Bereia Explica: Machosfera, grupos masculinistas e religião 

O Farol e a Forja” é o nome do evento promovido pelo ator Juliano Cazarré, que reacendeu o debate sobre discursos em torno da masculinidade e evidenciou a aproximação entre setores do conservadorismo cristão, discursos políticos e o ecossistema digital, conhecido como popularmente como “machosfera’. 

O evento, que foi divulgado como “o maior encontro de homens do Brasil”, e ganhou muito espaço nas mídias, provocou, ao mesmo tempo, uma intensa quantidade de críticas e reações nas redes digitais. O projeto, que reuniu cerca de 600 participantes para discutir masculinidade, cristianismo e o suposto “enfraquecimento dos homens atualmente”, expôs as tensões atuais sobre papéis de gênero no país. 

Embora o ator promotor da reunião tenha se defendido ao afirmar ser contra movimentos masculinistas extremistas, a iniciativa se insere em um ecossistema mais amplo e estruturado conhecido como “machosfera”. Nesta matéria, o Bereia explica  este  termo e os subgrupos nele contidos, como redpills, incels, Machonaria e Legendários

Aqui se aborda também como a machosfera se organiza nas plataformas digitais e de que forma os discursos propagados dialogam com agendas políticas e culturais no Brasil contemporâneo, especialmente no campo religioso. 

Para compor esta explicação, o Bereia ouviu dois especialistas: a doutora em Sociologia e  pesquisadora do Laboratório de Estudos de Religião e Política, da Fundação Joaquim Nabuco (PE) e colaboradora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) Ana Carolina Marsicano; o doutorando e mestre em Educação, pesquisador do Instituto de Estudos da Religião (ISER) Silas Veloso.

O que é a “machosfera”?

A machosfera é um termo que descreve um conjunto de comunidades digitais, compostas predominantemente por homens, que se articulam em torno de discussões sobre gênero, masculinidades e interações com mulheres. Para a pesquisadora Ana Carolina Marsicano, a definição vai além do debate que ganhou as redes sociais e sites de notícias:

“A machosfera é um ecossistema digital que transforma misoginia, ressentimento masculino e reação ao feminismo em conteúdo, identidade e negócio. Ela reúne influenciadores, fóruns, podcasts e comunidades que difundem visões hierárquicas sobre homens e mulheres, seja por meio do ódio explícito, seja por uma linguagem aparentemente moderada, científica, religiosa ou voltada ao autocuidado. Seu poder está justamente nessa capacidade de revestir desigualdades antigas com uma aparência moderna, racional e aceitável, ao mesmo tempo que converte conflito de gênero em engajamento, audiência e lucro”, explica.

No Brasil, a escala do fenômeno é alarmante. Um levantamento do observatório do NetLab da UFRJ, em parceria com o Ministério das Mulheres, mapeou  em 2024, a existência de conteúdo misógino em pelo menos 137 canais brasileiros no YouTube. Esses espaços digitais produziram mais de 105 mil vídeos, acumulando bilhões de visualizações e gerando fortunas por meio de cursos, mentorias e live streamings, monetizando o ódio e a frustração masculina.

Vocabulário para entender a machosfera e ambientes religiosos:

Misoginia

Embora o termo tenha origem na Grécia Antiga, designando o ódio ou aversão às mulheres, a relevância dele no debate contemporâneo está na forma como foi institucionalizado em práticas de controle social. Historicamente onipresente nas estruturas que estabelecem um poder masculino sobre mulheres (patriarcado). A misoginia opera como um mecanismo de reação contra a perda de privilégios masculinos, com a conquista de direitos pelas mulheres nas diferentes sociedades. Pedagogicamente, ela deve ser compreendida não apenas como um sentimento individual, mas como um sistema de preconceitos que busca manter a subordinação das mulheres por meio da desvalorização e da desqualificação do feminino. A misoginia gera diversas formas de violência, entre elas a física, a psicológica, a simbólica, a patrimonial. Ela assume novas facetas na era digital com pessoas misóginos atuando na promoção destas violências.

Redpills

Movimento masculinista surgido no início dos anos 2000 em fóruns nos Estados Unidos, e popularizado no Brasil com grande intensidade a partir de 2018, principalmente em redes digitais.  Homens “redpills” apropriam-se da metáfora do conhecido filme “Matrix”, cujos personagens eram submetidos a uma pílula vermelha (red pill, no inglês) para “despertarem para a realidade”. Os adeptos deste movimento defendem  que a sociedade moderna é estruturada para favorecer as mulheres e prejudicar os homens, em um sistema que chamam de ginecocentrismo (uma característica ou comportamento em que mulheres se colocariam como o centro de tudo). A ideia é que homens precisam despertar para esta realidade e agir contra ela. Por isso, o grupo prega o desapego emocional e a adoção de estratégias defensivas nas relações afetivas, fundamentando sua visão em uma interpretação cínica e transacional da dinâmica de gênero. Há grupos mais radicais que apregoam o desrespeito à vontade das mulheres até mesmo em atos sexuais (o que resulta no incentivo a estupros).

