Produtora Brasil Paralelo instrumentaliza obra de C.S. Lewis em agenda política 

 “Oficina do Diabo” é o título do filme lançado pela produtora Brasil Paralelo, neste início de 2025, que tem sido promovido como uma obra original de ficção. No entanto, o longa guarda fortes semelhanças com a obra “Cartas de um Diabo a seu Aprendiz”, do escritor britânico C. S. Lewis. O caso tem sido debatido nas redes digitais a partir das questões sobre direitos autorais e transparência na produção cultural.

Inicialmente anunciado como a primeira adaptação cinematográfica de “Cartas de um Diabo a seu Aprendiz”, o filme teve o requerimento dos direitos de C. S Lewis negados e ganhou outro título, sendo e divulgado como uma produção original.

Atualmente, os direitos sobre as obras de C.S. Lewis são geridos pela C.S. Lewis Company Ltd. Esta organização é responsável por administrar os direitos autorais e licenciamentos relacionados às publicações e adaptações das obras do renomado escritor. No entanto, a Brasil Paralelo manteve publicações que afirmam a conexão com a obra de Lewis, o que sinaliza  contradição.

A reportagem da Revista Piauí, intitulada “A operação abafa da Brasil Paralelo”, expõe as estratégias da produtora para moldar narrativas históricas e culturais, com muitas  negações de evidências históricas consolidadas. A reportagem destaca como a produtora Brasil Paralelo utiliza um discurso de suposta neutralidade enquanto promove uma agenda revisionista voltada a um público conservador extremista.

O caso do filme “Oficina do Diabo” tem esse padrão: apresentado primeiro como adaptação fiel da obra de Lewis, o projeto foi reformulado para evitar problemas legais, mas manteve elementos  evidentes do livro original.

Origens do projeto e controvérsia sobre direitos autorais

Em 2023, materiais promocionais da Brasil Paralelo referiam-se ao filme como uma adaptação da obra de Lewis, o que alimentou expectativas entre os fãs do autor e seguidores da produtora. Com a negativa dos direitos, a produção foi reformulada. Apesar da nova abordagem, a Brasil Paralelo mantém ativa uma publicação de 2023, na qual afirma que o filme é baseado na obra de C.S. Lewis, o que contradiz sua atual divulgação.

Imagem: Página da produtora Brasil Paralelo no Facebook. Publicado em 04/01/2023

Imagem: Página da produtora Brasil Paralelo no Facebook. Publicado em 04/01/2023.

A alegação da produtora Brasil Paralelo de que ‘Oficina do Diabo’ seria a primeira adaptação cinematográfica da obra de C.S. Lewis é falsa.

Imagem: Página da produtora Brasil Paralelo no Facebook. Publicado em 04/01/2023

Ouvida pelo Bereia, a professora e pesquisadora , do Departamento de História da UFPR Karina Kosicki Bellotti recorda que, entre 1960 e 1962, o Centro Audiovisual Evangélico (CAVE) produziu uma animação de 20 minutos inspirada no livro Cartas de um Diabo a seu Aprendiz. A professora, que estudou o CAVE para a dissertação de Mestrado em História, esclarece que a animação buscava adaptar trechos da obra original à realidade brasileira, utilizando humor e elementos visuais semelhantes aos do livro, como a representação do demônio influenciando o protagonista.

O enredo abordava questões morais e sociais, como a transformação do personagem principal, que se envolvia na construção de uma escola para alfabetização de crianças e adultos, e sua jornada ao lado de uma esposa cristã engajada na distribuição de Bíblias. 

Segundo Karina Kosicki, o filme incorporava elementos centrais da obra de Lewis, incluindo a dinâmica entre o demônio e o protagonista. “O desenho, de 20 minutos, feito por Alcidio da Quinta, não trazia o diálogo entre Screwtape e seu chefe, mas o demoninho era muito parecido com o desenho feito por Lewis publicado no original em inglês”, observa a pesquisadora.

Além disso, “a animação refletia questões sociais brasileiras da época, alinhando-se ao conceito do Evangelho Social. No filme, a protagonista feminina trabalhava com a Sociedade Auxiliadora Feminina, um grupo engajado na assistência social, e enfrentava resistência de um pastor que acreditava que a igreja não deveria se envolver com causas educacionais”. Essas adaptações reforçam que Tonico e o Demônio foi uma adaptação direta do livro de Lewis, o que contrapõe  a alegação da Brasil Paralelo de que Oficina do Diabo seria a primeira adaptação da obra no país 

C.S. Lewis, sua visão e a recepção de sua obra

Clive Staples Lewis (1898–1963) foi um escritor, professor britânico amplamente conhecido por suas obras de ficção e ensaios cristãos, dados os seus conhecimentos de teologia. Convertido ao Cristianismo após um período de ateísmo, Lewis tornou-se um dos mais influentes apologistas cristãos do século XX. Sua obra “Cartas de um Diabo a seu Aprendiz” foi publicada em 1942 e recebeu aclamação pela abordagem satírica sobre a moralidade, o livre-arbítrio e a luta espiritual, explorando a perspectiva de um demônio tentando desviar um humano da fé.

