Do altar às urnas: como lideranças religiosas e políticos ocupam os mesmos palcos em períodos eleitorais

A presença de políticos em cultos religiosos, seja em momentos de oração, bênção ou reconhecimento público, tem se tornado cada vez mais frequente no ambiente evangélico brasileiro. Em diferentes denominações e regiões do país, líderes políticos são recebidos em púlpitos, apresentados às congregações e, em alguns casos, associados simbolicamente à autoridade espiritual das lideranças religiosas.

Esse fenômeno, que se intensifica em períodos eleitorais, levanta questionamentos sobre os limites entre liberdade religiosa e uso de espaços de culto como plataforma de projeção política, tema que já foi analisado pela Justiça Eleitoral e por quem pesquisa religião e política.

O que diz a Justiça Eleitoral sobre cultos e campanha

A discussão ganhou novo fôlego a partir de decisões recentes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que têm reafirmado o entendimento de que a instrumentalização de templos para promoção eleitoral pode configurar abuso de poder político e econômico.

Como já apontou o próprio órgão em julgamento recente, ao negar recurso de candidatos do município paulista de Votorantim nas eleições de 2024. A Corte reforçou que a utilização de igrejas como ambiente de campanha fere a isonomia eleitoral e compromete a integridade do processo democrático, o que foi noticiado por Bereia em maio passado. 

Os políticos haviam utilizado a estrutura e o altar da Igreja do Evangelho Quadrangular local para pedir votos explicitamente durante um culto. Na ocasião, o pastor declarou que a instituição estava “fechada” com os candidatos e convocando os fiéis a trabalharem pela campanha.

No relatório do ministro Antônio Carlos Ferreira, o TSE reafirma que, embora o “abuso de poder religioso” não constitua uma figura jurídica autônoma na legislação, as condutas que instrumentalizam a fé e a estrutura dos templos configuram abuso de poder político e econômico. A decisão ressaltou que a liberdade religiosa não é absoluta e não pode ser invocada como um salvo-conduto para contornar as normas que garantem a igualdade de condições na disputa eleitoral.

Evangélicos reagem criticamente

Se por um lado as cúpulas partidárias e certas lideranças forçam a entrada da política nas igrejas, por outro, os bancos das congregações dão sinais claros de saturação. Ao contrário do que aponta o senso comum de que o voto religioso é de cabresto, a ampla maioria dos fiéis rejeita o avanço dos palanques sobre os altares. Uma pesquisa nacional realizada pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Representação e Legitimidade Democrática (INCT ReDem, da Universidade Federal do Paraná), realizada em 2025, revela que 75% dos evangélicos condenam a realização de campanhas eleitorais dentro dos templos.

O levantamento aponta ainda que a politização escancarada é exceção, não a regra no cotidiano das igrejas. Os dados indicam que 34,1% dos pastores entrevistados afirmaram que lideranças de sua igreja apoiaram algum candidato nas eleições municipais. Embora expressiva, essa proporção mostra que a maior parte do segmento busca preservar o ambiente de culto, mesmo que o índice de engajamento político dos líderes evangélicos seja cerca de duas vezes maior que o registrado entre os católicos (16,9%).

O lugar das Assembleias de Deus

Por ser a maior denominação evangélica do país, com cerca de 13 milhões de seguidores segundo o IBGE, as Assembleias de Deus concentram historicamente o maior assédio de políticos interessados em sua capilaridade. A trajetória do ex-deputado federal Eduardo Cunha (Republicanos-MG) ilustra de forma nítida essa dinâmica. Originalmente membro da igreja Sara Nossa Terra, que contava com pouco mais de 1 milhão de fiéis, Cunha migrou estrategicamente para as Assembleias de Deus para expandir suas bases no Rio de Janeiro. Em um dos episódios gravados na Catedral das Assembleias de Deus em Santa Cruz, o pastor local o apresentou formalmente como o “candidato oficial da nossa convenção”, o que o ajudou a se consagrar como o terceiro deputado mais votado do estado. Em 2024, ao participar do culto que marcou o centenário das igrejas Assembleias de Deus, no Rio de Janeiro, o deputado foi vaiado.

A tradição de abrir as portas para o poder político é personificada hoje pelo pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC). O trânsito de Malafaia entre diferentes forças políticas é antigo: em 2014, a inauguração da nova sede de sua igreja reuniu no mesmo altar nomes como Lindbergh Farias (PT), Eduardo Paes (PSD) e Luiz Fernando Pezão (PMDB). Na época, o respaldo litúrgico de Malafaia funcionou como um verdadeiro “escudo eleitoral” para Pezão concorrer no segundo turno para o governo do Estado do Rio contra Marcelo Crivella (Republicanos). Isto mostrou ao eleitorado tradicional que o candidato do PMDB não possuía hostilidade contra os evangélicos em geral, mas apenas contra a cúpula da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), da qual fazia parte seu concorrente direto.

Desde a campanha eleitoral de 2018, Silas Malafaia abandonou a diversidade e estreitou laços com a família Bolsonaro e partidos da extrema direita. Em maio deste ano, um culto que reuniu o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o ex-governador Cláudio Castro (PL-RJ) e os deputados Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) e Marcelo Crivella (Republicanos-RJ), Malafaia convocou os membros da igreja a estenderem as mãos em direção aos políticos. Proferindo uma oração que pedia “bênção e vitória” nas urnas, o pastor aproveitou o momento sagrado para tecer duras críticas ao governo federal e ao Poder Judiciário, atacando nominalmente o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

Imagem: Reprodução Instagram

O caso da Igreja Batista Atitude

Outro reduto político importante no Rio de Janeiro, neste caso com apoio voltado para a família Bolsonaro, é a Igreja Batista Atitude, liderada pelo pastor Josué Valandro Jr. A congregação, frequentada pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, costuma receber autoridades públicas para momentos de oração. Durante o período em que esteve na Presidência da República (2019-2022), o próprio Jair Bolsonaro participava, com frequência, dos cultos na sede da igreja no bairro da Barra da Tijuca, recebendo, no altar, orações públicas conduzidas pelo pastor.