Incels

O termo, que vem do inglês e significa “celibatários involuntários”, surgiu no final da década de 1990 em comunidades de apoio mútuo nos Estados Unidos. É composto por homens que atribuem sua incapacidade de estabelecer vínculos sexuais ou afetivos a fatores genéticos ou a uma suposta “decadência moral” causada pelo feminismo. O movimento sofreu uma radicalização agressiva ao longo dos anos 2010 em fóruns anônimos da internet, recrutando, principalmente, homens jovens. O discurso incel é marcado por ressentimento com mulheres, transformando frustrações em relacionamentos pessoais em uma ideologia de ódio coletivo que frequentemente desumaniza a figura das mulheres. A série de streaming “Adolescência” representou como ocorre o movimento e consequências dele.

Machonaria

Fundada no Brasil em 2018, a Machonaria apresenta-se como uma confraria cristã dedicada ao resgate do que define como “masculinidade bíblica”. O movimento surge como uma resposta direta à percepção de “emasculação” do homem moderno nas instituições religiosas e sociais, incentivando a retomada da liderança patriarcal no lar e na igreja. A base é a noção de que o homem é o cabeça e a estrutura central da família. Pedagogicamente, o grupo foca na disciplina e na responsabilidade espiritual do homem como provedor e protetor, embora a retórica religiosa frequentemente reforce modelos tradicionais de autoridade em oposição a masculinidades mais plurais. 

Legendários

Criado na Guatemala em 2015 e expandido para o Brasil no final da mesma década, o movimento Legendários utiliza experiências de imersão física extrema e espiritualidade para “quebrantar” o ego masculino diante do poder divino. O grupo busca forjar homens que sejam “inquebrantáveis” frente às tentações morais, promovendo uma estética de vigor, superação de limites e fraternidade guerreira. O movimento propõe uma masculinidade ativa e espiritualmente engajada, mas é destacado por uma ênfase na hierarquia rígida e na simbologia de força de um “homem alfa” (termo atribuído a animais dominantes em um grupo).

A pedagogia da masculinidade entrelaçada com religião

A forma como a machosfera constrói seus discursos, em especial em redes digitais, é o ponto central do alcance que tem. Os influenciadores e produtores de conteúdo apresentam uma visão de mundo na qual o homem deve ser o provedor, protetor, líder e centro moral da família. Às mulheres, reservam-se funções associadas ao cuidado, à maternidade e à submissão. Essa aproximação com a religião não é acidental. O pesquisador Silas Veloso tem estudado sobre redpills, um dos subgrupos mais radicais da machosfera.

“Os redpills não são um movimento religioso. O ponto analítico está nas zonas de contato. Parte desses discursos passou a usar vocabulários cristãos para explicar a ‘crise masculina’ como perda de Deus, disciplina, autoridade familiar e ordem natural”, afirma Veloso. 

No meio evangélico e católico conservador, essa “zona de contato” se manifesta na promoção da “masculinidade bíblica”, na defesa da chefia masculina e na rejeição do que é chamado de “ideologia de gênero”. A escola, nesse contexto, é frequentemente acusada de “feminizar meninos”, deslocando debates relevantes sobre respeito e consentimento para uma ideia de ameaça moral.

A interseção entre a machosfera, a religião e a política brasileira se explica, em grande parte, pela mobilização do medo e do ressentimento. A pesquisadora Christina Vital desenvolveu o conceito de “retórica da perda” para analisar o conservadorismo brasileiro. No artigo “Religião, masculinidade viril e retórica da perda na política brasileira”, ela demonstra como o extremismo conservador se alimenta de um desejo de retorno a um passado idealizado.

“A valorização de um passado (em parte idealizado) e a centralidade que a retomada da autoridade e da ‘‘masculinidade viril’ têm na retórica da perda foram armas importantes na construção do governo de Jair Bolsonaro (PFL/PL, 2019-2022). Nesse sentido, a formação de padrões sociais, reguladores da ação coletiva, não visa retratar necessariamente a maioria, mas estabelecer distinções e hierarquias. A toxicidade do fenômeno reside em atores que procuram conduzir legitimamente esses sentimentos para ‘recolocar a sociedade nos eixos’, desrespeitando a pluralidade e os direitos humanos”, conclui Christina Vital. 

