141 perfis religiosos que fazem circular desinformação no Instagram, com alcance de 60 a 70 milhões de pessoas foram identificados pelo Bereia, com a ajuda do Labic, na pesquisa Mapa da Desinformação em Ambientes Digitais Religiosos. Uma das estratégias mapeadas é o uso de textos bíblicos fora de contexto por influenciadores, que lançam mão da autoridade da Palavra para propagarem mentiras. A pesquisa do Bereia levantou os versículos mais usados na campanha eleitoral 2026, divididos em blocos temáticos.
Bloco Temático: Defesa de um tipo de governo e suas autoridades
Nas publicações verificadas pelo Bereia, trechos dos livros bíblicos de Provérbios, Romanos, Salmos, Êxodo e Eclesiastes são recortadas, ilustradas com rostos e números de candidatos e distribuídas como se a Bíblia tivesse declarado em quem se deve votar.
Os versículos bíblicos circulam em cards, vídeos curtos e áudios de WhatsApp com um padrão repetido: o texto é cortado, a foto ou o número de um candidato é colocado ao lado, e a conclusão chega pronta (“crente de verdade não vota em candidato X”). O versículo deixa de ser texto sagrado e passa a funcionar como argumento de autoridade, e o medo de errar diante de Deus leva à compreensão direcionada.
A seguir os cinco textos mais compartilhados neste bloco temático com a leitura correta em contraposição, a partir de consulta a fontes reconhecidas sobre os escritos bíblicos.
Provérbios 29:2: “Quando os justos governam, o povo se alegra; quando os ímpios dominam, o povo geme”
Como circula: é o campeão de compartilhamentos. Torna-se “prova bíblica” de que votar no candidato adversário é votar no ímpio e, portanto, pecar. Nos comentários, o versículo se torna campo de batalha entre apoiadores de lados opostos.

Imagem: Publicação de perfil de pastor no Instagram, 4 out 2026
A leitura correta: Provérbios é um livro de literatura de sabedoria. Seus textos descrevem regularidades da vida, como “em geral, é assim que as coisas costumam acontecer”, e não funcionam como promessas ou profecias eleitorais. Nenhum provérbio foi escrito para se referir a um partido.
O próprio capítulo 29 também define quem é o “justo” que governa bem. Ele é o que cuida da causa dos pobres (v. 7) e o rei que julga os pobres com fidelidade (v. 14). O critério de ação oferecido no texto é a prática da justiça, e ele é verificável em qualquer governo, de qualquer campo político, inclusive o de quem compartilha a publicação.
Como se torna desinformação: quando “justo” e “ímpio” deixam de ser categorias morais abertas ao exame das pessoas e passam a ser rótulos aplicados a partir das opções políticas de quem publica.
Romanos 13:1-2: “Toda autoridade vem de Deus”
Como circula: Para legitimar a posição de alguém: “Se fulano está no poder, foi Deus que colocou; questionar é rebelião contra Deus.” Para deslegitimar: “Autoridade que apoia a ‘ideologia de gênero’ ou a corrupção não vem de Deus, então não precisa ser respeitada.”

Imagem: Publicação de perfil de pastor no Instagram, 20 ago 2026
A leitura correta: A carta de Paulo é dirigida a cristãos de Roma sob o Império, em um mundo sem eleições como as conhecemos, sem imprensa livre e sem direito de contestação institucional. Pedir que os cristãos não se tornassem uma ameaça política era conselho pastoral para uma minoria vulnerável. Não era uma teoria da democracia.
O mesmo trecho diz que a autoridade é “serva de Deus para o teu bem” (v. 4) e que sua função é coibir o mal. O texto descreve uma função, o que é diferente de abençoar cada ocupante do cargo. Reconhecer que Deus age na história não equivale a declarar que ele aprova cada decisão de cada governante.
A história também ensina cautela no uso de textos bíblicos para alimentar injustiças: Romanos 13, retirado do contexto, já foi invocado para justificar escravidão, regimes de segregação e a submissão de igrejas a ditaduras.
