A vulnerabilidade humana à desinformação constitui um dos enigmas mais complexos da atualidade. Em tempos de intensa circulação de dados, a expectativa iluminista de que o acesso universal à informação dissiparia a ignorância revelou-se um equívoco. Ao contrário do esperado, as sociedades contemporâneas testemunham a proliferação vertiginosa de mentiras e teorias da conspiração, encontrando solo fértil em ecossistemas de forte apelo espiritual. No contexto específico da religiosidade brasileira, essa suscetibilidade não decorre de deficiências individuais de inteligência, mas da articulação sofisticada entre mecanismos cognitivos universais, como a visão de mundo, o viés de confirmação e a dissonância cognitiva. Também as transformações estruturais da fé, da mídia e da política no país.
A Arquitetura Cognitiva: Visão de Mundo, Viés e Dissonância
Para compreender a adesão aos conteúdos falsos, é preciso examinar os filtros pelos quais o ser humano processa a realidade. A visão de mundo atua como o sistema operacional da mente, fornecendo esquemas interpretativos que dão sentido ao caos e estabelecem balizas morais e existenciais. No campo religioso, essa visão tende a ser totalizante. Quando uma mentira é estruturada de modo a validar os valores, os medos ou as aspirações de um indivíduo, ela deixa de ser percebida como falsidade e passa a ser internalizada como uma confirmação intuitiva da própria ordem cósmica.
Essa aceitação prévia é blindada pelo viés de confirmação, a tendência inexorável de buscar e privilegiar informações que corroborem crenças preexistentes, descartando dados contraditórios. Em comunidades de fé, onde o pertencimento e a lealdade identitária são cruciais, o viés de confirmação é intensificado por normas coletivas. O indivíduo raramente avalia o fato de forma isolada; ele avalia o quanto a narrativa preserva sua coesão com o grupo.
Quando o embate com a realidade factual se torna inevitável, entra em cena a dissonância cognitiva. Descrita por Leon Festinger, essa condição gera um profundo mal estar psíquico quando crenças e atos entram em colapso. Admitir que uma autoridade respeitada mentiu ou que uma crença central era falsa exige um alto custo emocional. Para evitar a dor da desilusão, o cérebro humano frequentemente opta por racionalizações extremas, dobrando a aposta na mentira em vez de aceitar a fratura de sua identidade moral.
O ecossistema religioso e político do Brasil contemporâneo
Esses processos universais ganham feições dramáticas no Brasil devido a especificidades socio-históricas recentes. A paisagem espiritual brasileira sofreu uma mutação sísmica com o declínio hegemônico do catolicismo tradicional e a expansão capilar do neopentecostalismo. A teologia predominante nesse segmento opera sob uma lógica fortemente dualista: a realidade é concebida como um campo de batalha permanente entre forças divinas e demoníacas.
Nesse cenário, a vulnerabilidade à mentira adquire um tom escatológico. Conteúdos falsos de cunho político ou cultural não são debatidos no terreno da evidência empírica, mas integrados à batalha espiritual. O adversário político ou institucional deixa de ser um divergente democrático para se tornar um agente do mal. Questionar uma mentira veiculada sob essa roupagem equivale, para o crente, a fraquejar na fé ou alinhar-se às forças obscuras.
Paralelamente, a simbiose entre fervor religioso e militância político-partidária, intensificada na última década, gerou câmaras de eco digitais impulsionadas por plataformas de mensagens como WhatsApp e Telegram. Nesses espaços, o líder religioso ou o influenciador digital atua como o supremo curador da realidade.
Quando a autoridade moral da fé endossa uma mentira com o propósito de proteger o rebanho de ameaças fantasiadas, o cérebro do fiel desliga os mecanismos de ceticismo. A desinformação circula travestida de “testemunho”, “alerta profético” ou “defesa da família”, tornando-se impermeável à checagem de fatos.