Um ecossistema de violência e lucro

O fenômeno da machosfera não pode ser compreendido apenas como um debate cultural, mas como um ecossistema que pode alimentar ciclos de violência real. A ONU Mulheres alerta que o abuso digital, a misoginia e os discursos de ódio online contribuem para a normalização da violência contra as mulheres no mundo físico. 

Imagens: Exemplo de ação violenta contra mulheres. Portal G1, 10 out 2025; BBC Brasil, 16 out 2025 

A tentativa de separar a machosfera radical (redpills, incels) da busca conservadora por valores tradicionais (como a Machonaria, Legendários e o evento do ator Juliano Cazarré) muitas vezes serve apenas para “lavar” a imagem do movimento, utilizando a religião e o bem-estar masculino como escudos contra críticas. No entanto, como demonstra pesquisa do NetLab da UFRJ, a monetização da frustração masculina e a defesa da hierarquia de gênero são as bases que sustentam esse ecossistema, seja nos fóruns anônimos ou em eventos com 600 pessoas em São Paulo.

O Bereia reforça sua atuação na vigilância contra a desinformação que circula em ambientes religiosos, reiterando que já checou sobre publicações da produtora Brasil Paralelo nessa direção. Trata-se de um documentário com mentiras e enganosos sobre a Lei Maria da Penha, que impõe punições a quem pratica violência doméstica e familiar contra mulheres. O vídeo foi retirado do ar pela Justiça por conta das distorções históricas e jurídicas que veiculava. Esse padrão de manipulação desinformativa manifestou-se de forma grave no marco dos 20 anos da Lei Maria da Penha, neste 2026.

A Rede Record de TV, seguindo a trilha da Brasil Paralelo, pautou uma entrevista com o ex-marido de Maria da Penha Maia Fernandes, para que ele, novamente, expusesse sua versão dos fatos em torno da violência, pela qual já foi condenado judicialmente, depois de tentar matar a ex-esposa, deixando-a paraplégica. A entrevista com Marco Antônio Heredia Viveros seria exibida como planejado, no Programa Domingo Espetacular da emissora, em 9 de agosto passado. Foram amplamente veiculadas na TV e nas redes digitais chamadas e trechos do conteúdo. 

O Instituto Maria da Penha recorreu ao Ministério Público do Ceará (MP-CE) para solicitar a não transmissão da entrevista, depois de não ter obtido resposta da emissora quanto ao mesmo pedido. O instituto, que atua há 17 anos na defesa das mulheres, recorreu a uma decisão judicial de 2024, que impôs medidas cautelares contra Viveros, incluindo a proibição de divulgar o nome ou a imagem de Maria da Penha Fernandes e de duas filhas. A organização alegou ainda a inexistência de duas versões (por isso, a entrevista estaria divulgando mentiras) e a possibilidade de uma nova onda de ataques digitais contra a vítima (o que já havia ocorrido com o documentário da Brasil Paralelo).

Além de tentar dar voz a um agressor condenado a Rede Record acabou provocando a prisão dele. Ao acatar a denúncia do Instituto Maria da Penha, o MP-CE decretou a reclusão de Marco Antônio Viveiros, em 10 de agosto, por descumprimento das determinações da da Justiça que o proibiam de citar a ex-mulher ou divulgar imagens e informações sobre ela. 

O caso acabou sendo objeto de mentiras e falsidades em publicações de políticos e grupos conservadores extremistas que transformaram Viveros e a Rede Record em vítimas de censura. Sobre isto, a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) divulgou nota, na qual repudia e registra indignação contra a produção da entrevista pela Rede Record. A organização  classifica como “escolha grave da emissora” e “desserviço”.

“Não é razoável transformar em fonte jornalística privilegiada justamente aquele cuja violência deu origem a uma das mais importantes mobilizações legislativas brasileiras de proteção às mulheres — especialmente quando ele continua descumprindo determinações judiciais destinadas a proteger a própria vítima e suas filhas. Repudiamos a decisão da Rede Record de realizar essa entrevista. O jornalismo pode ouvir qualquer pessoa, mas responsabilidade editorial também significa saber quando uma entrevista não contribui para informar a sociedade, quando pode revitimizar uma mulher e quando acaba oferecendo espaço indevido a quem não deveria”, diz a nota da Fenaj, que pode ser lida na íntegra aqui.

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A articulação entre misoginia, conservadorismo religioso e da retórica política transforma ressentimento masculino em lucro e influência. Do evento “O Farol e a Forja” e dos encontros dos Legendários e da Machonaria aos canais do YouTube e perfis de mídias sociais com milhões de visualizações, a estratégia é a mesma: retomar hierarquias do gênero masculino sobre o feminino encobrindo-as com linguagem de autocuidado, ciência e fé. 

