Fala mal construída de Lula é manipulada para acusação falsa de pedofilia e é parte de mobilização maior da direita política | parte 1


Na manhã da terça-feira, 29 de setembro, às vésperas das eleições o extrato de uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), durante um comício em Belém (PA), passou a circular nas redes digitais acompanhada de acusações de que o presidente estaria normalizando abuso infantil ou pedofilia.

Em discurso na campanha pela reeleição, Lula discursou sobre prevenção de doenças, exames de próstata e a realização da primeira cirurgia robótica pelo Sistema Único de Saúde (SUS) na Região Amazônica. Depois de lembrar que sua mãe morreu de câncer, o presidente lembrou a dificuldade maior do tratamento de homens e comparou com o acompanhamento médico mulheres. Lula disse que muitos homens resistem ao exame de próstata. 

Imagem: Canal do Youtube Lula, 28 set 2026

A fala aqui transcrita na íntegra (minuto 1:39:00) se revela mal construída mas é parte deste contexto: “Porque o homem é covarde. O homem não gosta de fazer teste de próstata. Ele não gosta, ele não gosta de toque. Sabe, as mulheres aprendem a tomar toque desde uma idade pequena. O homem, não. Ele está cheio de trejeito. Ele não sabe que, quando tiver câncer de próstata, vai dar muito toque nele.” 

Veículos de mídia alinhados à direita usaram o corte da fala em tom crítico:

Imagem: Canal do Youtube do portal de notícias Metrópoles, 29 set 2026

Entre os políticos que repercutiram a fala está o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). Em vídeo publicado nas redes, com grande alcance, o parlamentar escreveu: “Menina pequena não aprende a tomar toque nenhum, Lula!!!!”. 

Imagem: Perfil do deputado federal Nikolas Ferreira na plataforma X, 29 set 2026

Nas publicações Nikolas Ferreira  escreveu: “Agora deu para entender porque ele não quer ir ao debate”. Na outra, publicou um vídeo em que comentava a fala e contestava a explicação de que o presidente se referia a exames médicos. No vídeo, o deputado declarou que “meninas não são, Lula, tocadas desde cedo, não. Imagina uma merda de um pedófilo ouvindo uma declaração do presidente da república falando isso”. Em seguida, tornou a associar a declaração à ausência de Lula em debates e criticou eleitores do petista.

A senadora evangélica Damares Alves (Republicanos-DF) também usou as mentiras para disparar críticas a Lula. Em postagens nas redes, ela recordou que já sofreu abuso e utilizou termos fortes para expressar repulsa ao que teria sido a fala do presidente: “Que asco”, escreveu a senadora. Ela enfatizou que é “nojento” aceitar essa visão, especialmente porque foi em Belém, bem perto do Marajó, onde inúmeras meninas sofrem com esses “toques” que o presidente agora tenta normalizar. Bereia já checou conteúdo enganoso sobre a situação de Marajó propaganda por Damares Alves, quando foi ministra do governo de Jair Bolsonaro, com participação também de Nikolas Ferreira no caso.

Imagem: Perfil de Damares Alves no Instagram, 29 set 2026

A campanha de Lula acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 29 de setembro, contra as publicações de Nikolas Ferreira. A coligação pediu a retirada dos conteúdos e a aplicação de multa de R$ 30 mil. É fato que uma fala imprecisa do presidente Lula sobre cuidados médicos foi convertida, em poucas horas, em uma narrativa sobre pedofilia. Nada no restante do pronunciamento faz referência a contato sexual entre adultos e crianças ou à relativização de abuso infantil. O caso se reveste em estratégia de campanha que aciona não só desinformação mas uma qualidade bastante baixa de debate público. É falso, portanto, interpretar a declaração como defesa ou normalização da pedofilia 

O caso é parte de estratégia política maior

A falsa associação entre a fala de Lula e a pedofilia revela algo maior do que uma desinformação pontual. Em ano eleitoral, a proteção das crianças volta a ser mobilizada como linguagem política por lideranças religiosas e parlamentares. Bereia aprofunda o contexto do caso das mentiras sobre a fala de Lula para investigar a articulação temática colocada no centro desse discurso, como os discursos são enquadrados e o que os dados mostram sobre os riscos que crianças e adolescentes realmente enfrentam. 

Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública – 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2026).  Imagem: Bereia

Em 20 de maio de 2026, o senador Magno Malta (PL-ES) subiu à tribuna do Senado para falar sobre violência sexual contra crianças. Ex-presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito da Câmara Federal sobre Pedofilia, criada em 2008, o parlamentar relembrou investigações realizadas pelo colegiado e alertou pais e responsáveis para sinais que podem indicar que uma criança está sendo abusada. Segundo Malta, muitas dessas violências permanecem escondidas dentro do próprio ambiente familiar.

Imagem: Foto de Waldemir Barreto/Agência Senado

“Criança abusada não fala, mas dá sinal”, afirmou o senador. Entre esses sinais, mencionou regressões no comportamento, queda no rendimento escolar, depressão e alterações na alimentação.” 

Malta voltou à tribuna sete dias depois. Desta vez, o tema era a regulamentação do ensino domiciliar no Brasil. Ao defender o homeschooling, o senador apresentou outro cenário de ameaça às crianças: a escola. Questionou por que haveria interesse em manter todos os alunos dentro das salas de aula e respondeu: “Doutrinação”. Em seguida, associou professores a conteúdos e práticas de natureza sexual e afirmou que o ensino domiciliar impediria esse tipo de influência, preservando o que chamou de “cultura judaico-cristã” ensinada em casa.

Os dois pronunciamentos, feitos com apenas uma semana de intervalo, expõem uma tensão que atravessa o debate brasileiro sobre infância, sexualidade e educação.

De um lado, o reconhecimento de que a violência sexual pode permanecer escondida justamente dentro das relações familiares e de confiança. De outro, um discurso político que apresenta a escola, os professores e determinados conteúdos educacionais como ameaças das quais pais deveriam proteger seus filhos. Essa tensão não se restringe a um senador. 

Nos últimos anos, discursos semelhantes têm circulado por redes sociais, igrejas, campanhas eleitorais e movimentos políticos: alertas sobre desconhecidos, banheiros públicos, casas de amigos, internet, professores, “ideologia de gênero”, “doutrinação” e suposta “sexualização” das crianças. 

Em comum, muitos desses conteúdos apontam o perigo para espaços e pessoas situados fora do núcleo familiar. Mas onde crianças são efetivamente vítimas de violência sexual no Brasil? E quem são, com maior frequência, os autores dessas violências?

Responder a essas duas perguntas muda significativamente a geografia do medo construída no debate público.

Afinal, onde está o perigo e quem são os autores da violência?

 Os registros mais recentes disponíveis ajudam a responder às duas perguntas. Em 2025, o Brasil registrou 84.388 vítimas de estupro e estupro de vulnerável, segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2026). Do total, 77% ( 64.990 casos) dos registros foram classificados como estupro de vulnerável. 

Quando se observa o local das ocorrências, a distância entre a violência registrada e o perigo frequentemente representado no imaginário público torna-se evidente. Nos casos de estupro de vulnerável, 64,9% das ocorrências registradas aconteceram em residências. A via pública, por comparação, respondeu por 6,5%. Instituições de ensino aparecem em 2,6% dos registros analisados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Imagem: Levantamento Bereia

A relação entre vítima e agressor aponta na mesma direção. Entre vítimas de zero a 13 anos, nos registros em que foi possível identificar esse vínculo, 59,2% dos autores eram  familiares e 36,9% outras pessoas conhecidas da vítima. Apenas 3,9% foram classificados como desconhecidos.

Imagem: Levantameto  Bereia 

Somadas, as duas primeiras categorias representam mais de nove em cada dez autores identificados nessa faixa etária. O dado exige, porém, uma ressalva importante. A informação sobre a relação entre vítima e agressor estava ausente em cerca de 80% dos boletins de ocorrência analisados. Por isso, esses percentuais não podem ser apresentados como uma fotografia de todos os casos de violência sexual ocorridos no país. Eles descrevem os registros em que esse vínculo pôde ser conhecido e mostram também uma fragilidade relevante das bases de dados brasileiras.

