Reportagem desinforma sobre envolvimento de líder da Igreja Presbiteriana do Brasil em inquérito da Polícia Federal

Bereia recebeu de leitores pedido de checagem da reportagem intitulada “PF apura atuação de diretor do Mackenzie em eleição em MG”, publicada pelo SBT News, em 22 de julho de 2026, no site e no telejornal, com repercussão nas redes sociais da emissora.

Fonte: SBT News

De acordo com a reportagem, a Polícia Federal (PF) apura suspeitas de crimes eleitorais cometidos no município de Patrocínio, em Minas Gerais, nas eleições de 2024. O atual prefeito da cidade, Gustavo Brasileiro (Democracia Cristã/DC) teria conquistado o cargo, nas eleições de 2024, por meio da produção de conteúdo falso contra adversários e de negociações envolvendo pagamentos e promessas de cargos públicos em troca de apoio. 

A matéria do SBT News aponta que o membro da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) Eduardo Abrunhosa teria se tornado atual diretor administrativo da Universidade Mackenzie (pertencente à IPB), após atuar como consultor da campanha de Gustavo Brasileiro.

A publicação aponta o envolvimento do pai do prefeito, o pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) Roberto Brasileiro, como central para a promoção de Abrunhosa à liderança da universidade presbiteriana. Ele é apresentado pelo SBT News como “presidente da Igreja Presbiteriana”. A reportagem mostra que outros dois ex-aliados da campanha do prefeito de Patrocínio, os motoristas Edvanei Cortes e Igor José Lopes, registraram em cartório conversas de WhatsApp com Abrunhosa e com o chefe de gabinete de Gustavo Brasileiro, e entregaram o material a opositores políticos, que levaram a denúncia à PF.

Fonte: SBT News

O inquérito teria sido aberto após denúncia protocolada em fevereiro deste ano, três meses antes da realização da reunião do Supremo Concílio da IPB, marcada para 26 de julho a 2 de agosto, em Manaus. A reportagem do SBT relaciona a investigação da PF à cúpula de uma das maiores denominações protestantes do país, às vésperas da sucessão de sua liderança nacional, e evidencia como redes de influência religiosa na política se cruzam com estruturas político-administrativas e educacionais, como o Mackenzie.

O que está sendo investigado

O evangélico presbiteriano Gustavo Brasileiro governa o município mineiro de Patrocínio, após vencer a eleição de 2024 com auxílio da consultoria de Eduardo Abrunhosa. Em entrevista ao programa Rádio Comunidade, da Difusora 95,3 FM, em 23 de julho passado, o prefeito rebateu a reportagem do SBT News adotando explicitamente a posição de membro da IPB, e não apenas de gestor público. O político reforçou, na entrevista, o entrelaçamento entre sua atuação política e o pertencimento à igreja, cujo Supremo Concílio era, de fato presidido pelo pai.

Segundo Gustavo Brasileiro, o inquérito trata apenas de uma representação por propaganda enganosa envolvendo um vídeo de campanha, sem relação com a Prefeitura, com o Instituto Mackenzie ou com recursos filantrópicos. Ele afirmou que buscará retratação judicial contra a emissora e o repórter responsável. 

Na entrevista à rádio Difusora,  o prefeito mineiro também apresentou dados de sua gestão em segurança, saúde e infraestrutura. O político afirmou, ainda,  que o processo de 57 páginas, sobre a investigação da PF, estaria disponível para análise. 

O Bereia não conseguiu acesso aos arquivos do inquérito, uma vez que a investigação segue em andamento, por isso não está disponível no site do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais. 

Fonte: Rádio Difusora

O diretor do Mackenzie é alvo da investigação?

De acordo com a reportagem do SBT News, a relação do prefeito Gustavo Brasileiro e do seu pai Roberto Brasileiro com Eduardo Abrunhosa, teria sido um dos motivadores para a promoção dele ao atual cargo de diretor administrativo da Universidade Mackenzie. A reportagem aponta ainda que o próprio Instituto Presbiteriano Mackenzie (instituição mantenedora da universidade), afirmou em nota que não é alvo da investigação e não tem relação institucional com consultorias particulares prestadas por colaboradores, remuneradas ou não.

O Bereia não encontrou a nota publicada pela organização nas redes oficiais. O diretor-presidente do Instituto Presbiteriano Mackenzie Cid Pereira Caldas, que atua como pastor titular na Igreja Presbiteriana de Botafogo (RJ), citado pelo SBT News como uma das lideranças da IPB que ganharam cada vez mais destaque nos últimos anos, foi ouvido pelo Bereia. O pastor informou que apenas recebeu um e-mail do SBT News solicitando um posicionamento, sendo que a maior parte não teria sido usada ao longo da reportagem publicada. 

“A Universidade Presbiteriana Mackenzie não tem nenhuma relação com esse tema de eleição, patrocínio, ou qualquer outro tipo de envolvimento. Essa é uma postura histórica da Mackenzie e do Conselho de Curadores, de não envolvimento. Então o que acontece, nesse caso específico, é que a nossa declaração diz respeito ao fato seguinte: nós não policiamos os nossos colaboradores no que eles fazem fora do seu ambiente de trabalho. A Mackenzie é uma colcha de retalhos, lidando com seus alunos, com seus professores, com seus colaboradores e com seus dirigentes. Ela lida com isso tudo, e nós não fazemos um policiamento ideológico das pessoas”, afirmou ao Bereia o pastor Cid Caldas.