O Mercado da fé e a fragilidade estrutural
A eficácia dessa engenharia da credulidade também se apoia em vulnerabilidades socioeconômicas e educacionais. Décadas de precarização no letramento científico e midiático de parcelas significativas da população criaram um vácuo preenchido pelo mercado da fé e pela teologia da prosperidade. A promessa de soluções milagrosas e recompensas materiais imediatas condiciona o indivíduo a aceitar discursos de autoridade sem questionamentos.
Quando a religiosidade é mercantilizada e politizada, a mentira deixa de ser um mero erro de comunicação e passa a funcionar como instrumento de coesão e controle. O medo do ostracismo social – o pavor de ser expulso da comunidade de apoio emocional e material que a igreja representa – silencia qualquer impulso crítico. O indivíduo prefere a segurança da mentira compartilhada à solidão da verdade dissidente.
Perspectivas
A suscetibilidade de pessoas de fé à desinformação no Brasil não revela uma suposta inferioridade intelectual, mas a eficácia com que discursos manipuladores exploram as necessidades mais legítimas do ser humano: a busca por sentido, a ânsia por pertencimento e a necessidade de proteção em um mundo desigual e incerto.
Quando a visão de mundo religiosa é sequestrada por narrativas extremistas, o viés de confirmação e a dissonância cognitiva operam como muralhas intransponíveis contra a realidade. Compreender esse fenômeno exige ir além da crítica moral ao crédulo. É preciso reconhecer que a desinformação no Brasil contemporâneo estruturou-se como um sistema complexo de poder, no qual a mentira, envolta no manto sagrado da fé, converteu-se na mais eficiente ferramenta de engenharia social.
Como comunidades de fé podem agir para superar a violência contra crianças e adolescentes nos espaços digitais
Casos recentes que envolvem crianças e adolescentes mostram que enfrentar a violência nas plataformas digitais exige mais do que controle das autoridades. A arquitetura de algumas plataformas, como por exemplo, o Discord, torna praticamente impossível um monitoramento em tempo real do que acontece.
“Se um membro sofre, todos sofrem com ele.” A conhecida afirmação do apóstolo Paulo à comunidade de Corinto ganha um significado muito concreto diante da realidade que igrejas, famílias e escolas precisam enfrentar: crianças e adolescentes estão sendo aliciados, ameaçados e submetidos a formas extremas de violência em ambientes digitais.
Para fazer valer o discurso de que é preciso proteger crianças e adolescentes, importa criar uma rede de proteção contra os criminosos que atuam nas sombras do mundo digital. Para isso, é preciso oferecer escuta, informação e acolhimento.
Uma adolescente de 13 anos, de nome Lívia (o sobrenome tem sido preservado), tirou a própria vida, no final de julho, em Naviraí (MS), após ser provocada e assediada por um grupo em uma transmissão ao vivo (live) na plataforma Discord. Com a denúncia do ocorrido, o Ministério da Justiça e Segurança Pública deflagrou a Operação Lívia, que resultou na prisão de suspeitos de integrar o grupo de coerção e crimes virtuais.
Devido à gravidade do caso e investigações que mostraram falhas de moderação, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) e outras autoridades do país determinaram a suspensão das particularidades ao vivo da plataforma Discord em todo o país.
O Discord não é, em si, uma comunidade criminosa. É uma plataforma de comunicação utilizada diariamente por milhões de pessoas para conversar, jogar, estudar, trabalhar e reunir grupos em torno de interesses comuns. O problema apontado pelas autoridades está relacionado a determinadas características da arquitetura dela e à forma como grupos criminosos aprenderam a explorá-las.
Por que a arquitetura do Discord preocupa?
Uma forma simples de compreender o problema é imaginar a diferença entre uma praça e uma sala fechada. Em uma rede digital convencional, boa parte do conteúdo é publicada em espaços que podem ser examinados automaticamente pela própria plataforma. No Discord, usuários podem criar servidores privados, acessíveis apenas por convite, e conversar em canais de texto, áudio e vídeo.
Desde março de 2026, as chamadas de áudio, vídeo e as transmissões “Go Live” utilizam criptografia de ponta a ponta. Isso significa que o conteúdo audiovisual é criptografado no aparelho de quem transmite e somente os participantes daquela comunicação possuem as chaves necessárias para acessá-lo. Nem mesmo o Discord consegue observar diretamente aquilo que está sendo transmitido.