Onde se torna desinformação: as duas leituras, a que sacraliza o governo da vez e a que declara “não vem de Deus” o governo que desagrada, fazem o mesmo movimento. Ambas usam o texto como interruptor de legitimidade e ele não foi produzido para isto. Em uma democracia, o eleitorado não é súdito, mas cidadão. São mulheres e homens que participam na escolha de governantes, na fiscalização deles e criticam o que não corresponde ao que precisa ser feito. Criticar governantes não é rebelião contra Deus e para se compreender o apoio deles a determinadas pautas precisa-se tomar o crivo da Justiça e não simplesmente o da moralidade.
Salmos 33:12: “Feliz a nação cujo Deus é o Senhor”
Como circula: Constrói-se a ideia de “nação cristã” versus “nação que abandonou Deus”, com o argumento de que só um dos lados na disputa eleitoral trará a bênção nacional e o outro, a maldição.

Imagem: Publicação em perfil no Instagram, 4 out 2026
Leitura correta: o Salmo, texto poético, fala do Israel bíblico, concebido como o povo da aliança com Deus, “o povo que ele escolheu para sua herança”. Aplicar isso diretamente a um Estado moderno é um salto que o texto não autoriza. O Brasil é um Estado laico (Constituição Federal, art. 19), e o próprio Supremo Tribunal Federal (STF) já deliberou que a menção a Deus no preâmbulo constitucional não tem força normativa (Ação Direta de Inconstitucionalidade – ADI 2076).
O Salmo ainda desmonta a lógica política que a publicação tenta extrair dele. Poucos versículos depois, o texto diz que o rei não se salva pela força do seu exército (vv. 16-17). O texto relativiza o poder humano e não o consagra.
Como se torna desinformação: quando uma promessa poética de aliança com o divino vira ameaça eleitoral. “Vote em determinado candidato ou o país será amaldiçoado por Deus” é chantagem espiritual, e não ensinamento da Bíblia.
Êxodo 18:21: “Procure homens capazes, tementes a Deus, dignos de confiança e que odeiem o ganho desonesto”
Como circula: como “checklist bíblico do candidato perfeito”. Vídeos de “Eleições 2026” apresentam a lista como critério do eleitor cristão e, em seguida, recortam um item para atacar o adversário, insinuando que votar nele é desobediência.

Imagem: Publicação de pastor no Instagram, 26 set 2026
Leitura correta: quem dá o conselho é Jetro, sogro de Moisés e sacerdote de Midiã, não um profeta de Israel. O assunto é a divisão do trabalho de julgar disputas entre o povo. Moisés estava sobrecarregado e precisava de auxiliares, que ele, então, nomearia. Não há voto, não há campanha e não há disputa por cargo.
O texto paralelo de Deuteronômio 1:13 registra um detalhe pouco lembrado: o povo participou da escolha desses homens. Ou seja, a Bíblia não descreve os cargos como indicação de cima para baixo. Vale também a pergunta: quem e como avaliar o critério “temente a Deus”? Temor a Deus não se mede em vídeo curto nem em pesquisa. Já “odiar o ganho desonesto” é critério que se pode aplicar a todos os candidatos, inclusive aos que o propagador do vídeo defende.
Como se torna desinformação: quando uma lista de quatro qualidades vira régua usada apenas contra candidaturas adversárias.
Eclesiastes 10:2: “O coração do sábio se inclina para a direita, mas o coração do tolo para a esquerda”
Como circula: é o uso mais literal e o mais propagado em disputas direita x esquerda. O versículo é transformado juízo moral sobre posição política, às vezes como imagem fixada em áudio de campanha.

Imagem: Publicação em perfil no Instagram, 4 out 2026
Leitura correta: Os termos “direita” e “esquerda” na política só surgiram na França, em 1789, milhares de anos depois da redação do Eclesiastes, quando os deputados de tendências opostas se sentavam em lados diferentes na Assembleia Nacional da França. O texto poético da Bíblia não poderia tratar disso. Na linguagem do contexto bíblico, a mão direita é o lado da força, da destreza e do favor, e a esquerda, o da fraqueza. É uma forma de linguagem, e não uma ideologia. O próprio livro dos Juízes apresenta Eúde, descrito como canhoto, portanto visto como fraco, como libertador levantado por Deus (Juízes 3:15).
Como se torna desinformação: quando um texto sagrado sobre sabedoria prática, em um capítulo que trata de sensatez x tolice, é convertido em régua ideológica. Quem usa o texto, transformando-o em disputa ideológica, o desvia radicalmente de sentido.