O diretor-presidente do Instituto Presbiteriano Mackenzie também explicou que “se um determinado colaborador contribui, colabora, faz parte de uma campanha eleitoral de quem quer que seja, isso não diz respeito à Mackenzie, na medida em que não envolva a instituição ou, mais do que isso, que não coloque a Mackenzie como parte”.

Caldas enfatizou na entrevista ao Bereia que  que a Universidade  Mackenzie “não teve nenhum envolvimento com essa eleição, e também não cobra dos seus colaboradores que se envolvam ou que deixem de se envolver.”

De acordo com o estatuto da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a decisão de nomeação aos cargos da instituição varia conforme o nível hierárquico, mas o poder final de escolha e validação está concentrado no Instituto Presbiteriano Mackenzie, entidade mantenedora pertencente à Igreja Presbiteriana do Brasil. Caldas reafirmou essa organização durante a entrevista ao Bereia,  apontando que esse formato de decisão dos cargos dentro da igreja é algo relacionado à estrutura histórica da organização.

“A Mackenzie foi criada por missionários presbiterianos norte-americanos que vieram ao Brasil se estabelecer, e ao longo das décadas ela sempre esteve ligada à Igreja. Aconteceu que, por volta de 1960, houve uma ação para que a Mackenzie deixasse de ser confessional e fosse desapropriada, se tornando uma instituição pública, contudo foi reconhecido pela Justiça que a Mackenzie pertence à Igreja Presbiteriana do Brasil. Então a Igreja Presbiteriana do Brasil é o que a gente chama de ‘associado’, é ela a dona da Mackenzie”, afirma o pastor Cid Caldas.

O diretor-presidente da mantenedora da Universidade Mackenzie também explica que a Igreja Presbiteriana não tem uma ação direta dentro da  instituição de ensino, que tem um Conselho Deliberativo. E esse conselho é formado, na sua totalidade, por pastores, presbíteros e membros da Igreja Presbiteriana do Brasil que têm qualificação para isso.

A equipe de reportagem do SBT News teria entrado em contato com Abrunhosa que nega irregularidades e sustenta que sua atuação na campanha foi voluntária e paralela às suas funções na universidade. Sua promoção ao cargo de diretor de Administração, dois meses após a vitória de Gustavo Brasileiro à Prefeitura de Patrocínio, é apontada pela reportagem do SBT News como um dado relevante para contextualizar a proximidade com a cúpula administrativa do Mackenzie, contudo, até o momento, essa relação não configura acusação formal contra a universidade. 

O pastor Cid Caldas aponta ainda que as atividades realizadas pelos membros da universidade, tratados como colaboradores em âmbito exterior ao da universidade, não são regulamentadas pela liderança universitária.

A Igreja Presbiteriana do Brasil e seu presidente

Um dos pontos da reportagem do SBT News é que Roberto Brasileiro seria “presidente da Igreja Presbiteriana do Brasil”, cargo que, institucionalmente, não existe. Bereia checou nos registros oficiais da Igreja Presbiteriana e constatou que, de acordo com a instituição, não há presidente na hierarquia eclesiástica. Roberto Brasileiro é, de fato, presidente do Supremo Concílio, o órgão máximo de deliberação da denominação. Ele foi eleito por voto direto para mandatos de quatro anos desde 2002 (reeleito em 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022), somando 24 anos à frente do Concílio. 

Em 2026, pela primeira vez em 24 anos, o pastor Roberto Brasileiro decidiu não concorrer à reeleição. A sucessão foi decidida em 27 de julho, em segundo turno, no segundo dia do Supremo Concílio reunido em Manaus. Foi eleito para o cargo de presidente o pastor Juarez Marcondes Filho, até então secretário executivo do órgão.

De acordo com registros oficiais, a IPB se organiza como federação de igrejas locais, regida por concílios, e é representada oficialmente pelo presidente do Supremo Concílio nos âmbitos interno, civil e judicial.  A Igreja Presbiteriana do Brasil “exerce seu governo por meio de concílios e indivíduos, regularmente instalados e o Supremo Concílio é a sua Assembleia Geral. A Igreja é representada ativa, passiva, judicial e extrajudicialmente pelo presidente do Supremo Concílio, ao qual também compete: Presidir às reuniões do Supremo Concílio e da Comissão Executiva; representar a Igreja internamente bem como em suas relações intereclesiásticas, civis e sociais.”

Presbiterianos e política: uma presença antiga, não recente

A cobertura do caso pela reportagem do SBT News trata a proximidade entre lideranças presbiterianas e o poder público como novidade, mas o histórico é longo. Como já abordado pelo Bereia em reportagens anteriores, durante a ditadura militar (1964-1985), setores da cúpula da IPB alinharam-se ao regime, promovendo o afastamento de pastores ligados a posições progressistas e ecumênicas, o que resultou, inclusive, na criação da Igreja Presbiteriana Unida por dissidentes discordantes desse alinhamento. Evangélicos presbiterianos também ocuparam cargos públicos importantes durante o Estado de exceção: Eraldo Gueiros Leite foi ministro do Supremo Tribunal Militar, e integrava a família Gueiros, nome destacado de presbiterianos, com outros membros em posições no Poder Judiciário na época.

Essa presença se renovou décadas depois. O Bereia já publicou matérias que informaram sobre presbiterianos que assumiram pastas técnicas e “ideológicas” durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL, 2019-2022). Entre eles, o ministro da Educação pastor Milton Ribeiro; o ex-reitor do Mackenzie, que presidiu a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes, MEC) Benedito Guimarães Aguiar Neto; e o pastor André Mendonça, que foi ministro da Advocacia Geral da União e da Justiça, hoje ministro do Supremo Tribunal Federal (STF),  indicado por Jair Bolsonaro. 

