Diante da crise do coronavírus, o que as igrejas podem fazer?

Edir Macedo e Silas Malafaia reagiram à suspensão das atividades religiosas. Isso é responsabilidade cristã?

A crise socioeconômica agravada pela pandemia provocada pelo coronavírus é realidade que, por mais que muitos tentem amenizar e até esconder, não há como ser desconsiderada. A vida cotidiana foi drasticamente alterada, o medo do sofrimento e da morte foi potencializado, a lógica do mercado e do capital que rege políticas foi posta à prova com altas demonstrações de fracasso.

Num dado momento dos últimos dias, os grupos religiosos, principalmente as igrejas, estiveram no centro de discussões. Enquanto medidas sanitárias orientavam o isolamento social para preservação de vidas, emergiu a questão: igrejas devem continuar com suas atividades presenciais?

O ministério da Saúde alertou que a medida de evitar aglomerações incluía missas e cultos, indicando que as igrejas poderiam permanecer abertas para quem quisesse fazer suas orações. Vários estados e municípios formalizaram ações desde a restrição do número de participantes até o fechamento dos templos e espaços de reuniões religiosas.

Alguns líderes religiosos de igrejas autônomas, de imediato, rejeitaram veementemente a indicação de suspensão de atividades coletivas. Como justificativa, alegaram a obrigação das igrejas reunirem os fiéis para prestar culto a Deus (que espera isto de seus servos e servas) somada à importância de se testemunhar a fé, afinal, afirmam, quem se apega a ela não deve ter medo de nada.

Dois religiosos se destacaram na rejeição à suspensão das atividades: o bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, e o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo. Malafaia divulgou um vídeo nas mídias sociais, em 14 de março, afirmando que ninguém o impediria de manter os “seus cultos”. Em 15 de março, também por vídeo, Macedo afirmou que o coronavírus é uma invenção de Satanás e da mídia para induzir pessoas ao pânico e utilizou o depoimento de um patologista da Unifesp que desacreditava os alertas sobre a gravidade da pandemia.

A Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional divulgou nota, em 18 de março, defendendo a abertura de templos para os cultos. Os deputados argumentaram que precisam de orações para enfrentar a “pandemia maligna”.

Estes grupos receberam o apoio do presidente da República, Jair Bolsonaro, que, em entrevista a um programa de entretenimento no dia 19 de março, defendeu que as igrejas devessem funcionar, com pastores e padres decidindo o que fazer se os locais se tornassem muito cheios.

Com o agravamento da pandemia, o pastor Malafaia acabou cedendo às pressões sociais e suspendeu os cultos presenciais, passando a oferecê-los pela internet. O pastor também declarou em mídias sociais ter oferecido os espaços de sua igreja para as autoridades de saúde utilizarem no atendimento a pessoas contaminadas.

Já o bispo Edir Macedo apagou o vídeo que havia publicado nas mídias sociais, justificando, em nota, que o fez “assim que se constatou que o especialista da Unifesp havia excluído o depoimento que publicara no YouTube”.

Outras igrejas tiveram atitude marcadamente diferente tão logo foram divulgadas medidas de isolamento social e declararam apoio. As históricas, Católica Romana e evangélicas como a Presbiteriana do Brasil, a Presbiteriana Unida, a Convenção Batista Brasileira, a Aliança de Batistas do Brasil, a Metodista, a de Confissão Luterana do Brasil, a Episcopal Anglicana do Brasil, e igrejas pentecostais e outras autônomas como a Cristã Nova Vida, Renascer em Cristo, Batista da Lagoinha, Sara a Nossa Terra, Cristã Maranata, Evangelho Quadrangular, Assembleia de Deus Betesda, tiveram essa postura. Estas igrejas divulgaram notas de suspensão de suas atividades coletivas, com orientação aos fiéis para praticarem o isolamento social e participarem de atividades virtuais, de culto, oração e estudo.

Algumas destas igrejas ofereceram seus espaços para atuarem em parceria com o serviço público de saúde no atendimento a pessoas contaminadas, bem como na solidariedade a famílias que têm o seu sustento comprometido pelo isolamento social.

Em pronunciamento oficial, o presidente do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) pastor luterano Inácio Lemke, pediu tranquilidade e incentivou que as pessoas fiquem em casa: “O momento pede calma e prudência. Precisamos ter responsabilidade com aquilo que falamos. Incentivar que um fiel vá à igreja, sabendo que isso expõe não apenas ele, mas toda a sua família, é extremamente irresponsável, além de representar um risco real para a saúde pública”.

Esta atitude de responsabilidade cristã tem sido seguida também por igrejas em outras partes do mundo. O secretário geral do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) Rev. Dr Olav Fykse Tveit, e a moderadora Dra. Agnes Abuom, conclamaram pessoas e igrejas ao redor do mundo a darem máxima prioridade a “fazer o que puderem para proteger a vida”, pedindo às igrejas que não celebrem cultos abertos ao público, e que sigam estritamente as diretrizes das autoridades com base nas orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS).

O CMI sugere às suas 350 igrejas-membro que reconsiderem seu modo de trabalhar. “Este é um momento para tocar o coração um do outro, pelo que dizemos, o que compartilhamos, o que fazemos – e o que não fazemos – para proteger a vida que Deus tanto ama. Nesse amor, devemos adaptar nossos modos de louvor e comunhão às necessidades deste período de pandemia”. Também convidou as igrejas a tornarem o domingo num dia de oração pelas pessoas mais vulneráveis, como refugiados, idosos e pessoas afetadas pela covid-19 e a orarem por toda a comunhão de igrejas e pela família humana em todo o mundo.

Vários espaços religiosos na internet recuperaram uma carta que o mais destacado inspirador da Reforma Protestante, Martinho Lutero, escreveu, em 1527, durante a epidemia da chamada “Peste Negra” que pôs fim a milhões de vidas na Europa (do livro Luther’s Works, Vol. 43, Fortress Press, 1968, p. 116). A carta foi dirigida ao pastor Johannes Hess, com uma série de orientações para que os protestantes seguissem as medidas de prevenção e cuidassem dos sofredores. Lutero, então, escreve:

“Pedirei a Deus para, misericordiosamente, proteger-nos. Então farei vapor, ajudarei a purificar o ar, a administrar remédios e a tomá-los. Evitarei lugares e pessoas onde minha presença não é necessária para não ficar contaminado e, assim, porventura infligir e poluir outros e, portanto, causar a morte como resultado da minha negligência.

Se Deus quiser me levar, ele certamente me levará e eu terei feito o que ele esperava de mim e, portanto, não sou responsável pela minha própria morte ou pela morte de outros. Se meu próximo precisar de mim, não evitarei o lugar ou a pessoa, mas irei livremente conforme declarado acima. Veja que essa é uma fé que teme a Deus, porque não é ousada nem insensata e não tenta a Deus.”

Fonte: Reproduzido de Coluna Diálogos da Fé, revista CartaCapital, 24/03/2020.

Fonte imagem: Culto no templo de salomão (foto tirada na inauguração do templo, em 30 de julho de 2014 / crédito: demétrio koch)

Igreja e (IR)responsabilidade social – os paradoxos da pandemia de 2020

Paradoxos de Origem

Rubem Alves sintetizou no livro “Protestantismo e Repressão” (1979) o paradoxo das igrejas evangélicas brasileiras. Um paradoxo de formação, revisitado na pandemia de 2020.  

Nós, evangélicos/as, temos uma moeda de duas faces: ao mesmo tempo, pregamos uma mensagem de amor ao próximo e de individualismo sectário. E não é só um conflito entre fé e vida. Os fundadores das igrejas cultivaram forças modernizadoras, libertadoras e comunitárias e, simultaneamente, incentivaram padrões individualistas, desencarnados, quanto aos costumes. Não desenvolvemos uma ética da liberdade, solidariedade e comunidade. Em nome de uma salvação individual, dinamitamos pontes e cortamos laços.

Isso pode mudar?

Balança Enganosa

Em primeiro lugar, para mudar, precisamos enxergar essa balança enganosa, sempre pendendo para os interesses pessoais, imobilizando colheitas e fazendo secar sementes da transformação… Há muitos exemplos de tensão entre a responsabilidade social e sectarismos na história.

Secaram e murcharam instituições que reuniam as muitas denominações e missões brasileiras para uma ação social. Sucumbiram a Liga Evangélica (1890), a Aliança Evangélica (1902), a Confederação Evangélica do Brasil (CEB, 1934) e a Associação Evangélica Brasileira (1991). Restaram o CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, membro do Conselho Mundial de Igrejas) e a Aliança Cristã Evangélica Brasileira (membro da World Evangelical Alliance). A lição histórica é escandalosa: mesmo perante crises, epidemias ou conflitos mundiais, somos incapazes de unir forças. Sectarismos são egoísmos aumentados.

“Social Branding”

Sintomaticamente, o tema da “Responsabilidade Social” – nome de um dos setores da Confederação Evangélica do Brasil – é, para os sectários, o assunto mais espinhoso. São duas palavras enormes, que se tornam explosivas quando faladas no ambiente eclesiástico. E só lá.

Até empresas, imersas na concorrência comercial, têm setores de Responsabilidade Social. Publicitários apelam ao conceito para ganhar simpatia – isto é, como estratégia de marketing. Como exemplo, nestes tempos de Pandemia, empresas de telefonia e streaming media liberaram acessos gratuitos. A Burger King está doando receitas para a saúde. Porém, as igrejas têm alergia ao binômio: “responsabilidade social”.

Imagine, porém, se as igrejas suprissem as necessidades dos moradores de rua? Ou se fizessem uma arrecadação para o SUS? Assustou-se?  Essa era a prática dos cristãos do passado.

Em nossos dias, a balança da Responsabilidade Social desequilibra-se sob a mão pesada do sectarismo, do egocentrismo, do consumismo, da prosperidade econômica e da lógica de mercado.  Posturas irresponsáveis como as de Malafaia e Macedo afetam não apenas seu rebanho, precarizado, socialmente vulnerável e passível de enfermidades, elas mancham a Cruz e o Evangelho.

Em resumo, a igreja peca socialmente pelo que faz, mas também pelo que deixa de fazer. Erra no atacado e no varejo, peca no “Social Branding” (e até o Google é mais bem quisto por fazê-lo).

“TRISTEMUNHO”

Ao invés de ganhar simpatia, as lideranças que desafiam a quarentena e insultam as autoridades sinalizam às comunidades e aos vizinhos que não se importam devidamente com a saúde coletiva.

Médicos cristãos sofrem duas vezes por isso. O Dr. Wilson Bonfim, médico e cristão, utilizou suas redes sociais para orientar as pessoas, mas os comentários dos seus irmãos/ãs evangélicos/as, disponíveis em sua página do facebook, são um “tristemunho” (mau testemunho). Lembre-se porém, ao ler, que a fé, sem obras, é morta. Uma fé viva é socialmente responsável.

Tal fé moveu, em 1864, Jean-Henri Dunant, calvinista. Ele convenceu católicos e protestantes a adotarem a primeira Convenção de Genebra, obrigando exércitos a cuidarem dos feridos, independente do uniforme. Graças a Dunant, o emblema padronizado foi a Cruz Vermelha. Mas, agora, filantropia e saúde desligam-se cada vez mais da Cruz. Na Coréia do Sul, uma mega igreja foi a grande responsável pela expansão da pandemia. No Brasil, em 2020, líderes utilizam o discurso da fé contra a saúde. Silas Malafaia e Edir Macedo, por exemplo, destacaram-se em suas posturas diante das quarentenas, insistindo em manter cultos e reuniões.

Seria louvável, socialmente responsável, se mantivessem templos abertos para tratamento ou cuidado dos enfermos. Infelizmente não é. Para piorar, o discurso dos cristãos evangélicos nas redes sociais oscila entre o “destemor” e a defesa de que a pandemia faz parte de uma conspiração “comunista de origem chinesa”. A xenofobia apelidou a COVID-19 de “chinavírus”. Enquanto isso, médicos chineses são aplaudidos ao chegarem na Itália, e a OMS (Organização Mundial de Saúde) lembra que vírus e vacinas não têm bandeira ou partido político. Um dia, esse foi o discurso da Igreja de Cristo.

COMO OS PAGÃOS?

O contraste com as origens cristãs foi notado por Moses Lee (do site Coalizão pelo Evangelho) que recordou a solidariedade dos primeiros cristãos com os doentes e o cuidado com a coletividade como marcas sociais dos primeiros cristãos. Lee relembra que com o risco da própria vida, os “santos”, ofereciam apoio aos vizinhos e, no limite, iam a locais que estavam sendo evitados.

Hoje, ao desafiar as quarentenas para abrir suas igrejas para cultos egocêntricos e incentivar práticas de irresponsabilidade social, os evangélicos não estão cuidando do próximo. E, ainda por cima, passam a mensagem de que estão mais preocupados consigo mesmos, como os antigos sacerdotes dos templos pagãos. Cheios de pompa e riqueza, seguiam celebrando aos seus deuses nos tempos da peste. Atualmente, os ícones do sacrifício são cientistas, pesquisadores, médicos, enfermeiros e profissionais de saúde.

Ou seja, se a história mantiver o seu ritmo, o que é certo, os templos ficarão vazios e os consultórios lotados. Não é apenas um conflito entre a vacina e a prece.  A Covid-19 (doença causada pelo coronavírus) é mais do que um conflito entre fé e ciência, é um conflito ético, entre posturas coletivas e individualistas.

O que podemos fazer?

  • Auxiliar nossos vizinhos que têm dificuldade de locomoção, ou avançada idade;
  • Manter os vínculos comunitários, através das redes sociais e telefone;
  • Doar sangue – porque os doentes continuam precisando disso (vá ao hemocentro);
  • Oferecer suporte e cestas de alimentos e recursos para os mais pobres;
  • Orar pelas autoridades, pesquisadores, cientistas e profissionais de saúde;
  • Combater o preconceito, a xenofobia e as fake news;
  • Ver um filme: “Até o Último Homem”(2016). Veja e entenda que se sua oração não tem ação social, você está deixando pessoas feridas e enfermas pelo caminho…

EM TEMPO 1 (Atualizado em 19/03/2020)

Recebemos, com alegria, as informações e testemunhos de que algumas Igrejas estão distribuindo cestas básicas, que comunidades estão dando apoio a asilos de idosos e que grupos de jovens cristãos estão organizando doações para os bancos de sangue. Que Deus os(as) abençoe. Sejamos sal e luz!

EM TEMPO 2 – Segundo a BBC e o Jornal New York Times, Lee Man-Hee, líder da Shincheonji Churh of Jesus ajoelhou-se e pediu perdão pela sua postura durante da Pandemia, na Coréia do Sul. Em média, 60% dos casos confirmados no país são dos fiéis de sua denominação. Soube-se disso porque a Coréia do Sul fez testes em massa. Pastores coreanos de outras denominações criticaram a Shincheonji Church.

No Brasil, depois de ter dito que “governador algum fecha meu culto”, Silas Malafaia postou em suas redes sociais o aviso: “Atenção, pastores! Qualquer estado ou cidade que decreta estado de emergência, independente se tem ônibus circulando ou não, tem que parar o culto”… Em 20/03, Malafaia anunciou que vai suspender cultos, a conferir…

EM TEMPO 3 – Oremos pelos profissionais de saúde e também pelos jornalistas. Todos estão sobrecarregados. Muitos, dobrando escala.

Fonte imagem: kindpng.com

Coronavírus: dias difíceis, medidas extremas

Em resposta à pandemia do novo coronavírus, Sars-CoV-2 , na noite de quinta-feira, 12 de março último, a Igreja Batista de Água Branca decidiu suspender todas as suas atividades presenciais, inclusive e principalmente as celebrações dominicais, que serão realizadas em modo online, por tempo indeterminado.

A fé não imuniza. Jesus ensinou que as chuvas e tempestades e ventos furiosos assolam as casas de todos, bons e maus, tanto dos que têm a casa edificada sobre a rocha quanto dos que a edificaram sobre a areia (Mateus 7.24-27). A fé é o recurso para enfrentar a fatalidade, não licença para agir com desinteligência, imprudência, ingenuidade ignorante, ou teimosia. Enxergando nuvens no horizonte e sabendo das condições desfavoráveis à navegação, Paulo, apóstolo, adverte seus companheiros de viagem dizendo:“vejo que a nossa viagem será desastrosa e acarretará grande prejuízo para o navio, para a carga e também para as nossas vidas” (Atos 27.7-10). Aprendi que devemos dar passos de fé, mas por vezes a fé recomenda um passo de bom senso. Quando os ventos são contrários, fique no porto, não se arrisque sob pretexto de fé. Isso não é fé, é arrogância, é colocar Deus à prova (Mateus 4.7; Deuteronômio 6.16).

Toda cura é cura divina, inclusive aquela promovida pela medicina, disse John Stott, teólogo anglicano britânico. A cisão entre fé e ciência reflete mais ignorância que piedade. Atender às recomendações das autoridades governamentais, notadamente aquelas orientadas pelos profissionais da saúde, os especialistas e infectologistas, é uma expressão de sensatez e também uma forma de honrar a Deus, pois como bem disse Louis Pasteur, “um pouco de ciência nos afasta de Deus. Muito, nos aproxima”.

A igreja é uma comunidade solidária. Não vive à parte do mundo e da sociedade, e por isso mesmo compartilha tanto as bem-aventuranças quanto as desventuras de seu povo e seu tempo. Ao despedir-se de seus discípulos, Jesus orou pedindo “não rogo que os tires do mundo, mas que os protejas do Maligno” (João 17.15). A esperança e as convicções espirituais não isentam das responsabilidades e dinâmicas da vida no mundo, e por isso mesmo o apóstolo Paulo nos recomenda: “exerçam a sua cidadania de maneira digna do evangelho de Cristo” (Filipenses 1.27).

A igreja tem uma inescapável função social. A igreja, em suas palavras e ações, seu kerigma e sua práxis, profetiza, ensina e serve. Walter Brueggemann, teólogo e catedrático do Antigo Testamento, disse que profetizar não é predizer o futuro, é falar a verdade a respeito do tempo presente. A verdade de hoje é que enfrentamos uma pandemia e não podemos ser displicentes nos cuidados necessários à sua superação. A medida extrema de cancelar as celebrações dominicais presenciais é também um ato pedagógico, um alerta àqueles ainda negligentes face à gravidade da situação. Acima de tudo, evitando os grandes ajuntamentos a igreja atua de maneira responsável e cuidadosa não apenas para com seus frequentadores, como também para com toda a sociedade.

Dias difíceis, medidas extremas. Diante dos imensos e múltiplos desafios impostos pelo advento do novo coronavírus vale a máxima dos Beneditinos: ora et labora. Joelhos ao chão e mãos estendidas na direção de quem sofre. Confiança em Deus e ação diligente, inteligente, amorosa e solidária para zelar pela saúde e bem-estar do mundo.

Fonte/imagem: br.freepik.com

Coronavírus e igreja: uma dupla que não é fantasia

Diante do quadro de pandemia do coronavírus, bispos católicos e pastores/as de várias igrejas ao redor do Brasil recomendam medidas de prevenção para evitar a proliferação do vírus.

Os bispos do Paraná publicaram uma nota com várias orientações de prevenção ao coronavírus, que já possui 6 casos confirmados no Estado. Os casos da dengue já ultrapassaram 50 mil, com 7 mortes desde julho de 2019.

Leia a nota na íntegra:

ORIENTAÇÃO DOS BISPOS PARA A PREVENÇÃO DA DENGUE E DO NOVO CORONAVÍRUS

“Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Cf. Lc 10, 33-34)

O estado do Paraná está enfrentando o grave problema da epidemia da Dengue. A situação, especialmente na região Norte e Noroeste do estado é grave e preocupante. O verão e a chuva favorecem o desenvolvimento do mosquito Aedes Aegypti, transmissor da doença.

Como Igreja, comprometida com a Vida, que é “Dom e compromisso”, nós, bispos do Paraná, queremos convocar todo o povo para adotar medidas de prevenção e combate a essa grave doença. Estudos já revelaram que o modo mais eficaz de combater a Dengue é eliminar os criadouros do mosquito.

Diante dessa realidade, pedimos a colaboração dos sacerdotes, lideranças, fieis e de todas as pessoas de boa vontade que valorizam a vida, para combater os focos de acúmulo de água parada. Para isso, vamos eliminar qualquer recipiente de potencial criadouro do mosquito, como: latas, embalagens, copos, plásticos, tampinhas de refrigerante, pneus, vasos de plantas, jarros de flores, garrafas, tambores, latões, sacos plásticos e lixeiras, entre outros. Verifique sempre, especialmente após a chuva, locais como: quintais, calhas, ralos, poços, fossas, caixas d’água, entre outros.

Cerca de 98% dos focos do mosquito Aedes Aegypti estão nos quintais, pátios e ambientes internos das casas e empresas. A Dengue é uma doença que pode matar, por isso é preciso que cada um faça a sua parte, assumindo a atitude evangélica do Bom Samaritano, que cuidou daquela vida que encontrava-se ameaçada. 

Além dessa realidade que tem afetado diretamente nosso povo, o mundo enfrenta mais um desafio: a difusão do novo CORONAVÍRUS (COVID-19). Assim como no caso da Dengue, todos têm responsabilidade de evitar as situações e circunstâncias que possibilitam o contágio. Por isso, recomendamos algumas medidas às paróquias e comunidades do Paraná:

1. Evitar o aperto de mãos durante a acolhida aos fiéis;

2. Não dar as mãos durante a oração do Pai nosso;

3. Omitir o abraço da paz;

4. Distribuir a comunhão somente sob uma espécie, exclusivamente, na mão, garantindo que o fiel comungue diante do ministro;

Acrescentamos, ainda, as “medidas de prevenção”, recomendadas pelas autoridades sanitárias:

1. Higienizar as mãos, muitas vezes, com água e sabão ou álcool em gel;

2. Utilizar lenço descartável para higiene nasal;

3. Proteger com lenços (preferencialmente descartáveis a cada uso) a boca e o nariz ao tossir ou espirrar;

4. Evitar tocar no nariz ou boca, após o contato com superfícies;

5. Manter os ambientes bem ventilados;

6. Repouso, alimentação balanceada e ingestão de líquidos.

Vivendo a Campanha da Fraternidade deste ano, Fraternidade e Vida: Dom e Compromisso, contamos com a ajuda de todos no combate e prevenção dessas doenças. Que essa Quaresma nos inspire a ser uma Igreja cada vez mais samaritana, misericordiosa e que cuida da vida. Rogamos para todos a bênção e a proteção de Nossa Senhora do Rosário do Rocio, padroeira do estado do Paraná.

