Combate à corrupção: pauta efetiva ou falácia política?

Da ditadura militar ao caso Banco Master, o discurso anticorrupção reaparece a cada eleição e, com frequência, os “heróis” de um ciclo viram imorais em outro

É fácil encontrar em palanques eleitorais no Brasil personagens que prometem “combater a corrupção”. A frase é tão repetida que já se tornou uma apelação, antes de qualquer proposta concreta de governo. 

Imagem: Reprodução de matéria do site do SBT News, 1 set 2026

Por que esse tema, que deveria ser uma política de Estado permanente, se transforma tantas vezes em bandeira de campanha? E por que, diante de tantas experiências no país, passadas as eleições, os “heróis do combate à corrupção” costumam aparecer, depois, debaixo de acusações que representam tudo o que discursavam antes?

Imagem: Reprodução de matéria no site da revista Veja, 17 mai 2023

Para ter informações seguras sobre o que está em jogo quando esse discurso reaparece com força nas eleições de 2026, Bereia explica o tema. Nesta matéria, é apresentado o conceito de corrupção  de onde vem a naturalização desta prática no Brasil e como, historicamente, ela foi usada como instrumento político, às vezes com resultados efetivos, às vezes como cortina de fumaça.

O que é corrupção, afinal?

Em termos jurídicos e de ciência política, corrupção é o uso de uma posição de poder ou de confiança pública para obter vantagem privada, em desrespeito às normas que deveriam orientar aquela função. Ela não tem um formato único. Entre os principais:

  • Corrupção passiva: quando um agente público solicita ou aceita vantagem indevida.
  • Corrupção ativa: quando alguém oferece ou paga essa vantagem a um agente público.
  • Corrupção administrativa: fraudes em licitações, superfaturamento de obras, contratação sem concurso.
  • Corrupção política ou eleitoral: caixa dois, compra de votos, financiamento ilegal de campanhas.
  • Corrupção sistêmica: quando o desvio deixa de ser exceção e passa a fazer parte da própria engrenagem de funcionamento do Estado ou de instituições privadas, que é o caso de esquemas que atravessam décadas e vários governos e empresas.

Existe ainda uma distinção importante entre a grande corrupção, que movimenta somas bilionárias e estrutura o financiamento da política, e as transgressões que estão no dia a dia das pessoas espalhadas pelo Brasil que raramente são chamadas pelo nome, mas alimentam a mesma lógica.

Uma herança que vem de longe: por que a corrupção está tão arraigada na cultura brasileira?

A naturalização da corrupção no Brasil não nasceu com nenhum partido ou governo recente. Ela remonta à formação colonial do país. Historiadores como Sérgio Buarque de Holanda descreveram, ainda na primeira metade do século 20, um traço estrutural da administração brasileira herdado de Portugal: o patrimonialismo, isto é, a dificuldade histórica de separar o que é público do que é privado. 

Cargos públicos foram, desde o Brasil Colônia, tratados como extensão de favores pessoais. A distribuição de cargos passou a ser feita por meio de laços familiares, apadrinhamento e troca de lealdades, e não por critérios técnicos ou legais.

Esse traço se reproduziu no Império, na Primeira República (o chamado “coronelismo”, com o voto de cabresto e a troca de favores entre poder local e poder central) e seguiu atravessando ciclos democráticos e ditatoriais até hoje. Não se trata de dizer que a corrupção é uma essência do “povo brasileiro”, o que seria uma leitura culturalista e injusta. Diz respeito a reconhecer que as instituições do país foram historicamente construídas com pouca separação entre interesse público e privado, e que essa lógica se perpetuou nas práticas político-administrativas.

No cotidiano, essa mesma lógica aparece em gestos pequenos, tantas vezes vistos como inofensivos: pedir para “dar um jeitinho” e furar uma fila ou para conseguir resolver uma questão pendente; oferecer dinheiro a um guarda de trânsito para evitar uma multa; pedir para não emitir nota fiscal e “fazer mais barato”; oferecer a pacientes uma consulta médica sem recibo com um preço menor; usar uma indicação pessoal para conseguir uma vaga de emprego ou driblar um processo seletivo; sonegar informações na Declaração de Imposto de Renda. 

Isoladamente, esses atos parecem distantes dos esquemas bilionários que ocupam manchetes. Porém, a verdade é que são parte da mesma cultura que trata protocolos públicos como algo negociável. Isto ajuda a explicar por que a indignação seletiva com a “grande corrupção” nem sempre vem acompanhada de reflexão sobre as pequenas corrupções do dia a dia.

Quando o combate à corrupção virou estratégia de campanha política 

Se a corrupção é antiga, o uso político do discurso contra ela também é. Três momentos da história recente ajudam a entender isso.

A ditadura militar (1964–1985) justificou o golpe de 1964, entre outros argumentos, com a promessa de expurgar a “subversão” e a corrupção que, segundo seus articuladores, teriam tomado conta do governo do presidente João Goulart. Na prática, o regime instalado não eliminou a corrupção. Pelo contrário, ela persistiu e, em vários momentos, foi documentada dentro do próprio aparato estatal, como contrabandos na Polícia do Exército, e de estatais como a Petrobras e a Eletrobras, bem como no próprio regime de repressão. Porém, o discurso moralizante serviu para legitimar a suspensão de direitos políticos, a censura e a perseguição a adversários.

A eleição de Fernando Collor de Mello à Presidência da República, em 1989, é outro marco. Collor se apresentou como o “caçador de marajás”, símbolo da luta contra privilégios e desvios do funcionalismo público, e venceu a primeira eleição presidencial direta após a ditadura com base nessa imagem, com a ajuda da imprensa que repercutiu amplamente este discurso.

Imagem: Reprodução da capa da revista Veja, de 23 mar 1988

Menos de três anos depois, o próprio governo de Collor foi derrubado por um processo de impeachment motivado por um esquema de corrupção liderado por seu tesoureiro de campanha, PC Farias. O “herói do combate à corrupção” tornou-se, ele mesmo, protagonista de um dos maiores escândalos da Nova República.

A Operação Lava Jato, deflagrada em 2014, radicalizou esse padrão em escala nacional. Apresentada como a maior operação anticorrupção da história do país, teve como rosto público o então juiz Sérgio Moro, da Vara Federal de Curitiba,  e procuradores da República, com destaque para o paranaense Deltan Dallagnol. Estas personagens foram alçadas à condição de heróis nacionais e figuras centrais da conversação política, com ampla repercussão na imprensa, por quase uma década. 

Imagem: Reprodução de matéria no site G1, de 19 mar 2015

Imagem: Reprodução de matéria no site do Globo, de 16 mar 2020

A operação, de fato,expôs um esquema bilionário de desvios na Petrobras e em obras públicas, com participação de grandes empreiteiras e políticos de diversos partidos. Porém, o desfecho revelou outra face da história: as mensagens obtidas pela reportagem conhecida como “Vaza Jato”, resultante de investigação do Intercept Brasil, mostraram conluio entre o juiz e os procuradores responsáveis pela acusação, com manipulação de provas, articulação indevida de delações premiadas e assédio a testemunhas e vazamentos de informações selecionadas para a imprensa. Estas ilegalidades tiveram interferência direta no cenário político do país e nas eleições, com a destruição da reputação de diversas personagens ligadas a governos anteriores, do Partido dos Trabalhadores, resultando na prisão do ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, em 2018, retirando-o de candidatura nas eleições daquele ano. 

O caso levou o Supremo Tribunal Federal (STF) a declarar, em 2021, a suspeição de Moro no processo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a anular as condenações contra ele.  Deltan Dallagnol e outros procuradores foram também denunciados a instâncias judiciárias sobre as ações ilegais que praticam com pedidos de reclamações disciplinares, sindicâncias, pedidos de providências e Processo Administrativo Disciplinar (PAD).  

O “herói” da Lava Jato Sérgio Moro deixou a magistratura e tornou-se ministro da Justiça do governo de Jair Bolsonaro (2019-2022), que ganhou as eleições em 2018 com base no processo que o juiz havia ajudado a construir. Deltan Dallagnol, para escapar das denúncias, pediu exoneração do cargo de procurador da República enquanto estavam pendentes as análises de reclamações disciplinares, sindicâncias, pedidos de providências e Processo Administrativo Disciplinar (PAD).  Ele se candidatou a deputado federal pelo partido Novo em 2022, porém, apesar de ter vencido, teve a candidatura cassada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 2023. Os ministros do TSE avaliaram que Dallagnol fraudou o processo eleitoral ao pedir exoneração do cargo de procurador, enquanto estava sob investigação por ações ilegais, para escapar da Lei da Ficha Limpa. De acordo com a sentença, os fatos ocorridos no âmbito da Operação Lava Jato se enquadrariam em hipóteses legais de demissão por quebra de dever de sigilo e de decoro, bem como pela prática de improbidade administrativa, o que o impediram de se candidatar.