Esse dado desafia a leitura simplificada que associa apenas a lideranças pentecostais à direita política e ao chamado bolsonarismo. Parte relevante da adesão institucional ao governo de Jair Bolsonaro é de evangélicos históricos, como os presbiterianos e os batistas.

Informação também importante é que a IPB não é politicamente monolítica. Bereia também checou informações, em 2022, quando houve tentativa de aprovar, na reunião do Supremo Concílio, um relatório visto por críticos como um movimento de expurgo de membros identificados com a esquerda. A proposta foi derrubada por um substitutivo aprovado, ainda que por margem apertada,  indicando a divisão interna.

O pano de fundo: o Supremo Concílio em Manaus

Na reportagem do SBT News a investigação sobre a campanha de Gustavo Brasileiro ganha peso adicional pelo momento: ela avançou justamente no período em que a IPB elegeu, em Manaus, em 27 de julho, a nova composição do Supremo Concílio, a primeira sucessão em 24 anos, já que Roberto Brasileiro optou por não concorrer à reeleição.

A divulgação da reportagem do SBT se insere em um cenário de disputa interna, pouco tempo após a publicação de reportagens, em várias mídias, que vinculam o Supremo Concílio a debates ultraconservadores sobre a liderança feminina na igreja, como o Bereia publicou. Observar esse cenário ajuda a explicar por que o caso extrapola os limites de uma eleição municipal e repercute nacionalmente: entra em jogo não apenas a legalidade de uma campanha eleitoral em Minas Gerais, mas o mapa de influências dentro de uma das denominações protestantes mais antigas e institucionalmente organizadas do Brasil.

Bereia ouviu o membro leigo da IPB em Formosa (Goiás) Jared Victor Lopes, que acompanha de perto os debates relacionados à igreja nas redes digitais. Na entrevista realizada antes das eleições do Supremo Concílio, Lopes aponta a percepção e a apreensão da comunidade presbiteriana nos últimos meses diante das diferentes repercussões e temáticas vinculadas à IPB.

“Isso atinge diretamente o atual presidente do Supremo Concílio [Roberto Brasileiro], mas é um presidente que hoje deixa o quadro da liderança, então definitivamente não é algo que vai prejudicá-lo nesse sentido. É claro que isso pode respingar em possíveis pessoas que ele apoia para ser um sucessor e seguramente pode comprometer algum estabelecimento posterior dentro da igreja ou dentro das instituições da igreja”, afirma o presbiteriano. 

Lopes considera que “de qualquer maneira é algo assim que a gente ainda não sabe até que ponto vai prejudicar ou vai ecoar com grande influência dentro da denominação, particularmente dentro de uma eleição no Supremo Concílio”. 

Além da reportagem do SBT, recentemente, debates sobre o papel das mulheres na igreja tomaram grandes proporções e foram alvo de notícias enganosas nas redes digitais. Lopes aponta que esse é um tema delicado de debate dentro da própria cúpula.

“Neste ano estamos observando todas essas movimentações e vamos ter um novo ciclo de debate sobre algumas questões, principalmente em relação à atuação das mulheres dentro da igreja. Já estamos há um pouco mais de uma década discutindo constantemente o papel das mulheres na igreja, há uma tendência a restringir o papel das mulheres enquanto você tem setores da igreja dispostos e interessados em aberturas para alguns ministérios. Neste ano existem alguns documentos enviados para o concílio com a tentativa de derrubar algumas resoluções e estamos com uma expectativa de que pelo menos que a discussão aconteça”, pontua Jared Victor Lopes.

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Bereia classifica a reportagem do SBT como enganosa, pois induz o leitor a relacionar a Igreja Presbiteriana do Brasil e a Universidade Mackenzie como partes investigadas em inquérito da Polícia Federal.  Como apurado pelo Bereia, a ação policial ainda em curso não aponta qualquer das instituições como investigadas, e, sim, o prefeito de Patrocínio Gustavo Brasileiro (MG) e seu consultor de campanha eleitoral Eduardo Abrunhosa, suspeitos de produção de falsidades contra concorrentes. A matéria jornalística é que levanta suspeitas de que Abrunhosa tenha recebido cargo na instituição de ensino por conta dessa relação.

Além  disso, a matéria do SBT News desinforma ao desconsiderar o contexto histórico no qual se insere a relação entre a Igreja Presbiteriana do Brasil, a Universidade Presbiteriana Mackenzie e seus membros com a política. O conteúdo leva a audiência a compreender as ações políticas presentes na trajetória da igreja como algo novo.

Bereia chama a atenção de leitores e leitoras para publicações nas mídias digitais e nas grandes mídias de notícias sobre religião. Na onda do protagonismo que, especialmente evangélicos, têm assumido no cenário público, temas relacionados ao grupo se tornam pautas com abordagem frágil, do ponto de vista da informação, mas fortes promotoras de audiência. 

Referências

SBT News – Coluna do Cézar. PF apura atuação de diretor do Mackenzie em eleição em MG. https://sbtnews.sbt.com.br/colunas/coluna-do-cezar/pf-apura-atuacao-de-diretor-do-mackenzie-em-eleicao-em-mg Acesso em: 24 jul. 2026.

Difusora 95,3 FM – Rádio Comunidade. Gustavo Brasileiro rebate denúncias, defende a Igreja Presbiteriana e cita avanços em Patrocínio. https://difusora95.com.br/noticias/gustavo-brasileiro-rebate-denuncias-defende-a-igreja-presbiteriana-e-cita-avancos-em-patrocinio/ Acesso em: 24 jul. 2026.