A criptografia de ponta a ponta não é algo ruim em si, é uma importante tecnologia de proteção da privacidade. O problema aparece quando uma arquitetura destinada a proteger conversas privadas é utilizada por grupos organizados para esconder violência contra crianças e adolescentes.
Hoje, segundo a análise da ANPD, a proteção e a fiscalização dependem do trabalho de inteligência das polícias, que infiltra agentes nas salas virtuais e das denúncias feitas pelos próprios usuários. O problema é evidente: em um servidor privado, criado justamente para cometer crimes, dificilmente os participantes envolvidos denunciarão uns aos outros.
A própria fiscalização brasileira verificou que um mecanismo de detecção de risco utilizado pela plataforma não conseguiu classificar como prioritário um ambiente posteriormente associado a fatos de extrema gravidade. A ANPD também observou que depender de denúncias dos usuários é especialmente problemático quando a vítima é uma criança ou adolescente vulnerável, coagida ou emocionalmente incapaz de reagir.
A gravidade do problema também aparece no trabalho realizado pela organização SaferNet Brasil. Em 11 de agosto de 2026, a organização informou ter encaminhado, por iniciativa própria, às autoridades responsáveis pelas investigações do caso Lívia uma série de documentos técnicos produzidos a partir do monitoramento de comunidades criminosas que atuavam no Discord.
O material reúne registros, evidências, bases de dados e análises sobre grupos dedicados ao aliciamento de crianças e adolescentes, à circulação de imagens de abuso e exploração sexual infantil e ao incentivo à automutilação e ao suicídio.
A atuação da SaferNet evidencia que não se trata de episódios isolados, mas de redes organizadas que exploram recursos das plataformas digitais para identificar, aproximar-se e exercer controle sobre crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.
Porém, compreender a tecnologia é apenas uma parte da questão.
Os criminosos procuram vulnerabilidades
Os casos investigados ajudam a revelar um padrão conhecido por especialistas em proteção de crianças e adolescentes na internet. O agressor raramente começa pela violência. Ele pode começar por uma amizade, um jogo, um interesse compartilhado, um namoro virtual ou alguém disposto a ouvir aquilo que o adolescente acredita não poder contar a nenhuma outra pessoa. A relação de confiança é construída lentamente.
Podem surgir então pedidos de fotografias íntimas. Depois, ameaças de divulgar essas imagens para familiares, colegas de escola ou integrantes da igreja. A vítima passa a obedecer para impedir que aquilo que considera seu maior segredo seja revelado. Esse mecanismo é conhecido como sextorsão: a utilização da ameaça de divulgação de imagens íntimas para obrigar alguém a realizar determinadas ações.
É justamente por isso que criminosos procuram pessoas que consideram mais fáceis de isolar: crianças, pré-adolescentes, meninas, jovens LGBTQIAP+, adolescentes emocionalmente fragilizados ou pessoas que não encontram espaços seguros de diálogo em casa.
A vulnerabilidade não está em quem a pessoa é. Está nas condições que permitem ao agressor convencê-la de que não existe ninguém a quem possa recorrer.
E é aqui que as comunidades de fé precisam se perguntar: “estamos lidando adequadamente com este problema gravíssimo?”, “Estamos amparando e acolhendo nossos jovens?”, “Nossas crianças e adolescentes encontram ambientes seguros onde possam compartilhar seus medos e sentimentos?”
Uma criança ou adolescente contaria isso para a família ou a igreja?
Vale imaginar que uma adolescente de uma igreja tenha enviado uma fotografia íntima a alguém que conheceu pela internet. Agora essa pessoa ameaça enviar a imagem para os pais, para o pastor, para os amigos e para o grupo de jovens. O que ela imagina que acontecerá se contar? Será abraçada ou repreendida? Será ouvida ou interrogada? Será tratada como vítima de um crime ou como responsável pela situação? Alguém perguntará primeiro se ela está segura ou perguntará por que tirou aquela fotografia? Essa diferença pode determinar se um adolescente procura ajuda ou continua sozinho diante do agressor.
