Pastores evangélicos mobilizam onda de mentiras sobre economia nas redes digitais

“Os economistas dizem que o Brasil está à beira de uma recessão”, “Bolsa família é esmola para quem vive às custas do Estado” – estas são frases proferidas pelo pastor presbiteriano Hernandes Dias Lopes e pela pastora pentecostal Valnice Milhomens, em vídeos publicados em mídias sociais, a partir deste 14 de setembro. Os conteúdos miram temas econômicos do país, em críticas ao atual governo que disputa reeleição neste pleito.

Como Bereia já divulgou, como parte da campanha Boto Fé no Voto: Eu escolho a Verdade, mentiras sobre economia para convencimento de eleitores para o apoio a determinadas candidaturas têm sido recorrentes nos períodos eleitorais anteriores. Neste pleito em 2026, conteúdo desinformativo já vem sendo propagado desde 2025, com mentiras sobre o PIX, sobre preços de alimentos e outros temas que mobilizam pânico entre eleitores. 

Nesta segunda quinzena de setembro de 2026, a poucos dias das eleições, Bereia observa os vídeos destas lideranças religiosas como parte da mesma iniciativa de acionamento de medo no eleitorado evangélico, com base em falsidades. A equipe Bereia checou as peças digitais.

O vídeo do pastor Hernandes Dias Lopes

Uma mensagem intitulada “Como sair da crise financeira? foi publicada pelo pastor presbiteriano Hernandes Dias Lopes, no YouTube, em 7 de setembro”. Antes de recorrer ao livro bíblico de Provérbios para orientar os seguidores sobre trabalho, dinheiro e prosperidade, o religioso apresentou um diagnóstico da economia brasileira.

Imagem: Canal do YouTube do Pastor Hernandes Dias Lopes

Segundo Hernandes, o Brasil talvez nunca tenha vivido uma situação econômica “tão crítica”; “mais de 80% do Produto Interno Bruto” estaria comprometido com dívidas; mais de 80% das famílias estariam endividadas; pequenas e médias empresas  “colapsando”; e outras companhias “fugindo do Brasil” para se estabelecer no Paraguai. O pastor também classificou os juros como “altíssimos” e a carga tributária como “pesadíssima”. “A gastança parece não ter freios nem limites e o futuro é sombrio”, afirmou.

Uma semana depois, em 14 de setembro, Hernandes publicou outra mensagem na qual levou a leitura bíblica diretamente para a conjuntura política e institucional. Ao comentar o livro do profeta Miqueias, descreveu o Brasil como uma nação em profunda crise moral, falou em corrupção nos três Poderes, “aparelhamento” do Estado e articulação entre governantes, juízes e poder econômico.

Em determinado momento ressalta: “não estou falando do Brasil”, mas a mensagem é construída a partir da aproximação entre o contexto descrito pelo profeta e a realidade brasileira atual. No encerramento, diante do que apresenta como perda de confiança em governantes, legisladores e cortes, conclama a população brasileira a voltar-se para Deus.

Imagem: Publicação do perfil do Instagram do Pastor Hernandes Dias Lopes, 14 set 2026

Cortes das mensagens do pastor estão sendo propagados pelas plataformas digitais e compartilhados em grupos de WhatsApp de igrejas.

Bereia checou: o país vive uma situação econômica sem precedentes, como sugere a fala do pastor Hernandes? Enganoso!

O Brasil está realmente “à beira de uma recessão”? Mais de 80% do PIB está “comprometido com dívidas”? Mais de 80% das famílias estão endividadas? Há evidências de uma fuga significativa de empresas brasileiras para o Paraguai? 

Fatos e dados disponíveis não confirmam a ideia de uma economia brasileira à beira do colapso. Há problemas reais, como dívida pública elevada, endividamento das famílias, inadimplência empresarial e juros altos, mas o PIB seguiu crescendo em 2026. A afirmação de que mais de 80% do PIB estaria “comprometido com dívidas” confunde a relação entre dívida pública e PIB com recursos efetivamente destinados ao pagamento da dívida.

A informação de que mais de 80% das famílias estão endividadas é correta, embora isso não signifique que todas estejam inadimplentes. Ao fazer a crítica, o pastor omite estudos que avaliam os principais motivos do alto endividamento: as dificuldades econômicas criadas na pandemia da Covid-19 e, o principal, o envolvimento com apostas promovidas pelas “bets”.

O pastor também não mencionou a existência de políticas públicas como os programas “Desenrola” e a abertura para o uso do FGTS. Além disso, toda pessoa que adquire imóvel por financiamento, nos moldes do Minha Casa Minha Vida, também é contabilizada como devedora. Neste caso, trata-se de uma dívida “boa”, diferente de quem se endivida por bets.

