Homem autodeclarado missionário é preso sob suspeita de matar filho de 3 anos

Oliver Golden Grayson, de três anos, morreu na noite de quarta-feira (8/7) no Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre, após ser espancado pelo próprio pai em Viamão, na Região Metropolitana da capital gaúcha. A notícia foi divulgada pelo G1, UOL, Terra, Correio Braziliense e GZH.

O pai, que se autointitula missionário, é o estadunidense Dandre Jermaine Grayson, de 33 anos. Ele confessou à Polícia Civil ter agredido o filho com socos no peito e no abdômen e batido a cabeça do menino no chão porque Oliver não lhe deu “bom dia”.

O crime ocorreu no último domingo (5/7), no distrito de Águas Claras, área rural de Viamão, região metropolitana de Porto Alegre, onde a família morava havia cerca de seis meses. Dandre está preso preventivamente desde então. A mãe da criança, Mayanna Angelina Rodgers, de 29 anos, foi presa dois dias depois, na quinta-feira (9/7), suspeita de omissão.

Fonte: Reprodução/Terra

Histórico de agressões

Apesar do curto período no Rio Grande do Sul, a família mora no Brasil desde 2017. De acordo com a polícia, o casal teria se mudado para o país, onde teve cinco filhos: Oliver e mais quatro de 1, 5, 7 e 9 anos.

Antes de chegar ao Rio Grande do Sul, a família viveu em pelo menos dois outros estados. Em São Paulo, passou pelas cidades de Mogi Mirim e Águas de Lindoia, onde chegou a ser aberto um inquérito policial por maus-tratos, arquivado depois que o Ministério Público pediu novas diligências que não foram cumpridas. Em Santa Catarina, Grayson, a mulher e os filhos moraram em Palmitos, onde o Ministério Público catarinense passou a acompanhar o núcleo familiar a partir de fevereiro de 2025. Com intervenção da Justiça, as crianças chegaram a ser acolhidas, mas retornaram aos pais.

A família se instalou em área rural de Viamão em setembro de 2025, e o Conselho Tutelar do município passou a monitorar a situação desde novembro do mesmo ano. Um relatório da prefeitura mostra que em 4 de dezembro um posto de saúde notificou a rede de proteção após atender uma das crianças com “ferimento facial significativo” e outra com marcas nos braços. Treze dias depois, uma assistente social foi até a casa da família, mas não encontrou ninguém. De acordo com registros do município, o caso chegou a ser discutido em três reuniões da rede de proteção, sem nova intervenção registrada.

Segundo a delegada responsável pelo caso, Luana Tamiozzo Medeiros, os dados apurados até o momento apontam que as agressões contra os filhos já aconteciam havia pelo menos oito anos, e as crianças eram levadas ao hospital pela mãe. Porém, havia a orientação de mentirem sobre a origem dos ferimentos, impedirem que os médicos vissem e avaliassem os sinais das agressões e a usarem roupas de mangas compridas para escondê-los.

Em entrevista à RBS, o prefeito de Viamão Rafael Bortoletti contou que uma reunião já estava marcada para decidir sobre o acolhimento das crianças em abrigo, o que acabou não acontecendo. Ele reconheceu falha do poder público no acompanhamento do caso e disse que o município falhou “como seres humanos, como rede de serviço, como prefeitura”.

Missionário autodeclarado

Divulgado em diversos veículos como “Missionário que matou filho de 3 anos”, Grayson se apresenta em seu perfil no Instagram como “cantor cristão” e tem duas publicações no perfil: uma foto com legenda em inglês sobre a onipresença de Deus e um vídeo cantando. Contudo, ele não menciona, nem em seu perfil nem em suas publicações, relação com uma denominação específica da igreja católica ou evangélica. Após a repercussão da notícia, as publicações de Grayson nas mídias digitais passaram a receber comentários de pessoas repudiando a agressão.

Fonte: Dandre Grayson (Perfil no Instagram)

Sua relação com a igreja ou atuação como missionário não é aprofundada por nenhum dos veículos que o apontam como “missionário”. Segundo a delegada Luana Medeiros, ele pregava em uma igreja própria, criada pelo pai de Mayanna, contudo nem ela nem outras fontes consultadas identificam seu nome oficial.

Em busca na casa da família, a polícia encontrou documentos escritos por Grayson com conteúdo que prega a submissão da mulher e uma visão conservadora do papel de gênero dentro da família. Segundo a delegada, ele se “via como um enviado de Deus” – informação confirmada por moradores que foram entrevistados pelo portal Metrópoles – e as agressões eram consideradas forma de “disciplinar” os filhos dentro dessa religiosidade.

