Marginais dentro do centro: os evangélicos e o movimento social

*Publicado originalmente em Angeliquisses.com

Meu ponto de partida é meu corpo. Corpo que possuí diversas identidades, que negocia, troca, toca, experimenta. Corpo que foi construído pelos cristianismos de centro. Corpo que foi desconstruído pelos cristianismos das margens. Corpo que agora é devir. Por que começar essa breve fala com o corpo? Porque é ele que experimenta a religião, é ele que a constrói, é ele que pisa e sente o território místico e dá significados.

Cristianismo nunca é no singular. Cristianismos. Plural. Usando as categorias de “centro” e “margem” dos estudos pós-coloniais tento entender o que se passa com os cristianismos no Brasil. Há um cristianismo de centro? Há um cristianismo das margens? Como os discursos dentro de uma religião podem ser tão distintos? Para encontrar novos caminhos é preciso discutir os caminhos existentes.

Os fundamentalismos têm tomado conta do cenário nacional e mundial. Existem diversas teorias sobre qual a origem do fundamentalismo religioso, todas elas têm suas falhas. Porém, há uma constatação a ser feita: o fundamentalismo é um fenômeno religioso, mas não é ligado com a religião em si. Em menos de uma semana estava na Índia estudando os processos de fundamentalismo religioso e lá há um partido de ultradireita chamado Bharatiya Jananta Party (Partido do Povo Indiano). Partido esse que reivindica uma Índia Hindu, que quer trazer de volta os princípios religiosos dos Vedas, das castas (que ainda é um problema na Índia), doutrina Hinduvta – orgulho de ser hindu, e que quer expulsar os cristãos e os muçulmanos da Índia. O centro, império, é o hinduísmo. Existem algum movimento hindu que não concorda com essa postura do governo em poder? Sim. Nenhuma religião é singular, há sempre o plural.

No Brasil temos como religião de centro o cristianismo, em uma mistura de católico com evangélico, considerando um crescimento notável nas últimas décadas do movimento evangélico. Qual é a imagem do movimento evangélico-protestante-pentecostal? Bem, posso dizer a partir de dentro de que de um lado temos os fundamentalistas escrachados, discursos de ódio, teologia da prosperidade, do outro lado os ditos teólogos ortodoxos, que destilam intolerância com cara de conhecimento científico, que obtém o “verdadeiro conhecimento da Bíblia” e o resto é tudo, claro, é tudo heresia. E não preciso dizer sobre a bancada dita evangélica, apenas mencionar é o bastante.

Engana-se, entretanto, em pensar que o movimento de evangélicos progressistas é algo novo ou uma renovação. Muito pelo contrário, nomes como Anivaldo Padilha, metodista que participou da resistência contra a ditadura e foi denunciado pelo próprio pastor, sendo sequestrado e torturado, estão aí para fazer história e construir essa resistência cristã. Ele é apenas um exemplo, poderia citar outros tantos que não se dobraram ao Centro da fé e da política, continuaram nas margens da fé.

Temos que entender que os evangélicos progressistas representam as margens das margens, pois são marginais da própria fé e marginais da própria esquerda que quase sempre excluiu a religião de qualquer análise social e fechou os diálogos com os crentes com um ar de superioridade colonial. Teologias como teologia gay e queer, teologia negra, teologia feminista, teologia da libertação são marginalizadas pelos centros – da fé e até mesmo pela esquerda.

Acredito que não há um “crescimento” ou mesmo “renovação” do movimento evangélico, entretanto, tem ocorrido mais visibilidade e publicidade das lutas e pautas estabelecidas entre o meio progressista evangélico. O movimento de religiosos evangélicos engajados em pautas sociais e não-conservadoras sempre existiu, não é um fenômenos novo e há muito tempo estão na luta. O que é novo talvez seja uma melhor compreensão teórica, conceitual e política e também uma melhor articulação.  Se há muito tempo religiosos evangélicos, de maneira anônima e desarticulada, atuam em causas relacionadas aos direitos humanos e sociais, hoje, de maneira mais articulada e organizada, estes evangélicos qualificaram e organizaram melhor suas expressões e práticas sobre esses temas e causas. Há diversos interesses nessa nova visibilidade também, interesses políticos, partidários, midiáticos, e esses fatores estão influenciando a publicização do movimento progressista evangélico no Brasil.

Movimento das margens da fé

Os primeiros movimentos progressistas evangélicos surgiram em meados da década de 20 e 30, porém eram institucionalizados e obtinham um caráter mais tradicional.  Hoje encontramos esses movimentos mais nas margens, se costurando com outros corpos, outras identidades para além de um cristianismo ocidental-patriarcal-branco-heterossexual-capitalista. Há diversos movimentos se movimentando por aí: Evangélicos Pelo Estado Democrático de Direito, Evangélicas pela Igualdade de Gênero, Feministas Cristãs, Espiritualidade Libertária, Movimento Negro Evangélico. Mas voltarei aos corpos únicos que vivem essa experiência com o sagrado nas margens.

Ronilso Pacheco, teólogo, negro, mora no Rio de Janeiro, autor do livro “Ocupar, Resistir, Subverter” pela editora Novos Diálogos. Ronilso constrói sua fé nas margens de sua cor. Como um corpo negro experiência a luta, dor, alegria e o mistério da fé?

Ana Ester, teóloga, lésbica, de Belo Horizonte. Pesquisadora sobre a teologia queer, sobre um Deus que flui como nós. Vivência a fé cristã no corpo de uma mulher lésbica.

Alexya Salvador, pastora da Igreja Comunidade Metropolitana em SP, transexual, educadora. Nas margens da sociedade e da fé encontra o divino que lava os seus pés. E agora passa a lavar os pés de sua comunidade de fé, alunos e família. Corpo divinamente queer.

Nancy Cardoso, pastora metodista, teóloga, mora nos quatro cantos do Brasil, feminista, reivindica uma leitura erótica da Bíblia, tão erótica que escorre para a terra, onde ela mais trabalha, na Comissão Pastoral da Terra, autora de diversos livros sobre teologia feminista.

Entre muitos outros que se fazem nas margens e constroem a partir dela suas teologias. Cristianismos de fronteira, de margens, bem distintos do que é propagado na mídia sobre um cristianismo conservador, preconceituoso, frio e seco. Acreditamos naquilo que somos, nossa religião é nossa imagem e semelhança.

A potência da margem: o corpo marginal da fé

Comecei a reflexão falando dos corpos. Nosso corpo é a nossa linguagem. Quando os corpos são marginalizados não temos mais voz. A minoria tem seus corpos oprimidos e silenciados pelo colonialismo. O corpo religioso é um corpo oprimido duplamente, cultural-social e religioso – se é que pode haver essa separação. Um corpo LGBTI não tem lugar na reflexão teológica, da mesma forma que um corpo negro, que um corpo de uma mulher, um corpo indígena. A liberdade é definida pela sua genitália, cor, classe social e sexualidade. Obviamente o centro do cristianismo não quer que as margens teologizem. Relembrando Spivak: Pode o subalterno teologizar?