Os números não significam que ruas, escolas, banheiros públicos, instituições religiosas ou ambientes digitais sejam livres de risco. Tampouco permitem afirmar que toda família seja um ambiente perigoso. O que mostram é algo diferente: a representação do agressor como alguém desconhecido, situado fora de casa, corresponde apenas a uma pequena parcela dos autores identificados quando a vítima tem até 13 anos.

As pesquisadoras Maria Eduardo Antonino e Ana Carolina Marsicano chamam atenção para uma distinção importante: uma criança vulnerável demanda proteção; uma criança apresentada como ameaçada exige também a identificação de um responsável pela ameaça. Questões como fome, falta de acesso à escola ou deficiência tendem a mobilizar demandas por políticas e direitos. 

Já quando a infância é colocada sob ameaça moral, surge também a necessidade de apontar quem estaria colocando aquela criança em perigo. Escola, professor, movimento social, produção cultural ou Estado podem então deixar de ser apenas objetos de divergência política e passar a ocupar o papel de possíveis antagonistas.

É nesse deslocamento que a proteção da infância adquire especial potência política. A disputa deixa de envolver somente diferentes propostas de educação, sexualidade ou políticas públicas e pode passar a ser apresentada como uma oposição moral entre quem protege crianças e quem supostamente as ameaça.

Mas as pesquisadoras fazem uma ressalva fundamental: isso não significa que toda presença da infância na comunicação política seja uma instrumentalização conscientemente planejada, nem que a melhor explicação seja acusar essas lideranças de simplesmente não se importarem com crianças. Para elas, a questão analiticamente mais produtiva é investigar quais formas de exposição e quais perigos são considerados legítimos, quem pode defini-los e em nome de que projetos políticos.

Que concepção de perigo está sendo construída quando se fala em proteger crianças?

Os alertas se concentram em desconhecidos, professores, escolas, banheiros públicos, conteúdos de educação sexual ou movimentos sociais, enquanto os registros de violência sexual apontam fortemente para residências, familiares e pessoas conhecidas. Surge aqui uma diferença entre o risco que ocupa o centro do discurso público e aquele que aparece com maior frequência nos dados.

O repertório que associa a proteção da infância a ameaças vindas da escola, de políticas de gênero ou de adversários políticos não surgiu neste ano. Ele aparece de forma recorrente em checagens e reportagens produzidas pelo próprio Bereia ao longo dos últimos anos.

Um dos exemplos mais conhecidos é o chamado “kit gay”, expressão usada para distorcer o conteúdo do projeto Escola sem Homofobia. Materiais voltados ao enfrentamento da discriminação contra pessoas LGBT passaram a ser apresentados como se tivessem o objetivo de estimular práticas sexuais ou interferir na orientação sexual de estudantes. A narrativa ajudou a consolidar a escola como espaço de ameaça moral à infância. 

Em 2023, essa lógica reapareceu em Maricá (RJ), quando um vídeo afirmou falsamente que crianças de sete e oito anos receberiam aulas de “ideologia de gênero”, masturbação e sexo oral sem autorização dos pais. O conteúdo circulou também em grupos religiosos e foi classificado pelo Bereia como falso. 

No ano seguinte, o caso da Ilha do Marajó mostrou outro aspecto do fenômeno: uma situação real de violência e exploração sexual contra crianças passou a circular misturada a informações falsas, enganosas ou sem comprovação. A gravidade do tema funcionou como combustível para conteúdos desinformativos mobilizados por influenciadores, atores políticos e grupos religiosos. 

Nas eleições municipais de 2024, a proteção da infância voltou a ser usada explicitamente na disputa eleitoral. Correntes de WhatsApp e materiais de campanha associaram adversários políticos a “ideologia de gênero”, “imoralidade sexual” e “erotização de crianças”, reforçando uma estrutura já conhecida: a criança aparece como alguém a ser protegida de forças externas à família, enquanto a autoridade parental é apresentada como barreira contra essas ameaças. 