Assuntos como sexualidade, namoro, pornografia, orientação sexual, automutilação ou sofrimento emocional podem e devem ser tratados de forma verdadeira e cuidadosa nos espaços de fé. Nenhuma criança ou adolescente deve enfrentar sozinha uma situação de violência. A orientação e o acolhimento são fundamentais.
Se um jovem acredita que revelar uma fotografia íntima significará ser humilhado, disciplinado publicamente ou decepcionar sua família e sua igreja, o agressor ganha uma poderosa ferramenta de chantagem. Se um adolescente LGBTQIAP+ teme que contar sobre um relacionamento virtual provoque rejeição dentro de casa ou da comunidade religiosa, o criminoso ganha outra vantagem.
O silêncio aumenta o poder daquele que ameaça a vítima. Uma rede de proteção funciona exatamente ao contrário: diminui o poder do segredo
Igrejas como redes de proteção: acolher, orientar e proteger
Não é necessário que líderes religiosos e pessoas que atuam nas igrejas com jovens se tornem especialistas em crimes digitais. Porém, comunidades de fé podem assumir conscientemente seu lugar numa rede de proteção que envolva também as famílias.
Práticas como rodas de conversa, espaços seguros de escuta, discussão de situações vividas no ambiente digital e participação dos próprios jovens na prevenção de riscos mostram que é possível abordar esses temas de maneira educativa, sem alarmismo e sem depender apenas da vigilância dos adultos.
Adaptadas à realidade das comunidades de fé, essas experiências podem ajudar igrejas, grupos de jovens, lideranças e famílias a construir ambientes nos quais crianças e adolescentes encontrem informação, acolhimento e confiança para pedir ajuda diante de situações de violência, chantagem ou abuso no ambiente digital.
Criar espaços seguros de escuta. Uma “caixa da escuta”, física ou digital, pode existir em igrejas, especialmente em grupos de adolescentes e jovens. O fundamental é deixar claro quem receberá as mensagens, garantir confidencialidade dentro dos limites da proteção de crianças e estabelecer previamente um protocolo para situações que indiquem violência ou risco.
Troca de gerações: “Me ensina seu mundo”. Em vez de adultos começarem dizendo aos jovens o que há de errado nas redes, adolescentes apresentam aos pais e lideranças como funcionam Discord, TikTok, jogos, grupos privados, memes, perfis secundários e outras práticas digitais. Depois, os adultos apresentam, em diálogo, situações de risco.
Domingo da cidadania digital. A comunidade dedica parte de sua programação à vida digital: conversa com adolescentes, encontro com responsáveis, materiais de orientação e formação de lideranças. A mensagem pode ser: a vida online também faz parte da vida que a comunidade é chamada a cuidar.
Realizar rodas de conversa sobre vida digital, não apenas quando ocorre um problema. Falar de relacionamentos online, envio de imagens íntimas, chantagem, grupos privados, discurso de ódio, automutilação e violência digital da mesma forma que comunidades discutem escola, namoro, álcool ou outras questões que atravessam a adolescência.
Trabalhar com situações imaginadas. Algo como: “Uma menina de 14 anos enviou uma foto íntima ao namorado virtual e agora ele ameaça mostrar aos pais dela. O que ela deve fazer?”. Isso desloca o debate para a proteção e permite descobrir como os próprios adolescentes pensam.
Formar jovens multiplicadores. Adolescentes frequentemente contam determinados problemas primeiro aos amigos, não aos adultos. Preparar jovens para reconhecer sinais de chantagem, aliciamento ou sofrimento e saber procurar um adulto responsável pode ampliar muito a rede de proteção.
Ensinar a não ser plateia. Essa ideia das experiências da SaferNet é especialmente interessante diante do fenômeno da dessensibilização. Não compartilhar, não incentivar, não permanecer assistindo e procurar ajuda diante de uma situação de violência também são comportamentos que podem ser ensinados. A SaferNet relata experiências escolares em que os estudantes são estimulados justamente a compreender que violência ocorrida “na tela” produz consequências reais.