Os corpos marginais da fé são um potencial de desafiar a hegemonia presente, um potencial de criatividade, um potencial de sonhar diferentes espaços religiosos e sociais. Ser marginal dentro do centro é desestabilizar as “normas” teológicas, questionar as doutrinas opressoras, é criar uma nova narrativa religiosa a partir do corpo que sente. É viver nas margens, nas fronteiras, nos entrelugares. Homi Bhabha diz:

O trabalho fronteiriço da cultura exige um encontro com “o novo” que não seja parte do continuum de passado e presente. Ele cria uma ideia do novo como ato insurgente de tradução cultural. Essa arte não apenas retoma o passado como causa social ou precedente estético; ela renova o passado, refigurando-o como um “entre-lugar” contingente, que inova e interrompe a atuação do presente. O “passado-presente” torna-se parte da necessidade, e não da nostalgia, de viver. (2001, p. 27)

Outro ponto que as margens vivem em constante negociação. Uma das perguntas que mais ouço sendo uma teóloga feminista “como você pode ser feminista e cristã?” ou ainda além: “por que você ainda se considera cristã?”.  Ou de uma esquerda tão cega quanto a própria fé que me diz: “não precisamos de vocês na nossa luta” – mesmo sendo a luta feminista. Como negociar entre essas fronteiras? O entrelugar é uma categoria necessária para entender os movimentos evangélicos emergentes na contemporaneidade. Negociam entre as margens e assim criam um novo lugar, um entrelugar de potências e diversidade. É o “rompimento das totalidades impostas e a superação dos fantasmas de cultura universal e culturas puras” (RIBEIRO, 2012, p. 169).

Um cristianismo-puro-singular-ortodoxo não tem mais espaço para os corpos marginais da fé. Viver nas fronteiras das diferentes situações produz um novo sentido para a realidade. Ainda mais, é preciso residir no além das fronteiras. Para Bhabha: “residir ‘no além’ é ainda… ser parte de um tempo revisionário, um retorno ao presente para redescrever nossa contemporaneidade cultural; reinscrever nossa comunidade humana, histórica; tocar o futuro em seu lado de cá. Nesse sentido, então, o espaço intermédio ‘além’ torna-se um espaço de intervenção no aqui e no agora” (2001, p. 27)

A vida é essa mistura de identidades que se interligam, interconectam, entrelaçam. É o passado e presente se fazendo novo. Os movimentos progressistas cristãos inspiram um novo a vir, uma comunidade que vem. Há sempre o perigo da margem querer se tornar centro, e assim perder a potência de criação e ser apenas uma repetição do velho, espero que isso não aconteça, mas antes crie o novo, novas relações com a fé e a sociedade, novas leituras das Escrituras que não mais oprimem o corpo, novas formas de se relacionar com o contexto atual. Ser evangélico é ser portador de uma boa nova, que essa boa nova se faça carne nos corpos marginais da fé.

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Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

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REFERÊNCIAS

BHABHA, Homi. O Local da Cultura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2001.

RIBEIRO, Cláudio. Fronteiras. entrelugares” e lógica plural: a contribuição dos estudos culturais de Homi Bhabha para o método teológico. Estudos de Religião, v. 26, n. 43, p. 9-21, 2012.

Cultos online e as fissuras do fundamentalismo religioso no Brasil

Por Delana Corazza, Angelica Tostes e Marco Fernandes¹

Conteúdo originalmente publicado no site www.thetricontinental.org

Confira a terceira parte do estudo “Cultos online e as fissuras do fundamentalismo religioso no Brasil”. Para ler a primeira parte, basta clicar aqui. Para ler a segunda parte, basta clicar aqui.

As possíveis fissuras do discurso fundamentalista

Entre os pentecostais alguns discursos são importantes para a construção do fundamentalismo, como a lógica do triunfalismo e da cura, que envolvem a teologia da prosperidade e a teologia do domínio. A primeira reforça o sentido individual da possibilidade cristã de felicidade e prosperidade terrena – e não mais somente no reino dos céus -, a partir da fé e de seu comprometimento com a igreja. Já a segunda aponta que, para a realização dessa felicidade, é necessário se inserir na batalha espiritual contra o Diabo, sendo este o responsável de todos os males da humanidade, e que os crentes devem resistir às suas tentações e pecados. Dessa forma, se algo de ruim acontece com o indivíduo, é atribuído algum pecado a essa pessoa, e entendido que o mal veio como fruto de desobediência a Deus. A partir dessa visão é gerada uma culpabilização do indivíduo frente às adversidades da vida. Ser evangélico se torna a única possibilidade de ação contra as forças demoníacas presentes na terra, a conversão é o único caminho para a salvação.

Com a pandemia do Covid-19, algumas bases teológicas fundamentalistas pentecostais parecem estremecer. O jovem batista Jackson Augusto acredita que “talvez muitas pessoas vão desacreditar de espiritualidades assim, esse discurso que promete coisas, que ninguém vai tocar em você, o discurso neopentecostal é além do financeiro. Para algumas experiências pode haver um enfraquecimento do discurso fundamentalista.”

O discurso do fundamentalismo religioso é ecoado na fala de um pastor pentecostal entrevistado: “Quem está confiante nesse momento? Quem confia em Deus, quem sabe que Deus está no controle de tudo. Nada acontece se não for a permissão de Deus. Então quer dizer, nós estamos em paz, eu estou em paz. Pessoas que não tem essa confiança em Deus, pessoas que não creem em Deus estão desesperadas, ‘e agora, o que vai ser da minha vida’, né?”. Em outras linhas, acaba minimizando as consequências da pandemia em relação à saúde pública e as maneiras que têm afetado a vida de milhões de trabalhadores e trabalhadoras nesse país, como se bastasse a confiança em Deus. No início da pandemia, Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), disse aos seus fiéis para não se preocuparem com o coronavírus e que isso era uma “uma tática de Satanás” – e da mídia – para causar pânico nas pessoas. A visão fundamentalista que enxerga um inimigo comum – o outro – a ser destruído por meio da fé e o papel da conversão como única forma de salvação encontram ecos na política negacionista de Bolsonaro. Para o pastor batista e professor de teologia, Kenner Terra, “não há nada mais perverso, desumano, monstruoso e anticristo do que tornar essa crise um instrumento de capitalização política. O discurso do Presidente, sempre preocupado em falar ao seu reduto eleitoral, já se mostrou desastroso e fragiliza as estratégias de combate à pandemia. Por outro lado, a relação acriticamente religiosa com o atual governo torna alguns pastores/as evangélicos/as recrutas de um projeto insano de poder.”

A visão teológica do “Deus no controle” e os líderes da Igreja como os profetas deste Deus imobiliza a ação social das igrejas ao combate às injustiças sociais e desigualdades, como relata o assembleiano Ronaldo que não teve sucesso ao implementar trabalhos sociais para além do assistencialismo na igreja: “Em relação ao coronavírus a nota é zero. A igreja não tem a filosofia de fazer esses trabalhos. Quando aparecem pessoas interessadas em fazer, como eu falei, quando vai para as esferas superiores eles não aprovam. […] As instituições religiosas têm um dono que não se chama Jesus, e sim aqueles que estão a frente desses trabalhos.”.

O poder que as lideranças das igrejas atribuem a si próprias é contraditório com as raízes do pentecostalismo que também estão ligadas à Reforma Protestante iniciada por Martinho Lutero. Visto que um importante ponto da Reforma é que não há mediação sacerdotal entre Deus e o ser humano, o único mediador seria Jesus. Fiéis e líderes resgataram em diversas falas a tradição protestante como forma de encontrar resistências em um momento em que pastores se colocam como a autoridade máxima da fé. Gedeon Alencar pontua que “na tradição protestante, em tese, nós anulamos todo e qualquer tipo de mediação porque a teologia de Lutero é do sacerdócio universal dos crentes, ou seja, todo crente é seu próprio sacerdote. E o culto, não tendo pastor ou tendo pastor, pode ser celebrado. O pastor Rosivaldo segue na mesma linha, ao dizer que “para nós pentecostais, desde Lutero, isso (o fechamento das igrejas) não é um problema. Porque você não precisa de sacerdote para falar com Deus, não precisa de um mediador. A Bíblia está aí, você tem ela traduzida na sua língua, então leia a Bíblia, ore a seu Deus e jejue”.