A atuação de Valandro Jr., no entanto, ultrapassa as preces e assume contornos de blindagem política. O pastor saiu em defesa do pré-candidato à Presidência da República pelo PL Flávio Bolsonaro, após o vazamento de áudios que revelaram o envolvimento do senador com repasses de altos valores em dólares pelo empresário preso por corrupção Daniel Vorcaro. Em suas declarações para a comunidade, o líder religioso afirmou não ver indícios de crime no episódio, criticou o que chamou de distorções políticas da esquerda contra a direita e defendeu que os recursos tratados na conversa eram de natureza puramente privada, legitimando a conduta de Flávio Bolsonaro perante os fiéis.

Imagem: Reprodução do site da revista Comunhão

A postura da Igreja Mundial

Na disputa por espaço e influência com suas concorrentes, a Igreja Mundial do Poder de Deus, liderada pelo apóstolo Valdemiro Santiago, ex-bispo da IURD, também desenha suas alianças políticas. Se no passado a denominação deu sustentação à candidatura de Luiz Fernando Pezão para fazer contraponto à IURD, hoje, ela serve de abrigo para a ressurreição política de Eduardo Cunha, que historicamente mantém forte presença em ambientes evangélicos e articulação com diferentes lideranças religiosas. 

O ex-deputado e ex-presidente Câmara Federal esteve preso de outubro de 2016 até março de 2020, devido a escândalos de corrupção. Depois de obter o direito a prisão domiciliar, Cunha obteve decisões favoráveis no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná), em 2022, para a retirada de tornozeleira eletrônica e teve condenações anuladas pelo STF, além de conseguir a suspensão de sua inelegibilidade pelo TRF-1 (Brasília e mais 13 estados brasileiros: Acre, Amapá, Amazonas, Bahia, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Piauí, Rondônia, Roraima e Tocantins).

Cunha fixou residência em Belo Horizonte (MG),  com o objetivo de construir uma nova base eleitoral para as eleições de 2026, tendo se filiado ao Republicanos e passado a frequentar os cultos da Igreja Mundial como base. A filha, a deputada federal Daniela Cunha (PL-RJ), tem visitado as igrejas da denominação com certa frequência. 

Imagem:Reprodução/Instagram

Em abril de 2025, no culto realizado em Araxá (MG), Cunha sentou-se ao lado do apóstolo Valdemiro Santiago no palco principal. O líder tomou a palavra para elogiá-lo explicitamente, chamando-o de “eterno deputado” e afirmando que ele foi “um dos melhores que já viu”, justificando que as decisões tomadas por Cunha na presidência da Câmara foram fundamentais para a nação, apesar do sofrimento que lhe custaram. Pouco tempo depois, a cena de legitimação se repetiu na sede da igreja no Brás, em São Paulo, onde Cunha dividiu o altar com o apóstolo e com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), consolidando sua reinserção no meio evangélico.

Imagem: Reprodução site da Revista Liberta

A posição da Igreja Internacional da Graça de Deus

Não é apenas na igreja do apóstolo Valdemiro que Eduardo Cunha encontra abertura. Na Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD), liderada pelo missionário R. R. Soares, a fusão entre liderança eclesiástica e representação parlamentar ganha contornos de um modelo corporativo e familiar, servindo também de palco para consolidar suas alianças. 

O ex-deputado estendeu sua rede de influência a R.R. Soares por meio de um expressivo acordo comercial e de comunicação: Cunha cedeu horários em suas novas emissoras de rádio no interior de Minas Gerais para a transmissão da programação religiosa da denominação. O arranjo foi celebrado e declarado abertamente pelo próprio missionário durante um culto na sede de Belo Horizonte, chancelando a proximidade e o apoio mútuo entre a instituição e o político no estado. 

Imagem: Reprodução vídeo YouTube

A prática de aproximar a gestão pública dos interesses da igreja é rotina na IIGD, onde o R. R. R. Soares costuma apresentar políticos aliados diretamente no púlpito. Foi o que aconteceu na inauguração do grande templo de Sorocaba (SP), quando as lideranças pastorais chamaram à frente o prefeito Rodrigo Manga (Republicanos), referindo-se a ele como um “obreiro de Deus” que realizava um trabalho excelente na cidade. Manga, figura central no meio evangélico local, chegou a ser afastado do cargo pela Operação Cópia e Cola da Polícia Federal, por suspeitas de desvios na área da saúde. O prefeito de Sorocaba, porém, retornou ao posto graças a uma liminar impetrada no STF e concedida pelo ministro do STF Kassio Nunes Marques. 

Imagem: Reprodução YouTube

Para além do apoio a aliados externos como Cunha e Manga, R.R. Soares utiliza a estrutura e a capilaridade da denominação para promover a carreira de seus próprios filhos, transformando o rebanho em uma base eleitoral sólida e hereditária. Adotando o slogan “Mesmo sangue, mesma fé e mesmo amor”, o televangelista legitima religiosamente os mandatos de sua família. 