Em nome da informação digna, Bereia afirma que o  enfrentamento desse fenômeno exige atenção de instituições educativas, comunidades religiosas, famílias, plataformas digitais, Estado e sociedade civil, reafirmando que o enfrentamento da desinformação e da cultura de ódio contra mulheres e contra pessoas LGBTQIA+ é responsabilidade de todas as pessoas de boa vontade.

Algumas pesquisas sobre a machosfera citadas nesta reportagem são desenvolvidas em parceria entre a pesquisadora entrevistada Ana Carolina Marsicano e Maria Eduarda Antonino, também pesquisadora do  Laboratório de Estudos em Religião e Política (Laberp). O trabalho integra uma agenda de investigação voltada às relações entre gênero, religião e política no ambiente digital. Como parte dessa iniciativa, ambas também produzem uma série de conteúdos de divulgação científica sobre o tema no perfil do Instagram Gênero em Disputa.

Referências:

Uol

https://www.uol.com.br/splash/noticias/estadao-conteudo/2026/04/22/juliano-cazarre-e-criticado-apos-criar-evento-para-fortalecer-homens-incompreensivel.html.   Acesso em 10 ago 2026

NetLab

https://netlab.eco.ufrj.br/post/aprenda-a-evitar-esse-tipo-de-mulher-estrat%C3%A9gias-discursivas-e-monetiza%C3%A7%C3%A3o-da-misoginia-no-yout  Acesso em 11 ago 2026

Extra

https://extra.globo.com/entretenimento/noticia/2026/05/quanto-custa-participar-do-evento-de-juliano-cazarre-veja-programacao-palestrantes-e-o-que-ele-promete-ensinar.ghtml Acesso em 11 ago 2026

Nexo

https://pp.nexojornal.com.br/academico/2026/06/10/relacoes-entre-politica-religiao-e-genero-no-brasil-contemporaneo Acesso em 11 ago 2026

ONU Mulheres

O que é a Machosfera? | ONU Mulheres – Brasil  Acesso em 11 Ago 2026

Diadorim

Alvo de ataques transfóbicos, Erika Hilton tem 26 propostas sobre mulheres Acesso em 11 ago 2026

Veja 

A parcela de culpa da TV Record para prisão de ex-marido de Maria da Penha | VEJA Acesso em 11 Ago 2026

Lei Maria da Penha

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm  Acesso em 12 ago 2026

Senado
https://www12.senado.leg.br/noticias/infomaterias/2026/07/a-historia-por-tras-dos-20-anos-da-lei-maria-da-penha  Acesso em 12 ago 2026

G1
https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2026/08/10/por-que-o-instituto-maria-da-penha-pediu-a-suspensao-de-entrevista-com-o-ex-marido-da-ativista-cearense.ghtml  Acesso em 12 ago 2026


Fenaj
https://fenaj.org.br/rede-record-presta-desservico-ao-entrevistar-agressor-de-maria-da-penha/  Acesso em 12 ago 2026

O que é marxismo cultural e como o termo tem sido usado pelo extremismo de direita CARDS

A série especial Bereia Explica analisou o termo “marxismo cultural”, frequentemente usado em discursos políticos e religiosos no Brasil como rótulo conspiratório. Assim como “woke”, a expressão foi ressignificada pelo extremismo de direita para explicar mudanças sociais vistas como ameaças à família e à fé.

Apesar de ser associado à tradição marxista ou à Escola de Frankfurt, o termo não tem base acadêmica.

Segundo o cientista político Jérôme Jamin , a noção de “marxismo cultural” deve ser entendida como um mito político que se apoia em tradições conspiratórias mais antigas, como o “bolchevismo cultural” (como sinônimo de comunismo cultural) propagado pelo nazismo, na Alemanha dos anos 1920 e 1930, que criticava os movimentos modernistas nas artes.

Para historiadores como João Cezar de Castro Rocha, o que se convencionou chamar de “bolsonarismo” se organizou em grande medida a partir dessa retórica de guerra cultural. Já a filósofa Marcia Tiburi classifica o “marxismo cultural” como um rótulo vazio, usado apenas para criar inimigos e justificar perseguições.

O que é woke e por que o termo virou alvo de disputas políticas e religiosas

Woke é uma palavra da língua inglesa: a conjugação do verbo wake, acordar, com o significado de “acordado”. A construção política do termo, nos Estados Unidos, remonta ao século XX, quando ganha significado no vocabulário das pautas afro-americanas. Nesse contexto,  woke tornou-se alerta de vigilância contra a injustiça, hoje o termo é usado em memes, discursos políticos e pregações religiosas de forma bem diferente de sua origem. Importado do debate estadunidense, o termo woke ganhou força no Brasil como rótulo pejorativo.