Entretanto, o uso da religião como manipulação ainda é um instrumento de controle sobre os corpos e subjetividades em alguns contextos. Por mais que os princípios da Reforma Protestante aponte caminhos para uma fé mais individualista e privada, no campo popular brasileiro a realidade é oposta. Para Ronaldo, da Assembleia de Deus Ministério Madureira, “as pessoas não foram preparadas para serem independentes. Foram preparadas para serem dependentes do ditador trazido para a igreja”. Um elemento que alguns desses líderes traziam, e ainda trazem, é a cura. Um exemplo é o vídeo publicado no Youtube em que o pastor da Igreja Mundial do Poder de Deus, Valdemiro Santiago, promete a cura do coronavírus com a compra de sementes de feijão abençoadas, pedindo o “propósito” de R$1 mil por elas. Após inúmeras críticas, a IMPD emitiu uma nota alegando que não vendiam sementes, nem prometiam a cura. No dia 11 de maio o MPF (Ministério Público Federal) solicitou que o YouTube retirasse do ar vídeos, e continua investigações em relação a “curas mágicas”.

Os esgarçamentos de tais discursos podem ser um ponto de fissura no fundamentalismo religioso. A fala de Ronaldo soa como um desabafo em relação a isso. “O coronavírus mostrou o quanto de farsa existe dentro da prática religiosa, o quanto de farsa que existe na liderança religiosa porque mostrou a hipocrisia de tudo isso. Alguns até tem programas de televisão mostrando curas, coisas impossíveis, e o coronavírus ninguém cura.” Claudio desabafa um ocorrido que aconteceu entre ele e sua companheira e o pastor da igreja:“A gente quase teve uma discussão com o pastor. Veio essa tese Bolsonarista de gripizinha, nós nos posicionamos, porque o vírus não tem partido, então você não pode ir pela cabeça de pastor, e o meu pastor não é Deus.” A jovem evangélica Alana aponta que “discursos religiosos também têm se enfraquecido. Quando eu digo que a cura vai chegar só com oração e essa cura não chega? Como dar respostas a isso? Se esses pastores têm tanto poder, por que eles não estão nas portas dos hospitais simplesmente curando as pessoas?”. Para Josélia Pereira, liderança da FLM, diz que tudo isso “mostrou que ninguém tem o poder de curar nada e nem ninguém, quem cura é Deus. ‘Nossa, fulano, ciclano, realizava tanta coisa’ e a gente tem casos dessas igrejas grandes de próprios pastores e obreiros que pegaram o vírus. Acho que as famílias, mais do que nunca, têm acordado.”

Claudio nos conta que muitos pastores estão deprimidos e traz uma importante reflexão obre como pode se fragilizar esse poder tão grande dado a essas lideranças. “Muitas vezes o pastor tem uma igreja e ali é a área de escape dele, entendeu? Ele é idolatrado, ele é o cara, ele é o pastorzão, então nesse momento que ele perde a igreja e tem que ficar com a família, ele fica meio que sem pé, né? A igreja é um escape, lá ele manda, lá ele tem um monte de gente, entre aspas, para puxar o saco, babar o ovo. Em casa, se ele não tem uma sustentação bíblica, um estudo, se não está realmente pautado na palavra, o cara se sente pior do que a gente que é membro. Ele é um Deus, né? Vaidade, se você não tiver uma base na Bíblia mesmo, aquilo que Deus fala: ‘a honra é Dele, a glória é Dele’, você se perde aí, você acha que é você. Todo mundo que foi exaltado ficou para trás. Aquele pastor que é humilde não sente muito, não”.   Encontrar as fissuras nos discursos e ações dos pastores que levantaram a bandeira fundamentalista é um desafio. Aprender a construir pontes de diálogo e de aproximação que não estão prontos, dado que muitas das afirmações do campo progressista não conseguem, ainda, dialogar com os fiéis, é uma tarefa fundamental nesse momento. Para Alana, essas novas ideias não serão agregadas dizendo “o quanto alienado vocês estão por seguirem esse pensamento”. Respeitar a fé em todas as dimensões da vida das pessoas é imprescindível para não aniquilarmos o diálogo. A ciência, a fé e a luta não são antagônica. O pastor Rosivaldo expressa sua fé dizendo que acredita em milagre. “Acredito que Jesus cura, em libertação. Agora, eu também acredito na ciência. O que Deus tinha que fazer para humanidade ele já fez, que foi enviar Jesus para salvar o mundo. Agora o problema da COVID-19 é um problema evidentemente humano, não vem meter Deus nesse negócio porque não tem nada a ver. É um problema biológico, não é uma força espiritual da maldade.”

Outra questão que devemos nos colocar como tarefa é a possibilidade de disputa da leitura da Bíblia. Avaliamos que é possível o questionamento sobre o papel do pastor e aquilo que ele tem pregado nos seus discursos dentro e fora da Igreja, e nos perguntamos: a Bíblia é o canal principal de disputa das narrativas? Com o culto online e o incentivo ao culto doméstico os fiéis tem passado mais tempo com a Bíblia. A leitura bíblica feita pelos membros das igrejas, sem a interpretação direta do pastor ou instituição, pode contribuir também para as rachaduras do discurso fundamentalista da fé. A relação dos evangélicos com a Bíblia é algo forte, fruto também da Reforma Protestante com o Sola Scriptura (Somente a Escritura), uma das cinco afirmações em latim que resumem os princípios da Reforma, sendo estas: Sola Fide (somente a fé), Sola Scriptura, Solus Christus (somemte Cristo), Sola Gratia (somente a graça) e Soli Deo Gloria (somente a Deus a glória). Entretanto, não se pode cair em um idealismo, visto que a própria Welita Caetano, liderança da FLM, pontua que “nós somos carregados de preconceitos, com essa carga preconceituosa você vai ler um versículo”. E acredita que “a Bíblia abre possibilidades para você pensar tanto de forma extremamente conservadora quanto extremamente libertária, depende muita da visão que você tem, dessa carga cultural que você tem, dos livros que você já leu, a partir disso você consegue fazer uma leitura”. Quando corpos diversos leem a Bíblia, muitas interpretações surgem. O que pode fragilizar, de certa maneira, discursos de interpretação única. Para a pastora metodista e teóloga Nancy Cardoso:

“Fundamentalismo é a interrupção da interpretação. O que o fundamentalismo pede para nós é que suspendamos a interpretação. No fundamentalismo ninguém precisa interpretar. O pastor diz, o político diz, e suspende a interpretação. No máximo você descreve, mas interpretar e, a partir da interpretação, fazer interpretação política, não. Então, o fundamentalismo pede para nós o congelamento do processo hermenêutico. Que as pessoas não pensem, que as pessoas não tenham autonomia, direito de decidir (com todos os problemas que o direito de decidir tem)”.

CARDOSO, 2015, p. 125.