A estratégia tem garantido o sucesso nas urnas de David (Podemos-SP) e Marcos Soares (PSDB-SP) como deputados federais, além de Filipe e Daniel Soares como deputados estaduais no Rio de Janeiro (PSDB) e em São Paulo (União), respectivamente. O único filho fora do parlamento atualmente é André Soares (União), que não conseguiu se reeleger após cumprir três mandatos na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). 

Imagem: Reprodução do site Ongrace.com

O espaço da IURD

Com grande destaque no espaço público, Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) opera a política sob uma lógica de centralização institucional e rígida disciplina de voto. Fundada pelo bispo Edir Macedo, a denominação foi pioneira na criação de um projeto oficial de poder, ocupando um partido político, antes o Partido Republicano do Brasil (PRB), hoje Republicanos. A IURD elege bancadas expressivas na Câmara Federal ao utilizar a estrutura de seus templos, da Rede Record de TV e da Rede Aleluia de Rádio como catalisadores eleitorais.  

A expressão máxima desse projeto é o bispo licenciado e deputado federal Marcelo Crivella (Republicanos-RJ), ex-prefeito do Rio de Janeiro (2013-2016). Sua gestão na Prefeitura ficou marcada pelo tensionamento entre o dever público e os interesses da denominação, cujo ápice foi o escândalo em torno de uma reunião secreta no Palácio da Cidade. Na ocasião, em áudio vazado, Crivella ofereceu a pastores facilidades em cirurgias de catarata e no IPTU de templos, cunhando o famoso jargão: “É só falar com a Márcia”.  

Políticos em contraponto

Em contraposição à exposição frequente dos candidatos nos altares, o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva tem adotado uma postura de maior distanciamento de palanques religiosos durante períodos de campanha eleitoral. Embora tenha frequentado templos ao longo de seus mais de 50 anos de vida pública, o católico Lula hoje defende enfaticamente a separação entre Igreja e Estado. O presidente tem reiterado em seus discursos que a fé constitui um momento de conexão sagrada e intimidade do cidadão, e que não deve ser explorada politicamente para a obtenção de votos. 

Como reflexo prático desse posicionamento, Lula ausentou-se do evento evangélico conduzido pela Igreja Renascer em Cristo Marcha para Jesus, em São Paulo. Ele justificou  que preferia não transformar um encontro de natureza estritamente espiritual em palco para disputas partidárias, buscando preservar o respeito à fé dos fiéis.

Imagem: reprodução/Itatiaia

Esse posicionamento encontra eco direto na atuação do deputado federal Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ). O líder religioso e parlamentar de esquerda manifesta, reiteradamente, em publicações em suas contas nas redes digitais, e em entrevistas que concede à imprensa, um cansaço compartilhado por muitos fiéis que não aceitam ver a mensagem bíblica ser instrumentalizada por projetos personalistas de poder. Vieira enfatiza que o debate público faz parte da caminhada cristã, mas repudia veementemente o controle do voto por meio do constrangimento espiritual.

“Não é sobre tirar o debate público da fé, é sobre impedir que a autoridade espiritual seja usada para controlar voto, punir divergência e transformar culto em comitê”, defende o deputado. Para ele, o papel da igreja deve ser o de zelar pela consciência crítica e pela democracia, mantendo uma distância saudável da idolatria partidária. “A Igreja não é espaço de manipulação. A fé precisa ser espaço de consciência, liberdade, justiça e bem comum, não de idolatria ao poder”.

Somando-se a essa convergência, está a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ), parlamentar histórica com trajetória consolidada na defesa dos direitos sociais e evangélica presbiteriana. Ela tem atuado como um elo central na denúncia contra o pragmatismo eleitoral baseado na fé. 

Benedita da Silva, que vivencia o ambiente religioso muito antes da atual onda de polarização política, desde que foi membro das Assembleias de Deus, argumenta que o papel do cristianismo nos espaços institucionais deve se pautar na promoção da dignidade humana e da justiça, e nunca no sequestro da consciência dos fiéis para benefícios individuais de poder. 

Ao abordar o tema em pronunciamento em fevereiro deste 2026, em sua conta oficial no Instagram, a deputada pontuou de forma contundente. “A fé que eu aprendi no evangelho não anda de mãos dadas com a mentira, porque a mentira aprisiona. Como irmã, eu te peço: não entregue sua fé a quem quer usar o nome de Deus por interesses políticos e eleitorais. Olhe para os frutos. Fé de verdade não se usa, fé de verdade se vive.” A parlamentar reforça que a manipulação do sentimento religioso desidrata o debate democrático e degrada a própria espiritualidade, devendo os fiéis rejeitar candidatos que reduzem a sacralidade do altar a um balcão de negócios por votos. 

Essa postura de preservação do espaço sagrado também ganha contornos dentro do próprio campo da direita conservadora, evidenciando que o desgaste com a partidarização da fé ultrapassa fronteiras ideológicas. Exemplo disso é o posicionamento do deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ). Pastor evangélico e declaradamente de direita, o parlamentar rompeu com o discurso radical ao contestar publicamente a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que afirmou em um culto sofrer perseguição religiosa e ter seu “culto doméstico cerceado”. Ao rebater a narrativa de Michelle Bolsonaro, o deputado classificou a tese de “guerra espiritual” como puro oportunismo político. “É uma narrativa falaciosa, mentirosa, oportunista e para autoproteção essa de que nós estamos diante de uma guerra religiosa. Eu sou a única voz a estar nesse contraponto com eles, única voz dissonante. Porque não quero que levem a igreja para essa vala comum”, declarou.

