Combate à corrupção: pauta efetiva ou falácia política?

Da ditadura militar ao caso Banco Master, o discurso anticorrupção reaparece a cada eleição e, com frequência, os “heróis” de um ciclo viram imorais em outro

É fácil encontrar em palanques eleitorais no Brasil personagens que prometem “combater a corrupção”. A frase é tão repetida que já se tornou uma apelação, antes de qualquer proposta concreta de governo. 

Imagem: Reprodução de matéria do site do SBT News, 1 set 2026

Por que esse tema, que deveria ser uma política de Estado permanente, se transforma tantas vezes em bandeira de campanha? E por que, diante de tantas experiências no país, passadas as eleições, os “heróis do combate à corrupção” costumam aparecer, depois, debaixo de acusações que representam tudo o que discursavam antes?

Imagem: Reprodução de matéria no site da revista Veja, 17 mai 2023

Para ter informações seguras sobre o que está em jogo quando esse discurso reaparece com força nas eleições de 2026, Bereia explica o tema. Nesta matéria, é apresentado o conceito de corrupção  de onde vem a naturalização desta prática no Brasil e como, historicamente, ela foi usada como instrumento político, às vezes com resultados efetivos, às vezes como cortina de fumaça.

O que é corrupção, afinal?

Em termos jurídicos e de ciência política, corrupção é o uso de uma posição de poder ou de confiança pública para obter vantagem privada, em desrespeito às normas que deveriam orientar aquela função. Ela não tem um formato único. Entre os principais:

  • Corrupção passiva: quando um agente público solicita ou aceita vantagem indevida.
  • Corrupção ativa: quando alguém oferece ou paga essa vantagem a um agente público.
  • Corrupção administrativa: fraudes em licitações, superfaturamento de obras, contratação sem concurso.
  • Corrupção política ou eleitoral: caixa dois, compra de votos, financiamento ilegal de campanhas.
  • Corrupção sistêmica: quando o desvio deixa de ser exceção e passa a fazer parte da própria engrenagem de funcionamento do Estado ou de instituições privadas, que é o caso de esquemas que atravessam décadas e vários governos e empresas.

Existe ainda uma distinção importante entre a grande corrupção, que movimenta somas bilionárias e estrutura o financiamento da política, e as transgressões que estão no dia a dia das pessoas espalhadas pelo Brasil que raramente são chamadas pelo nome, mas alimentam a mesma lógica.

Uma herança que vem de longe: por que a corrupção está tão arraigada na cultura brasileira?

A naturalização da corrupção no Brasil não nasceu com nenhum partido ou governo recente. Ela remonta à formação colonial do país. Historiadores como Sérgio Buarque de Holanda descreveram, ainda na primeira metade do século 20, um traço estrutural da administração brasileira herdado de Portugal: o patrimonialismo, isto é, a dificuldade histórica de separar o que é público do que é privado. 

Cargos públicos foram, desde o Brasil Colônia, tratados como extensão de favores pessoais. A distribuição de cargos passou a ser feita por meio de laços familiares, apadrinhamento e troca de lealdades, e não por critérios técnicos ou legais.

Esse traço se reproduziu no Império, na Primeira República (o chamado “coronelismo”, com o voto de cabresto e a troca de favores entre poder local e poder central) e seguiu atravessando ciclos democráticos e ditatoriais até hoje. Não se trata de dizer que a corrupção é uma essência do “povo brasileiro”, o que seria uma leitura culturalista e injusta. Diz respeito a reconhecer que as instituições do país foram historicamente construídas com pouca separação entre interesse público e privado, e que essa lógica se perpetuou nas práticas político-administrativas.

No cotidiano, essa mesma lógica aparece em gestos pequenos, tantas vezes vistos como inofensivos: pedir para “dar um jeitinho” e furar uma fila ou para conseguir resolver uma questão pendente; oferecer dinheiro a um guarda de trânsito para evitar uma multa; pedir para não emitir nota fiscal e “fazer mais barato”; oferecer a pacientes uma consulta médica sem recibo com um preço menor; usar uma indicação pessoal para conseguir uma vaga de emprego ou driblar um processo seletivo; sonegar informações na Declaração de Imposto de Renda. 

Isoladamente, esses atos parecem distantes dos esquemas bilionários que ocupam manchetes. Porém, a verdade é que são parte da mesma cultura que trata protocolos públicos como algo negociável. Isto ajuda a explicar por que a indignação seletiva com a “grande corrupção” nem sempre vem acompanhada de reflexão sobre as pequenas corrupções do dia a dia.

Quando o combate à corrupção virou estratégia de campanha política 

Se a corrupção é antiga, o uso político do discurso contra ela também é. Três momentos da história recente ajudam a entender isso.

A ditadura militar (1964–1985) justificou o golpe de 1964, entre outros argumentos, com a promessa de expurgar a “subversão” e a corrupção que, segundo seus articuladores, teriam tomado conta do governo do presidente João Goulart. Na prática, o regime instalado não eliminou a corrupção. Pelo contrário, ela persistiu e, em vários momentos, foi documentada dentro do próprio aparato estatal, como contrabandos na Polícia do Exército, e de estatais como a Petrobras e a Eletrobras, bem como no próprio regime de repressão. Porém, o discurso moralizante serviu para legitimar a suspensão de direitos políticos, a censura e a perseguição a adversários.

A eleição de Fernando Collor de Mello à Presidência da República, em 1989, é outro marco. Collor se apresentou como o “caçador de marajás”, símbolo da luta contra privilégios e desvios do funcionalismo público, e venceu a primeira eleição presidencial direta após a ditadura com base nessa imagem, com a ajuda da imprensa que repercutiu amplamente este discurso.

Imagem: Reprodução da capa da revista Veja, de 23 mar 1988

Menos de três anos depois, o próprio governo de Collor foi derrubado por um processo de impeachment motivado por um esquema de corrupção liderado por seu tesoureiro de campanha, PC Farias. O “herói do combate à corrupção” tornou-se, ele mesmo, protagonista de um dos maiores escândalos da Nova República.

A Operação Lava Jato, deflagrada em 2014, radicalizou esse padrão em escala nacional. Apresentada como a maior operação anticorrupção da história do país, teve como rosto público o então juiz Sérgio Moro, da Vara Federal de Curitiba,  e procuradores da República, com destaque para o paranaense Deltan Dallagnol. Estas personagens foram alçadas à condição de heróis nacionais e figuras centrais da conversação política, com ampla repercussão na imprensa, por quase uma década. 

Imagem: Reprodução de matéria no site G1, de 19 mar 2015

Imagem: Reprodução de matéria no site do Globo, de 16 mar 2020

A operação, de fato,expôs um esquema bilionário de desvios na Petrobras e em obras públicas, com participação de grandes empreiteiras e políticos de diversos partidos. Porém, o desfecho revelou outra face da história: as mensagens obtidas pela reportagem conhecida como “Vaza Jato”, resultante de investigação do Intercept Brasil, mostraram conluio entre o juiz e os procuradores responsáveis pela acusação, com manipulação de provas, articulação indevida de delações premiadas e assédio a testemunhas e vazamentos de informações selecionadas para a imprensa. Estas ilegalidades tiveram interferência direta no cenário político do país e nas eleições, com a destruição da reputação de diversas personagens ligadas a governos anteriores, do Partido dos Trabalhadores, resultando na prisão do ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, em 2018, retirando-o de candidatura nas eleições daquele ano. 

O caso levou o Supremo Tribunal Federal (STF) a declarar, em 2021, a suspeição de Moro no processo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a anular as condenações contra ele.  Deltan Dallagnol e outros procuradores foram também denunciados a instâncias judiciárias sobre as ações ilegais que praticam com pedidos de reclamações disciplinares, sindicâncias, pedidos de providências e Processo Administrativo Disciplinar (PAD).  

O “herói” da Lava Jato Sérgio Moro deixou a magistratura e tornou-se ministro da Justiça do governo de Jair Bolsonaro (2019-2022), que ganhou as eleições em 2018 com base no processo que o juiz havia ajudado a construir. Deltan Dallagnol, para escapar das denúncias, pediu exoneração do cargo de procurador da República enquanto estavam pendentes as análises de reclamações disciplinares, sindicâncias, pedidos de providências e Processo Administrativo Disciplinar (PAD).  Ele se candidatou a deputado federal pelo partido Novo em 2022, porém, apesar de ter vencido, teve a candidatura cassada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 2023. Os ministros do TSE avaliaram que Dallagnol fraudou o processo eleitoral ao pedir exoneração do cargo de procurador, enquanto estava sob investigação por ações ilegais, para escapar da Lei da Ficha Limpa. De acordo com a sentença, os fatos ocorridos no âmbito da Operação Lava Jato se enquadrariam em hipóteses legais de demissão por quebra de dever de sigilo e de decoro, bem como pela prática de improbidade administrativa, o que o impediram de se candidatar.