Até o momento, o inquérito policial e a investigação do Ministério Público apontam que Dandre não tinha vínculo formal com nenhuma igreja no Brasil e frequentava diferentes templos de denominação evangélica como convidado ou fiel, chegando a realizar pregações e a cantar durante as cerimônias.

Fonte: Dandre Grayson (Perfil no Instagram)

Segundo relatos em uma reportagem da GHZ, Grayson teria recebido ofertas de trabalho desde que chegou a Viamão, mas recusou as oportunidades, pois entendia que sua missão era atuar como missionário, disseminando a palavra do evangelho.

Além da menção como missionário, o caso é também vinculado à comunidade evangélica de Viamão. Em entrevista para a RBS, o pastor evangélico Carlos Roberto Vieira da Silva conta que recebeu a família em Viamão no fim de 2025, ajudou-os a conseguir uma casa mais perto da escola das crianças e dava carona para eles. O pastor diz estar triste com a morte de Oliver e lembrou do carinho das crianças ao receberem alimentos.

“Eu estou triste, porque o pequenininho se agarrava na gente. Quando a gente foi levar iogurte, eles vieram todos correndo, me abraçaram, agradecendo pelo alimento”, conta.

Na entrevista, o pastor não detalha a relação da família dentro da comunidade além do apoio que receberam. Mas afirma que a comunidade havia estranhado a forma como a família se relacionava e se posicionava, e questionado o pastor, que, por sua vez, disse que iriam investigar, mas não chegou a concretizar a investigação. O Bereia tentou entrar em contato com o pastor para entender a relação da família com a comunidade e identificar o templo e a denominação, mas, até o momento, não teve retorno.

Últimas atualizações sobre o caso

Dandre confessou a agressão à Polícia Civil e deve responder por homicídio duplamente qualificado. Ele relatou que, após a agressão, levou o menino nos braços até a mãe e, juntos, o encaminharam ao hospital de Viamão, onde, depois de a criança ter sido atendida, foi acionada a polícia, que realizou a prisão em flagrante do agressor.

Conforme explicou a subprocuradora para Assuntos Institucionais do MP-RS, Alessandra Moura Bastian da Cunha, um mandado de busca e apreensão foi expedido para se verificar na casa da família qual o instrumento de agressão. “O relato do pai teria sido de agressão apenas com os punhos e bater a cabeça da criança, mas pelo relato da médica, possivelmente, aquelas lesões não teriam sido causadas apenas com punhos e precisaria ter sido utilizado um instrumento contundente”, contou. 

A equipe médica e a delegada Luana Medeiros afirmam que as lesões da criança eram incompatíveis com a descrição feita na versão inicial dada pelo pai, o que levou a polícia a suspeitar do uso de algum objeto para realizar as agressões.

A defesa de Mayanna afirma que ela também é vítima, descrevendo-a em “estado de grave vulnerabilidade” dentro de um contexto de violência doméstica, física, emocional e espiritual, e pediu apuração cuidadosa antes de qualquer julgamento. A advogada Isabel Cochlar reforçou esse ponto, descrevendo o caso como o de uma mulher submetida por nove anos a um homem que se passava por missionário e agia com violência extrema contra ela.

Até o momento da publicação desta matéria, a investigação estava em uma segunda etapa, voltada a reconstituir o histórico de violência e apurar se outras pessoas podem ser responsabilizadas; serão ouvidos vizinhos, equipes médicas e conselheiros tutelares. A polícia também oficiou instituições de Santa Catarina e do Paraná em busca de mais informações sobre a família.

O Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP-RS) informou que, mesmo com as movimentações no município e as denúncias registradas, só tomou conhecimento do caso após a internação de Oliver. O MP-RS acionou a Interpol para levantar se Dandre tinha antecedentes ou era procurado nos Estados Unidos antes de migrar para o Brasil, segundo a subprocuradora Alessandra Moura Bastian da Cunha.

De acordo com reportagem publicada pela GZH, Dandre frequentava espaços públicos, comércios e empresas realizando pregações religiosas, mas nunca estava acompanhado da família. Moradores de Viamão afirmam que ele, a esposa e os filhos viviam em situação de pobreza e haviam morado em diferentes casas desde sua chegada à região. Nas últimas semanas, se estabeleceram em uma casa da comunidade evangélica da região que fica na área rural. Grayson andava pela cidade pedindo doações de alimentos, móveis e outros utensílios para a casa.

A família é beneficiária do Gás do Povo, do Bolsa Família e do Novo Bolsa Família, segundo dados do Portal da Transparência da Controladoria-Geral da União  Além disso, também é atendida pelo Programa Alimenta Viamão (PAV), iniciativa da Prefeitura de Viamão que compra frutas, verduras, legumes, pães e mel de pequenos produtores rurais e os doa a famílias em situação de vulnerabilidade social inscritas no CadÚnico.