Esta matéria integra a série especial Bereia Explica sobre termos usados  para desinformação em discursos políticos e religiosos. Nesta primeira parte, são apresentadas  a origem e a trajetória de woke. Na segunda, é introduzido  o conceito de “marxismo cultural”, outro rótulo amplamente difundido em redes religiosas e políticas, também marcado por distorções históricas e ideológicas.

Primeiros registros do termo “Woke”

A National Association for the Advancement of Colored People (NAACP) – maior e mais antigo grupo de direitos civis da América dos Estados Unidos – afirma que, o uso do termo “woke” está documentado desde a década de 1920 e surgiu como um sinal interno ao grupo afro-americano, “incentivando os negros a estarem cientes dos sistemas que os prejudicam e, os colocam em desvantagem”.

O ativista Marcus Garvey, em sua coletânea The Philosophy and Opinions, publicada em 1923, apresenta a inspiradora convocação:

“Wake up Ethiopia! Wake up Africa! Let us work towards the one glorious end of a free, redeemed and mighty nation. Let Africa be a bright star among the constellation of nations.”

Imagem: The Majority Press

Esse apelo pode ser traduzido livremente como: “Acorde, Etiópia! Acorde, África! Trabalhemos em direção ao único e glorioso objetivo de uma nação livre, redimida e poderosa. Que a África seja uma estrela brilhante entre a constelação de nações”. Isto reflete o ideal pan-africanista e o chamado à emancipação coletiva promovido por Garvey, que inspirou o uso do termo woke em outras expressões de busca por justiça para a população negra.

De acordo com o jornalista e escritor Michael Harriot, autor do livro, Black AF History: The Un-Whitewashed Story of America, em 1940, após descobrir que estavam recebendo menos do que seus colegas brancos, o líder de um sindicato de mineiros negros na Virgínia Ocidental, que lançou uma greve contra salários discriminatórios, teria dito, segundo a pesquisa de Harriot: “Estávamos dormindo. Mas continuaremos acordados de agora em diante”

A investigação de Elijah Watson

O jornalista Elijah Watson realizou, em 2017, uma longa pesquisa sobre as origens do termo “woke”. Em uma série de três reportagens, Watson mostrou como o termo nasceu na cultura afro-americana, como sinônimo de estar acordado e atento às injustiças raciais, ganhou nova vida nos anos 2000 nas culturas  hip hop e do soul com artistas como Erykah Badu e Georgia Anne Muldrow Por fim, foi desgastado e transformado em rótulo pejorativo, como sinônimo de radicalismo de esquerda.

📸 Imagem: Disco New Amerykah Part One (4th World War) (2008). Erykah Badu.

Watson analisa que o termo começou a perder força a partir de meados da década de 2010.

Se antes era positivo, sinônimo de consciência crítica, woke passou a ser usado também de forma pejorativa — inclusive por progressistas, que criticavam o uso performático e superficial da palavra. Com o tempo, o termo foi apropriado por influenciadores da extrema direita política como uma caricatura de militância exagerada.

Hoje, assinei um projeto de lei que acaba com a doutrinação woke em nossas escolas e locais de trabalho.
Estamos dando a pais, estudantes e funcionários a capacidade de reagir — Ron DeSantis, 22 de abril de 2022

O percurso do termo woke mostra como uma palavra criada por negros estadunidenses para despertar consciências contra a desigualdade racial foi apropriada pelo público em geral e, depois, distorcida por interesses ideológicos. 

Como lembra o jornalista Elijah Watson, as palavras evoluem rapidamente, e com as redes sociais esse processo se acelera: expressões criadas na comunidade negra logo são absorvidas, diluídas e até caricaturadas. Foi o que aconteceu com “woke”, que deixou de ser alerta contra injustiças para virar rótulo de disputa cultural. O processo teve a colaboração de meios de comunicação tradicionais — que tratam o termo como gíria de moda — e também de políticos interessados em transformá-lo em alvo.

Para especialistas, esse ataque não é apenas a uma palavra, mas à própria possibilidade de ensinar a história e reconhecer a dignidade da população negra. Como resume o escritor Michael Harriot, é mais fácil demonizar uma palavra do que admitir que se está atacando vidas e trajetórias humanas.

Uso político

O uso político do termo woke atingiu seu auge depois dos protestos de 2020 contra o racismo e a violência policial, quando milhões de norte-americanos buscaram aprender mais sobre racismo sistêmico e a história da anti negritude no país. Como resume o NAACP Legal Defense Fund:

“Mas quem é o culpado pela escalada especialmente febril em torno da palavra ‘woke’, que atingiu seu pico após o acerto de contas com a justiça racial de 2020, que na época inspirou uma onda de interesse entre os americanos que buscavam aprender mais sobre o racismo sistêmico e a história da anti-negritude neste país? A resposta, é claro, inclui políticos com motivações políticas e outros atores mal-intencionados que buscam disseminar o medo e impedir o progresso da justiça racial. Mas vai além disso.

