também da mesa de conversa o teólogo Ronilso Pacheco, o pastor batista Kenner Terra e o pastor e teólogo Ed René Kivitz, idealizador do evento.

Em sua apresentação, a pesquisadora destacou que não é possível falar de futuro sem se remeter ao passado. Segundo ela, as culturas tradicionais, os povos originários e as tribos africanas estão desafiam constantemente a se entender o que vem antes. “A gente só pode entender quem é se olhar para trás, e só pode entender e falar do futuro se entender o passado e o presente que nos significa hoje”.

Nessa direção, Magali Cunha ressaltou que falar sobre o futuro do Evangelho implica trazer à memória de maneira crítica e também esperançosa aquilo que já ocorreu. Ela fez referência ao período do nazismo, em que o teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer, no trabalho de enfrentamento a esse regime, buscava manter e espalhar esperança em um mundo destruído, e também ao período da ditadura militar, que representou perseguições e o alinhamento religioso.

“Não podemos deixar de olhar o passado, seja de forma crítica, seja de forma profética, dinâmica, esperançosa, pois esse é um grande desafio para refletir sobre o futuro do Evangelho”, acrescentou.

A editora-geral do Bereia também destacou que o futuro do evangelho passa também pela dimensão comunitária, na partilha e na divisão do que se tem. Ao reagir ao comentário do pastor Ed René de que Jesus não trouxe ideias, e sim vivências, Magali Cunha chamou a atenção para o equívoco de se apegar exageradamente à palavra, “como se ele resolvesse tudo”.

“Hoje fala-se e ouve-se muito, mas são poucas as comunidades de partilha, em que as pessoas podem trazer suas vidas, dizer quem são e ter oportunidade de colocar desejos, expectativas e frustrações. Esse é de fato o caminho para a reconstrução”, completou.

A íntegra do debate você encontra no YouTube.

Vacina contra Covid-19 não usa células de bebês abortados como afirma site gospel

No dia 16 de novembro, o portal evangélico de notícias Gospel Prime publicou a matéria “Vacina com células de bebês abortados levam crise ética aos cristãos”. Apesar do título sugerir que vacinas são produzidas com células retiradas diretamente de bebês abortados, o texto logo explica que a crise ética diz respeito ao uso de linhagem de células derivadas de fetos abortados.

Para tratar desse tema, a matéria faz referência ao Instituto Charlotte Lozier. A instituição foi fundada em 2011, na Virgínia (EUA), e nomeada em homenagem à Dra. Charlotte Denman Lozier (1844-1870), destacada por sua luta pelos direitos das mulheres e por sua dedicação à medicina. “O Instituto reúne médicos, sociólogos, estatísticos e pesquisadores, para desenvolverem estudos sobre questões relacionadas à vida. Desta forma, o Instituto se empenha em trazer a ciência para a formulação de políticas e para a promoção do debate com o objetivo de promover a cultura e a política da vida”, diz o site institucional.

As linhagens de células utilizadas por vacinas que o CLI (sigla do Instituto Charlotte Lozier, em inglês) vê como antiéticas são duas. A HEK-293 originou-se de tecido renal colhido de um feto abortado legalmente na Holanda, em 1973, como informa o portal UOL. Já a linhagem PER.C6 advém de material da retina de um feto também legalmente abortado em 1985, utilizado por um laboratório da Johnson & Johnson. De acordo com a revista de divulgação científica Science, a vacina contra a covid-19, desenvolvida pela Universidade de Oxford, em parceria com a farmacêutica Astrazeneca, utiliza as células HEK-293 e a Janssen, uma subsidiária da Johnson, faz uso da PER.C6. Ambas fazem parte da iniciativa Warp Speed, do Governo Federal Americano, para produção de vacinas contra a covid-19.

O uso de células derivadas de fetos abortados não provoca novos abortos

A matéria do Gospel Prime direciona um link para uma lista do CLI que indica quais materiais são utilizados tanto no desenvolvimento quanto na produção de vacinas. No entanto, o CLI deixa mais claras suas considerações sobre o uso das linhagens derivadas de fetos abortados em outra publicação.

“O uso de células de fetos abortados eletivamente para a produção de vacinas torna esses cinco programas de vacina COVID-19 [citados na nota] potencialmente controversos e poderia reduzir a disposição de alguns de usar a vacina”. 

CLI

Em defesa de alternativas que façam esse uso de células humanas, a nota escrita pelos doutores James Sherley e David Prentice conclui:

“A adesão aos mais elevados padrões éticos da ciência e da medicina serve a toda a humanidade, porque valoriza a dignidade de cada vida humana e respeita a consciência de todos, sem exploração de nenhum grupo.”