Josélia, da FLM, explica sua relação com a Bíblia em tempos de pandemia: “a gente lê junto (com a família). A palavra de Deus diz em Oséias 46 que o povo sofre por falta de conhecimento. A Bíblia é um livro que cada um lê de um jeito e é isso que a gente tem procurado mostrar para os nossos irmãos, que nós somos ovelhas, a gente não é gado. A gente precisa ter o conhecimento da palavra, não dá para a gente fazer isso por que tal bispo, tal apóstolo, tal pastor falou. A gente tem que fazer por que a gente tem que ir lá, examinar a escritura e ver se é aquilo. Então quando a gente faz isso junto, por mais que tem interpretação diferente, a gente consegue entender ali na Bíblia, o que a palavra quer dizer. A gente tem procurado fazer juntos ou quando tem uma dúvida a gente procura estudar o que significa aquilo, o que a Bíblia quer falar em relação àquilo. Por que a Bíblia se renova todo dia, se você ler um salmo hoje, amanhã, quando passar alguns dias que você for ler, mediando o que você está passando, você vai interpretar ele de outra forma”. A trabalhadora doméstica da Zona Norte de São Paulo, Cleonice, que como apontamos não tem tido muita paciência para esse novo formato de culto, tem se conectado com Deus lendo a Bíblia diariamente para seus quatro filhos. Ela diz que sempre leu a Bíblia, mas agora colocou a leitura com as crianças como parte de sua rotina espiritual.

Pós-pandemia

Diante deste cenário, ainda é impossível prever o que será da igreja pós-pandemia. Talvez haja essa pulverização das figuras de autoridades e discursos únicos, ou uma reinvenção do fundamentalismo para abraçar ainda mais as comunidades que sofreram pela pandemia. Talvez a fé seja questionada por conta da falta de respostas para tanto sofrimento ou, ao contrário, com o aprofundamento da crise e com a saúde mental abalada, pode haver um aumento do número de pessoas procurando nas igrejas evangélicas as respostas para suas dores. O futuro é incerto.

As apostas sobre essa nova igreja estão sendo feitas, muitos fiéis acreditam que a vontade do encontro e do abraço fará com que a igreja seja fortalecida e que valorizem mais ainda este espaço tão importante no cotidiano dos fiéis. Para Edgar Aires, membro da IBAB, “perceber a necessidade de comunhão hoje, talvez provoque mais comunhão para frente”. Também há uma crença de que novos fiéis poderão adentrar o universo das igrejas porque, de alguma forma, foram tocados pelos cultos online assistidos por alguém da família convertido. Josélia acredita que haverá uma queda brusca na participação dos fiéis das grandes igrejas, pois muitos encontram o acolhimento e cuidado em outras pessoas. Para os que voltarem, ela acredita que estarão mais conscientes.

A forma que este retorno vai se consolidar é ainda um campo em disputa. O pesquisador Gedeon Alencar aposta em uma mudança radical do papel da fé na vida das pessoas: “quem sabe a nossa sonhada e desejada secularização tome algum fôlego. Primeiro porque esse grupo da discussão da fé, do milagre, do Deus que intervém, perdeu o discurso. (…) o problema não é só o dízimo, o problema é que essas pessoas perderam o discurso, perderam a razão de ser. Quem pregava um evangelho de solidariedade, continua pregando agora e, depois que passar a pandemia, vai continuar falando de solidariedade. Mas quem falava só de milagre e cura, vai falar o que agora?”. Welita, da FLM, também aposta em uma mudança radical do papel e poder da Igreja. “Eu acho que não vai existir mais igreja, assim como todas as estruturas estão falindo, a igreja também é esse instrumento que vai falir. Eu acredito que esse evangelho é tão vivo, tão vivo, que pastor nenhum pode aprisioná-lo. Igreja nenhuma pode dizer ‘esse é o meu evangelho’, o evangelho é do mundo e evangelho para mim, de Cristo, é qualquer pessoa que estenda a mão aos necessitados. Essas igrejas como são, irão ruir”.

Contra-narrativas: o mundo plural dos evangélicos

Nesse cenário, será preciso redirecionar os olhares do movimento social para a classe trabalhadora cristã, criando pontes e diálogos, disputando e cultivando juntos a solidariedade. “Quando somos atingidos nas nossas dimensões mais vulneráveis e que colocam em cheque aquilo que vinha sedimentando o nosso pensamento, somos obrigados a pensar sobre isso e repensar nossas práticas, por isso, considero que a pandemia pode ser um campo fértil de possibilidades para que a gente se reinvente como igreja, como comunidade, no cuidado uns com os outros”, reforça a cientista social Alana Barros. Para Welita, este é um momento de ruptura com essa religião, segundo ela, tão conectada ao sistema capitalista. Ela acredita que há uma brecha para que os cristãos percebam a religião como uma ligação com o divino e com as outras pessoas. “Eu sempre digo para eles (moradores das ocupações) que isso aqui (a ocupação) é religião de verdade, isso aqui é o cristianismo de verdade, de você estender a sua mão para outro em sua necessidade real”.

Essa ruptura e nova percepção da realidade não se constrói de um dia para outro. As lideranças de diversos movimentos populares que estão na linha de frente das ações têm construído – a partir da formação política com a sua base – olhares resistentes frente à realidade e, não raramente, tendo que lidar com concepções enraizadas no fundamentalismo religioso. No entanto, as possibilidades de transformações sempre estiveram em curso, como elabora Welita. “A base com que eu trabalho é evangélica, nas ocupações são todos evangélicos. Vai se construindo uma consciência política, dialogando com a fé a partir da educação popular, a partir das dificuldades do dia a dia que eles enfrentam, mais do que outros lugares, as ocupações são construídas com base na solidariedade. Eu vejo o discurso do Bolsonaro muito forte nas ruas, mas aqui dentro a gente tem um contra-discurso que funcionou sempre”.

Com a presença de uma pluralidade maior de cultos em meio digitais, o movimento progressista evangélico, embora sempre tenha feito uso dessas ferramentas, tem ganhado mais força. Na contramão dos discursos fundamentalistas, os movimentos religiosos progressistas, incluindo comunidades locais, têm mantido um esforço comum na disseminação de informações sobre prevenção da Covid-19. Diversas campanhas nas redes sociais têm sido feitas para que as pessoas não quebrem o isolamento e exercitem a fé dentro de suas casas. Uma das hashtags de destaque foi a #FéNãoImuniza, inspirada na fala do pastor batista Ed René Kivitz durante o culto transmitido pela Igreja Batista da Água Branca. Essa campanha foi impulsionada nas redes sociais pelas feministas evangélicas Camila Mantovani e Rachel Daniel, e trazia informações importantes para conciliar a fé e a prevenção.

O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs também lançou notas e informes às igrejas na campanha de prevenção à Covid-19. Outra campanha importante ocorreu no dia 5 de abril, contrapondo o jejum convocado por Bolsonaro com o apoio de pastores pentecostais e protestantes históricos. Essa campanha foi criada pelo Usina de Valores e o Instituto Vladimir Herzog, que propunha que cristãos e cristãs progressistas dissessem o significado do jejum, retomando assim a temática que pertence à fé cristã. A hashtag #OJejumQueEscolhi, que faz referência ao texto de Isaías 58, incentivou cristãos e cristãs de diversas denominações a manifestarem sua fé e luta baseadas na justiça e igualdade. Outra iniciativa muito importante nessa conjuntura foi a do coletivo Bereia. Formado por jornalistas evangélicos, o coletivo tem apurado todas as notícias de conteúdo duvidoso relacionadas ao governo federal e às lideranças cristãs com mandato político.