Para ele, o uso de discursos vitimistas nos altares serve apenas como blindagem para lideranças políticas, rebaixando a fé dos fiéis e a instituição religiosa ao papel de escudo partidário.

O impacto simbólico dos púlpitos e a resistência nas igrejas

A presença de candidatos e lideranças políticas nos púlpitos não produz apenas efeitos eleitorais. Para especialistas que estudam as relações entre religião e política, a prática mobiliza símbolos centrais da experiência religiosa e pode gerar tensões dentro das próprias comunidades de fé.

A pesquisadora em Comunicação, Política e Religiões e editora-geral do Coletivo Bereia Magali Cunha destaca que o altar ocupa um lugar de forte significado para quem participa de uma celebração religiosa. Segundo ela, quando um político é apresentado, homenageado ou abençoado nesse espaço, a mensagem transmitida ultrapassa o gesto protocolar. “Os púlpitos estão em altares, e o altar é uma simbologia muito forte. É o lugar onde se professam os sacramentos, a pregação, as orações de onde parte a ação de culto, a ação celebrativa que envolve a fé coletiva daquelas pessoas”, explica.

Para a pesquisadora, a autoridade simbólica das lideranças religiosas confere peso adicional a esse tipo de exposição pública. Pastores, padres e demais líderes costumam ser reconhecidos por suas comunidades como referências espirituais e morais, o que faz com que manifestações de apoio político produzam impactos que vão além do campo partidário.

Ao mesmo tempo, a pesquisadora ressalta que os frequentadores das igrejas não recebem essas mensagens de forma passiva. Segundo ela, o que foi confirmado na pesquisa da Universidade Federal do Paraná, cresce entre evangélicos a resistência ao uso dos espaços de culto para promoção de projetos políticos específicos. “As pessoas estão cada vez mais críticas nas igrejas a esse abuso religioso de forçar uma relação da fé com personagens específicos. Fere uma ética comunitária, porque não diz respeito a um pastor ou pastora na condução de uma comunidade definir voto de ninguém”, aponta.

Os limites legais e o entendimento da Justiça Eleitoral

Enquanto o debate ético avança dentro das próprias comunidades de fé, a Justiça Eleitoral vem consolidando parâmetros cada vez mais rígidos sobre a participação de candidatos em templos durante períodos eleitorais.

Como mostrou reportagem publicada pelo Bereia, o TSE reafirmou, em maio de 2026, o entendimento de que a utilização de igrejas para promoção eleitoral configura abuso de poder e pode resultar em cassação de mandatos e inelegibilidade. A matéria do Bereia Explica sobre abuso de poder religioso também traz informações sobre a posição da Corte.

Bereia ouviu o professor de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais Alexandre Bahia sobre os casos. Ele explica que a legislação proíbe tanto a propaganda eleitoral quanto a propaganda antecipada em templos religiosos, classificados pela Lei das Eleições como bens de uso comum.

Segundo o jurista, a simples presença de políticos em celebrações religiosas não constitui irregularidade. O problema surge quando o culto é transformado em espaço de promoção eleitoral. “A justiça eleitoral tem certamente uma dificuldade para localizar, em alguns casos, porque não é proibido para pessoas que estão na política frequentar cultos. Mas o que não pode acontecer é a transformação do culto em um palanque, em que seja dada palavra ao líder político ou ao candidato para falar sobre propostas, ou que o líder religioso aponte aquela pessoa como sendo alguém em quem os fiéis devem votar”, explica.

De acordo com Bahia, a irregularidade não se limita ao pedido explícito de votos. A Justiça Eleitoral também pode considerar abusivas situações em que o ambiente de culto é utilizado para promover uma candidatura ou associar determinado político à autoridade religiosa da liderança que conduz a celebração. “Discursos políticos durante a realização da reunião religiosa, qualquer associação de um candidato com a vontade de Deus, ou algo assim, pode inclusive configurar abuso de autoridade por parte do líder religioso”, garante o professor.

O jurista ressalta ainda que as consequências podem ser severas. “As propagandas irregulares têm possibilidade de multa por parte da Justiça Eleitoral e, se configurar abuso de poder político ou abuso de poder econômico, isso pode levar à cassação do registro da candidatura. Se ele já tiver sido eleito, esses fatos podem configurar causa de perda do mandato e inclusive inelegibilidade por oito anos”, completa.

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A linha que separa o exercício legítimo da cidadania e da fé da instrumentalização política dos altares tornou-se um dos terrenos mais vigiados da democracia brasileira. Os dados sociológicos e as manifestações de resistência interna revelam que a grande maioria dos fiéis repudia a transformação dos cultos em comitês eleitorais, exigindo que o espaço sagrado permaneça ético e focado em sua missão espiritual.

Ao mesmo tempo, as decisões recentes e unânimes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mandam um recado claro a candidatos e lideranças eclesiásticas: a liberdade religiosa não é um salvo-conduto para burlar a legislação. A integridade do voto e a igualdade entre os concorrentes continuam sendo os pilares soberanos do processo eleitoral, e o uso abusivo do púlpito como palanque será punido com o rigor da cassação e da inelegibilidade.