James Sherley e David Prentice

Linhagens celulares desenvolvidas a partir de tecidos humanos são comuns em pesquisas científicas. A HEK-293 é a mais comum, mas a PER. C6 (também de origem fetal) e a HeLa (feita com tecido retirado de mulher adulta) são exemplos de outras linhagens usadas. As culturas servem para que os cientistas compreendam como determinada substância age nas células humanas sem a necessidade de colocar em risco vidas de pacientes.  

No caso das vacinas, as células da linhagem servem como “pequenas fábricas” para que os vírus atenuados possam se multiplicar e não fazem parte da composição do produto final. Em entrevista ao Projeto Comprova, a imunologista, professora titular da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre e membro do comitê científico da Sociedade Brasileira de Imunologia Cristina Bonorino esclareceu que “as células (embrionárias) não entram na composição da vacina. Apenas a proteína produzida por elas, ou o vírus replicado nelas, que sai da célula e fica no meio de cultura, é coletado e purificado para a formulação vacinal”. Já que não é mais necessário tecido fetal para que as células se multipliquem, o uso de cultura HEK-293 não provoca novos abortos.

O debate ético entre instituições cristãs

Como o próprio texto do Gospel Prime cita, o tema suscita um debate ético entre cristãos. Ouvido pela revista Science, o pesquisador do CLI David Prentice considera que outras tecnologias alternativas ao uso de HEK-293 estão disponíveis. Por outro lado, a Vatican’s Academy for Life (Academia do Vaticano pela Vida) encoraja a aplicação de vacinas alternativas. A matéria do portal católico Crux Now informa que, em 2005, o Vaticano orientou católicos a pedirem a seus médicos a não utilização de vacinas produzidas com linhagens derivadas de células de fetos abortados, bem como pedirem o desenvolvimento de métodos alternativos às empresas farmacêuticas. 

No entanto, a Igreja Católica afirmou que é moralmente lícito tomar as vacinas para evitar o risco às crianças e à população como um todo. Conforme informa a reportagem do Crux Now, uma atualização da declaração foi feita em 2017, na qual afirma o seguinte: “As características técnicas de produção das vacinas mais comumente utilizadas na infância nos levam a excluir que exista uma cooperação moralmente relevante entre quem usa essas vacinas hoje e a prática do aborto voluntário.” O mesmo documento considera também como obrigação moral garantir uma cobertura vacinal necessária para proteção de outras pessoas. 

Em entrevista à Agência Católica de Informações (ACI), o professor de Biodireito na Universidade Católica Argentina (UCA) Jorge Nicolás Lafferriere dá quatro condições para que um católico possa tomar “vacina de origem remota ilícita” [termo usado pelo site católico]: não haver “alternativa eticamente aceitável”; haver “perigo proporcional e urgente”; expressão de desacordo com a vacina de ‘origem ilícita’; cobrança que o sistema de saúde coloque à disposição outros tipos de vacina.

Apesar de Gospel Prime publicar uma manchete enganosa, a matéria também mostra a posição de cristãos que aceitam o uso de linhagens derivadas de fetos abortados em algum processo de desenvolvimento da vacina. É o caso do médico Craig Delisi em entrevista ao canal americano Christian Broadcasting Network. Ele explica a controvérsia e oferece uma analogia também citada no Gospel Prime: “Se alguém foi assassinado e era doador de órgãos, como cristãos, não devemos hesitar em tomar o coração dessa pessoa para o vovô, ou a córnea ou o rim dessa pessoa. Só porque houve um ato mau que precedeu algo e algo bom veio disso”.

Além disso, de acordo com a revista Science, o governo Trump restringiu o uso de tecidos de fetos de abortos eletivos em pesquisa biomédica. No entanto, a medida de 2019 não impediu a utilização de linhagens de células proveniente de fetos abortados, como a HEK-293 e a PER.C6. 

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Com a verificação dos dados apresentados por Gospel Prime, Bereia conclui que a matéria é enganosa. O site utiliza o tema do aborto, caro aos cristãos, para confundir os leitores e leitoras em prol de aumentar resistências às vacinas. Cabe ressaltar que o título da matéria contradiz seu conteúdo ao mencionar “célula de bebês abortados” porque, na verdade, o debate bioético está centrado no uso de linhagens de células derivadas ao aborto – discussão mencionada na reportagem. Levando-se em conta que muitos leitores/as leem apenas títulos para tirar conclusões sobre conteúdos, esse tipo de desinformação contribui para a confusão sobre as vacinas, um tema essencial para o enfrentamento do novo coronavírus no Brasil.

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Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

Referências:

Instituto Charlotte Lozier: https://lozierinstitute.org/about/. Acesso em: 20 nov. 2020.

Portal UOL: https://noticias.uol.com.br/comprova/ultimas-noticias/2020/07/24/tuite-engana-ao-afirmar-que-vacinas-usam-celulas-de-fetos-abortados.htm. Acesso em: 21 nov. 2020.