Dom Geremias Steinmetz
(Arcebispo de Londrina e Presidente do Regional Sul 2 da CNBB)

Dom José Antônio Peruzzo
(Arcebispo de Curitiba e Vice-Presidente do Regional Sul 2 da CNBB)

Dom Amilton Manoel da Silva
(Bispo Auxiliar de Curitiba e Secretário do Regional Sul 2 da CNBB)

Padre Valdecir Badzinski
(Secretário executivo do Regional Sul 2 da CNBB)

O pastor Ed René Kivitz da Igreja Batista de Água Branca, localizada em São Paulo, anunciou na noite da última quinta, 12, que a igreja iria atender as orientações das autoridades do país e em especial as orientações dos profissionais da saúde, infectologistas, especialistas, no esforço global de contenção da disseminação do vírus.

Leia o comunicado:

COMUNICADO

Em atenção às notícias a respeito da proliferação do novo coronavírus e às orientações dos especialistas e das autoridades competentes, comunicamos que no período de 13 a 19 de março todas as programações presenciais, inclusive as celebrações do domingo, 15 de março, estão canceladas.

Somamos esforços na contenção da disseminação do vírus, em razão do nosso compromisso de cuidado, não apenas com nossos membros e frequentadores, como também com nossa cidade e sociedade.

Carlos Bezerra

Coletivo Bereia conversou com o médico e pastor, Carlos Bezerra, atualmente secretário executivo do Programa Mãe Paulistana, sobre o cenário da doença no país.

Confira:

1 – Quais as consequências que a igreja deve sofrer caso não adote as orientações dos profissionais da saúde?

Carlos Bezerra – O dever da igreja é orientar, usando as informações oficiais das autoridades de saúde. Ao não fazer isso coloca em risco a saúde do seu rebanho. O coronavírus já matou mais de 5 mil pessoas ao redor do mundo. Ele é altamente transmissível e a igreja precisa fazer seu papel de prevenção. Quanto maior o número de pessoas que não estão cientes e informadas sobre os cuidados que devem ter, maior o risco.

2 – Como pastor e médico, qual sua orientação frente à epidemia?

Carlos Bezerra – Eu tenho falado sobre o assunto tanto dentro da igreja como em minhas redes sociais, sempre com a responsabilidade de mencionar apenas dados confirmados pelas autoridades nacionais e internacionais. Em casos assim, devemos trabalhar para evitar o pânico e a disseminação de notícias falsas, mas sem deixar de levar, com serenidade, os cuidados que devemos ter para prevenir a doença.

O dia internacional da mulher nos desafia a pensar

O dia internacional da mulher nos oferece a oportunidade de pensar o desafio que o movimento feminista mundial nos lança.

Esse movimento, mais que outros, fez duas revoluções: colocou em questão o machismo e o patriarcalismo. O machismo, como a dominação do homem sobre a mulher, que já se perpetua há séculos.

A luta das mulheres nos desperta para a questão de gênero que envolve relações de poder, que no sistema patriarcal é somente. É necessário haver partilha entre homem e  mulher, evitar divisão sexual de trabalho e priorizar a lógica da distribuição e coparticipação em todo o projeto de vida a dois. Daí surge uma relação mais justa e harmoniosa.

Em segundo lugar, o movimento feminista fez, talvez, a crítica mais consistente à cultura patriarcal, que organizou toda a sociedade e as várias instâncias da vida e também da religião. O homem assumiu o poder através do qual submete os demais, chefia o Estado, cria a burocracia, organiza o exército e faz guerras. Quase todos os heróis e a maioria das divindades são masculinas. Ele ocupa a vida pública e relega à mulher à vida privada e familiar. O patriarcado, pela crítica feminista, foi teoricamente desmantelado, embora na prática, tente sempre de novo dominar a mulher. Um refúgio especial do patriarcado é a mídia e o marketing, que usam a mulher não só no seu todo, mas partes dela, os seios, as pernas, as partes íntimas. É uma forma de transformar a mulher em objeto e uso.

A grande contribuição do feminismo foi ter mostrado que todas ou quase todos as culturas, nos dias de hoje, são patriarcais. Como consequência, a manutenção da desigualdade na relação homem-mulher se perpetua em todos os âmbitos. Seja nos USA, na Alemanha ou no Brasil, uma mulher pode fazer o mesmo trabalho do homem, até o mais competente, mas pelo fato de ser mulher, ganha pelos menos 20-30% a menos que o homem que executa a mesma função. Não basta a consciência da superação teórica do patriarcado, mas a demolição de seus hábitos mantidos nas instituições e comportamentos sociais.

Mas nem sempre foi assim. O ser humano existe há 7-8 milhões de anos. Na primeira fase, que durou milhões de anos, as relações homem-mulher eram de harmonia e de equilíbrio com a natureza. Contrariamente do que crê o pensamento patriarcal, a verdadeira convivência humana não foi regida pela violência de uns sobre outros mas pela solidariedade e cooperação. A violência é recente no processo da antropogênese. Ela começou com o homo faber há dois milhões de anos, que na busca dos alimentos, especialmente da caça, começou a usar o instrumento e a força. O masculino passa, então, a ser o gênero predominante. Ela ganhou hegemonia ao surgir, há 8 mil anos, a agricultura, as vilas, as cidades e os impérios. As relações homem-mulher passam a ser de desigualdade: ele ocupa toda a vida pública, governa sozinho e relega a mulher à função de procriadora e cuidadora do lar.

As mudanças que sempre se buscaram, culminaram no século XX com a segunda revolução industrial, quando a mulher entra no domínio público porque o sistema competitivo faz mais máquinas que machos. Já no final do século XX e até hoje as mulheres são maioria na humanidade e praticamente 50% da força de trabalho mundial. Com isso se cerra, de certa forma, o ciclo patriarcal e se inicia um novo paradigma de valorização das diferenças e a busca da igualdade ainda a ser alcançada.

As mulheres trazem para o sistema produtivo e para o Estado algo radicalmente novo. Não será só competitivo e autoritário. A mulher traz o que viveu no domínio privado: os valores da solidariedade, da partilha e do cuidado. Milenarmente foi educada para o altruísmo. Se um bebê não tiver à sua disposição alguém altruísta que o ampare, não consegue durar, sequer, uns dias. Desta forma, a entrada da mulher no domínio público masculino é condição essencial de humanização e mais cooperação no mundo do trabalho e, o que é fundamental, reverter o processo de destruição da natureza e da espécie humana.

Isso ficou claro na consciência coletiva no Relatório da ONU para o Fundo para a População (FNUAP) que sustenta: “a raça humana vem saqueando a Terra de forma insustentável e dar às mulheres maior poder de decisão sobre o seu futuro pode salvar o planeta de sua destruição”. Veja que aqui não se fala de “poder de participação”que elas sempre tiveram, mas de “poder de decisão”.

São elas que entendem de vida, pois a geram. Serão elas as principais protagonistas na decisão de uma biocivilização acentada no cuidado, na solidariedade e na lógica do coração, sem as quais a vida não viceja. Elas, junto com os homens que desentranharam a sua dimensão de “anima”(cuidado, gentileza e amorosidade) que se articula com a dimensão de “animus” (razão, organização,direção) presentes, em proporções próprias em cada pessoa, poderão dar um rumo novo à nossa existência neste planeta e nos afastar do caminho sem retorno, caminho de perdição.

Leonardo Boff escreveu com Rose Marie Muraro o livro Feminino & Masculino: uma nova consciência para o encontro das diferenças, Record, Rio 2010.

A democracia se faz com respeito à Constituição

O Estado de Direito é uma conquista importante da sociedade contra regimes autoritários. A sua ascensão no século XVIII remonta o período da Revolução Francesa e da Independência Americana, que deram origens às primeiras constituições criadas por um Poder Constituinte hierarquicamente acima de qualquer autoridade (poderes constituídos).

O Estado de Direito entende a Constituição como a norma assentada em dois pilares para conter e disciplinar o avanço predatório do poder sobre a sociedade:

a) A Separação de Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário)

b) A afirmação dos direitos dos indivíduos (liberdades)

O Estado de Direito está longe de ser perfeito, no propósito de impedir avanços autoritários, contudo, estes pilares foram absorvidos por quase todos os países que adotam constituições e funcionam como uma garantia institucional fundamental para que o exercício do poder não fique concentrado na mão de um único governante ou de uma elite.

Quando o Presidente da República toma posse do seu cargo, ele presta o compromisso e se responsabiliza por respeitar à Constituição e os demais poderes (Legislativo e Judiciário). Aliás, estas regras são conhecidas de todos os candidatos e fazem parte do jogo político institucionalizado.

Um sinal de alerta se acende para a democracia quando um governante tenta incitar a sociedade contra algum dos Poderes do Estado sob a alegação de que este coloca empecilhos para o seu trabalho. Este discurso deve ser encarado com muita desconfiança, porque normalmente esconde uma mensagem no seu interior: “se eu tiver mais poder e se ninguém atrapalhar, posso governar melhor”. Ou seja, o político com dificuldades de assumir as regras do jogo passa a colocar a culpa do seu desempenho fraco nos colegas de equipe, na conduta do adversário, e julga, que sem o juiz ou com outras regras será mais bem sucedido, porém, ao final, o que ele reivindica é mais poder para controlar a partida e manipular o placar.

Na política, assim como nos jogos de futebol, o outro time (a oposição) é adversário e não um inimigo, a equipe são os Três Poderes. Não se deve estabelecer uma batalha com a oposição e, tampouco, entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, mas jogar conforme as regras e melhorar as táticas do jogo para buscar o equilíbrio entre visões diferentes sobre economia, política, cultura etc. Não se pode ganhar todas as partidas e muito menos se deve ganhar no grito e com confusão no gramado.

O Estado Social, com foco maior nos direitos coletivos, passou a fazer parte das constituições, principalmente no pós-guerra, com o objetivo de tentar reduzir as injustiças sociais, sem perder de vista as conquistas do Estado de Direito. A Constituição brasileira de 1988 foi criada num processo de retomada democrática e com forte ênfase nos direitos sociais. Às vezes, surgem propostas de mudanças dessas garantias que prometem resolver ou amenizar crises com o sacrifício dos direitos. Acontece que, desde 1988, várias alterações no texto original da Constituição já foram solicitadas pelo Governo e aprovadas pelo Congresso Nacional, mas nem assim, com redução de direitos, tiveram a capacidade de melhorar substancialmente a vida dos brasileiros/as.

A sociedade brasileira tem um passado de muitas injustiças com um saldo enorme de desigualdades ainda por resolver. Em tempos de crise econômica, quando uma parcela significativa do povo se sente prejudicada no cenário político-econômico, torna-se tentador alinhar-se com o clamor de caça às bruxas ou caça aos “inimigos”, aceitando discursos que recorrem ao sacrifício dos direitos para, num ato de fé, esperar por um futuro melhor ou por um governo salvador da pátria.

O Estado Democrático de Direito, previsto na Constituição brasileira de 1988, procura unir e sintetizar os ganhos do Estado de Direito e do Estado Social com os do Estado Democrático. A nossa democracia é jovem (se considerarmos suas idas e vindas) e é certo que ela precisa de melhorias, principalmente para corrigir as distorções de excessos de poder conferidos aos nossos representantes. Entretanto, não podemos embarcar nestes apelos feitos para desviar o olhar dos verdadeiros problemas sociais e colocar a atenção no “inimigo”, transformando-o no próprio problema.

É preciso manter a prudência e a desconfiança sobre qualquer convite que indique: “se tiver mais poder resolvo o problema”. A história mundial e a brasileira já demostraram fartamente que o resultado deste clamor, ainda que movido pelas melhores intenções, reserva um futuro incerto e com grandes chances de caminhar para o autoritarismo.

O caminho da harmonia, diálogo e das boas ideias, embora seja mais complexo, é o que revela respeito pela equipe (Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário) e pelo adversário político (oposição) na partida difícil. As regras da democracia estão estabelecidas na Constituição e o árbitro da democracia é o povo, que deve zelar pelo respeito às regras do jogo. Se um jogador apelar e partir para briga com sua equipe, o árbitro deve levantar o cartão amarelo de advertência e alerta. Se este insistir em abandonar as regras do jogo, cabe ao árbitro levantar o cartão vermelho, não para acabar com a partida, mas para que ela siga com os jogadores que acatam as regras.

A democracia se faz com responsabilidade e respeito à Constituição e ao Estado Democrático de Direito.

Fonte imagem: visaocidade.com.br

O dever de teólogas e teólogos frente às notícias falsas

“O homem moderno pode facilmente reconhecer que muitas de suas atitudes, juízos, tomadas de posição, adesões e oposições são devidos a sempre mais vastos e rápidos conhecimentos de opiniões e de comportamentos, que lhe chegam através dos meios de comunicação social.
A nossa vida coloca jovens e adultos diante de um fluxo quase ininterrupto de notícias e interpretações, de imagens e sons, de propostas e solicitações. Nesta situação o ser razoável se sente estimulado por uma interrogação inquietante: onde está a verdade? Como chegar até ela ou descobri-la na enxurrada de comunicações que o perseguem a cada momento?”

Assim começa a mensagem para o VI Dia Mundial das Comunicações Sociais, proferido pelo Papa Paulo VI, em 1972. Por que cinco décadas depois essa mensagem é ainda tão atual? A busca pela verdade se encontra cada vez mais comprometida à medida que a era digital evolui e expande seus horizontes. Porém, não é apenas a busca pela verdade num sentido metafísico – para isto teríamos que entrar numa discussão da era da pós-verdade, algo que não cabe aqui – mas a veracidade por detrás de tudo que vemos, ouvimos e vivemos. De modo especial, para nós, teólogos/as cristãos/ãs, fica o desafio: como iremos anunciar com autenticidade aquilo que vimos e ouvimos e que nos foi testemunhado por aqueles que também viram e ouviram?

Atualmente, seja no âmbito acadêmico, seja nas redes sociais, busca-se discutir a questão das notícias falsas (fake news). Em ambos os casos, as discussões variam dramaticamente, existem aqueles que negam a manipulação midiática, aqueles que desacreditam mas permanecem indiferentes, aqueles que denunciam categoricamente, aqueles que reconhecem a existência de notícias falsas e buscam se informar melhor… No contexto político brasileiro de hoje, a discussão sobre esta temática torna-se, todavia, mais complicada devido à tendência generalizada de rotular os lados e desconfiar das pessoas que buscam difundir o pensamento crítico. Nossa tarefa teológica acaba sendo questionada e os obstáculos para uma maior inserção da Teologia na pastoral e na vida pública crescem exponencialmente.

O contexto cristão-religioso no Brasil, desde a chegada dos portugueses, conseguiu crescer e manter seu poder de influência por meio de uma certa infantilização do povo. De modo especial, na Igreja Católica, a realidade pastoral se sustentou pela inferiorização dos leigos e supervalorização do clero. Dúvidas em relação às verdades da fé e à maneira de interpretar a realidade eram pautadas e legitimadas pelos padres e bispos, nunca pelos próprios indivíduos em sua relação de intimidade com Deus através da comunidade em que professavam sua fé.

Questionar estava fora de cogitação, pois seria sinal de desobediência à Igreja. Infelizmente, ainda hoje vemos essa dinâmica, inclusive nas igrejas protestantes e evangélicas, pois de modo geral há uma sacralização do ministério ordenado a ponto de não se reconhecer a sacralidade do laicato. São os homens santos que sabem pensar a fé, e não povo. É neste contexto que a tarefa teológica dos leigos se encontra, já pautada por um caminho difícil, e ainda mais com a potência das notícias falsas.

Há uma crescente suspeita dos leigos teólogos por parecerem contrapor os sacerdotes e pastores. Contudo, é imprescindível pensar em refutar a distorção dos fatos e manipulação das pessoas independente de como os demais fiéis possam nos enxergar. Surge assim a questão, como devemos nos empenhar na Teologia se nosso discurso não alcança aqueles que se encontram fora da Academia?

Notícias falsas se propagam e ganham força entre os cristãos pela manipulação perigosíssima da noção de defesa da verdade. No fundo, questionar as informações que nos são dadas pelas mídias e redes sociais toca na ferida das vulnerabilidades da fé de cada indivíduo e tira do comodismo aquelas pessoas que seguem um cristianismo encaixotado, criado para se autoafirmar, deixando de seguir radicalmente a Cristo. Neste modelo, basta simplesmente cumprir com as regras da instituição ou orientações do sacerdote ou pastor. É fácil reconhecer essa contradição de certos fiéis, e cair na tentação de nos acharmos mais maduros pela capacidade da nossa razão em diálogo com a fé. No entanto, o perigo da presunção de pensar estar certo está presente em todos, teólogos ou não, cristãos ou não-cristãos.

A própria Academia se encontra viciada na experiência fragmentada de uma multiplicidade de fontes, com pouca disponibilidade de acesso, e com divulgação mesquinha ou quase nenhuma. Se nós, como teólogas e teólogos latino-americanos nos distinguimos pelo modelo ver-avaliar-agir, parece que estamos nos esquecendo de enxergar nosso próprio campo teológico, preocupados somente em julgar e propor ações a partir do contexto que cremos, enxergamos e vivemos.

“Poucas são as pessoas que se dispõem a ouvir do outro a sua história, até porque na sociedade contemporânea a experiência está tão fragmentada que, se poucos têm tempo (dizem que é a perder, quando seria a ganhar) de contar para o outro o que viram, viveram, sofreram ou passaram, menos tempo ainda terão para escutar. A narrativa empobrece porque a experiência coletiva definha, diminui, parece estar em extinção”

Sonia Kramer, no livro Os Dez Mandamentos da Editora Loyola

Corremos para dar conta de entregar nossos próprios textos e comunicações, mas pouco nos dedicamos a buscar com atenção tudo que tem sido dito em outros âmbitos teológicos dentre as milhares de fontes disponíveis.

Infelizmente, as notícias falsas ganham campo fértil na Teologia, por nossa pouca disposição à escuta paciente e atenciosa. O ritmo frenético de cumprimento com as exigências da produção acadêmica, da participação em eventos e organização de projetos nos cega para a missão teológica de comunicar os valores do Reino.

Quantas vezes já vi notícias falsas sendo repassadas no Facebook e WhatsApp por teólogas e teólogos que não se atentaram a ler com calma o que compartilhavam. Em seu artigo Afirmar a comunicação humanizadora na perspectiva da Teologia Pública, Magali do Nascimento Cunha afirma:

“Comunicar nesse sentido pleno é trabalhar pelo projeto de Deus para a sua criação, na qual Adam não deve viver só, mas em encontro, comunhão, harmonia, solidariedade”.

 Fazer Teologia deve também ser comunicar comunhão. Retomando o questionamento do Papa Paulo VI no início, pergunto: onde está a verdade na Teologia? Se aquilo que comunicamos em nossas formulações teológicas não contribui para a humanização da Igreja e da sociedade, falhamos na construção do Reino e, portanto, falhamos como cristãos. As notícias falsas vencem conforme desumanizam nossas relações humanas, causando mais divergência e menos comunhão. A verdade na Teologia se encontra na comunicação humanizadora que sinaliza o Reino do amor e da justiça, aqui e agora. É nosso dever, como teólogos e teólogas, não apenas desconstruir as notícias falsas e lutar contra a presunção de uma defesa da verdade, mas também acalmar a ansiedade de preencher o currículo Lattes e parar para escutar uns aos outros, sentar à mesa da partilha teológica e abraçar a missão de testemunhar as notícias verdadeiras. Combater as fake news não é apenas denunciá-las, mas também anunciar verdades.

Nossa fé está fundamentada no testemunho dos primeiros cristãos, e sua continuidade somente é possível pela continuação do testemunho, vivo e autêntico, rememorando o testemunho original e testemunhando a presença atual e eficaz da Graça em cada contexto social e histórico. Deste modo, o nosso testemunho teológico será capaz de suscitar o interesse das pessoas por buscarem a verdade também, assim como o testemunho dos primeiros cristãos suscitou a busca por Cristo.

A desinformação influencia eleições ao redor do mundo

Segundo um levantamento feito pela organização International Center for Journalists no estudo “A Short Guide To History of Fake News” publicado em julho de 2018, o uso da desinformação como ferramenta para a manipulação da opinião pública tem seus primeiros registros datados do século IV a.C.

O uso de desinformação como ferramenta política ganhou força na última década e influenciou significativamente grandes acontecimentos e eleições ao redor do mundo. No entanto, engana-se quem pensa que essa estratégia é recente.

Ao longo da história, as conspirações e farsas circularam entre todas as classes sociais, sendo parte indissociável dos governos de reis, imperadores, democratas e ditadores, navegando pelo globo desde os papiros e pergaminhos até o surgimento das redes sociais.

Segundo um levantamento feito pela organização International Center for Journalists no estudo “A Short Guide To History of Fake News” publicado em julho de 2018, o uso da desinformação como ferramenta para a manipulação da opinião pública tem seus primeiros registros datados do século IV a.C.

Seu alcance foi ampliado pela criação da imprensa, inventada pelo grafista alemão Johannes Gernsfleisch Gutenberg, que, a partir de 1493, revolucionou a produção e o acesso a conteúdos escritos ou grafados.


Escolha um inimigo por vez

“Uma mentira repetida mil vezes torna-se realidade”. Esta frase é de Paul Joseph Goebbels, fundador e líder do Ministério do Esclarecimento e da Propaganda do nazismo, regime que durou de 1933 a 1945, na Alemanha.

Embora seja lembrado como um dos maiores propagandistas da história, aos 27 anos Goebbels se descrevia como um “destroço em um banco de areia”. Doutor em literatura, tentou a vida como escritor. No entanto, seu romance semi-autobiográfico, “Michael”, foi um fracasso. Para externalizar a depressão, exercitava a escrita em diários que o acompanharam até às últimas semanas de vida.

Naquela época, início da década de 1920, o cenário político alemão tinha tudo para agravar seus ânimos. A economia estava em frangalhos e a hiperinflação chegou a 1000%, fazendo com que a moeda alemã não valesse nada.

Cada bem e serviço custava trilhões de marcos (moeda alemã antes do euro). O dólar americano estava cotado a 4,2 trilhões de marcos e o penny (moeda de um cent) americano custava 42 bilhões.

Em 1924, Goebbels ingressou na política filiando-se ao partido nazista, iniciando assim uma ascensão meteórica que, de acordo com Peter Longerich, autor de umas das mais importantes biografias do propagandista, se deu pelo seu “excesso de autoconfiança, compulsão incansável pelo trabalho, submissão incondicional a um ídolo, desprezo pelas relações humanas e a disposição de passar por cima das normas morais geralmente aceitas.”

Sob o comando da máquina de propaganda nazista, Goebbels embasava a atuação do ministério em 11 princípios cunhados por ele mesmo, alguns promovendo o uso claro da desinformação.
Entre seus objetivos de governo, o aparelhamento da imprensa era um dos maiores. Além da censura, algumas das táticas adotadas passavam por exagerar boatos para que fossem noticiados, bombardear a população com novas notícias sobre um único inimigo e discutir informações com especialistas que compartilhassem o mesmo ponto de vista.

