Nem todo alerta é profecia!

Como reconhecer uma teoria conspiratória nestes tempos de eleições (mesmo quando ela chega pela sua comunidade de fé)

Conspirações existem e fazem parte da vida em sociedade, desde as mais famosas no passado, como  Et tu, Brute?, até as contemporâneas em reuniões do mundo corporativo. Toda conspiração requer um grupo de pessoas que secretamente trabalham juntas para fazer algo ilegal ou ofensivo, que geralmente tem como consequências ganhos de poucos e prejuízos de muitos. A história do Brasil é, infelizmente, rica em conluios e conspirações verídicas.

O filósofo Quassim Cassam, em seu livro Conspiracy Theories, separa as teorias conspiratórias das especulações comuns sobre conspirações reais. Para ele, teorias conspiratórias são alegações sobre algum poder oculto responsável por eventos ou situações específicas que, dada a natureza secreta e não falseável, são de difícil justificativa mediante padrões de evidência normalmente reconhecidos. As teorias conspiratórias são implausíveis por design, diz Cassam. É delas que se trata este texto.

As comunidades religiosas têm sido historicamente locais importantes para a articulação de narrativas de conspiração. Há teorias conspiratórias anticatólicas promovidas por protestantes e conteúdo conspiratório antiprotestantes defendidas por católicos. Essa realidade está longe de um Fla-Flu no Cristianismo: há relatos conspiratórios que demonizam as religiões de matriz africana, islâmica e judaica. 

Seja qual for a teoria da conspiração, nos templos elas podem ser credenciadas por autoridades religiosas, convertendo-se em relatos de natureza teológica e até imposição eclesiástica. É por isso que as teorias conspiratórias valem votos.

A retórica conspiratória

As teorias conspiratórias enfatizam a posse de agência e o controle humano do curso da história, e retratam essa mundividência em três premissas: nada acontece por acaso; nada é o que parece; tudo está conectado.

Essa leitura de mundo tem sua própria retórica e se apresenta por meio de três e elementos narrativos, segundo o cientista político Michael Barkun, no livro A culture of conspiracy: um grupo conspiratório, um plano conspiratório e um esforço em prol do sigilo.

Uma teoria da conspiração apresenta seu cartão de visitas tentando identificar quem são os conspiradores. Mas essa é uma atividade paradoxal. Ao passo que eles precisam ser claramente conhecidos a fim de serem combatidos, também devem ser até certo ponto ocultos da opinião pública, dada a natureza secreta dos seus estratagemas. 

Uma solução para esse dilema geralmente é se referir aos conspiradores em termos vagos e/ou abrangentes: “Wall Street”, “Big Pharma”, “judeus”, “comunistas”, “banqueiros”, “o sistema” etc. Mas em época eleitoral vale tudo. Grupos que não pertencem ao conteúdo onspiratório originalmente podem ser associados aos conspiradores, mesmo que essa identificação seja inverossímil. Dessa forma, todo crente evangélico é de extrema direita ou o nazismo alemão é considerado como tendo sido um movimento de esquerda.

O plano conspiratório, segundo elemento narrativo, sempre é revestido de grandiosidade. É, um esquema que impede a descoberta da cura do câncer, um poder oculto que coloca um grupo em risco ou, em nosso caso, uma trama que decidirá o futuro do Brasil

Quanto ao sigilo, é ele que sustenta a lógica irrefutável da teoria da conspiração: uma vez que os conspiradores são tão competentes em esconder evidências e manipular a realidade, logo a ausência de provas sobre a conspiração pode ser tomada como prova incontestável de sua existência.

Cinco perguntas antes de repassar

Tudo isso faz das teorias conspiratórias um gênero, com lógica e gramática próprias. E um gênero se reconhece: a seguir estão cinco perguntas que revelam características de uma teoria da conspiração. 

Primeira

“A explicação óbvia foi descartada em favor de outra, mais extraordinária e sem prova?” As teorias conspiratórias são especulativas, porque se baseiam em conjecturas em vez de evidências sólidas; insólitas porque são contrárias às explicações óbvias e verossímeis dos eventos.

Segunda

“Toda prova contrária vira mais uma prova a favor?” As teorias conspiratórias são autovedantes e não falseáveis: montadas de modo que nada possa refutá-las, tratam toda evidência contrária como parte da conspiração.”

Terceira

“Do outro lado há adversários ou há demônios?” As teorias conspiratórias são maniqueístas, sacralizando aliados e demonizando adversários sob os paradigmas nós versus eles, luz versus trevas.

Quarta

“O problema é um vilão ou é uma estrutura?” As teorias conspiratórias são pessoais: explicam o mundo por decisões de indivíduos e desviam a atenção de questões sociais mais bem compreendidas em termos estruturais e coletivos.

Quinta

E aqui vale uma dobradinha: “Enquanto discuto isso, o que deixo de discutir? Quem ganha voto se eu acreditar nisso?” As teorias conspiratórias são propagandísticas, porque seu objetivo fundamental é promover o avanço de uma agenda político-ideológica.

Nem tudo está conectado

Na cosmovisão conspiratória, nada acontece por acaso, nada é o que parece, tudo está conectado. Essas premissas explicam por que a teoria da conspiração é tão sedutora: ela devolve ordem a um mundo que parece caótico e dá ao fiel a sensação de que enxerga o que os outros não veem. Vale terminar invertendo cada uma delas.

Muita coisa acontece por acaso. O mundo social não é o resultado direto do desígnio de alguns indivíduos ou grupos poderosos, mas produto de complexas relações entre múltiplos atores, organizações e instituições.

Às vezes as coisas são exatamente o que parecem. A explicação óbvia tem seu papel, e desconfiar de tudo não é discernimento, mas é o contrário dele. Porque quem duvida de tudo perde o critério para duvidar de alguma coisa.

E nem tudo está conectado. Examinar é, em boa medida, a arte de separar o que a narrativa juntou às pressas.

É injusto generalizar que todo aquele que compartilha uma teoria conspiratória é tolo ou paranoico. Na  maioria das vezes é alguém tentando dar sentido ao mal e trazer ordem à complexidade e à imprevisibilidade da vida em sociedade. Isso é legítimo, e a fé tem recursos próprios para isso. Aliás,  recursos bem melhores do que uma trama sem prova.

O preço, porém, é cobrado à vista em ano eleitoral. Enquanto se debate o plano oculto, não se discute saneamento, escola, hospital, emprego. A teoria da conspiração é, no fim, uma distração de assuntos mais sérios.

Discernir, aqui, é simples e exigente: verificar antes de encaminhar e aceitar que nem toda pergunta tem resposta secreta. Antes de repassar, examine.

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