Provocados pelas ações desastrosas do governo Bolsonaro frente à pandemia, 35 organizações e movimentos evangélicos e centenas de fiéis de diversas denominações cobram respostas do governo federal frente à tragédia que está em curso, por meio do Manifesto com um nome bastante incisivo: “O governante sem discernimento aumenta as opressões – Um clamor de fé pelo Brasil”. O manifesto também traz a necessidade das igrejas garantirem o isolamento, mantendo os cultos presenciais suspensos e que a igreja só abra suas portas para as ações de solidariedade. “Nosso compromisso cotidiano em ações solidárias de apoio ao atendimento de necessidades específicas de pessoas e famílias que se encontram em situação de vulnerabilidade nesse contexto de grave crise. A fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta”.

Ações de solidariedade: Igrejas e Movimentos Populares

As ações de solidariedade que já estavam em curso foram fortalecidas e aprofundadas nesse período de pandemia – apesar de toda a dificuldade de manutenção de um trabalho de base em tempos de necessário isolamento social – e têm se tornado também espaços possíveis de formação e de reflexão junto à classe trabalhadora. O exemplo que Alana nos traz referente ao trabalho realizado na periferia de Maceió, é muito ilustrativo das potencialidades que a solidariedade encontra de reversão de narrativas, tão enraizadas em nossa sociedade. “Temos tido mutirões de distribuição de alimentos, e no dia 17 de abril, a gente recebeu uma doação de 5 toneladas de alimentos do MST (…) atendemos em torno de 800 famílias e foi um processo muito interessante, porque a gente contou com ajuda das pessoas da própria comunidade para organizar esse mutirão (…), queríamos aproveitar essa ação de solidariedade também como processo formativo, então, uma alternativa nossa foi convidar as pessoas da vizinhança que já nos conhecem para ajudar nesse processo de organização e distribuição de doações, coisa que muita gente não tinha experienciado nessa dimensão. Tinha várias visões distorcidas sobre o MST, aí chega o MST levando alimentos para a população que precisa demais. Descobrimos um potencial político e organizativo muito grande nessas pessoas da comunidade que lideraram o processo e nos ajudaram. Terminamos esse dia com um saldo muito positivo, não só porque muitas pessoas foram alimentadas, mas porque no processo eles passaram a enxergar ‘esse pessoal do MST’, como eles dizem, de uma maneira diferente”.

Parte significativa das pessoas da comunidade que participaram desse processo organizativo do mutirão e também das que receberam os alimentos é frequentadora das igrejas evangélicas da região. Se podemos afirmar que a fé não imuniza contra o vírus, também não imuniza contra o olhar crítico sobre a realidade. Josélia trabalha há anos nas bases dos movimentos sociais de luta por moradia e tem buscado dialogar principalmente com as mulheres evangélicas nos seus espaços de formação e possibilitado a reflexão política a partir da fé. Em tempos de pandemia, para além das campanhas de solidariedade e doações de alimentos, Josélia tem tentado acalmar as famílias que estão inseguras e muitas vezes se sentindo abandonadas, levando as palavras de Deus, “mas não a palavra de Deus alienada, mas a que faz a gente entender que precisamos nos cuidar (…). A fé e a inteligência andam juntas”.

As forças progressistas estão em marcha por meio da solidariedade e da batalha das ideias, presencialmente ou não. As fissuras nos discursos fundamentalistas religiosos, evidenciados nas ações contra a pandemia, criaram possibilidades para rupturas de uma espiritualidade conservadora. Nesse contexto, tornam-se cada vez mais férteis as disputas, no campo religioso, a partir dessas fissuras com os diversos setores de nossa classe. Os evangélicos, principalmente os neopentecostais, compõem parte significativa dos moradores das periferias das cidades, alvo principal do vírus em nosso país. É necessário reforçarmos que sem o diálogo com esse setor da sociedade não avançaremos de fato para uma transformação da realidade que vivemos. Que possamos mais do que nunca nos inspirarmos:

(…)Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.

Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros.)
Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.

Para os que virão – Thiago de Melo

Referências  

CARDOSO, Nancy; TOSTES, Angelica. “Ideologia de Gênero” ou do Medo das Pequenas Diferenças & algum homoerotismo, 2018. Disponível em <https://www.academia.edu/42454842/_Ideologia_de_G%C3%AAnero_ou_do_Medo_das_Pequenas_Diferen%C3%A7as_and_algum_homoerotismo> Acesso em < 01 de jun de 2020 >

CARDOSO, Nancy. Teologia da mulher. Revista Encontros Teológicos, v. 30, n. 1, 2015. Cunha, Magali, et al. “Discurso religioso, hegemonia pentecostal e mídia no Brasil: a presença televisiva do Pastor RR Soares – um estudo de caso.” R e v i s t a C a m i n h a n d o v. 13, n . 21, p . 87 – 96, j a n – m a i 2 0 0 8 ____________. Três coisas que é preciso saber para se falar dos evangélicos no Brasil, 2020. Carta Capital: Diálogos da Fé. Disponível em < https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/tres-coisas-que-e-preciso-saber-para-se-falar-dos-evangelicos-no-brasil/ > Acesso em <29 de mai de 2020 > ________. Religião e Política: Uma visão protestante. In TOSTES, Angelica; RIBEIRO, Claudio. Religiões e Intervenção Política: Múltiplos Olhares. São Paulo: Ed. Recriar, 2020.

FERNANDES, Marco. Psicoterapia Popular do Espírito Santo: hipóteses sobre o sucesso pentecostal na periferia de metrópolis periféricas. Margem à Esquerda 29. Boitempo Editorial, 2017.

JUNG, Mo Sung. Sacrifícios e certezas num mundo de incertezas: neoliberalismo e milenarismo. In CRUZ, Eduardo R.; DA COSTA BRITO, Ênio José; TENÓRIO, Waldecy. Milenarismos e messianismos ontem e hoje. Edições Loyola, 2001.

KIFER, Camila. Jornalistas evangélicos criam site para checagem de notícias sobre lideranças cristãs, 2020, Itatiaia.Disponível em https://www.itatiaia.com.br/noticia/jornalista-evangelicos-criam-site-para-checag1

PACHECO, Ronilso. Quem são os evangélicos calvinistas que avançam silenciosamente no governo Bolsonaro, 2020, Intercept. Disponível em <https://theintercept.com/2020/02/04/evangelicos-calvinistas-bolsonaro/> Acesso em <01 de jun de 2020>

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VILHENA, Valéria Cristina. Uma igreja sem voz: análise de gênero da violência doméstica entre mulheres evangélicas. Fonte Editorial Ltda., 2011.

A Teologia da Libertação para reconstruir o Brasil a partir de baixo

Em 13 de julho, o filósofo italiano Gianni Vattimo (84 anos) publicou no jornal espanhol La Nación um artigo que o Facebook reproduziu para nós. Deste texto, colhi as seguintes afirmações que traduzo na minha linguagem e podem não ser citações literais do que Vattimo escreveu, mas correspondem ao que ele afirmou:

“Atualmente, com a pandemia e a quarentena, o controle coletivo sobre as pessoas tende a aumentar. Então, se torna mais necessária uma outra organização social, baseada na ajuda mútua e no amor fraterno”. (…)
“Isso significa que tem de haver uma profunda transformação social. Mas, atualmente, só é possível uma transformação social radical tendo como base um apelo espiritual – e hoje a única pessoa que tem condições de dirigir um processo de transformação radical do mundo é o papa Francisco”.
“Para isso, o papa teria de transformar a Igreja e libertá-la dos dogmatismos, da moral ultrapassada, principalmente, em relação à família, à mulher e a questões sexuais e também libertar ministros e fieis da tentação de se ligarem ao poder social e político”

Gianni Vattimo (La Nación, 13/ -7/ 2020)

Será que depois de escutarmos a voz de um dos mais importantes filósofos vivos do mundo, ainda precisamos explicar porque as teologias da libertação se tornam necessárias no Brasil dos nossos dias e no mundo? 