Importante: Todos os casos apresentam o mesmo padrão de distorção e o mesmo roteiro.
Descarta-se o contexto, como nas citações de Provérbios e Eclesiastes, que são livros de sabedoria e não profecia eleitoral. Personaliza-se o “justo” e o “ímpio”, “direita”, “esquerda”, e depois, cria-se urgência espiritual.
A mensagem final é “se você é crente de verdade, não tem como votar no candidato X”. A dúvida é transformada em falta de fé e na conversa não cabe divergência. Esse último movimento é o mais eficaz, porque é baseado na criação do medo.
Quem compartilha está convencido de que protege crentes e igrejas e acaba sendo usado como canal de propaganda eleitoral de um determinado grupo político..
Bloco Temático: O uso da Bíblia na defesa das armas
O Bereia mapeou cinco textos que circulam como “autorização bíblica” para a população adquirir armas de fogo: Lucas 22:36 (“Mas agora, aquele que tiver bolsa, tome-a, como também o alforje; e, o que não tem espada, venda a sua capacidade e compre-a”), Êxodo 22:2 (“Se o ladrão for pego arrombando uma casa à noite, for ferido e morrer, quem o feriu não será considerado culpado de homicídio”), Neemias 4 (a defesa na reconstrução dos muros de Jerusalém sob ameaça, cerca de 445 a.C), Salmos 144 (oração do rei Davi antes de uma guerra) e Lucas 11:21 (parábola que cita “o valente guarda armado a sua casa”). O tema tem público cativo nos ambientes religiosos digitais.
O versículo mais popular, Lucas 22:36, entrou no debate nacional quando, em 15 de junho de 2022, foi citado pelo então presidente Jair Bolsonaro (PL), candidato à reeleição, para defender a flexibilização do porte de armas de fogo. Ele foi confrontado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), então seu adversário na disputa presidencial, com a afirmação de que “Jesus prega amor”. As duas falas compartilham o mesmo padrão que se encontra nas redes: o versículo se torna uma sentença, e o outro lado é tratado como herege.

Imagem: Perfil do Instagram (Deputado Bruno Souza – PL-SC), 2 fev 2026
As publicações com estes textos podem ser agrupadas em três correntes:
Evangélico-pentecostal. Essa corrente inserida entre evangélicos e, particularmente, entre grupos pentecostais, aciona sobretudo Lucas 22:36, Neemias 4:17 e Salmos 144:1. O vocabulário é o da batalha: “uma mão na obra e outra na arma”, “Deus adestra minhas mãos para a guerra”. O que caracteriza essa corrente é o deslizamento entre o sentido espiritual e o literal. Há uma tradição legítima de ler “guerra” como luta espiritual (Efésios 6:10-18; 2 Coríntios 10:4, que diz que as armas da nossa milícia “não são carnais”), mas, na circulação digital, a mesma frase passa de metáfora a recomendação prática sem aviso.
Católico tradicional. Corrente que usa parte do Catecismo da Igreja Católica (nn. 2263 a 2265) e de Tomás de Aquino (Suma Teológica, II-II, q. 64, a. 7) para justificar armas. É a corrente mais elaborada do ponto de vista argumentativo.
Vale destacar que a legítima defesa não é pecado, a morte do agressor pode ser efeito não desejado de uma defesa proporcional, e defender a proteção pelas armas pode ser até um dever grave. A força do argumento está nas condições que ele impõe, e é aí que costuma ser descontextualizado.
Tático (dos Colecionadores, Atiradores Desportivos e Caçadores/CACs). Corrente que mais aciona Lucas 22:36 e, com frequência, Êxodo 22:2 e Lucas 11:21, e aparece em parte dos conteúdos sob o rótulo “Caveira de Cristo”. É o grupo que usa o vocabulário mais secular (preparo, treinamento, responsabilidade, proteção da família) mas que recorre à Bíblia como selo de legitimidade final.
Como o Bereia verificou o uso destes textos:
Lucas 22:36: “quem não tem espada, venda a sua capa e compre-a”
Como circula: como ordem de Jesus para que o cristão se arme.