Sobre a existência de investimentos de empresas brasileiras no Paraguai, eles existem, mas é enganoso que haja uma “fuga” empresarial em massa para aquele país. Hernandes Dias Lopes reproduz afirmações enganosas sobre este assunto que já circulam nas redes e foram checadas. 

A caracterização da atual conjuntura como uma crise sem precedentes não encontra respaldo nos indicadores históricos, já que o país enfrentou recessões muito mais severas em períodos recentes, como 2015-2016 e 2020. 

Segundo o economista Teófilo Cavalcanti, ouvido pelo Coletivo Bereia, Hernandes defende uma “teologia do trabalho”, sendo veemente crítico da “teologia da prosperidade”. Entretanto, os indicadores recentes do mercado de trabalho brasileiro não sustentam a descrição de uma economia em situação próxima de recessão ou de deterioração sem precedentes, como afirma o pastor. Com base em dados do IBGE, publicados no jornal Valor Econômico, Cavalcanti destaca que, desde 2022, houve queda contínua do desemprego, aumento do número de pessoas ocupadas e de trabalhadores com carteira assinada, além de crescimento da renda média real.

De acordo com os números levantados pelo especialista para esta matéria, a taxa de desemprego caiu de 9,8% em maio de 2022 para 5,6% em maio de 2026, chegando a 5,3% em julho. No mesmo período, o número de trabalhadores com carteira assinada passou de 34,4 milhões para 39,3 milhões, enquanto a população ocupada cresceu em mais de seis milhões de pessoas.

Teófilo Cavalcanti também chama atenção para a evolução da renda. Em valores reais, a renda média do trabalhador passou de R$3.099, em maio de 2022, para R$3.726 em maio de 2026, crescimento próximo de 17%. Ele relaciona esse resultado tanto à melhora do mercado de trabalho quanto à política de valorização real do salário mínimo.

Na avaliação apresentada pelo economista, o desempenho do PIB também contrasta com a ideia de uma crise econômica inédita. O especialista calcula que, considerados os resultados de 2023 a 2025 e a projeção para 2026, o PIB poderá acumular crescimento superior a 11% no período, enquanto o PIB per capita avançaria perto de 9%. Para ele, esse desempenho representa uma mudança em relação ao longo período de baixo crescimento que marcou os anos anteriores.

A leitura do especialista, portanto, não nega problemas como o aumento do endividamento das famílias e da economia. O que ele questiona é a construção de um cenário exclusivamente negativo: ͢͢”se trabalho e renda são elementos centrais no discurso de Hernandes Dias Lopes, os indicadores de aumento do emprego, da formalização e da remuneração também deveriam fazer parte de qualquer diagnóstico da conjuntura econômica brasileira”.

Cavalcanti avalia que a caracterização da atual conjuntura como uma crise sem precedentes não encontra respaldo nos indicadores históricos, já que o país enfrentou recessões muito mais severas em períodos recentes, como 2015-2016 e 2020. 

O vídeo da pastora Valnice Milhomens

O segundo vídeo checado pelo Bereia foi publicado pela pastora Valnice Milhomens, da Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo (INSEJEC) também no início da segunda quinzena de setembro de 2026. O conteúdo ganhou repercussão nas redes digitais por classificar o Bolsa Família como “esmola” e associar a dependência do benefício à falta de trabalho. Na publicação, a pastora defende que a autonomia econômica ocorre por meio do trabalho e afirma que não seria “libertador” viver “às custas do Estado”. 

Na publicação, a pastora questiona a existência do Bolsa Família e associa o recebimento do benefício à dependência do Estado. Na legenda do vídeo, ela afirma: “O povo brasileiro não precisa de esmolas! Oremos pelos próximos governantes da nossa nação”. 

Valnice Milhomens também afirma que o Bolsa Família “atinge milhões de brasileiros” e questiona se esse seria o “ideal de economia”. Em seguida, defende que a libertação econômica estaria associada ao trabalho e à obtenção de renda por meio da atividade profissional. Para ela, “não é libertador você viver às custas do Estado”, enquanto “ganhar o seu dinheiro pelo seu trabalho” seria uma forma de dignidade e de contribuição para a sociedade. 

Ao desenvolver o argumento, a pastora afirma ainda que “conservar alguém escravo” da esmola “não é o melhor” e relaciona o trabalho à elevação da autoestima. Até o momento da apuração, a publicação acumulava quase 90 mil visualizações e mais de 10 mil comentários em seu perfil no Instagram. A repercussão ocorre em torno de uma interpretação sobre o programa que desconsidera seus critérios de acesso, suas condicionalidades e os mecanismos previstos para a saída ou transição das famílias beneficiárias. 