Folha de S.Paulo. Igreja Presbiteriana do Brasil elege novo presidente em meio a tensões políticas e doutrinárias. https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/07/igreja-presbiteriana-do-brasil-elege-novo-presidente-em-meio-a-tensoes-politicas-e-doutrinarias.shtml Acesso em: 27 jul. 2026.

IPB – Igreja Presbiteriana do Brasil. Organização. https://www.ipb.org.br/organizacao Acesso em: 24 jul. 2026.

Religião e Poder. Evangélicos no Brasil – dos missionários à ditadura militar. https://religiaoepoder.org.br/artigo/evangelicos-no-brasil-dos-missionarios-a-ditadura-militar Acesso em: 24 jul. 2026.

Instituto Presbiteriano Mackenzie. Diretoria de Administração. https://www.mackenzie.br/instituto/diretorias/diretoria-de-administracao Acesso em: 24 jul. 2026.

Universidade Presbiteriana Mackenzie. Estatuto da Universidade Presbiteriana Mackenzie. https://www.mackenzie.br/fileadmin/user_upload/1Atual_-_ESTATUTO_DA_UPM.pdf Acesso em: 24 jul. 2026.

Associação cristã desinforma com discurso alarmista sobre Conferência Nacional de Educação

A Associação Internacional de Escolas Cristãs (ACSI) publicou, em sua página oficial no Instagram, um vídeo em que o diretor-executivo da instituição no Brasil Mauro Meister alerta profissionais de educação, pais e pastores sobre a convocação, em caráter extraordinário, para a Conferência Nacional de Educação (Conae). Na chamada, ele coloca suspeita no curto prazo para a realização das conferências estaduais e municipais que devem anteceder a Conae. 

No vídeo, Meister afirma que, nas comunicações para convocação, “certamente foram deixadas de fora as escolas particulares, escolas confessionais e assim por diante”. Além disso, o diretor classifica o processo de convocação como “açodado” e alega que as “resoluções do documento-base desta conferência são altamente prejudiciais à educação”. Bereia checou o discurso. 

Imagem: reprodução do Instagram

O que é a Conferência Nacional de Educação (Conae)

A Lei nº 13.0005/14, que aprovou o Plano Nacional de Educação (PNE), previu a realização de duas Conferências Nacionais de Educação (Conae) durante o decênio 2014-2024. Em seu artigo 6º, o dispositivo prevê que tais conferências sejam precedidas de versões distritais, municipais e estaduais, sendo articuladas e coordenadas pelo Fórum Nacional de Educação.

Segundo a referida lei, as Conferências Nacionais de Educação, a serem realizadas a cada quatro anos, têm o objetivo de avaliar a execução do PNE estabelecido e subsidiar a elaboração do plano para o decênio subsequente.

Em setembro de 2023, o Decreto 11.697/23, assinado pelo vice-presidente da República Geraldo Alckmin e pelo ministro da Educação Camilo Santana, convocou a Conae 2024, que estabelecerá os parâmetros do decênio 2024-2034.

A Conae 2024

O Decreto que convoca a conferência de 2024 define o local da realização como Brasília e o tema da edição como ‘Plano Nacional de Educação – PNE, decênio 2024-2034 – política de Estado para a garantia da educação como direito humano, com justiça social e desenvolvimento socioambiental sustentável’, que será abordado em sete eixos temáticos. 

São eles, Eixo 1 – O PNE como articulador do Sistema Nacional de Educação, sua vinculação aos planos decenais estaduais, distrital e municipais de educação, em prol das ações integradas e intersetoriais, em regime de colaboração interfederativa; Eixo 2 – A garantia do direito de todas as pessoas à educação de qualidade, com acesso, permanência e conclusão, em todos os níveis, etapas e modalidades, nos diferentes contextos e territórios;

Eixo 3 – Educação, Direitos Humanos, Inclusão e Diversidade – equidade e justiça social na garantia do direito à educação para todas as pessoas e o combate às diferentes e novas formas de desigualdade, de discriminação e de violência; Eixo 4 – Gestão democrática e educação de qualidade – regulamentação, monitoramento, avaliação, órgãos e mecanismos de controle e participação social nos processos e espaços de decisão;

Eixo 5 – Valorização de profissionais da educação – garantia do direito à formação inicial e continuada de qualidade, ao piso salarial e carreira e às condições para o exercício da profissão de forma segura e saudável; Eixo 6 – Financiamento público da educação pública, com controle social e garantia das condições adequadas para a qualidade social da educação, com vistas à democratização do acesso e da permanência;

E por fim, Eixo 7 – Educação comprometida com a justiça social, a proteção da biodiversidade, o desenvolvimento socioambiental sustentável para a garantia de uma vida com qualidade e o enfrentamento das desigualdades e da pobreza.

Segundo o documento, a finalidade da conferência é desenvolver a educação nacional, com gestão democrática, inclusão, equidade, diversidade e qualidade social. Entre os objetivos do encontro também estão a viabilização da participação representativa dos segmentos educacionais e setores da sociedade civil na elaboração do PNE, decênio 2024-2034.

Em seu artigo terceiro, o Decreto 11.697/23 enumera, como objetivos específicos, avaliar a execução do PNE vigente, assistir à elaboração do PNE, decênio 2024-2034, contribuir com a identificação dos problemas e das necessidades educacionais e produzir referências para orientar a formulação e a implementação dos planos de educação estaduais, distrital e municipais, articulados ao PNE, decênio 2024-2034.

Após a publicação do Decreto para convocação, em setembro, o Ministério da Educação (MEC) disponibilizou, em outubro, o Regimento Geral Conae 2024 e o documento Orientações para a Organização das Etapas Preparatórias da Conae 2024 , que orienta os estados, o Distrito Federal e os municípios quanto à organização de suas conferências, preparatórias para a etapa nacional.