E quando algo já aconteceu?
Há ainda uma questão fundamental: diante de uma revelação de violência digital, a primeira tarefa do adulto é proteger, não investigar. É preciso ouvir e não culpabilizar. Não fazer a criança ou adolescente repetir desnecessariamente os detalhes para várias pessoas. Também não ameaçar o agressor diretamente e não compartilhar imagens ou vídeos recebidos como “prova”. Preservar as informações necessárias e procurar os canais competentes de proteção e investigação são ações relevantes.
A rede brasileira de proteção inclui Conselhos Tutelares, serviços de saúde e assistência social, órgãos de segurança pública e Justiça. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) lembra que família, comunidade, sociedade e poder público têm responsabilidade na proteção integral de crianças e adolescentes. A SaferNet mantém ainda um serviço sigiloso de orientação para crianças, adolescentes, pais e educadores que enfrentam situações de risco na internet.
Não se trata apenas do Discord
Esta é uma importante compreensão: amanhã criminosos podem migrar para outra plataforma e novos aplicativos surgirão, tecnologias mudarão. Não existe aplicativo capaz de substituir uma boa rede de proteção.
Por isso, restringir funcionalidades perigosas, exigir que empresas cumpram a legislação e desenvolver melhores sistemas de segurança são medidas necessárias, mas não são suficientes. O Brasil deu um passo importante ao estabelecer, no ECA Digital, que produtos e serviços de tecnologia acessados por crianças e adolescentes devem incorporar sua proteção desde a concepção.
Famílias, escolas e comunidades religiosas também têm uma responsabilidade que nenhuma plataforma poderá assumir. É preciso construir relações nas quais uma criança saiba, antes mesmo que qualquer coisa aconteça:
O Bereia propõe um “Pacto de Proteção Digital” para ser assumido por adultos que trabalham com crianças e adolescentes nos espaços de fé:
Nesta comunidade, uma criança ou adolescente que pedir ajuda será primeiro protegido e acolhido. Nenhum erro, fotografia, conversa, relacionamento ou situação constrangedora será usado para justificar violência, humilhação ou abandono.
O criminoso constrói uma arquitetura baseada no segredo; a comunidade de fé ergue outra, muito mais sólida, baseada na confiança.
Talvez essa seja uma das formas mais concretas de compreender, no mundo digital, aquilo que Paulo escreveu há quase dois mil anos.
Se um membro sofre, todos sofrem com ele. E ninguém deveria sofrer sozinho.
Por fim, Bereia alerta:
Muito cuidado com os discursos de campanha eleitoral do conservadorismo radical/extremista de que a suspensão das lives do Discord (foram as transmissões ao vivo os alvos das autoridades brasileiras e não toda a plataforma) são censura e restrição da liberdade de expressão!
Liberdade de expressão não é liberdade para abusar e atacar pessoas, praticar violência e comprometer a integridade física de crianças e adolescentes!
Muitas pessoas e grupos usam e abusam do direito à liberdade de expressão para confrontar a legislação do país que protege o direito de ser e de existir e, com isso, buscam ficar livres para praticar crimes.
Em entrevista ao programa de rádio Papo de Crente, iniciativa da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, em 16 de setembro, a editora-geral do Coletivo Bereia Magali Cunha defendeu a regulação das mídias digitais. Segundo ela, o que se vê hoje é “uma terra sem lei”, em que as plataformas são soberanas para veicular “o que bem entendem”.
A pesquisadora chamou a atenção para a importância de haver o controle do que é veiculado nessas plataformas, com legislação a respeito. E faz a ressalva: não se trata de censura, mas de regular o que é difundido no espaço público para que haja dignidade e direitos. “A acusação de censura é uma balela”, acrescentou.