A leitura correta: o texto diz respeito à Última Ceia, horas antes da prisão e morte de Jesus. Ele avisa que o tempo agora é outro e cita Isaías 53:12 (“será contado entre os malfeitores”). Os estudiosos divergem entre leitura literal, simbólica e profética. A linguagem “trocar a capa por uma espada” significa, nesse contexto, que os discípulos enfrentariam tempos difíceis, de perseguição, e precisariam de coragem. Seria como se usa hoje “ter bala na agulha”. Os discípulos, em seguida, mostram duas espadas, e Jesus responde “Basta!”, expressão que pode significar “são suficientes” ou “chega dessa conversa”. Mas o que vem depois tem muita nitidez: quando o apóstolo Pedro fere o soldado que chegou para prender Jesus, o mesmo ordena “Basta! Deixai!” e cura a orelha que foi cortada (Lucas 22:51). No relato de Mateus 26:52, Jesus diz: “embainha a tua espada”. O termo grego (máchaira) designa espada curta ou faca, e o texto não fala de armas de fogo. Afirmar, a partir deste texto, que Jesus mandaria comprar um revólver ou uma pistola é interpretação retórica, não informação do texto.
Como se torna desinformação: quando um versículo isolado do contexto de todo um relato se transforma em regra permanente e o “Basta!” e a cura da orelha são omitidos da ideia defendida.
Êxodo 22:2: quem mata o ladrão que arromba não tem culpa
Como circula: como suposta autorização da Bíblia para matar o invasor de uma casa.
A leitura correta: o versículo isenta de culpa quem fere o ladrão noturno que morre. Porém, o versículo 3, sempre omitido, diz que, se o sol já tinha nascido, há culpa de sangue. É a legislação do Israel antigo: à noite, o dono não identifica o intruso nem pede ajuda e presume-se risco de vida; de dia, há testemunhas, e a pena para o furto é a restituição, não a morte. Ou seja, a lei do Israel da Bíblia, de milhares de anos atrás, protege a vida, incluída a de um ladrão, quando o risco dee morte não é o fator decisivo. No Brasil de 2026, vigora lei para estes casos – trata-se da aplicação legítima defesa (Código Penal, art. 25), que exige agressão injusta, atual ou iminente, uso moderado dos meios necessários e proporcionalidade. Matar para defender apenas o patrimônio, sem risco à vida, não é enquadrado.
Como se torna desinformação: quando se omite a continuação do texto, o versículo 3, que traz regra do Israel antigo de preservar a vida de todos os envolvidos.
Neemias 4:17-18: “com uma das mãos faziam a obra e com a outra seguravam a arma”
Como circula: como lema do cristão que “trabalha e se protege com armas de fogo”.
A leitura correta: Neemias foi um governador que atuou na reconstrução dos muros de Jerusalém, depois do Exílio, por volta de 445 a.C., com autorização do rei da Pérsia, que havia liberado o retorno à terra. O texto conta de inimigos que conspirariam para atacar os repatriados. Neemias faz oração, põe guardas, divide o povo entre obra e vigilância armada e conclui que “o nosso Deus pelejará por nós”. O texto mostra, sim, defesa armada, em um contexto de guerra permanente e tomada de território por povos inimigos. Portanto, tratava-se de uma comunidade sob ameaça iminente e coordenada, com um governador legitimado e comando central. Não descreve cidadãos se armando individualmente para atirar contra quem é considerado seu inimigo particular, no século 21.
Como se torna desinformação: quando um episódio de defesa coletiva em tempo de guerra e tomada de território por inimigos, ocorrido milhares de anos atrás, é convertido em lema de posse individual de armas.
Salmos 144:1: “Bendito seja o Senhor, que adestra as minhas mãos para a guerra”
Como circula: como “vocação” para o treinamento com armas.
Leitura correta: é um salmo régio, poético, atribuído a Davi, rei e comandante, no qual a “guerra” é a de um exército do seu reino. O mesmo salmo chama Deus de escudo e refúgio, atribui a ele a vitória dos reis e termina pedindo paz: que não haja invasão nem gritos de aflição nas praças (v. 14). A tradição da Bíblia registra ainda o repúdio à guerra uma vez que Davi não pôde construir o Templo por ser homem de guerra e ter derramado sangue (1 Crônicas 28:3).
Como se torna desinformação: quando um salmo de rei vira chamado pessoal ao uso de armas, sendo omitido o final do texto, que pede paz, o contrário da guerra e da aflição.