Revista Science, https://www.sciencemag.org/news/2020/06/abortion-opponents-protest-covid-19-vaccines-use-fetal-cells. Acesso em: 20 nov. 2020.

Instituto Charlotte Lozier: https://lozierinstitute.org/update-covid-19-vaccine-candidates-and-abortion-derived-cell-lines/. Acesso em: 20 nov. 2020.

Instituto Charlotte Lozier: https://lozierinstitute.org/an-ethics-assessment-of-covid-19-vaccine-programs/. Acesso em: 20 nov. 2020.

Projeto Comprova: https://projetocomprova.com.br/publica%C3%A7%C3%B5es/tuite-engana-ao-afirmar-que-vacinas-usam-celulas-de-fetos-abortados/. Acesso em: 21 nov. 2020.

Crux Now: https://cruxnow.com/vatican/2019/03/vaticans-academy-for-life-encourages-parents-to-vaccinate-children/. Acesso em: 20 nov. 2020.

Academy for Life, http://www.academyforlife.va/content/pav/en/the-academy/activity-academy/note-vaccini.pdf. Acesso em: 21 nov. 2020.

Agência Católica de Informações: http://www.acidigital.com/noticias/vacina-para-o-coronavirus-especialista-explica-os-limites-eticos-indicados-pela-igreja-29252. Acesso em: 20 nov. 2020.

Christian Broadcasting Network: https://www1.cbn.com/cbnnews/health/2020/november/should-christians-take-a-vaccine-that-was-developed-using-cells-from-aborted-babies. Acesso em: 21 nov. 2020.

Eleições 2020: Bispo Marcelo Crivella recorre a conteúdos falsos em debate na TV

Em um dos debates promovidos pela Rede Bandeirantes de TV com candidato/as a Prefeituras de 14 cidades do Brasil, na noite de 1 de outubro, o atual prefeito do Rio de Janeiro Bispo Marcelo Crivella (Republicanos), da Igreja Universal do Reino de Deus, recorreu a conteúdos falsos para confrontar debatedora.

Crivella que tenta a reeleição fez uso de mentiras já na primeira pergunta direta que deveria fazer a outro/a candidato/a. Ele escolheu a deputada estadual do PSOL Renata Souza, para indagar o que ela faria, caso vença as eleições, a respeito da “ideologia de gênero nas escolas” e do combate às drogas entre alunos.

Renata Souza respondeu com uma crítica ao prefeito da cidade, acusando-o de negligenciar a pandemia. Na réplica, Crivella retomou a pergunta e acusou:

“Se o PSOL ganhar a eleição nossas crianças vão ter uma coisa que tinham que ter em casa, orientação sexual. Vai ter kit gay na escola e vão induzir à liberação das drogas. Esse é o perigo do PSOL e por isso ela não quer tocar no assunto”.

Na tréplica, Renata Souza retomou a crítica que tinha feito:

“Estou falando de gente que morreu e o senhor quer falar do que o professor quer ensinar na escola? O professor tem que ter debate pedagógico, tem que ter autonomia”.

Ideologia de gênero e kit gay: duas falsidades político-religiosas

O prefeito Marcelo Crivella, que encontra dificuldades para se reeleger no pleito de 2020 por conta denúncias de corrupção, conseguiu se blindar na Câmara de Vereadores contra dois pedidos de impeachment em um período de 15 dias (casos de propina à Prefeitura e “Guardiões do Crivella). Porém, na Justiça o candidato à reeleição tem encontrado mais obstáculos: em 24 de setembro, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) decidiu por unanimidade, por 7 votos a 0, declará-lo inelegível até 2026 por abuso de poder político e conduta vedada a agente público. A defesa de Crivella está recorrendo da decisão e, por isso, ele pode disputar o pleito. Caso seja eleito, precisará de uma liminar para derrubar a decisão do TRE.

Enquanto briga para permanecer candidato, Marcelo Crivella participa dos debates recorrendo a conteúdos que fizeram sucesso entre o público cristão, durante a campanha de Jair Bolsonaro nas eleições de 2018.

Os dois temas, “ideologia de gênero” e “kit gay”, são objeto de estudos no Brasil e no exterior e de investigações sobre desinformação como estratégia para conquistar apoios políticos, com recurso a valores religiosos, para interferência de líderes e grupos em temas de interesse público.

A estratégia é embasada em terrorismo verbal, impondo o medo de que valores caros a pessoas religiosas, como a família, seriam destruídos. Da mesma forma, toca na questão da sexualidade, aspecto da vida humana tratado de forma frágil por grupos cristãos, frequentemente embasado em repressão e pouco em educação, conforme abordado no clássico estudo “Protestantismo e Repressão”, de Rubem Alves (Editora Ática, 1979). O recurso ao tema da educação e das crianças, como elementos que estariam em risco numa “guerra a inimigos da família”, é usado insistentemente neste tipo de desinformação sem que haja evidências do terror indicado.