O padrão que se repete nesses três episódios é semelhante: a corrupção factual e comprovável é usada como discurso de legitimação de um projeto de poder. As personagens que se apresentam como “salvadoras” morais concentram capital político em cima desse discurso. Passado o ciclo, parte desses mesmos personagens aparece envolvida em práticas questionáveis ou é apontada por instituições de controle como tendo agido de forma parcial ou ilegal.

Em outra direção, o caso em relação à figura do ministro do STF Alexandre de Moraes ilustra bem como opera a produção de heróis na cena política. Após os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, o ministro do STF foi alçado, por setores da mídia e da opinião pública, à condição de figura salvadora da democracia. Passou a ser exposto como o magistrado que “conteve” a barbárie e “puniu” os responsáveis. Esse discurso, ainda que ancorada em fatos (os inquéritos, as prisões, os processos em curso) transforma um processo institucional complexo, com suas ambiguidades e disputas de poder, em um enredo simples de bem contra mal, no qual basta confiar na figura do herói para que a Justiça se cumpra. 

O problema é que esse tipo de personificação despolitiza o debate público sobre as causas estruturais que possibilitaram o 8 de janeiro (a tentativa de golpe para perpetuação de um grupo no poder, o financiamento das milícias digitais, a omissão de outras instituições, o papel de certas igrejas e lideranças religiosas na radicalização política) e concentra na figura heroica uma expectativa que nenhuma pessoa, sozinha, pode sustentar. Quando o herói erra, ou quando suas decisões são questionadas, o efeito é duplo: descrença generalizada nas instituições e abertura de espaço para narrativas ainda mais autoritárias, que prometem um “herói” mais eficaz. 

É o caso do coro de críticas de juristas e constitucionalistas (inclusive alinhadas à esquerda política) que apontam excessos de Mores no exercício do cargo. Entre os pontos mais recorrentes estão: a acumulação, nas mãos de um único ministro das funções de investigar, indiciar, decidir medidas cautelares e julgar no mesmo processo (caso do inquérito das “fake news”), o que fragilizaria o contraditório e a ampla defesa; o uso de decisões monocráticas em temas de grande impacto político e social, sem submissão prévia ao colegiado; a determinação de bloqueios de perfis e contas em redes sociais sem debate público amplo sobre os critérios adotados; e a extensão de prazos de sigilo e a abrangência de algumas ordens de busca e apreensão, consideradas por parte da doutrina desproporcionais frente ao princípio da legalidade estrita. 

Para os críticos da postura de Alexandre de Moraes, o problema não é necessariamente o mérito de cada decisão isolada, mas o padrão: um ministro do STF operando com funções que, em uma leitura mais rígida da separação de poderes, caberiam a outras instâncias (polícia, Ministério Público, ou ao colegiado da própria Corte), o que abriria um precedente perigoso independentemente de quem ocupe a cadeira no futuro. 

2026: o roteiro se repete?

A eleição de 2026 traz elementos que, para pesquisadores de comunicação política, lembram esse ciclo histórico, com uma diferença importante: desta vez, o enredo é mais disputado e cruza espectros políticos distintos. Trata-se do caso do Banco Master, de Daniel Vorcaro, considerado o maior rombo financeiro da história do Brasil, pelo volume de recursos desviados por meio de golpes e pelo envolvimento de figuras do mundo empresarial, político e criminal.

Em novembro de 2025, o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial do Banco Master, e seu controlador, Daniel Vorcaro, foi preso em meio a investigações da Polícia Federal sobre um esquema bilionário de fraude contra o sistema financeiro, com rombo estimado em dezenas de bilhões de reais ao Fundo Garantidor de Créditos. 

O caso envolve dezenas de nomes da política que mantiveram contato, receberam pagamentos, doações ou negociaram vantagens com o banqueiro, com maior destaque para o candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) ao pleito de 2026. O candidato do PL é suspeito pelo recebimento de centenas de milhões de reais de Vorcaro, atribuídos por ele à produção de um filme em homenagem ao ex-presidente Jair Bolsonaro, argumento até o momento não comprovado. 

O tema entrou na campanha eleitoral simultaneamente como munição de ataque e como risco para candidatos e para partidos, pois, ao contrário do que o discurso moralista sugere, a proximidade com esquemas de corrupção e de busca de vantagens não é monopólio de um único espectro político. Apesar de a maioria dos nomes citados nas reportagens sobre as investigações da Polícia Federal, sob a guarda do STF, ser relacionada à direita política (senadores, deputados federais, ex-governadores, presidentes de partidos) , há três nomes vinculados à esquerda (ex-ministros e senador).

A crise provocada pelo escândalo do Banco Master, porém, atingiu o próprio STF, quando os próprios ministros que conduziram o inquérito passaram a aparecer nele. Mensagens periciadas no celular de Daniel Vorcaro mostram o nome de Dias Toffoli, relator do caso até fevereiro de 2026, que mencionam possíveis pagamentos cifrados a uma empresa da família do ministro. O processo, então, nesse mês, passou para as mãos de outro ministro do STF, André Mendonça. 

Nesse contexto, o ministro Alexandre Moraes também foi exposto publicamente sob suspeita. Reportagens com o conteúdo das investigações mostraram que o escritório de advocacia da esposa dele, Viviane Barci de Moraes, manteve um contrato de prestação de serviços jurídicos com o Banco Master  no valor total de R$ 131,2 milhões, distribuído em 36 parcelas mensais de cerca de R$ 3,6 milhões entre 2024 e 2027, dos quais R$ 80,2 milhões chegaram a ser efetivamente pagos antes da liquidação do banco, em novembro de 2025. Segundo apuração da Polícia Federal, a partir de metadados extraídos do celular de Daniel Vorcaro, a versão final da minuta do contrato foi editada por um perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”, em janeiro de 2024. 

Em nota, o escritório de advocacia confirmou que o ministro teve acesso ao documento, mas afirmou que sua participação se limitou a uma consulta de compliance sobre eventual impedimento legal, que não foi identificado. Não há, até o momento, acusação formal de irregularidade nessa relação: o episódio soma-se ao conjunto de fatos que motivaram o pedido de investigação sobre a conduta de ministros do STF no caso. 

Uma crise se instalou na Corte, em 1º de setembro de 2026, a quase um mês do primeiro turno das eleições, quando o ministro Mendonça determinou a retirada do sigilo de uma petição. Ela expunha mensagens do banqueiro Daniel Vorcaro apontando um interlocutor, salvo como “Alexandre de Moraes Brasília”. As investigações estão ainda em curso.

Soma-se a este episódio que envolve o ministro André Mendonça, o caso de Fábio Luís Lula da Silva. A Polícia Federal abriu inquérito, autorizado pelo STF, para apurar se o filho mais velho do presidente cometeu tráfico de influência e corrupção ao favorecer uma lobista ligada a um esquema de fraudes contra aposentados e pensionistas do INSS. A CPMI do INSS chegou a autorizar a quebra de sigilo bancário do investigado, com autorização do ministro André Mendonça e nada encontrou. Porém, o próprio relatório de inteligência da Polícia Federal reconheceu que as referências a Fábio Luís nos documentos das investigações sob relatoria de Mendonça foram feitas “sem lastro probatório”. Segundo a própria PF, ele não figurava entre os alvos de medidas no procedimento, e a reunião de menções ao seu nome, mesmo sem elementos que o vinculassem aos desvios, sugeria uma “orientação investigativa não declarada”. 

A defesa de Fábio Luís Lula da Silva lança mão desse relatório para pedir o arquivamento do caso. O episódio ilustra como investigações em curso, e sem provas admitidas pela própria corporação responsável por apurá-las, já circulam na imprensa, durante a campanha eleitoral, como fato consumado, na mesma lógica observada em ciclos eleitorais anteriores.