Nos Estados Unidos, a disputa em torno da palavra woke chegou à legislação. O exemplo mais emblemático é a Stop WOKE Act , sancionada em 2022 pelo governador da Flórida, Ron DeSantis. A lei apresenta-se como uma defesa da “liberdade contra a doutrinação” nas escolas, proibindo o ensino de princípios associados à Teoria Crítica da Raça (CRT) e classificando treinamentos de diversidade como ilegais no ambiente de trabalho.

À primeira vista, a lei pode soar positiva: afirma incluir a história dos Estados Unidos, do Holocausto, de afro-americanos, hispânicos e mulheres, e se apresenta como proteção contra ideias discriminatórias. No entanto, especialistas e organizações de direitos civis apontam que, na prática, ela funciona como instrumento de censura, restringindo debates sobre racismo estrutural, privilégio e desigualdade. Pesquisadores compararam seus efeitos a antigas leis que proibiam a alfabetização de negros, agora aplicadas à proibição de um ensino crítico sobre raça.

O NAACP Legal Defense Fund alerta que a medida cria um efeito “gélido” nas salas de aula, levando professores e estudantes a se autocensurar por medo de retaliações. Há relatos de docentes que deixaram seus cargos por não terem liberdade de abordar sistemas racistas, além do bloqueio de programas de ensino avançado em estudos afro-americanos. 

Assim, o termo woke, antes usado como alerta contra injustiças, é transformado em inimigo simbólico, mobilizado em políticas públicas que, sob a aparência de neutralidade, promovem o apagamento da história negra e freiam avanços em justiça racial e inclusão.

Como o termo circula em redes religiosas no Brasil

No Brasil, woke se tornou um rótulo genérico, usado em discursos religiosos e políticos como sinônimo de “politicamente correto” (entendido como exagero no ajuste correto da linguagem para evitar discriminações) ou de uma suposta tentativa de “ideologizar” crianças, jovens e até adultos por meio de escolas, universidades, jornais, TVs e filmes. 

Neste enquadramento, praticamente tudo pode ser classificado como woke: desde debates sobre diversidade até produções culturais ou medidas de inclusão social. A palavra funciona, assim, como uma atualização de outros termos já usados no país com o mesmo propósito, como “ideologia de gênero” ou “marxismo cultural”, todos mobilizados para criar a sensação de que valores tradicionais estariam sob ataque.

Além de servir como rótulo genérico, woke foi incorporado às narrativas conspiratórias em redes religiosas no Brasil. Estudos recentes mostram que comunidades no Telegram com agendas anti-woke, anti-gênero e revisionistas formam uma parte central do debate conspiratório nacional. Ao ser usado como “insulto genérico”, “woke” perde seu sentido original de vigilância contra injustiças e passa a operar como arma retórica para controlar a linguagem e limitar os espaços de debate democrático.

Pesquisadores como Isabela Kalil (FESPSP) e Guilherme Casarões (FGV-EAESP) apontam que essa disseminação está ligada à fabricação de discursos polarizados e simplificados, capazes de mobilizar leituras religiosas e conservadoras sobre o presente. 

Em paralelo, trabalhos do Instituto Atlas alertam para o fato de que o discurso político extremista que faz uso da religião para convencer tem reconfigurado o debate público, transformando woke em símbolo — inclusive sob o viés moral — de uma “máxima ameaça” à fé e à família.

A história do termo woke ajuda a entender como as palavras podem atravessar fronteiras culturais e ganhar novos sentidos em contextos distintos. O que nasceu como um chamado afro-americano para vigilância contra a injustiça racial foi absorvido pelo vocabulário popular, diluído pela mídia, apropriado por movimentos políticos e transformado em rótulo pejorativo em disputas ideológicas. 

Nos Estados Unidos, essa transformação chegou ao ponto de orientar legislações que restringem o ensino crítico sobre raça. No Brasil, o termo “woke” circula com força em redes religiosas, apresentados como ameaças à fé e à família, em um processo que mistura moralidade, identidade e política. 

Recuperar a origem e o verdadeiro significado desses termos é, portanto, um passo essencial para evitar simplificações e desinformação e para se compreender como a linguagem pode ser usada tanto para promover consciência quanto para justificar exclusões.