O padrão que se repete nesses três episódios é semelhante: a corrupção factual e comprovável é usada como discurso de legitimação de um projeto de poder. As personagens que se apresentam como “salvadoras” morais concentram capital político em cima desse discurso. Passado o ciclo, parte desses mesmos personagens aparece envolvida em práticas questionáveis ou é apontada por instituições de controle como tendo agido de forma parcial ou ilegal.

Em outra direção, o caso em relação à figura do ministro do STF Alexandre de Moraes ilustra bem como opera a produção de heróis na cena política. Após os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, o ministro do STF foi alçado, por setores da mídia e da opinião pública, à condição de figura salvadora da democracia. Passou a ser exposto como o magistrado que “conteve” a barbárie e “puniu” os responsáveis. Esse discurso, ainda que ancorada em fatos (os inquéritos, as prisões, os processos em curso) transforma um processo institucional complexo, com suas ambiguidades e disputas de poder, em um enredo simples de bem contra mal, no qual basta confiar na figura do herói para que a Justiça se cumpra. 

O problema é que esse tipo de personificação despolitiza o debate público sobre as causas estruturais que possibilitaram o 8 de janeiro (a tentativa de golpe para perpetuação de um grupo no poder, o financiamento das milícias digitais, a omissão de outras instituições, o papel de certas igrejas e lideranças religiosas na radicalização política) e concentra na figura heroica uma expectativa que nenhuma pessoa, sozinha, pode sustentar. Quando o herói erra, ou quando suas decisões são questionadas, o efeito é duplo: descrença generalizada nas instituições e abertura de espaço para narrativas ainda mais autoritárias, que prometem um “herói” mais eficaz. 

É o caso do coro de críticas de juristas e constitucionalistas (inclusive alinhadas à esquerda política) que apontam excessos de Mores no exercício do cargo. Entre os pontos mais recorrentes estão: a acumulação, nas mãos de um único ministro das funções de investigar, indiciar, decidir medidas cautelares e julgar no mesmo processo (caso do inquérito das “fake news”), o que fragilizaria o contraditório e a ampla defesa; o uso de decisões monocráticas em temas de grande impacto político e social, sem submissão prévia ao colegiado; a determinação de bloqueios de perfis e contas em redes sociais sem debate público amplo sobre os critérios adotados; e a extensão de prazos de sigilo e a abrangência de algumas ordens de busca e apreensão, consideradas por parte da doutrina desproporcionais frente ao princípio da legalidade estrita. 

Para os críticos da postura de Alexandre de Moraes, o problema não é necessariamente o mérito de cada decisão isolada, mas o padrão: um ministro do STF operando com funções que, em uma leitura mais rígida da separação de poderes, caberiam a outras instâncias (polícia, Ministério Público, ou ao colegiado da própria Corte), o que abriria um precedente perigoso independentemente de quem ocupe a cadeira no futuro. 

2026: o roteiro se repete?

A eleição de 2026 traz elementos que, para pesquisadores de comunicação política, lembram esse ciclo histórico, com uma diferença importante: desta vez, o enredo é mais disputado e cruza espectros políticos distintos. Trata-se do caso do Banco Master, de Daniel Vorcaro, considerado o maior rombo financeiro da história do Brasil, pelo volume de recursos desviados por meio de golpes e pelo envolvimento de figuras do mundo empresarial, político e criminal.

Em novembro de 2025, o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial do Banco Master, e seu controlador, Daniel Vorcaro, foi preso em meio a investigações da Polícia Federal sobre um esquema bilionário de fraude contra o sistema financeiro, com rombo estimado em dezenas de bilhões de reais ao Fundo Garantidor de Créditos. 

O caso envolve dezenas de nomes da política que mantiveram contato, receberam pagamentos, doações ou negociaram vantagens com o banqueiro, com maior destaque para o candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) ao pleito de 2026. O candidato do PL é suspeito pelo recebimento de centenas de milhões de reais de Vorcaro, atribuídos por ele à produção de um filme em homenagem ao ex-presidente Jair Bolsonaro, argumento até o momento não comprovado. 

O tema entrou na campanha eleitoral simultaneamente como munição de ataque e como risco para candidatos e para partidos, pois, ao contrário do que o discurso moralista sugere, a proximidade com esquemas de corrupção e de busca de vantagens não é monopólio de um único espectro político. Apesar de a maioria dos nomes citados nas reportagens sobre as investigações da Polícia Federal, sob a guarda do STF, ser relacionada à direita política (senadores, deputados federais, ex-governadores, presidentes de partidos) , há três nomes vinculados à esquerda (ex-ministros e senador).

A crise provocada pelo escândalo do Banco Master, porém, atingiu o próprio STF, quando os próprios ministros que conduziram o inquérito passaram a aparecer nele. Mensagens periciadas no celular de Daniel Vorcaro mostram o nome de Dias Toffoli, relator do caso até fevereiro de 2026, que mencionam possíveis pagamentos cifrados a uma empresa da família do ministro. O processo, então, nesse mês, passou para as mãos de outro ministro do STF, André Mendonça. 

Nesse contexto, o ministro Alexandre Moraes também foi exposto publicamente sob suspeita. Reportagens com o conteúdo das investigações mostraram que o escritório de advocacia da esposa dele, Viviane Barci de Moraes, manteve um contrato de prestação de serviços jurídicos com o Banco Master  no valor total de R$ 131,2 milhões, distribuído em 36 parcelas mensais de cerca de R$ 3,6 milhões entre 2024 e 2027, dos quais R$ 80,2 milhões chegaram a ser efetivamente pagos antes da liquidação do banco, em novembro de 2025. Segundo apuração da Polícia Federal, a partir de metadados extraídos do celular de Daniel Vorcaro, a versão final da minuta do contrato foi editada por um perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”, em janeiro de 2024. 

Em nota, o escritório de advocacia confirmou que o ministro teve acesso ao documento, mas afirmou que sua participação se limitou a uma consulta de compliance sobre eventual impedimento legal, que não foi identificado. Não há, até o momento, acusação formal de irregularidade nessa relação: o episódio soma-se ao conjunto de fatos que motivaram o pedido de investigação sobre a conduta de ministros do STF no caso. 

Uma crise se instalou na Corte, em 1º de setembro de 2026, a quase um mês do primeiro turno das eleições, quando o ministro Mendonça determinou a retirada do sigilo de uma petição. Ela expunha mensagens do banqueiro Daniel Vorcaro apontando um interlocutor, salvo como “Alexandre de Moraes Brasília”. As investigações estão ainda em curso.

Soma-se a este episódio que envolve o ministro André Mendonça, o caso de Fábio Luís Lula da Silva. A Polícia Federal abriu inquérito, autorizado pelo STF, para apurar se o filho mais velho do presidente cometeu tráfico de influência e corrupção ao favorecer uma lobista ligada a um esquema de fraudes contra aposentados e pensionistas do INSS. A CPMI do INSS chegou a autorizar a quebra de sigilo bancário do investigado, com autorização do ministro André Mendonça e nada encontrou. Porém, o próprio relatório de inteligência da Polícia Federal reconheceu que as referências a Fábio Luís nos documentos das investigações sob relatoria de Mendonça foram feitas “sem lastro probatório”. Segundo a própria PF, ele não figurava entre os alvos de medidas no procedimento, e a reunião de menções ao seu nome, mesmo sem elementos que o vinculassem aos desvios, sugeria uma “orientação investigativa não declarada”. 

A defesa de Fábio Luís Lula da Silva lança mão desse relatório para pedir o arquivamento do caso. O episódio ilustra como investigações em curso, e sem provas admitidas pela própria corporação responsável por apurá-las, já circulam na imprensa, durante a campanha eleitoral, como fato consumado, na mesma lógica observada em ciclos eleitorais anteriores.

O paralelo com 2018 é direto: naquele ano, a uma semana do primeiro turno, o então juiz Sergio Moro quebrou o sigilo de um trecho da delação de Antônio Palocci, colaboração que o próprio Ministério Público Federal havia recusado por falta de indícios. O anexo só voltou a público às vésperas da eleição que elegeu Jair Bolsonaro. Anos depois, o STF determinou que aquele material fosse retirado do processo por falta de base probatória. O que se apresenta em 2026, é a mesma lógica: usar a estrutura de investigação sigilosa não para produzir prova e levá-la ao processo, mas para produzir manchetes na imprensa no momento eleitoral mais sensível possível, deixando o desmentido, que sempre ocorre, para depois da votação.