O paralelo com 2018 é direto: naquele ano, a uma semana do primeiro turno, o então juiz Sergio Moro quebrou o sigilo de um trecho da delação de Antônio Palocci, colaboração que o próprio Ministério Público Federal havia recusado por falta de indícios. O anexo só voltou a público às vésperas da eleição que elegeu Jair Bolsonaro. Anos depois, o STF determinou que aquele material fosse retirado do processo por falta de base probatória. O que se apresenta em 2026, é a mesma lógica: usar a estrutura de investigação sigilosa não para produzir prova e levá-la ao processo, mas para produzir manchetes na imprensa no momento eleitoral mais sensível possível, deixando o desmentido, que sempre ocorre, para depois da votação.

O desgaste no STF chegou a tal ponto que, neste início de setembro de 2026, a própria Polícia Federal formalizou, no relatório de inteligência citado acima, uma queixa contra o ministro Mendonça por suposto abuso de poder e crime de responsabilidade, apontando tratamento assimétrico entre investigados conforme seu espectro político. O decano da Corte, ministro Gilmar Mendes, chegou a comparar publicamente os métodos do caso Master (prisões preventivas usadas como alavanca para delações, vazamentos de trechos sigilosos) às práticas que, anos mais tarde, levaram à anulação de provas e condenações da própria Lava Jato. Alexandre de Moraes, por sua vez, citou o relatório da PF como exemplo de ações indevidas de Mendonça. O episódio expôs uma disputa interna na cúpula do Judiciário sobre até onde vai o combate à corrupção e onde começa o excesso processual, e evidencia como o desgaste dessas instituições de controle pode se tornar, ele mesmo, matéria de disputa política.

André Mendonça passou a ser apresentado na campanha eleitoral, em especial em comícios e atos públicos alinhados à direita política e em espaços religiosos cristãos (o ministro do STF é pastor presbiteriano e foi indicado por Jair Bolsonaro à Corte, em 2021, com o apelido de o “Terrivelmente Evangélico”), como o mais novo “herói do combate à corrupção”.

Imagem: Boneco inflável que homenageia o ministro do STF André Mendonça, em comício do PL na Avenida Paulista, em 7 de setembro passado. Fonte: Mídias sociais

Cuidado quando “combater a corrupção” é a única pauta

Do ponto de vista da comunicação política, há um sinal de alerta que vale destacar: quando a plataforma de um candidato ou candidata se resume ao combate à corrupção, sem que isso venha acompanhado de propostas concretas para educação, saúde, emprego, segurança pública ou desenvolvimento econômico, é sensato desconfiar. Combater a corrupção é um dever de qualquer gestão pública responsável, não é, por si só, um projeto de país.

A pauta anticorrupção funciona, nesses casos, como um atalho retórico: mobiliza indignação moral, produz inimigos claros e dispensa o trabalho mais difícil de apresentar um plano de governo. Historicamente, como mostram a ditadura militar, Collor e a Lava Jato, os personagens que mais instrumentalizaram essa bandeira para chegar ao poder foram, com frequência, os que menos sustentaram um projeto institucional duradouro e, não raro, acabaram implicados nos mesmos crimes que prometeram exterminar.

Reconhecer esse padrão não significa relativizar a corrupção, nem transformar toda denúncia em suspeita de manipulação eleitoral. Significa exigir, de quem se apresenta como o novo herói da vez, a mesma pergunta que caberia a qualquer outro candidato: além de prometer varrer a sujeira, o que o senhor propõe para o Brasil?

Referências

Resenha Eleitoral — Revista Técnica https://www.tre-sc.jus.br/institucional/escola-judiciaria-eleitoral/resenha-eleitoral/revista-tecnica/4a-edicao-jul-dez-2013/corrupcao-um-mapa-analitico. Acesso 8 set. 2026.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1936.

Jus Brasil. https://www.jusbrasil.com.br/artigos/a-operacao-lava-jato-e-o-atropelamento-do-processo-penal-constitucional/1166995450. Acesso 8 set. 2026.

CONSULTOR JURÍDICO. https://conjur.com.br/2019-jul-29/moro-acordo-delacao-palocci-dificil-provar/. Acesso 8 set. 2026.

UOL

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2015/04/01/conheca-dez-historias-de-corrupcao-durante-a-ditadura-militar.html  Acesso 8 set. 2026.

Bereia

https://coletivobereia.com.br/a-quem-interessa-uma-crise-no-stf-a-30-dias-das-eleicoes/  Acesso 8 set 2026

Agência Pública
https://apublica.org/2026/03/banco-master-a-reconstrucao-completa-de-como-uma-fraude-capturou-a-republica/ Acesso 8 set 2026

7 de Setembro: líderes evangélicos e candidatos se unem em comícios e cultos marcados por desinformação

O 7 de Setembro de 2026 foi marcado não apenas por manifestações políticas nas ruas, mas também pela presença ostensiva de candidatos, mandatários e lideranças religiosas em templos e atos públicos marcados pela disputa eleitoral. Em diferentes contextos, a data foi usada como palco para discursos de teor político-eleitoral, apelos religiosos em favor de candidaturas e circulação de conteúdos enganosos ou falsos.

Em ano de eleição, a associação entre religião e política voltou a aparecer de forma explícita em cultos, mobilizações e publicações nas redes, o que reforça um padrão já observado em pleitos anteriores: o uso da autoridade religiosa, da linguagem da fé e de símbolos cristãos como estratégia política. Ao lado disso, conteúdos desinformativos também circularam para mobilizar fiéis, alimentar antagonismos e reforçar discursos de perseguição, corrupção e guerra moral.

A fronteira entre prática religiosa, campanha política e desinformação foi tensionada ao longo da data cívica e ajudam a compreender o modo como a fé tem sido mobilizada como linguagem de convencimento, de guerra simbólica e de disputa por poder.

Púlpito como palanque: candidatos do PL com o vídeo antigo de André Mendonça na Igreja Mundial

Um dos episódios mais emblemáticos do 7 de Setembro ocorreu em culto liderado pelo apóstolo da Igreja Mundial do Poder de Deus Valdemiro Santiago. No encontro, estiveram presentes o candidato à Presidência da República senador Flávio Bolsonaro (PL) e o candidato à reeleição para o governo de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos), além de outros nomes ligados à direita política, como os candidatos ao Senado por São Paulo Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL). 

O evento reuniu oração, discurso político e gestos de apoio público em um ambiente religioso, com apropriação do templo como espaço de projeção eleitoral.

Imagem: Publicação no perfil oficial da Igreja Mundial do Poder de Deus no Facebook, publicado em 7 de set 2026. Acesso em 7 de set 2026 

Chamaram mais atenção no culto, porém, a presença do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (Republicanos), que teve o mandato cassado em 2016 e cuja candidatura à Câmara foi barrada pelo TRE-MG poucos dias antes do ato. Também,  a presença do prefeito de Sorocaba Rodrigo Manga, missionário da própria Igreja Mundial e personagem propagadora de desinformação, já citada em diferentes checagens do Bereia. 

Imagem: Foto no perfil oficial da Igreja Mundial do Poder de Deus no Facebook. Eduardo Cunha ao lado do Governador Tarcísio de Freitas (Republicanos/SP), publicada em 7 de set 2026. Acesso em 7 de set 2026.

Imagem: Foto publicada em perfil oficial da Igreja Mundial do Poder de Deus no Facebook. Prefeito Rodrigo Manga atrás de Flávio Bolsonaro. Publicada em 7 de set 2026. Acesso em 7 de set 2026

Recentemente, Rodrigo Manga passou 145 dias afastado da Prefeitura de Sorocaba por decisão judicial no âmbito da Operação Copia e Cola, da Polícia Federal, que investiga suspeitas de desvios de recursos públicos em contratos da área da saúde. A PF apontou o prefeito como suposto líder e principal beneficiário do grupo investigado. 

Em 31 de março, o ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, autorizou Manga a reassumir a prefeitura, por considerar que a manutenção do afastamento por período tão prolongado representava uma intervenção excessiva na administração municipal. A decisão não significou absolvição das acusações ou encerramento das investigações. Em maio, a Segunda Turma do STF referendou por unanimidade a suspensão da medida cautelar que o mantinha afastado.

Poucos meses depois, Manga viveu nova crise, desta vez partidária. Em agosto passado, o político foi expulso do Republicanos, legenda do governador Tarcísio de Freitas, por decisão unânime do Conselho de Ética nacional. O motivo formal não foram as investigações criminais, mas o apoio público de Manga à candidatura da esposa, Sirlange Maganhato,  deputada federal pelo União Brasil. O comportamento foi considerado pelo partido uma violação aos deveres de lealdade e fidelidade partidárias. Mesmo depois da expulsão, Manga afirmou que continuaria apoiando Tarcísio de Freitas.