Para monopolizar a opinião pública, os nazistas se apropriaram de toda a produção cultural do país. A burocratização deste controle aconteceu pela criação da Câmara de Cultura do Império que, por sua vez, era dividida nas áreas de Letras, Imprensa, Rádio, Teatro, Cinema, Música e Artes Plásticas.

Encantado por Hitler e sedento por sua aprovação, o ministro criou o lema “um Füher, um povo”, utilizando o rádio e o cinema, principais mídias da época, como canais de disseminação da sua ideologia.

De acordo com o historiador Wolfgang Benz, autor de “História do Terceiro Reich”, apenas os filiados ao partido nazista é que podiam exercer os ofícios de jornalista, escritor e cineasta. A regra, instaurada em 1933, proibiu a presença de judeus ou de quaisquer outras pessoas que criticassem o regime.

Nós contra eles

O nazismo, assim como o fascismo e outras formas autoritárias de poder, governam alicerçados na ruptura da sociedade, dividindo a população entre “nós” e “eles”. A distinção pode ser feita com base em diferenças étnicas, censitárias, religiosas ou raciais. Esta é a tese defendida por Jason Stanley, filósofo americano e estudioso do neo-fascismo.

A criação de um passado mítico faz parte dessa estratégia. Por meio da propaganda e do anti-intelectualismo, os governos fascistas ou neo-fascistas desacreditam a compreensão geral da história.

“Depois de um tempo com essas técnicas, a política fascista acaba por criar um estado de irrealidade, em que as teorias da conspiração e as notícias falsas tomam o lugar de um debate fundamentado”, analisa o autor no livro “Como Funciona o Fascismo”, lançado em dezembro de 2018.

Para Stanley, o ataque às universidades e aos sistemas educacionais são muito importantes nos governos autoritários, porque desacreditam instituições que poderiam contestar suas ideias.
Em entrevista ao jornal El País, em 2019, ele citou o Brasil como um exemplo, entre vários Estados, de aparelhamento do setor educacional.

“Basta olhar a situação hoje no Brasil ou ler o que Masha Gessen escreveu sobre o furioso ataque ao politicamente correto nos EUA. Esse ataque ocorre no âmbito internacional; as universidades se transformam em zona de guerra”, afirma Stanley.

Nos últimos anos, a disputa acerca do “viés ideológico” presente nos conteúdos ensinados em instituições de ensino brasileiras se intensificou. O movimento Escola Sem Partido, que busca denunciar uma suposta “doutrinação política e ideológica de esquerda por parte dos professores”, ganhou notoriedade.

Fundado pelo advogado paulistano Miguel Nagib, em 2004, o grupo inspirou mais de 60 projetos de lei em câmaras municipais e assembleias legislativas pelo país. Em um vídeo publicado no site do movimento, Nagib afirma que “é muito fácil entender por que os sindicatos dos professores, que nem sempre representam seus interesses, e partidos de esquerda, em especial o Partido dos Trabalhadores (PT), são contra programa”, sugerindo que estas entidades são responsáveis por um processo de doutrinação nas escolas.

Em setembro de 2019, o ministro Abraham Weintraub lançou um projeto com visíveis influências do Escola sem Partido. No lançamento desta campanha, intitulada “Escola para Todos”, o Ministério da Educação enviou ofícios para todas as secretarias municipais e estaduais de ensino do país, determinando que as instituições de ensino adotem o “pluralismo de ideais e concepções pedagógicas, evitando o que a equipe classifica como propagandas-político-partidárias.”

Para Sabine Righetti, doutora em política científica, jornalista e professora da Unicamp, as universidades públicas brasileiras, assim como outras “instituições pensantes”, estão sendo agredidas por políticos com informações falsas, postura que incentiva parte da população a fazer o mesmo.

“Não é uma crítica do tipo ‘precisamos melhorar tal aspecto’, porque seria muito legal se o governo falasse ‘temos evasão alta, precisamos melhorar’. Elas [as universidades] estão sendo agredidas com informações falsas. O Bolsonaro dá uma entrevista falando que só universidades privadas produzem pesquisa no Brasil, o que é mentira. Depois o ministro fala que as universidades fazem balbúrdia no lugar de desempenhar academicamente, o que também é mentira”, afirmou.

A declaração de Bolsonaro, dada em entrevista ao programa Pânico da rádio Jovem Pan em abril de 2019, era de que “não tem pesquisa nas universidades” e “dessas poucas, a grande parte tá na iniciativa privada”. Informação incorreta, já que, segundo a Academia Brasileira de Ciências, mais de 95% da produção científica do país vêm de universidades públicas.

Na visão da professora, as pessoas que criticam a universidade, assim como as que atacam a imprensa, chamando-as de “vagabundas” e mentirosas, sempre pensaram assim. “Eu não acho que alguém que lia um jornal, de repente vai deixar de ler um jornal porque o presidente falou que o jornal mente”, destaca.

No entanto, segundo ela, o discurso adotado pelo governo pode incentivar ataques a instituições. “As pessoas começaram a falar mais isso, talvez empoderados ou encorajados pelo próprio governo do Brasil, dos Estados Unidos, que são governos que estão descredibilizando instituições pensantes. Isso está acontecendo em vários países.”

Além das constantes críticas às universidades e à imprensa, outras práticas, como o uso assíduo das redes sociais e os ataques à oposição e às minorias, aproximam as estratégias de desinformação utilizadas por Trump e Bolsonaro. Tanto durante suas campanhas eleitorais quanto no exercício de seus cargos como líderes do executivo, os dois políticos protagonizaram diversos momentos de disseminação de informações mentirosas ou exageradas.

Muito além das fake news

Em 2017, fake news foi eleita a “palavra do ano” pelo dicionário britânico Collins. Naquele ano, o uso da expressão na internet cresceu 365%. As chamadas notícias falsas podem ser descritas como informações falsas, geralmente sensacionalistas, disseminadas sob o disfarce de reportagens.

No entanto, o uso indiscriminado desse termo, é questionado por aqueles que estudam e combatem a desinformação.

Para Francisco Rofsen Belda, jornalista, professor da Unesp e presidente do Projor, organização responsável pelo Projeto Credibilidade, fake news é uma expressão imprecisa, “principalmente porque a ideia que carrega é ambígua e simplista demais para descrever a diversidade de desinformação que existe atualmente na internet”, explica.

Baseando-se nisso e observando a rapidez com que informações falsas se espalham entre grandes grupos de pessoas, a dupla de pesquisadores britânicos Claire Wardle e Hossein Derakshan criaram o conceito de ecossistema da desinformação, dividindo os conteúdos maliciosos em três categorias:

Informação errada (em inglês, mis-information): quando informações falsas são compartilhadas, mas sem intenção de causar danos.

Desinformação (em inglês, dis-information): quando informações falsas são compartilhadas com a intenção de causar danos.

Informação má (em inglês, mal-information): informação baseada na realidade, mas usada para infligir danos a uma pessoa, organização ou país.

De acordo com Wardle, uma parte importante do combate às informações falsas passa pela distinção correta da intenção por trás daquele conteúdo. “Estamos falando de uma sátira ou paródia que não possui a intenção de prejudicar? De um erro de apuração jornalística? Ou sobre um conteúdo fabricado, 100% falso, criado para enganar e convencer?”, questiona em sua palestra “Mais do que fake news – Entendendo o ecossistema da desinformação.”

Nesta análise, as fake news se enquadram no tipo de desinformação criada com más intenções, muito distantes do jornalismo e das notícias reais.

“Se é notícia, não poderia ser falsa, uma vez que o jornalismo profissional tem um compromisso primordial com o relato dos fatos da realidade. Se não há este compromisso, então não é jornalismo, não é notícia, mas sim um relato enganoso, de propaganda, por exemplo, que se utiliza da linguagem jornalística para confundir ou manipular o receptor”, afirma Belda. Assim, quando uma notícia está errada, incorretamente apurada, o que caberia é a correção e retratação por parte de seus autores.

Além da necessidade de pensar seu real significado, outra problemática relacionada ao uso do termo e apontada por especialistas da comunicação é a sua apropriação por políticos – e outros agentes de governo – para rotular notícias (verdadeiras) que os critiquem ou desagradem.

O verdadeiro poder é o medo

You are fake news”. Essa foi a resposta do então recém-eleito Donald Trump a Jim Acosta, repórter da CNN, na coletiva de imprensa que antecedeu a posse do 45º presidente dos Estados Unidos. Além de atacar o jornalista, Trump ainda o mandou ficar quieto diversas vezes. A hostilidade do republicano com a imprensa já deixava clara a tônica que seu governo assumiria nos quatro anos seguintes. Entre seus inúmeros alvos, destacam-se o jornalista Bob Woodward e o jornal The Washington Post.

Em 1974, Woordward e seu colega de redação Carl Bernstein foram designados a cobrir um acontecimento aparentemente comum: um roubo em um dos escritórios do Comitê Nacional Democrata, no complexo de prédios Watergate, em Washington.

A apuração do crime culminou na revelação do que ficou conhecido como o Escândalo de Watergate, o mais famoso caso de corrupção dos Estados Unidos, responsável pela renúncia do então presidente Richard Nixon.

A obra mais recente de Woodward sobre política é o livro-reportagem “Medo – Trump na Casa Branca”. Durante a produção, o jornalista passou dois anos observando os movimentos do presidente de perto. Por meio de entrevistas, conversou com conselheiros e pessoas próximas ao governo que, anonimamente, relataram os conflitos de seus bastidores.

Vermelho x azul

A eleição disputada em 2016 pelo republicano Donald Trump e a democrata Hillary Clinton, favorita da imprensa norte-americana, é um dos episódios recentes mais bem-sucedidos no que se refere ao uso de mentiras em campanhas políticas. O pleito foi marcado pela ação massiva de trolls (autores de notícias falsas), bots (robôs) e pela interferência russa, ainda não muito bem explicada.

O Facebook chegou a admitir, recentemente, que um terço da população estadunidense, cerca de 126 milhões de pessoas, foi exposta a publicações da Internet Research Agency (IRA), empresa ligada à sede do governo russo, durante o período eleitoral.

Esse ecossistema de desinformação foi fundamental para impulsionar a campanha de Trump. Desde a crise do subprime, que em 2008 lançou o mundo no pior colapso financeiro desde a década de 1930, os Estados Unidos veem crescerem as desigualdades sociais, a pobreza e o número de desempregados. Somam-se a esses fatores o discurso anti-imigração, anti-globalização, a polarização e as incertezas políticas e econômicas. Essa miscelânea, aliada à máquina de mentiras do empresário “anti-establishment”, ajuda a explicar o sucesso de Trump, que surpreendeu não só a imprensa norte-americana, mas o mundo todo.

O declínio da verdade

Um levantamento feito pelo jornal Washington Post analisou que Trump mente de forma sistemática. Somente em seu primeiro ano de governo, em 2017, o presidente fez 2.140 alegações falsas ou enganosas – uma média de 5,9 mentiras por dia. Além das mentiras, ataques ao sistema de justiça, às agências de inteligência, ao sistema eleitoral, aos funcionários públicos e, claro, à imprensa são comuns na agenda do republicano. Ao todo, desde a posse (em 20 de janeiro de 2017) até o final de outubro de 2018, foram 6.420 informações falsas ou imprecisas.

Steve Bannon, ex-estrategista-chefe de Trump, revelou que o presidente “só lê o que reafirma suas crenças”. A VICE News também divulgou que Trump recebe, duas vezes por dia, um clipping (recorte) com diversos elogios a ele, incluindo “tuítes de admiradores, trechos de entrevistas bajuladoras na TV, matérias jornalísticas repletas de elogios e, de vez em quando, fotos dele na TV parecendo poderoso.”

O boom das redes sociais

Se a desinformação sempre foi usada como tática política, o que mudou hoje foi a inserção da tecnologia. Para Francisco Belda, “temos, de um lado, o uso muito mais intenso de instrumentos tecnológicos capazes de potencializar o alcance dessas mensagens enganosas e, de outro, uma sociedade desconfiada e confundida pelo excesso de informação, cada vez menos capaz de distinguir entre o que é fato, o que é versão e o que é simplesmente inverdade.”

De fato, a tecnologia e a evolução das redes sociais tiveram um profundo impacto na produção e no consumo de notícias. Há 10 anos seria impossível imaginar que um presidente usaria o Twitter, rede cujo número máximo de caracteres é 280, como ferramenta oficial para se comunicar com a sociedade.

Contrários à atuação da imprensa, líderes como Trump e, mais recentemente, Bolsonaro, utilizam suas contas nas redes sociais para tentar minar a credibilidade jornalística. Desde a posse (1º de janeiro) até março de 2019, a mídia foi alvo de Bolsonaro no Twitter a cada 3 dias, com mensagens de teor irônico e crítico.

Até 2008, a internet tinha pouca ou quase nenhuma relevância em campanhas políticas. A mudança de paradigma aconteceu na disputa eleitoral entre Barack Obama e John McCain. À época, Obama utilizou o Myspace, Facebook e YouTube para fazer campanha e arrecadar fundos. A equipe do democrata, liderada por Chris Hughes, um dos fundadores do Facebook, chegou a investir 7,5 milhões de dólares no Google, em anúncios e links patrocinados. A estratégia funcionou, e as redes sociais tiveram papel determinante na eleição do primeiro presidente negro dos Estados Unidos.

Desde então, as plataformas digitais ganharam cada vez mais destaque em diversos acontecimentos políticos. A Primavera Árabe, série de protestos e revoltas ocorridos em 2011 na Líbia, Egito, Tunísia e outros países do Oriente Médio, não teria sido possível sem as redes sociais. Um relatório divulgado pela Dubai School of Government revelou a importância que o Twitter e o Facebook tiveram na disseminação e no fortalecimento do movimento.

Somente na Tunísia, ponto de partida das revoltas, o número de usuários do Facebook aumentou em 200 mil em apenas dois meses, entre dezembro de 2010 e janeiro de 2011, período inicial do movimento. O Twitter também registrou pico de acessos dos tunisianos quando o presidente Zine el Abidine Ben Ali renunciou ao cargo e fugiu para a Arábia Saudita.

No Brasil, as Jornadas de Junho de 2013, manifestações populares que surgiram, inicialmente, em protesto ao aumento de 20 centavos na passagem do transporte público e que ganharam outros contornos políticos, são resultado do ativismo online. Naquele mês, mais de 1 milhão de pessoas saíram às ruas em mais de 130 cidades. A pesquisa IBOPE de 2014 revelou que 77% dos manifestantes tomaram conhecimento dos protestos por meio do Facebook.

Na eleição de 2014, a mais disputada dos últimos 25 anos no Brasil, novamente as redes sociais tiveram papel crucial na disseminação de notícias, na promoção de debates e na propagação de mentiras. Durante o período eleitoral, os brasileiros interagiram mais de 670 milhões de vezes no Facebook. No Twitter, foram quase 40 milhões de mensagens publicadas durante a campanha. Em diversos momentos das eleições, as hashtags de Dilma Rousseff (#DilmaMudaMais) e Aécio Neves (#Aecio45PeloBrasil) ficaram nos Trending Topics mundiais da plataforma.

Na Europa, a internet também ganhou protagonismo político. O acordo do Brexit, polêmico plebiscito que decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia, teve forte influência do Facebook. Combinado com o crescimento do nacionalismo e da xenofobia, a desinformação encontrou terreno fértil nas redes sociais.

A pesquisa YouGov, encomendada pela Reuters Institute for the Study of Journalism, da Universidade de Oxford, revelou que as redes sociais ultrapassaram os jornais tradicionais como fontes de notícia no Reino Unido entre 2015 e 2016 (ano em que o plebiscito foi votado e que o “sim” ganhou com 51,9% dos votos). O estudo também analisou o consumo de mídia em 26 países, inclusive o Brasil, e descobriu que 51% dos entrevistados usam as redes sociais como fonte de informação.

Antropólogo da tecnologia e professor da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, David Nemer diz que as fake news se espalham pelas redes sociais graças à facilidade e eficiência, características da internet. “Antes, para ter a notícia, você tinha que ir numa banca, comprar o jornal, fazer uma assinatura, então além de o acesso ser mais dificultado, o custo era mais alto. Hoje em dia nós temos o WhatsApp, as coisas são entregues a nós na hora, em qualquer lugar, em qualquer momento”, aponta.

Vem de zap

Na eleição brasileira de 2018, o WhatsApp foi o grande protagonista. Com mais de 120 milhões de usuários, o aplicativo de mensagens instantâneas foi decisivo para que mentiras como o “kit gay”, a “ideologia de gênero” e a “doutrinação comunista”, temas explorados na campanha de Jair Bolsonaro (PSL), viralizassem nas redes sociais.

Aliada ao antipetismo e à polarização política, a desinformação, que circulou sem nenhum controle pelos grupos do Whatsapp, foi fundamental para eleger Bolsonaro. Alguns dias antes da votação, a Folha de S. Paulo divulgou que um grupo de empresários comprou um pacote de disparo de mensagens em massa contra o PT. Bolsonaro processou o jornal, mas foi derrotado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Ainda durante as eleições, Bolsonaro recebeu uma suspensão de conteúdo do Tribunal. Em outubro de 2018, o ministro Carlos Horbach determinou que textos e vídeos sobre o “kit gay” fossem removidos.

Usado amplamente nas campanhas de 2018, o “kit” foi o apelido que diversos congressistas e políticos conservadores deram ao material do programa “Escola sem Homofobia”, uma cartilha idealizada em 2011 pelo MEC, mas vetada pela presidente Dilma Rousseff, após pressão das bancadas evangélica e católica.

O material, destinado somente a professores, explicava conceitos como gênero e sexualidade, além de sugerir atividades para que os alunos refletissem sobre comportamentos preconceituosos.

Apesar de estar calcado em informações mentirosas e descontextualizadas, o uso de discursos como o do “kit” pode ser uma ferramenta eficaz de promoção política, como demonstrou a pesquisa do IDEIA Big Data Avaaz, realizada em novembro de 2018. De acordo com o estudo, 84% dos eleitores de Bolsonaro acreditaram na existência deste conteúdo.

Frequentemente disseminadas em correntes de mensagens pelo WhatsApp, as informações falsas alcançam um grande número de pessoas.

De acordo com levantamento feito em 2018 pelo Datafolha, 47% dos eleitores que usam o WhatsApp disseram acreditar em notícias compartilhadas pelo aplicativo. Além disso, essa é a rede mais utilizada pelos eleitores: 65% têm conta e 24% o utilizam para compartilhar notícias sobre política.

Ainda de acordo com o instituto, o segmento mais ativo no aplicativo de mensagens é o de eleitores de Jair Bolsonaro, tanto em alcance quanto em taxa de engajamento.

Sempre carregadas de forte apelo emocional, as fake news costumam ter outras características em comum: fogem à norma culta da língua portuguesa, são sensacionalistas, alarmistas, fazem menção a questões morais, sexuais e religiosas e as fontes, quando citadas, são bastante duvidosas.

É mentira, tá ok?

A exemplo de Donald Trump, Bolsonaro também transformou a mentira em prática cotidiana. Mesmo após o fim das eleições, o presidente – que foge dos jornalistas – continua desinformando. A agência Aos Fatos revelou que de janeiro a outubro deste ano Bolsonaro deu 400 declarações falsas ou distorcidas, uma média de 1,4 mentira por dia. Os temas mais abordados por ele foram economia e meio ambiente.

Embora as declarações do presidente ultraconservador sejam contestadas por diversos veículos de imprensa, parte do séquito de seguidores que o elegeu continua ativo e ainda mais radical.

O professor David Nemer diz que os grupos de bolsonaristas no WhatsApp, antes mais coesos, se dividiram, agora, em três categorias. O primeiro se concentra na propaganda de governo, cujos membros não permitem que os atos do presidente sejam questionados. O segundo é o da insurgência, que reúne pessoas que se tornaram opositoras de Bolsonaro, considerando-o traidor por ter se alinhado à velha política. O terceiro e último grupo é o da supremacia social, que está mais interessado em enaltecer o discurso de extrema-direita do presidente do que, necessariamente, discutir suas ações de governo. De acordo com Nemer, este último é o grupo mais perigoso e radical.

“Eles estão mais radicalizados, estão em números menores, mas que podem fazer um estrago maior. Estão em constante processo de recrutamento, querem expandir mais os grupos deles, os grupos mais extremistas. Eles não estão muito preocupados com a política do dia a dia, mas se capitalizam em cima do discurso de extrema-direita dele e do Flávio [um dos filhos do presidente], principalmente”, destaca.

Apesar do já conhecido uso do WhatsApp para fins políticos, somente em outubro deste ano a empresa admitiu o envio maciço de mensagens, inclusive com sistemas automatizados, durante a eleição brasileira de 2018. A empresa também disse condenar os grupos públicos acessados por meio de links, que compartilham conteúdos políticos.

Conservadorismo

Assim como na administração de Barack Obama, nos Estados Unidos, o Brasil também vivenciou, durante os governos petistas, um período de implementação de políticas sociais. Para Nemer, a inclusão social pode explicar a eleição de candidatos outsiders, como Trump e Bolsonaro.

“O governo Obama, principalmente no segundo mandato, foi bem audacioso em políticas de inclusão, sobretudo inclusão para as minorias. Por isso, eu acredito que o conservador americano, que é bem forte aqui, se sentiu ameaçado. Se sentiu ameaçado pelo politicamente correto. É mais ou menos o movimento que ocorreu no Brasil”, revela.

Em ambos os países, governos mais progressistas deram lugar a políticos autoritários, que desprezam o jornalismo profissional, distorcem a realidade, polarizam a sociedade e atacam qualquer “instituição pensante”. Tanto Trump quanto Bolsonaro lançam mão de diversas estratégias de desinformação para pôr em prática seus planos de governo – no mínimo – impopulares.

Pensamento crítico

Na era da comunicação instantânea, na qual as informações circulam em demasia, sobretudo pelas redes sociais, é fundamental saber reconhecer discursos e conteúdos falaciosos. A educação midiática, conceito relativamente novo para a maior parte da população, busca dar ferramentas para que as pessoas consigam identificar conteúdos falsos e fazer uma leitura crítica das informações que recebem.

Daniela Machado, jornalista e coordenadora do EducaMídia, programa que busca sensibilizar a sociedade para a importância da educação midiática, diz que proibir a divulgação de fake news não ajuda a solucionar o problema, “o que resolve é educar”.

“Acho que a educação midiática é fundamental. Não há uma única solução que seja a bala de prata que vai acabar com a desinformação, mas acho que a educação midiática é sim o caminho mais preciso e talvez um dos mais seguros para que a gente consiga melhorar o ambiente informacional. (…) É importante que a gente esteja preparado, que seja uma formação de todos os jovens, ter habitualmente condições de interrogar a informação, de fazer essa leitura crítica”.