Referências:

A Origem do Woke por Elijah C. Watson. https://www.okayplayer.com/the-origin-of-woke-william-melvin-kelley-is-the-woke-godfather-we-never-acknowledged/698051?utm Acesso em 27 AGO 25

https://www.okayplayer.com/the-origin-of-woke-how-erykah-badu-and-georgia-anne-muldrow-sparked-the-stay-woke-era/451522 Acesso em 27 AGO 25 

https://www.okayplayer.com/the-origin-of-woke-how-the-death-of-woke-led-to-the-birth-of-cancel-culture/411500 Acesso em 27 AGO 25 

Legal Defense Fund (LDF) 

https://www.naacpldf.org/woke-black-bad/

https://www.naacpldf.org/about-us

https://www.naacpldf.org/press-release/florida-educators-and-students-challenge-floridas-discriminatory-stop-woke-act

TIME https://time.com/4830959/oxford-english-dictionary-woke/?utm 

https://time.com/6168753/florida-stop-woke-law/?utm

https://aaregistry.org/story/black-history-and-stay-woke-a-story

http://aaregistry.org/story/the-negro-world-is-published/ 

https://www.amazon.com/Black-AF-History-Whitewashed-America/dp/0358439167

https://www.naacpldf.org/woke-black-bad/?utm_

https://arxiv.org/abs/2409.00325?utm

https://atlasinstitute.org/the-evangelical-populist-nexus-and-democratic-risks-in-brazil/?utm_

https://fundacaofhc.org.br/en/debate/the-far-rights-social-media-strength-ideology-and-strategy/?utm_

https://www.laphamsquarterly.org/migration/manifest-destiny?utm

https://www.jpanafrican.org/ebooks/eBook%20Phil%20and%20Opinions.pdf

Imagem de capa: Freepik

Testemunhas de Jeová são evangélicas? VÍDEO

Com a publicação dos resultados do Censo 2022, que apontaram o crescimento dos evangélicos para mais de um quarto da população brasileira (26,9%), alguns comentários públicos questionaram a metodologia do IBGE por não alocar as Testemunhas de Jeová no grupo evangélico, mas sim em “Outras religiosidades”.

Essa abordagem gerou a percepção de que o número de evangélicos poderia ser ainda maior se essa inclusão fosse feita.

O Censo do IBGE, que não classifica as Testemunhas de Jeová entre católicos e evangélicos, é recurso fundamental para a compreensão da diversidade religiosa do Brasil.

Embora ambos sejam grupos cristãos, as Testemunhas de Jeová se distinguem deles por terem uma interpretação única da Bíblia e uma abordagem específica sobre fé e a prática religiosa, o que justifica a categorização do IBGE.

O pastor e teólogo Átila Augusto, doutorando em Ciência da Religião pela PUC-SP, afirmou ao Bereia que as Testemunhas de Jeová “não são evangélicas, nem do ponto de vista histórico, nem teológico-institucional”. Ele enfatiza que elas “nem reivindicam esse espaço; rejeitam as bases teológicas surgidas com a Reforma Protestante”.

Para saber mais, leia o artigo Por que Testemunhas de Jeová não são classificadas como evangélicas? Bereia explica controvérsia sobre dados do Censo 2022 e distinções doutrinárias

O Estado de Israel é o mesmo do Israel da Bíblia? VÍDEO

Você sabia que o Estado moderno de Israel, fundado em 1948, não é uma continuação direta do Israel bíblico? Muita gente tem usado versículos para justificar ações militares e políticas como se tudo fosse parte de uma mesma história. Mas essa associação é equivocada e perigosa 🤔

Neste vídeo, Bereia explica a diferença entre o Israel da Bíblia e o Estado de Israel moderno.

Quer se aprofundar nesse tema? Leia o artigo “Estado de Israel é o mesmo do Israel da Bíblia?” em Bereia na Educação.

Por que Testemunhas de Jeová não são classificadas como evangélicas? Bereia explica controvérsia sobre dados do Censo 2022 e distinções doutrinárias 

*Matéria atualizada 15/07/2025 para correção de informação


A recente divulgação dos dados do Censo Demográfico de 2022 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) gerou debates, especialmente em relação à classificação de grupos religiosos. Uma das principais discussões levantadas por parte do público evangélico e por comentaristas do tema foi a não inclusão das Testemunhas de Jeová na categoria “evangélicos”, o que, segundo alguns, teria impactado para menos o percentual de crescimento do segmento. 
Diante da repercussão, Bereia buscou especialistas para elucidar os motivos dessa classificação e as distinções teológico-doutrinárias que fundamentam a decisão do IBGE.