Referências

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https://www.conjur.com.br/2026-mai-20/uso-de-igreja-para-promover-candidatos-e-abuso-de-poder-diz-tse/ – Acesso em 22 jun. 2026

Coletivo Bereia https://coletivobereia.com.br/justica-eleitoral-decide-campanha-por-votos-em-templos-religiosos-e-abuso-de-poder-e-e-crime-eleitoral/ – Acesso em 22 jun. 2026

Folha de S.Paulo 

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/03/cada-vez-mais-disputados-evangelicos-rejeitam-campanha-nos-pulpitos.shtml – Acesso em 22 jun. 2026

Instagram – Pastor Henrique Vieira

https://www.instagram.com/reel/DX61-dgO4Ge/ – Acesso em 22 jun. 2026

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O Globo https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2025/05/11/biblia-boi-e-bola-cunha-mira-mg-e-investe-em-estacoes-de-radio-time-de-futebol-e-visitas-a-igreja-e-leilao-de-gado.ghtml – Acesso em 22 jun. 2026

Vai na Fonte 

https://vainafonte.ig.com.br/2025-02-12/eduardo-cunha-comprou-predio-bh-e-candidato-a-deputado-por-mg.html – Acesso em 22 jun. 2026

O Dia 

https://odia.ig.com.br/noticia/brasil/2014-04-06/pezao-e-lindbergh-vao-a-inauguracao-de-templo-de-silas-malafaia.html – Acesso em 22 jun. 2026

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https://temporealrj.com/malafaia-ora-douglas-ruas-bolsonaro-rio/ – Acesso em 22 jun. 2026

Veja

https://veja.abril.com.br/brasil/a-rapida-expansao-da-igreja-que-virou-parada-obrigatoria-para-politicos-do-rio/ – Acesso em 22 jun. 2026

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https://comunhao.com.br/pastor-defende-flavio-apos-audio/ – Acesso em 22 jun. 2026

Tribunal Superior Eleitoral (TSE) 

https://www.tse.jus.br – Acesso em 22 jun. 2026

Ministério Público Eleitoral (MPE) 

https://www.mpf.mp.br/pge – Acesso em 22 jun. 2026

Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3)

https://www.trf3.jus.br – Acesso em 22 jun. 2026

G1 Sorocaba e Jundiaí

https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/ – Acesso em 22 jun. 2026

Veja

https://veja.abril.com.br/coluna/marcela-rahal/deputado-da-frente-evangelica-fala-sobre-polarizacao-na-eleicao-da-bancada

Abuso de poder: quando a liberdade religiosa é instrumentalizada para a disputa eleitoral

A atuação de lideranças religiosas no contexto eleitoral brasileiro coloca em evidência a forma como religião e política se articulam na disputa por votos. Nesse contexto, a religião ultrapassa a dimensão privada ou estritamente institucionalizada e se torna elemento de construção de apoio político, integrando discursos, movimentos e relações no campo eleitoral. 

Essa interação social gera expectativas de representação, identidade e influência no debate público. Ela se expressa por meio de referências religiosas que compõem estratégias de visibilidade, reconhecimento e mobilização, ao mesmo tempo em que suscita diferentes leituras sobre seus efeitos na disputa política. 

A convivência entre religião e política, por si só, não é incompatível com a laicidade do Estado. Em uma democracia, a laicidade não pressupõe a exclusão das religiões da vida pública, mas a garantia de que o Estado não adote uma crença oficial nem favoreça determinadas manifestações religiosas em detrimento de outras. 

A Constituição Federal assegura tanto a liberdade religiosa quanto a separação entre o Estado e as instituições religiosas. Desse modo, a participação de grupos e lideranças religiosas no debate público é considerada legítima e integra o exercício das liberdades democráticas. 

O processo eleitoral é uma das expressões desse sistema democrático e opera sob regras próprias com o objetivo de assegurar a legitimidade da disputa e a igualdade de condições entre as candidaturas. É para preservar esse equilíbrio que determinadas formas de atuação passam a ser observadas pela Justiça Eleitoral. 

A Lei das Eleições (Lei nº 9.504/1997) estabelece regras gerais para o processo eleitoral. O artigo 24 veda o recebimento de doações, diretas ou indiretas, de entidades beneficentes e religiosas, e o artigo 37 impede o uso de bens de uso comum — como templos — para fins eleitorais. Já a Resolução nº 23.732/2024 detalha condutas relacionadas à propaganda eleitoral e ao uso de meios digitais, além de prever mecanismos de responsabilização em casos que possam afetar a integridade do processo eleitoral. 

A recente decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) do caso ocorrido em Votorantim (SP) trouxe à tona a noção de “abuso de poder religioso” no processo eleitoral. Em maio de 2026, o tribunal negou os recursos apresentados pela defesa dos candidatos na chapa da então prefeita para o pleito de 2024, mantendo a inelegibilidade por oito anos da candidata a prefeita e do canditato a vereador. 

Fabíola Alves (PSDB), candidata à reeleição, César Silva, candidato a vice-prefeito (PSDB), e Pastor Lilo (MDB), candidato a vereador subiram ao púlpito durante um culto realizado na Igreja Quadrangular do Reino de Deus, em agosto de 2024, e receberam orações em favor de bons resultados no pleito. O pastor responsável pela celebração afirmou que a igreja estava “fechada” com os candidatos, em sinal de apoio político. 

O TSE manteve a condenação dos candidatos por abuso de poder político e econômico, por entender que houve desvio da finalidade do ambiente religioso para fins eleitorais. Além disso, foi considerado excessivo o reajuste no valor do aluguel pago pela Prefeitura à igreja pelo uso de um imóvel.