O desgaste no STF chegou a tal ponto que, neste início de setembro de 2026, a própria Polícia Federal formalizou, no relatório de inteligência citado acima, uma queixa contra o ministro Mendonça por suposto abuso de poder e crime de responsabilidade, apontando tratamento assimétrico entre investigados conforme seu espectro político. O decano da Corte, ministro Gilmar Mendes, chegou a comparar publicamente os métodos do caso Master (prisões preventivas usadas como alavanca para delações, vazamentos de trechos sigilosos) às práticas que, anos mais tarde, levaram à anulação de provas e condenações da própria Lava Jato. Alexandre de Moraes, por sua vez, citou o relatório da PF como exemplo de ações indevidas de Mendonça. O episódio expôs uma disputa interna na cúpula do Judiciário sobre até onde vai o combate à corrupção e onde começa o excesso processual, e evidencia como o desgaste dessas instituições de controle pode se tornar, ele mesmo, matéria de disputa política.

André Mendonça passou a ser apresentado na campanha eleitoral, em especial em comícios e atos públicos alinhados à direita política e em espaços religiosos cristãos (o ministro do STF é pastor presbiteriano e foi indicado por Jair Bolsonaro à Corte, em 2021, com o apelido de o “Terrivelmente Evangélico”), como o mais novo “herói do combate à corrupção”.

Imagem: Boneco inflável que homenageia o ministro do STF André Mendonça, em comício do PL na Avenida Paulista, em 7 de setembro passado. Fonte: Mídias sociais

Cuidado quando “combater a corrupção” é a única pauta

Do ponto de vista da comunicação política, há um sinal de alerta que vale destacar: quando a plataforma de um candidato ou candidata se resume ao combate à corrupção, sem que isso venha acompanhado de propostas concretas para educação, saúde, emprego, segurança pública ou desenvolvimento econômico, é sensato desconfiar. Combater a corrupção é um dever de qualquer gestão pública responsável, não é, por si só, um projeto de país.

A pauta anticorrupção funciona, nesses casos, como um atalho retórico: mobiliza indignação moral, produz inimigos claros e dispensa o trabalho mais difícil de apresentar um plano de governo. Historicamente, como mostram a ditadura militar, Collor e a Lava Jato, os personagens que mais instrumentalizaram essa bandeira para chegar ao poder foram, com frequência, os que menos sustentaram um projeto institucional duradouro e, não raro, acabaram implicados nos mesmos crimes que prometeram exterminar.

Reconhecer esse padrão não significa relativizar a corrupção, nem transformar toda denúncia em suspeita de manipulação eleitoral. Significa exigir, de quem se apresenta como o novo herói da vez, a mesma pergunta que caberia a qualquer outro candidato: além de prometer varrer a sujeira, o que o senhor propõe para o Brasil?

Referências

Resenha Eleitoral — Revista Técnica https://www.tre-sc.jus.br/institucional/escola-judiciaria-eleitoral/resenha-eleitoral/revista-tecnica/4a-edicao-jul-dez-2013/corrupcao-um-mapa-analitico. Acesso 8 set. 2026.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1936.

Jus Brasil. https://www.jusbrasil.com.br/artigos/a-operacao-lava-jato-e-o-atropelamento-do-processo-penal-constitucional/1166995450. Acesso 8 set. 2026.

CONSULTOR JURÍDICO. https://conjur.com.br/2019-jul-29/moro-acordo-delacao-palocci-dificil-provar/. Acesso 8 set. 2026.

UOL

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2015/04/01/conheca-dez-historias-de-corrupcao-durante-a-ditadura-militar.html  Acesso 8 set. 2026.

Bereia

https://coletivobereia.com.br/a-quem-interessa-uma-crise-no-stf-a-30-dias-das-eleicoes/  Acesso 8 set 2026

Agência Pública
https://apublica.org/2026/03/banco-master-a-reconstrucao-completa-de-como-uma-fraude-capturou-a-republica/ Acesso 8 set 2026

Bereia Explica: O que é soberania e por que ela é tema de destaque nas eleições 2026?

A campanha eleitoral começou oficialmente neste 16 de agosto. Agora, candidatas e candidatos podem realizar propaganda eleitoral nas ruas e na internet. Com a aproximação das eleições, temas e pautas relacionados à vida no país e às relações do  Brasil com outras nações ganham espaço no debate público. Entre eles está a soberania. Este tema não apareceu em outros processos eleitorais recentes, por que se tornou uma discussão central, inserida nos comícios dos principais candidatos já no primeiro dia de campanha.

O Bereia Explica busca responder esta pergunta mas antes, importa informar o que significa a soberania na agenda de um país e como ela se relaciona à soberania popular.

O que significa soberania quando se discute governança?

A palavra soberania está relacionada às ideias de poder, autonomia e autoridade. No caso de um país, significa a capacidade de seus poderes organizarem sua estrutura política e jurídica, tomarem decisões sobre seu território e definirem suas próprias políticas sem estar subordinado ou sofrer interferência de outro país ou nação. No Brasil, que é uma República, os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário devem atuar por um país soberano.

Isso não significa que estes poderes tenham poder absoluto. O exercício da soberania deve respeitar a Constituição Federal, as leis e os compromissos internacionais assumidos pelo próprio país nas suas relações externas. A soberania também possui uma dimensão interna. Em uma democracia, o poder político tem como centro o povo. É o que a Constituição brasileira define como soberania  popular.

Soberania popular: o poder vem do povo

A Constituição Federal estabelece, em seu artigo 1º, que “todo o poder emana do povo”. Na prática, isso significa que o poder político não pertence, por natureza, a uma pessoa, a um partido ou a um grupo específico. A população exerce esse poder de forma direta ou por meio de representantes escolhidos nas eleições para atuarem nos poderes Executivo (governos federal, estaduais e municipais) e Legislativo (Parlamentos nacional, estaduais e municipais).  

O artigo 14 da Constituição do Brasil determina que a soberania popular é exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos. Esse princípio está na base da democracia brasileira: cada eleitor/eleitora possui o mesmo peso na escolha de seus representantes.

As eleições são uma das principais formas de exercício da soberania popular. Por meio do voto, os cidadãos e cidadãs escolhem quem terá a responsabilidade de exercer cargos públicos e tomar decisões em nome da população.

O voto não entrega um poder pessoal a candidatos. A vitória nas urnas confere legitimidade para o exercício de um mandato público, dentro das regras previstas pela Constituição e pelas leis eleitorais. Após as eleições, governantes eleitos não representam apenas quem votou nele/nela. O mandato é público e deve atender às necessidades e aos direitos do conjunto da população.

Por que o tema soberania entrou na campanha eleitoral em 2026?

A soberania ganhou espaço no debate eleitoral brasileiro em razão de uma conjuntura internacional que passou a se relacionar diretamente com questões políticas internas do país. Em 2025, o Brasil passou a ser alvo de ações dos Estados Unidos que colocaram em xeque a soberania nacional. O regime do presidente Donald Trump determinou altas tarifas sobre produtos brasileiros e associou as medidas ao trabalho feito no Brasil contra crimes nas plataformas digitais, ao processo judicial que condenou e prendeu o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado e ao sistema PIX. Na avaliação estadunidense, as políticas governamentais e decisões econômicas e judiciais brasileiras ameaçariam a segurança nacional, a política externa e a economia dos Estados Unidos. Naquele momento, especialistas já avaliavam que tais ações poderiam atingir a soberania brasileira. 

Em abril de 2025, o secretário de Defesa dos EUA Pete Hegseth afirmou, em entrevista à Fox News, que o governo americano pretendia conter a expansão da China na América Latina, após acusar a gestão Barack Obama de perder influência econômica e cultural na América do Sul e Central.

“Vamos investir no que favorece os interesses americanos no nosso ‘quintal’, à medida que interrompemos a influência chinesa lá”, disse Hegseth à Fox.

No mesmo período, o governo Trump aplicou sanções ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. As medidas foram posteriormente retiradas, em dezembro de 2025, mas o episódio estabeleceu um novo elemento na relação entre os dois países: decisões tomadas por instituições brasileiras se tornaram alvo de uma disputa diplomática a partir de Washington.

O tema ganhou ainda mais peso neste ano de 2026, com eleições para a Presidência da República e para o Congresso Nacional. As tensões impostas pelo governo estadunidense passaram a envolver, além das tarifas e das questões relacionadas ao STF, o debate sobre segurança pública. Em maio, os Estados Unidos designaram o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. A medida gerou reação no Brasil e abriu uma discussão sobre os limites da atuação de um governo estrangeiro diante de questões de segurança pública dentro do território nacional.