Imagem: Publicação no perfil do Instagram da Pastora Valnice Milhomens, 16 set 2026

Bolsa Família é esmola? Falso!

O Bolsa Família é um programa de transferência de renda, e não uma doação eventual. Para ingressar, a família precisa estar inscrita no Cadastro Único e atender aos critérios de renda estabelecidos pelo programa. A transferência é acompanhada de condicionalidades relacionadas à saúde e à educação. Entre elas estão a vacinação e o acompanhamento nutricional de crianças menores de sete anos, o pré-natal de gestantes e a frequência escolar mínima de crianças e adolescentes.

Em março de 2025, o programa atendia mais de 20,5 milhões de famílias, com benefício médio de R$ 668,65. Naquele momento, mais de 3,11 milhões de famílias estavam na chamada Regra de Proteção, criada para evitar a retirada imediata do benefício quando a renda familiar aumenta.

A existência dessa regra é particularmente relevante para a afirmação feita no vídeo. O próprio desenho do programa prevê a transição das famílias para fora da política de transferência de renda quando sua situação econômica melhora. Desde julho de 2025, famílias que ultrapassam a renda de entrada, mas permanecem dentro do limite estabelecido para a Regra de Proteção, podem continuar recebendo 50% do benefício por determinado período, conforme sua situação de renda.

Famílias vivem às custas do Estado? Falso!

Os dados também mostram que o Bolsa Família não funciona como um benefício permanente para todos os seus integrantes. Em 2024, mais de 1,3 milhão de famílias deixaram o programa após melhorar de renda, segundo dados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social. Outras 2,2 milhões passaram para a Regra de Proteção naquele ano.

Em 2025, o movimento continuou. Segundo relatório de gestão do MDS, 2,5 milhões de famílias deixaram de receber o Bolsa Família entre janeiro e dezembro daquele ano. Destas, 1.552.041 saíram porque a renda por integrante ultrapassou o limite do programa, 29.498 solicitaram desligamento voluntário e 967.145 concluíram o período da Regra de Proteção.

Esses números ajudam a contextualizar a relação entre transferência de renda, trabalho e autonomia econômica. A própria existência da Regra de Proteção parte do reconhecimento de que o aumento da renda de uma família não significa, necessariamente, que ela tenha superado imediatamente uma situação de vulnerabilidade. O mecanismo permite uma transição antes do desligamento definitivo

Bolsa Família e cuidado com as famílias

A crítica publicada pela pastora também pode ser vista como uma contradição com a demanda sempre colocada por lideranças religiosas de que se deve proteger a família.  No caso do Bolsa Família, como o nome diz, é uma política pública que representa  cuidado com famílias em situação de vulnerabilidade. 

O programa público não se limita ao repasse financeiro: suas condicionalidades articulam transferência de renda com acompanhamento de saúde e permanência na escola. Na saúde, crianças menores de sete anos devem cumprir o calendário de vacinação e ter acompanhamento do estado nutricional, enquanto gestantes precisam realizar o pré-natal. Na educação, crianças, adolescentes e jovens beneficiários precisam cumprir uma frequência escolar mínima.

Esse desenho permite compreender o Bolsa Família como parte de uma política de proteção social, voltada não apenas à renda imediata, mas também à redução de situações que podem perpetuar a pobreza entre gerações. Estudo divulgado pelo MDS em parceria com a FGV apontou que 60,68% dos beneficiários que recebiam o programa em 2014 haviam deixado de recebê-lo até 2025; entre adolescentes de 15 a 17 anos, o percentual chegou a 71,25%.

Quem são estas lideranças evangélicas em campanha eleitoral?

Hernandes Dias Lopes é pastor colaborador da Igreja Presbiteriana de Pinheiros (IPP), em São Paulo, função que divide com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. Pastor que ocupa muito as mídias impressas com vários livros e as digitais com vídeos e palestras, é diretor executivo da organização Luz para o Caminho (LPC), dedicada à produção de conteúdo religioso em livros, rádio, vídeo, internet e formação bíblica. 

Lopes construiu parte de sua identidade pública em oposição à chamada teologia da prosperidade. Em entrevista concedida ao jornal A Gazeta em 2011, reproduzida por diferentes páginas religiosas, criticou igrejas que prometiam enriquecimento e líderes que, segundo ele, exploravam a fé dos seguidores. 

Neste período eleitoral, o pastor tem investido na discussão de temas da economia. Em fevereiro passado, ele participou do PrimoCast, de Thiago Nigro, conhecido “influenciador” do campo das finanças e autoajuda”. O episódio foi estruturado em torno de “riqueza, dinheiro e fé”, com tópicos como mérito individual, desejo de enriquecer e “o que fazer para enriquecer segundo a Bíblia”. 