Os políticos recorreram à decisão com os argumentos de liberdade religiosa e de que não houve pedido de votos. No entanto, a condenação foi mantida por unanimidade e os ministros reforçaram que a ausência de um pedido direto de voto não elimina o caráter eleitoreiro do evento.

Como a Justiça compreende a relação entre abuso de poder e religião

A utilização de referências, símbolos, posições de autoridade, discursos ou espaços religiosos deixa de ser específica do campo da liberdade religiosa quando é acionada para a obtenção de vantagem eleitoral. Neste caso, a atuação da Justiça Eleitoral não se volta sobre a manifestação da fé em si, mas sobre a forma como ela pode ser mobilizada para influenciar o voto.  

A Lei de Inelegibilidades (Lei Complementar nº 64/1990), no artigo 22, prevê a possibilidade de Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) para apurar condutas que possam configurar abuso de poder político ou econômico e uso indevido dos meios de comunicação no processo eleitoral. Não há, porém, na legislação eleitoral brasileira, uma tipificação específica de “abuso de poder religioso”. 

Em 2020, o TSE julgou recurso relacionado a um caso envolvendo a cassação, pelo Tribunal Regional Eleitoral de Goiás (TRE-GO), do mandato da vereadora de Luziânia (GO) Valdirene Tavares dos Santos (Republicanos), durante a campanha das eleições de 2016. Houve acusação de utilização de espaços e de manifestação de lideranças religiosas para obtenção de apoio político.

O Ministério Público Eleitoral alegava que a então candidata teria pedido votos durante um evento na Assembleia de Deus, em reunião com pastores convocada pelo pai da vereadora, dirigente da igreja no município. O Plenário concluiu que não havia provas robustas suficientes para sustentar a cassação e reverteu a decisão do TRE-GO. 

O ministro Edson Fachin defendeu em seu voto a possibilidade de enquadramento como “abuso de poder religioso”, mas a tese não foi acolhida pela maioria do TSE. A Corte manteve o entendimento de que essas situações devem ser analisadas a partir das hipóteses já previstas na Lei de Inelegibilidades. 

O abuso de poder, na interpretação adotada pela Justiça Eleitoral, está relacionado ao uso excessivo ou indevido de recursos, posições de autoridade ou mecanismos de influência.  É caracterizado quando estas práticas  comprometem a liberdade do voto e a igualdade de oportunidades entre as candidaturas. 

Situações envolvendo lideranças religiosas são analisadas a partir dos critérios de abuso de poder político e econômico previsto na legislação. Isto, especialmente, quando a influência, a autoridade ou a capacidade de mobilização vinculadas a organizações religiosas são empregadas para favorecer uma candidatura. 

Este foi o tom da decisão do caso de Votorantim (SP), neste ano de 2026.

Imagem: reprodução/redes sociais

Como denunciar qualquer forma de abuso na campanha eleitoral

As denúncias de irregularidades eleitorais podem ser encaminhadas ao Ministério Público Eleitoral, à Polícia Federal ou à Justiça Eleitoral de primeira instância, por meio dos canais disponíveis nos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs), nos cartórios eleitorais e nas ouvidorias do Ministério Público Federal (MPF) nos estados. 

São consideradas irregularidades eleitorais envolvendo grupos religiosos condutas como pedido explícito de voto em cultos ou eventos religiosos, uso de templos ou espaços de culto para promoção de candidaturas, exploração da autoridade religiosa para influenciar o voto de fiéis, realização de propaganda eleitoral em locais de culto, utilização de estruturas institucionais de organizações religiosas para favorecimento de candidaturas e situações envolvendo doações ou outras formas de financiamento institucional com impacto no processo eleitoral. 

Situações relacionadas ao descumprimento da legislação eleitoral também podem ser comunicadas à Corregedoria da Justiça Eleitoral ou por meio de ferramentas como o aplicativo Pardal, utilizado para o envio de relatos sobre possíveis irregularidades durante o período eleitoral. A partir dessas comunicações, o Ministério Público Eleitoral, partidos políticos ou candidatos podem propor uma AIJE para apurar condutas.

Referências:

Tribunal Superior Eleitoral

https://temasselecionados.tse.jus.br/temas-selecionados/inelegibilidades-e-condicoes-de-elegibilidade/parte-i-inelegibilidades-e-condicoes-de-elegibilidade/abuso-de-poder-e-uso-indevido-de-meios-de-comunicacao-social/caracterizacao/abuso-do-poder-religioso acesso em 19 MAI 26

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https://www.migalhas.com.br/depeso/449255/abuso-de-poder-religioso-no-tse-e-a-presenca-de-candidatos-em-eventos acesso em 19 MAI 26

Justiça Eleitoral decide: campanha por votos em templos religiosos é abuso de poder e crime eleitoral

O ano eleitoral começou com força total e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que acaba de realizar a transição de sua presidência, assumida pelo ministro Kássio Nunes Marques, também iniciou o ciclo com intensa atividade. Uma das frentes prioritárias é o enfrentamento ao uso dos templos religiosos para fins eleitorais, o que é marcado pelas situações em que púlpitos são transformados em palanques políticos. 

Por isso, o TSE consolidou, em 21 de maio, por unanimidade, sua atuação firme no impedimento do abuso de poder político e econômico no contexto religioso durante períodos eleitorais. Ao negar recurso de candidatos das eleições de 2024, em Votorantim (SP), condenados pelo Tribunal Eleitoral Regional de São Paulo (TRE-SP), a Corte reafirmou que a instrumentalização de templos e da autoridade de líderes religiosos para promoção eleitoral fere os princípios democráticos de igualdade entre os concorrentes.