A classificação também entrou no debate eleitoral. Antes da decisão, a possibilidade de designação das duas facções como narcoterroristas já era discutida pelo governo Trump e o tema ganhou pressão por aliados do atual candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). Críticos desta candidatura acusam a família Bolsonaro e seguidores de instigarem o governo dos Estados Unidos contra  a soberania brasileira. 

O governo brasileiro contestou a possibilidade de ações extraterritoriais dos Estados Unidos. Em julho, o Ministério das Relações Exteriores informou ao Congresso Nacional que a classificação das facções como narcoterroristas poderia abrir espaço para medidas estadunidenses contra as instituições do Estado brasileiro. O Itamarary afirmou existir possibilidade de uso de força militar dos Estados Unidos em território brasileiro.

Ao mesmo tempo, a questão econômica permaneceu no centro da relação bilateral. Neste ano, o governo Trump voltou a impor tarifas sobre produtos brasileiros, em meio às negociações e às disputas políticas entre os dois países. Em agosto, o governo brasileiro iniciou um processo que pode levar à adoção de medidas de reciprocidade contra os Estados Unidos.

Em 11 de agosto passado, um vídeo publicado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos sobre ‘domínio’ no Hemisfério Ocidental voltou a colocar em evidência a Doutrina Monroe, base histórica da política externa americana de submissão da América Latina, desde o século 10.

Imagem: reprodução/X

No vídeo publicado na plataforma X o governo Trump afirma que a ‘dominância americana’ na região ‘nunca mais será questionada’. Por meio desta ideologia política, ditaduras no continente, como a do Brasil (1964-1985) foram apoiadas e sustentadas pelos Estados Unidos. O vídeo foi divulgado um dia após a China pedir para participar das consultas abertas pelo Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros.

É nesse contexto que a defesa da soberania passou a ocupar um espaço mais evidente na campanha eleitoral. O conceito deixou de aparecer apenas em debates sobre relações internacionais ou defesa nacional e passou a se relacionar diretamente com questões que fazem parte da disputa política brasileira: o processo judicial contra Bolsonaro, a atuação do STF, as relações comerciais com os Estados Unidos, as políticas de segurança pública e as eleições de 2026.

A discussão também envolve a influência de governos estrangeiros sobre decisões internas do Brasil. Assim, as medidas adotadas pelo governo de Trump passaram a ser relacionadas ao cenário eleitoral brasileiro, especialmente por seus efeitos sobre questões políticas e institucionais do país. É importante, porém, distinguir a interpretação sobre possíveis impactos eleitorais dos fatos objetivos, como as tarifas impostas ao Brasil, as sanções contra autoridades brasileiras e as medidas relacionadas às organizações criminosas.

O debate, portanto, não se resume a uma disputa comercial entre dois países. As medidas adotadas por Washington passaram a tocar assuntos que pertencem ao funcionamento interno do Estado brasileiro. É justamente essa aproximação entre pressões externas, decisões nacionais e disputa eleitoral que colocou a soberania no centro do debate de 2026.

Desta forma, as eleições ganham importância porque definem quem terá a responsabilidade de conduzir o Estado e tomar decisões que afetam a população. Por isso, a soberania passou a aparecer em propostas e discursos de candidatos, com o levantamento de suspeitas sobre os interesses dos Estados Unidos nas pressões aplicadas, em torno de questões como recursos naturais, energia, tecnologia, economia, defesa do território.

Soberania nos primeiros discursos da campanha 

Durante os primeiros atos da campanha eleitoral desta ano, o presidente da República Luís  Inácio Lula da Silva (PT), em.busca de reeleição, associou a soberania nacional à proteção dos recursos naturais brasileiros. Ele defende que o país tenha autonomia sobre a exploração de terras raras. 

Imagem: reprodução/Youtube

Já Flávio Bolsonaro (PL) relacionou  a soberania à pauta da segurança pública e ao controle de áreas dominadas por organizações criminosas. Embora os temas possam se relacionar, soberania e segurança pública não são sinônimos: a primeira diz respeito à autonomia do Estado e à autoridade sobre seu território, enquanto a segunda envolve a proteção da população, que é responsabilidade direta dos governos estaduais.

Imagem: reprodução/Youtube

Os exemplos mostram que a palavra pode assumir diferentes sentidos no debate eleitoral. Por isso, ao se ouvir propostas sobre “defesa” ou “recuperação” da soberania, é importante observar o contexto, o problema abordado e as medidas apresentadas. O significado do termo não muda conforme o discurso político; o que muda é a forma como cada candidato o utiliza para defender suas propostas e apresentar sua visão sobre os problemas do país. 

Referências:

Constituição Federal de 1988. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em 18 de ago de 2026.

G1. https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/noticia/2026/08/16/campanha-eleitoral-comeca-neste-domingo-entenda-o-que-muda.ghtml. Acesso em 18 de ago de 2026.

Tribunal Superior Eleitoral. https://www.tse.jus.br/institucional/escola-judiciaria-eleitoral/publicacoes/revistas-da-eje/artigos/revista-eletronica-eje-n.-1-ano-5/ilegitimidade-do-comite-financeiro-para-interpor-recurso-eleitoral. Acesso em 18 de ago de 2026.

Agência Pública. https://apublica.org/2026/08/lancamento-das-campanhas-de-lula-e-flavio-o-que-voce-nao-viu/. Acesso em 18 de ago de 2026.

Jus Brasil. https://www.jusbrasil.com.br/artigos/o-que-e-soberania-no-sentido-politico-juridico/4260794965. Acesso em 18 de ago de 2026.

BBC News Brasil. https://www.bbc.com/portuguese/articles/clyjj0ykp55o. Acesso em 18 de ago de 2026.

https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/a-nova-ameaca-de-trump-contra-o-brasil/.  Acesso em 18 de ago de 2026.

https://apublica.org/2026/08/os-eua-ja-estao-interferindo-nas-eleicoes-brasileiras/.  Acesso em 18 de ago de 2026.

The Conversation. . https://theconversation.com/quando-a-soberania-de-um-pais-vira-barganha-as-pressoes-hemisfericas-na-era-trump-2-0-262476.  Acesso em 18 de ago de 2026.

Congresso em foco. https://www.congressoemfoco.com.br/coluna/110576/soberania-nao-se-negocia-nao-se-vende-e-nem-se-renuncia.  Acesso em 18 de ago de 2026.

Monitor Mercantil. https://monitormercantil.com.br/diante-da-ameaca-dos-eua-defender-a-soberania-e-a-unica-opcao-digna-para-o-povo-brasileiro/.  Acesso em 18 de ago de 2026.

Intercept Brasil. https://www.intercept.com.br/2026/08/10/trump-e-rubio-ameacam-soberania-do-brasil/.  Acesso em 18 de ago de 2026.

Relações exteriores. https://relacoesexteriores.com.br/eua-receita-soberania-brasileira-risco/.  Acesso em 18 de ago de 2026.

Jornal da Usp. https://jornal.usp.br/radio-usp/ameacas-de-trump-atacam-soberania-nacional/.  Acesso em 18 de ago de 2026.

Publica. https://apublica.org/2026/08/os-eua-ja-estao-interferindo-nas-eleicoes-brasileiras/. Acesso em 18 de ago de 2026.

Outras Palavras. https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/a-nova-ameaca-de-trump-contra-o-brasil/. Acesso em 18 de ago de 2026.

Bereia Explica: Machosfera, grupos masculinistas e religião 

“O Farol e a Forja” é o nome do evento promovido pelo ator Juliano Cazarré, que reacendeu o debate sobre discursos em torno da masculinidade e evidenciou a aproximação entre setores do conservadorismo cristão, discursos políticos e o ecossistema digital, conhecido como popularmente como “machosfera’. 

O evento, que foi divulgado como “o maior encontro de homens do Brasil”, e ganhou muito espaço nas mídias, provocou, ao mesmo tempo, uma intensa quantidade de críticas e reações nas redes digitais. O projeto, que reuniu cerca de 600 participantes para discutir masculinidade, cristianismo e o suposto “enfraquecimento dos homens atualmente”, expôs as tensões atuais sobre papéis de gênero no país. 

Embora o ator promotor da reunião tenha se defendido ao afirmar ser contra movimentos masculinistas extremistas, a iniciativa se insere em um ecossistema mais amplo e estruturado conhecido como “machosfera”. Nesta matéria, o Bereia explica  este  termo e os subgrupos nele contidos, como redpills, incels, Machonaria e Legendários. 

Aqui se aborda também como a machosfera se organiza nas plataformas digitais e de que forma os discursos propagados dialogam com agendas políticas e culturais no Brasil contemporâneo, especialmente no campo religioso. 

Para compor esta explicação, o Bereia ouviu dois especialistas: a doutora em Sociologia e  pesquisadora do Laboratório de Estudos de Religião e Política, da Fundação Joaquim Nabuco (PE) e colaboradora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) Ana Carolina Marsicano; o doutorando e mestre em Educação, pesquisador do Instituto de Estudos da Religião (ISER) Silas Veloso.

