Michelle Bolsonaro compartilha falsidade que deflagra onda de ataques a jornalistas

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, evangélica licenciada da presidência do Partido Liberal Mulher, provocou uma onda de ataques a jornalistas, após compartilhar nas redes digitais um vídeo com falsas acusações aos profissionais que atuam na cobertura da última internação hospitalar do marido. O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi transferido do Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, onde cumpre prisão por tentativa de golpe de Estado desde novembro de 2026, para o Hospital DF Star, em Brasília, para tratar de uma grave pneumonia bacteriana bilateral.

O vídeo, compartilhado por Michelle Bolsonaro e por outros políticos e apoiadores, foi originalmente publicado pela influenciadora digital Cris Mourão, que se apresenta nas redes como “gestora imobiliária, cristã, mãe e esposa”. Na peça, Mourão filmou jornalistas reunidos no aguardo de informações sobre o estado de saúde do ex-mandatário, na área externa do hospital, em 13 de março passado. 

A gravação continha a legenda “Jornalistas reunidos desejando a morte de Bolsonaro e comemorando por ser sexta-feira 13”. A acusação foi deliberadamente proferida contra os profissionais que exerciam suas funções  sem apresentação de qualquer tipo de conteúdo que confirmasse a alegação.

Imagem: reprodução/Instagram

Com mais de 8 milhões de seguidores no Instagram, Michelle Bolsonaro republicou o conteúdo integralmente em seu perfil na plataforma, em 14 de março passado, sem acrescentar comentários ou contextualizações. O compartilhamento deflagrou uma campanha coordenada de desinformação e ataques contra os profissionais identificados nas imagens captadas pela influenciadora

Ameaças virtuais e ataques presenciais

O resultado foi imediato. Pelo menos três jornalistas registraram Boletins de Ocorrência após sofrerem ameaças de morte, exposição de dados pessoais e ofensas nas redes digitais. Segundo a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), as agressões não se limitaram ao ambiente digital. “Duas repórteres foram reconhecidas na rua e no transporte público e sofreram ataques presenciais”, informou a entidade em nota divulgada em 15 de março.

A Abraji também denunciou que foram produzidas montagens e vídeos por meio de  inteligência artificial, “inclusive simulando que uma das profissionais é esfaqueada”. O caso ganhou contornos ainda mais graves quando fotos de filhos e de familiares de jornalistas que foram filmados começaram a circular nas redes como instrumento de intimidação. Um dos profissionais ameaçados chegou a fechar suas contas nas redes sociais para proteger a família.

Entidades denunciam padrão de violência

O deputado federal Mário Frias (PL-SP), autodenominado cristão, também publicou o material em suas redes, expondo os jornalistas com a mesma acusação infundada. A postagem de Frias e Michelle foi posteriormente apagada, mas o conteúdo já havia se espalhado.

A Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) e o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF), em nota conjunta,  repudiaram o episódio . . “É inadmissível que jornalistas, no pleno exercício de sua atividade profissional, sejam cercados e hostilizados na portaria de uma unidade de saúde”, afirmaram as entidades.

O texto destaca que a “exposição irresponsável resultou no vazamento de informações pessoais dos repórteres, que passaram a receber centenas de mensagens ofensivas e ameaças de morte”. As entidades cobraram proteção imediata da Polícia Militar do Distrito Federal e apuração rigorosa das ameaças pelo Ministério Público.

A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) também se manifestou em nota, afirmando que “causa indignação” o compartilhamento do vídeo por Michelle Bolsonaro. “O episódio remete ao período de 2019 a 2022, em que a violência contra jornalistas foi praticada e estimulada diretamente pelo próprio Bolsonaro, então presidente da República, por meio de diversos episódios de triste memória”, diz trecho da nota.

Cobertura em ano eleitoral

O episódio ganha relevância adicional por ocorrer em ano eleitoral, com o filho do ex-presidente, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), com boa colocação nas pesquisas para a sucessão presidencial. Em reforço às condenações ao clima de terror à negação da liberdade de imprensa, o jornalista do Intercept Brasil Paulo Motoryn, que cobriu o caso, relatou ter recebido mais uma de várias ameaças de morte, em 12 de março. A agressão desta vez foi , motivada por reportagem de autoria dele sobre foragidos do 8 de janeiro.

“Se o Brasil entrar em um governo Flávio Bolsonaro, jornalistas precisam entender desde já qual será o clima político do país”, alertou o repórter, que registrou Boletim de Ocorrência e afirmou ter sido forçado a mudar de estado no ano passado devido a ameaças anteriores.

Referências:

Uol

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/03/15/michelle-compartilha-video-intimidando-jornalistas-que-cobrem-bolsonaro.htm acesso 17 Mar 2026

Intercept Brasil

https://www.intercept.com.br/2026/03/17/michelle-bolsonaro-impulsiona-violencia-jornalismo/ acesso 17 Mar 2026

Agência Brasil

https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2026-03/entidades-repudiam-ataques-a-jornalistas-que-cobrem-bolsonaro acesso 17 Mar 2026

Fenaj

https://fenaj.org.br/nota-de-repudio-contra-a-violencia-e-intimidacao-a-jornalistas-na-cobertura-da-internacao-hospitalar-do-ex-presidente-jair-bolsonaro/ acesso 17 Mar 2026

ABI

https://www.abi.org.br/nota-de-repudio-2/ acesso 17 Mar 2026

Abraji

https://abraji.org.br/noticias/abraji-repudia-ataques-sofridos-por-reporteres-que-cobriam-internacao-de-bolsonaro acesso 17 Mar 2026

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Foto de capa : divulgação/PL

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