Magali Cunha defende que com a regulamentação das mídias digitais é possível garantir liberdade de expressão, e argumenta que esse é um direito previsto na Declaração Universal dos Direitos Humanos e na Constituição Federal. O que está em jogo, segundo ela, é o fato de que a liberdade de expressão se dá no espaço público, e isso implica que ela seja assegurada em todas as instâncias, tanto aquelas do mundo off-line como as do on-line.
“Assim como ninguém pode tirar alguma coisa que pertence a outra pessoa ou tirar a vida de alguém – temos leis sobre isso que garantem a nossa convivência –, a coexistência no espaço digital também precisa ser regulada”, declarou a editora-geral de Bereia. Na sua opinião, isso significa prevenir e coibir os ataques, as ameaças, as perseguições, o machismo, o racismo e toda sorte de intolerância praticada no ambiente on-line.
Em face aos ataques terroristas ao Palácio do Planalto, Congresso Nacional e STF que ocorreram no último domingo (08/01), a Rede Nacional de Combate à Desinformação (RNCD) e o Centro Internacional de Ética da Informação elaboraram uma petição que visa investigar e responsabilizar as plataformas digitais.
Em nota, as organizações solicitam agilidade do Três Poderes no sentido de “investigar e responsabilizar, com a devida base legal, as plataformas digitais, tendo em vista que permitiram não somente a convocação de tais atos mas também e, sobretudo, funcionam como palco de visibilidade e monetização para desinformação e discurso de ódio, potencializando o desentendimento político e a polarização dos cidadãos do nosso país.”
Bereia, que faz parte da RNCD, subscreve a nota e convida aos seus leitores e leitoras a assinarem a petição. Clique aqui para assinar.
O monitoramento do Coletivo Bereia encontrou uma mensagem que sugeriria fortemente que os disseminadores de fake news, haters (espalhadores de mensagens de ódio) e bots (programas com disparos de mensagens em massa contratadas) sentiram-se incomodados com o fortalecimento do trabalho das agências de checagem e atuação dos projetos e profissionais de verificação (fact-checkers). Repassada em vários grupos, a mensagem (sem autoria) ensinava a “bloquear” mensagens com checagens de fake news e informações falsas.
A mensagem é uma tradução de outra, que circulou nos Estados Unidos (EUA) durante a tentativa de reeleição de Donald Trump – que incitou acusações e bloqueios de seus seguidores contra “fact checkers” (checadores de fatos) – e os que aqui a repercutiram nem sequer traduziram a expressão “fact checkers”.
Nos EUA e no Brasil, as agências de checagem começaram a ser acionadas pelas mídias de notícias e por plataformas de comunicação, para desmentir conteúdos falsos (amenamente chamados de “boatos”) fake news e demais formas de desinformação. O aplicativo Facebook, um dos mais criticados nas eleições do EUA em 2016 (inclusive com processo judicial), anunciou esse recurso em sua plataforma.
A tentativa de bloquear a divulgação das checagem de notícias, porém, é tão inútil quanto tentar bloquear o termo “covid” ou “BBB” nas mídias sociais.
A mensagem, que tem circulado é esta:
Importante
COMO BLOQUEAR AS PESSOAS (FACT CHECKER) QUE MONITORAM SUAS PUBLICAÇÕES NO FACEBOOK.
Antes de mais nada coloquem no google: *Fact Checkers Facebook* e leiam quem são estas pessoas. No meu celular tinham quase 60 pessoas. Vejam os prints screen destas pessoas.
PARA QUEM TEM CELULAR IOS OU ANDROID O PROCEDIMENTO É:
1) Clicar nas 3 barrinhas horizontal do facebook. 2) Clicar em Configurações e Privacidade. 3) Clicar em Configurações. 4) Rolar a tela para baixo ate chegar em Privacidade e clicar em Bloqueados. 5) Clicar em Adicionar lista de bloqueados. 6) Digitar Fact Checker. 7) As pessoas que aparecerem são os verificadores das publicações do facebook (Fact Checker) e nominadamente pessoas de esquerda.
Agora é só bloquear. Faça isto semanalmente.