O que é a “machosfera”?

A machosfera é um termo que descreve um conjunto de comunidades digitais, compostas predominantemente por homens, que se articulam em torno de discussões sobre gênero, masculinidades e interações com mulheres. Para a pesquisadora Ana Carolina Marsicano, a definição vai além do debate que ganhou as redes sociais e sites de notícias:

“A machosfera é um ecossistema digital que transforma misoginia, ressentimento masculino e reação ao feminismo em conteúdo, identidade e negócio. Ela reúne influenciadores, fóruns, podcasts e comunidades que difundem visões hierárquicas sobre homens e mulheres, seja por meio do ódio explícito, seja por uma linguagem aparentemente moderada, científica, religiosa ou voltada ao autocuidado. Seu poder está justamente nessa capacidade de revestir desigualdades antigas com uma aparência moderna, racional e aceitável, ao mesmo tempo que converte conflito de gênero em engajamento, audiência e lucro”, explica.

No Brasil, a escala do fenômeno é alarmante. Um levantamento do observatório do NetLab da UFRJ, em parceria com o Ministério das Mulheres, mapeou  em 2024, a existência de conteúdo misógino em pelo menos 137 canais brasileiros no YouTube. Esses espaços digitais produziram mais de 105 mil vídeos, acumulando bilhões de visualizações e gerando fortunas por meio de cursos, mentorias e live streamings, monetizando o ódio e a frustração masculina.

Vocabulário para entender a machosfera e ambientes religiosos:

Misoginia

Embora o termo tenha origem na Grécia Antiga, designando o ódio ou aversão às mulheres, a relevância dele no debate contemporâneo está na forma como foi institucionalizado em práticas de controle social. Historicamente onipresente nas estruturas que estabelecem um poder masculino sobre mulheres (patriarcado). A misoginia opera como um mecanismo de reação contra a perda de privilégios masculinos, com a conquista de direitos pelas mulheres nas diferentes sociedades. Pedagogicamente, ela deve ser compreendida não apenas como um sentimento individual, mas como um sistema de preconceitos que busca manter a subordinação das mulheres por meio da desvalorização e da desqualificação do feminino. A misoginia gera diversas formas de violência, entre elas a física, a psicológica, a simbólica, a patrimonial. Ela assume novas facetas na era digital com pessoas misóginos atuando na promoção destas violências.

Redpills

Movimento masculinista surgido no início dos anos 2000 em fóruns nos Estados Unidos, e popularizado no Brasil com grande intensidade a partir de 2018, principalmente em redes digitais. Homens “redpills” apropriam-se da metáfora do conhecido filme “Matrix”, cujos personagens eram submetidos a uma pílula vermelha (red pill, no inglês) para “despertarem para a realidade”. Os adeptos deste movimento defendem  que a sociedade moderna é estruturada para favorecer as mulheres e prejudicar os homens, em um sistema que chamam de ginecocentrismo (uma característica ou comportamento em que mulheres se colocariam como o centro de tudo). A ideia é que homens precisam despertar para esta realidade e agir contra ela. Por isso, o grupo prega o desapego emocional e a adoção de estratégias defensivas nas relações afetivas, fundamentando sua visão em uma interpretação cínica e transacional da dinâmica de gênero. Há grupos mais radicais que apregoam o desrespeito à vontade das mulheres até mesmo em atos sexuais (o que resulta no incentivo a estupros).

Incels

O termo, que vem do inglês e significa “celibatários involuntários”, surgiu no final da década de 1990 em comunidades de apoio mútuo nos Estados Unidos. É composto por homens que atribuem sua incapacidade de estabelecer vínculos sexuais ou afetivos a fatores genéticos ou a uma suposta “decadência moral” causada pelo feminismo. O movimento sofreu uma radicalização agressiva ao longo dos anos 2010 em fóruns anônimos da internet, recrutando, principalmente, homens jovens. O discurso incel é marcado por ressentimento com mulheres, transformando frustrações em relacionamentos pessoais em uma ideologia de ódio coletivo que frequentemente desumaniza a figura das mulheres. A série de streaming “Adolescência” representou como ocorre o movimento e consequências dele.

Machonaria

Fundada no Brasil em 2018, a Machonaria apresenta-se como uma confraria cristã dedicada ao resgate do que define como “masculinidade bíblica”. O movimento surge como uma resposta direta à percepção de “emasculação” do homem moderno nas instituições religiosas e sociais, incentivando a retomada da liderança patriarcal no lar e na igreja. A base é a noção de que o homem é o cabeça e a estrutura central da família. Pedagogicamente, o grupo foca na disciplina e na responsabilidade espiritual do homem como provedor e protetor, embora a retórica religiosa frequentemente reforce modelos tradicionais de autoridade em oposição a masculinidades mais plurais. 

Legendários

Criado na Guatemala em 2015 e expandido para o Brasil no final da mesma década, o movimento Legendários utiliza experiências de imersão física extrema e espiritualidade para “quebrantar” o ego masculino diante do poder divino. O grupo busca forjar homens que sejam “inquebrantáveis” frente às tentações morais, promovendo uma estética de vigor, superação de limites e fraternidade guerreira. O movimento propõe uma masculinidade ativa e espiritualmente engajada, mas é destacado por uma ênfase na hierarquia rígida e na simbologia de força de um “homem alfa” (termo atribuído a animais dominantes em um grupo).

A pedagogia da masculinidade entrelaçada com religião

A forma como a machosfera constrói seus discursos, em especial em redes digitais, é o ponto central do alcance que tem. Os influenciadores e produtores de conteúdo apresentam uma visão de mundo na qual o homem deve ser o provedor, protetor, líder e centro moral da família. Às mulheres, reservam-se funções associadas ao cuidado, à maternidade e à submissão. Essa aproximação com a religião não é acidental. O pesquisador Silas Veloso tem estudado sobre redpills, um dos subgrupos mais radicais da machosfera.

“Os redpills não são um movimento religioso. O ponto analítico está nas zonas de contato. Parte desses discursos passou a usar vocabulários cristãos para explicar a ‘crise masculina’ como perda de Deus, disciplina, autoridade familiar e ordem natural”, afirma Veloso. 

No meio evangélico e católico conservador, essa “zona de contato” se manifesta na promoção da “masculinidade bíblica”, na defesa da chefia masculina e na rejeição do que é chamado de “ideologia de gênero”. A escola, nesse contexto, é frequentemente acusada de “feminizar meninos”, deslocando debates relevantes sobre respeito e consentimento para uma ideia de ameaça moral.

A interseção entre a machosfera, a religião e a política brasileira se explica, em grande parte, pela mobilização do medo e do ressentimento. A pesquisadora Christina Vital desenvolveu o conceito de “retórica da perda” para analisar o conservadorismo brasileiro. No artigo “Religião, masculinidade viril e retórica da perda na política brasileira”, ela demonstra como o extremismo conservador se alimenta de um desejo de retorno a um passado idealizado.

“A valorização de um passado (em parte idealizado) e a centralidade que a retomada da autoridade e da ‘‘masculinidade viril’ têm na retórica da perda foram armas importantes na construção do governo de Jair Bolsonaro (PFL/PL, 2019-2022). Nesse sentido, a formação de padrões sociais, reguladores da ação coletiva, não visa retratar necessariamente a maioria, mas estabelecer distinções e hierarquias. A toxicidade do fenômeno reside em atores que procuram conduzir legitimamente esses sentimentos para ‘recolocar a sociedade nos eixos’, desrespeitando a pluralidade e os direitos humanos”, conclui Christina Vital. 

Um ecossistema de violência e lucro

O fenômeno da machosfera não pode ser compreendido apenas como um debate cultural, mas como um ecossistema que pode alimentar ciclos de violência real. A ONU Mulheres alerta que o abuso digital, a misoginia e os discursos de ódio online contribuem para a normalização da violência contra as mulheres no mundo físico. 

Imagens: Exemplo de ação violenta contra mulheres. Portal G1, 10 out 2025; BBC Brasil, 16 out 2025 

A tentativa de separar a machosfera radical (redpills, incels) da busca conservadora por valores tradicionais (como a Machonaria, Legendários e o evento do ator Juliano Cazarré) muitas vezes serve apenas para “lavar” a imagem do movimento, utilizando a religião e o bem-estar masculino como escudos contra críticas. No entanto, como demonstra pesquisa do NetLab da UFRJ, a monetização da frustração masculina e a defesa da hierarquia de gênero são as bases que sustentam esse ecossistema, seja nos fóruns anônimos ou em eventos com 600 pessoas em São Paulo.