O TRE-SP havia condenado e cassado a candidatura, com inelegibilidade de oito anos, da prefeita, do vice-prefeito, do PSDB, e de um vereador do MDB, que haviam usado a estrutura da Igreja do Evangelho Quadrangular para, durante um culto pedir votos. Na ocasião o pastor havia declarado: “A Igreja Quadrangular aqui de Votorantim, nós estamos fechados com o pastor Lilo (o vereador)”. Além disso, o culto foi usado para uma convocação aos fiéis para a votação: “A partir do dia 16, nós vamos trabalhar muito”.

Imagem: reprodução

A decisão de negar o recurso, relatada pelo ministro do TSE Antônio Carlos Ferreira, destaca o peso institucional do Tribunal ao aplicar a jurisprudência estabelecida desde 2020. O entendimento da Corte é que, embora não exista a figura jurídica autônoma do “abuso de poder religioso”, a utilização de espaços de culto como plataforma eleitoral configura desvio de finalidade passível de punição pelas leis vigentes.

A decisão ressalta que a liberdade religiosa não é absoluta e não pode ser invocada para contornar normas eleitorais. No caso analisado, o TSE identificou que a exposição de candidatos no altar e a convocação de fiéis para mobilização política desvirtuaram o caráter espiritual do evento. Além disso, a Corte demonstrou rigor ao analisar indícios de abuso econômicos relacionados a contratos entre a gestão municipal e a instituição religiosa, reforçando o papel do Tribunal como guardião da integridade das eleições.

Com esta decisão, o TSE reafirma um precedente importante para o sistema eleitoral brasileiro, sinalizando que a instituição agirá com prontidão para garantir que a estrutura religiosa não seja utilizada como ferramenta de desequilíbrio democrático.

Como denunciar

Os melhores caminhos para denúncias sobre abuso de poder podem ser consultadas nos
canais oficiais do TSE:

Para crimes eleitorais, o TSE orienta o contato com as autoridades policiais, ao
Ministério Público Eleitoral(MPE) ou à autoridade judiciária da zona eleitoral onde
verificou-se a infração; para identificar o contato das zonas eleitorais, o cidadão
pode acessar a página do Tribunal Regional Eleitoral da respectiva Unidade
Federativa;

Para registrar uma denúncia no MPE, o cidadão deve ter uma conta na plataforma
gov.br. O protocolo consiste no preenchimento de um formulário e o ideal é que na
denúncia sejam anexados documentos que sirvam como prova da infração;

Também é possível tirar dúvidas através da ouvidoria do TSE. Para demandas que
não envolvem dados pessoais, a ouvidoria fica disponível presencialmente na sede
do TSE ou pelos telefones: 0800 648 0005 e (61) 3030-8700.


Referências:

Consultor Jurídico 

https://www.conjur.com.br/2026-mai-20/uso-de-igreja-para-promover-candidatos-e-abuso-de-poder-diz-tse/ Acesso em 21 mai 2026

UOL Notícias, 

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/05/21/tse-torna-candidatos-em-sp-inelegiveis-por-usar-igreja-para-se-promover.htm Acesso em 21 mai 2026

Rede Fale propõe manifesto contra o “Voto de Cajado”; leia a íntegra

Um manifesto pela democracia, pelo exercício consciente do voto e da participação popular, com a devida distinção de papéis entre Estado e Igreja. É isto que propõe a Rede FALE, uma organização de promoção da transformação social e de esforços pela justiça social, dignidade humana e defesa dos direitos humanos.

A organização propôs o Manifesto contra o Voto de Cajado no dia 28 de outubro de 2020, que, entre outros pontos, denunciou as práticas de uso do púlpito religioso como espaço de campanha direta ou indireta para candidatos ou partidos, a bênção a um candidato ou partido por líderes religiosos, a venda de apoio político por denominações ou comunidades, a definição de candidaturas “oficiais” de igrejas, a utilização da Bíblia como instrumento para legitimar ou demonizar a candidatura de quaisquer candidatos e qualquer esquema de produção de desinformação.

Abuso de poder religioso nas eleições

Embora o abuso de poder religioso não seja previsto em lei, as regras em vigor estabelecem punições para candidatos que cometem irregularidades e abusos, como indica esta reportagem da Agência Pública, sobre campanhas em templos religiosos.

O Coletivo Bereia, iniciativa de enfrentamento à desinformação em ambientes digitais religiosos, endossa a necessidade do compromisso inegociável com a verdade para que as eleições sejam limpas e justas.

O Manifesto contra o Voto de Cajado na íntegra

Leia o Manifesto da Rede Fale na íntegra abaixo:

1. É chegado mais um momento de corrida eleitoral na democracia brasileira. Tradicionalmente, as eleições são, para muitas pessoas, os únicos momentos em que se propõem debater a participação política. Lamentamos que a reflexão sobre nossa realidade política não seja parte do dia a dia, no acompanhamento de parlamentares, na discussão das grandes questões nacionais, na participação social e no acompanhamento de políticas públicas, o que nos permitiria dar um salto qualitativo na construção de nossa democracia e num projeto de nação mais justo e igualitário, com ética na política e boa governança nas políticas públicas.

