Entre a saída furtiva de Flávio Bolsonaro e a divulgação de carta confusa, mentiras seguem em circulação nas redes religiosas

A repercussão de declarações do senador evangélico Flávio Bolsonaro (PL-RJ), na quarta-feira, 28 de outubro, desde os Estados Unidos, onde se estabeleceu após o resultado das eleições, reacendeu o debate sobre a circulação de informações falsas a respeito do sistema eleitoral brasileiro e sobre a responsabilidade dos veículos de comunicação na cobertura de acontecimentos políticos. 

O episódio envolve relatos da saída furtiva do senador e sua família do país, a divulgação de uma carta com questionamentos sobre a legitimidade das eleições e a reprodução dessas alegações em publicações nas redes sociais e em veículos de imprensa. 

Para compreender o caso, é necessário distinguir três questões: o que efetivamente ocorreu, quais afirmações estão documentadas e quais discursos ainda dependem de comprovação.

A situação da saída furtiva do Brasil

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais de 25 de outubro, deixou o Brasil pela fronteira com a Argentina na noite de 27 de outubro, dois dias depois da divulgação dos resultados. De lá, seguiu em uma aeronave particular, com escala no Equador, até Miami, nos Estados Unidos, onde desembarcou na manhã de 28 de outubro. 

A saída furtiva ocorreu após determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) para que o parlamentar entregasse seus passaportes e não deixasse o país, no âmbito de uma investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas que envolvem o nome dele. O responsável pela ação, ministro do STF Alexandre de Moraes, acatou pedido da Política Federal (PF) como medida cautelar por haver indícios de que o candidato derrotado planejava deixar o país.

As restrições aos documentos de viagem, porém, não caracterizam, por si só, que uma prisão seja automaticamente determinada, nem que a pessoa ausente seja considerada juridicamente como foragida. Isto significa que o descumprimento de uma determinação judicial, no caso a não entrega dos passaportes seguida da saída furtiva do país, não transforma uma pessoa em um foragida. 

Para que alguém receba formalmente a condição de foragida, é obrigatória a existência de um mandado de prisão em aberto, expedido por um juiz, o qual o indivíduo enquadrado esteja deliberadamente tentando evitar. As restrições a documentos de viagem, como a retenção ou cancelamento de passaporte, são categorizadas como medidas cautelares alternativas à prisão (conforme o artigo 319 do Código de Processo Penal).

A divulgação de carta à nação brasileira

Horas depois de chegar aos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro divulgou uma carta dirigida à população brasileira e à comunidade internacional, publicada em seu perfil oficial no X (antigo Twitter), na qual contestou o resultado eleitoral e se apresentou, inicialmente, como presidente eleito.

Imagem: Publicação do perfil de Flávio Bolsonaro no X, 28 out 2026

Segundo levantamento da Folha de S. Paulo, circularam pelo menos quatro versões do documento. As alterações incluíram a substituição da expressão que o apresentava como presidente eleito pela denominação “líder do Brasil” e “líder da oposição”, além da correção de um brasão com a antiga grafia “Brazil” em “Estados Unidos do Brazil”. 

A principal acusação do senador foi a de que a eleição teria sido fraudada. A afirmação não encontra respaldo nas informações oficiais. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmou a vitória de Lula com 64.256.232 votos, correspondentes a 51,79% dos votos válidos, contra 59.826.041 votos, ou 48,21%, de Flávio Bolsonaro. A diferença foi de aproximadamente 4,43 milhões de votos. Após a apresentação do resultado a Corte Eleitoral declarou as eleições encerradas, “tendo transcorrido dentro da mais absoluta normalidade”.

Um dos questionamentos de Flávio Bolsonaro, na carta, relaciona o resultado à prorrogação do horário de votação até as 19h, determinada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin. Entretanto, segundo os dados oficiais analisados pela agência Reuters, apenas 34.393 votos foram registrados após as 17h. Esse quantitativo corresponde a, aproximadamente, 0,03% dos eleitores que compareceram, o que não seria suficiente para alterar o resultado.

Também não procede a afirmação contida na carta do candidato derrotado de que o crescimento de aproximadamente 10,3 milhões de votos de Lula entre os dois turnos representaria uma impossibilidade matemática. A variação é compatível com a redistribuição de votos de candidatos eliminados, a redução das abstenções e a diminuição dos votos brancos e nulos. 

Conteúdos falsos em circulação foram usados na carta

As alegações apresentadas na carta para contestação do resultado das eleições retomam conteúdos que já circulavam após a votação, especialmente as que associavam a ampliação do horário de funcionamento das seções eleitorais a uma suposta manipulação do resultado.