O Bereia reforça sua atuação na vigilância contra a desinformação que circula em ambientes religiosos, reiterando que já checou sobre publicações da produtora Brasil Paralelo nessa direção. Trata-se de um documentário com mentiras e enganosos sobre a Lei Maria da Penha, que impõe punições a quem pratica violência doméstica e familiar contra mulheres. O vídeo foi retirado do ar pela Justiça por conta das distorções históricas e jurídicas que veiculava. Esse padrão de manipulação desinformativa manifestou-se de forma grave no marco dos 20 anos da Lei Maria da Penha, neste 2026.

A Rede Record de TV, seguindo a trilha da Brasil Paralelo, pautou uma entrevista com o ex-marido de Maria da Penha Maia Fernandes, para que ele, novamente, expusesse sua versão dos fatos em torno da violência, pela qual já foi condenado judicialmente, depois de tentar matar a ex-esposa, deixando-a paraplégica. A entrevista com Marco Antônio Heredia Viveros seria exibida como planejado, no Programa Domingo Espetacular da emissora, em 9 de agosto passado. Foram amplamente veiculadas na TV e nas redes digitais chamadas e trechos do conteúdo. 

O Instituto Maria da Penha recorreu ao Ministério Público do Ceará (MP-CE) para solicitar a não transmissão da entrevista, depois de não ter obtido resposta da emissora quanto ao mesmo pedido. O instituto, que atua há 17 anos na defesa das mulheres, recorreu a uma decisão judicial de 2024, que impôs medidas cautelares contra Viveros, incluindo a proibição de divulgar o nome ou a imagem de Maria da Penha Fernandes e de duas filhas. A organização alegou ainda a inexistência de duas versões (por isso, a entrevista estaria divulgando mentiras) e a possibilidade de uma nova onda de ataques digitais contra a vítima (o que já havia ocorrido com o documentário da Brasil Paralelo).

Além de tentar dar voz a um agressor condenado a Rede Record acabou provocando a prisão dele. Ao acatar a denúncia do Instituto Maria da Penha, o MP-CE decretou a reclusão de Marco Antônio Viveiros, em 10 de agosto, por descumprimento das determinações da da Justiça que o proibiam de citar a ex-mulher ou divulgar imagens e informações sobre ela. 

O caso acabou sendo objeto de mentiras e falsidades em publicações de políticos e grupos conservadores extremistas que transformaram Viveros e a Rede Record em vítimas de censura. Sobre isto, a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) divulgou nota, na qual repudia e registra indignação contra a produção da entrevista pela Rede Record. A organização  classifica como “escolha grave da emissora” e “desserviço”.

“Não é razoável transformar em fonte jornalística privilegiada justamente aquele cuja violência deu origem a uma das mais importantes mobilizações legislativas brasileiras de proteção às mulheres — especialmente quando ele continua descumprindo determinações judiciais destinadas a proteger a própria vítima e suas filhas. Repudiamos a decisão da Rede Record de realizar essa entrevista. O jornalismo pode ouvir qualquer pessoa, mas responsabilidade editorial também significa saber quando uma entrevista não contribui para informar a sociedade, quando pode revitimizar uma mulher e quando acaba oferecendo espaço indevido a quem não deveria”, diz a nota da Fenaj, que pode ser lida na íntegra aqui.

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A articulação entre misoginia, conservadorismo religioso e da retórica política transforma ressentimento masculino em lucro e influência. Do evento “O Farol e a Forja” e dos encontros dos Legendários e da Machonaria aos canais do YouTube e perfis de mídias sociais com milhões de visualizações, a estratégia é a mesma: retomar hierarquias do gênero masculino sobre o feminino encobrindo-as com linguagem de autocuidado, ciência e fé. 

Em nome da informação digna, Bereia afirma que o  enfrentamento desse fenômeno exige atenção de instituições educativas, comunidades religiosas, famílias, plataformas digitais, Estado e sociedade civil, reafirmando que o enfrentamento da desinformação e da cultura de ódio contra mulheres e contra pessoas LGBTQIA+ é responsabilidade de todas as pessoas de boa vontade.

Algumas pesquisas sobre a machosfera citadas nesta reportagem são desenvolvidas em parceria entre a pesquisadora entrevistada Ana Carolina Marsicano e Maria Eduarda Antonino, também pesquisadora do  Laboratório de Estudos em Religião e Política (Laberp). O trabalho integra uma agenda de investigação voltada às relações entre gênero, religião e política no ambiente digital. Como parte dessa iniciativa, ambas também produzem uma série de conteúdos de divulgação científica sobre o tema no perfil do Instagram Gênero em Disputa.

Referências:

Uol

https://www.uol.com.br/splash/noticias/estadao-conteudo/2026/04/22/juliano-cazarre-e-criticado-apos-criar-evento-para-fortalecer-homens-incompreensivel.html.   Acesso em 10 ago 2026

NetLab

https://netlab.eco.ufrj.br/post/aprenda-a-evitar-esse-tipo-de-mulher-estrat%C3%A9gias-discursivas-e-monetiza%C3%A7%C3%A3o-da-misoginia-no-yout  Acesso em 11 ago 2026

Extra

https://extra.globo.com/entretenimento/noticia/2026/05/quanto-custa-participar-do-evento-de-juliano-cazarre-veja-programacao-palestrantes-e-o-que-ele-promete-ensinar.ghtml Acesso em 11 ago 2026

Nexo

https://pp.nexojornal.com.br/academico/2026/06/10/relacoes-entre-politica-religiao-e-genero-no-brasil-contemporaneo Acesso em 11 ago 2026

ONU Mulheres

O que é a Machosfera? | ONU Mulheres – Brasil  Acesso em 11 Ago 2026

Diadorim

Alvo de ataques transfóbicos, Erika Hilton tem 26 propostas sobre mulheres Acesso em 11 ago 2026

Veja 

A parcela de culpa da TV Record para prisão de ex-marido de Maria da Penha | VEJA Acesso em 11 Ago 2026

Lei Maria da Penha

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm  Acesso em 12 ago 2026

Senado
https://www12.senado.leg.br/noticias/infomaterias/2026/07/a-historia-por-tras-dos-20-anos-da-lei-maria-da-penha  Acesso em 12 ago 2026

G1
https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2026/08/10/por-que-o-instituto-maria-da-penha-pediu-a-suspensao-de-entrevista-com-o-ex-marido-da-ativista-cearense.ghtml  Acesso em 12 ago 2026


Fenaj
https://fenaj.org.br/rede-record-presta-desservico-ao-entrevistar-agressor-de-maria-da-penha/  Acesso em 12 ago 2026

O que é marxismo cultural e como o termo tem sido usado pelo extremismo de direita CARDS

A série especial Bereia Explica analisou o termo “marxismo cultural”, frequentemente usado em discursos políticos e religiosos no Brasil como rótulo conspiratório. Assim como “woke”, a expressão foi ressignificada pelo extremismo de direita para explicar mudanças sociais vistas como ameaças à família e à fé.

Apesar de ser associado à tradição marxista ou à Escola de Frankfurt, o termo não tem base acadêmica.

Segundo o cientista político Jérôme Jamin , a noção de “marxismo cultural” deve ser entendida como um mito político que se apoia em tradições conspiratórias mais antigas, como o “bolchevismo cultural” (como sinônimo de comunismo cultural) propagado pelo nazismo, na Alemanha dos anos 1920 e 1930, que criticava os movimentos modernistas nas artes.

Para historiadores como João Cezar de Castro Rocha, o que se convencionou chamar de “bolsonarismo” se organizou em grande medida a partir dessa retórica de guerra cultural. Já a filósofa Marcia Tiburi classifica o “marxismo cultural” como um rótulo vazio, usado apenas para criar inimigos e justificar perseguições.

O que é woke e por que o termo virou alvo de disputas políticas e religiosas

Woke é uma palavra da língua inglesa: a conjugação do verbo wake, acordar, com o significado de “acordado”. A construção política do termo, nos Estados Unidos, remonta ao século XX, quando ganha significado no vocabulário das pautas afro-americanas. Nesse contexto,  woke tornou-se alerta de vigilância contra a injustiça, hoje o termo é usado em memes, discursos políticos e pregações religiosas de forma bem diferente de sua origem. Importado do debate estadunidense, o termo woke ganhou força no Brasil como rótulo pejorativo.

Esta matéria integra a série especial Bereia Explica sobre termos usados  para desinformação em discursos políticos e religiosos. Nesta primeira parte, são apresentadas  a origem e a trajetória de woke. Na segunda, é introduzido  o conceito de “marxismo cultural”, outro rótulo amplamente difundido em redes religiosas e políticas, também marcado por distorções históricas e ideológicas.