Quando eu era jovem, me tornei amigo de um dos teólogos pioneiros da Teologia da Libertação, um brasileiro que escreveu sobre isso antes da geração do nosso querido Leonardo Boff, João Batista Libânio e outros. Era Hugo Assman. Ele foi o primeiro a estabelecer a relação entre Teologia e Economia. No começo da década de 1980, houve um famoso congresso teológico em Montevidéu. Ali, Hugo Assman afirmou:

“Se a situação histórica de dois terços da humanidade, com seus 30 milhões de mortos de fome e desnutrição não se converte em ponto de partida de toda teologia cristã hoje, a teologia não poderá aplicar seus temas fundamentais à história concreta. Suas perguntas não serão perguntas reais. Por isso, é necessário salvar a teologia (e a fé) do seu cinismo. Porque, realmente, diante dos problemas do mundo de hoje, muitos escritos de teologia se reduzem a um exercício de cinismo”

(Assman e Mo Sung, 2007, p. 12).

Então, as teologias da libertação existem para salvar a teologia, as ciências da religião e as próprias Igrejas do cinismo hipócrita de falar coisas bonitas e viverem o oposto de tudo o que a fé poderia expressar. 

Até agora, no Brasil, na Europa e em todo o mundo, ainda há – e infelizmente não são tão poucos – padres, bispos, grupos católicos, assim como pastores evangélicos e pentecostais e comunidades cristãs que ainda defendem totalitarismos e políticas de direita e contra os mais vulneráveis do mundo (migrantes, refugiados, minorias sexuais e outros). Nos Estados Unidos, alguns arcebispos e cardeais fazem publicamente campanha em favor da reeleição do presidente Trump e se organizam contra o papa Francisco. Sabem perfeitamente que o presidente persegue migrantes, discrimina negros e é contra a Ecologia. Mas, têm interesses em defendê-lo.

No Brasil e em muitos lugares do mundo, é mais lucrativo apoiar a direita do que a justiça e a democracia. No entanto, entre os eclesiásticos, esse grupo de interesseiros que defendem seus lucros é minoria. A maioria dos cristãos e de gente de outros credos que defendem a desordem indefensável é de gente alienada que faz isso por não saber teologia ou ao menos uma teologia digna deste nome, seja teologia cristã, seja teologia da Umbanda, ou teologia islâmica ou budista… ou simplesmente transreligiosa e não confessional. Outro dia, um amigo me perguntou: “Existe teologia sem ser a partir de uma revelação concreta? Sem estar amarrada a uma Igreja e a uma hierarquia?”

Ao menos, desde o começo deste século, temos as teologias pluralistas da libertação e vocês encontram nas livrarias os livros de europeus como Andres Torres Queiruga e Raimon Panikkar, na América Latina, de José Maria Vigil e no Brasil de Faustino Teixeira e Cláudio Ribeiro, só para dar alguns exemplos. 

Portanto, quando falamos de teologias da libertação no plural, este plural tem dois sentidos. O primeiro é de pluralista, ou seja, queremos ir além de uma teologia confessional e, como cristãos, nos abrir para escutar e acolher a Palavra divina, vinda de outras tradições religiosas. Mas, este curso de teologias da libertação será também no plural para nos introduzir nas teologias contextuais, teologias negras, descoloniais, nas ecoteologias, nas teologias índias, feministas, gays, queers e outras. 

Como Jesus disse no evangelho: Na casa do meu Pai, há muitas moradas. E ele não falou isso para dizer que quando morrermos, teremos um apartamento nos esperando no céu. Ele quis dizer que, na caminhada que temos de percorrer neste mundo, na caminhada da fé, Deus arma para nós tendas, de barracas, moradas provisórias. Estas moradas do Pai são nossas Igrejas, mesquitas, terreiros, as matas da Jurema sagrada e outras moradas do meu Pai. É um caminho encantador e vocês todos/todas estão convidados/as a fazermos juntos/as esta caminhada. 

Um desafio exigente é que toda a teologia clássica que aprendemos foi pensada a partir das categorias greco-romanas e dentro de paradigmas que eram, e são até hoje, coloniais e legitimadores das desigualdades sociais, dos racismos e da religião ligada ao poder. Mesmo quando nossa intenção é fazer teologias da libertação, estas categorias coloniais estão dentro de nós, se expressam nas nossas liturgias, na nossa linguagem religiosa e na organização hierárquica das nossas Igrejas. Querendo ou não, ainda confundimos estes elementos históricos e culturais com a revelação divina no evangelho de Jesus. Agora, somos chamados por Deus a desconstruir essas estruturas de dominação e colonialidade. 

Há quase 30 anos, em Santo Domingos, o papa João Paulo II pedia perdão aos negros e índios pelos pecados de alguns filhos da Igreja. Na ocasião, um simples monge brasileiro, desconhecido e sem importância lhe escreveu fazendo duas ponderações de irmão menor. A primeira é que os tais filhos da Igreja que pecaram contra os negros e índios não eram apenas pessoas individuais. Representavam oficialmente a Igreja. Eram papas, bispos e padres que falavam em nome da Igreja. Portanto, foi a própria Igreja que pecou. Em segundo lugar, eu ponderava que, se queremos enxugar uma sala que está inundada, a primeira providência não é enxugar o chão. É fechar a torneira de onde a água está saindo. Para mudar a atitude da Igreja em relação às culturas oprimidas, é preciso descolonizar a teologia, a espiritualidade, a liturgia, a catequese e a própria forma de organização clerical das Igrejas. Na época, quase nenhuma revista ou jornal aceitou publicar a minha tentativa de diálogo com o papa. Mais tarde, em 2004, escrevi uma carta pública ao papa e aí as consequências foram mais sérias.

Em 2007, aconteceu o 3º Fórum Mundial de Teologia da Libertação em Nairobi, no Quênia. E foi convidado para falar um teólogo muçulmano. Ele chegou, nos cumprimentou e disse: 

– Eu não vou fazer nenhuma palestra para vocês, teólogos cristãos. Só quero que me digam o que vocês fizeram para que os impérios do mundo aceitem tão bem o Cristianismo de vocês. Qual foi o segredo? O que vocês fizeram com a fé que Jesus de Nazaré propôs para transformar o mundo? 

Silêncio total. Todos nós tínhamos a resposta, mas não adiantava apenas falar. Era preciso testemunhar. 

No seu livro Teologia Negra, nosso irmão Ronilso Pacheco comenta que ouviu de um teólogo negro dos Estados Unidos a seguinte afirmação: “Nos Estados Unidos, o racismo não acaba, enquanto a Igreja branca existir”. E Ronilso dizia: “E no Brasil, como dizer que enquanto existir uma Igreja branca ou embranquecida, o racismo não se acabará?” Ele esclarece que não está falando apenas contra uma Igreja de brancos e sim contra um modelo de Igreja construído a partir do colonialismo branco (Cf. Pacheco, 2019, p. 162- 163). 

Não basta pensar uma ao lado da outra: uma Igreja que romaniza cada vez mais e outra que tenta descolonizar a fé. Nesta quarta-feira, todos os que seguem o lecionário católico ouviram um texto do evangelho no qual Jesus ora ao Pai: “Eu te agradeço, Pai, porque tu escondeste tuas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos”. Uma coisa está ligada a outra. Sem desconstruir o paradigma colonial não se constrói o novo. 