O que é a Associação Internacional de Escolas Cristãs (ACSI) e quem ela representa

A Associação Internacional de Escolas Cristãs (ACSI) define-se como uma organização internacional sem fins lucrativos que conta com mais de 25 mil escolas cristãs associadas. Fundada em 1978, tem sede em Colorado Springs, nos Estados Unidos da América, e está presente em mais de 115 países, com 16 escritórios regionais ao redor do mundo. As informações são do site da ACSI no Brasil.

O site afirma que busca promover uma educação escolar cristã que seja “biblicamente sólida, academicamente rigorosa, socialmente engajada e culturalmente relevante” e menciona, também, o papel de “educadores que incorporam uma cosmovisão bíblica”. A página internacional da ACSI, no entanto, à qual a ACSI Brasil responde, explicita sua “missão” com mais detalhes: fortalecer escolas e educadores cristãos e preparar alunos para que se tornem seguidores devotos de Jesus Cristo. A página destaca, ainda, os pilares da instituição: avançar e ampliar o acesso da educação centrada na figura de Jesus Cristo e desenvolver “relacionamentos estratégicos” na esfera pública.

No que concerne à atuação da ACSI na esfera pública, a organização realiza, periodicamente, cúpulas para promover políticas públicas e a defesa dos direitos cristãos. Diversos nomes religiosos já passaram nas cúpulas da ACSI, entre eles, o senador conservador estadunidense Ted Cruz, notório defensor da indústria armamentista norte-americana.

No Brasil a ASCI tem 85 colégios confessionais evangélicos associados, segundo os registros do site: 15 no Nordeste, quatro no Norte, seis no Centro-Oeste, 45 no Sudeste e 15 no Sul. 

O diretor-executivo da ACSI no Brasil Mauro Meister, que aparece no vídeo-alerta publicado pela associação em perfil no Instagram, é pastor da Igreja Presbiteriana Barra Funda, em São Paulo, e professor no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, onde leciona sobre Antigo Testamento, Teologia Bíblica e Pregação.

Esta organização, de identidade estadunidense, se estabeleceu oficialmente no Brasil em 2003. No entanto, existem outras associações brasileiras de instituições confessionais de ensino que dialogam e têm assento em fóruns do Ministério da Educação e outros espaços de discussão das políticas de educação no país.

Criada em 2001, a Associação Brasileira de Instituições Educacionais Evangélicas (Abiee) congrega instituições que tenham por objetivos a promoção da educação, da pesquisa, do ensino, da cultura e de conhecimentos que contribuam para a melhoria das condições sociais do país. A Abiee conta, segundo os registros de seu website, um universo de 911 instituições, entre colégios, faculdades e universidades, 30 mil professores e funcionários e 630 mil estudantes, no Distrito Federal e em todos os estados brasileiros. Além disso, conta com dez redes de associadas das principais denominações evangélicas históricas. 

Já a Associação Nacional de Educação Católica do Brasil (Anec), criada em 2007, promove a educação cristã que visa à formação integral da pessoa humana, sujeito e agente de construção de uma sociedade justa, fraterna, solidária e pacífica, segundo o Evangelho e a Doutrina da Igreja Católica. São associadas da Anec, segundo os registros do seu website, 901 escolas e 117 instituições de nível superior, também 13 hospitais, 172 obras sociais, 356 mantenedoras, 1.230 mantidas, com 110 mil profissionais e 1.500 milhão de estudantes, em 900 municípios brasileiros.

Inconsistências no discurso da ACSI

Meister afirma que o processo em curso – realização das etapas que antecedem a Conae 2024 – vem sendo feito de maneira açodada, “como uma avalanche, por debaixo dos panos”, sem mencionar os documentos e processos estabelecidos a partir da legislação.

Ao criticar propostas de fiscalização e normatização do ensino privado brasileiro, o diretor-executivo da ACSI no Brasil, o pastor alega que o documento-referência da Conae 2024 é uma ameaça à liberdade educacional, sem apresentar dados ou citar elementos concretos que justifiquem a acusação. “Na verdade, o que está acontecendo, é uma algema, é uma prisão para as instituições educacionais, para que cumpram uma determinada agenda e uma outra ideologia que não é para orientar os nossos filhos”, alega o Meister.

Bereia verificou que o Ministério da Educação (MEC) apresentou, em 18 de outubro passado, o documento-referência que orienta as etapas estaduais e municipais da Conferência, realizadas entre outubro e dezembro de 2023. O documento, que apresenta um conjunto de eixos temáticos a serem discutidos pelos diversos atores que compõem as diversas etapas da Conferência, destaca a participação de, ao menos, três instituições cristãs ou ligadas ao ensino privado na elaboração do documento.

Estão mencionadas no documento-referência a Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup), representada por Elizabeth Regina Nunes Guedes, a Associação Nacional de Educação Católica do Brasil (Anec), representada por Roberta Valéria Guedes, e a Associação Brasileira de Instituições Educacionais Evangélicas (Abiee), é representada por Mac Amaral Cartaxo.

Bereia procurou a ACSI no Brasil, por meio de seus canais institucionais para ouvi-la sobre o caso e buscar mais elementos concretos para a checagem. Até o fechamento desta matéria, a associação não retornou o contato. Caso ocorra, esta apuração será atualizada. 

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Bereia avalia o discurso do diretor-executivo da Associação Internacional de Escolas Cristãs (ACSI) Mauro Meister divulgado em mídia social como enganoso. A fala de Mauro Meister é composta por alguma substância verdadeira (a realização da Conae 2024) mas contém, também, elementos dispostos estrategicamente para confundir e causar pânico moral.