2. Como observado desde a redemocratização e de forma crescente nos últimos anos, o voto evangélico é um dos componentes de grande destaque do processo eleitoral. Fruto da maciça expansão evangélica ocorrida nos últimos anos, a participação cada vez mais ativa de figuras evangélicas das mais variadas formas e concepções políticas, bem como de linhas teológicas na política brasileira impõe um desafio de análise a todos que desejam compreender a conjuntura eleitoral. Se, por um lado, o tradicional desinteresse evangélico pela política já foi superado e cada vez mais os crentes deixam de voltar seus olhares apenas para o porvir; por outro, o investimento evangélico na política comporta uma série de práticas distintas e heterodoxas que não estão em consonância nem com a melhor tradição cristã de participação política como William Wilberforce, Martin Luther King Jr., José Míguez Bonino, Guaracy Silveira, Paulo Wright; nem com valores republicanos e democráticos.

3. No Brasil, há dois perigos diante do cristão que compreende que precisa atuar politicamente: O primeiro é achar que simplesmente por “ser crente” está abençoado para a política. Essa é a concepção que leva milhões de brasileiros a votar no “pastor” ou no “irmão abençoado pelo pastor”. Como consequência, muitos parlamentares são eleitos sem compromisso com a justiça ou a democracia, sem coerência partidária, programática ou ideológica, votando sempre para a expansão do poder de suas igrejas, associações, rádios e empresas. Por fim, acaba-se acreditando que a única – e mais rápida – solução para o Brasil é eleger um governante ou parlamentar “crente”, e declarar de boca que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. O segundo problema tem maior profundidade: é quando os cristãos acham que podem transformar a declaração fundamental do “eu creio” da sua fé em lei a ser imposta pelo Estado. Isso ocorre quando queremos reduzir o que consideramos a Revelação de Deus a mera proposição de solução para nossos problemas cotidianos, acreditando que existe uma “política cristã” ou uma “economia cristã”; ou seja, que sistemas políticos e econômicos podem expressar “fé”. No entanto, nossa participação deve atender as necessidades estruturais do país, com justiça, mas não podem expressar fé no sentido da revelação de forma pura e simples.

4. Nós da Rede FALE, cidadãs e cidadãos cristãos compreendemos e identificamos nossa missão na defesa dos direitos humanos e da justiça, temos denunciado há cerca de uma década o “voto de cajado”, assim conceituado a partir de uma metáfora que carrega em si o emblema da modernização conservadora que tanto nos assola: trata-se da releitura das velhas práticas de exercício do poder, incidindo de forma autoritária sobre o comportamento eleitoral da população (consagrado na literatura política como “voto de cabresto”), agora replicadas por pastores evangélicos junto a seus rebanhos nos arraiais evangélicos de todo o país. Evidentemente, nossa denúncia tem por alvo certas formas específicas de interseção entre as campanhas eleitorais e o eleitorado evangélico. Queremos afirmar novamente, de forma clara e inequívoca, nossa perspectiva sobre o que consideramos como “voto de cajado” e uma aberta condenação desta prática como traição à melhor tradição cristã de participação política.

5. Declaramos que a fé não pode ser tratada como moeda para se conseguir vantagens materiais ou simbólicas e, lamentamos que a sede de poder seja ainda hoje uma tentação para muitas lideranças cristãs. Pactos espúrios com partidos ou candidatos para conseguir benefícios para igrejas ou denominações, infelizmente costumam acontecer “por trás dos púlpitos”, durante as campanhas eleitorais. No entanto, o papel da Igreja na sociedade, como bem disse o pastor batista Martin Luther King Jr., não é servir ao Estado ou ser seu senhor, mas zelar para ser sua consciência crítica. Portanto, entendemos que a Igreja, deve estar pronta para o Serviço, para a busca da Justiça e para a propagação do Amor, valores capazes de transformar as estruturas da sociedade.

6. Somos a favor de que haja nas igrejas um processo comunitário de reflexão, oração, que a investigação da estrutura democrática seja costumeira, para que seus membros votem com ética e discernimento.

7. Denunciamos, portanto, como “voto de cajado”, as seguintes práticas e outras similares que atentem contra a democracia.
– O uso do poder pastoral para guiar a consciência dos fiéis, em benefício de qualquer candidato.
– A utilização das Sagradas Escrituras ou de imagens bíblicas, a fim de legitimar a candidatura de uns e demonizar a candidatura de outras figuras públicas.
– A venda da consciência e dos votos dos membros da igreja a algum candidato, em troca de recompensas materiais feitas à liderança, congregação ou denominação.
– A permissão do uso do púlpito como plataforma de propaganda partidária ou de apresentação de quaisquer candidatos para fins eleitorais.
– A transferência da imagem de pastores ou líderes religiosos para candidatos em propaganda eleitoral, afirmando-os como candidatos escolhidos por Deus ou demonizando seus concorrentes.
– O compromisso com a verdade e portanto com o combate ao uso de informações falsas, o combate a destruição de reputações baseada em mentiras. Precisamos identificar e denunciar todo esquema de produção de “fake news”, o que na prática nada mais é do que produção de mentiras.

8. Convocamos os irmãos e irmãs a terem cuidado com lideranças que defendem que as Igrejas tenham “candidatos oficiais”.Que avaliem propostas e programas de governo, que investiguem a trajetória dos candidatos, compreendam quais as principais funções e papéis que serão desempenhados pelos candidatos, votando portanto, com sua consciência!

9. Cumpramos com integridade e espírito público nossa vocação de cidadãos e cidadãs brasileiros. Para os nossos irmãos e irmãs de fé, nosso estímulo é: “Pratique a justiça, ame a misericórdia e ande humildemente com o seu Deus” (Miquéias 6.8).

Manifesto Rede Fale – Voto de Cajado

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Foto de capa: Rede FALE/Reprodução