Para ela, a educação midiática é um processo que se constrói ao longo da vida toda, não em um único ano ou semestre. “Devemos perseguir esse objetivo o tempo todo na escola. É algo que vai nos dar a habilidade de conseguir fazer uma leitura reflexiva de toda essa informação que vai chegar até nós”, destaca Daniela.

Jornalismo profissional

Além do investimento em educação, componente básico para a formação crítica de qualquer indivíduo, também é fundamental reconhecer a importância do jornalismo profissional no combate à desinformação. Profissionais capacitados, éticos e compromissados com a veracidade das informações são essenciais à manutenção da democracia.

Fortalecer os veículos profissionais de comunicação, desde as recentes agências de checagem até os jornais mais tradicionais, é imprescindível para fazer frente ao ecossistema de desinformação que domina a sociedade hiperconectada do século XXI.

FONTE: Le Monde Diplomatique Brasil. Disponível em: https://diplomatique.org.br/a-desinformacao-influencia-eleicoes-ao-redor-do-mundo/

Fake News: um olhar teológico

Dizem que “as pessoas acreditam naquilo que elas querem acreditar”. Esta é, de fato, a condição de possibilidade das falsas notícias/informações. O ambiente propício para a disseminação desse vírus é a indisposição pela busca da verdade, a falta de autonomia de consciências individuais ou coletivas e, em perspectiva teológica, a maldade de muitos.

As chamadas Fake News não são simples mentiras ou equívocos de informações, mas são notícias falsificadas propositalmente, construídas com a finalidade de distorcer alguma informação e desacreditar algo, alguém, grupos, ideias etc. Outra característica delas é que são rasas, superficiais, mas são construídas e apresentadas com aparência de seriedade. São espalhadas, geralmente, em larga escala, pois, mesmo que se comprove que eram falsas elas já causaram danos, cumprindo sua principal finalidade. São novos meios de manipulação e dominação principalmente das massas e daqueles des-informados.

Na atualidade, as novas tecnologias da comunicação são o principal canal pelo qual as falsas informações são propagadas em todo o mundo. Verificar o tempo todo a veracidade daquilo que chega até nós tornou-se tarefa impossível de ser feita, por isso, não podemos espalhar precipitadamente. Resta-nos a constante suspeita e o esforço pela busca da verdade naquilo que queremos permitir nos influenciar, a fim de não nos tornarmos “massa de manobra” a projetos de poder de pessoas ou grupos que manipulam informações, até mesmo teológicas, em benefício próprio, isso nas redes sociais, nas comunidades, nas igrejas e onde haja ensino e informação.

Como cristãos sabemos que um dos assuntos mais importantes na Bíblia é a questão da verdade, em todas as suas formas e expressões. Quem mais fala sobre ela é João em seu evangelho, ao apresentar Jesus como a fonte, o caminho e a razão da verdade. Na Bíblia toda, aliás, há uma defesa da verdade por meio dos relatos e narrativas. Por exemplo, no deserto, Corá, Datã e Abirão se levantaram contra Moisés requerendo a liderança com o argumento de que se todos eram santos porque somente Moisés e Arão poderiam liderar (Nm 16). Basearam seu movimento em suposições, e, sem a verificação da verdade, espalharam essa suposta informação entre o povo para conseguir apoio em seu levante. Convenceram, com isso, pessoas importantes na congregação: “varões de nome”. O questionamento parece fazer sentido, tem cara de verdade, mas quando verificado no conjunto da história do chamamento de Moisés, diríamos aos três:

_ Vocês manipularam os fatos para conseguir poder sobre o povo, pois Moisés e Arão não foram chamados por serem santos, aliás, não o eram, não foi por mérito deles, mas porque Deus os escolheu! – Essa é a informação bíblica.

Os profetas tiveram que lidar constantemente com os falsos profetas, que pronunciavam falsas notícias com a intenção de autopromoção, principalmente para permanecerem na corte dos reis aproveitando seus privilégios. Não se constrangiam em enganar o povo e induzí-lo ao erro, mesmo que isso resultasse em sua destruição (Jr. 23.16-18). Eram como parasitas sustentados por falsos anúncios. Um dos casos mais famosos foi o de Jeremias com o profeta Hananias (Jr 28). Jeremias anunciou a destruição de Judá por causa de seus pecados de idolatria e injustiça, orientou a submissão ao rei da Babilônia como uma forma de “mal menor”. Hananias contradisse Jeremias substituindo seu anúncio por um falso anúncio, no qual Nabucodonor seria vencido em pouco tempo. Certamente que o povo preferiu uma “aparente” boa notícia a uma notícia terrível ainda que verdadeira. Judá foi tomada pelos babilônios, conforme predisse Jeremias, e essa é uma história que conhecemos bem.

No Novo Testamento sabemos que os líderes judeus espalharam “falsas verdades” sobre Jesus a fim de que ele fosse perseguido e preso, e conseguiram. Sabemos que eles ficavam o tempo todo à espreita de Jesus para “pegá-lo” em suas palavras, com a intenção de usá-las indevidamente para construir argumentos contra ele (Lc 11.53-54). Sabemos também que um dos grandes problemas da Igreja neotestamentária foram as calúnias levantadas sobre ela, que resultaram em perseguição e morte de muitos cristãos.

Podemos dizer que uma das pessoas que mais sofreu com as “falsas notícias” foi o apóstolo Paulo. Em todo o seu ministério ele teve que lidar com a perseguição dos chamados cristãos judaizantes, que não se conformavam com a abertura de seus ensinos e missão aos gentios, uma novidade difícil de aceitar para aquelas pessoas que, embora convertidas ao cristianismo, se entendiam como guardiãs das tradições judaicas (Gl 4.16; I Co 13.6; At 24.5-8). Disseminavam mentiras acerca de Paulo e seus ensinos (Gl 2:4). No caso dos gálatas, por exemplo, Paulo os acusou de acreditar com facilidade nas “falsas verdades” daqueles “falsos” cristãos sobre ele, não buscaram a verdade. Por causa disso, eles estavam se afastando do verdadeiro evangelho de Jesus Cristo e da liberdade que os beneficiava diretamente como cristãos gentios.

Talvez possamos afirmar, de modo metafórico, que a mais desastrosa Fake News de toda a história da criação e que está na base histórico-teológica dessas ocorridas no contexto bíblico e mesmo daquelas que enfrentamos atualmente, conforme apontou o Pr. Caio Fábio no livro Síndrome de Lúcifer, foi aquela da serpente no Éden. Conforme o relato bíblico (Gn 1-3), Deus ordenou algo ao casal humano, mas a serpente tomou a ordenança verdadeira de Deus e substituiu-a por uma falsa informação, com a aparência de ser mais verdadeira do que a de Deus por causa das falsas informações que a baseava. Onde estão as bases da não verdade da serpente? – No interior da sua notícia falsa está o erro: Deus é Deus porque conhece e o humano somente é humano porque não conhece. A teologia aponta de diversas formas os danos dessa sedução da humanidade pela obtenção de um poder que nunca pertenceu a ela.

Um exemplo do mal das Fake News em nossos tempos, não desconsiderando seu principal lugar de afecção que é o espaço político (mas não é nossa intenção tratar disso agora, ao menos não diretamente), é a Teologia Latino-americana. Ela iniciou no final da década de 60 e, desde seu surgimento, tem sido alvo das mais criativas des-informações com a intenção de distorcer suas ideias e enfraquecê-la. Normalmente, as fontes dessas notícias falsas não conhecem a TLA, não se ocuparam com seu estudo criterioso ou verificação da sua práxis. Se apropriam de alguns pontos isolados de suas ideias (o que é o método das Fake News), reconstroem enunciados falsos sobre ela e espalham nos espaços de comunicação relacionando-a àquilo que se transformou em seus “moinhos de vento”: “ela é marxista”, “ela é liberal”, “ela é um mal”.

Normalmente, os profetas das Fake News contra a TLA se autopromoveram como guardiães da sã doutrina e, na realidade, combatem impiedosamente tudo o que é diferente daquilo que eles defendem. Eles a temem, não somente por causa da novidade que ela representa, o que por si só já os assusta, mas porque ela se apresenta como uma teologia contextualizada, que irrompeu da nossa cultura e condições sócio-históricas, e não se submete aos métodos por eles universalizados e sacralizados. São pessoas que, com raras exceções, nunca pisaram no chão que a TLA pisa e nem se permitiram tocar por sua poeira, como dos assentamentos de pessoas sem-terra ou sem-teto, aldeias indígenas, igrejas de periferia, comunidades quilombolas etc. Estão, geralmente, resguardados em seus gabinetes protegidos por livros de onde espalham falsas informações.

Neste caso, tais informações falsas são apresentadas com cara de verdades, maquiadas com um vocabulário teológico rebuscado ou com a veemência de quem entrega uma profecia, para convencer desavisados, aqueles que não se protegem com a suspeita e não estão preocupados com a busca pela verdade. A intenção é lançar propositalmente a dúvida.

Muitos se permitem induzir, porque em tempos de Fake News o que importa não é a verdade, mas o que mais se parece com ela, entretanto, que me seja favorável. A serpente do Gênesis continua fazendo sucesso com seu método da não verdade com cara de verdade, pelo plano de ocupar o lugar de Deus na vida dos humanos e, assim, controlar seus destinos.

NOMEAÇÕES DE EVANGÉLICOS NO GOVERNO X ESTADO LAICO: AONDE VAMOS CHEGAR?

Ricardo Lopes Dias

A nomeação de Ricardo Lopes Dias, ex-missionário da Missão Novas Tribos do Brasil (MNTB), como coordenador-geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Diretoria de Proteção Territorial da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), oficializada no último dia 05 no Diário Oficial da União, gerou inúmeras críticas, até mesmo dos próprios servidores da FUNAI. Mas o governo Bolsonaro parece não estar preocupado com opiniões contrárias, inclusive de entidades que são referências quando o assunto é política indigenista, como a APIB – Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), UNIVAJA – União dos Povos Indígenas do Vale do Javari, INA – Indigenistas Associados, FPMDDPI – Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas, CIMI – Conselho Indigenista Missionário. Junta-se a elas o CONIC – Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil, que lançou nota indicando seu desacordo frente à nomeação.

 “O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), composto pela Aliança de Batistas do Brasil, Igreja Católica Apostólica Romana, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, Igreja Presbiteriana Unida e Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia expressa seu desacordo à indicação do ex-missionário, Ricardo Lopes Dias, para chefiar a Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC) da Funai.”

CONIC, 03 de fevereiro de 2020

Além da nomeação do ex-missionário, que fere o princípio constitucional da laicidade do Estado, o presidente da FUNAI, Marcelo Xavier, fez uma manobra que durou 24 horas para efetivar Dias Lopes. Xavier solicitou uma mudança no regimento interno do órgão, alterando as medidas do cargo, que até então só poderia ser ocupado por servidores públicos efetivos da FUNAI.

INDICAÇÕES DE EVANGÉLICOS NO GOVERNO BOLSONARO

Bolsonaro recebe oração de Edir Macedo durante culto na Igreja Universal

Indicações e nomeações de evangélicos no governo Bolsonaro têm sido uma prática rotineira desde as eleições, em 2018. Após vencer nas urnas, o “Messias”, que conquistou o cargo por meio de estratégias que incluíram batismo no rio Jordão, “aceitação de Jesus” em culto, e alianças políticas com líderes religiosos como Edir Macedo, Silas Mafalaia e Marco Feliciano com a bancada evangélica no Congresso Nacional. O ex-capitão tem governado o país como um pastor autoritário, que faz de tudo para não perder seu “ministério”, nomeando figuras “terrivelmente evangélicas”, como ele mesmo afirma, para cargos de liderança.

Como o Estado é laico, “mas o governo é cristão”, segundo fala do próprio presidente, a equipe bolsonarista tem, hoje, cinco evangélicos no primeiro escalão do governo ocupando ministérios. O maior conselheiro do presidente, Luiz Eduardo Ramos, ministro-chefe da Secretaria do Governo, é batista. Os outros são: Onyx Lorenzoni, ministro-chefe da Casa Civil, luterano. Marcelo Álvaro Antônio, do Ministério do Turismo, membro da Igreja Maranata. André Luiz Mendonça, ministro da Advocacia Geral da União, pastor presbiteriano. Ele é, possivelmente, o homem “terrivelmente evangélico” que Bolsonaro indicaria para o STF. E finalmente, a pastora pentecostal, Damares Alves, ministra da pasta da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Ela tem levado várias “propostas pastorais” de políticas públicas para o governo, como a de abstinência sexual como uma das diretrizes para combater a gravidez precoce, ignorando, como seu presidente, todas as críticas de médicos, educadores e cientistas que trabalham com o tema da sexualidade na adolescência.

No segundo escalão o número funcionários evangélicos é expressivo, principalmente no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Roberto Alvim durante culto na Bola de Neve

Não podemos esquecer de Roberto Alvim, exonerado em 17 de janeiro da Secretaria da Cultura depois de discurso nazista. Ele havia sido ungido um mês antes na igreja Bola de Neve como o “novo Daniel (profeta do Antigo Testamento) para o Brasil.”

QUAL O PROBLEMA DE HAVER EVANGÉLICOS NA LIDERANÇA DO GOVERNO FEDERAL?

Nenhum. A questão que se coloca no contexto religioso é o “tipo” de evangélico/a que lá está. O mínimo que se espera de um/a cristão/cristã na política é que respeite a Constituição, o que não tem se dado, de forma bem explícita, neste governo.

Jair Bolsonaro e Benedito Aguiar

Nomeações como a do ex-reitor da Universidade Mackenzie, o presbiteriano Benedito Guimarães Aguiar, para a CAPES em 24 de janeiro deste ano, e agora, Ricardo Dias Lopes para FUNAI, revelam a plena coalizão do governo com a religião, fazendo dela a bandeira que rege a desordem e o desprogresso que o Brasil vem enfrentando neste último ano. Lopes já foi missionário em aldeias indígenas e agora, por meio de manobra, o que intensifica ainda mais o equívoco de sua nomeação, é indicado para um cargo que requer a maior imparcialidade religiosa possível, pois o departamento irá coordenar os índios isolados e de recente contato da Funai, que tem como principal atribuição proteger esses povos e não expô-los a nenhum tipo de evangelização.

Para esclarecer a nomeação do ex-missionário Ricardo Dias Lopes, entrevistei um ex-servidor da FUNAI, que pediu para não se identificar devido o cenário de perseguição que se instalou na Fundação na última semana.

O entrevistado é um antropólogo que tem mais de 10 anos de experiência com questões indigenistas.

ENTREVISTA

1- Como ex-servidor da FUNAI, como o senhor vê a nomeação de Ricardo Lopes Dias para a coordenação de índios isolados?

É importante destacar a total incompatibilidade entre a atividade missionária e a coordenação da política de proteção aos povos indígenas em isolamento voluntário e povos de recente contato. Conforme o próprio declarou, o objetivo de vida dele era a criação do que ele chama de “igreja autóctone” em cada povo indígena. Com esse objetivo o missionário vai contra os standards internacionais dos direitos humanos e dos direitos específicos dos povos indígenas, que afirmam o direito à autodeterminação sobre suas vidas e seus territórios bem como afirma o direito dos povos indígenas à consulta livre, prévia e informada sobre todas as ações que possam impactá-los.

2 – O senhor acha que esta nomeação de Lopes fere a política laica para com os povos indígenas? Sendo que as políticas de proteção territorial da Funai, voltada para os índios isolados, é reconhecida como um exemplo pioneiro no mundo.

Os objetivos do missionário ferem a Constituição Federal de 1988 ao ir contra as garantias estabelecidas na Carta Magna em relação ao respeito ao direito dos povos indígenas, sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições (artigo 231 da CF de 1988). No caso dos povos indígenas em isolamento voluntário, o anseio de Ricardo Lopes é ainda mais grave, porque, ao defender a ação missionária nas terras indígenas ele vai contra os princípios e a política de respeitar e garantir que esses povos vivam de forma autônoma dentro do seu território, protegidos pelas ações desenvolvidas pelas frentes de proteção etno-ambientais da FUNAI, que desenvolvem um trabalho exemplar em defesa da autodeterminação e autonomia dos povos em isolamento voluntário. O Estado brasileiro ao longo do último século passou por várias políticas em relação aos indígenas não contactados até compreender que a melhor forma de respeitar a autonomia e os modos de vida desses povos é garantindo que eles tenham autonomia em realizar o contato ou não.

3-A relatora da ONU para o direito dos povos indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, criticou a decisão do governo brasileiro de nomear um evangélico para o cargo na FUNAI. Ela afirmou que “é uma decisão perigosa e que pode ter o potencial de gerar um genocídio para a população de indígenas isolados” . O senhor concorda com essa afirmação?

O trabalho missionário, independente do discurso, da intensão alegada, é uma violência contra esses povos ao tentar impor uma religião específica a eles. É necessário destacar que a ação missionária é invasiva e traz riscos muito sér[ios para os indígenas, inclusive do ponto de vista da saúde, tendo em vista possíveis contágios e vírus decorrentes do contato. Isso ocorreu dezenas de vezes no Brasil, com genocídios provocados por contatos desastrosos e, muitas vezes, criminosos. Importante afirmar que essas populações em isolamento voluntário não estão alheias à realidade a sua volta. Eles optam pelo isolamento muitas vezes por terem passado por experiências traumáticas em relação ao contato com a sociedade nacional. Contato que muitas vezes causou centenas e centenas de morte de Indígenas. É uma opção que deve ser fortemente respeitada.

4 – O estado brasileiro tem a responsabilidade de garantir a proteção integral dos povos indígenas. O senhor acha que este governo tem essa pauta como prioritária?

Fica muito claro nas entrevistas do Ricardo Lopes que ele não está assumindo o cargo para trabalhar na política de proteção e promoção dos direitos indígenas e sim na defesa de uma agenda que a muito tempo eles buscam impor a esses povos. Trata-se de algo totalmente invasivo e vai contra os princípios da liberdade religiosa na medida em que esses missionários promovem proselitismo religioso. Acredito que essa nomeação é um retrocesso de décadas em relação à laicidade do Estado brasileiro e da política indigenista. Cabe lembrar que faz bastante tempo que as organizações de missionários cristãs buscam acessar esses territórios e sempre se ressentiram do trabalho realizado pela Funai na proteção etno-ambiental dos territórios indígenas.

A Missão Novas Tribos, da qual esse senhor participa, tem uma longa história com os povos em isolamento e de recente contato, com inúmeros casos de desrespeito e violência contra os povos indígenas. Uma outra questão a considerar é a total falta de experiência desse senhor em relação à política indigenista. A Funai tem um corpo de funcionários concursados e com longa experiência de trabalho com os povos indígenas. A política hoje é de perseguição a esses funcionários e a colocação de pessoas sem experiência e vivência indigenistas. Pessoas que estão entrando na Funai com uma agenda totalmente contrária aos princípios norteadores da ação indigenista do Estado brasileiro.

5 – Para o senhor, em que princípios a Funai deveria se pautar para escolher o coordenador ou coordenadora para o departamento de índios isolados?

Um pressuposto da vaga de Coordenador-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato era ser servidor da FUNAI. Por isso o cargo foi mudado para permitir a nomeação desse senhor. Foi retirada a exigência e transformou em cargo de livre nomeação. Foi uma manobra capitaneada pelo Delegado da Polícia Federal que está a frente da Funai ultimamente. Ele mesmo não tinha nenhuma experiência de trabalho com povos indígenas e foi colocado justamente para garantir a agenda do governo Bolsonaro de desconstrução dos direitos dos povos indígenas.

Assim, não é possível pensar essa nomeação de forma isolada. Faz parte de uma agenda que busca a flexibilização dos direitos indígenas, de forma a interromper os processos de reconhecimento territorial em curso e possibilitar a exploração econômica dos territórios indígenas. A integração defendida pelo Governo Bolsonaro nada mais é do que a tentativa de acessar os recursos naturais e ambientais das terras indígenas e explorar de forma predatória sem respeitar os direitos dos povos indígenas em relação à autodeterminação, autonomia, direito de consulta e de usufruto exclusivo dos territórios. Temos um sério risco de um genocídio dos povos indígenas no Brasil. Algo que já foi vivenciado muitas vezes pelos povos indígenas, como registrado. É desconsiderar toda a história da política indigenista no Brasil. A FUNAI registra, hoje, 107 grupos de povos indígenas em isolamento voluntário.

Já vimos a ampliação das ações de invasão dos territórios indígenas por frentes de exploração econômica que hoje avaliam que estão com a carta branca do Governo Bolsonaro para explorarem ilegalmente os territórios tradicionais dos povos indígenas. Não podemos ver essa nomeação de forma isolada. É a colocação de pessoas estratégicas na Funai para fazer o desmonte por dentro, paralisando políticas, perseguindo servidores, rompendo o diálogo com o movimento indígena, perseguindo lideranças, sufocando as coordenações regionais da FUNAI. Então, por mais que esse senhor fale da defesa dos indígenas, não pode negar o fato de que ele faz parte de um grupo que ocupa hoje a FUNAI para acabar com a política de proteção e promoção dos direitos indígenas. Acompanha essa invasão da FUNAI um amplo esforço de mudança normativa para permitir a exploração econômica dos territórios indígenas, como ocorreu essa semana no projeto de lei de mineração e exploração hídrica em terras indígenas sem respeitar o direito de autodeterminação e o direito à consulta livre, prévia e informada. Há pressão para descontrair as políticas de cidadania.

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O chamado crítico do CONIC precisa ser assumido por todos que defendem o Estado laico como princípio constitucional fundamental para  o Estado Democrático de Direito: “A concepção evangelizadora que acompanha uma política pública deve ser isenta de toda e qualquer lógica religiosa. Povos indígenas têm um patrimônio cultural e espiritual próprios. É dever do Estado protegê-los e garantir a sua preservação”.

Foto de destaque: Ateliê Canudos

Programa Minuto da Checagem explica o que é “deepfake”

O quinto vídeo da série Minuto da Checagem já está no ar, e o tema da vez é deepfake. A tecnologia utiliza a inteligência artificial para criar vídeos falsos que parecem verdadeiros. Assim, a deepfake pode ser considerada uma nova forma de desinformação.

A coordenadora do Núcleo de Rádio e TV do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Ana Paula Ergang, lembra que, principalmente em ano de eleições, o trabalho de esclarecimento é fundamental. “E o tema ‘deepfake’ não é por acaso. Essa tecnologia vai ser um desafio que teremos de enfrentar”, diz.

