Um Ministério da Educação religiosa?

Educação religiosa não é educação.

( Osvaldo Luiz Ribeiro )

O novo ministro da educação do governo Bolsonaro tem título de doutorado em educação pela USP. Milton Ribeiro também é formado em teologia e direito. Segundo sua apresentação no lattes, currículo atualizado pela última vez em 15/04/2019, é relator da Comissão de Assuntos Educacionais do Mackenzie e Diretor Administrativo da Luz para o Caminho, instituição que cuida da área de mídias da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB). Também foi responsável por 38 cursos de especialização e 5 cursos de extensão no Mackenzie, além de dar aulas sobre “Ética e Disciplina”. Fez duas especializações no “Velho Testamento”, sendo a primeira no próprio Mackenzie; a segunda, no Centro Teológico Andrew Jumper, que é destinada à formação de docentes de seminários, institutos bíblicos, dentre outras ligadas à IPB. Sendo bolsista CNPq durante seu doutorado, produziu a tese “Calvinismo no Brasil e organização: o poder estruturador da educação”. Na parte de produção bibliográfica, apenas um produto. Trata-se de um livro publicado pela Editora Mackenzie, provavelmente fruto de sua dissertação de mestrado: “Liberdade Religiosa: uma proposta de debate”. 

É importante recordarmos a declaração de Bolsonaro em 2018 acerca da escolha dos ministros e de todo o primeiro escalão do governo: “Tem que ser alguém que entenda daquele assunto. […] A gente está escolhendo por critérios técnicos, né? Competência, autoridade, patriotismo e iniciativa”. Já passaram por lá: Ricardo Vélez Rodríguez, Abraham Weintraub, Carlos Decotelli e, agora, Milton Ribeiro. Qual é o critério da escolha deste último?

Várias igrejas presbiterianas, dentre outras denominações evangélicas, se envolveram em campanhas de oração contra corrupção – uma tônica do governo Bolsonaro que assim classifica o que ele chama de partidos comunistas e afins.

Por isso, não se trata apenas de observar o lattes do candidato – embora sua produção científica na área seja um importante norte para se pensar e pesar suas características teóricas e contribuições para a sociedade –, mas perceber de que maneira o indivíduo está submetido a determinada instituição religiosa. 

Pensar, programar e sistematizar a educação de um país a partir de um personagem, sem produção intelectual substantiva; que obedece rigorosamente aos estatutos acríticos de uma instituição confessional; que é ligado a órgãos historicamente presentes em governos de (extrema)direita, que aceita agora participar de um governo que despreza publicamente a linguagem científica, tendo terraplanistas como base de sua mais alta intelectualidade; que tem o Antigo Testamento, com seus códigos morais e de educação por violência (como em seu discurso sobre a disciplina física em crianças) como especialidade nos permite considerar que o Estado ainda não se desvencilhou da influência religiosa conservadora/fundamentalista, neoliberal, mantenedora do ethos moralizante e preocupado com a genitália alheia.

Em 1932, Matathias Gomes dos Santos, um líder presbiteriano, declarou no principal jornal da denominação, “O Puritano” (10 de nov. de 1932, p. 2):

“O Protestantismo não é um partido, não se filiará a nenhum partido; mas todos os seus membros, por sua natureza pertencem às correntes liberais” (grifo meu).

O pastor Milton faz parte do quadro ligado às esferas da educação religiosa legitimada por uma interpretação não das Escrituras, mas de uma tradição religiosa que busca ocupar espaços no poder a fim de que o Jesus da conveniência seja vívido nas correntes sociais dissipando tudo aquilo que pode ser chamado de inimigo. Portanto, não estamos diante de algo novo na história. E ouso dizer que o nível de associação a governos neoliberais e ditatoriais entre religiosos poderia ser menor caso o processo crítico dentro desta estrutura fosse intenso. É o que parece ocorrer agora…

No final do primeiro semestre/2020 foi criado o grupo “Resistência Reformada”, cujo objetivo é demonstrar a pluralidade dentro do mesmo segmento e os descontentamentos acerca da união da igreja com o Estado. Seguem alguns pontos do manifesto:

“Reafirmamos que a Teologia Reformada defende a separação entre igreja e Estado…”; “Cremos que a Teologia Reformada se propõe aliada da ciência, ainda que de maneira eticamente crítica, mas nunca inimiga dos avanços intelectuais da humanidade…”; “a Teologia Reformada deve promover a igualdade e a fraternidade universais, bem como a luta por equidade, o combate ao patriarcalismo; e a defesa da emancipação das mulheres…”; “a Resistência Reformada rejeita e denuncia todas as formas de totalitarismo, sejam de esquerda ou de direita…”; “Denunciamos, com particular tristeza, o uso irreverente do nome de Deus para sancionar e promover ideologias humanas e inimigas da liberdade e promotoras da divisão e da violência…”; “A luta contra a tirania política é um dever do qual o cristão e a cristã não podem se eximir”; “a Teologia Reformada contemporânea trabalha na promoção do ecumenismo e do diálogo inter-religioso”…

A maioria que compõe o grupo da Resistência Reformada, e que também possui, em diferentes níveis, ligação com a estrutura religiosa, apresenta produção acadêmica superior à produção do atual ministro da educação.

Parece-me, contudo, que a diferença entre ambos os grupos não está no quanto se produz, mas no simples fato de desejar ler o evangelho a partir da sociedade presente e não mais pela hermenêutica fria e imprudente de certas instituições.

Nada que se alie ao atual governo terá a chance de subverter o cenário ditado por Bolsonaro, que, na verdade, é tão somente um porta-voz dos interesses dos EUA, de empresários e de uma “elite do atraso” emburrecedora. Não há esperanças pela via dessa alienada e alienadora educação. Talvez só reste mesmo… a resistência.

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