Imagem: print site Agência Brasil

O contexto das críticas 

Com a publicação dos resultados do Censo 2022, que apontaram o crescimento dos evangélicos para mais de um quarto da população brasileira (26,9%), alguns comentários públicos questionaram a metodologia do IBGE por não alocar as Testemunhas de Jeová no grupo evangélico, mas sim em “Outras religiosidades”. Essa abordagem gerou a percepção de que o número de evangélicos poderia ser ainda maior se essa inclusão fosse feita.  

Para aprofundar a compreensão sobre a classificação, o Bereia entrevistou o doutor em Ciência da Religião Emerson José Sena da Silveira, professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Segundo o especialista, a decisão do IBGE de enquadrar as Testemunhas de Jeová na categoria “Outras religiosidades” é correta, apesar de se referirem a Jesus Cristo e, genericamente, poderem ser considerados cristãos.

O pesquisador aponta quatro principais divergências doutrinárias e práticas que separam as Testemunhas de Jeová dos evangélicos (protestantes históricos, pentecostais e outros movimentos):

1. Divergência Cristológica: Para as Testemunhas de Jeová, Jesus Cristo não é Deus, mas o primogênito criado por Jeová, nome que consideram o correto e legítimo para Deus. Esta visão contrasta diretamente com a doutrina da Trindade, pilar inegociável para a maioria das denominações evangélicas, que creem em um só Deus manifesto em três pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo).


2. Regras Comportamentais Rigorosas: Testemunhas de Jeová adotam a proibição de transfusões de sangue e retiro e outras restrições associadas ao Antigo Testamento, que não são práticas comuns ou obrigatórias entre evangélicos.


3. Exclusivismo Religioso: Testemunhas de Jeová acreditam ser o único grupo que guarda a interpretação correta da Bíblia, o que as leva a desincentivar relacionamentos e interações sociais fora dele.


4. Abstenção de celebrações, de atuação política e do serviço militar: Testemunhas de Jeová seguem uma postura pacifista, que as impedem de exercer o serviço militar, distanciam-se de manifestações cívico-religiosas e da participação política, o que as diferencia de muitos grupos evangélicos engajados nessas esferas.

O prof. Emerson Sena observa que “estas e outras características fazem das Testemunhas de Jeová uma organização religiosa mais separada das demais organizações cristãs, mais sectária, se usarmos as ideias [do estudioso das religiões] Max Weber sobre seita, que não é um julgamento de valor ou preconceito, mas uma ideia sociológica”.

Corroborando esta análise, o pastor e teólogo Átila Augusto, doutorando em Ciência da Religião pela  PUC-SP, afirmou ao Bereia que as Testemunhas de Jeová “não são evangélicas, nem do ponto de vista histórico, nem teológico-institucional”. Ele enfatiza que elas “nem reivindicam esse espaço; rejeitam as bases teológicas surgidas com a Reforma Protestante”.

As perspectivas

Em consulta aos documentos das Testemunhas de Jeová, Bereia verificou que elas próprias não se identificam como protestantes ou evangélicas. Este grupo religioso considera a crença protestante como uma “doutrina pagã e não bíblica”, defendendo a unicidade de Deus, a quem chamam exclusivamente de Jeová, e veem Jesus Cristo como sua primeira criação e um ser subordinado, não como o Deus Todo-Poderoso. Esta posição é amplamente divulgada em suas publicações oficiais abertas ao acesso público.

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O Censo do IBGE, que não classifica as Testemunhas de Jeová entre católicos e evangélicos, é recurso fundamental para a compreensão da diversidade religiosa do Brasil. Embora ambos sejam grupos cristãos, as Testemunhas de Jeová se distinguem deles por terem uma interpretação única da Bíblia e uma abordagem específica sobre fé e a prática religiosa, o que justifica a categorização do IBGE.

É importante ressaltar que qualquer abordagem sobre o Censo 2022 neste momento tem como base apenas os dados de agrupamento geral de religiões — pois ainda não há acesso aos números referentes aos subgrupos, conforme detalhado no “Apêndice 1 – Composição dos grandes grupos de religião”, que integra o documento do IBGE (2025). A lista inclui categorias como “Evangélicas de Missão” (com subdivisões como luterana, presbiteriana, metodista, batista, congregacional, adventista e outras), “Evangélicas de origem pentecostal” (com várias igrejas específicas), além de “Evangélicas – igrejas evangélicas indígenas” e “Evangélica não determinada”.

As informações completas dos subgrupos religiosos do Censo 2022 ainda será posteriormente divulgada,  possivelmente no segundo semestre de 2025, o que reforça a necessidade de cautela na interpretação inicial dos resultados e a importância de se basear em análises aprofundadas e contextualizadas, como as apresentadas pelo Bereia nesta matéria.

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Imagem de Capa: Divulgação/Testemunhas de Jeová