Inutilidade pública e falso alerta
O Coletivo Bereia testou o procedimento sugerido e verificou que é inútil, pois o bloqueio de palavras (sejam elas “fact chekers”, “BBB” ou “covid”) não é eficaz para bloquear pessoas (seus perfis). Também é possível entender que muitos “fact-checkers” não se apresentam desta forma em seus perfis pessoais nas mídias sociais.
Além disso, uma análise do procedimento indicado verifica que os usuários que “bloquearem” estas palavras somente terão bloqueados alguns “grupos de Facebook” e empresas. Assim, a menos que você pretenda bloquear a hashtag “#FactCheckers” (com 93k de comentários) e muitas informações sobre a covid-19, a ferramenta é inútil. Ou seja, é um serviço falso de alerta, ou uma “inutilidade pública”.
Finalmente, no teste realizado pelo Coletivo Bereia, durante três dias de uso intenso, não foi impossível abrir mensagens enviadas pelos grupos e nem houve bloqueio de mensagens denunciando conteúdo falso, restabelecendo a verdade sobre a covid-19 e outros. Pelo contrário, houve continuidade no recebimento de mensagens e alertas de fact-checkers ativos no Facebook. Inclusive prosseguiu o recebimento de alertas do próprio Facebook sobre o conteúdo enganoso ou perigoso de algumas mensagens.
Se esse “bloqueio” não funciona, por que esse tipo de mensagem circula?
O medo da vigilância ou a soma de todos os medos
Por trás, por dentro e por cima das mensagens que denunciam censura na ação de “Fact Checkers” estão grupos de pessoas que acreditam que há uma conspiração internacional, dominada pela China, pelo “Estado Profundo”, em uma associação insólita dos partidos comunistas e grandes capitalistas para controlar a opinião pública mundial.
A suspensão de Donald Trump das mídias sociais serviu de alerta para todos os políticos que fazem campanha utilizando contra-informação, desinformação e estratégias de mensagens em massa. Twitter, Facebook e Instagram anunciaram o bloqueio das contas do ex-presidente empresário da comunicação (que impede, além da comunicação, outras estratégias de monetização). Donald Trump (logo seguido por outros como o deputado federal Eduardo Bolsonaro, do PSL/SP) sugeriram a migração para outros nichos, além de incentivar o uso de plataformas alternativas.
O plano ficou mais difícil, pois a gigante de tecnologia Amazon, decidiu “desmontar” a rede alternativa Parler, tirando os aplicativos do ar e silenciando os servidores. Em fevereiro de 2021, o presidente da Parler que tinha planos de formar uma “rede conservadora” foi demitido.
As redes de disseminação de teorias das conspiração também entraram no radar das mídias sociais – especialmente aquelas ligadas ao grupo Q-Anon. Ativistas do grupo e políticos de extrema direita denunciaram que haveria uma “censura chinesa”, em reação às medidas contra Trump e Q-Anon .
Não há, porém, qualquer evidência de que a China – ou alguma empresa chinesa – esteja envolvida nos embates entre as plataformas de mídias sociais e os políticos ultraconservadores. Ao contrário, são os políticos “progressistas” – na Europa especialmente – que estão lutando para diminuir o poder, fragmentar ou estabelecer legislações que impeçam o aumento de poder e influência das chamadas “Big Techs” (empresas ligadas às telecomunicações, mídias sociais e internet).
Porém, a busca pelo “pote de ouro” no final do arco-íris continua. E para isso, os disseminadores de informações falsas, contratantes de bots e haters apostam em outra via. Um aplicativo da Rússia – o Telegram.
Um bunker chamado Telegram
O Telegram Messenger foi lançado em 2013, na Rússia. Criado pelos irmãos Nikolai e Pavel Durov, o aplicativo é o principal concorrente do WhatsApp, com mais de 500 milhões de usuários ativos no mundo. O serviço oferece o envio e recebimento de mensagens de texto, áudio, imagem e vídeo, além de arquivos de diversos formatos. A plataforma grátis tem ganhado popularidade nos últimos anos e pode servir como alternativa para os mensageiros do Facebook (Messenger e WhatsApp). O serviço permite grupos de até 200 mil membros e disparo de mensagens em massa, o que o WhatsApp não mais autoriza, desde que o aplicativo passou a enfrentar acusações de ter sido usado nas campanhas por empresas de influenciadores.
