O deputado federal evangélico Nikolas Ferreira (PL-MG) compartilhou um documento falso atribuído à Polícia Federal (PF) que alegava não haver indícios de crime em suas conversas com o banqueiro Daniel Vorcado. Uma apuração realizada pela agência de checagem Aos Fatos mostrou que o conteúdo foi manipulado por inteligência artificial e não corresponde ao padrão usado pela corporação policial, que também negou a autoria do suposto relatório.
O parlamentar divulgou o material em seu perfil nas mídias sociais em setembro, após viralização da reportagem da jornalista do ICL Notícias Juliana Dal Piva revelar conteúdo de áudios investigados pela PF. Neles, Nikolas Ferreira, após mediação do pastor da Igreja Batista da Lagoinha André Valadão, contata o banqueiro Daniel Vorcaro para pedir ajuda com a liberação de “um ativo de minério”, referente a negócios de um ex-assessor.
O documento publicado nas redes pelo deputado do PLfoi desmentido tanto pela própria PF quanto por uma checagem técnica realizada pelo Aos Fatos. À agência de checagem, a PF confirmou que não produziu nem o texto nem a imagem que circulavam como se fossem parte de um documento oficial.
O material, criado por IA, intitulado de “Relatório de Análise de Dados” e associado à Operação Compliance Zero, afirmava que as mensagens trocadas entre Nikolas Ferreira e Daniel Vorcaro tratavam apenas de assuntos pessoais e profissionais. Entre eles apenas pedidos de desculpas sobre críticas públicas do deputado ao Banco Master e um pedido de intermediação de procedimento financeiro parau um ex-assessor.
O falso relatório registrava, ainda, que não haveria elementos suficientes para caracterizar crime ou justificar uma investigação específica contra o parlamentar. As publicações que reproduziram esse conteúdo somaram ao menos 500 mil visualizações no X, antigo Twitter.
Uma análise feita por Aos Fatos com a ferramenta de verificação da OpenAI identificou no arquivo a presença do SynthID, uma marca d’água digital usada para sinalizar conteúdos gerados ou editados por inteligência artificial. A própria OpenAI confirmou que esse sinal indica manipulação por meio de suas ferramentas.
Além da tecnologia usada para forjar o documento, uma série de detalhes expôs a fraude: o emblema da PF que consta no material difere do símbolo oficial, com traços e dobras diferentes nas fitas; o acento da palavra “Polícia”, que no emblema original é substituído por um triângulo, aparece de forma incorreta.
A numeração dos itens pula de 7 para 7.3, sem passar por 7.1 e 7.2, erros de português, como “contato salvado” no lugar de “contato salvo”, também indicam que o conteúdo não é oficial.
Além disso, o documento traz elementos incomuns em relatórios oficiais da PF, como emojis. As datas também não fecham: o suposto relatório teria sido produzido no mesmo dia da extração dos dados, 18 de novembro de 2025, data que representa apenas um dia após a prisão de Vorcaro.
A ação fraudulenta de Nikolas Ferreira ocorreu como resposta à reportagem do ICL. O deputado produziu um vídeo, pelo qual negou proximidade com o ex-banqueiro, e depois publicou o laudo falso nos stories do seu perfil no Instagram. A assessoria do parlamentar disse ao Aos Fatos que ele não sabia que o material era falso e que apenas reproduziu conteúdo divulgado originalmente por outro perfil.
Neste 4 de setembro, o deputado admitiu ao portal Metrópoles que compartilhou o conteúdo e que a publicação foi removida.
“Um perfil, Space Liberdade [amplamente conhecido por publicar conteúdo falso e enganoso] postou e eu tinha compartilhado. Assim que ele deletou a minha postagem também sumiu, entendeu?”, afirmou Nikolas Ferreira.
A legislação brasileira prevê pena de dois a seis anos de reclusão, além de multa, para quem falsifica documentos públicos ou faz uso indevido de símbolos de órgãos oficiais. Porém, a responsabilização depende da identificação de quem de fato produziu e divulgou a montagem.
Bereia seguirá acompanhando o caso.