Segundo Ana Paula, a campanha – que tem como mote “Na dúvida, não compartilhe. Não faça parte da corrente da desinformação. Você é responsável pelo que compartilha” – tem tido resultados positivos. “Cada vídeo do Minuto da Checagem no YouTube já alcançou mais de 700 mil visualizações, o que mostra que o material está sendo muito bem aceito”, completa.

 vídeo produzido pelo Núcleo de TV do TSE.

Programa

O programa é mais uma ação do TSE para combater a desinformação no âmbito do processo eleitoral brasileiro, que foi um dos grandes problemas enfrentados pelo Tribunal durante as Eleições Gerais de 2018, na medida em que levantou suspeições em relação à segurança do processo eleitoral e da urna eletrônica.

O Minuto da Checagem tem duração de aproximadamente um minuto e é veiculado uma vez por mês no canal da canal da Justiça Eleitoral no YouTube. Também estão sendo produzidos spots de rádio em duas versões: de 15 e 30 segundos.

A produção também vai ao ar no intervalo da programação da TV Justiça e das demais 500 emissoras parceiras que retransmitem a programação audiovisual da Assessoria de Comunicação (Ascom) do TSE. O Minuto da Checagem é divulgado ainda por mais de 40 parceiros do Programa de Enfrentamento à Desinformação.

Fonte: http://www.tse.jus.br/imprensa/noticias-tse/2020/Fevereiro/programa-minuto-da-checagem-explica-o-que-e-201cdeepfake201d

Nossas vidas e comunidades como mecanismo de busca para o sentido da vida

Vamos começar nossa reflexão lendo duas passagens do evangelho de João – 1.35-39 e 1.40-43.

“No dia seguinte João estava ali novamente com dois dos seus discípulos.
Quando viu Jesus passando, disse: “Vejam! É o Cordeiro de Deus! “
Ouvindo-o dizer isso, os dois discípulos seguiram a Jesus.
Voltando-se e vendo Jesus que os dois o seguiam, perguntou-lhes: “O que vocês querem? ” Eles disseram: “Rabi”, ( que significa Mestre ), “onde estás hospedado? “
Respondeu ele: “Venham e verão”. Então foram, por volta das quatro horas da tarde, viram onde ele estava hospedado e passaram com ele aquele dia.”

João 1:35 – 39 / NVI

João Batista, o profeta, indica e antecipa, nesta passagem, o que ver e procurar: o Cordeiro de Deus. A partir de sua formulação o compartilhamento de quem era Jesus começa a ser feito. João revela o que deve ser buscado.

Vamos fazer analogias digitais

O que são navegadores? Motores de busca? Mozilla, Chrome? O que os diferencia uns dos outros?

Se nossas igrejas fossem navegadores, motores de busca como o Mozilla e Chrome, que coisas poderiam ser pesquisadas por meio delas?

Suas músicas, mensagens, reuniões, encontros de oração, seus membros, etc. Mas isso não é suficiente. A pesquisa inicial deve fornecer ao interessado esclarecimentos que permitam que ele/ela continue interessado/a e atraído/a pelas informações encontradas.

Se imaginarmos que João foi o primeiro mecanismo de busca para entender o Reino, que referências poderiam ser encontradas através dele?

E se você fosse o mecanismo de busca por meio do qual as pessoas olhassem e analisassem Jesus, o que encontrariam?

E se sua igreja fosse analisada por alguém que tivesse buscando um lugar para se congregar ou entender mais sobre espiritualidade, que referências essa pessoa teria?

Agora vamos ler a segunda passagem: João 1: 40:43:

André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido o que João dissera e que haviam seguido a Jesus.
O primeiro que ele encontrou foi Simão, seu irmão, e lhe disse: “Achamos o Messias” ( isto é, o Cristo ).
E o levou a Jesus. Jesus olhou para ele e disse: “Você é Simão, filho de João. Será chamado Cefas” ( que significa Pedro ).
No dia seguinte Jesus decidiu partir para a Galiléia. Quando encontrou Filipe, disse-lhe: “Siga-me”.

João 1:40-43 / NVI

O que os discípulos descobrem assume um novo significado. Ele não é mais o Cordeiro de Deus, mas o Messias (Cristo). Ao compartilhar a novidade da inquietação procurada, eles descobrem outros significados que estão além do que podem entender e compartilhar naquele momento.

Por que isso? Porque essa operação básica de surpresa, de encontrar um novo significado depende de Deus e não de nós mesmos ou do potencial de nossas igrejas.

É importante que eu e você, bem como nossas comunidades, sejamos luz que clareia o caminho quando alguém faz a busca por meio de nós, mas, mais importante do que isso, é confiar que o Senhor abre portas e oferta um novo olhar quando as pessoas procuram algum sentido para a vida.

Vamos oferecer nosso amor e paixão por Jesus, na confiança de que Deus acrescenta novos elementos para aqueles/as que buscam Boas Novas.

PARA REFLETIRMOS

  1. Quando eu e você fazemos uma busca pelo evangelho e sua encarnação por meio das nossas próprias vidas e igrejas, o que, de fato, encontramos?
  2. Escolha uma situação no ambiente mais próximo, por exemplo, pessoas em situação de rua, e analise como os meios de comunicação as apresenta e qual a leitura que você mesmo/a faz delas.
  3. Como nos preparamos para ouvir e entender de maneira crítica e amorosa o que está acontecendo ao nosso redor?

As Campanhas de Damares fazem mal à saúde?

Damares Alves, Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH) , é a segunda pessoa mais popular do Governo Bolsonaro, só perde para o Ministro Sérgio Moro. A popularidade de Damares é a face “terrivelmente evangélica” do governo. Mulher e evangélica, a pastora tem uma forte presença simbólica.

Nos primeiros meses de 2020, com o anúncio de que o MMFDH faria enfrentamento da gravidez precoce (ou gravidez na adolescência) por meio de uma bandeira ligada à pauta de costume, isto é, uma propaganda da “preservação”/“abstinência” sexual, em pleno mês de fevereiro, tempo de Carnaval, provocou vários debates, inclusive sobre o “celibato voluntário”.

O programa de “preservação sexual”, que tem sido chamado pela imprensa de “abstinência sexual”, tem desdobramentos para além do MMFDH, afeta o programa de saúde da família, as políticas do Ministério da Saúde (material de educação sexual, DSTs e vacinação contra HPV) e, finalmente, desdobramentos e interlocuções com o Ministério da Educação por meio do FNDE, especialmente em relação ao material de educação sexual  do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Ou seja, ao defender a iniciativa, a ministra Damares não está  fazendo campanha religiosa, como tem sido repetido, mas está claramente ampliando sua influência dentro do governo.

Em entrevista recente, a ministra defendeu a abstinência sexual como nova orientação de política pública do governo federal para combater a gravidez precoce na adolescência e as infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) – orientar jovens, nas escolas brasileiras, a não fazer sexo. Veja o vídeo aqui.

Damares ampliou suas alianças políticas e também conseguiu chamar a atenção de dois grupos altamente organizados na Internet: cientistas/ médicos (que questionam a eficácia do método) e “incels”/”spamers” (celibatários involuntários e propagandistas de whatsapp). 

Os cientistas questionam a falta de dados comprobatórios de que os programas de abstinência sejam  eficazes, enquanto os “incels” tomaram de assalto as redes sociais associando “depravação sexual e promiscuidade” com a “esquerda progressista”. Assim,  partidos de esquerda foram associados com posturas liberais e libertárias. O que há de verdade nessa campanha toda? E quem ganha com isso?

Areópago já falou da campanha pela abstinência e da realidade das adolescentes

Em dezembro de 2019, Bereia publicou o artigo de Valéria Vilhena sobre a gravidez precoce. “Mais do que um problema moral, ou de “preservação sexual”, o problema inclui uma parcela da população (mães adolescentes) que vivem em risco social’, afirma Vilhena.

Médicos contra Damares: Por quê?

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) considera adolescente aquele ou aquela que tem entre 10 e 20 anos. O Brasil teve queda nas taxas de gravidez de jovens na última década, mas está bem acima dos demais países da América Latina. Os médicos da SBP já se manifestaram contra a proposta de “abstinência” ou “preservação”, sendo claramente contrários à proposta da ministra.

O documento elaborado pela SBP em oposição à ministra está disponível para leitura e sugere que a imposição (ou sugestão aos adolescentes) não funciona, textualmente: “A SBP reitera o posicionamento da Sociedade Americana de Medicina do Adolescente que aponta para as falhas científicas e éticas da abordagem “abstinence only “, deixando à margem adolescentes sexualmente ativos, aqueles que já são pais, os que não se consideram heterossexuais e as vítimas de abuso sexual. Adicionalmente, compreende-se que a abstinência das relações sexuais pode ser uma escolha saudável para os adolescentes desde que seja uma decisão pessoal deles e não uma imposição ou única opção oferecida, respeitando seu direito à autonomia”.

Celibatários de todo mundo, uni-vos

Os celibatários (incels) são público-alvo das campanhas de desinformação (fakenews), estratégia desenhada por Steve Bannon  e pela Cambridge Analytica . Por quê? Porque os celibatários “involuntários” (incels) são os jovens ressentidos que não conseguem namoradas e defendem que o comportamento sexual das mulheres progressistas é a principal causa de sua solidão.  A linguagem agressiva com sinais de desequilíbrio psicológicos, associados a episódios de massacres e culto das armas de fogo, fazem desse grupo uma das maiores preocupações da área de segurança. Conforme documentários recentes, o “ódio que os incels têm dos sexualmente ativos” e sua defesa de uma abstinência imposta por autoridades (escolas, governos, grupos)  fazem da proposta da ministra uma mistura explosiva, que sugere mais desdobramentos negativos do que positivos por parte de uma política pública.

Não se trata apenas de uma campanha cientificamente questionável, mas de uma campanha que pode acirrar ainda mais os ambientes escolares. E é preciso lembrar que o Brasil passou a viver a realidade estadounidense de massacres escolares justamente por causa do crescimento desses grupos. Empoderar o discurso dos celibatários é um dos efeitos colaterais desse programa!?

Cientistas alertam – educação sexual é saída

O argumento da “abstinência”, denominado “preservação sexual” pelo MMFDH, tem sido contestado com base em pesquisas sociais. Para cientistas e médicos o método mais eficaz contra a gravidez é a “educação sexual”, ou as políticas de “sexo seguro”, bem como estratégias de redução das estatísticas de DSTs e gravidez adolescente. Nota-se também, no cenário atual, que a campanha pela “preservação” esbarra em um fato: como falar em preservação com aqueles que já são ativos?

Justamente, por isso, há grandes reações ao programa de Damares no Ministério da Saúde.  Além da idade (razão de uma discordância pública), também está em questão o cronograma de vacinação contra o HPV.

Uma visão distorcida do movimento americano – “Eu escolhi esperar”

Nos Estados Unidos, o movimento “Eu escolhi esperar” é interdenominacional (o que significa que não tem relações com igrejas) e não-governamental (isto é, não aceita e nem tem patrocínios ou líderes políticos).  É protagonizado por jovens youtubers, bandas de música com apostas em ações diretas, em eventos de massa. É parte da cultura religiosa norte-americana manter movimentos que desconfiam das igrejas organizadas e dos governos.

No Brasil,  o movimento de “abstinência sexual” foi introduzido por líderes de várias igrejas e é liderado por pastores. O Pr. Nelson Junior do Ministério Eu Escolhi Esperar da Igreja Batista da Lagoinha, a mesma que a ministra Damares faz parte, é uma das referências. Funcionaria um programa voltado para jovens com inspiração eclesial e governamental? Não seria melhor organizar comitês com os jovens?   

Quem? Como? Quanto?

Pesa sobre a campanha, por último, uma dúvida. Quem produzirá o material? Para ser distribuído ainda em 2020, nas escolas, o material teria que passar pelo edital do PNLD (programa nacional do livro didático) e pelos diversos editais do Ministério da Saúde. Conforme o cronograma, os textos e campanhas teriam que ter sido produzidos em 2018 e passar pelo processo de seleção pública – a não ser que se pretenda adotar algo que já esteja pronto, ou que tenha sido produzido em outro contexto.

O Ministério da Saúde ainda não esclareceu quando e como irá implementar a política de incentivo à abstinência sexual. Hoje, o Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza nove métodos contraceptivos, incluindo diferentes tipos de anticoncepcional injetável, pílula (incluindo a do dia seguinte), diafragma, DIU e preservativo. Também há campanha e vacinação ativa contra HPV (para meninas e meninos adolescentes).

O Ministério da Educação já divulgou edital e lista de editoras de material que vai ser distribuído para crianças e adolescentes em todo o Brasil. Serão gastos R$ 862.222.089,49 com livros de diversas editoras, segundo a Associação Brasileira de Editores e Produtores de Conteúdo e Tecnologia Educacional (ABRELIVROS).  No Edital do PNLD foram excluídas algumas exigências, como a de que livros didáticos promovam positivamente a cultura quilombola e os povos do campo (p. 39). Foi mantida a exigência de que as obras promovam positivamente a imagem da mulher, mas foi eliminado um trecho requerendo atenção “com a agenda de não violência contra a mulher” (p. 39). Finalmente, as ilustrações não precisam mais retratar a diversidade étnica da população brasileira, a pluralidade social e cultural do país (p. 41).

Existe risco?

O MMFDH manteve a promessa de lançar a campanha pela abstinência sexual a partir de fevereiro de 2020. Dia 23/01/2020 a ministra usou sua página em uma rede social para se posicionar diante da enxurrada de críticas diante da iniciativa de pregar a abstinência sexual.

“Pais e responsáveis por cuidar de adolescentes, digam-me qual é o mal de conversar com um menino ou menina, a partir dos 12 anos, e dizer que talvez ainda não esteja maduro o suficiente para começar a ter relações sexuais? Que grande risco isso pode trazer?”

Há várias respostas para a pergunta da Ministra. Vários riscos, inclusive, de gestão do dinheiro público, já escasso na saúde e educação.

Respeitando as Regras?

A ABRE alertou seus filiados (e as editoras que participaram do último edital) para o risco quanto ao novo decreto do MEC, que permite ao ministério produzir seu próprio material. Além de promover uma insegurança no setor, o decreto abre brechas para a confecção de novos conteúdos, incluindo aqueles que interessam o MMFDH. Ou seja, as regras de produção e difusão do material didático e das campanhas teriam sido burladas?

As Defensorias Públicas da União e do Estado de São Paulo  recomendaram ao governo não veicular a campanha de Damares, e citam estudos realizados nos EUA, em especial  da Society for Adolescent Health and Medicine, concluindo que a medida não promoveu mudanças positivas na vida sexual dos jovens, não impediu a gravidez na adolescência e nem diminuiu a propagação de infecções sexualmente transmissíveis.

Quanto ao aspecto legal, as Defensorias manifestaram preocupações com a alteração das formulações de políticas públicas, especialmente quanto à necessidade de promover audiências públicas sobre o tema. As defensorias também solicitaram aos ministérios que apresentem o custo total de produção e divulgação da campanha e o valor que isso representa proporcionalmente em relação ao que foi gasto no ano de 2019.

A Lei de Acesso à Informação (LAI) promulgada há mais de sete anos prevê o acesso às informações públicas, especialmente nas questões orçamentárias. Isto foi previsto na Constituição Federal, em especial nos capítulos que tratam dos direitos e deveres individuais e coletivos, dos princípios que regem a administração pública, bem como da gestão da documentação governamental, além de aumentar a eficiência do Poder Público, diminuir os desvios de conduta e ampliar a participação popular. Isto é, as Defensorias, Controladorias e até cidadãos podem cobrar dos ministérios que prestem contas e forneçam informações sobre custo, distribuição e construção das campanhas.

E não adianta esconder dados, pois quem quer moralidade pública precisa respeitar as regras.

Vale a pena esperar transparência por parte dos governos? Se achamos que SIM, devemos cobrar lisura, rigor, estudos, regras e orçamentos claros.

Guia de Letramento Midiático: como identificar e combater desinformação

Compartilharam um texto no Facebook. É um desses textos que você poderia ter recebido também no grupo de WhatsApp. O visual das páginas, o estilo do texto e o conteúdo informativo até parecem com o dos sites que você conhece. Esses textos trazem dados, revelam fatos escandalosos, mostram transformações i-na-cre-di-tá-ve-is e contêm até fotos que comprovam o que está sendo falado. E agora, será que dá para confiar?

De acordo com a Pesquisa Brasileira de Mídia 2016, 14% da população brasileira confiam nas notícias que circulam nas redes sociais. Quando se trata das notícias que se encontra em sites da internet, o número sobe para 20%. O fato é que provavelmente em algum momento você já clicou (e talvez até compartilhou como verdade) uma notícia dessas. Pelo menos 62% dos brasileiros confiam de vez em quando (mesmo que poucas vezes) ao se deparar com elas. “Existe um abismo entre a interpretação de texto e o letramento midiático”, afirma Pollyana Ferrari, professora de hipermídia e narrativas transmídias da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), pesquisadora em comunicação digital e autora do livro Como sair das bolhas (Editora Armazém da Cultura). Mesmo que o indivíduo interprete e consiga compreender todas as informações presentes no texto, o letramento midiático vai além da interpretação do que está sendo apresentado. “É preciso verificar se a publicação tem fonte, se a imagem foi manipulada ou não e se o site é um portal ou só tem a aparência, se é uma fachada”, explica a especialista.

Caça-clique, notícias falsas (da expressão em inglês, fake news), opiniões partidárias. Cada vez mais é difícil identificar determinados conteúdos e como são produzidos. Por isso, é crucial que todos nós aprendamos a identificar o que estamos lendo e vendo. Com a popularização dos celulares e tablets, as crianças interagem cada vez mais cedo com a tecnologia e diferentes fontes de informações – sejam texto ou imagens. Timelines (linhas do tempo), vídeos, memes, mensagens e links compartilhados no WhatsApp estão a um clique de distância. “Antes mesmo de iniciar a vida escolar e aprender a ler, as crianças já foram apresentadas a diferentes tipos de mídia. Elas já dominam algumas ferramentas, principalmente os vídeos”, diz Carlos Eduardo Canani, mestre em Educação, professor de Língua Portuguesa e diretor de ensino na Secretaria Municipal de Lages (SC).

O que é o letramento midiático

A definição de letramento se resume basicamente à capacidade de ler e escrever. A partir do reconhecimento de letras e palavras, o indivíduo que está desenvolvendo essas habilidades, além de identificá-las, passa a compreender o significado delas e interpretar o significado daquele conjunto de frases. O letramento midiático segue mais ou menos o mesmo processo, mas inclui a habilidade de identificar diferentes tipos de mídia e interpretar as informações e mensagens enviadas nessas mídias. Isso inclui não apenas os conteúdos de texto que circulam em redes sociais, como também memes, vídeos virais, videogames e propagandas.

FORMATOS PARA TOMAR CUIDADO

Notícia falsa. São textos que se parecem com notícias de verdade. Possuem um layout semelhante ao de um site de notícias tradicionais, citam dados e, às vezes, trazem supostas afirmações de especialistas entrevistados. As informações apresentadas podem ser completamente falsas, mescladas com elementos reais – como afirmações de algum político embasada por dados inexistentes, por exemplo – ou distorcidas (conheça algumas dessas notícias no bloco “O impacto das notícias falsas nas eleições”).

Correntes de WhatsApp. São mensagens alarmistas e desinformações que circulam em grupos do aplicativo. Essas mensagens pedem para serem compartilhadas. Esse pedido pode ser direto, como as que anunciam que aplicativos como o próprio WhatsApp ou o Facebook serão pagos e que para evitar que o usuário tenha que fazer o pagamento, é necessário repassá-la a 20 amigos. Outras são indiretas, informando sobre suspeitos de sequestros em determinadas regiões e pedindo para informar a polícia local. Elas podem ainda falar sobre novas regras do Detran, vagas de emprego em grandes quantidades, tarifas abusivas ou trazer informações capazes de causar indignação em relação a políticos e outras pessoas. “Qualquer um pode produzir um áudio ou um texto”, reforça a professora Pollyana Ferrari. “Antes de compartilhar, é preciso se questionar: quem é essa pessoa que fala no áudio? De onde ela veio? Há algum outro registro sobre este fato?”. As consequências de compartilhamentos automáticos diante de mensagens alarmistas podem ser graves. Em 2017, uma corrente de WhatsApp falsa sobre um grupo que estava sequestrando crianças na Índia levou ao assassinato de sete possíveis suspeitos. A história que circulava no aplicativo, entretanto, era completamente falsa. Nenhum sequestro de crianças havia sido reportado na área descrita pela mensagem.

Sátira. Alguns sites se inspiram em notícias, acontecimentos ou personagens reais para produzir conteúdos satíricos sobre os fatos relatados. Eles são uma espécie de paródia dos conteúdos jornalísticos e, diante de um olhar descuidado, podem ser interpretados como informações reais. É o caso, por exemplo, do Sensacionalista, que conta com mais de 3 milhões de curtidas em sua página no Facebook. Enquanto algumas manchetes podem parecer imediatamente falsas ou duvidosas (como o tweet abaixo que anuncia que “Bolsonaro registra Lula como cabo eleitoral após manobra que dividiu esquerda”), outras podem se passar por verdadeiras, como a manchete “Gilmar Mendes fica irritado por não ter soltado Lula”. Ao fazer uma checagem rápida sobre o perfil do veículo, é possível verificar que o slogan da publicação é “um jornal isento de verdade”.

Caça-cliques. As manchetes sensacionalistas também são características deste tipo de conteúdo. Outra marca são imagens chamativas, que despertam grande curiosidade nos leitores. Apesar disso, o conteúdo vinculado geralmente não entrega o que está sendo noticiado na chamada. Trata-se de um formato produzido para atrair cliques e compartilhamentos, com a finalidade de gerar receita para as publicidades online. Embora parte desses conteúdos não traga as informações desejadas ou aposte direto em informações duvidosas, alguns conteúdos jornalísticos são atribuídos pejorativamente ao termo quando utilizam artifícios ao exagerar ou ocultar informações no título para chamar atenção do leitor.

Opiniões super-partidárias. São textos que apresentam argumentos, dados e informações referentes a um tema ou personalidade.

Apesar de estar ganhando o debate educacional brasileiro nos últimos anos, o tema não é novo. O primeiro curso de letramento midiático surgiu na primeira metade dos anos 1990, na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. O assunto, no entanto, se torna cada vez mais urgente com o crescimento desenfreado das notícias falsas, opiniões super partidárias e dos conteúdos caça-cliques, que passaram a influenciar decisões importantes, inclusive levando pessoas a cometer atos violentos como linchamento e até à morte de pessoas inocentes porque muita gente acreditou que aquelas eram notícias de verdade.

O impacto das notícias falsas nas eleições

Por conta das eleições do [Donald] Trump, em 2016, é que se começou a falar muito sobre o tema”, relembra Pollyana Ferrari. Empresário e protagonista da versão americana do reality show “O Aprendiz”, Trump teria sido favorecido pela grande circulação de notícias falsas que atacavam sua concorrente à presidência, Hillary Clinton, ou favoreciam a imagem do empresário.  