É neste contexto que Rodrigo Manga reaparece, no 7 de Setembro, ao lado de Freitas, Flávio Bolsonaro e outras figuras políticas no púlpito da Igreja Mundial. A cena reúne, portanto, não apenas um prefeito identificado com a denominação de Valdemiro Santiago, mas um político recentemente afastado do cargo, denunciado pelo MPF e expulso do partido do governador que estava ao seu lado no culto.

Depois de apresentar aos fiéis o testemunho de um homem que atribuía à fé sua recuperação de um câncer, o apóstolo Valdemiro Santiago passa a orar por Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas. Simbolicamente, o ambiente sacralizado denota a realização de impossíveis.


Imagem: Perfil oficial da Igreja Mundial do Poder de Deus no Facebook. Prefeito Rodrigo Manga atrás de Flávio Bolsonaro. Publicado em 7 de set 2026 – Acesso em 7 de set 2026


Nesse ambiente, Santiago afirmou que o país havia testemunhado “maus exemplos” de pessoas que se consideravam “intocáveis” e disse que Deus estaria “se zangando”, colocando cada um “no seu devido lugar”. Em seguida, após um fiel gritar o nome de André Mendonça, Tarcísio de Freitas reagiu positivamente e o líder da Igreja Mundial passou a pedir bênçãos ao ministro do STF, a quem apresentou como alguém que serve a Deus. 

Pouco depois, o apóstolo exibiu aos fiéis um vídeo com pronunciamento de Mendonça e o encorajou a “ir em frente” e “não desistir”. O religioso omitiu que a gravação havia sido feita meses antes, em março, para a comemoração do aniversário da própria denominação, e não especialmente para o culto de 7 de Setembro. Ao ser apresentado como se dialogasse diretamente com o ato do 7 de Setembro, o vídeo ajudou a reforçar a ideia de alinhamento e legitimação religiosa e institucional de uma agenda política específica.

Imagem: Reprodução de matéria do site Uol, publicada em 7 de set 2026. Acesso em 8 de set 2026


Ato na Avenida Paulista

Imagem: Foto em mídias sociais. Boneco inflável representando o ministro André Mendonça, do STF, durante ato na Avenida Paulista. Publicada em 7 set 2026. Acesso em 8 set 2026.

No Dia da Independência foi realizado, em São Paulo, na Avenida Paulista, o comício dos candidatos a presidente, governador do Estado e senadores do Partido Liberal. Sem discussão de projetos para o Brasil, o foco do evento, que reuniu em torno de 28 mil pessoas, segundo levantamento do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), foram críticas a uma parcela do Supremo Tribunal Federal. 

Em cima do carro de som, o pastor presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo Silas Malafaia fez um apelo direto aos ministros do STF:  “Alexandre de Moraes tem que ser afastado e tomar o impeachment”, afirmou. 

Imagem: Reprodução de publicação no perfil do pastor Silas Malafaia no X, em 7 de set 2026 . Acesso em 7 set 2026

Imagem: Reprodução do perfil do deputado Nikolas Ferreira na plataforma X. Publicação em 7 set 2026. Acesso em 8 set 2026

Também subiu ao palanque o deputado federal evangélico Nikolas Ferreira (PL-MG),  que reforçou os ataques a Alexandre de Moraes e o apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro. Depois de puxar o coro de “Fora Moraes”, o parlamentar afirmou que o lugar do ministro seria “na cadeia” e associou a eleição presidencial à possibilidade de mudança na composição do STF. O deputado do PL, frequentemente checado em matérias do Bereia, ainda anunciou uma manifestação no Amapá para pressionar o presidente do Senado Davi Alcolumbre a pautar os pedidos de impeachment contra Moraes.

A cenografia do comício também produziu forte simbolismo. Em pleno Dia da Independência, um enorme boneco inflável do presidente dos Estados Unidos Donald Trump foi instalado na Avenida Paulista. O boneco segurava, suspensa em uma das mãos, uma representação do presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva  vestido como presidiário. 

Imagem: Reprodução de matéria do jornal O Globo. Acesso em 7 set 2026

A alegoria colocava literalmente o presidente dos Estados Unidos em posição de superioridade sobre o presidente brasileiro, em contraposição aos discursos sobre patriotismo, soberania e defesa do Brasil. 

R R Soares e seus cinco filhos políticos

O missionário lider da Igreja Internacional da Graça R. R. Soares também atuou com esforços para a eleição de seus cinco filhos a cargos públicos neste 2026. O religioso tem rodado os templos de sua denominação pelo Rio de Janeiro e São Paulo, estados pelos quais os herdeiros estão concorrendo. David e Daniel Soares disputam vagas em São Paulo, enquanto André, Marcos e Felipe Soares miram cargos no Rio

Em agosto, o fundador da Igreja Internacional da Graça de Deus passou por 30 templos nos dois estados. Até 2 de outubro, estão previstas as visitas a outros 56, sem contar as igrejas onde outros líderes da denominação repetem o mesmo roteiro, de acordo com a agenda disponível no site oficial da denominação evangélica.

A cena se repete em cada cidade. Ao final da pregação de R.R. Soares em cada culto, ele chama os filhos à frente, pede que a congregação ore por eles e fala do caráter de cada um. Depois, aborda pautas caras à direita, como o aborto. Em Jales, no interior paulista, foi além: Soares pediu que o filho Flávio detalhasse o orçamento que destina às cidades da região, diante da igreja reunida. 

Neste 7 de setembro, entretanto, quando chegou o momento de apresentar David e Daniel em outro culto, também no interior paulista, a transmissão ao vivo pelo Facebook e YouTube foi interrompida. Apesar disso, há registros da passagem dos irmãos no perfil do Instagram de uma das igrejas visitadas.

Imagem: Reprodução da página oficial do Missionário RR Soares no Facebook, vídeo publicado em 27 ago 26. Acesso em 8 set 2026

Imagem: Reprodução do story do perfil da Igreja da Graça em São José do Rio Preto (SP)no Instagram. Publicação de 7 set 26. Acesso em 8 set 26. 

A engenharia eleitoral da família reparte os herdeiros para que não briguem pelo mesmo eleitor. Felipe e Marcos Soares concorrem a deputados federal e estadual pelo PSDB no Rio; David Soares a deputado federal pelo Podemos e Daniel Soares a estadual, pelo União em São Paulo; enquanto André Soares tenta a suplência no Senado fluminense pelo Republicanos,  na mesma disputa em que enfrenta o primo, o bispo Marcelo Crivella, da Igreja Universal do Reino de Deus. Some-se a eles a tia Edna Macedo, candidata à reeleição como deputada estadual em São Paulo, e o clã Macedo/Soares chega a sete candidaturas.

O sobrenome de urna revela a origem do capital político que sustenta essas campanhas. R.R. Soares foi sócio de Edir Macedo na fundação da Igreja Universal do Reino de Deus, em 1977, até um racha na liderança separar os dois três anos depois.  Soares saiu e criou a Igreja Internacional da Graça, em 1980, enquanto Macedo manteve a Universal. As duas denominações seguem, hoje, o mesmo padrão de lançar candidaturas políticas dentro do próprio grupo religioso. A Universal já elegeu dezenas de parlamentares ao longo das últimas três décadas, entre eles o próprio Crivella. Os filhos de R.R. Soares estão na política desde 2006, mas essa é a primeira vez que quatro deles usam o “RR” no nome de urna, numa referência direta ao pai. Apenas Daniel Soares preservou o nome de urna usado em pleitos anteriores.

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A desinformação não apareceu neste 7 de Setembro apenas como uma informação falsa facilmente isolável e detectável, mas esteve presente também na recontextualização de conteúdos, na omissão de informações relevantes, em documentos falsamente revestidos de autoridade institucional e em discursos que selecionam partes de fatos reais para construir um discurso político. 

Entre o púlpito e o palanque, fé, campanha eleitoral e crise institucional se encontraram em uma mesma disputa pela interpretação dos acontecimentos e pela definição de quem deveria ser apresentado ao público como aliado, perseguido ou inimigo.