Como elementos do discurso enganoso estão a ausência de contextualização e a omissão de detalhes. As acusações feitas pelo diretor-executivo acerca de supostos açodamento do processo e cerceamento imposto são vagas, sem qualquer menção concreta que possa ser verificada. Portanto, os apontamentos feitos por Meister não deixam claro que, de fato, ocorre o que o diretor alega.  

A estratégia de pânico moral, presente na fala de Meister, se apresenta na defesa de uma pauta política erguida por políticos ultraconservadores, que envolvem a educação infantil. Como este nível educacional, consequentemente se liga à formação familiar, exigem que a educação seja pautada por valores cristãos, sem considerar a diversidade cultural, sexual, de gênero e a liberdade de credo da sociedade brasileira. Trata-se de mais um elemento de discurso enganoso quando não sustentado por fatos, mas por alegações fortalecidas por ideologias apoiadas em valores cristão-conservadores.

Referências de checagem:

Lei 13.005/14. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2014/Lei/L13005.htm#art12 Acesso em: 6 dez 2023

Decreto 11.697/23. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2023/decreto/D11697.htm#:~:text=DECRETO%20N%C2%BA%2011.697%2C%20DE%2011,cidade%20de%20Bras%C3%ADlia%2C%20Distrito%20Federal. Acesso em: 6 dez 2023

Ministério da Educação.

https://www.gov.br/mec/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/conferencias/conae-2024 Acesso em: 7 dez 2023

https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/noticias/2023/setembro/convocada-conferencia-nacional-de-educacao Acesso em: 7 dez 2023

https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/noticias/2023/outubro/publicado-documento-referencia-da-conae-2024 Acesso em: 7 dez 2023

http://portal.mec.gov.br/component/tags/tag/conferencia-nacional-de-educacao Acesso em: 7 dez 2023

https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/noticias/2023/outubro/regimento-geral-define-regras-para-a-conae-2024

Acesso em: 7 dez 2023

https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/noticias/2023/outubro/documento-orienta-estados-e-municipios-para-conferencias

Acesso em: 7 dez 2023

Fórum Nacional de Educação. https://fne.mec.gov.br/noticias-fne/200-conferencia-nacional-de-educacao-2024 Acesso em: 6 dez 2023

Associação Internacional de Escolas Cristãs. https://www.acsi.com.br/ Acesso em: 7 dez 2023

Mackenzie. https://cpaj.mackenzie.br/quem-somos/professores/mauro-fernando-meister Acesso em: 7 dez 2023

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Foto de capa: Pixabay

A sabatina de André Mendonça pelo Senado – Parte 2: evangélicos no STF

Bereia prossegue com a parte 2 da checagem da sabatina de André Mendonça, agora sobre o “salto” da chegada de um evangélico ao STF (veja aqui a parte 1).

O Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Luiz de Almeida Mendonça é um advogado e pastor presbiteriano. Durante a sabatina perante a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, Mendonça reiterou sua postura garantista, bem como declarou compromisso com o Estado laico e o respeito aos direitos de minorias. Foi aprovado na comissão com 18 votos favoráveis e 9 contrários e no plenário com 47 votos favoráveis e 32 contrários.  

Em sua primeira entrevista após a aprovação de seu nome para a condição de ministro, parafraseando a chegada do homem à Lua, na década de 60, quando o astronauta norte-americano Neil Armstrong classificou o feito como “um pequeno passo para o homem, mas um grande salto para a humanidade”, Mendonça declarou: “É um passo para um homem, mas na história dos evangélicos do Brasil é um salto. Um passo para um homem e um salto para os evangélicos”

Não foi salto

Em Brasília, os evangélicos sabem que Mendonça não foi o primeiro evangélico a ocupar um cargo elevado na elite do judiciário. Este “salto” foi noticiado pelo Jornal Batista, em 21 de fevereiro de 1957.  Na capa do periódico religioso há um destaque para o diácono Antônio Martins Villas Boas, a quem o Jornal Batista felicitou por ter sido escolhido por unanimidade (33 votos, na época), destaca que é um crente fiel. Há uma grande comunidade batista em Brasília que é testemunho de sua dedicação. Fundada em 1967 pelo então ministro do STF Antonio Martins Villas Boas, a Igreja Batista Central de Brasília reúne, semanalmente, 4,5 mil fiéis nos cultos. A atuação do ministro foi discreta, mas operosa na fundação de congregações e na assessoria de instituições evangélicas por toda a região. O ministro Antônio Villas Boas exerceu a presidência da Corte de 9 de março de 1965 até 15 de novembro de 1966. Possivelmente o silêncio sobre sua figura remonta aos anos de chumbo.

Imagem: reprodução d’O Jornal Batista

O verbete sobre o ministro Villas Boas, no CPDOC (da FGV), acentua sua atividade incômoda ao regime de arbítrio: “Como ministro do STF, Vilas Boas votou favoravelmente à transferência desse órgão para Brasília, o que de fato se consumou a partir de abril de 1960. Participou de diversos julgamentos de importância política, como ocorreu em 18 de setembro de 1957, quando votou a favor das representações dos diretórios regionais do Partido Socialista Brasileiro (PSB) e do Partido Republicano (PR), bem como da deputada Almerinda Magalhães Arantes, contra o Ato Constitucional nº 1, promulgado em maio de 1957 pela Assembleia Legislativa de Goiás, prorrogando por mais um ano os mandatos do governador, do vice-governador e dos prefeitos desse estado. A votação do STF processou-se por unanimidade”.