Imagem: Página do PrimoCast no YouTube

Lopes afirmou conhecer “centenas de pessoas” que receberiam o Bolsa Família e, por isso, não desejariam trabalhar, desenvolvendo o que classificou como uma “mentalidade de miséria”. Bereia checou este conteúdo do pastor. Logo depois, em abril, em outro vídeo de sua produção, ao comentar o mandamento “não furtarás”, o pastor voltou à formulação causal: “O trabalho produz riqueza, o furto, pobreza”. No mesmo artigo, associa a preguiça à apropriação do trabalho alheio e leva a interpretação bíblica para escândalos financeiros, instituições públicas e corrupção. 

Já a pastora Valnice Milhomens tem presença antiga em campanhas durante períodos eleitorais. Em 2014, a pastora manifestou apoio público à candidatura de Marina Silva à Presidência da República e associou a possibilidade de eleição da candidata à mobilização por meio de jejum e oração. Em 2022, voltou a se manifestar durante a disputa presidencial, quando orientou seguidores a não votarem em candidatos com programas que considerasse “contrários ao Reino de Deus” e relacionou o voto à responsabilidade religiosa, alinhada com a reeleição do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). 

Em 2026, novamente em ano eleitoral, Valnice Milhomens passou a participar de mobilizações e discursos que relacionam a atuação de evangélicos à ocupação de espaços de influência na sociedade e à participação na vida pública. O histórico foi registrado em reportagem anterior do Bereia, que também contextualizou suas manifestações políticas em diferentes eleições. 

Propagação de mentiras pelas redes: uma crise moral

Bereia ouviu o teólogo e pastor pentecostal David Mesquiati sobre o fenômeno da onda de propagação de mentiras na campanha eleitoral por lideranças religiosas. Ele explica que “durante o século 20, os evangélicos eram percebidos pela sociedade como uma ‘reserva moral’, diante de tantas mudanças culturais e da corrupção política. Era possível manter essa ideia quando se é minoria, ascetismo severo com baixa participação nas rodas sociais e vida comunitária de fé circunscrita aos guetos de afinidade religiosa”. 

Contudo, adverte Mesquiati, com o aumento numérico, ascensão social e participação mais ativa nas esferas de poder, aquela diferenciação se atenua. “Casos de infidelidade, assédio e corrupção eram tratados internamente. Com a visibilidade midiática, cada caso vira página de jornal, aumentando a percepção de crise moral”, reconhece o teólogo.

Mesquiati aponta que “há uma onda de decadência moral em setores da liderança evangélica, justamente essa que provou das benesses do sistema. Não necessariamente se busca dinheiro. Para homens de meia e avançada idade em posição de liderança, o poder é mais tentador. Uma vez que se prova dessa maçã é difícil vencer esse paladar…” 

O pastor explica que “a extrema direita soube instrumentalizar os ressentimentos e frustrações da sociedade, catalisados pelas questões moralistas,  para mover as massas. O amálgama entre uma visão dominionista da fé no espaço público, as pretensões eleitoreiras da extrema direita e a sede de poder de alguns líderes religiosos produziu um tipo de cristianismo acrítico e preso numa bolha ideológica, que cega líderes e comunidades”.

Ao fim da entrevista ao Bereia, David Mesquiati aponta um caminho: “cada cidadão, independentemente da sua vinculação religiosa, é livre para escolher seu candidato. Os diferentes grupos e agremiações, entre eles as igrejas, cumprem um papel republicano quando usam seus espaços para debate de ideias, ouvir o contraditório e até promover encontros de candidatos para consultas, mas nunca para direcionar o voto. Uma igreja cidadã respeita o voto de cada um, tornando a diversidade um valor e um bem a ser preservado”.

Referências:

YouTube

https://www.hernandesdiaslopes.com.br/ Acesso em 15 set 2026

https://www.youtube.com/@HernandesDiasLopesOficial Acesso em 15 set 2026

https://www.youtube.com/watch?v=5iIH7hq2Jm0  Acesso em 15 set 2026

https://youtu.be/eLgFqmG0zgg?si=KEJ6WsOJQhfaMVY-  Acesso em 15 set 2026

https://www.youtube.com/watch?v=zFrLetPLiTM Acesso em 15 set 2026

IBGE

https://ftp.ibge.gov.br/Contas_Nacionais/Contas_Nacionais_Trimestrais/Fasciculo_Indicadores_IBGE  Acesso em 15 set 2026