Primeiros registros do termo “Woke”

A National Association for the Advancement of Colored People (NAACP) – maior e mais antigo grupo de direitos civis da América dos Estados Unidos – afirma que, o uso do termo “woke” está documentado desde a década de 1920 e surgiu como um sinal interno ao grupo afro-americano, “incentivando os negros a estarem cientes dos sistemas que os prejudicam e, os colocam em desvantagem”.

O ativista Marcus Garvey, em sua coletânea The Philosophy and Opinions, publicada em 1923, apresenta a inspiradora convocação:

“Wake up Ethiopia! Wake up Africa! Let us work towards the one glorious end of a free, redeemed and mighty nation. Let Africa be a bright star among the constellation of nations.”

Imagem: The Majority Press

Esse apelo pode ser traduzido livremente como: “Acorde, Etiópia! Acorde, África! Trabalhemos em direção ao único e glorioso objetivo de uma nação livre, redimida e poderosa. Que a África seja uma estrela brilhante entre a constelação de nações”. Isto reflete o ideal pan-africanista e o chamado à emancipação coletiva promovido por Garvey, que inspirou o uso do termo woke em outras expressões de busca por justiça para a população negra.

De acordo com o jornalista e escritor Michael Harriot, autor do livro, Black AF History: The Un-Whitewashed Story of America, em 1940, após descobrir que estavam recebendo menos do que seus colegas brancos, o líder de um sindicato de mineiros negros na Virgínia Ocidental, que lançou uma greve contra salários discriminatórios, teria dito, segundo a pesquisa de Harriot: “Estávamos dormindo. Mas continuaremos acordados de agora em diante”

A investigação de Elijah Watson

O jornalista Elijah Watson realizou, em 2017, uma longa pesquisa sobre as origens do termo “woke”. Em uma série de três reportagens, Watson mostrou como o termo nasceu na cultura afro-americana, como sinônimo de estar acordado e atento às injustiças raciais, ganhou nova vida nos anos 2000 nas culturas  hip hop e do soul com artistas como Erykah Badu e Georgia Anne Muldrow Por fim, foi desgastado e transformado em rótulo pejorativo, como sinônimo de radicalismo de esquerda.

📸 Imagem: Disco New Amerykah Part One (4th World War) (2008). Erykah Badu.

Watson analisa que o termo começou a perder força a partir de meados da década de 2010.

Se antes era positivo, sinônimo de consciência crítica, woke passou a ser usado também de forma pejorativa — inclusive por progressistas, que criticavam o uso performático e superficial da palavra. Com o tempo, o termo foi apropriado por influenciadores da extrema direita política como uma caricatura de militância exagerada.

Hoje, assinei um projeto de lei que acaba com a doutrinação woke em nossas escolas e locais de trabalho.
Estamos dando a pais, estudantes e funcionários a capacidade de reagir — Ron DeSantis, 22 de abril de 2022

O percurso do termo woke mostra como uma palavra criada por negros estadunidenses para despertar consciências contra a desigualdade racial foi apropriada pelo público em geral e, depois, distorcida por interesses ideológicos. 

Como lembra o jornalista Elijah Watson, as palavras evoluem rapidamente, e com as redes sociais esse processo se acelera: expressões criadas na comunidade negra logo são absorvidas, diluídas e até caricaturadas. Foi o que aconteceu com “woke”, que deixou de ser alerta contra injustiças para virar rótulo de disputa cultural. O processo teve a colaboração de meios de comunicação tradicionais — que tratam o termo como gíria de moda — e também de políticos interessados em transformá-lo em alvo.

Para especialistas, esse ataque não é apenas a uma palavra, mas à própria possibilidade de ensinar a história e reconhecer a dignidade da população negra. Como resume o escritor Michael Harriot, é mais fácil demonizar uma palavra do que admitir que se está atacando vidas e trajetórias humanas.

Uso político

O uso político do termo woke atingiu seu auge depois dos protestos de 2020 contra o racismo e a violência policial, quando milhões de norte-americanos buscaram aprender mais sobre racismo sistêmico e a história da anti negritude no país. Como resume o NAACP Legal Defense Fund:

“Mas quem é o culpado pela escalada especialmente febril em torno da palavra ‘woke’, que atingiu seu pico após o acerto de contas com a justiça racial de 2020, que na época inspirou uma onda de interesse entre os americanos que buscavam aprender mais sobre o racismo sistêmico e a história da anti-negritude neste país? A resposta, é claro, inclui políticos com motivações políticas e outros atores mal-intencionados que buscam disseminar o medo e impedir o progresso da justiça racial. Mas vai além disso.

Nos Estados Unidos, a disputa em torno da palavra woke chegou à legislação. O exemplo mais emblemático é a Stop WOKE Act , sancionada em 2022 pelo governador da Flórida, Ron DeSantis. A lei apresenta-se como uma defesa da “liberdade contra a doutrinação” nas escolas, proibindo o ensino de princípios associados à Teoria Crítica da Raça (CRT) e classificando treinamentos de diversidade como ilegais no ambiente de trabalho.

À primeira vista, a lei pode soar positiva: afirma incluir a história dos Estados Unidos, do Holocausto, de afro-americanos, hispânicos e mulheres, e se apresenta como proteção contra ideias discriminatórias. No entanto, especialistas e organizações de direitos civis apontam que, na prática, ela funciona como instrumento de censura, restringindo debates sobre racismo estrutural, privilégio e desigualdade. Pesquisadores compararam seus efeitos a antigas leis que proibiam a alfabetização de negros, agora aplicadas à proibição de um ensino crítico sobre raça.

O NAACP Legal Defense Fund alerta que a medida cria um efeito “gélido” nas salas de aula, levando professores e estudantes a se autocensurar por medo de retaliações. Há relatos de docentes que deixaram seus cargos por não terem liberdade de abordar sistemas racistas, além do bloqueio de programas de ensino avançado em estudos afro-americanos. 

Assim, o termo woke, antes usado como alerta contra injustiças, é transformado em inimigo simbólico, mobilizado em políticas públicas que, sob a aparência de neutralidade, promovem o apagamento da história negra e freiam avanços em justiça racial e inclusão.

Como o termo circula em redes religiosas no Brasil

No Brasil, woke se tornou um rótulo genérico, usado em discursos religiosos e políticos como sinônimo de “politicamente correto” (entendido como exagero no ajuste correto da linguagem para evitar discriminações) ou de uma suposta tentativa de “ideologizar” crianças, jovens e até adultos por meio de escolas, universidades, jornais, TVs e filmes. 

Neste enquadramento, praticamente tudo pode ser classificado como woke: desde debates sobre diversidade até produções culturais ou medidas de inclusão social. A palavra funciona, assim, como uma atualização de outros termos já usados no país com o mesmo propósito, como “ideologia de gênero” ou “marxismo cultural”, todos mobilizados para criar a sensação de que valores tradicionais estariam sob ataque.

Além de servir como rótulo genérico, woke foi incorporado às narrativas conspiratórias em redes religiosas no Brasil. Estudos recentes mostram que comunidades no Telegram com agendas anti-woke, anti-gênero e revisionistas formam uma parte central do debate conspiratório nacional. Ao ser usado como “insulto genérico”, “woke” perde seu sentido original de vigilância contra injustiças e passa a operar como arma retórica para controlar a linguagem e limitar os espaços de debate democrático.

Pesquisadores como Isabela Kalil (FESPSP) e Guilherme Casarões (FGV-EAESP) apontam que essa disseminação está ligada à fabricação de discursos polarizados e simplificados, capazes de mobilizar leituras religiosas e conservadoras sobre o presente. 

Em paralelo, trabalhos do Instituto Atlas alertam para o fato de que o discurso político extremista que faz uso da religião para convencer tem reconfigurado o debate público, transformando woke em símbolo — inclusive sob o viés moral — de uma “máxima ameaça” à fé e à família.

A história do termo woke ajuda a entender como as palavras podem atravessar fronteiras culturais e ganhar novos sentidos em contextos distintos. O que nasceu como um chamado afro-americano para vigilância contra a injustiça racial foi absorvido pelo vocabulário popular, diluído pela mídia, apropriado por movimentos políticos e transformado em rótulo pejorativo em disputas ideológicas. 

Nos Estados Unidos, essa transformação chegou ao ponto de orientar legislações que restringem o ensino crítico sobre raça. No Brasil, o termo “woke” circula com força em redes religiosas, apresentados como ameaças à fé e à família, em um processo que mistura moralidade, identidade e política. 

Recuperar a origem e o verdadeiro significado desses termos é, portanto, um passo essencial para evitar simplificações e desinformação e para se compreender como a linguagem pode ser usada tanto para promover consciência quanto para justificar exclusões.