O Coletivo Bereia já publicou matérias sobre estes dois temas abordados pelo candidato Marcelo Crivella, que podem ser acessadas aqui: O Presidente do Brasil e a falaciosa ideologia de gênero, “Kit Gay” continua sendo alvo de políticos de direita e Não há dúvida: a existência de um “kit gay” organizado por Fernando Haddad é falsa.

Sobre a acusação que relaciona o PSOL e seus partidários ao tráfico de drogas, agências de verificação de conteúdos já produziram checagens como: É falso que PT e PSOL entraram na justiça para reduzir escopo de atuação da PRF, Post falso sobre ‘relação’ de Marielle Franco com Marcinho VP continua a circular 2 anos após assassinato e É #FAKE que Freixo chamou traficante Elias Maluco, encontrado morto na prisão, de ‘grande amigo e ídolo’

Perguntada pelo Coletivo Bereia sobre o que significa Marcelo Crivella usar deste tipo de conteúdo mentiroso para atacar uma adversária, a antropóloga, pesquisadora em Política e Religião, da Universidade Federal Fluminense (UFF) e do ISER Profa. Christina Vital afirma que “Crivella não foi o único a tentar produzir medos nos cidadãos sobre seus adversários. No entanto, diferente dos outros, mobilizou pânicos morais. A sua única intervenção mais detida sobre o tema da educação foi na pergunta que fez à candidata Renata Souza, do PSOL. A um só tempo ele retoma uma pauta das eleições presidenciais de 2018 e outra muito forte na produção da Base Comum Curricular Nacional”.

A Profa. Christina Vital acrescenta que:

“o pertencimento religioso de vários candidatos e candidatas no debate emergiram de um modo menos caricato do que vimos em outras campanhas. Isso chama atenção no sentido de que foi naturalizada aquela identidade e as menções a Deus e à Bíblia não precisavam ser expostas de modo virulento”.

“Este ponto torna mais interessante o pleito: qual ou quais serão então as cartas na manga dos concorrentes à prefeitura? Se a religião não servir como apelo exclusivo de um ou outro, quais serão as estratégias narrativas mais utilizadas? Acompanhemos. Crivella ficou fora do tom ao trazer supostamente valores religiosos daquele modo antigo, como acusação. Foi démodé!”, avalia a antropóloga ouvida pelo Coletivo Bereia.

O cientista político da Fundação Joaquim Nabuco e pesquisador em Política e Religião Prof. Joanildo Buriti foi entrevistado sobre o tema pelo Coletivo Bereia e avalia:

Há muito me acostumei com a forma desabusada como muitos líderes evangélicos inventam consequências ou perigos de certas coisas sem qualquer preocupação com os fatos. Mas não faziam isso no espaço público. Reservaram aos sermões, palestras e aulas de escola bíblica. Não admira que, numa conjuntura que favorece o uso destemperado e aleivoso da linguagem, esse estilo se torne parte do debate público. Não começou com Crivella. Mas ele parecia ter mais compostura em outros tempos. Não há nenhuma evidência de que jamais tenha existido o tal kit gay, nem que a chegada de uma liderança de esquerda à prefeitura signifique que haverá indução à liberação de drogas. Esta nunca foi uma prática de gestores de esquerda até hoje no país. Por que seria agora? Parece que, confrontado com o que foram os pontos fracos de sua gestão, o atual prefeito sente-se em maior segurança recorrendo a um velho estilo de “denúncia do mal” que implica no ataque ad hominem e na transformação de mentiras em verdades.

Bereia classifica a afirmação do candidato Marcelo Crivella à reeleição para a Prefeitura do Rio de Janeiro como falsa. Para retomar a credibilidade com apoiadores religiosos, diante dos casos de corrupção relacionados à sua gestão, o bispo recorre a conteúdos falsos que foram eficazes na campanha eleitoral de 2018, para desqualificar adversários, buscando resultado semelhante.

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Foto de Capa: TV Bandeirantes/Reprodução

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Referências

Rede Bandeirantes Rio, Debate com Candidatos à Prefeitura, https://www.youtube.com/watch?v=dc8g6NmHruI. Acesso em 2 out 2020

Correio Braziliense, https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2020/09/4877815-destinos-cruzados-de-witzel-e-crivella.html. Acesso em 2 out 2020

Tribunal Regional Eleitoral, https://www.tre-rj.jus.br/site/gecoi_arquivos/noticias/arq_166319.jsp?id=166319 Acesso em 2 out 2020

Revista Piauí, https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2019/11/19/kiy-gay-coletanea/ Acesso em 2 out 2020