Referências:

Ministério Público Federal https://www.mpf.mp.br/o-mpf/unidades/prr6/noticias/justica-acolhe-pedido-do-mp-eleitoral-e-nega-registro-de-candidatura-de-eduardo-cunha-em-minas-gerais Acesso em 7 set 2026

G1

https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/2026/02/06/nucleos-copia-e-cola.ghtml Acesso em 7 set 2026

https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/2026/03/31/stf-suspende-afastamento-de-rodrigo-manga-da-prefeitura-de-sorocaba.ghtml Acesso em 7 set 2026

O Globo

https://oglobo.globo.com/politica/eleicoes-2026/noticia/2026/09/07/ato-na-paulista-tem-trump-segurando-boneco-de-lula-bandeiras-dos-eua-e-flavio-bolsonaro-em-segundo-plano.ghtml Acesso em 8 set 2026

UOL https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2026/08/19/republicanos-expulsa-prefeito-tiktoker-manga-por-infidelidade-partidaria-em-votacao-unanime.htm Acesso em 7 set 2026

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/05/11/por-unanimidade-segunda-turma-do-stf-mantem-prefeito-tiktoker-no-cargo.ghtm Acesso em 7 set 2026

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/09/07/pastor-resgata-video-de-mendonca-e-o-exibe-em-culto-com-flavio-e-tarcisio.ghtm – Acesso em 8 set 2026

VEJA https://veja.abril.com.br/brasil/ao-vivo-flavio-bolsonaro-realiza-ato-de-campanha-na-avenida-paulista   Acesso em 7 set 2026   

Ongrace

https://ongrace.com/buscar-eventos/ Acesso em 08 set 2026

TSE

https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/SUDESTE/RJ/20322002026/190002550290/2026/RJ Acesso em 08 set 2026

https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/SUDESTE/RJ/20322002026/190002550487/2026/RJ Acesso em 08 set 2026

https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/SUDESTE/RJ/20322002026/190002550183/2026/RJ Acesso em 08 set 2026

https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/SUDESTE/SP/20322002026/250002533756/2026/SP Acesso em 08 set 2026

https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/SUDESTE/SP/20322002026/250002544834/2026/SP Acesso em 08 set 2026

André Mendonça mobiliza orações e se torna ícone do 7 de setembro bolsonarista

Por Amanda Audi

Após a série de atos que estremeceram o Supremo Tribunal Federal (STF) nesta semana, o ministro André Mendonça foi alçado ao posto de um dos principais ícones dos evangélicos e um pólo de mobilização para a militância bolsonarista nos atos de 7 de Setembro. Pedidos de oração e abaixo-assinados em apoio ao ministro mobilizaram lideranças políticas e religiosas que apoiam o candidato Flávio Bolsonaro nos últimos dias.

Em posts em redes sociais como X e Instagram, Mendonça é colocado como um contraponto ao ministro Alexandre de Moraes e ao governo Lula. Algumas publicações apresentam a disputa como uma escolha entre dois lados: de um, Lula e Moraes; de outro, Mendonça e o combate à corrupção. Há, inclusive, hashtags de apoio ao ministro, como #EuApoioAndréMendonça.

A “igreja evangélica se une em oração” no episódio descrito como “a maior batalha espiritual das últimas décadas”, diz um texto publicado no portal Gospel Mais, que foi replicado em várias outras páginas evangélicas. Um site que coleta assinaturas em apoio ao ministro recebeu mais de 14 mil adesões nas primeiras horas em que esteve no ar.

Pastores e observadores do mundo evangélico relataram à Agência Pública que os pedidos de orações para Mendonça têm sido a forma de adesão mais notável entre grupos cristãos conservadores na véspera de 7 de setembro – o meio costuma ser um dos mais engajados nos atos em apoio ao bolsonarismo.

Foto: Victor Piemonte/STF

O pastor presbiteriano e doutor em Sociologia, Valdinei Fernandes, reparou que não tem visto grandes mobilizações de evangélicos para o ato que deve ocorrer no 7 de setembro em São Paulo – programado para ser o maior do dia, com a presença do candidato Flávio Bolsonaro (PL). “O que tem circulado são pedidos de oração pelo ministro André Mendonça”, disse.

O fato de Mendonça ser evangélico ajudou a criar uma aproximação maior com o público – ele é o ministro “terrivelmente evangélico” escolhido por Jair Bolsonaro durante o seu governo. “Mendonça está quase virando um mártir. A extrema direita coloca a situação como se a esquerda estivesse perseguindo um pastor. Não um ministro do Supremo, mas sim um ministro evangélico”, afirma Sérgio Dusilek, pastor batista e teólogo.

No dia em que os novos detalhes do caso Master vieram à tona, 1º de setembro, a dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano louvou o ministro durante um show em Blumenau, em Santa Catarina. “Vamos pedir uma oração para este homem. Um homem que não tem medo de colocar aquilo que ele crê, aquilo que ele acredita”, disse Luciano, que também relatou que frequenta a Igreja Presbiteriana de Pinheiros, na qual Mendonça é reverendo em São Paulo.

Pastores evangélicos influentes, como o apóstolo Estevam Hernandes, fundador da Igreja Renascer em Cristo e presidente da Marcha para Jesus, e o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, um dos principais mobilizadores de protestos de rua do bolsonarismo, declararam apoio a Mendonça.

“Neste momento, minha oração é para que Deus continue lhe dando sabedoria, coragem e firmeza para cumprir sua missão”, disse Hernandes. Malafaia publicou uma série de vídeos em defesa de Mendonça e com duras críticas a Moraes, discurso que deve ser reproduzido na manifestação programada para a Avenida Paulista, em São Paulo, quando ele prometeu a sua fala “mais dura” contra Moraes.

Políticos bolsonaristas, como os senadores Magno Malta (PL-ES), Marcos Pontes (PL-SP) e Carlos Viana (PSD-MG), também convocaram correntes de oração ao ministro Mendonça. Magno Malta declarou que o magistrado não deve recuar diante de pressões e convocou aliados a fazerem um “clamor de oração” por ele.

Na biblioteca de anúncios do Meta, que congrega conteúdo patrocinado no Instagram e Facebook, há mais de 20 posts impulsionados com pedidos de oração para Mendonça nos últimos dias. A maioria foi paga pelas campanhas de candidatos bolsonaristas.

“Tem um homem em Brasília precisando da oração da igreja hoje”, diz um post de Davi Sacer, cantor gospel e candidato a deputado federal pelo Republicanos por São Paulo, com 1,5 milhão de seguidores. “O ministro André Mendonça está à frente de um dos casos mais importantes do Brasil. (…) Ore com a gente. E compartilha com a sua igreja e o seu grupo de oração: quanto mais gente intercedendo, mais forte essa corrente pelo Brasil.”

Outro post patrocinado é de Marcos Dias, presidente do Podemos no Rio de Janeiro e candidato ao Senado pelo estado. “Diante deste momento decisivo, faço um chamado à oração pelo ministro André Mendonça. Que Deus o proteja, fortaleça seus passos e lhe dê sabedoria para cumprir sua missão”, ele escreveu. Cada uma das publicações tem alcance estimado em mais de 1 milhão de usuários.

O ministro André Mendonça (esq.) tirou o sigilo das conversas entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do caso Master e Alexandre de Moraes (dir.)

Crise no Supremo

No dia 1º de setembro, Mendonça tirou o sigilo de um relatório que aponta comunicações entre o banqueiro Daniel Vorcaro, do banco Master, e autoridades, como o ministro Moraes (principal alvo do documento), o procurador-geral Paulo Gonet e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.

O relatório mostra que o escritório de Viviane Barci, esposa de Moraes, fechou com o Master um contrato de R$ 131 milhões assinado 12 dias depois de um suposto almoço de Moraes numa propriedade de Vorcaro em Campos do Jordão. Os metadados da versão final do arquivo do contrato indicam um usuário com nome de “Ministro Alexandre de Moraes” como o último a editar o documento.

Dois dias depois, Moraes rebateu: usou relatórios da inteligência da Polícia Federal para acusar Mendonça de, “em tese”, ter cometido improbidade administrativa, crimes de responsabilidade e de abuso de autoridade, com “favorecimento a determinados grupos políticos”. A crise aberta no STF escalou tão rapidamente que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), chegou a cogitar abrir processos de impeachment cruzados contra os dois ministros.

