Controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida na campanha eleitoral mobiliza milhões de interações nas redes religiosas

A controvérsia em torno da alegação de que Flávio Bolsonaro apoiaria a retirada de Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil foi objeto de pesquisa da Casa Galileia em redes digitais religiosas, entre 24 e 25 de Setembro de 2026. Na amostra analisada, a narrativa de acusação aparece contraposta por uma série de conteúdos que classificam a informação como falsa, atribuem o episódio a um erro ou a uma ação política da “ala petista” e destacam a negativa do próprio Flávio Bolsonaro. O conteúdo de maior repercussão registrado é a publicação do candidato a presidente da República Flávio Bolsonaro (PL), com 9.867 interações, seguida por uma publicação do site gospel PlenoNews, com 8.145.

A narrativa de desmentido se desdobra em diferentes enquadramentos. Flávio Bolsonaro afirma respeitar todas as religiões e também pessoas sem religião; o PlenoNews apresenta a informação como falsa e posteriormente destaca uma retratação da GloboNews; Gospel+ reproduz a negativa, enquanto Sóstenes Cavalcante e Deltan Dallagnol amplificam o desmentido. Assim, a resposta não se limita à defesa de Flávio, mas também desloca o foco para a imprensa e o PT e para a suposta circulação de “fake news” no contexto eleitoral.

Aparecida no imaginário católico e nacional

Para compreender a dimensão que essa controvérsia alcança, é preciso considerar o lugar ocupado por Nossa Senhora Aparecida no imaginário católico e, de forma mais ampla, no próprio imaginário nacional brasileiro. A presença da santa está enraizada na religiosidade popular, mas não se limita apenas a esse espaço eclesial. Ao longo da história, Aparecida também foi ganhando lugar na construção simbólica do Brasil como nação, associada a ideias de pertencimento, unidade e identidade nacional.

Essa dimensão nacional foi sendo construída sobre uma devoção muito anterior ao seu reconhecimento institucional. Aparecida não se tornou “padroeira do Brasil” por decisão do estado brasileiro. Em 1930 atendendo um pedido do episcopado o papa Pio XI declarou Nossa Senhora da Conceição Aparecida Padroeira de todo o Brasil. A proclamação solene ocorreu no ano seguinte, no Rio de Janeiro.

O reconhecimento na legislação brasileira veio 50 anos depois com a Lei nº 6.802, de 30 de junho de 1980, que declarou o dia 12 de outubro feriado nacional “para culto público e oficial a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil”. Há, portanto, duas dimensões relacionadas que não são equivalentes nesse debate: uma é o título eclesial de Padroeira, reconhecido pela Igreja Católica; outra é o reconhecimento civil que o Estado brasileiro posteriormente incorporou à legislação.

Disputa narrativa sobre religião e eleições

Outro enquadramento identificado é o de que a controvérsia faria parte de uma estratégia eleitoral para atingir Flávio Bolsonaro e seu eleitorado católico. A publicação da página Assembleianos de Valor Oficial afirma que a falsa informação buscaria fazer religiosos acreditarem que o candidato do PL atacaria a religião católica e retirar votos destinados a ele. Em sentido oposto, o perfil Evangélicos com Lula apresenta a controvérsia como exemplo de instrumentalização política da religião e afirma que a discussão deveria mobilizar tanto católicos quanto evangélicos. Dessa forma, o episódio passa a operar como uma disputa narrativa sobre religião, eleições e credibilidade da informação.

Os números da amostra monitorada

Síntese das narrativas e métricas dos conteúdos monitorados. Período da análise: Publicações realizadas entre 24 e 25 de Setembro de 2026.

Total de interações registradas: 34.382. Entre os quatro conteúdos para os quais há dados de possíveis impressões, o total é de 5.166.673 possíveis impressões. Essa métrica representa exposição potencial estimada e não equivale necessariamente a alcance ou visualizações efetivas.

Rankings

Por interações:

1) Flávio Bolsonaro (9.867);
2) PlenoNews – negativa (8.145);
3) Evangélicos com Lula (3.993);
4) PlenoNews – retratação (3.938);
5) Assembleianos de Valor Oficial (2.150).

Por possíveis impressões:

1) Assembleianos de Valor Oficial (1.794.430);
2) PlenoNews – negativa (1.491.525);
2) PlenoNews – retratação (1.491.525);
4) Gospel+ (389.193).

Considerando os dez conteúdos contabilizados até o momento, foram registradas 34.382 interações. Entre os conteúdos com dados de “Possíveis Impressões”, a maior estimativa é da publicação de Assembleias de Deus Oficial, com 1.794.430, seguida por duas publicações do PlenoNews, cada uma com 1.491.525, e uma do Gospel+, com 389.193. As “Possíveis Impressões” devem ser tratadas como estimativa de exposição potencial, e não como alcance efetivo ou número de pessoas únicas. O conjunto indica um ciclo de acusação, desmentido, retratação e contra-acusação, com forte circulação da narrativa de que a informação sobre a retirada da Padroeira seria “fake news”.