Convido vocês a no final deste curso podermos juntos dar uma resposta adequada ao irmão muçulmano que nos encorajava a expressar nossa fé e nossa teologia de forma revolucionária, certos de que Deus, se é Deus, não pode ser de direita e quem é de Deus não pode apoiar governos genocidas e ecocidas, como infelizmente temos hoje no Brasil e em vários países do mundo que se dizem cristãos.

Faz parte dessa resposta descolonial que os conteúdos deste curso sejam desenvolvidos o mais possível na metodologia e na mística do diálogo intergeracional. Os irmãos jovens estarão aqui não apenas como monitores ou apresentadores para o curso ficar mais bonito.  É porque é da própria natureza das novas teologias da libertação serem geradas no diálogo e a partir das sensibilidades e dos desafios das juventudes atuais.

Na exortação pós-sinodal Querida Amazônia, o papa Francisco revelou ao mundo quatro sonhos: o social, o cultural, o ecológico e o eclesial. Claro que tudo isso está interligado, mas vamos tentar propor mais um sonho a estes quatro: o sonho afetivo. Uma grande ciranda de amor revolucionário que, a partir das relações humanas e do amor apaixonado cresça, e se desenvolva até as dimensões cósmicas do amor. Tudo em um só eixo de erotismo que envolva nossos corpos e nossos espíritos em uma só energia. Uma vez, escutei do presidente Hugo Chávez uma afirmação que me tocou muito. Ele me disse: Marcelo, só se pode fazer revolução com amor. 

Então, irmãos e irmãs, aceitem este apelo para revolucionar nossas formas de amor e começar por nós a revolução amorosa e libertadora que queremos ver incendiar o mundo. Como disse a comunidade joanina em sua carta: Nós somos as pessoas que cremos no Amor.

Capa: Pixabay/Reprodução

Espiritualidade em tempos de pandemia

Claudio de Oliveira Ribeiro*

“Os que confiam no Senhor  renovam as suas forças.

Sobem com asas como águias. 

Correm e não se cansam.

Caminham e não se fatigam” 

(Isaías 40: 31)

“Se não der, tenta ligar
A gente resume a distância
Me conta da tua janela
Me diz que o mundo não vai acabar”.

“Me conta da tua janela”, Canção popular de Anavitória

Para início de conversa…

A pandemia causada pelo coronavírus impactou o mundo todo e trouxe consequências as mais diversas, afetando dramaticamente o âmbito da saúde pública, com um número enorme de mortes. Afetou também a economia, devido às medidas de isolamento social, e à sociedade como um todo, devido aos impactos emocionais no enfrentamento da doença.

As inquietações e receios em torno da pandemia suscitaram reações das mais diversas ao redor do mundo. Entre elas, destacamos o reforço de diferentes formas de espiritualidade, religiosas ou não, para o enfrentamento das questões relativas à morte, à fragilidade física e emocional e ao isolamento social.  

Ao mesmo tempo, muitos temas e argumentos religiosos se destacaram nas conversas e debates, seja pelo clima de obscurantismo estimulado por alguns grupos, seja pela busca de uma compreensão mais ampla e bem fundamentada de um fenômeno que é social. Como entender mais adequadamente esse quadro é uma pergunta que vários grupos têm feito e muitos têm se dedicado a refletir sobre ela.

As causas da pandemia, por exemplo, têm sido analisadas por várias pessoas de diferentes setores do conhecimento. Tais análises não estão dentro do nosso objetivo neste pequeno texto, mas são muito importantes. Indicamos as reflexões científicas do teólogo Leonardo Boff, que nos apresentou uma síntese no artigo “A terra se defende”, publicado pelo Instituto Humanitas da Unisinos (IHU).

O autor afirma que “a pandemia do coronavírus nos revela que o modo como habitamos a Casa Comum é nocivo à sua natureza. A lição que nos transmite soa: é imperioso reformatar a nossa forma de viver sobre ela, enquanto planeta vivo. Ela nos está alertando que assim como estamos nos comportando não podemos continuar. Caso contrário a própria Terra irá se livrar de nós, seres excessivamente agressivos e maléficos ao sistema-vida”.

Em nossas reflexões sobre espiritualidade vamos nos ater às consequências da pandemia, embora reconheçamos que uma visão aprofundada sobre suas causas seja de grande importância para nos sensibilizar na direção de outras formas de espiritualidade,  que reforcem a sustentabilidade da vida e do mundo,  e que nos indiquem a necessária crítica ao sistema econômico atual e à forma excludente como a sociedade está organizada. Todas essas dimensões estão relacionadas à espiritualidade.

O que a pandemia tem nos mostrado

Proponho que tenhamos um outro olhar: entre os vários aspectos negativos desta situação tão difícil e dramática que vivemos, há aqueles que revelam possibilidades para a reorganização da sociedade, tanto em termos das vivências pessoais no cotidiano quanto na estrutura social. O sociólogo português Boaventura de Souza Santos chamou estas possibilidades de “a cruel pedagogia do vírus”, título de seu mais recente livro.  

Entre as conclusões que podem ser tiradas deste processo, destacamos:

  • A pandemia revelou que o sistema econômico no qual a sociedade está estruturada, mesmo com as variações entre os países e continentes, não atende às demandas da dignidade humana e dos direitos básicos das pessoas. Há um pequeno texto deste mesmo autor, denominado “Para o Futuro Começar”, que nos oferece uma boa síntese;
  • A situação no Brasil mostrou que os riscos e os maiores problemas se concentram nos setores mais pobres da sociedade e que a realidade das populações de áreas favelizadas e de moradores de rua é dramática;
  • O número expressivo de mortes causou forte inquietação e insegurança para a maioria das pessoas em relação ao futuro da vida, tanto em termos pessoais quanto planetário;
  • O isolamento social manteve boa parte das pessoas em suas casas. Isso trouxe variadas consequências. Para as famílias que possuem moradias minúsculas, a convivência se tornou tensa, com maior número de violência doméstica e conflitos (uma boa análise deste ponto encontramos no texto “Patroas, empregadas e coronavírus”, da antropóloga Debora Diniz e da cientista política. Giselle Carino).

  • As atividades profissionais desenvolvidas pelas pessoas em casa pela Internet reforçaram a precarização as relações de trabalho, aumentaram o volume de tarefas e subverteram a noção do lar como espaço de aconchego e descanso;
  • Houve uma movimentação social muito significativa, com iniciativas e campanhas de solidariedade, envolvendo amplos setores sociais, profissionais de saúde e grupos de defesa dos direitos humanos e da cidadania. Entre as diversas experiências, uma campanha comunitária no Rio de Janeiro nos chamou muita atenção. Ela está apresentada neste vídeo, que articula a assistência social necessária para as famílias pobres com a firme defesa dos direitos humanos e da cidadania. Um testemunho belíssimo!
  • Uma parcela das pessoas, devido ao isolamento social, se sentiu sensibilizada em relação à valorização das relações humanas, da amizade e de visões mais humanizantes, e à necessidade de se dar maior atenção aos filhos. Há muitas reflexões teológicas e pastorais sobre esses aspectos. O teólogo Faustino Teixeira, no artigo “A dimensão espiritual da crise do coronavírus”, faz uma análise dos impactos globais da pandemia, destacando a crise como oportunidade de se encarar a precariedade e a fragilidade humanas;
  • Sinais de diminuição da poluição nas grandes cidades e a redução do consumo desenfreado. Quem desejar um aprofundamento deste tema, encontrará no artigo “Voltar à normalidade é se auto-condenar”, de Leonardo Boff, uma reflexão muito consistente e desafiadora.