A checagem da Reuters identificou, por exemplo, a circulação da alegação falsa de que mesários poderiam votar no lugar de eleitores ausentes. Os procedimentos de identificação e os registros de liberação das urnas não sustentam essa hipótese. A mesma verificação constatou que a extensão do horário de votação não ocorreu exclusivamente no Nordeste, como sugeriam publicações que buscavam associar a medida a uma vantagem indevida para Lula. Seções eleitorais permaneceram abertas depois das 17h em todas as unidades da Federação. 

A repetição desses conteúdos em um documento assinado por um ex-candidato à Presidência amplia sua repercussão pública, mas não lhes confere validade factual. O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, reafirmou em 28 de outubro a regularidade do pleito e o respeito à vontade manifestada pelos eleitores.

O senador e coordenador da campanha Rogério Marinho (PL-RN) declarou, em 28 de outubro de 2026, que o Partido Liberal (PL) e ele próprio não podem afirmar que houve fraude na eleição presidencial porque não há provas que sustentem essa alegação.

Na mesma onda de manifestação, o presidente do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto, criticou publicamente o manifesto redigido em Miami pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) após o pleito presidencial. A manifestação de reprovação foi sintetizada na declaração de que o conteúdo não foi bem aceito pela direção partidária.

Pastor que batizou o candidato derrotado rejeita a carta

Flávio Bolsonaro é evangélico e foi batizado, em 2024, na Comunidade das Nações, igreja liderada pelo bispo JB Carvalho, em Brasília. A carta divulgada em Miami termina com a frase “Que Deus abençoe o Brasil”.

O próprio bispo JB Carvalho publicou no Instagram, em 28 de outubro, uma imagem com a mensagem “As eleições terminaram. Não tem terceiro turno. Vida que segue!”. Na legenda, escreveu: “Pare de profetizar o caos”. O pastor afirmou ainda que Deus “terá misericórdia do Brasil”.

A manifestação ocorreu em meio à divisão entre lideranças evangélicas sobre o resultado das eleições. Segundo o Jornal de Brasília, o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, sustenta a narrativa de perseguição política defendida por Flávio, enquanto o pastor Cláudio Duarte afirmou que a disputa deveria ser encerrada.

Sindicato de Jornalistas chama imprensa à responsabilidade

Diante da repercussão do documento divulgado pelo candidato derrotado, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF) divulgou um alerta sobre a responsabilidade ética dos profissionais de comunicação. A entidade advertiu que a reprodução de acusações sem comprovação e sem contextualização pode ampliar o alcance da desinformação e conferir aparência de credibilidade a narrativas infundadas.

Imagem: Publicação do perfil do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal, em colaboração com o Sindicato Nacional dos Jornalistas, no Instagram, 28 out 2026

O sindicato também chama a atenção para as implicações jurídicas de eventuais negociações com governos ou grupos estrangeiros destinados a provocar atos de guerra ou invasão do território brasileiro. O artigo 359-I do Código Penal prevê punição para a negociação com governo ou grupo estrangeiro, ou seus agentes, com a finalidade de provocar atos típicos de guerra contra o Brasil ou sua invasão. A existência de crime, entretanto, depende da comprovação dos elementos previstos na legislação. O simples pedido de apoio internacional não configura automaticamente essa conduta.

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As evidências disponíveis demonstram que a carta de Flávio Bolsonaro contém alegações falsas sobre o resultado das eleições presidenciais de 2026 e apresenta de maneira distorcida informações relativas à prorrogação da votação e às investigações judiciais envolvendo o senador. A tentativa de se apresentar como presidente eleito contraria os resultados oficiais reconhecidos pela Justiça Eleitoral. Já as acusações de fraude não foram acompanhadas de provas e foram contestadas inclusive por integrantes do próprio partido do candidato derrotado e pelo pastor que o batizou. A análise do episódio também evidencia como narrativas desinformativas anteriormente difundidas nas redes sociais podem ganhar nova repercussão quando incorporadas a pronunciamentos de figuras políticas e reproduzidas pela imprensa.

Bereia classifica os argumentos centrais da carta de Flávio Bolsonaro como FALSOS, pois tratam de fraude eleitoral e  suposta impossibilidade matemática do resultado, que não se sustentam diante dos registros oficiais. Bereia classifica ainda como enganosa a apresentação descontextualizada de decisões judiciais e do processo de votação. Bereia reforça que a cobertura de acontecimentos dessa natureza exige mais do que registrar declarações: é preciso confrontá-las com documentos, dados públicos e informações verificáveis, para que eleitores e eleitoras possam distinguir fatos de acusações sem fundamento.