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/47316-taxa-de-desocupacao-e-de-5-6-e-taxa-de-subutilizacao-e-de-13-3-no-trimestre-encerrado-em-maio Acesso em 15 set 2026

Banco Central do Brasil

https://www.bcb.gov.br/estatisticas/estatisticasfiscais Acesso em 15 set 2026

Rede de Investimento e Exportação (REDIEX)  

https://www.rediex.gov.py/pt/cerca-de-2-400-empresas-mostraron-interes-en-invertir-en-paraguay-durante-el-2025 Acesso em 15 set 2026

Governo Federal 

https://www.gov.br/mds/pt-br/acoes-e-programas/bolsa-familia. Acesso em 16 set 2026.

https://www.gov.br/mds/pt-br/acesso-a-informacao/perguntas_frequentes/bolsa-familia-beneficiario/7-o-que-sao-as?utm_source. Acesso em 16 set 2026.

https://www.gov.br/mds/pt-br/acoes-e-programas/bolsa-familia/regra-de-protecao. Acesso em 16 set 2026.

https://www.gov.br/mds/pt-br/acoes-e-programas/bolsa-familia/original/informes/2025/relatorios/informe-bolsa-familia-80/perguntas_frequentes_nova_regra_de_protecao_pbf.pdf. Acesso em 16 set 2026.

https://www.gov.br/mds/pt-br/acesso-a-informacao/auditorias/RELATORIO_GESTAO_2025_defeso.pdf/@@download/file.

FGV Social. 

https://cps.fgv.br/bolsa-familia-o-que-e-e-como-funciona. Acesso em 16 set 2026.

CNN Brasil. https://www.cnnbrasil.com.br/economia/seu-bolso/meu-dinheiro/superacao-de-renda-tira-13-milhao-de-familias-do-bolsa-familia-em-2024/. Acesso em 16 set 2026. 

Filhos do Bolsa Família. https://static.poder360.com.br/2025/12/apresentacao_mds_03.pdf. Acesso em 16 set 2026. 

Agência Brasil. https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2025-03/caixa-paga-bolsa-familia-beneficiarios-com-nis-de-final-5-0. Acesso em 16 set 2026. 

Igreja Presbiteriana de Pinheiros

https://www.ippinheiros.org.br Acesso em 15 set 2026

Luz para o Caminho

https://lpc.org.br/ Acesso em 15 SET 2026

Nova Reforma

https://novareforma.blogspot.com/2011/02/uma-exploracao-da-fe-entrevista-do-rev.html Acesso em 15 set 2026

Hernandes Dias Lopes
https://www.hernandesdiaslopes.com.br/implicacoes-do-setimo-mandamento-nao-futuras  Acesso em 16 set 2026

Aos Fatos

https://www.aosfatos.org/noticias/falso-232-empresas-paraguai-governo-lula

Jota

https://www.jota.info/executivo/governo-lula-foca-em-medidas-contra-endividamento-em-cartao-e-cheque-especial

Uol

https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2026/03/26/bets-viram-maior-motor-do-endividamento-das-familias-no-brasil-diz-estudo.htm

Crítica de pastor influenciador sobre Bolsa Família espalha preconceito e desinformação

“Centenas de pessoas” que, ao receberem o Bolsa Família, “não querem trabalhar” e acabam se acomodando a uma “mentalidade de miséria” – estas palavras foram proferidas pelo pastor presbiteriano Hernandes Dias Lopes, durante participação no podcast O Que a Bíblia Diz Sobre Dinheiro. A fala do pastor no canal do influenciador financeiro Thiago Nigro, o Primo Rico, ocorreu no episódio que discute riqueza, fé e prosperidade e acendeu um debate recorrente sobre políticas de transferência de renda no Brasil. Segundo o Lopes, quando o benefício se torna visto como “bênção”, pode se transformar em “maldição”, ao gerar dependência. Para fundamentar sua visão, o pastor citou os Dez Mandamentos para defender a ideia que Deus ordena o trabalho por seis dias e o descanso em um.

A fala adiciona conteúdo a um contexto em que o programa de transferência de renda é alvo frequente de desinformação nas redes sociais, muitas vezes associadas à ideia de que o benefício desestimularia o trabalho formal. Dados recentes, no entanto, indicam um cenário mais complexo.

O primeiro programa de transferência de renda do Brasil: a história do Bolsa Família 

Criado em 2003, no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Bolsa Família unificou iniciativas anteriores de transferência de renda implementadas no governo Fernando Henrique Cardoso, como o Bolsa Escola, o Bolsa Alimentação e o Auxílio Gás. A consolidação ocorreu por meio da Lei nº 10.836/2004, que instituiu oficialmente o programa como política pública federal voltada ao enfrentamento da pobreza e da extrema pobreza.

