Dossiê revela a relação de igrejas evangélicas com a escravidão e propõe medidas de reparação

A escravização de pessoas negras sustentou a economia brasileira por mais de 300 anos e teve relações profundas com diferentes esferas da sociedade. 138 anos após o fim do regime escravagista, o Movimento Negro Evangélico (MNE) publica o dossiê “388 anos: E a Igreja com isso?”, que reúne farta documentação sobre como as igrejas evangélicas lidaram com as políticas de raciais e a escravidão no Brasil, e como esse histórico impacta as instituições hoje. 

Lançada no último 2 de junho, a pesquisa analisou mais de 100 referências acadêmicas e documentais sobre como protestantes anglicanos, metodistas, luteranos, batistas, congregacionais e presbiterianos se relacionaram com o regime escravista.

Imagem: reprodução/Youtube

Participação e resistência

Por um lado há registros de iniciativas de integração de pessoas negras, como a Escola Dominical implantada pelo missionário metodista Justin Spaulding no Rio de Janeiro na década de 1830, que contava com duas classes para negros falantes de inglês e português. Por outra perspectiva, os dados também revelam a conivência e colaboração com a ordem vigente. 

É o caso de britânicos anglicanos que não só eram envolvidos em atividades econômicas que dependiam do trabalho escravo, como também possuíam pessoas escravizadas em suas residências e posses. Na Revolta dos Malês (1835), maior levante de escravizados da história do Brasil, 45 dos 160 revoltosos acusados pelo governo imperial pertenciam a ingleses de fé anglicana. 

Um relato do capelão britânico Robert Walsh, que esteve no país entre 1828 e 1829, registra a brutalidade do sistema escravista e sua indignação pessoal ao presenciar um compatriota vendendo os próprios filhos mestiços, nascidos da relação com mulheres escravizadas: “Ele passa a vender não só a mãe de seus filhos como os filhos propriamente ditos, e com tanta indiferença como se tratasse de uma porca com a sua ninhada”.

A contradição entre o discurso religioso e a conivência com o regime de exploração humana marcaram a história de diferentes igrejas no Brasil. Ao Bereia a Assessora de Incidência Política do MNE Esther Rayane explica como a complacência de evangélicos com a escravidão foi possível:

“As denominações que chegaram ao Brasil no século XIX vieram em grande parte de contextos em que a escravidão já estava naturalizada como instituição social. Muitos missionários eram proprietários de escravizados ou dependiam de redes de financiamento ligadas ao tráfico e à plantation. A fé que chega ao Brasil, chega instrumentalizada para pacificar, não para libertar.”

Além da denúncia, a pesquisa também dá luz às figuras que se opuseram ao regime, como é o caso do missionário escocês Robert Reid Kalley, que atuou no contexto da Igreja Evangélica Congregacional, a primeira a se estabelecer formalmente no país com cultos em português.

Em 1865, depois de fundar a Igreja Evangélica Fluminense, Kalley pronunciou a Pastoral da Liberdade, documento pastoral que condenava a escravidão como prática injusta e a declara incompatível com a membresia cristã. Este posicionamento resultou na expulsão de um membro de igreja que se recusou a dar alforria aos escravizados que possuía.

“O resgate que o nosso dossiê quer propor é o das vozes dissidentes que existiram (e o dossiê as registra), mas que foram minoritárias. E o foram, precisamente, porque romper com o escravismo implicava romper com estruturas de poder às quais as igrejas estavam profundamente integradas”, destaca Esther Rayane

Reparação e conciliação

Além de apresentar registros históricos, o dossiê conta com reflexões sobre como o passado das igrejas evangélicas ecoa nos dias de hoje e como pode haver reparação histórica e conciliação entre esses dois momentos.

“Para nós do MNE, hoje não basta um pedido de desculpas genérico, mas também é preciso que haja reparação institucional. Reconhecer esse passado com honestidade é o primeiro passo para que as igrejas cumpram o que a exigência bíblica de fazer a justiça correr como água e o direito como um ribeiro que não seca”, diz Esther Rayane.

Dentre as medidas de reparação propostas estão: um pedido oficial de perdão ao povo negro brasileiro, instituição de memoriais e centros de pesquisa sobre escravidão e protestantismo e programas de influsão e liderança negra em congregações.

O dossiê “388 anos: E a Igreja com isso?” está disponível para download gratuito no site do Movimento Negro Evangélico.

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Foto de capa: Unplash

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