* * * * * 

Bereia classifica as matérias sobre o caso como imprecisas. Os veículos que noticiaram o crime se basearam em depoimentos policiais e boletins oficiais, que confirmam a agressão e a morte de Oliver. Como Bereia verificou, esses dados são verdadeiros, porém a caracterização de Dandre Jermaine Grayson como “missionário” não veio acompanhada de verificação sobre a existência de vínculo com uma denominação, igreja ou organização religiosa reconhecida, elemento que só passou a ser buscado, de forma ainda parcial, nas apurações posteriores.

Portanto, a forma como o conteúdo foi produzido caracteriza a informação como imprecisa. Nesse caso, ela desinforma por dois fatores: 1) a atribuição do termo “missionário” sem a devida comprovação ou contextualização no primeiro momento da cobertura induz o público a associar a conduta criminosa a uma atuação religiosa institucionalizada, antes mesmo de se confirmar se tal vínculo existia; 2) mesmo quando os veículos avançam na apuração como ao descobrir que Grayson pregava em uma “igreja própria”, sem denominação identificada, e que nenhuma fonte confirma vínculo formal com igrejas no Brasil, o termo “missionário” segue sendo usado nos títulos e na abertura das matérias sem a ressalva de que se trata de autodeclaração, o que mantém no público uma associação já estabelecida e não suficientemente qualificada.

Referências

G1. Missionário dos EUA preso após confessar ter espancado filho de 3 anos era suspeito de maus-tratos em três estados. https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2026/07/09/missionario-dos-eua-preso-apos-confessar-ter-espancado-filho-de-3-anos-tres-estados.ghtml Acesso em: 10 jul. 2026

G1. ‘Estou triste, o pequenininho se agarrava na gente’, diz pastor evangélico que recebeu no RS missionário preso após morte do filho. https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2026/07/10/estou-triste-o-pequenininho-se-agarrava-na-gente-diz-pastor-evangelico-que-recebeu-no-rs-missionario-preso-apos-morte-do-filho.ghtml Acesso em: 10 jul. 2026

G1. MP aciona Interpol para saber histórico do missionário dos EUA preso por espancar filho no RS. https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2026/07/09/mp-aciona-interpol-missionario-dos-eua-preso-por-espancar-filho-no-rs.ghtml Acesso em: 10 jul. 2026

G1. Mãe de menino de três anos morto após ser espancado pelo pai também é presa; polícia investiga omissão. https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2026/07/09/mae-oliver-menino-espancado-pai-presa-viamao.ghtml Acesso em: 10 jul. 2026

Estadão. Menino de 3 anos morre espancado no RS; polícia apura se pai matou o filho por não dizer ‘bom dia’. https://www.estadao.com.br/brasil/menino-de-3-anos-morre-espancado-no-rs-policia-apura-se-pai-matou-o-filho-por-nao-dizer-bom-dia-npr/?srsltid=AfmBOorMQld81sg48p9tdypxPRgGiYAPMYvNw4bKF1PU2R8QbydGFZKx Acesso em: 10 jul. 2026

Terra. Menino de 3 anos morre após ser espancado por não dar ‘bom dia’ ao pai no RS. https://www.terra.com.br/noticias/brasil/cidades/menino-de-3-anos-morre-apos-ser-espancado-por-nao-dar-bom-dia-ao-pai-no-rs,e1577d1b478774f7fb4a36ac5abfe755wcck3ssy.html?utm_source=clipboard Acesso em: 10 jul. 2026

CNN Brasil. Menino de 3 anos espancado por pai missionário dos EUA morre no RS. https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sul/rs/menino-de-3-anos-espancado-por-pai-missionario-dos-eua-morre-no-rs/ Acesso em: 10 jul. 2026

GZH. Igreja própria, lesões escondidas com roupas longas e agressões há oito anos: o que polícia diz sobre caso de pais presos em Viamão pela morte de menino. https://gauchazh.clicrbs.com.br/seguranca/noticia/2026/07/igreja-propria-lesoes-escondidas-com-roupas-longas-e-agressoes-ha-oito-anos-o-que-policia-diz-sobre-caso-de-pais-presos-em-viamao-pela-morte-de-menino-cmrex6nsz01r1013v9fnfkqls.html Acesso em: 10 jul. 2026

GZH. Corrida, pregação em empresas e recados nas paredes de casa: como era a rotina de missionário preso por matar filho em Viamão. https://gauchazh.clicrbs.com.br/seguranca/noticia/2026/07/corrida-pregacao-em-empresas-e-recados-nas-paredes-de-casa-como-era-a-rotina-de-missionario-preso-por-matar-filho-em-viamao-cmrf7j5fo01zi0131xmeqcl2t.html Acesso em: 10 jul. 2026

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