Lucas 11:21: “o valente, bem armado, guarda a sua casa”
Como circula: como endosso à defesa armada do espaço privado da casa.
Leitura correta: pode ser o uso mais distorcido do conjunto. No texto, Jesus, acusado de expulsar demônios pelo poder de Belzebu, responde com a parábola do homem forte. O “valente armado” representa o mal que guarda suas posses em paz. O versículo 22 diz que, quando chega alguém mais forte, ele é vencido e perde “a armadura em que confiava”. Nesse caso, a linguagem simboliza que o mais forte é Jesus, e a armadura em que o outro confiava é justamente o que cai (paralelo em Mateus 12:29). Portanto, o contexto do relato oferece o oposto do que se propaga nas mídias em 2026.
Como se torna desinformação: quando uma parábola sobre o reino de Deus e a derrota do mal por Jesus é lida como conselho de segurança doméstica com uso de arma de fogo e o versículo 22 sobre a derrota da figura armada desaparece das publicações nas redes.
Ainda: Romanos 13:4, “a autoridade não traz a espada em vão”
Como circula: ao lado de Lucas 11:21, como suporte à defesa armada, em materiais de evangélicos pentecostais e católicos.
A leitura correta: O texto da carta do apóstolo Paulo atribui a espada ao poder público, no caso o Império Romano, que é “serva de Deus” para castigar quem pratica o mal, poder que não é do indivíduo. O capítulo anterior pede que ninguém se vingue por conta própria (Romanos 12:19). Seguidores da tradição católica usam o texto para reservar à autoridade pública o uso intencional da força letal (“agentes do Estado podem matar livremente, sim”). Usam também para defender o controle de armas e para afirmar o monopólio estatal da força. Quem defende a posse civil lê a legítima defesa como exceção. Os dois grupos extraem de Romanos 13 mais do que o texto diz sobre posse civil de armas.
Como se torna desinformação: quando o versículo que dá a espada ao governante é usado para justificar a espada do cidadão ou, no sentido inverso, quando se afirma que ele proíbe toda defesa pessoal e dá a agentes do Estado o direito de matar livremente.
Nenhum dos cinco textos, lidos por inteiro, atua como ordem da Bíblia para que uma pessoa comum adquira uma arma de fogo. Há trechos de difícil interpretação (Lucas 22:36) e episódios de defesa coletiva (Neemias), mas o que circula nas publicações em mídias sociais apela ao cortar versículos atrelados à ideia do texto, ao ignorar o gênero literário e ao transplantar leis e guerras do contexto antigo no qual os escritos foram produzidos, para o debate brasileiro. Quem quiser defender a posse de armas deve ter o direito de fazê-lo, porém com argumentos de segurança pública e de direito, e não com textos retirados e recortados da Bíblia para enganar o público.
Bloco Temático: O Apocalipse usado para impor medo em eleitores
Bereia identificou que textos como Apocalipse 13 (a marca da besta) têm sido usados para criticar urnas eletrônicas, o PIX e candidatos adversários. Apocalipse 13:16-17, é o que mais ganha volume nos ambientes digitais religiosos.
Apocalipse 13:16-17: “para que ninguém possa comprar ou vender senão aquele que tiver o sinal”
Como circula: O discurso é que o voto eletrônico o PIX, um cartão com QR code e o pagamento com a palma da mão são a “marca da besta”, e que o candidato que defende ou aceita essas tecnologias seria precursor do anticristo. O monitoramento identificou três variações.
A palma da mão. Um vídeo atribuído ao candidato a deputado federal Altair Moraes (Republicanos-SP), eleito em 4 de outubro passado, apresentado como propaganda eleitoral, mostra na tela o texto “PAGUE COM A PALMA DA MÃO” com uma voz ao fundo dizendo que não aceita pagar com a palma porque “o sistema quer controle total”. O vídeo traz a legenda Apocalipse 13:16-17. Nos comentários, há centenas de mensagens de apoio. Em paralelo circulam artes apocalípticas com um gigante de terno controlando a multidão, scanner de testa com a palavra “AUTORIZADO”, mão com chip brilhando e celular com a compra bloqueada.