Politicamente, Lewis não se envolvia diretamente em debates partidários, mas mantinha um posicionamento crítico ao autoritarismo e à manipulação ideológica da fé. Ele próprio declarou que sua obra não deveria ser usada como ferramenta para agendas políticas, enfatizando sua intenção de provocar reflexões sobre a condição humana e a espiritualidade cristã. Nesta direção, é possível avaliar que a apropriação indevida de sua obra por grupos com intenções revisionistas, como é o caso da produtora Brasil Paralelo, distorce sua mensagem original e ignora seu contexto histórico e filosófico.

Estudos acadêmicos reforçam essa perspectiva. O artigo “C.S. Lewis e a Política”, publicado pela revista evangélica  Ultimato, destaca que Lewis rejeitava o uso da fé como instrumento ideológico e criticava qualquer forma de autoritarismo. 

Da mesma forma, o estudo acadêmico “As Alegorias Religiosas de C.S. Lewis nas Crônicas de Nárnia”, de Heraldo Aparecido Silva , ressalta que a obra de britânico não tinha a intenção de promover uma agenda política específica, mas sim estimular reflexões morais e espirituais. Já o artigo “Era C.S. Lewis um Inclusivista?, do pesquisador da PUC-MG Carlos Caldas , aponta que o autor tinha uma visão ampla do Cristianismo e rejeitava exclusivismos religiosos.

Além disso, a pesquisa de Jorge Henrique Tenório dos Santos, Dhiane Lorrany Soares Lope e Moisés Monteiro de Melo Neto, intituladaO Fantástico e o Cristianismo em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”, analisa como Lewis utilizava a literatura fantástica para transmitir ensinamentos cristãos sem dogmatismo, deixando espaço para interpretações diversas. 

O Livro de Lewis e o conteúdo do filme de 2025

Embora apresentado como uma obra inédita, “Oficina do Diabo”, produzido pela Brasil Paralelo, traz elementos narrativos que remetem à estrutura de “Cartas de um Diabo a seu Aprendiz”. O livro de Lewis é composto por uma série de cartas em que um demônio experiente instrui um novato sobre como corromper uma alma humana. O filme da Brasil Paralelo também apresenta um protagonista influenciado por forças demoníacas e explora a luta entre o bem e o mal por meio do diálogo entre essas entidades

Embora adote premissas semelhantes, se distancia da proposta original ao inserir uma leitura política alinhada a uma perspectiva conservadora e anticomunista. A narrativa explora a luta entre o bem e o mal de maneira a reforçar discursos ideológicos contemporâneos, transformando o embate espiritual em uma metáfora para disputas políticas, o que desvirtua a abordagem universal de Lewis e instrumentaliza a história para reforçar uma agenda específica.

Principais Semelhanças:

  • Estrutura Narrativa: O filme segue o mesmo formato epistolar do livro, com diálogos entre forças demoníacas;
  • O dilema moral do protagonista também se assemelha ao desenvolvido por Lewis, explorando temas como a tentação, o livre-arbítrio e a manipulação das fraquezas humanas, mas atualizados para 2025 com ênfase em pautas contemporâneas como a suposta polarização política, o conteúdo que a direita política classifica como “fake news” e o combate às chamadas “ameaças ideológicas” atribuídas às pautas de direitos humanos, sociais, econômicos, culturais e sexuais;
  • Diálogos e Desenvolvimento: A relação entre o personagem demoníaco e sua vítima remete à escrita original de Lewis.

Diante das críticas, a Brasil Paralelo reiterou que “Oficina do Diabo” é uma produção original, sem ligação oficial com a obra de Lewis. A produtora afirmou que o filme foi inspirado por reflexões sobre moralidade e a natureza do mal, mas não constitui uma adaptação.

Sobre as ações da Brasil Paralelo

A tentativa da produtora Brasil Paralelo de apresentar Oficina do Diabo como uma obra original, apesar de suas evidentes semelhanças com Cartas de um Diabo a seu Aprendiz, segue um padrão já identificado em diversas análises acadêmicas sobre a produtora.

Segundo a pesquisa O revisionismo histórico da Brasil Paralelo”, de Daniela Silva Martins, a produtora frequentemente altera a narrativa original de fatos e personagens históricos para promover sua visão política alinhada ao extremismo de direita. 

Já o estudo “O projeto de nação brasileira entre a ‘Cruz e a Espada'”, de João Paulo Charrobe, destaca como a Brasil Paralelo idealiza figuras e conceitos históricos para reforçar uma agenda conservadora, estratégia que pode ser vista na utilização da obra de C.S. Lewis. 

Em artigo publicado no IHU On Line,  o cientista político Luis Felipe Miguel aponta que a Brasil Paralelo utiliza a estética documental para conferir credibilidade a conteúdos politicamente enviesados. Isto se reflete na maneira como a produtora reformulou a adaptação do livro de Lewis para evitar questões de direitos autorais, sem abrir mão do prestígio da obra original.