Todavia, não são apenas ministros cassados que escreveram a história da presença evangélica nas cortes superiores. A família Gueiros (com vários líderes presbiterianos e um ramo batista), também forneceu vários de seus filhos para as cortes durante a ditadura militar. O Rev. Jerônimo de Carvalho Silva Gueiros (1880-1953) pastor, professor, jornalista teve doze filhos. Entre eles, Neemias Gueiros foi o redator do Ato Institucional nº 2 e Evandro Gueiros foi o primeiro presidente do Supremo Tribunal de Justiça.  Eraldo Gueiros Leite (1912 1983) ocupou o centro do poder, durante o regime de exceção, como ministro do Supremo Tribunal Militar (STM). Como presidentes do STJ e do STM, evangélicos já ocuparam, portanto, o centro do poder judiciário brasileiro, em época recente.

O Salto Supremo: A Presidência da República

Além das cortes superiores, topo da carreira do Judiciário, evangélicos já ocuparam também a Presidência da República, duas vezes. Com Café Filho, presbiteriano, e Ernesto Geisel, luterano.

Café Filho

João Fernandes Campos Café Filho  (1899-1970) foi um advogado e político brasileiro, tendo sido o 18.º presidente do Brasil, entre 24 de agosto de 1954 e 8 de novembro de 1955. Também foi o 13.º vice-presidente do país, entre 1951 e 1954, função que assumira paralelamente com a de presidente do Senado Federal. Era filho de um líder da Igreja Presbiteriana,  frequentou o Colégio Americano, o Grupo Escolar Augusto Severo, a Escola Normal e o Ateneu Norte-Rio-Grandense, todos localizados em Natal. Foi o único potiguar e o primeiro protestante a ocupar a Presidência da República do Brasil. 

Ernesto Geisel

Ernesto Beckmann Geisel (1907-1996) general do Exército brasileiro, que, entre 1974 e 1979, foi o 29º Presidente do Brasil, tendo sido o quarto na ditadura militar. Filho de imigrantes luteranos alemães, estudou no Colégio Martinho Lutero de Estrela (RS) e no Colégio Militar de Porto Alegre, formando-se aspirante a oficial na Escola Militar de Realengo, atual Academia Militar das Agulhas Negras, na arma de artilharia. Depois de alcançar o topo da carreira militar, como general, participou do grupo que depôs o presidente João Goulart, atuou no governo de Castelo Branco e, no período de Costa e Silva, foi nomeado ministro do Superior Tribunal Militar (STM), onde participou do julgamento de inúmeros processos referentes a crimes políticos enquadrados na Lei de Segurança Nacional. Com fama de “disciplinador”, Geisel foi ativo e influente das Forças Armadas. Como o fim da ditadura,envolveu-se na eleição de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral, em 1985. Geisel apoiou o presidente José Sarney (1985-1989) e defendeu a realização de eleições diretas para a Presidência da República, com a retirada dos militares para os quartéis.

Educação, a melhor política

Nos perfis biográficos de Villas Boas, dos Gueiros, de Café Filho e de Geisel há uma constante – o acesso à educação de qualidade, por meio de diversos colégios evangélicos, de educação básica, fundamental e do ensino médio. O professor e historiador ex- Chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie Osvaldo Henrique Hack, em seu livro “Protestantismo e Educação Brasileira” (Editora Cultura Cristã, 2000), acentua que a educação “foi o motor para a formação de uma elite acadêmica, jurídica e econômica” entre os evangélicos, que mesmo minoritários diante da população brasileira, puderam ocupar, pela formação, diversos cargos. Ou seja, as personagens citadas nesta matéria são fruto de uma visão de educação popular, básica e fundamental, que, espalhando-se por todo o Brasil ,resgatou crianças e adolescentes da pobreza e da invisibilidade social. 

Na biografia de Jerônimo Gueiros registra-se: “Fundou com o Rev. Calvin Porter uma escola para rapazes chamada Externato Natalense, na qual estudou João Café Filho (1899-1970), futuro Presidente da República. Também fundou a Escola Eliza Reed e reorganizou o Instituto Pestalozzi, onde lecionou português por vários anos. Foi professor da Escola Normal do Rio Grande do Norte, primeiro interinamente e depois como titular, tendo feito concurso para a cadeira de português em fevereiro de 1919. Rev. Jerônimo foi secretário geral da Associação Cristã de Moços (ACM), que oferecia cursos profissionalizantes, entre os quais datilografia, algo muito valorizado na época. Lecionou no Colégio Americano Batista e fundou o Instituto de Assistência e Educação, que mais tarde recebeu o seu nome”  (Instituto Presbiteriano Mackenzie “Os Consolidadores da Obra Presbiteriana no Brasil”, 2014)

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Bereia verifica, portanto, que não houve um “salto” de evangélicos a um alto espaço de poder público com a aprovação da indicação de André Mendonça ao STF, Já houve outros nomes na história recente do Brasil, ligados a igrejas evangélicas, ocupando cargos relacionados ao Poder Judiciário  e ao cargo maior, a Presidência da República. A pesquisa mostra, também, que a chegada a estes cargos, além de estar relacionada a uma aproximação do poder, tem relação com a formação educacional. As  escolas básicas e fundamentais e as universidades evangélicas são uma rede de inclusão que abriu portas das cortes e escolas para os filhos de imigrantes, migrantes e para a minoria religiosa  evangélica.

Um Ministério da Educação religiosa?

Educação religiosa não é educação.