Imagem: Publicação em perfil do Instagram (Deputado estadual Altair Moraes – Republicanos – SP – eleito deputado federal em 2026), 16 ago 2026
O PIX. Uma versão deste conteúdo circulante: “o PIX foi implantado para enganar o povo, vai ser igual à vacina”.
O voto eletrônico. Um cartão com chip e QR code, que lembra um título de eleitor, é divulgado em grupos de WhatsApp como “o cartão que identifica em quem você votou”.
É a desinformação que mais circulou criando medo real no dia da votação, 4 de outubro passado, porque se refere ao momento em que eleitores estão diante da urna.
O pagamento por palma da mão é real, mas ainda não consolidado no Brasil. É uma tecnologia que usa luz infravermelha para ler o padrão das veias e o fluxo sanguíneo da palma, e exige cadastro prévio, voluntário, vinculado a um cartão ou a uma chave PIX. Empresas como a Positivo Tecnologia, a Tecban e a Elo testam o sistema, e reportagens indicam operação comercial prevista para o início de 2027, embora uma delas diga que já há funcionamento no Distrito Federal. Nada disso é obrigatório nem tem relação com o voto.
O PIX é um meio de pagamento criado pelo Banco Central, lançado em 2020. A associação do PIX com a “marca da besta” circula desde o lançamento e, em 2022, uma reportagem do Correio Braziliense registrou o caminho do termo como “sinal da besta” na forma de bandeira de campanha eleitoral, usada por candidatos.
Sobre a urna: o voto é secreto por determinação constitucional. A urna não está ligada à internet, não tem leitor de QR code. Os votos são gravados no sistema de forma embaralhada, de modo que não é possível ligar um voto a um eleitor. Além disso, o Brasil vota de forma eletrônica desde 1996 e nunca foi comprovado qualquer caso de fraude.
Um dos principais fatores de segurança do processo eleitoral brasileiro é muito fácil de entender: como descrito acima, as urnas não são conectadas à internet, ou seja, não é possível que qualquer hacker, por mais habilidoso que seja, consiga invadir o equipamento para adulterar os votos, favorecendo uma ou outra candidatura.
O Apocalipse foi escrito a igrejas perseguidas do século I. A “marca da besta” diz respeito à lealdade ao Império exigida pelo culto ao imperador romano. O Apocalipse inteiro é uma denúncia do poder maligno do Império que controlava e impedia a vida na sua plenitude, manifestada como vontade de Deus, como interpretado naquele momento.
Como se torna desinformação: quando uma interpretação de textos da Bíblia entre várias é apresentada como a única, e quando a mensagem passa de “cuidado com a tecnologia de controle” para “o candidato X é o precursor da besta”. A tecnologia de identificação da hora sempre foi candidata a “marca”: o cartão de crédito, o código de barras e o CPF já foram alvo deste tipo de abordagem. Há quem conteste o pagamento por palma da mão com argumentos científicos, como a proteção de dados biométricos e o consentimento, nada comparado ao uso do texto de Apocalipse 13, deslocado do sentido.
Referência
Supremo Tribunal Federal
https://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=AC&docID=375324 Acesso em 21 OUT 2026
Uol Cultura
https://cultura.uol.com.br/noticias/49927_lula-critica-fala-de-bolsonaro-sobre-armas-cretinice.html Acesso em 21 OUT 2026
Banco Central do Brasil
https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/pix-sobre Acesso em 21 OUT 2026
Tencent
https://www.tencent.com/en-us/articles/2201785.html Acesso em 21 OUT 2026
Tribunal Regional Eleitoral de Goiás
https://www.tre-go.jus.br/comunicacao/noticias/2024/Fevereiro/entenda-por-que-nao-e-possivel-fraudar-a-urna-eletronica Acesso em 21 OUT 2026
Presidência da República
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado.htm Acesso em 21 OUT 2026
Coletivo Bereia
https://coletivobereia.com.br/2o-turno-das-eleicoes-2026-nao-permita-que-inimigos-da-democracia-tirem-seu-direito-de-escolher-e-de-votar/ Acesso em 21 OUT 2026
https://coletivobereia.com.br/quase-60-milhoes-de-pessoas-expostas-bereia-promove-pesquisa-que-mapeia-desinformacao-religiosa-no-instagram/ Acesso em 21 OUT 2026