Quem é o deputado Cezinha de Madureira, evangélico articulador do encontro secreto entre Vorcaro e André Mendonça 

Mensagens e áudios extraídos do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, divulgados pela imprensa neste 2 de setembro de 2026, revelam que o deputado federal e pastor evangélico Cezinha de Madureira (PL), ao lado do advogado baiano Ciro Rocha Soares, passou semanas articulando um encontro em Brasília entre o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), o pastor presbiteriano André Mendonça e o banqueiro, preso desde março de 2026. A reunião durou cerca de duas horas e não constava na agenda pública do ministro.

Mendonça confirma parcialmente o episódio, ocorrido em 14 de março de 2025,no Instituto Iter, em Jardim Paulista, São Paulo. Ele afirma ter “se limitado a ouvir” Vorcaro e ter tratado apenas de uma ação sobre precatórios, a STP 976. Apesar de ser um encontro entre o juiz da causa e o investigado/réu, Mendonça nega ter discutido os problemas do Master junto ao Banco Central.

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Suspensão de Tutela Provisória (STP) é um processo da Advocacia Geral da União (AGU) encaminhado ao STF para suspensão de decisões que interfiram negativamente em políticas públicas. No caso da STP 976, a AGU demandou do STF a suspensão do pagamento de precatórios (dívidas judiciais do governo) que o Banco Master comprou de terceiros em 2023,  sob suspeita de que parte desses créditos tenha sido emitida de forma irregular. O ministro do STF André Mendonça assumiu a relatoria desse processo específico em fevereiro de 2026, quase um ano depois do encontro reservado com Vorcaro, o maior interessado no pagamento dos precatórios.

A revelação do caso, pelo jornalista Paulo Motoryn, em sua newsletter Noites Húngaras, publicada com exclusividade pelo ICL Notícias, colocou Cezinha de Madureira no centro de uma investigação sensível e levanta algumas questões: por que um deputado federal, liderança da Bancada Evangélica, serviu de ponte entre um banqueiro sob escrutínio regulatório e um ministro da mais alta corte do país, e o que essa capacidade de abrir portas em qualquer esfera de poder revela sobre o personagem que a exerce?

Foto: Marina Ramos/Câmara dos Deputados

Essa não é a primeira vez que Cezinha de Madureira aparece como o homem que conecta personagens políticas em esferas diferentes. Bereia faz um levantamento do perfil do deputado federal e reconstrói a trajetória do radialista baiano que virou “ungido” da maior denominação evangélica do país, a Assembleia de Deus – Ministério Madureira. Também aborda como, décadas depois, ele transita com desenvoltura entre direita, esquerda, bancada evangélica e ministros do Supremo. 

Imagem: Cezinha de Madureira acompanha bispo Samuel Ferreira (Assembleia de Deus Madureira) em visita ao presidente Lula, em outubro de 2025. Reprodução do perfil de Gleisi Hoffmann no Instagram, 16 out 2025.

Imagem: Cezinha de Madureira na garupa durante motociata do ex-presidente Jair Bolsonaro, em 2021. Imagem extraída de matéria da CNN – https://www.cnnbrasil.com.br/politica/bolsonaro-escolhe-lider-religioso-para-garupa-de-moto-de-olho-em-2022/ Acesso em 2 set 2026

O encontro que vazou

Segundo a reportagem de Motoryn, veiculada pelo ICL, a aproximação entre Daniel Vorcaro e André Mendonça foi arquitetada ao longo de semanas no início de 2025, quando o banqueiro estava em vias de ser preso por golpes no sistema financeiro. Em troca de mensagens com Vorcaro, nos dias 7 e 8 de fevereiro, o advogado baiano Ciro Rocha Soares relata que está “trabalhando” por ele e que havia conseguido um encontro com Mendonça. Em seguida, envia uma foto ao lado do ministro do STF numa alfaiataria em São Paulo. Soares diz, ainda, ter deixado Mendonça “balançado” com o assunto do Master. Um novo encontro chegou a ser agendado para 19 de fevereiro, sem confirmação de que tenha ocorrido. 

Em 13 de março, foi a vez do deputado Cezinha de Madureira entrar em ação: marcou um encontro com Mendonça sobre o caso Vorcaro para o dia seguinte, às 17h, no Instituto Iter, ,do próprio ministro do STF. No áudio de posse da Polícia Federal, Ciro Soares relata que o deputado avisa Vorcaro, a caminho da reunião:  “o ministro já está te esperando”. Segundo o advogado, Mendonça já sabia previamente do assunto, pois “o Cezinha já tinha falado com ele” sobre os problemas do Banco Master junto ao Banco Central. Portanto, as mensagens sugerem que Cezinha de Madureira não apenas articulou a logística do encontro, mas também preparou o terreno de conteúdo antes que ele acontecesse.

O encontro de 14 de março durou cerca de duas horas. Na nota oficial em que confirmou o episódio, Mendonça disse ter recebido Vorcaro “uma única vez”, por iniciativa do banqueiro; afirmou que se “limitou a ouvi-lo”, que manteve registro escrito do encontro em seu gabinete, que o assunto se restringiu à ação STP 976 sobre precatórios, então sob relatoria de outro ministro, e que seu voto posterior no caso Master foi contrário aos interesses do banqueiro. 

No dia seguinte ao encontro, o advogado Ciro Soares enviou a Daniel Vorcaro uma foto ao lado do procurador-geral da República Paulo Gonet, com a mensagem “Liga aqui… Ele quer falar com você”, seguida de quatro ligações entre os dois em poucos minutos. Este seria um indício, ainda não plenamente esclarecido publicamente, de que a rede de contatos articulada por Cezinha de Madureira e Ciro Soares pode não ter se limitado ao Judiciário.

Antes da reunião de Vorcaro e Mendonça, na manhã daquele mesmo dia, o ministro do STF participou de um evento no Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP) junto com Cezinha de Madureira. A questão Master/Vorcaro não foi tratada no encontro, Mendonça e o deputado do PL compuseram a mesma mesa durante a posse solene do conselheiro Maxwell Borges de Moura Vieira, segundo registro oficial do TCE-SP

A cerimônia ocorreu no Auditório Nobre do tribunal, na capital paulista. Horas depois, segundo os áudios já divulgados, André Mendonça recebeu Vorcaro no Instituto Iter, entidade fundada por ele em 2024, em encontro que durou cerca de duas horas.

A Revista Fórum revelou que a instituição acumulou ao menos R$ 10,8 milhões em contratos com órgãos públicos desde novembro de 2023, dos quais 54, o equivalente a 98,2% do total, foram firmados sem licitação prévia, a maior parte por inexigibilidade.

Após as revelações sobre os contratos firmados sem licitação com órgãos públicos pelo instituto do qual é sócio, o ministro André Mendonça decidiu deixar a entidade, da qual detém, com a esposa, 77,5% de participação. Segundo nota divulgada pelo Iter, ele cederá suas cotas e de sua esposa sem contrapartida financeira e passará a prestar ali apenas serviços acadêmicos, na condição de professor.

Até o fechamento desta apuração, não havia declaração pública de Cezinha de Madureira sobre seu papel no episódio. 

De rádio comunitária ao púlpito político

Antonio Cezar Correia Freire nasceu em 12 de dezembro de 1973 em Ipiaú, na Bahia, e começou a trabalhar no rádio ainda adolescente, na comunicação comunitária baiana. Membro da Assembleia de Deus, aos 18 anos, em 1991, mudou-se para São Paulo, onde construiu carreira como radialista e apresentador de programas religiosos. Apresentou o “Plantão da Vida” (Band e RedeTV!) e o “Palavra de Vida” (Rádio Musical FM) ao lado do pastor Samuel Ferreira, hoje bispo e presidente-executivo da Convenção Nacional das Assembleias de Deus – Ministério de Madureira, denominação presente em quase todo o país e também no exterior. Em 2012, foi ordenado pastor do ministério, em São Paulo.

Foi esse vínculo com a família Ferreira que o lançou à política. Elegeu-se deputado estadual em São Paulo em 2014, pelo Democratas (ex-PFL), ainda como “Pastor Cezinha”. O pseudônimo “de Madureira” só viraria marca política depois, associando seu nome à força eleitoral da vertente das Assembleias de Deus.  

Em 2018 e 2022 Cezinha de Madureira elegeu-se e reelegeu-se deputado federal por São Paulo, agora pelo PSD, tendo sido vice-líder do governo de Jair Bolsonaro na Câmara Federal. Em 2026, filiou-se ao PL para concorrer à reeleição, mudança de legenda que ocorreu, em São Paulo, na mesma leva que incluiu outros pastores do Ministério Madureira, incluindo seu colega de bancada estadual Oséias de Madureira.