O Bolsa Família opera por meio de transferência direta de renda a famílias em situação de vulnerabilidade, com critérios definidos a partir da renda per capita e com exigências relacionadas à frequência escolar e ao acompanhamento de saúde. A proposta combina alívio imediato da pobreza com estímulos à permanência na escola e ao acesso a serviços básicos.

Foto: Sergio Amaral/MDS

Ao longo de duas décadas, o programa passou por reformulações. Em 2021, foi substituído pelo Auxílio Brasil, durante o governo Jair Bolsonaro (PFL e PL, 2019-2022). Em 2023, retomou o nome original por meio da Lei nº 14.601/2023, mantendo a lógica de transferência condicionada e incorporando ajustes nos valores e na estrutura de benefícios.

A criação e a manutenção do programa se inserem em um contexto de desafios sociais persistentes. Em 2022, cerca de 70 milhões de brasileiros enfrentavam algum grau de insegurança alimentar, segundo relatório da Organização das Nações Unidas (ONU). No mesmo período, levantamento da FGV Social indicou que aproximadamente 29,6% da população vivia com renda domiciliar per capita de até R$ 497 mensais, o pior índice desde 2012.

Estudo da Fundação Getúlio Vargas aponta que, entre 2022 e 2024, 17,4 milhões de pessoas deixaram a pobreza e passaram a integrar as classes A, B e C, contingente equivalente à população do Equador. Segundo o pesquisador e diretor da FGV Social, Marcelo Neri, o avanço foi impulsionado principalmente pela renda do trabalho. “O ganho de renda do trabalho foi o principal motor de ascensão social da chamada classe média. A regra de proteção do Bolsa Família impulsiona a geração de carteiras de trabalho”, afirmou.

Como são os programas em outros lugares do mundo

A adoção de programas de transferência direta de renda não é uma particularidade brasileira. Entre as dez maiores economias do mundo, iniciativas voltadas à garantia de renda mínima ou ao apoio a famílias de baixa renda estão presentes, ainda que com formatos distintos. Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) indicam que países desenvolvidos gastam, em média, 1,6% do Produto Interno Bruto (PIB) em benefícios condicionados à renda, percentual superior ao registrado no Brasil, onde o Bolsa Família representa cerca de 0,5% do PIB.

Na França, por exemplo, os programas de transferência de renda somam cerca de 2,1% do PIB e integram um sistema de proteção social mais amplo, que inclui auxílio-moradia, subsídios para energia e benefícios vinculados à criação de filhos. A Alemanha garante um valor mensal para necessidades básicas, além de complementos para aluguel e educação. No Reino Unido, o Crédito Universal unificou benefícios destinados a famílias de baixa renda, trabalhadores informais e desempregados.

Nos Estados Unidos, o principal programa federal é o SNAP, voltado à segurança alimentar de famílias de baixa renda, além de iniciativas como o Supplemental Security Income (SSI), destinado a idosos e pessoas com deficiência. O sistema estadunidense inclui ainda o Temporary Assistance for Needy Families (TANF), que pode exigir contrapartidas relacionadas ao trabalho.

Já no Canadá, o modelo de transferência de recursos assume formato distinto do brasileiro. A chamada Transferência Social do Canadá (Canada Social Transfer – CST) é uma das principais transferências federais para províncias e territórios e financia áreas como educação pós-secundária, assistência social e políticas para a primeira infância. Diferentemente de programas focalizados diretamente em famílias, o mecanismo canadense repassa recursos de forma per capita e quase incondicional aos governos subnacionais, que têm autonomia para definir a aplicação dos fundos.

Imagem: CBC

Na Ásia, a China mantém programas como o Dibao, que assegura um nível mínimo de renda tanto em áreas urbanas quanto rurais, com valores ajustados às realidades locais. O Japão opera o Seikatsu Hogo, que calcula o benefício com base no custo de vida da família e inclui apoio para moradia e despesas médicas. A Coreia do Sul ampliou, após a crise de 1997, seu programa nacional de subsistência básica, que combina transferência de renda com assistência educacional e médica.

Fora do eixo das economias desenvolvidas, programas de transferência de renda também foram estruturados em países de baixa renda. Um deles é o Programa de Rede de Segurança Produtiva (PSNP), da Etiópia, lançado em 2005 para enfrentar a insegurança alimentar crônica. A iniciativa combina transferências em dinheiro ou alimentos com frentes de trabalho em obras públicas voltadas principalmente a famílias vulneráveis em regiões de alto risco climático. O modelo etíope prevê ainda apoio incondicional para grupos sem capacidade laboral, como gestantes, pessoas com deficiência e idosos, e integra ações de adaptação climática e fortalecimento de meios de subsistência, com o objetivo de reduzir a dependência prolongada do programa.