O Brasil passou a conhecer mais o Telegram quando do episódio das reportagens do The Intercept Brasil, em parceria com outros órgãos de imprensa, apelidadas de Vaza Jato. As reportagens mostraram como os integrantes da Operação Lava Jato, juntamente com o então juiz federal de Curitiba Sérgio Moro, usaram o aplicativo que consideraram mais seguro, para trocar informações sobre como forjar provas e outras estratégias ilegais para incriminar pessoas, a partir do seu interesse político.
Muitas das “facilidades” do Telegram, são duramente criticadas por especialistas de segurança. Como o uso de “perfis fantasmas” que se autodestroem em seis meses (em nosso uso, detectamos 234 contas excluídas, automaticamente nesse modelo); o uso de nicknames (em vez de números de telefone); e a possibilidade de apagar as mensagens originais “sem deixar rastro”. Podem, além de ser utilizados por criminosos, facilitar o uso de disseminações de falsidades e enganos.
O aplicativo russo oferece, ainda, a possibilidade de editar mensagens já enviadas pelo usuário (ou por outras pessoas), apagar mensagens sem rastro, utilizar ao mesmo tempo “várias contas e pastas de chat”, “grupos de até 200 mil participantes”, “ferramentas de edição de vídeo” e a cereja do bolo – “API e plataforma de bot para desenvolvedores”. Essa última ferramenta facilita o comando de disparo de mensagens em massa – inclusive pré-agendadas.
Uma pesquisa rápida no buscador global que o próprio Telegram traz demonstra que a ferramenta já se tornou um bunker para os exilados do WhatsApp, Twitter e Facebook. Olavo de Carvalho tem dois grupos (um com 6.819 integrantes e outro com 3.512). Jair M. Bolsonaro tem 451.212 contatos em seu Telegram e Flávio 55. 520. Há três grupos de “patriotas” pró-Bolsonaro, com 26.719, 23.572 e 2.573 (esse último mais ativo). Sobre a covid-19 há dois grupos, um com 226.789 “pessoas” e outro com 615.979. Mesmo que as assinaturas não correspondam a um único número de telefone, ou “pessoa física”, ainda assim estamos diante de uma migração em massa.
A migração começou com o bloqueio de Trump e o silenciamento de perfis ativos na disseminação de desinformações (bem como nas ações judiciais, movidas em vários países contra WhatsApp e Facebook, por calúnia, difamação e desinformação política). A mudança dos termos de contrato (adesão) ao Whatsapp – com a sincronização entre perfis do Facebook e verificações de autenticidade também apressaram alguns a migração de plataformas.
Durov já fez duras críticas a grandes empresas de internet como Facebook e Google ao longo dos últimos anos. Entende que elas oferecem ferramentas para acalmar o público, mas não entregam resultados ao marketing. Ou seja, o magnata russo quer uma ferramenta que aumente as vendas e que permita o crescimento do público, além dos limites que Facebook (dona de WhatsApp e Instagram) e Google apresentam.
Nesta briga por audiência virtual muitas armas são antigas – utilizar o medo, falar de vigilância e censura, disseminar “falsos bloqueios”. Governos e ativistas de cybercidadania, porém, ensinam que mais transparência e mais acesso aos protocolos das empresas são os únicos caminhos, quando se deseja que cada cidadão tenha a posse e o conhecimento de como são lidos, por onde transitam e onde ficam armazenados seus dados. E essa história está bem contada no livro e documentário “Manipulados”/ “Privacidade Hackeada”.
Em resumo, qualquer que seja a mídia social, qualquer que seja a empresa de internet ou de comunicação, é sempre muito importante variar as fontes, checar por conta própria aquilo que você ouve, lê e vê. Cada pessoa que se preocupa com informação correta e justa pode ser um “Fact Checker”.