Imagem: Reprodução de publicação de Cezinha de Madureira no Instagram, 29 ago 2026

O ungido do bispo

A reportagem “Ungido por chefe de igreja, Cezinha de Madureira dobrou patrimônio na política”, da Folha de S.Paulo (Carlos Petrocilo, 2019), descreve com precisão a natureza dessa relação. O deputado federal  é apresentado como o escolhido do bispo Samuel Ferreira para “alavancar o projeto de poder da igreja” no Legislativo. Venceu, para isso, uma disputa interna com outros pastores-políticos da denominação, entre eles Alex de Madureira.

Samuel Ferreira comanda o Ministério Madureira ao lado do pai, o bispo Manoel Ferreira (presidente vitalício da Convenção Nacional das Assembleias de Deus e bispo-primaz da AD Madureira), e do irmão, o bispo e pastor-presidente da igreja Abner Ferreira. Este núcleo familiar, segundo a mesma reportagem, Cezinha de Madureira trata como sua própria família, inclusive se referindo à Samuel Ferreira como “pai adotivo” e do qual diz depender para dar entrevistas, redigir discursos e propor projetos: “Estou aqui porque a igreja me colocou, foi a igreja que me elegeu. Respondo ao meu povo através do meu líder.”

A reportagem da Folha de S. Paulo também registra que o patrimônio declarado do deputado federal do PL-SP à Justiça Eleitoral saltou de R$ 230 mil, em 2014 (um único imóvel), para R$ 469 mil, em 2018 (dois veículos, aplicações, previdência privada, consórcio e uma casa de R$ 380 mil). Além disso, o nome do parlamentar apareceu, com um valor simbólico de R$ 16, na lista de doações da JBS a 1.829 políticos nas eleições de 2014, repassado via campanha do então colega de chapa Antônio Goulart (PSD-SP). Em 2026, o político declarou um total em bens de R$ 3.104.759,28, mais de 10 vezes o patrimônio inicial. 

Imagem: Reprodução de publicação do perfil de Cezinha de Madureira no Instagram, 21 mai 2026

A guerra pela Frente Parlamentar Evangélica

Cezinha de Madureira presidiu a Frente Parlamentar Evangélica (FPE) em 2021, sob um acordo informal de revezamento fechado, em dezembro de 2020, com o pastor deputado federal Sóstenes Cavalcante (então DEM-RJ, depois PL), afilhado político do pastor Silas Malafaia, presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo. O acordo previa a transferência da presidência a Sóstenes Cavalcante em 2022. Entretanto, quando deveria repassar a presidência, Cezinha de Madureira sugeriu que “o que existe hoje é um combinado entre nós”. Com isso, questionou o caráter formal do pacto inicial, enquanto Cavalcante reivindicava um acordo gravado em vídeo e assinado por quatro parlamentares da bancada de Madureira.

A disputa expôs publicamente a rivalidade entre os dois maiores polos do pentecostalismo político brasileiro: de um lado a família Ferreira e seu Ministério da Assembleia de Deus, com Cezinha de Madureira como principal fiador no Congresso; do outro, Silas Malafaia e seu afilhado Sóstenes Cavalcante, com direito a áudio vazado em que o presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo chama Samuel Ferreira de “pseudo líder covarde”.

A transição na FPE só se consumou em 9 de fevereiro de 2022, em sessão marcada por um culto com Santa Ceia, hinos evangélicos e a declaração do deputado federal Silas Câmara  (Republicanos/AM) de que os parlamentares evangélicos eram “a boca de Deus no Parlamento”. Como saída para o impasse, a bancada reduziu o mandato da presidência da FPE de dois para um ano, um desfecho que, na prática, distribuiu o poder entre as duas facções em vez de resolver a disputa por hegemonia.

Imagem: Reprodução de matéria do jornal O Globo, publicada em 17 jan 2022

Articulações pelos poderes

A relação entre o deputado Cezinha de Madureira e o ministro André Mendonça não é de agora. Na ocasião da candidatura do pastor presbiteriano, ex- ministro da Justiça do governo Jair Bolsonaro, ao STF, foi o parlamentar quem levou Mendonça a um evento da Assembleia de Deus Madureira, no Rio, para apresentá-lo à liderança e conquistar o apoio do ministério. O lobby foi bem sucedido: as principais lideranças assembleanas do Ministério Madureira, estiveram ao lado de Mendonça durante a sabatina no Senado. O apoio pressionou por votos para a aprovação de seu nome ao cargo que ocupa até hoje. A votação ocorreu em dezembro de 2021, justamente quando Cezinha de Madureira presidia a Frente Parlamentar Evangélica na Câmara Federal. 

A figura de Cezinha de Madureira como mediador de articulações de poder, se mostrou destacada em 2025, em outra direção. Em 16 de outubro daquele ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu no Palácio do Planalto os bispos Manoel Ferreira e Samuel Ferreira, da Igreja Assembleia de Deus Madureira, em um encontro articulado pelo deputado federal, então do PSD. Cezinha atuou como elo entre o Planalto e as lideranças assembleanas, enquadrando a visita como institucional e não política, segundo ele, a convite do próprio presidente. Também participaram do encontro o evangélico batista, advogado-geral da União, Jorge Messias, e a então ministra das Relações Institucionais Gleisi Hoffmann. O encontro reforçava a busca de aproximação entre o governo e o segmento evangélico. De acordo com o Cezinha de Madureira, o grupo orou com Lula “diante do momento conturbado do país”, num gesto que buscou emprestar ao encontro um tom espiritual e conciliador.

Questionado por jornalistas sobre possíveis tratativas políticas, como a indicação de Messias ao STF ou articulações de alianças para 2026, o deputado federal negou qualquer negociação ou pedido, insistindo no caráter estritamente protocolar da visita. Ao final, os bispos entregaram a Lula uma edição especial da “Bíblia do Culto do Ministro” e um exemplar comemorativo do Centenário de Glória da igreja, gesto simbólico que reforçou o tom de aproximação institucional buscado por Cezinha. 

A repercussão veio principalmente pelas redes depois de Gleisi Hoffmann ter publicado registros do encontro destacando a presença das lideranças religiosas e a oração feita pelo país e pelo presidente. Houve comentários de apoio e de condenação ao papel do deputado, reconhecidamente integrante da oposição.

Imagem: Senadora evangélica Eliziane Gama (PSD/MA) repercute o encontro de Lula com bispos da AD Madureira. Perfil de Eliziane Gama no Instagram, 16 out 2025. 

Imagem: Reprodução de matéria da revista Comunhão, publicada em 24 out 2025

Dias antes de as mensagens sobre o encontro com Vorcaro virem a público, o nome de Cezinha de Madureira já havia circulado por outro motivo. Em 25 de agosto, a Polícia Federal apreendeu R$ 510 mil em espécie na bagagem da advogada e empresária Valéria Rodrigues Linhares, no Aeroporto de Congonhas. Na cobertura do caso, o colunista do Globo Lauro Jardim identificou a mulher como esposa do deputado. Ainformação era incorreta, já que a mulher do deputado é a pedagoga Elis Freire. 

O próprio parlamentar telefonou ao colunista para desmentir a relação; Jardim registrou a ligação na nota, mas manteve a informação errada original no ar. Os sites da Revista Fórum e do Brasil 247, que também haviam reproduzido o erro, retiraram as matérias do ar, (mas ainda aparecem em pesquisas do Google); o ICL Notícias, por sua vez, publicou uma retratação. 

Até o fechamento desta reportagem, a nota do Globo permanecia publicada sem correção, apenas com o registro da ligação do deputado, o que induz ao erro e causa desinformação. Quem apenas lê rapidamente a manchete ou o link inicial continua absorvendo a informação falsa. 

A coluna errou também a data da atualização: Como a nota original foi publicada em 28 de agosto de 2026, a inserção do texto de correção com menção “Atualização no dia 20 de agosto” ficou cronologicamente incoerente (uma data anterior à própria notícia), expondo o descuido e a pressa no momento de publicar a retificação.