Foto: Young Lives/Antonio Fiorente

Na Índia, a política de transferência de renda opera em larga escala por meio do sistema de Transferência Direta de Benefícios (Direct Benefit Transfer – DBT), que reúne centenas de programas federais. Nos últimos anos, o país ampliou sobretudo as transferências incondicionais, cujo volume cresceu de forma expressiva e já representa parcela relevante do gasto social. Entre as principais iniciativas estão o PM-KISAN, que garante apoio anual a agricultores elegíveis; o National Social Assistance Programme (NSAP), que paga pensões a idosos, viúvas e pessoas com deficiência; e o Pradhan Mantri Matru Vandana Yojana (PMMVY), voltado a gestantes, com parcelas vinculadas ao acompanhamento de saúde materno-infantil.

O que dizem os dados

Estudo divulgado em dezembro de 2025 pela Escola de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV EPGE) aponta que, entre o início de 2023 e outubro de 2025, o número total de beneficiários do Novo Bolsa Família diminuiu, assim como o volume total de recursos pagos. De acordo com a pesquisa, 31,25% das pessoas que estavam no programa no começo de 2023 já não recebiam o benefício em outubro de 2025. O levantamento descreve o movimento como uma “rotatividade saudável”, com mais saídas do que novas entradas no período analisado.

A análise também destaca que o programa funciona como proteção temporária em momentos de vulnerabilidade de renda, e não como política de permanência automática. Entre os beneficiários de 2014, 60,68% não estavam mais no Bolsa Família em 2025. Entre aqueles que eram adolescentes naquele ano, as taxas de saída ultrapassam 70%.

Os dados indicam ainda que a permanência no programa não impede a inserção no mercado formal. Em 2024, 13,4 milhões de beneficiários estavam empregados. No primeiro semestre de 2025, pessoas cadastradas no Bolsa Família ocuparam 58,2% das novas vagas formais criadas no país. O programa prevê uma regra de proteção que permite à família continuar recebendo parte do benefício por até dois anos após aumento da renda, mecanismo que busca evitar quedas bruscas e reduzir o receio de aceitar emprego formal.

Levantamento do IBGE mostra que o Brasil tinha, em dezembro de 2025, 103,2 milhões de pessoas ocupadas, número que inclui trabalhadores formais, informais, autônomos e servidores públicos. O dado é mais que o dobro do total de empregados com carteira assinada, frequentemente utilizado de forma isolada em comparações enganosas que circulam nas redes.

Desinformação contra o Bolsa Família

Em novembro passado, o Estadão Verifica classificou como enganosa uma postagem que comparava 48 milhões de beneficiários do Bolsa Família com 39 milhões de trabalhadores formais, sugerindo que haveria mais “dependentes” do que empregados no país. A checagem apontou que o total de beneficiários inclui crianças e adolescentes e que parte significativa dos adultos atendidos exerce atividade remunerada.

A circulação desse tipo de enquadramento foi analisada em estudo acadêmico recente publicado no Brazilian Journal of Development. No artigo, os pesquisadores Lana Krisna Morais e Heitor Costa Lima da Rocha identificam que a desinformação sobre o Bolsa Família se organiza, com frequência, em torno da ideia de “dependência permanente” e da associação entre recebimento do benefício e falta de esforço individual, como propagado pelo pastor presbiteriano Hernandes Dias Lopes. 

Muitos desses discursos midiáticos não apresentam dados falsos, mas recorrem a generalizações a partir de casos isolados ou a comparações numéricas descontextualizadas, o que produz percepções distorcidas sobre o programa. 

Um exemplo são os casos de fraude durante a pandemia de covid-19. Na época, órgãos de controle identificaram pagamentos indevidos do Auxílio Emergencial, administrado pelo governo de Jair Bolsonaro, a pessoas fora dos critérios. O Tribunal de Contas da União (TCU) apontou que mais de 79 mil militares das Forças Armadas receberam o benefício de forma irregular, apesar de ele ser destinado a desempregados e pessoas sem renda. À época, o ministro do TCU Bruno Dantas afirmou que não havia hipótese legal para militares da ativa, da reserva ou pensionistas figurarem como titulares do auxílio, determinando a devolução dos valores.

Os autores do estudo observam ainda que parte das postagens críticas ao programa constroem uma “moralização da pobreza”, ao atribuir ao indivíduo a responsabilidade exclusiva por sua condição socioeconômica. Essa lógica tende a desconsiderar fatores estruturais que impõem empobrecimento a cidadãos como desigualdade regional, informalidade e acesso desigual à educação.