Todos esses aspectos, complexos e desafiadores, mostram caminhos significativos para a vida e para a vivência espiritual.  

Mas, afinal, o que é espiritualidade?

Sabemos que entre uma série de aspectos que marcam a vivência humana está a incessante busca de superação de limites, do ir além das contingências e das ambiguidades históricas, da procura por absolutos que possam redimensionar a relatividade e a precariedade da vida, assim como se busca também o desfrutar das potencialidades, realizações e alegrias da vida nos seus mais diversos planos. Muitos denominam esta dimensão humana como espiritualidade.

Em certa medida, tal visão está relacionada ao olhar crítico das teologias que tem produzido uma saudável distinção entre fé e religião. É fato que tal relação é complexa e possui numerosas implicações, mas, no que diz respeito às nossas reflexões, é preciso afirmar que a primeira, a fé, requer uma espiritualidade que, embora seja autenticamente humana, vem de uma realidade que transcende as engrenagens históricas. Nesta perspectiva, a espiritualidade humana é recebida, acolhida. A espiritualidade, irmã da fé, é vista pela teologia como dom divino. 

Nas reflexões mais recentes, tem sido cada vez mais comum a indicação de que a fé é antropológica e que pode tornar-se religião. As experiências religiosas, historicamente, pretenderam e pretendem possibilitar respostas para essa busca, a qual inicialmente nos referimos. Na diversidade de tais experiências confluem elementos os mais diversos, desde os preponderantemente numinosos, “santos”, espontâneos e indicadores de uma transcendência, até aqueles marcadamente ideológicos, facilmente identificados como reprodução de filosofias ou culturas e artificialmente criadas. 

Há, entre os estudos de religião, uma série de análises sobre as distinções conceituais entre religião, crença, fé, espiritualidades e outras expressões similares. Em função dos limites de nossas reflexões, destacamos apenas a distinção entre as práticas religiosas mais institucionalizadas e a dimensão transcendente mais ampla, de caráter antropológico, que se expressa no humano e que vai além dos aspectos formais da religião. Em ambas a espiritualidade está presente.

Há também a noção de espiritualidade não religiosa. Ela, conforme nos indica o cientista da religião Flávio Senra, se constitui no “âmbito da crença em Deus que se desenvolve à margem das instituições religiosas ou desligadas de seu antigo pertencimento a instituições religiosas, consideradas as pessoas que se afirmam sem religião ou não afiliadas, mas mantêm a crença em Deus (perspectiva teísta)”.

E como tem se dado a relação entre espiritualidade e a pandemia?

Tanto as formas mais espontâneas de espiritualidade quanto as expressões religiosas mais tradicionais ou institucionalizadas estão presentes no debate acerca da pandemia e do isolamento social. Ambas têm marcado a vida de muita gente e tem estado presente, de diferentes maneiras, em cada situação enfrentada. 

As formas de expressão dessas espiritualidades, como sabemos, são muito diferenciadas. Há visões religiosas que negam a dramaticidade da pandemia, ou mesmo, seguindo argumentos ideológicos obscurantistas em voga, atribuem a disseminação da doença à ira e ao castigo de Deus aos seres humanos pecadores e, até mesmo, à supostos interesses comunistas para afrontar a fé cristã. 

Há abordagens e formas de espiritualidade de caráter mais intimista, que destacam a importância da vida devocional, das orações e da meditação como caminho de equilíbrio interior, considerando que os tempos atuais são de incertezas e inseguranças.

E há aquelas que buscam interpretações de fé mais consistentes, conectadas com os aspectos sociopolíticos evidenciados nesta crise social revelada pela pandemia e ancoradas nos princípios da solidariedade, da comunhão e da responsabilidade com os destinos da vida e do mundo. 

Desafios não nos faltam!

***

Claudio de Oliveira Ribeiro é Pastor metodista e Doutor em Teologia (PUC-Rio)

Coronavírus: dias difíceis, medidas extremas

Em resposta à pandemia do novo coronavírus, Sars-CoV-2 , na noite de quinta-feira, 12 de março último, a Igreja Batista de Água Branca decidiu suspender todas as suas atividades presenciais, inclusive e principalmente as celebrações dominicais, que serão realizadas em modo online, por tempo indeterminado.

A fé não imuniza. Jesus ensinou que as chuvas e tempestades e ventos furiosos assolam as casas de todos, bons e maus, tanto dos que têm a casa edificada sobre a rocha quanto dos que a edificaram sobre a areia (Mateus 7.24-27). A fé é o recurso para enfrentar a fatalidade, não licença para agir com desinteligência, imprudência, ingenuidade ignorante, ou teimosia. Enxergando nuvens no horizonte e sabendo das condições desfavoráveis à navegação, Paulo, apóstolo, adverte seus companheiros de viagem dizendo:“vejo que a nossa viagem será desastrosa e acarretará grande prejuízo para o navio, para a carga e também para as nossas vidas” (Atos 27.7-10). Aprendi que devemos dar passos de fé, mas por vezes a fé recomenda um passo de bom senso. Quando os ventos são contrários, fique no porto, não se arrisque sob pretexto de fé. Isso não é fé, é arrogância, é colocar Deus à prova (Mateus 4.7; Deuteronômio 6.16).

Toda cura é cura divina, inclusive aquela promovida pela medicina, disse John Stott, teólogo anglicano britânico. A cisão entre fé e ciência reflete mais ignorância que piedade. Atender às recomendações das autoridades governamentais, notadamente aquelas orientadas pelos profissionais da saúde, os especialistas e infectologistas, é uma expressão de sensatez e também uma forma de honrar a Deus, pois como bem disse Louis Pasteur, “um pouco de ciência nos afasta de Deus. Muito, nos aproxima”.

A igreja é uma comunidade solidária. Não vive à parte do mundo e da sociedade, e por isso mesmo compartilha tanto as bem-aventuranças quanto as desventuras de seu povo e seu tempo. Ao despedir-se de seus discípulos, Jesus orou pedindo “não rogo que os tires do mundo, mas que os protejas do Maligno” (João 17.15). A esperança e as convicções espirituais não isentam das responsabilidades e dinâmicas da vida no mundo, e por isso mesmo o apóstolo Paulo nos recomenda: “exerçam a sua cidadania de maneira digna do evangelho de Cristo” (Filipenses 1.27).

A igreja tem uma inescapável função social. A igreja, em suas palavras e ações, seu kerigma e sua práxis, profetiza, ensina e serve. Walter Brueggemann, teólogo e catedrático do Antigo Testamento, disse que profetizar não é predizer o futuro, é falar a verdade a respeito do tempo presente. A verdade de hoje é que enfrentamos uma pandemia e não podemos ser displicentes nos cuidados necessários à sua superação. A medida extrema de cancelar as celebrações dominicais presenciais é também um ato pedagógico, um alerta àqueles ainda negligentes face à gravidade da situação. Acima de tudo, evitando os grandes ajuntamentos a igreja atua de maneira responsável e cuidadosa não apenas para com seus frequentadores, como também para com toda a sociedade.

Dias difíceis, medidas extremas. Diante dos imensos e múltiplos desafios impostos pelo advento do novo coronavírus vale a máxima dos Beneditinos: ora et labora. Joelhos ao chão e mãos estendidas na direção de quem sofre. Confiança em Deus e ação diligente, inteligente, amorosa e solidária para zelar pela saúde e bem-estar do mundo.

Fonte/imagem: br.freepik.com