( Osvaldo Luiz Ribeiro )

O novo ministro da educação do governo Bolsonaro tem título de doutorado em educação pela USP. Milton Ribeiro também é formado em teologia e direito. Segundo sua apresentação no lattes, currículo atualizado pela última vez em 15/04/2019, é relator da Comissão de Assuntos Educacionais do Mackenzie e Diretor Administrativo da Luz para o Caminho, instituição que cuida da área de mídias da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB). Também foi responsável por 38 cursos de especialização e 5 cursos de extensão no Mackenzie, além de dar aulas sobre “Ética e Disciplina”. Fez duas especializações no “Velho Testamento”, sendo a primeira no próprio Mackenzie; a segunda, no Centro Teológico Andrew Jumper, que é destinada à formação de docentes de seminários, institutos bíblicos, dentre outras ligadas à IPB. Sendo bolsista CNPq durante seu doutorado, produziu a tese “Calvinismo no Brasil e organização: o poder estruturador da educação”. Na parte de produção bibliográfica, apenas um produto. Trata-se de um livro publicado pela Editora Mackenzie, provavelmente fruto de sua dissertação de mestrado: “Liberdade Religiosa: uma proposta de debate”. 

É importante recordarmos a declaração de Bolsonaro em 2018 acerca da escolha dos ministros e de todo o primeiro escalão do governo: “Tem que ser alguém que entenda daquele assunto. […] A gente está escolhendo por critérios técnicos, né? Competência, autoridade, patriotismo e iniciativa”. Já passaram por lá: Ricardo Vélez Rodríguez, Abraham Weintraub, Carlos Decotelli e, agora, Milton Ribeiro. Qual é o critério da escolha deste último?

Várias igrejas presbiterianas, dentre outras denominações evangélicas, se envolveram em campanhas de oração contra corrupção – uma tônica do governo Bolsonaro que assim classifica o que ele chama de partidos comunistas e afins.

Por isso, não se trata apenas de observar o lattes do candidato – embora sua produção científica na área seja um importante norte para se pensar e pesar suas características teóricas e contribuições para a sociedade –, mas perceber de que maneira o indivíduo está submetido a determinada instituição religiosa. 

Pensar, programar e sistematizar a educação de um país a partir de um personagem, sem produção intelectual substantiva; que obedece rigorosamente aos estatutos acríticos de uma instituição confessional; que é ligado a órgãos historicamente presentes em governos de (extrema)direita, que aceita agora participar de um governo que despreza publicamente a linguagem científica, tendo terraplanistas como base de sua mais alta intelectualidade; que tem o Antigo Testamento, com seus códigos morais e de educação por violência (como em seu discurso sobre a disciplina física em crianças) como especialidade nos permite considerar que o Estado ainda não se desvencilhou da influência religiosa conservadora/fundamentalista, neoliberal, mantenedora do ethos moralizante e preocupado com a genitália alheia.

Em 1932, Matathias Gomes dos Santos, um líder presbiteriano, declarou no principal jornal da denominação, “O Puritano” (10 de nov. de 1932, p. 2):

“O Protestantismo não é um partido, não se filiará a nenhum partido; mas todos os seus membros, por sua natureza pertencem às correntes liberais” (grifo meu).

O pastor Milton faz parte do quadro ligado às esferas da educação religiosa legitimada por uma interpretação não das Escrituras, mas de uma tradição religiosa que busca ocupar espaços no poder a fim de que o Jesus da conveniência seja vívido nas correntes sociais dissipando tudo aquilo que pode ser chamado de inimigo. Portanto, não estamos diante de algo novo na história. E ouso dizer que o nível de associação a governos neoliberais e ditatoriais entre religiosos poderia ser menor caso o processo crítico dentro desta estrutura fosse intenso. É o que parece ocorrer agora…

No final do primeiro semestre/2020 foi criado o grupo “Resistência Reformada”, cujo objetivo é demonstrar a pluralidade dentro do mesmo segmento e os descontentamentos acerca da união da igreja com o Estado. Seguem alguns pontos do manifesto:

“Reafirmamos que a Teologia Reformada defende a separação entre igreja e Estado…”; “Cremos que a Teologia Reformada se propõe aliada da ciência, ainda que de maneira eticamente crítica, mas nunca inimiga dos avanços intelectuais da humanidade…”; “a Teologia Reformada deve promover a igualdade e a fraternidade universais, bem como a luta por equidade, o combate ao patriarcalismo; e a defesa da emancipação das mulheres…”; “a Resistência Reformada rejeita e denuncia todas as formas de totalitarismo, sejam de esquerda ou de direita…”; “Denunciamos, com particular tristeza, o uso irreverente do nome de Deus para sancionar e promover ideologias humanas e inimigas da liberdade e promotoras da divisão e da violência…”; “A luta contra a tirania política é um dever do qual o cristão e a cristã não podem se eximir”; “a Teologia Reformada contemporânea trabalha na promoção do ecumenismo e do diálogo inter-religioso”…

A maioria que compõe o grupo da Resistência Reformada, e que também possui, em diferentes níveis, ligação com a estrutura religiosa, apresenta produção acadêmica superior à produção do atual ministro da educação.

Parece-me, contudo, que a diferença entre ambos os grupos não está no quanto se produz, mas no simples fato de desejar ler o evangelho a partir da sociedade presente e não mais pela hermenêutica fria e imprudente de certas instituições.

Nada que se alie ao atual governo terá a chance de subverter o cenário ditado por Bolsonaro, que, na verdade, é tão somente um porta-voz dos interesses dos EUA, de empresários e de uma “elite do atraso” emburrecedora. Não há esperanças pela via dessa alienada e alienadora educação. Talvez só reste mesmo… a resistência.

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