Referências:

A Origem do Woke por Elijah C. Watson. https://www.okayplayer.com/the-origin-of-woke-william-melvin-kelley-is-the-woke-godfather-we-never-acknowledged/698051?utm Acesso em 27 AGO 25

https://www.okayplayer.com/the-origin-of-woke-how-erykah-badu-and-georgia-anne-muldrow-sparked-the-stay-woke-era/451522 Acesso em 27 AGO 25 

https://www.okayplayer.com/the-origin-of-woke-how-the-death-of-woke-led-to-the-birth-of-cancel-culture/411500 Acesso em 27 AGO 25 

Legal Defense Fund (LDF) 

https://www.naacpldf.org/woke-black-bad/

https://www.naacpldf.org/about-us

https://www.naacpldf.org/press-release/florida-educators-and-students-challenge-floridas-discriminatory-stop-woke-act

TIME https://time.com/4830959/oxford-english-dictionary-woke/?utm 

https://time.com/6168753/florida-stop-woke-law/?utm

https://aaregistry.org/story/black-history-and-stay-woke-a-story

http://aaregistry.org/story/the-negro-world-is-published/ 

https://www.amazon.com/Black-AF-History-Whitewashed-America/dp/0358439167

https://www.naacpldf.org/woke-black-bad/?utm_

https://arxiv.org/abs/2409.00325?utm

https://atlasinstitute.org/the-evangelical-populist-nexus-and-democratic-risks-in-brazil/?utm_

https://fundacaofhc.org.br/en/debate/the-far-rights-social-media-strength-ideology-and-strategy/?utm_

https://www.laphamsquarterly.org/migration/manifest-destiny?utm

https://www.jpanafrican.org/ebooks/eBook%20Phil%20and%20Opinions.pdf

Imagem de capa: Freepik

Testemunhas de Jeová são evangélicas? VÍDEO

Com a publicação dos resultados do Censo 2022, que apontaram o crescimento dos evangélicos para mais de um quarto da população brasileira (26,9%), alguns comentários públicos questionaram a metodologia do IBGE por não alocar as Testemunhas de Jeová no grupo evangélico, mas sim em “Outras religiosidades”.

Essa abordagem gerou a percepção de que o número de evangélicos poderia ser ainda maior se essa inclusão fosse feita.

O Censo do IBGE, que não classifica as Testemunhas de Jeová entre católicos e evangélicos, é recurso fundamental para a compreensão da diversidade religiosa do Brasil.

Embora ambos sejam grupos cristãos, as Testemunhas de Jeová se distinguem deles por terem uma interpretação única da Bíblia e uma abordagem específica sobre fé e a prática religiosa, o que justifica a categorização do IBGE.

O pastor e teólogo Átila Augusto, doutorando em Ciência da Religião pela PUC-SP, afirmou ao Bereia que as Testemunhas de Jeová “não são evangélicas, nem do ponto de vista histórico, nem teológico-institucional”. Ele enfatiza que elas “nem reivindicam esse espaço; rejeitam as bases teológicas surgidas com a Reforma Protestante”.

Para saber mais, leia o artigo Por que Testemunhas de Jeová não são classificadas como evangélicas? Bereia explica controvérsia sobre dados do Censo 2022 e distinções doutrinárias

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Por que Testemunhas de Jeová não são classificadas como evangélicas? Bereia explica controvérsia sobre dados do Censo 2022 e distinções doutrinárias 

*Matéria atualizada 15/07/2025 para correção de informação


A recente divulgação dos dados do Censo Demográfico de 2022 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) gerou debates, especialmente em relação à classificação de grupos religiosos. Uma das principais discussões levantadas por parte do público evangélico e por comentaristas do tema foi a não inclusão das Testemunhas de Jeová na categoria “evangélicos”, o que, segundo alguns, teria impactado para menos o percentual de crescimento do segmento. 
Diante da repercussão, Bereia buscou especialistas para elucidar os motivos dessa classificação e as distinções teológico-doutrinárias que fundamentam a decisão do IBGE.

Imagem: print site Agência Brasil

O contexto das críticas 

Com a publicação dos resultados do Censo 2022, que apontaram o crescimento dos evangélicos para mais de um quarto da população brasileira (26,9%), alguns comentários públicos questionaram a metodologia do IBGE por não alocar as Testemunhas de Jeová no grupo evangélico, mas sim em “Outras religiosidades”. Essa abordagem gerou a percepção de que o número de evangélicos poderia ser ainda maior se essa inclusão fosse feita.  

Para aprofundar a compreensão sobre a classificação, o Bereia entrevistou o doutor em Ciência da Religião Emerson José Sena da Silveira, professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Segundo o especialista, a decisão do IBGE de enquadrar as Testemunhas de Jeová na categoria “Outras religiosidades” é correta, apesar de se referirem a Jesus Cristo e, genericamente, poderem ser considerados cristãos.

O pesquisador aponta quatro principais divergências doutrinárias e práticas que separam as Testemunhas de Jeová dos evangélicos (protestantes históricos, pentecostais e outros movimentos):

1. Divergência Cristológica: Para as Testemunhas de Jeová, Jesus Cristo não é Deus, mas o primogênito criado por Jeová, nome que consideram o correto e legítimo para Deus. Esta visão contrasta diretamente com a doutrina da Trindade, pilar inegociável para a maioria das denominações evangélicas, que creem em um só Deus manifesto em três pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo).


2. Regras Comportamentais Rigorosas: Testemunhas de Jeová adotam a proibição de transfusões de sangue e retiro e outras restrições associadas ao Antigo Testamento, que não são práticas comuns ou obrigatórias entre evangélicos.


3. Exclusivismo Religioso: Testemunhas de Jeová acreditam ser o único grupo que guarda a interpretação correta da Bíblia, o que as leva a desincentivar relacionamentos e interações sociais fora dele.


4. Abstenção de celebrações, de atuação política e do serviço militar: Testemunhas de Jeová seguem uma postura pacifista, que as impedem de exercer o serviço militar, distanciam-se de manifestações cívico-religiosas e da participação política, o que as diferencia de muitos grupos evangélicos engajados nessas esferas.

O prof. Emerson Sena observa que “estas e outras características fazem das Testemunhas de Jeová uma organização religiosa mais separada das demais organizações cristãs, mais sectária, se usarmos as ideias [do estudioso das religiões] Max Weber sobre seita, que não é um julgamento de valor ou preconceito, mas uma ideia sociológica”.

Corroborando esta análise, o pastor e teólogo Átila Augusto, doutorando em Ciência da Religião pela  PUC-SP, afirmou ao Bereia que as Testemunhas de Jeová “não são evangélicas, nem do ponto de vista histórico, nem teológico-institucional”. Ele enfatiza que elas “nem reivindicam esse espaço; rejeitam as bases teológicas surgidas com a Reforma Protestante”.

As perspectivas

Em consulta aos documentos das Testemunhas de Jeová, Bereia verificou que elas próprias não se identificam como protestantes ou evangélicas. Este grupo religioso considera a crença protestante como uma “doutrina pagã e não bíblica”, defendendo a unicidade de Deus, a quem chamam exclusivamente de Jeová, e veem Jesus Cristo como sua primeira criação e um ser subordinado, não como o Deus Todo-Poderoso. Esta posição é amplamente divulgada em suas publicações oficiais abertas ao acesso público.

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O Censo do IBGE, que não classifica as Testemunhas de Jeová entre católicos e evangélicos, é recurso fundamental para a compreensão da diversidade religiosa do Brasil. Embora ambos sejam grupos cristãos, as Testemunhas de Jeová se distinguem deles por terem uma interpretação única da Bíblia e uma abordagem específica sobre fé e a prática religiosa, o que justifica a categorização do IBGE.

É importante ressaltar que qualquer abordagem sobre o Censo 2022 neste momento tem como base apenas os dados de agrupamento geral de religiões — pois ainda não há acesso aos números referentes aos subgrupos, conforme detalhado no “Apêndice 1 – Composição dos grandes grupos de religião”, que integra o documento do IBGE (2025). A lista inclui categorias como “Evangélicas de Missão” (com subdivisões como luterana, presbiteriana, metodista, batista, congregacional, adventista e outras), “Evangélicas de origem pentecostal” (com várias igrejas específicas), além de “Evangélicas – igrejas evangélicas indígenas” e “Evangélica não determinada”.

As informações completas dos subgrupos religiosos do Censo 2022 ainda será posteriormente divulgada,  possivelmente no segundo semestre de 2025, o que reforça a necessidade de cautela na interpretação inicial dos resultados e a importância de se basear em análises aprofundadas e contextualizadas, como as apresentadas pelo Bereia nesta matéria.

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Imagem de Capa: Divulgação/Testemunhas de Jeová