Imagem: Reprodução de matéria do jornal O Globo, publicada em 28 Ago 2026. Acesso em 3 set 2026

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A articulação entre o banqueiro preso por golpe financeiro Daniel Vorcaro e o ministro do STF André Mendonça não é caso isolado na trajetória do deputado federal e pastor Cezinha de Madureira. É a mesma habilidade que o levou a ser escolhido pelo bispo Samuel Ferreira para representar a Assembleia de Deus Madureira no Congresso, e que o manteve relevante nas articulações da Frente Parlamentar Evangélica dividida por disputas internas: a de transitar entre esferas de poder que, em tese, não costumam se comunicar.

Nesse mesmo período, o patrimônio declarado do político evangélico saltou de R$ 230 mil, em 2014, para mais de R$ 3,1 milhões hoje. A investigação sobre o encontro com Vorcaro não trata desse crescimento patrimonial, mas o dado ajuda a dimensionar a trajetória de um deputado cuja principal marca, ao longo de três décadas, foi a proximidade com figuras de peso em espaços de poder distintos.

Até o fechamento desta apuração, Cezinha de Madureira não havia se pronunciado sobre seu papel na articulação do encontro. Bereia seguirá acompanhando o caso.

Referências

Blog Noites Húngaras

https://paulomotoryn.substack.com/p/urgente-mensagens-e-audios-ineditos – Acesso em 2 set 26

ICL Notícias
https://iclnoticias.com.br/vaza-mendonca-mensagens-e-audios-ineditos – Acesso em 2 set 26

CNN Brasil

https://www.cnnbrasil.com.br/politica/mendonca-admite-encontro-com-vorcaro-em-2025-para-tratar-de-precatorios/ – Acesso em 2 set 26

Câmara dos Deputados

https://www.camara.leg.br/deputados/204504?ano=2025 – Acesso em 2 set 26

G1

https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/09/02/mendonca-diz-que-recebeu-vorcaro-uma-unica-vez-para-tratar-de-acao-sobre-precatorios-no-stf.ghtml – Acesso em 2 set 26

https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/09/01/quem-e-ciro-soares.ghtml – Acesso em 2 set 26

Veja

https://veja.abril.com.br/coluna/radar/deputado-que-orou-com-lula-rebate-critica-de-lider-do-pl-a-messias-no-stf/ – Acesso em 2 set 26

Uol

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2025/10/19/deputado-aliado-bispo-samuel-ferreira-encontro-lula.htm – Acesso em 2 set 26

Metrópoles

https://www.metropoles.com/sao-paulo/pl-filiacao-evangelicos-ex-kassab-sp – Acesso em 2 set 26

O Globo

https://oglobo.globo.com/politica/briga-pelo-poder-abre-crise-na-bancada-evangelica-no-congresso-1-25356916 – Acesso em 2 set 26

Folha

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/01/ungido-por-chefe-de-igreja-cezinha-de-madureira-dobrou-patrimonio-na-politica.shtml – Acesso em 2 set 26

Congresso em Foco

https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/113023/com-messias-lula-recebe-deputado-e-bispos-evangelicos-no-planalto   Acesso em 2 set 2026

Portal de notícias e perfis em redes promovem falso atentado a ministro do STF

A informação de que um avião que transportava o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e pastor presbiteriano André Mendonça teria sofrido “decolagem abortada após falha mecânica” circula nas redes digitais nos últimos dias, entre websites e perfis nas redes. Bereia recebeu de um leitor uma das publicações, verificou o caso e constatou que a informação é falsa.

Na noite da quinta-feira, 19 de março passado, o ministro do STF havia embarcado em um voo comercial que partiria de Brasília com destino ao Rio de Janeiro. A viagem, no entanto, foi cancelada antes da decolagem. Mendonça e os demais passageiros foram posteriormente reacomodados em outro voo.

Imagem: Reprodução/ Redes sociais

O voo, operado pela Latam Airlines, também tinha como passageiro outro ministro do STF,  Luiz Fux. A companhia informou que a aeronave não chegou a decolar e que a suspensão ocorreu de forma preventiva.

De acordo com a empresa, a decisão foi tomada após indícios de possíveis danos causados na aeronave no voo  anterior, por colisão com uma ave, ocorrência muito comum conhecida na aviação como bird strike. Por esse motivo, o avião foi encaminhado para inspeção técnica, conforme os protocolos de segurança.

Nota oficial da Latam

Em nota enviada à imprensa, a Latam Airlines informou:

“A LATAM Airlines Brasil informa que o voo LA3796 (Brasília–Rio de Janeiro/Santos Dumont), de quinta-feira (19/03), foi cancelado de forma preventiva após a necessidade de inspeção técnica em decorrência de possíveis danos causados por bird strike (colisão com ave) em voo anterior da aeronave.

A companhia ofereceu assistência e reacomodou os passageiros em outros voos. A decisão ocorreu antes do pushback da aeronave (manobra para início do taxiamento). Não houve falha mecânica nem decolagem abortada.

A LATAM reforça que a segurança é sua maior prioridade. Manutenções e verificações técnicas seguem rigorosos protocolos internacionais e são adotadas exatamente para garantir a completa segurança das operações.”

Contexto: colisões com aves

Colisões entre aeronaves e aves, conhecidas como bird strike, estão entre as ocorrências mais frequentes na aviação civil. No Brasil, esse tipo de incidente é monitorado pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) e, em geral, leva à adoção de medidas preventivas pelas companhias aéreas, como inspeções técnicas e cancelamentos de voos, a fim de garantir a segurança das operações.

Dados do Cenipa indicam que, apenas em 2022, foram registrados 2.294 casos no país, o que representa uma média de uma ocorrência a cada quatro horas. De acordo com o Anuário de Risco de Fauna, o aumento desses registros está associado a fatores como a expansão da malha aérea, o crescimento da frota de aeronaves, a presença de aviões mais rápidos e silenciosos e a maior concentração de aves em áreas urbanas.

Repercussão nas redes digitais

Após a divulgação do caso, a informação passou a circular de forma distorcida nas redes digitais. Veículos de mídia,  como o Metrópoles, replicaram a afirmação de que o voo com o ministro André Mendonça teria sofrido uma “decolagem abortada por falha mecânica”, o que não corresponde aos fatos. A desinformação passou a ser disseminada deliberadamente para fazer crer que o caso seria uma tentativa de atentado ao ministro.

Imagem: Matéria com informação incorreta sobre o caso. Reprodução: Metrópoles

Imagem: Matéria com informação incorreta sobre o caso. Reprodução: Metrópoles

A reprodução desse enquadramento incorreto ocorreu de forma acelerada entre usuários e perfis, principalmente na plataforma X, o que ampliou a desinformação sobre o episódio, com uso político agressivo.

Imagens: Prints da repercussão nas redes digitais. Reprodução: X

A circulação de versões falsas evidencia como conteúdos relacionados a figuras públicas tendem a ganhar maior alcance e sofrer alterações ao serem compartilhados fora de contexto. 

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Bereia classifica, portanto, que a informação de que o voo com o ministro André Mendonça teria sofrido “decolagem abortada por falha mecânica” como falsa. Não houve tentativa de decolagem, tampouco registro de pane mecânica. O que ocorreu foi o cancelamento preventivo do voo, ainda em solo e antes do início dos procedimentos de deslocamento da aeronave, após suspeita de danos provocados por colisão com ave, conforme informado pela Latam Airlines.

A checagem do Bereia evidencia que a distorção dos fatos teve origem na forma como o caso foi apresentado pelo portal de notícias Metrópoles e foi replicado em diferentes plataformas, com a substituição de termos técnicos por interpretações falsas. Ao ser difundida sem o devido contexto, a informação incorreta ganhou alcance e passou a ser tratada como um incidente mais grave do que o efetivamente ocorrido, com utilização política e acusações indevidas.

Referências: 

Uol. https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2026/03/20/voo-com-andre-mendonca-e-cancelado-apos-suspeita-de-dano-em-aviao.ghtm. Acesso em 23 de março de 2026.

G1. https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2023/04/05/brasil-tem-media-de-uma-colisao-entre-avioes-e-passaros-a-cada-4h-entenda-riscos-para-aviacao-comercial.ghtml. Acesso em 23 de março de 2026.

Veja. https://veja.abril.com.br/politica/voo-em-que-estava-andre-mendonca-e-cancelado-por-problemas-tecnicos/. Acesso em 23 de março de 2026.

Aeroin. .https://aeroin.net/aviao-da-latam-com-ministro-do-stf-nao-abortou-a-decolagem-e-voo-foi-cancelado-por-outro-motivo/. Acesso em 23 de março de 2026.