Leitura teológica contesta ideia de “acomodação” atribuída ao Bolsa Família

Para o teólogo e pastor da Primeira Igreja Batista do Limoeiro (São Paulo) Alonso Gonçalves a afirmação de que beneficiários do Bolsa Família se acomodam e deixam de trabalhar carece de base de dados e ignora o funcionamento do programa. “Por aí já se vê a falta de informação e lisura na afirmação que o programa incentiva a preguiça, a acomodação”, contesta.

Gonçalves destaca que se trata de uma política de Estado com critérios definidos e foco prioritário em mulheres responsáveis pelo cuidado dos filhos. Segundo ele, há condicionalidades ligadas principalmente ao acompanhamento das crianças, o que afasta a ideia de incentivo à inatividade. O pastor também observa que, em 2025, mais de 2 milhões de famílias deixaram o benefício após melhora de renda, movimento que, em sua avaliação, reforça o caráter transitório da política.

Foto: PIB do Limoeiro/Youtube

No campo teológico, Gonçalves sustenta que a assistência aos mais vulneráveis encontra respaldo direto na tradição cristã. “Dar o que comer para quem tem fome é um ensinamento de Jesus”, afirma, ao citar o Evangelho de Mateus como referência ética central da fé cristã. Para ele, episódios bíblicos mostram que a ajuda imediata não é condicionada previamente à situação de trabalho de quem passa necessidade.

Ao recuperar a tradição protestante, Gonçalves afirma que iniciativas históricas de cuidado social, como práticas diaconais ligadas a Calvino, em Genebra, no século 16, e a atuação social de John Wesley, na Inglaterra, no século 18, demonstram que a assistência aos pobres sempre integrou a prática cristã. Ele também menciona a atuação de Walter Rauschenbusch, estadunidense precursor do Evangelho Social, no início do século 20, e, no Brasil, o trabalho da médica sanitarista católica Zilda Arns, nos séculos 20 e 21..

“Os evangélicos, caso seguissem sua tradição, seriam os primeiros a defender que os mais vulneráveis da sociedade tivessem auxílio e, assim, diminuir a desigualdade que fere o caráter de Deus”, afirma o pastor.

Referências:

Estado de S. Paulo

https://www.estadao.com.br/estadao-verifica/postagem-engana-ao-comparar-numeros-de-beneficiarios-do-bolsa-familia-e-de-empregos-formais/ Acesso em 23 FEV 2026

Portal Câmara dos Deputados

https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2004/lei-10836-9-janeiro-2004-490604-publicacaooriginal-1-pl.html Acesso em 23 FEV 2026

Portal do Governo Federal Ministério do Desenvolvimento

https://www.gov.br/mds/pt-br/noticias-e-conteudos/desenvolvimento-social/noticias-desenvolvimento-social/em-dois-anos-17-4-milhoes-de-pessoas-sairam-da-pobreza-e-ascenderam-de-classe-social Acesso em 23 FEV 2026

G1

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2018/12/08/como-funcionam-programas-nos-moldes-do-bolsa-familia-nas-10-maiores-economias-do-mundo.ghtml Acesso em 23 FEV 2026

ONU

https://openknowledge.fao.org/handle/20.500.14283/cc3017en Acesso em 23 FEV 2026

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https://www.cps.fgv.br/cps/bd/docs/FGVSOCIAL_Classes76a24.pdf

https://projetos.fgv.br/sites/default/files/users/user6/apresentacao_mds_04.pdf?utm_source=portal-fgv&utm_medium=fgvnoticias&utm_id=fgvnoticias-2025-12-05 Acesso em 23 FEV 2026

Governo do Canadá

https://www.canada.ca/en/department-finance/programs/federal-transfers/canada-social-transfer.html Acesso em 23 FEV 2026

Global Alliance

https://globalallianceagainsthungerandpoverty.org/pt-br/country-example/ethiopia-productive-safety-net-program-psnp/ Acesso em 23 FEV 2026

The Wire
https://thewire.in/ptiprnews/indias-unconditional-cash-transfers-grow-23x-in-a-decade-cross-inr-2-8-lakh-crore-project-deep-report  Acesso em 23 FEV 2026

IBGE

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/45761-desocupacao-cai-para-5-1-em-dezembro-e-2025-tem-melhores-resultados-da-serie-historica Acesso em 23 FEV 2026

Brazilian Journal of Development

https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BRJD/article/view/77603/53858 Acesso em 23 FEV 2026

TCU 

https://portal.tcu.gov.br/imprensa/noticias/tcu-determina-devolucao-do-auxilio-emergencial-da-covid-19-recebido-por-militares.htm Acesso em 23 FEV 2026