***

A verificação do Coletivo Bereia sobre a polêmica em torno de “Oficina do Diabo” reforça a importância da transparência na produção cultural, especialmente quando se trata de obras inspiradas em clássicos literários. Também é um alerta a leitores e leitoras sobre o uso do formato de documentário, praticado por projetos como o Brasil Paralelo, para gerar credibilidade e audiência para conteúdos de teor político revisionista e negacionista.

***

💡O que foi o Centro Audiovisual Evangélico (CAVE)?

O Centro Audiovisual Evangélico (CAVE) foi uma organização interdenominacional criada em 1952 por missionários presbiterianos, com apoio da Radio Audio-Visual Education and Mass Communication Comission Overseas (RAVEMCCO). Os pesquisadores Márcio T. D´Amaral e Prisicila Vieira Souza explicam que a RAVEMCCO  era  o  departamento  de  comunicação  do  Conselho  Nacional  de Igrejas em Cristo dos EUA. No contexto americano de “fundamentalistas versus liberais”, esse Conselho representava os cristãos liberais, aproximava-se do Evangelho Social e incorporava as agendas do ecumenismo e diálogo inter-religioso.

Sediado inicialmente na cidade de São Paulo e depois na de Campinas (SP), o CAVE foi um dos pioneiros no uso da comunicação audiovisual para a evangelização. Produziu programas de rádio, filmes, diafilmes (slides) e impressos para diversas denominações protestantes.

Entre suas produções destacam-se O Punhal (1961), um filme de 45 minutos sobre missionários no Brasil, e Tonico e o Demônio (1963), um desenho animado inspirado no livro Cartas de um Diabo a seu Aprendiz, de C.S. Lewis. Este último contrapõe a alegação da Brasil Paralelo de que sua adaptação seria a primeira baseada na obra do autor.

Diferente da produtora Brasil Paralelo, o CAVE não tinha fins lucrativos nem uma agenda política, e buscava adaptar conteúdos religiosos à realidade brasileira para oferecer material educativo para igrejas evangélicas. Seu legado na comunicação evangélica no Brasil ainda é pouco conhecido pelo público, mas sua contribuição foi significativa para a produção de mídia cristã no país. O CAVE foi desativado nos anos 80 e o acervo integral está sob a guarda da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, no campus em São Bernardo do Campo.

Referências de checagem 

www.cslewis.com Acesso em: 25 Fev 2025

https://www.instagram.com/cslewis_official/ Acesso em: 25 Fev 2025

https://www.ultimato.com.br/conteudo/c-s-lewis-e-a-politica#:~:text=Lewis%20adverte%20a%20Igreja%20da,protege%20o%20reino%20da%20pol%C3%ADtica. Acesso em: 25 Fev 2025

https://revistas.pucsp.br/index.php/rever/article/view/51868 Acesso em: 25 Fev 2025

https://www.scielo.br/j/pteo/a/DQKRxSRqvTHS9zvQ8YhJQJq/#:~:text=Considerando%20que%20a%20tese%20que,que%20se%20tornou%20bastante%20conhecida. Acesso em: 25 Fev 2025

https://ojs.revistacontribuciones.com/ojs/index.php/clcs/article/view/12362 Acesso em: 25 Fev 2025

https://revistas.usp.br/ran/article/view/220575 Acesso em: 25 Fev 2025

https://www.scielo.br/j/his/a/7HNkFdGXc3HQ9SzsKQqdxDq/ Acesso em: 25 Fev 2025

https://www.researchgate.net/publication/348754597_A_participacao_dos_evangelicos_na_midia Acesso em: 25 Fev 2025

 https://www.youtube.com/watch?v=PuTdfa2-O3g Acesso em: 25 Fev 2025

https://revista.pubalaic.org/index.php/alaic/article/view/589/592 Acesso em: 25 Fev 2025

https://ihu.unisinos.br/categorias/643742-brasil-paralelo-artigo-de-luis-felipe-miguel Acesso em: 25 Fev 2025

Revista Piauí https://piaui.folha.uol.com.br/operacao-abafa-da-brasil-paralelo/  Acesso em: 25 Fev 2025

https://piaui.folha.uol.com.br/brasil-paralelo-suspende-estreia-de-primeiro-longa-de-ficcao/ Acesso em: 25 Fev 2025

https://guiame.com.br/gospel/mundo-cristao/centro-audiovisual-evangelico-ganha-destaque-em-revista-crista.html Acesso em: 25 Fev 2025

https://www.researchgate.net/publication/348755152_MONOGRAFIA_UMA_IGREJA_INVISIVEL_-_PROTESTANTES_HISTORICOS_E_MEIOS_DE_COMUNICACAO_DE_MASSA_NO_BRASIL_ANOS_50_a_80 Acesso em: 25 Fev 2025

Brasil Paralelo https://www.brasilparalelo.com.br/noticias/nota-oficina-do-diabo#:~:text=A%20BRASIL%20PARALELO%20informa%20que,de%20qualquer%20outra%20obra%20precedente Acesso em: 25 Fev 2025

Compartilhe!
WhatsApp
Facebook
Twitter
Email