Essa continuidade ajuda a entender por que, no contexto eleitoral de 2026, discursos sobre escola, gênero, autoridade familiar e proteção infantil encontram um terreno já preparado por anos de circulação dessas mesmas imagens e argumentos.

Na segunda parte desta reportagem-checagem, Bereia apresenta como a ideia de infância ameaçada aparece no debate público e no discurso de parlamentares neste 2026.

Referências: 

Fórum Brasileiro de Segurança Pública – 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2026) https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2026/07/anuario-2026.pdf Acesso em 29 set 2026

Ipea/FBSP – Atlas da Violência 2026. https://repositorio.ipea.gov.br/entities/publication/9ab87dfc-33eb-4ac2-8a54-f4f1543dabbc Acesso em 29 set 2026

UNICEF/FBSP – Panorama da Violência Letal e Sexual contra Crianças e Adolescentes no Brasil 2021–2023. https://www.unicef.org/brazil/relatorios/panorama-da-violencia-letal-e-sexual-contra-criancas-e-adolescentes-no-brasil-2021-2023 Acesso em 29 set 2026

UNICEF – Disrupting Harm in Brazil: Enfrentando a violência sexual contra crianças facilitada pela tecnologia (2026). https://www.unicef.org/brazil/relatorios/disrupting-harm-brazil-2026 Acesso em 29 set 2026

UNICEF – Educação que Protege. https://www.unicef.org/brazil/educacao-que-protege Acesso em 29 set 2026

UNICEF/SME-SP – Conhecer para Proteger: enfrentando a violência na primeira infância. https://www.unicef.org/brazil/relatorios/conhecer-para-proteger Acesso em 29 set 2026

UNICEF – Experiências didáticas por uma Educação que Protege. https://www.unicef.org/brazil/relatorios/experiencias-didaticas-por-uma-educacao-que-protege Acesso em 29 set 2026

UNICEF/Undime – Busca Ativa Escolar e a proteção contra as violências. https://www.unicef.org/brazil/relatorios/busca-ativa-escolar-e-protecao-contra-violencias Acesso em 29 set 2026

Lei 13.431/2017 – Sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente vítima ou testemunha de violência. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/l13431.htm Acesso em 29 set 2026

Trotti & Lowenkron – Pânicos morais, sexualidade e infância: a fabricação do “kit gay” como artefato político – Sexualidad, Salud y Sociedad, 2023. https://www.scielo.br/j/sess/a/q5rrcnY5bDHDLTf7qFk4BRL/abstract/?lang=pt Acesso em 29 set 2026

Furlin – Agenda neoconservadora como disputa para a política educacional: o discurso da “ideologia de gênero” — Educação, 2023. https://educa.fcc.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-64442023000100298 Acesso em 29 set 2026

Candeia & Furlin – As concepções de gênero nos discursos da agenda neoconservadora para as políticas educacionais no Brasil – Revista Linhas, 2026. ,https://share.google/FnoRxGFRZIUlh9wcc Acesso em 29 set 2026

Moreira, Moura & Teixeira – Homeschooling, ensino de controvérsias e o novo conservadorismo brasileiro – Cadernos de Pesquisa. https://www.scielo.br/j/cp/a/W6SQyMyKWG6SfzKbLVbsWHQ/abstract/?lang=pt Acesso em 29 set 2026

PL 1.338/2022 – Senado Federal.
Regulamenta a oferta domiciliar da educação básica. Encontra-se em tramitação, com parecer favorável da relatora Professora Dorinha Seabra. https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/153194 Acesso em 29 set 2026

RQS 495/2026.
Requerimento apresentado por lideranças do Novo, PL, PP e Republicanos para dar urgência ao PL. https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/174906 Acesso em 29 set 2026

Senado Federal

https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/05/20/magno-relembra-cpi-da-pedofilia-e-alerta-para-sinais-de-abuso-sexual-de-criancas Acesso em 29 set 2026


Youtube, Canal Lula

https://www.youtube.com/watch?v=MlAfMjAIEX8 Acesso em 29 set 2026
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