“Papa Francisco choca o mundo e apoia Donald Trump”, “Wikileaks confirma que Hillary vendeu armas para o Estado Islâmico” e “E-mail de Hillary para o Estado Islâmico vazou e é pior do que qualquer um poderia imaginar” são alguns exemplos de manchetes que viralizaram três meses antes das eleições presidenciais de 2016 nos Estados Unidos.

A prática de usar informações para atacar adversários ou atender interesses políticos é antiga. Em 44 a.C., a República Romana passou pelo que é considerado pelo relatório “A short guide to the history of ’fake news’ and disinformation” (em tradução livre: “Um guia rápido sobre a história das notícias falsas e desinformação”), do International Center for Journalists (UCFJ), como a primeira notícia falsa registrada. Uma das figuras políticas da época, Otaviano travou uma guerra de propaganda política contra o rival Marco Antônio, gravando em moedas frases que manchavam a reputação de seu adversário. A diferença é que rumores desse tipo, com o advento da internet, circulam com muito mais velocidade e volume por todo o mundo em diferentes mídias e com tons de notícias reais. Além disso, na era digital, é muito mais fácil criar uma notícia falsa e torna-la disponível na rede do que criar uma moeda física e fazê-la circular no mercado.

Pelo fato de serem criados para gerar interação, os fatos inventados costumam ser impactantes para chamar atenção, provocar sentimentos fortes (como indignação) e serem compartilhados. É assim – e por meio dos bots, os robôs criados para desempenhar certas funções na internet – que o mercado das notícias falsas opera. De acordo com a análise de 40 notícias (sendo metade delas falsa) em um período de três meses, o Buzzfeed News concluiu que as notícias falsas têm maior alcance do que as verdadeiras. A análise foi feita em cima de conteúdos eleitorais veiculados nos principais veículos jornalísticos dos Estados Unidos, de sites que se dizem informativos e de blogs. Enquanto grandes veículos de mídia, como o New York Times, somaram 7,367 milhões de compartilhamentos, reações e comentários no Facebook, as notícias falsas atingiram 8,711 milhões. Além disso, o relatório do Buzzfeed News aponta que há crescimento do desempenho das notícias falsas sobre as verdadeiras conforme se aproximam as eleições.

Com a polarização política que o Brasil vive há algum tempo, a guerra de desinformações que apoiam ou atacam determinados candidatos também deve se intensificar com a proximidade das eleições. Outra análise, realizada em 2016 pelo BuzzFeed Brasil e baseada em dados do Facebook, indica que as notícias falsas que citavam a operação Lava Jato foram mais compartilhadas que as informações verdadeiras. O relatório analisa 20 textos virais (sendo, novamente, metade deles falsos). Enquanto as notícias advindas de veículos de credibilidade, como o G1, somaram 2,7 milhões de compartilhamentos, reações e comentários, o engajamento das falsas chegou a 3,9 milhões.

Qual é o papel da escola nesse universo de desinformação

Além do amplo contato que as crianças pequenas e até bebês possuem com as mídias digitais, o professor Carlos Eduardo Canani ressalta que, cada vez mais cedo, as crianças começam a dar sua opinião de maneira pública, comentar em conteúdos e até produzir vídeos. “Essas mídias são vistas como socialização, o que indica a necessidade de um papel educativo”, diz. “As mídias ajudam a exibir valores e a formar e toda essa leitura precisa ser ensinada também na escola. É importante que a gente não negue essas práticas, mas as utilize, se apropriando da realidade dos estudantes”. O estímulo ao senso crítico para que crianças e jovens possam estabelecer relações e analisar informações, refletir sobre os papéis de emissor e receptor e até mesmo estimular um diálogo respeitoso são alguns dos principais pontos que a escola pode ajudar a desenvolver no processo da Educação midiática.

O resultado da omissão da escola pode ser sério – e não necessariamente levará muito tempo para se concretizar. Ao ignorar esse debate, a escola pode, ainda que de forma não intencional, endossar movimentos que levam à desinformação e uma leitura equivocada de situações, já que esses estudantes vão se tornar cidadãos que por falta de orientação vão se deixar levar por notícias falsas. No Brasil, já há pelo menos um caso registrado que levou à morte de uma mulher porque pessoas acreditaram em uma informação falsa que circulou em redes. “A Educomunicação destaca a importância de os estudantes desenvolverem senso crítico e se apropriarem mais da realidade que os cerca. É desafio da Educação formar cidadãos críticos em um mundo voltado para o virtual”, aponta Carlos Eduardo. Para o professor de Língua Portuguesa, se restringir ao universo da sala de aula sem questionar essas mídias, estar à mercê das informações sem ter ferramentas para fazer uma análise crítica e não saber distinguir fontes confiáveis pode ser até mesmo considerado um retrocesso para as escolas.

Para avançar nesse debate, é necessária oferecer formação aos professores. Em sua experiência acompanhando escolas públicas e privadas, a pesquisadora em comunicação digital Pollyana Ferrari sente que a resistência para trabalhar com o tema ainda é grande. “Já ouvi: ‘Ah, mas como assim, sair das bolhas, ir até os fatos e ser crítico em relação às redes sociais? A gente tem que trabalhar o lúdico com a criança”, relata. Ela esclarece que o lúdico é importante na Educação, sim, mas são coisas completamente diferentes. “O lúdico é ótimo, eu concordo. Mas além disso, as crianças e adolescentes precisam interpretar fatos e fazer um uso de redes sociais crítico”, afirma. Os educadores precisam se sentir confortáveis para trabalhar o tema, o que só acontece quando há domínio sobre o conteúdo. Inevitavelmente, o mundo digital precisa estar no horizonte do professor.

Textos literários como os de autoria de José de Alencar ou Machado de Assis, geralmente estudados nas escolas e cobrados no vestibular até podem ser fontes para checar informações sobre a época e local em que a história se passa, verificando o que é realidade e o que é ficção na obra. “Mas não é isso que deixará os alunos estimulados a fazer leituras críticas. O estímulo para crianças e adolescentes vai estar nos blogs, redes sociais e memes que estão circulando. Precisamos fazer Educação midiática a partir deles”, diz Pollyana.

Fonte: https://novaescola.org.br/conteudo/12307/guia-de-letramento-midiatico-o-que-e-como-aplicar-e-identificar-desinformacao

A política como picadeiro do caos

Se até há pouco tempo a política necessitava de programas, propostas e árduo convencimento de parcela da população em torno de um denominador comum, hoje, ao que parece, tudo isso é dispensável. A política passou a ser disputada com regras que escapam ao debate público e reina à revelia nos extremos, onde o diálogo é asfixiado. A política tornou-se binária e alimenta-se de inimigos paridos por tramas conspiratórias e fake news, servindo-se das redes sociais para lastrear impiedosamente difamações, medos e absurdos que implodem, a um só golpe, a coerência, a lógica e os fatos.

As mídias sociais foram transformadas em um poderoso instrumento no jogo político, a ponto de colocar em risco a forma clássica de fazer política, além de ameaçar as estruturas da democracia e disseminar o caos. O que importa são as emoções despertadas nas pessoas, preferencialmente aquelas que tocam no ressentimento e no estoque de raiva que diariamente são desaguados nas redes sociais a espiar os culpados dos problemas que afetam o mundo.

A política passou a trabalhar com farto material até então pouco manifesto: a cólera das pessoas. Não se esperam mais análises cuidadosas dos políticos a esboçar diagnósticos dos problemas que afetam a vida das pessoas com o objetivo de oferecer prognósticos em tempo de eleição. Não importam as pautas políticas, os problemas a serem resolvidos, mas, sim, encontrar culpados e queimá-los vivos na fogueira digital dos novos e impiedosos inquisidores. Basta ofertar a imagem do inimigo numa postagem acrescida de “Basta!”, “Você irá se chocar!”, “Vergonhoso!” “Compartilhe!” “Vamos chegar a um milhão de compartilhamentos!”. Isso é o bastante para recrutar uma legião de seguidores rasos no pensamento e na crítica.

A política do convencimento deu lugar à política do engajamento. Trilhada por algoritmos, a mensagem que chega ao cidadão digital não apenas reforça-lhe a convicção, como também acirra-lhe com uma dose generosa de raiva pelo estado da arte das coisas, incentivando o compartilhamento, mesmo que o conteúdo seja falso.

O rancor, que antes era analógico, limitava-se ao âmbito de relações interpessoais, em grupos limitados. Hoje, esse sentimento é disseminado de forma digital, transformando os temas políticos em trincheiras que reforçam a animosidade e maculam qualquer tentativa de diálogo ou de consenso. A velha política partidária ficou no pretérito assim como as antigas videolocadoras. É o reinado da política na era da Netflix.

Os partidos cederam aos algoritmos. Agora, o cidadão carrega no bolso um aparelhinho conectado às verdades que explicam de forma simplificada a complexidade do mundo. Empoderado, ele dispensa os especialistas, ludibria dados e estatísticas. Potencializa seu ceticismo na ciência e compartilha com os seus, a exemplo do que ocorreu na Itália, que certos governos patrocinam a aviação comercial mundial com o objetivo de espalhar agentes químicos e biológicos na atmosfera. E para reforçar a veracidade do que afirma, envia uma foto com rastros brancos deixados nos céus por essas aeronaves a serviço dos inimigos que combate.

A nova política está encapsulada nas mídias sociais, nos seus novos atores, desde youtubers indignados que multiplicam a audiência de suas teorias excêntricas a outros tantos que revolvem e instigam a raiva coletiva, conseguindo, aos poucos, alastrar uma epidemia colérica alimentada virtualmente.

Na política dos algoritmos, os elementos centrais da democracia como a formação de consensos, o debate autêntico e o respeito ao contraditório, estão ameaçados. Prospera-se a desintegração e a desintermediação em todos os domínios, transformando a política em picadeiro do caos, em que vale vociferar o ódio, a raiva e o ressentimento, menos, é claro, o bom senso.

(Artigo publicado na Folha de Londrina, edição de 25 e 26 de janeiro de 2020)

Desinformação e intolerância religiosa

Desde 2008 é comemorado no Brasil o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa no dia 21 de janeiro, data estabelecida por uma lei de dezembro de 2007 em razão do falecimento de Mãe Gilda, vítima da intolerância no ano 2000.

Busto da ialorixá Mãe Gilda foi inaugurado no dia 28 de novembro de 2014

Este dia tem recebido cada vez maior visibilidade com a adesão de variados grupos e entidades de todo o país que têm organizado seminários, atos públicos e celebrações com o objetivo de afirmar a importância do respeito à diversidade religiosa e denunciar a intolerância.

O segmento religioso que mais sofre, tanto quantitativamente como qualitativamente, os efeitos da intolerância e da violência religiosa no Brasil são os fiéis das religiões afro-brasileiras. Apesar de possuírem pequeno percentual de seguidores, se destacam em virtude do volume e da violência que são alvo envolvendo a questão religiosa.

O segundo grupo que mais aparece são os evangélicos, sendo que católicos, a maioria, só aparece na terceira posição. Aqui é importante sublinhar que a intolerância religiosa não caminha sozinha, ela acontece em meio a outros preconceitos e envolve questões relacionadas tanto à desigualdade social como ao racismo, entre outros.

Um panorama mais completo destes dados pode ser encontrado no Relatório sobre Intolerância e Violência Religiosa (RIVIR) que reuniu dados coletados de um amplo conjunto de fontes abrangendo o período de 2011 a 2015. Em 2018 foi publicado um livro fruto de seminário realizado na OAB-SP, em que análises e comentários a este relatório foram apresentados.

Quando penso em desinformação e intolerância religiosa, penso que um primeiro engano que tem sido propagado é associar essa situação a um grupo específico. Infelizmente a intolerância religiosa no Brasil é ampla e irrestrita, atinge de forma mais recorrente e agressiva ao povo de santo, é fato, porém também está presente em locais de outras religiões e atinge a pessoas sem religião. A violação de locais sagrados, por exemplo, é uma realidade que chega aos terreiros, mas que também acomete igrejas católicas, mesquitas, sinagogas ou ainda se dá por meio da destruição de objetos sagrados, imagens e bíblias.

Os dados indicam que geralmente há proximidade entre vítimas e agressores, boa parte dos casos envolvem familiares ou vizinhos e a residência é o local mais relatado como sendo onde ocorreu a intolerância ou violência. Também é importante lembrar que boa parte destes episódios estão associados a outras situações, envolvendo questões financeiras e patrimoniais, homofobia e racismo. A discriminação religiosa parece ocorrer em boa parte das vezes em meio a outras situações que exigem importante investimento no estabelecimento de mais espaços de diálogo e mediação, por um lado, mas também pelo enfrentamento de grandes desafios que perpassam a realidade brasileira há tanto tempo como no caso do racismo estrutural.

Depois da casa e da rua, o terceiro local em que a intolerância religiosa acontece é o espaço escolar. Em torno de 10% das violações relacionadas à intolerância religiosa acontecem na escola. É fundamental o desenvolvimento de ações e atividades que enfrentem esta discriminação que ocorre com tanta recorrência em um local que visa a formação e que deveria ser um espaço seguro para que as pessoas, geralmente crianças, assumissem suas convicções e desejos, sejam estes religiosos ou em tantos outros campos possíveis e pensados.

É curioso lembrar de Voltaire em seu “Tratado sobre a Tolerância por ocasião da morte de Jean Calas” de 1762. A história é de um absurdo sem precedentes. Pai, mãe e irmãos protestantes são acusados de assassinar seu filho por este ser católico. O argumento de Voltaire é que tudo leva a crer que tenha sido um suicídio não revelado pela família, pois se assim fizessem teriam implicações bastante severas tanto para o corpo como para “o espírito” conforme às crenças da época. Diante da opção por não se propalar o suicídio, o júri assume então uma postura de que teria havido o assassinato da vítima pelos parentes motivados pelo fato de possuírem uma religião distinta. Ao deliberarem pela culpa do pai com base nesta compreensão, Voltaire assume a defesa do caso afirmando revolta diante desta lógica:

Atualmente, em alguns outros países, prefere-se dizer: “Crê, ou te odiarei; crê, ou te farei todo o mal que estiver ao meu alcance; monstro, se não tens minha religião, então não tens religião nenhuma; terás de ser um motivo de horror para teus vizinhos, tua cidade e tua província”.

O direito da intolerância é, portanto, absurdo e bárbaro; é o direito dos tigres, sendo bem mais horrível também, porque os tigres dilaceram suas presas para comer, enquanto nós nos exterminamos por causa de alguns parágrafos.

Um ponto importante a sublinhar na posição de Voltaire em relação à intolerância, passa por sua compreensão que não seria uma explicação razoável ter ocorrido o assassinato por divergências religiosas, perspectiva que parece ter cegado os que deveriam julgar, pois estes possuíam a mesma religião da vítima num ambiente de longos conflitos e onde circulava, segundo Voltaire, um certo fanatismo católico.

Inclusive, para alguns esta poderia ter sido a razão que o levou a se interessar pelo caso: enfrentar o fanatismo religioso presente no julgamento feito pelo Parlamento de Toulose. Daí a afirmação do autor de não ser razoável um “Direito à Intolerância”, não poderia ser esta uma motivação. Não caberia dentro da humanidade a negação à diferença religiosa, além dos elementos técnicos que ele identifica na sustentação do caso e que não evitaram a morte de Calas, mas que resultaram na absolvição de sua mulher e outros filhos.

A historiadora Lynn Hunt em seu livro A invenção dos Direitos Humanos relata que esse foi uns dos primeiros casos em que ocorreu o uso da expressão “Direito Humano” como hoje ele é entendido. A compreensão de que o Estado é laico foi fundamental para mostrar à sociedade a possibilidade de se viver na diferença. A liberdade de religiões e crenças representa um valor compartilhado por todos e ao se defender que pessoas com diferentes religiões e sem religião possam viver em um mesmo espaço, ao mesmo tempo, demonstra que não há motivos para que diferenças de comportamento ou de opiniões sejam impedimento para a convivência social.

Hunt comenta que há diferenças entre a primeira versão do texto de 1762 e uma segunda versão de 1766. Na primeira versão não há menção às torturas sofridas por Calas, tratadas apenas como “as questões” sofridas por ele. Naquela época eram utilizadas de forma recorrente as técnicas elaboradas no seio da Inquisição. Calas foi submetido a bárbara “tortura judicial”, à qual visava a sua confissão e a delação de seus cúmplices. Por todo o processo ele declarou inocência e afirmou que “não havendo crime, não havia cúmplices”. As torturas o levaram à morte por meio de estrangulamento e condenação ao suplício da roda. Seu corpo foi lançado numa fogueira em praça pública para suas cinzas serem espalhadas pelo vento.

Mesmo diante de todas estas informações e conhecendo esta dinâmica, incomodou inicialmente à Voltaire somente a negação da liberdade religiosa, enquanto um princípio e definidor de uma lógica conforme a interpretação dos juízes. Somente depois é que a tortura também foi denunciada e percebida como uma questão para ele, como um elemento de violação do Direito Humano. Em 1769 Voltaire incluiu o verbete “Tortura” em seu Dicionário Filosófico.

Precisamos aprender desta experiência de Voltaire: o incômodo diante da intolerância religiosa, a repulsa e certeza da necessidade do respeito à diversidade de religião e crença, a defesa inegociável da liberdade religiosa não pode nos fazer deixar de perceber ou mesmo ignorar as gritantes questões relacionadas aos diferentes tipos de violências tão presentes neste tipo de violação. A forte desigualdade social vigente no país, um dos mais desiguais do mundo; o racismo; os preconceitos envolvendo à população LGBTQI; envolvendo as mulheres, o capacitismo, ou ainda os preconceitos relacionados à idade ou a origem geográfica, também estão presentes nos casos de intolerância religiosa. Infelizmente parece que preconceitos e discriminações nunca caminham sozinhos, acontecem sempre em meio a um amargo conjunto de violências e agressões físicas e psicológicas.

Nesse triste caldo que tanto dialoga com a intolerância religiosa, uma das questões centrais no Brasil é o racismo, preconceito e discriminação sofridas por negros e negras. Não é ao acaso que são exatamente as religiões afro-brasileiras que mais sofrem com a intolerância religiosa, algumas de suas lideranças chegam a falar em “racismo religioso” e efetivamente há um componente importante relacionado à cor da pele neste assunto, situação que acaba por levar os evangélicos, grupo mais presente quantitativamente entre os mais pobres, entre negros e negras e entre as mulheres, como o segundo grupo que mais sofre com a intolerância religiosa no Brasil.

A defesa da liberdade de religião e crença não pode prescindir do enfretamento ao racismo e à desigualdade social. Qualquer política pública ou discurso que ignore esses elementos desempenhará o papel de desinformação em relação ao tema.

O enfrentamento à intolerância religiosa nos exige estar ao lado dos mais pobres, junto aos subalternizados, especialmente afro descendentes e indígenas. Enfrentar à intolerância religiosa passa pela defesa de políticas públicas voltadas para os mais pobres, passa por defender que estes tenham garantido o seu direito à voz e visibilidade tanto pelo Estado, como também pela imprensa e pela sociedade civil.

Que a cada dia 21 de janeiro o Brasil possa presenciar mais e mais pessoas que defendam a liberdade de religião e crença e que não sejam insensíveis diante de uma complexa situação que envolve não só a defesa dos Direitos Fundamentais, mas também a defesa dos Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais. Falar de combate à intolerância religiosa é falar também de enfrentamento ao racismo, da diminuição da desigualdade social e de defesa da população LGBTQI. É falar sobre a possibilidade de efetiva sobrevivência de grupos subalternos que têm vários de seus direitos diariamente violados e cerceados, tanto aqueles relacionados às suas crenças, como também aqueles que implicam diretamente em sua sobrevivência física.

As ações de epistemícidio que perpassam à intolerância religiosa estão eivadas de ações que envolvem agressões físicas e homicídios. As ações relacionadas a este dia que não considerarem esses aspectos representarão mais desinformação em uma época tão carente de práticas e informações qualificadas.

Thomas Friedman e a desinformação da “burrice”

Thomas Friedman não quer analisar nada, é pura guerra de propaganda, disputa pelo controle da narrativa e a apresentação de ‘estórias’ embaladas por preconceitos supostamente sofisticados de quem o lê”, escreve Bruno Lima Rocha, pós-doutorando em economia política, doutor e mestre em ciência política e professor nos cursos de relações internacionais, jornalismo e direito.

Eis o artigo. 

Diariamente somos surpreendidos pelo exagero na prepotência e na capacidade de desinformar, fazer circular ideias equivocadas, enfim, “mentir com algum estilo”. A estas técnicas de manipulação de audiências massivas – embora circular e muitas vezes temporária – o Império e seus aliados vêm denominando de “disputa narrativa ou disputa pelo controle da narrativa”. Como em todas as guerras, a primeira vítima é a verdade, na guerra híbrida de 4ª geração o padrão é o mesmo. Vejamos um exemplo de inversão de prioridades e denominações pejorativas para fazer valer uma tese falsa, onde quem reage agride e quem agride se torna apenas “preventivo”.

No dia 03 de janeiro de 2020 ainda antes da resposta iraniana ao ato terrorista autorizado pelo presidente do Império Donald Trump, o célebre articulista e ex-editor do New York Times, Thomas Friedman, produziu um artigo de opinião que correu o mundo ocidentalizado. O título em inglês é “Trump kills Iran’s most overrated warrior”. E a linha de apoio afirma. “Soleimani pushed his country to build na empire, but drove it into the ground instead”.

 (Gráfico: IANS Graphics)

Em nosso país, o texto do autor da infame ode à mundialização capitalista, o best-seller neoliberal “O mundo é plano” (editado no Brasil em 2005), foi traduzido e publicado (postado) no jornal Folha de São Paulo e depois reproduzido em diversas publicações na internet. O Principal veículo da família Frias fez circular a ideia de Friedman – o Thomas, que propagandeia também o Milton, mesmo que de forma dissimulada – ao afirmar a “burrice” iraniana. O título em português é “General iraniano morto em ataque americano era burro e superestimado”. (Acesse aqui). 

Quando Friedman se refere ao major-general Qassem Soleimani (1957-2020), refere-se ao Estado persa, considerando que o militar assassinado por ordem de Trump se reportava diretamente ao Líder Supremo, o Grande Aiatolá Ali, logo se trata do mais alto nível decisório do país. Para ele, Thomas, o Irã seria “burro” porque não seguiu aproveitando o bom momento de crescimento econômico advindo das negociações multilaterais coordenadas pela ONU. Nestas a administração Barack Hussein Obama – com John Kerry à frente do Departamento de Estado – aliviaram uma parcela importante das sanções e do bloqueio econômico. As negociações para controle da pesquisa atômica se deram em 2015 – com a participação intensa da diplomacia brasileira à época – implicando em um crescimento econômico de 12% em 2016.