Métricas dos conteúdos monitorados

#Perfil/conteúdoLinha narrativaInteraçõesPossíveis impressões
1Flávio Bolsonaro — negativaNegação / respeito às religiões9.867—
2PlenoNews — negativaNegação / informação falsa8.1451.491.525
3Evangélicos com Lula — acusaçãoAcusação / instrumentalização da fé3.993—
4PlenoNews — retratação da GloboNewsRetratação / fake news3.9381.491.525
5Assembleias de Deus OficialFake news / estratégia eleitoral2.1501.794.430
6Sóstenes Cavalcante — republicaçãoAmplificação da negativa1.993—
7Deltan Dallagnol — republicaçãoAmplificação da negativa1.969—
8Flávio Bolsonaro — GloboNewsNegação / crítica à mídia1.702—
9Deltan/Sam Pancher — explicativoDesmentido / contextualização621—
10Gospel+ — negativaNegação / fake news4389.193

Nota metodológica: Os dados refletem os conteúdos identificados na amostra fornecida até o momento. “Interações” corresponde à soma das métricas visíveis nos registros coletados; “Possíveis Impressões” é a estimativa apresentada pela ferramenta de monitoramento. Os rankings poderão ser atualizados à medida que novos posts forem incorporados.

Dimensão da conversação em “mar aberto”

A consulta em “mar aberto” (V-TRACKER) amplia significativamente a dimensão observada na amostra inicial. No período de 24 e 25 de setembro de 2026, utilizando os termos “Padroeira do Brasil” OR “Nossa Senhora” associados a “Flávio Bolsonaro”, a ferramenta registrou 7.712 ocorrências, 363,13 milhões de impressões e 6,32 milhões de interações. Esses números não correspondem apenas aos conteúdos selecionados para a análise qualitativa e, portanto, oferecem uma medida mais ampla da circulação da controvérsia no ecossistema monitorado.

A distribuição por canal mostra forte concentração no X, responsável por aproximadamente 88% das ocorrências. No monitoramento, foram identificadas 6.790 ocorrências no X, 468 em sites de imprensa, 333 no Facebook, 65 no Instagram, 40 no YouTube e três no TikTok, além de ocorrências residuais no Threads. A concentração no X indica que a controvérsia se desenvolveu principalmente como uma conversa de rede social, posteriormente repercutida por veículos de mídia e outras plataformas.

Principais canais no mar aberto

CanalOcorrênciasParticipação aproximada
X6.79088,0%
Mídias/Imprensa4686,1%
Facebook3334,3%
Instagram650,8%
YouTube400,5%
TikTok3<0,1%

A evolução temporal revela uma aceleração muito forte no final do período. O volume de ocorrências aumenta de forma acentuada em 24 e atinge seu maior patamar em 25 de setembro. A série sugere, portanto, uma escalada rápida da conversação nas últimas 24 horas do período monitorado, coincidindo com a circulação da negativa de Flávio Bolsonaro e da informação sobre a retratação da GloboNews.

O monitoramento em mar aberto também evidencia que a controvérsia já ultrapassou a disputa entre uma acusação original e sua negativa. Há conteúdos que reproduzem a alegação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil; conteúdos que afirmam tratar-se de “fake news” e destacam a retratação da GloboNews; e conteúdos que interpretam a circulação da informação como parte de uma estratégia eleitoral para atingir o candidato do PL e seu eleitorado católico. A partir daí, surgem memes, comentários e novas formulações da controvérsia, indicando que a narrativa passa a adquirir dinâmica própria.

Amostra e mar aberto: duas medidas diferentes

É importante distinguir os dois conjuntos de métricas. A amostra inicial, composta por dez conteúdos selecionados, soma 34.382 interações e serve principalmente para identificar atores, conteúdos e linhas narrativas de maior repercussão entre os posts analisados. Já a busca em mar aberto registra 7.712 ocorrências e 6,32 milhões de interações no universo capturado pela ferramenta.

Assim, as 34.382 interações da amostra correspondem a aproximadamente 0,54% do total de interações observado no mar aberto, ou seja, o universo ampliado registra cerca de 184 vezes mais interações. As 363,13 milhões de impressões do mar aberto também não devem ser comparadas diretamente com as 5.166.673 possíveis impressões da amostra, pois estas últimas estão disponíveis apenas para quatro conteúdos e representam uma estimativa de exposição potencial.

Comparação entre amostra selecionada e mar aberto

IndicadorAmostra selecionadaBusca em mar aberto
PeríodoConteúdos identificados até o momento21–25/09/2026
Ocorrências10 conteúdos analisados7.712
Interações34.3826,32 milhões
Impressões / possíveis impressões5.166.673 em 4 conteúdos*363,13 milhões
Principal canalDiversos, com foco nos conteúdos selecionadosX — 88% das ocorrências

* Na amostra selecionada, “Possíveis Impressões” estava disponível para quatro conteúdos. No mar aberto, a ferramenta apresenta “Impressões” agregadas. As duas métricas devem ser tratadas como indicadores de exposição potencial e não como número de pessoas únicas alcançadas.

A combinação entre a concentração das ocorrências no X e a forte aceleração de 24 para 25 de setembro sugere que a controvérsia se expandiu rapidamente no ambiente digital. A amostra qualitativa ajuda a compreender como essa expansão é narrada por diferentes atores, enquanto o mar aberto dimensiona a escala da conversação.

Expediente do monitoramento

Diretor Executivo: Leon Souza
Diretor de Campanhas: Flávio Conrado
Coordenação e pesquisa: Andréa Laís
Pesquisa: Lorena Mochel

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