Bereia alerta leitores e leitoras para o uso destes conteúdos em espaços religiosos para propagar mais desinformação com a finalidade de confundir fiéis e comunidades de fé e gerar insegurança sobre o futuro posterior às eleições.

Foto: Ricardo Arduengo/AFP

Referências:

G1

https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2026/10/26/moraes-determina-que-flavio-bolsonaro-entregue-os-passaportes-a-pf-e-proibe-senador-de-ter-contato-com-willer-tomaz.ghtml Acesso em 28 de Outubro de 2026

https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/10/28/presidente-do-tse-diz-que-entregou-pleito-com-seguranca-e-que-as-eleicoes-2026-transcorreram-dentro-da-mais-absoluta-normalidade.ghtml Acesso em 28 de Outubro de 2026

Ministério da Justiça

https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/noticias/nota-a-imprensa-43 Acesso em 28 de Outubro de 2026

JusBrasil

https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10651224/artigo-319-do-decreto-lei-n-3689-de-03-de-outubro-de-1941 Acesso em 28 de Outubro de 2026

https://www.jusbrasil.com.br/topicos/485014862/art-359i-do-decreto-lei-n-2848-de-07-de-dezembro-de-1940 Acesso em 28 de Outubro de 2026

X

https://x.com/FlavioBolsonaro/status/2115544562219315474/photo/1 Acesso em 28 de Outubro de 2026

Folha de São Paulo

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/carta-de-flavio-bolsonaro-tem-ao-menos-4-versoes-com-troca-de-brasao-e-mudancas-no-texto.shtml Acesso em 29 de Outubro de 2026

UOL

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2026/10/28/de-verdadeiro-presidente-a-lider-do-brasil-o-que-mudou-na-carta-golpista-de-flavio.htm Acesso em 29 de Outubro de 2026

https://noticias.uol.com.br/confere/ultimas-noticias/2026/10/25/falso-mesarios-votam-eleitores-ausentes-17h.ghtm Acesso em 29 de Outubro de 2026

Agência Reuters

https://www.reuters.com/fact-check/portugues/43QF7XVSQJLZPOKXZF62FZ6JUU-2026-10-28/ Acesso em 29 de Outubro de 2026

Carta Capital

https://www.cartacapital.com.br/politica/rogerio-marinho-contradiz-flavio-bolsonaro-e-diz-que-nao-ha-provas-de-fraude-eleitoral/ Acesso em 29 de Outubro de 2026

https://www.cartacapital.com.br/cartaexpressa/valdemar-costa-neto-critica-a-carta-golpista-de-flavio-bolsonaro/ Acesso em 29 de Outubro de 2026

Gazeta do Povo

https://www.gazetadopovo.com.br/republica/leia-a-integra-da-carta-em-que-flavio-se-declara-lider-do-brasil-e-da-oposicao/ Acesso em 29 de Outubro de 2026

https://www.gazetadopovo.com.br/republica/rogerio-marinho-trata-acusacoes-de-fraude-eleitoral-feitas-por-flavio-como-desabafo/ Acesso em 29 de Outubro de 2026

https://www.gazetadopovo.com.br/republica/flavio-bolsonaro-declara-lideranca-da-oposicao-a-partir-dos-eua/ Acesso em 29 de Outubro de 2026

Instagram

https://www.instagram.com/p/DfDnzjekdsk/?rpxt=NzlxMjhwbnBmMzR6 Acesso em 29 de Outubro de 2026

Jornal de Brasília

https://jornaldebrasilia.com.br/noticias/politica-e-poder/pastor-de-flavio-bolsonaro-diz-que-nao-tem-terceiro-turno-e-que-as-eleicoes-terminaram/ Acesso em 29 de Outubro de 2026

Revista Fórum

https://revistaforum.com.br/politica/jb-carvalho-pastor-flavio-carta-golpista/ Acesso em 29 de Outubro de 2026

Congresso em Foco

https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/129620/leia-a-integra-da-primeira-carta-de-flavio-apos-chegar-aos-eua Acesso em 29 de Outubro de 2026

G1

https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/10/28/presidente-do-tse-diz-que-entregou-pleito-com-seguranca-e-que-as-eleicoes-2026-transcorreram-dentro-da-mais-absoluta-normalidade.ghtml

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