A “burrice” seria não seguir o boom de sua própria economia com mediana complexidade e se “aventurar” a ampliar a atuação na política regional no Oriente Médio. Para Thomas Friedman, ser “inteligente” é ficar “bem comportado”, de maneira quieta, acatando a hegemonia fática de Arábia Saudita e Israel, e não participando de conflitos onde operam seus principais aliados. Enfim, a “esperteza” seria entregar o xiismo ampliado à própria sorte, incluindo a relação com o Hezbollah na defesa da soberania nacional libanesa. “Inteligência” poderia ser ajudar a entregar a Palestina às traições da Autoridade “Nacional”, o cerco à Gaza e a ocupação da maior parte da Cisjordânia, incluindo o roubo de terras e valiosos recursos hídricos. “Sagaz”, para Friedman, seria portar-se como Egito após a traição de Camp David ou quiçá como os hachemitas do Reino da Jordânia, inventado pelos ingleses.

Poucas vezes li algo tão cínico, menosprezando tanto as capacidades do Estado persa como superestimando os países “ocidentais”, dentre os quais Israel se inclui sem sê-lo. De maneira alguma estou “defendendo” o Irã dos aiatolás de forma incondicional. Sou crítico – muito crítico por sinal – de sua política doméstica assim como me oponho à relação com a maioria sunita na Síria. A defesa da democracia política, das liberdades religiosas, da equidade de gênero, do federalismo étnico-cultural e de uma economia com base cooperativa rumando a um modelo socialista adequado ao Oriente Médio não encontra eco no cinismo de Thomas Friedman.

Eu insisto se fosse uma crítica humanista com honestidade intelectual, deveria separar os níveis de análise. A defesa da democracia social no Irã não nos impede de entender alguns acertos de sua política externa. Queria ver um Irã de plenos direitos para homens e mulheres, sunitas e xiitas, persas, árabes, azeris, balochis e curdos. Só não quero ver um Irã destruído pelos gringos e nem com um governo fantoche da Casa Branca.

O articulista do New York Times compara o Irã com uma força imperial na região. Em parte sim, Teerã exerce projeção de poder, mas essa é a norma das relações internacionais e não a exceção. Em termos gerais, o autor do livro “De Beirute a Jerusalém” (editado em 1989, facilmente encontrado em português) critica a única das quatro potências regionais (IsraelArábia SauditaTurquia e Irã) que enfrenta diretamente os cruzados ocidentais e não adere de forma completa aos russo-bizantinos.

Logo, a “burrice” dita por Thomas Friedman é a vontade soberana de exercer relações exteriores por parte de um país independente com assento na Assembleia Geral da ONU. Ou o ex-editor do jornal mais prestigiado dos EUA também considera que países independentes e com vontade própria sejam “burros”, devendo os povos do mundo se resignar a condições subalternas de capitalismo periférico?! Inteligente é a adesão ao imperialismo dos Estados Unidos ou quem sabe, à projeção de poder imperial de China é Rússia?! Foi “burrice” a independência da Argélia através de sua guerra de libertação? É uma “estupidez” lutar pelos direitos inalienáveis de cerca de sete milhões de palestinos vivendo sob o cerco, ocupação militar e apartheid impostos pelo Estado de Israel sendo estes últimos também financiados por Washington? Foi a “ameaçadora” presença do Irã no Líbano e na Síria que “forçou” Israel a influenciar o governo do Império e mudar sua política na região? O argumento absurdo contido no texto é esse.

Será que Thomas Friedman considera uma “burrice” do Reino do Qatar a afirmação de sua política externa independente, coordenando esforços comerciais e produtivos tanto com o Irã como com a Turquia? Seria pelo “raciocínio” do colunista um “despropósito” a existência de um conglomerado de comunicação de altíssima qualidade como a Al Jazeera?

Pela “lógica” de Friedman, a luta Federalista e Socialista do Curdistão é outra “estupidez” já que para tal a esquerda curda precisa enfrentar ao menos duas potências regionais simultaneamente. Poderia seguir em exemplos diversos desta caricatura de análise, mas creio já haver atingido o objetivo.

Thomas Friedman não quer analisar nada, é pura guerra de propaganda, disputa pelo controle da narrativa e a apresentação de “estórias” embaladas por preconceitos supostamente sofisticados de quem o lê. A grande “burrice” de Thomas Friedman é superestimar suas próprias versões, as quais se forem verdadeiras, são simplesmente “vazamentos” combinados de relatórios de inteligência. Melhore seu desempenho senhor colunista do Império, porque essa desinformação forçosa não emplacou.

A primeira versão deste artigo foi originalmente publicada no Monitor do Oriente.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/595661-thomas-friedman-e-a-desinformacao-da-burrice

Vale da sombra da arte: tensão como potência comunicadora

A arte, um tema bastante teorizado mas pouco discutido em suas interrelações com outras áreas, alimenta a imaginação de quem desconhece seus procedimentos. Na fantasia atual é comum que os personagens artistas assumam a posição clichê da loucura e idealização, em que suas produções não visam o ganho monetário. A arte contemporânea costuma ser, no período em que ocorre, tão malvista pelo público leigo (e conservador) que poucos se esforçam por compreender seus motivos. No entanto, este cenário pessimista que envolveu o fazer artístico apenas reflete o quanto a arte, por si, não recebe o seu devido mérito enquanto prática humana.

Ilustração de Elissa Grabriela

Ao visualizarmos a “Noite estrelada” pintada pelo holandês Vincent Van Gogh, ou a tela “Operários” de Tarsila do Amaral, e até mesmo quando escutamos a Nona Sonata de Beethoven, dificilmente associamos tais obras a pessoas ordinárias. Tampouco imaginamos que a arte, como potencial criativo e criador, esteja presente em todos e todas, não se reduzindo ao seu espectro habitual.

“Noite estrelada” – Vincent Van Gogh

Fayga Ostrower, artista e teórica da arte, escreveu em sua obra Criatividade e Processos de Criação (2014) que “a criatividade, como a entendemos, implica uma força crescente” (p. 27). Presente na humanidade, esta força serve como uma energia propulsora consciente que conduz à ação, logo, à criação.

Do ponto de vista teológico poderíamos questionar se este processo não seria, na realidade, uma subcriação, dado que só a Deus podemos conferir o poder verdadeiramente criador. No entanto, deixemos esta dúvida na mente de nossa leitora e de nosso leitor.

No horizonte psíquico temos uma tensão constante que nos impede de parar de fazer algo, de produzir, de agir. A humanidade, desde sua natureza, é um ser produtor: de ideias, de família, de pinturas, de textos, de trabalho, de sociedade… Esse “fazimento” é um processo criativo portador de arte. Se transformássemos a história humana em uma grande obra artística (pintura, escultura, música, livro, ilustração, filme ou outra produção), não veríamos outra coisa além da arte em si, traduzida na obra humana.

Essa mesma tensão psíquica pode estimular processos não-criativos que fundamentam a raiva, por exemplo, gerando em muitos casos a violência. Com isso, queremos dizer que a força-motriz que os artistas utilizam para pintar, esculpir, escrever, compor, filmar, arquitetar, construir, projetar, cozinhar etc., é também a mesma energia que muitos e muitas se servem para fertilizar a raiva, ciúme, orgulho e impiedade.

Diante deste desafio existencial a questão que nos surge é: o que os artistas utilizam para transformar essa tensão psíquica em um potencial criador? A resposta reside na sensibilidade. Logo, o que implica se abrir para a vulnerabilidade do si mesmo?

Fayga Ostrower explica que a tensão psíquica pode e deve ser elaborada.

Nos processos criativos o essencial é poder concentrar-se e manter a tensão psíquica, e não simplesmente descarregá-la. Embora exista no ato criador uma descarga emocional, ela representa um momento de libertação de energias que é necessário, mas de somenos importância do que certos teóricos talvez o acreditem ser. Mais fundamental e gratificante, sobretudo para o indivíduo que está criando, é o sentimento concomitante de reestruturação, de enriquecimento da própria produtividade, de maior amplitude do ser, que se libera no ato de criar (2014, p. 28).

O que a autora esclarece é que qualquer processo criativo exige uma força interna que move o indivíduo àquela ação e, mais do que isso, nenhum processo se reduz a uma mera vazão de emoções. Ele possui dois movimentos, de ida e de volta. Ao mesmo tempo em que criamos algo, também aprendemos, também sentimos, como se o produto de nossas intenções, naquele instante, se comunicasse conosco.

Fazer arte não é apenas um recurso expressivo, mas comunicativo em vários níveis: artista-espectador; artista-produto; artista-produto-espectador. Estes três planos se reorganizam continuamente enquanto a comunicação ocorre e a tensão psíquica se converte em linguagem, em beleza, em criação, em expressão humana. Contudo, a autora também alerta que a possível descarga emocional que possa aparecer no processo criativo é menos relevante que o valor humano que a obra gera nesta articulação artística, que é criativa e recursiva, além de promotora da amplitude do próprio indivíduo que cria, bem como daquela ou daquele que assiste o processo criativo ou vê o produto acabado.

Retornando à questão maior acerca da sensibilidade, algumas pistas já foram apresentadas. Qualquer criação humana envolve abertura de si. É preciso entender, de antemão, que algumas concepções podem ser desconstruídas para que novas ideias sejam formadas. Um processo criativo que não transforma o criador deixa de ser arte para ser terapia, isto é, uma vazão de sentimentos sem o menor controle deles. O valor da arte consiste, precisamente, na “intensificação do viver” (OSTROWER, 2014, p. 28), sem a qual, nos tornamos meros autômatos, talvez marionetes de nossos conflitos mentais. O conflito não é o problema, ele é um recurso para o próprio crescimento durante o processo, e a sensibilidade requer uma consciência disposta a perceber os fenômenos que se tornam aparentes no criar. Muitas vezes o conflito se torna uma predisposição para a abertura, requisito para a ação do plano sensível da criação.

Essa sensibilidade é a condição maior do fazer artístico que tem como efeito colateral o se tornar vulnerável ao próprio mundo por meio de sua obra. Não é possível se abrir sem ser afetada ou afetado pelo que se produz. Esta situação nos conduz a uma outra perspectiva, inclusive, do próprio fazer teológico, por meio do qual percebemos o pensar sobre Deus como uma via racional e de mão única. Contudo, analisando do ponto de vista do ser humano que também cria (ou subcria?), a Teologia requer uma enorme sensibilidade para se permitir ser transformada pela própria fé do indivíduo que crê, portanto, que pensa e sente. Caso contrário, ela também se reduzirá a uma vazão de pensamentos desconexos sobre uma compreensão equivocada do que seria o próprio Deus.

Dessa maneira, a arte também dialoga intimamente com a Teologia desde a base existencial de uma humanidade que, inserida no mundo, é responsabilizada por transformá-lo e nomear este processo criativo de “viver”.

Quando não houve fake news?

A antropologia contemporânea nos dá conta de que a principal diferença entre o homosapiens e os demais hominídeos tem a ver, sobretudo, com o desenvolvimento da nossa linguagem. Os neandertais, por exemplo, possuíam linguagem, mas se comparada com a nossa, era extremamente simples e sem capacidade de grandes detalhamentos.

Desde há muito se sabe que através da linguagem também se pensa. Ela enriquece o pensamento, e o pensamento se expressa cada vez melhor por meio dela. Nesse caso, estamos a falar de vários tipos de linguagem, da comunicação oral à linguagem matemática ou musical.

Mas o que fez o homosapiens levar vantagem sobre os outros concorrentes?

A capacidade de dissimular de forma mais sofisticada a linguagem que possuía.

Assim, desde os primórdios, informação e desinformação caminham juntas no processo civilizatório. A própria Bíblia inicia sua narrativa de natureza antropológica (Gênesis 3), com um choque entre a informação divina e a contra informação do ente arquetípico representado pela serpente. Daí em diante, a narrativa da Escritura nos põe frente a frente com a guerra ininterrupta entre a tentativa de informar com realidade e a busca de mudar, alterar ou falsificar a história em questão.

Os evangelhos nos mostram esse mesmo embate em todas as suas histórias e em encontros humanos. Esse processo de informação e contra informação atinge o seu clímax na crucificação. Afinal, Jesus foi morto na vitória das Fakes News, patrocinadas especialmente pelas autoridades religiosas. E como se não bastasse as corrupções do processo histórico, continuaram arquitetando Fake News quando souberam que a tumba de Jesus estava vazia. Mesmo diante das evidências de que o crucificado havia ressuscitado, os religiosos ordenaram que fosse divulgado que os próprios discípulos haviam roubado o corpo de seu mestre da tumba, para que as pessoas acreditassem que, de fato, tinha ressuscitado dentre os mortos.

Hoje, a diferença é que não se tenta criar nenhuma versão elaborada que venha competir com a verdade, basta que se diga o que deseja inventar e divulgue o que se pretende fazer passar por informação perversa. Portanto, não há mais necessidade de grandes dissimulações para camuflar falsificações. Já não há demanda pela verdade. A mente da maioria faz ser verdade apenas a loucura que prefere. A verdade como fato-realidade-observável morreu, tornando-se cada vez mais uma questão do que seja preferível.

“Não dirás falso testemunho” Êxodo 20.16

Pentecostalismos e participação política: implicações do caso “Bonde de Jesus”

O jornal Folha de São Paulo reproduziu na última quinta, 12, a matéria do Washington Post“Neopentecostais armados atormentam minorias religiosas brasileiras” – que denuncia a existência de uma quadrilha de cristãos evangélicos extremistas, chamada “Bonde de Jesus”, na comunidade pobre de Parque Paulista, no município de Duque de Caxias. A quadrilha dava conta de ações de ataque a terreiros de matriz africana. As implicações desse caso vão além da intolerância religiosa, elas descortinam aspectos ligados à própria formação do pentecostalismo e do neopentecostalismo.

A atuação dos movimentos pentecostais, que inclui a participação dos neopentecostais, envolve muito mais que o uso da linguagem, da experiência de culto e do carismatismo. Os muitos pentecostalismos têm desenvolvido discursos e práticas relativas às questões sociais que os segmentos mais progressistas não se deram conta: pautas morais, como rejeição ao aborto e uniões homoafetivas, a demonização do espiritismo e da religiosidade afro-brasileira, além de práticas mercadológicas e comunicacionais.

Há um tipo de pentecostalismo com maior penetração entre jovens de classe média, e há um movimento pentecostal com melhor adesão nas comunidades mais carentes. Esses movimentos não se misturam. Andando pelas periferias dos grandes centros, constata-se, sem muita dificuldade, que o pentecostalismo conquistou mais fiéis do que as Comunidades Eclesiais de Base, da Teologia da Libertação, ou qualquer outro segmento religioso.

O cristianismo, de um modo geral, tem se tornado mais carismatizado e mais pentecostalizado. A presença pentecostal é uma marca desse tempo. É um movimento que tem sua origem nos grupos cristãos pertencentes a igrejas protestantes históricas dos Estados Unidos, que buscavam uma renovação espiritual no final do século XIX e começo do século XX. A ênfase era desvendar a obra do Espírito Santo e aprofundar essa experiência a partir da manifestação do falar em línguas estranhas, semelhante ao episódio ocorrido entre os primeiros cristãos e narrado no livro de Atos dos Apóstolos. Esse episódio ocorreu no dia de Pentecostes, uma data do calendário judaico.

A primeira experiência pública dessa manifestação aconteceu historicamente em 1906, na igreja da rua Azusa, em Los Angeles, Estados Unidos. A propagação dessa experiência se deu sob a forma de contágio, na medida em que pessoas que visitavam aquela igreja e recebiam a manifestação do dom de línguas tornavam-se propagadores da mensagem dessa experiência para diversas partes do mundo.

Aquela igreja chamava-se Missão Apostólica da Fé, mas em 1914 passou a se denominar Assembleia de Deus. A Missão da rua Azusa é, por assim dizer, a mãe do movimento pentecostal. O trabalho dessa missão influenciou os principais pregadores que deram início ao movimento pentecostal no Brasil. Primeiramente, com o missionário Louis Francescon, que iniciou a Congregação Cristã do Brasil em São Paulo, em 1910. Depois, com Gunnar Vingren e Daniel Berg, que iniciaram a Assembleia de Deus no Brasil, em 1911, na cidade de Belém do Pará.

Uma das características da religiosidade pentecostal é procurar uma aproximação aos ensinamentos e ao estilo de adoração dos primeiros cristãos, com uma interpretação literal e alegórica da Bíblia. Hoje, o termo pentecostal abrange uma diversidade de grupos e igrejas, diferentes em termos de perspectiva teológica, formas de organização, costumes e liturgias. Trata-se de um movimento descentralizado, sem qualquer controle ou hierarquia, que pode estar presente em qualquer grupo cristão. O mais correto seria nos referirmos a pentecostalismos. O fator comum é a ênfase na experiência do charisma ou dom, recebido como uma experiência de iniciação chamado de batismo do Espírito Santo.

O pentecostalismo é um movimento essencialmente urbano. Outro aspecto relevante é que o movimento pentecostal teve sua origem em igrejas formadas por negros e pessoas de baixa renda, e ganhou maior projeção entre os mais pobres e excluídos da sociedade. Esse fato pode ser observado, inclusive, em sua expansão na América Latina. Também é preciso ressaltar o papel da mulher, que ao longo dos anos tem participado cada vez mais da vida eclesial da igreja, assim como os leigos, embora ainda haja uma resistência ao seu papel como pastora ou pregadora em alguns grupos. Há igrejas neopentecostais lideradas por mulheres, como bispas e apóstolas. Antes, elas eram tratadas apenas como profetizas, missionárias ou líderes de círculo de oração. Hoje, elas ocupam também os púlpitos, o que de início era proibido.

O desenvolvimento do pentecostalismo no Brasil, e de um modo geral na América Latina, pode ser compreendido através de três etapas:

a) O pentecostalismo clássico – de 1911 à década de 1950, com a Congregação Cristã do Brasil e a Assembleia de Deus.

b) O pentecostalismo de segunda geração – por meio da expansão de campanhas de evangelização pelo interior do país, que resultou no surgimento da Igreja do Evangelho Quadrangular e da Igreja Brasil para Cristo. Em 1960, surgem novos grupos, como a Igreja Nova Vida, Deus é Amor e Casa da Bênção.

c) Os neopentecostais – a partir da década de 1970, como a Igreja Universal do Reino de Deus, a Igreja Internacional da Graça e a Igreja Renascer em Cristo.

A expansão dos grupos pentecostais se dá a partir das rupturas internas das igrejas, que se dividem por motivos políticos, doutrinários ou morais, dando lugar a uma infinidade de igrejas autônomas que se espalham por todas as localidades. O movimento pentecostal afetou diretamente a vida das chamadas igrejas protestantes históricas, ao promoverem movimentos de renovação, dando origem a novas igrejas pentecostalizadas ou igrejas renovadas.

Mas, mais do que isso, a participação dos pentecostais na sociedade tem afetado diretamente várias áreas, desde a relação com a criminalidade, interferindo na maneira de tratar ex-criminosos que se convertem, até a definição de candidaturas e de pautas políticas para o país.

Entre os muitos pentecostalismos, inclusive nos neopentecostalismos, há um projeto único de poder que inclui uma forma relativa de entender os Direitos Humanos, de tratar o estado laico com restrições, de suspeitar quanto à dinâmica do Estado Democrático de Direito, de questionar a garantia dos direitos das minorias, principalmente em relação às pautas identitárias, às questões de gênero e direitos reprodutivos, e de intolerância religiosa. Mas, acima de tudo, esse projeto de poder é alinhado aos interesses da direita, com um viés de demonização de qualquer ideologia de esquerda.

A influência desses movimentos se apresenta como uma resposta imediata ao crescimento da miséria provocada pelos muitos regimes de exceção na América Latina. Nesse sentido, adotaram um caráter fundamentalista para oferecer algumas respostas religiosas que permitem, ao menos em curto prazo, uma eficiente superação da crise. Trata-se de um tipo de fundamentalismo religioso que ajuda a enfrentar as incertezas com uma resposta absoluta e de forma imediata. Os pentecostalismos dessa natureza também têm a capacidade de transformar uma experiência de declínio em uma aquisição de poder. Uma crise social ou pessoal se converte em uma experiência religiosa de poder. Os conflitos sociais se projetam como expressões e interferências do sobrenatural, que contrapõem o bem e o mal. A mensagem pentecostal e neopentecostal é de cunho escatológico dispensacionalista, prometendo uma intervenção repentina do poder de Deus diante dos males do mundo.

Podemos afirmar que nos movimentos pentecostal e neopentecostal encontram-se departamentos sociais com interesses econômicos neoliberais e com um programa político de incorporação do Brasil e da América Latina à cultura norte-americana. Nesse sentido, esses movimentos, juntamente com o fundamentalismo evangélico que está presente nas igrejas protestantes históricas, é ao mesmo tempo cúmplice de exploradores e explorados, de dominadores e despojados, das elites e da pobreza. Por isso, o ecumenismo, que se mostra impossível em termos eclesiológicos e doutrinais, torna-se viável diante desse projeto de poder. São superadas, paulatinamente, as velhas fronteiras confessionais, de forma que os movimentos se juntam para polarizar em um ecumenismo do poder e um projeto político de controle da vida. O resultado é que a maioria dos fieis desse segmento votou a favor da ultradireita nas eleições de 2018.

A vantagem da imperfeição

Em tempos de risco à nossa liberdade é fundamental pensarmos na sua importância. Nascemos completos, mas imperfeitos. Não possuímos nenhum órgão especializado, como a maioria dos animais. Para sobreviver, temos que trabalhar e intervir na natureza. Os mitos esclarecem esta situação.

Os indígenas guaicuru, do Mato Grosso do Sul, perguntaram-se o porquê da imperfeição e do alto significado da liberdade. Demoraram longo tempo para chegar a uma resposta. A explicação veio pelo seguinte mito, portador de verdade.

O Grande Espírito criou todos os seres, e colocou grande cuidado na criação dos humanos. Cada grupo recebeu uma habilidade especial para sobreviver sem maiores dificuldades. A alguns deu a arte de cultivar a mandioca e o algodão, deste modo, podiam se alimentar e vestir. A outros deu a habilidade de fazer canoas leves e o timbó, desta forma, podiam se locomover rapidamente e pescar.

Assim fez com todos os grupos humanos na medida em que se distribuíam pelo mundo, mas com os guaicuru não aconteceu de igual modo. Quando quiseram sair para as vastas terras, o Grande Espírito não lhes conferiu nenhuma habilidade. Esperaram, suplicando por muito tempo e nada lhes foi comunicado. Mesmo assim resolveram partir. Sentiram muita dificuldade em sobreviver e logo resolveram procurar intermediários do Grande Espírito para receber uma habilidade.

Primeiro, dirigiram-se ao vento, que soprava aos quatro cantos: “Tio vento, tu que sopras pelas campinas, sacodes as matas e passas por cima das montanhas, venha nos socorrer”. Mas o vento que sacudia as folhas sequer ouviu o pedido dos guaicuru. Em seguida, se voltaram para o relâmpago, que estremece toda a terra. “Tio relâmpago, você que é parecido com o Grande Espírito, ajude-nos”. Mas o relâmpago passou tão rápido que sequer escutou o pedido deles. Suplicaram às árvores mais altas, aos cumes das montanhas, às águas correntes dos rios: “Meus irmãos, intercedam por nós junto ao Grande Espírito para não morrermos de fome”, mas nada acontecia.

Desesperados, vagavam por várias paragens, até que pararam debaixo do ninho de um gavião-real. Este, ouvindo seus lamentos, resolveu intervir e disse: “Vocês, guaicuru, estão todos errados e são uns grandes bobos”.

“Como assim?”, responderam juntos. “O Grande Espírito se esqueceu de nós. Você que deve ser feliz, recebeu o dom de um olhar penetrante e consegue até perceber um ratinho na boca da toca e caçá-lo”.

“Vocês não entenderam nada da lição do Grande Espírito”, retrucou o gavião-real. “A habilidade que Ele lhes deu está acima de todas as outras. Ele vos deu a liberdade. Com ela vocês podem fazer o que desejarem.”

Os guaicuru ficaram perplexos e cheios de curiosidade. Pediram ao gavião-real que lhes explicasse melhor esta curiosa habilidade. Ele, cheio de garbo, esclareceu: “Vocês podem caçar, pescar, construir malocas, fazer belas flechas, pintar os corpos, os potes, viajar para outros lugares e até decidir o que querem de bom para vocês e para a própria natureza”.

Os guaicuru se encheram de alegria e diziam uns aos outros: “Que bobos nós fomos, pois nunca discutimos juntos a vantagem de sermos imperfeitos. O Grande Espírito nunca se esqueceu de nós. Deu-nos a melhor habilidade, de não estarmos presos a nada, mas de podermos inventar coisas novas, sabendo das vantagens de nossa imperfeição“.

O cacique guaicuru perguntou ao gavião-real: “Posso experimentar a liberdade?”. “Pode”, respondeu o gavião. O cacique tomou uma flecha e derrubou do alto de uma jaqueira uma grande fruta. E todos se deliciaram.

Desde aquele momento os guaicuru exerceram a liberdade. Tornaram-se grandes cavaleiros e nunca puderam ser submetidos por nenhum outro povo. A liberdade os conduzia a novas formas de se defender e garantir a melhor habilidade dada pelo Grande Espírito.

Os mitos nos inspiram grandes lições, especialmente nos dias atuais, quando forças poderosas, nacionais e internacionais, nos querem submeter, limitar e até tirar nossa liberdade. Devemos ser como os guaicuru: saber defender o maior dom que temos, a liberdade. Devemos resistir, nos indignar e nos rebelar, pois só assim faremos o nosso próprio caminho como nação soberana e altiva. E jamais aceitarmos que nos imponham o medo, ou que roubem a nossa liberdade.

Ao encontro da verdade sobre gravidez precoce: o problema social que não pode escolher esperar

Há poucos dias, precisamente em 06.12.2019, tomamos conhecimento e nos indignamos com mais um desserviço do Ministério de Direitos Humanos, Mulher e Família, ao ler a seguinte notícia publicada na Revista Fórum: “Contra gravidez na adolescência, Damares promove seminário com pastor do ‘Eu Escolhi Esperar’ ” .

O movimento coordenado pelo pastor Nelson Junior e sua esposa, Angela Cristina, tem o propósito de “encorajar, fortalecer e orientar os solteiros cristãos a esperar até o casamento para viver suas experiências sexuais”. Logo, questionei-me: “Como o dinheiro público, de uma pasta tão relevante (ao menos deveria ser), está sendo investido para tratar o problema social da gravidez na adolescência?” . São 400 mil casos por ano no Brasil, com maior incidência no Nordeste, seguido pelo Sudeste e pelo Norte do país.

O atual presidente eleito, Jair Bolsonaro, em 30.11.2018, após sua vitória no segundo turno, anunciou uma mudança para seu governo, que seria alterar o nome do Ministério dos Direitos Humanos para Ministério da Família. Afirmou o capitão reformado: “Nós temos uma política de direitos humanos de verdade e não é essa que está aí”. E acrescenta: “E terá o nome de Família, que é tão cara e importante para nós”

Nos primeiros dias de seu mandato compôs o Ministério da Família, Mulher e Direitos Humanos. Mas o que temos observado é que não foi somente uma mudança de nome, obviamente. Pastora Damares Regina Alves, advogada, assessora parlamentar, com largos anos de atuação política e atual pastora da igreja da Lagoinha (anteriormente pastora da igreja pentecostal, O Evangelho Quadrangular), assumiu a pasta em meio a muitas controvérsias, processo judicial e um eloquente discurso de posse que foi sintetizado por ela com a frase: “O país é laico, mas esta ministra é terrivelmente evangélica”. Mas voltemos à afirmação do terrível desserviço à qual nos referimos inicialmente.

Dados do IBGE/Censo Demográfico 2010, indicam que a proporção de adolescentes e jovens brasileiras entre 15 e 19 anos que ainda não estão inseridas no mercado de trabalho ou mesmo na escola, é maior entre aquelas que já tiveram filhos. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), ocorrem aproximadamente 70 nascimentos para cada mil adolescentes, um índice acima da média para a América Latina, Caribe e também da taxa mundial.

Se lançarmos um olhar na perspectiva de gênero, podemos afirmar, sem dúvidas, que as meninas são as mais prejudicadas pela gravidez precoce, pois devido as maiores exigências no cuidado com os bebês, a maioria delas precisa se afastar dos estudos por não ter com quem deixar a(s) criança(s), além dos riscos que correm por gerar filhos tão cedo.

A SBP alerta, além do aspecto social envolvido, para questões de saúde, pois a gravidez na adolescência está associada a uma série de riscos para a menina e o bebê, como elevação da pressão arterial e crises convulsivas (eclâmpsia e pré-eclâmpsia) na jovem grávida e prematuridade e baixo peso nos bebês.

Nas últimas duas décadas a gravidez na adolescência tornou-se um importante tema de debate e alvo de políticas públicas no Brasil, o que resultou na diminuição, entre 2004 e 2015, de 114 mil nascimentos não planejados. Foram 661.290 nascidos vivos de mães entre 10 e 19 anos, em 2004, para 546.529, em 2015. Efetivamente, uma considerável redução de gravidez precoce em relação a anos anteriores. Mas, apesar dos avanços, o número de gravidez não planejada na adolescência ainda é grande, representando cerca de 18% do total de nascidos vivos no país.

De qualquer forma, a redução da gravidez na adolescência entre 2004 e 2015 foi significativa. O cenário mudou devido a iniciativas como a expansão do Programa Saúde da Família, com mais acesso a métodos contraceptivos e ao Programa Saúde na Escola, que oferecia informação de educação em saúde, conscientizando adolescentes a fazer escolhas livres e assim planejar melhor a vida.

É necessário ressaltar que a gravidez precoce, não planejada, também é fruto de violência. A cada 20 minutos uma menina de até 18 anos é vítima de estupro. De janeiro de 2017 a dezembro de 2018, 50.899 crimes contra adolescentes nessa faixa etária foram registrados, o que preencheria o número de habitantes da cidade de Campos do Jordão, no interior de São Paulo.

Para enfrentar tamanho problema, temos no extenso território brasileiro somente 85 hospitais cadastrados como referência de serviço ao Aborto Legal. Tudo isso nos leva a refletir sobre a carência de políticas públicas efetivas, como os programas já mencionados, que apontam maneiras de conscientizar cada vez mais adolescentes a fazer escolhas livres e responsáveis.

Na contramão desses eficientes programas do Ministério da Saúde, que deveriam ser aprofundados e melhorados, o Ministério da Família, Mulher e Direitos Humanos utiliza dinheiro, tempo e infraestrutura pública em uma campanha, a meu ver, fraudulenta. Não há dados, ao menos não os encontrei, de que o movimento cristão convidado para o Seminário tenha tido algum êxito, ao menos nas igrejas em que atua, no sentido de convencer solteiros e solteiras a não fazer sexo. Que hipocrisia! A ‘coisa pública’ deve ser sempre embasada em dados, a fim de que se justifique o investimento.

Uma pasta que despreza a realidade, já que a própria coordenadora-geral de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente, Cecília Pita, afirmou que “não vai abordar o uso de preservativos e outros métodos contraceptivos porque isso já é realizado com políticas da área da Saúde e da Educação” e  que “entende que é preciso, sim, ter educação sexual, mas que é preciso informar sobre os benefícios de uma iniciação (sexual) tardia, e os prejuízos de uma iniciação precoce”, decididamente não está preparada para as problemáticas que o país enfrenta.

A impressão que se tem é que o Ministério coordenado por Damares Alves anda na contramão da realidade social, incentivando a abstinência como política pública sem nenhuma referência às condições sociais das adolescentes na gravidez precoce.

O referido seminário foi mais um desserviço e uma irresponsabilidade diante de dados alarmantes como o que temos em nosso país. Gastar dinheiro público em um evento promovido dentro da Câmara dos Deputados, em preparação para a Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência para estimular a abstinência sexual como melhor método contraceptivo, é também um escárnio contra esses 18% do total de nascidos vivos entre janeiro de 2017 a dezembro de 2018, fruto de gravidez precoce, além de um desprezo contra as 50.899 meninas estupradas que engravidam sem desejar. A maioria delas nem consegue acessar os poucos serviços de Aborto Legal do país.

Infelizmente, estamos diante de uma pasta que tem se tornado irrelevante à medida de sua atuação irresponsável.

Os museus, as fake news e o silêncio

Os museus, as universidades e as leis de fomento à cultura têm sido motivo para discussões e servido de munição para geração de fake news, conforme pesquisa realizada pelo LavMUSEU/UFMG. Nos casos das últimas exposições consideradas polêmicas, chamou a atenção o fato de o debate relevante sobre o papel da arte e dos museus ter-se dado nos porões dos grupos privados das redes sociais, no sigilo do inbox, longe dos principais veículos de comunicação.

A exposição acrescenta algo ao debate ou é mais do mesmo? Qual a contribuição do discurso, da expografia e da estética das obras para o campo artístico e para a reflexão de assuntos relevantes na contemporaneidade? Essas perguntas, entre outras, emergiram ao largo das polêmicas, restritas aos fóruns fechados de profissionais, ao círculo dos iniciados. Não obstante nossas respostas eventualmente divergentes para cada uma dessas indagações, ninguém (ou quase ninguém) da área cultural queria pôr lenha na fogueira e dar argumento ao opositor. Tínhamos praticamente um consenso, um inimigo em comum. E esse inimigo se chamava censura.

E assim, sob a cortina de fumaça dessas polêmicas, do aviltamento da liberdade de expressão, pouco se debateu sobre questões igualmente relevantes para a cultura e para a sociedade. Esse silenciamento é, em parte, também consequência das fake news. No lugar do diálogo saudável, reinou o espetaculoso imaginário, as notícias falsas, o bate-boca sem embasamento, a agressividade daqueles que, não raro, sequer têm o hábito de frequentar museus. Daqueles que desconhecem o velho clichê: não defender necessariamente o que o outro diz, mas a liberdade de dizê-lo. Ou recorrendo à acidez sem eufemismos de Comte-Sponville: “Cada um tem a estética que merece”. O caso é que gosto se discute, exceto quando o mais importante é garantir princípios essenciais, como a democracia e os direitos humanos. Aí prescindimos das demais reflexões para tentar livrar nossas instituições culturais das garras do cerceamento e da ignorância.

Combater as notícias falsas e reparar os danos causados pela explosão virtual são tarefas ingratas, mas temos de tentar assim mesmo. Um primeiro público que precisamos alcançar é formado pelos próprios frequentadores de museus, e essa tarefa deve começar pelo estabelecimento efetivo de diálogo com esses usuários, ampliando ainda a presença da instituição nas mídias digitais. Passa pelo desenvolvimento de sites e blogs de museus atraentes, funcionais, transparentes e completos, nos quais constem não somente os sucessos, mas também os fracassos da instituição, como suas tentativas frustradas de captação de recursos.

Precisamos falar abertamente sobre nossas dificuldades, para que os amantes do conhecimento e os visitantes assíduos se manifestem em prol da sobrevivência dos nossos museus. As paredes dos museus escondem o lado “profano” da arte, como diria Boris Groys. Suas coleções on-line e sites acabam por seguir essa mesma tendência que, se por um lado encanta o fruidor, por outro contribui para a desinformação acerca do cotidiano das instituições culturais, com seus desafios diários e orçamentos escassos.  

É preciso, portanto, atrair e mapear frequentadores e profissionais bem informados e engajados na causa cultural, potenciais ativistas digitais, que podem ser alcançados por meio das redes sociais institucionais, do marketing digital, do SEO (otimização para mecanismos de busca), da Web Semântica, da formação de bancos de e-mails de usuários, da produção de conteúdo sempre renovado e dinâmico para os blogs e sites de museus.

Esse conteúdo tem suas demandas peculiares: não lemos na tela como o fazemos no papel. Assim como não é adequado afixar nas exposições textos escritos para catálogos e livros, não devemos descolar as letras das paredes e jogá-las inadvertidamente nas páginas digitais. O veículo afeta o teor da mensagem, pelo menos o modo como é compreendida. Museólogos, curadores, historiadores, jornalistas e demais escritores do campo cultural precisam aprender novas habilidades, como redigir para as mídias sociais (a exemplo de técnicas de webwriting e UX writing).

Por fim, mas não menos importante, deve-se exigir que os meios de comunicação, ao menos aqueles com algum respeito à ética jornalística, publiquem na íntegra notas e cartas oficiais dos museus sobre temas polêmicos. É fundamental que as assessorias de comunicação utilizem esse recurso crucial: “pegar carona” nos cliques e compartilhamentos de cada reportagem sobre o museu, apresentando a versão oficial da instituição e dando voz ao contraditório. Jornais, agências de checagem de fatos e blogs sérios costumam ser sensíveis a esse direito, e essas publicações ainda são bastante difundidas, como revelam nossos levantamentos.

É urgente que os museus, a academia e a imprensa cultural reajam com mais propriedade a essa avalanche de desinformação que nos toma de assalto, antes que sejamos engolidos pela revolução digital, que não respeita o tempo individual de adaptação, que não espera os retardatários. Antes que sejamos derrotados pela nossa resistência ao inevitável: vivemos em um mundo digital. Nesse ritmo, corremos sérios riscos de sermos soterrados pelos gritos cada vez mais altos das fake news. Aos “vencedores”, o nosso silêncio? Sabemos que a luta virtual é árdua e, em alguns casos, inglória, mas simplesmente não podemos nos omitir.

Baixe o relatório da pesquisa: https://www.lavmuseu.org/fakenews/

Publicado originalmente no Boletim UFMG, n. 2044 de dezembro de 2018

“Detox digital”: a proposta desconectada da ministra Damares

A ministra Damares Alves propôs em suas redes sociais, no último sábado, 30, um “detox digital” como desafio para o Dia Nacional da Família, que será celebrado no próximo domingo, 8. O objetivo da proposta, segundo a ministra, é alertar a população para os riscos do uso excessivo da tecnologia e “reconectar” as famílias do Brasil.

A iniciativa faz parte do Programa Reconecta, do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, lançado oficialmente no início de julho, e que tem como pauta principal “fornecer acesso mais amplo ao conhecimento cientifico às famílias e à população em geral, a respeito do uso de recursos tecnológicos de maneira inteligente, abordando aspectos sociais, educacionais, e de saúde física e psíquica, visando assim a aquisição de uma maior consciência sobre consequências do uso tecnológico”.

A ministra Damares convocou, por meio de vídeo postado em seu twitter, o presidente Jair Bolsonaro, a primeira dama, Michelle, e os ministros a não usarem o celular durante as 24 horas do dia 8. Ela também estendeu o desafio aos pastores.

Apesar da boa intenção do Programa Reconecte, o real desafio que o/a brasileiro/a precisa não é um “detox digital”, mas aprender a desenvolver uma consciência digital no novo contexto social que vive.

Antonio Spadaro, padre, escritor, teólogo e diretor da revista jesuíta Civiltà Cattolica afirmam que “as recentes tecnologias digitais não são mais simples instrumentos completamente externos ao nosso corpo e à nossa mente, mas um “ambiente” no qual nós vivemos. A rede é um espaço de experiência que sempre mais está se tornando parte integral, em maneira fluida, da vida cotidiana: é um novo contexto existencial. Portanto, a rede não é, um simples ‘instrumento’ de comunicação que se pode usar, mas se evoluiu em um espaço, um ambiente cultural, que determina um estilo de pensamento e cria novos territórios e novas formas de educação, contribuindo para definir também um modo novo de estimular as inteligências e a estreitar as relações, um modo de habitar o mundo e organizá-lo. Não é, portanto, um ambiente separado da vida ordinária, mas ao contrário, sempre mais integrado, conectado com aquele da vida cotidiana.”

A partir desta reflexão pode-se entender que o desafio a ser proposto seria o inverso – Reconectar-se com o novo contexto social encarando-o como um ambiente de vida. O estímulo deveria ser para dentro da Rede e não para fora dela. A internet já está imersa na vida de todos, e o nosso real desafio “não é mais apenas “utilizar” bem a internet, como frequentemente se acredita, mas “viver” bem nos tempos da internet.”

Jornalismo, fake news & desinformação: manual para educação e treinamento em jornalismo

A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) disponibiliza para download um manual contra as notícias falsas voltado para profissionais, professores e estudantes de jornalismo. O objetivo é auxiliar no enfrentamento das fake news, fornecendo material educativo de distribuição gratuita online.

A Unesco defende que a melhor forma de combater as notícias falsas é por meio da prática jornalística exemplar e, para tanto, produziu um modelo de currículo para ser ensinado. Intitulado Jornalismo, ‘Fake News‘ e Desinformação: Um Manual para Educação e Treinamento em Jornalismo

Uma das diretrizes do manual é dobrar a verificação e o jornalismo ético voltado ao interesse público. O texto também prega que é necessário aprender outras habilidades para lidar com as novas ameaças, como as “deep fake news”, resultantes de profunda falsificação produzida a partir do domínio da tecnologia e da inteligência artificial aplicada em documentos, vídeos e áudios. Além disso, o currículo mostra que os jornalistas precisam aumentar sua cobertura sobre os atores de desinformação, com checagem também depois do período eleitoral. Outra saída para os jornalistas é fazer parcerias com comunidades e pessoas que não atuam diretamente com jornalismo mas que podem auxiliar no processo de checagem.

O currículo planejado pela Unesco propõem aulas contextuais, teóricas e práticas. O material está dividido em duas partes. Os três primeiros módulos enquadram o problema das fake news e dão contexto a ele, aprofundando o conceito de verdade no jornalismo e distinguindo as noções de falta de informação, desinformação e má informação. Os quatro últimos se concentram nas respostas à desinformação e má informação, com ênfase para fact-checking e recursos para verificação nas mídias sociais, além de um módulo dedicado ao enfrentamento de perseguição online de jornalistas e suas fontes.

O manual é editado pelas jornalistas e pesquisadoras Cherilyn Ireton — diretora executiva do Fórum Mundial de Editores da Associação Mundial de Jornais e conselheira da Rede de Jornalismo Ético — e Julie Posetti — acadêmica australiana pesquisadora sênior do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo na Universidade de Oxford —, com colaboração de Claire Wardle, Hossein Derakhshan, Alice Matthews, Magda Abu-Fadil, Tom Trewinnard, Fergus Bell e Alexios Mantzarlis. O Programa Internacional da UNESCO para o Desenvolvimento da Comunicação (IPDC) produz monitoramento global de indicadores do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável, que entre suas metas prevê a garantia do acesso público à informação e proteger as liberdades fundamentais, de acordo com legislações e acordos internacionais.

Fonte:

https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000368647.locale=en http://www.ufrgs.br/obcomp/noticias/0/652/unesco-lanca-manual-de-jornalismo-para-combater-

Fake News e consciência: como produzimos (e acreditamos) em notícias falsas

Fake News e consciência são dois conceitos que não deveriam estar juntos numa mesma frase. Entretanto, os modos de produção das Fake News, bem como elas são difundidas, assimiladas e cridas, tem muito a ver com o funcionamento da consciência. Um pouco disso pode ser percebido na canção de Ataulfo Alves, quando reclamou da atitude da amada, que era diferente da serviçal Amélia: “você não sabe o que é ter consciência”. Ele ainda guardava lembrança daquela mulher submissa com quem conviveu, ao ponto de acreditar que todas as mulheres deveriam ser assim.

O Facebook e o Instagram anunciaram em outubro que vão fazer a checagem do conteúdo para atribuir um rótulo de “informação falsa” nos posts e stories que contenham notícias mentirosas. Há dois problemas nisso: o primeiro é que Fake News não são meramente notícias mentirosas (a mentira nunca se mostra tão evidente); e a segunda é que a checagem de notícias é um serviço caro (e quem posta Fake News quer atingir algum ganho com isso). As medidas incluem a redução de acessos dos sites que propagam os conteúdos que forem rotulados.

O que tem sido chamado de Fake News? Inclui: notícias mentirosas, parciais, tendenciosas e até replicadas ou tiradas de um acontecimento antigo para se referir a um fato atual. Quem produz Fake News geralmente é quem está interessado em desviar a atenção, interferir nas escolhas e decisões das massas, induzir um determinado comportamento de consumo ou mesmo uma ideologia, destruir ou mesmo construir a imagem de algum ícone, celebridade ou personagem pública que precisa estar ou não em evidência num dado momento. Os motivos podem ser diversos. E aqueles que produzem Fake News atuam como think tanks, financiados por grandes corporações, grupos políticos e movimentos ideológicos cuja base pode estar num outro país. Ou seja, o combate à Fake News envolve uma estratégia de guerra internacional.

O anúncio de que um determinado conteúdo é falso ou mentiroso desperta ainda mais a curiosidade, visto que não estamos lidando apenas com a veiculação de informações, mas com os modos de produção de sentido e de interpretação. Entramos em uma área até então nebulosa da ciência: o que é a consciência e como ela trabalha. Apesar dos avanços da neurociência, os estudos da consciência ainda são uma grande incógnita que ocupa cientistas e filósofos. A consciência é considerada por muitos como o último limite do conhecimento a respeito da condição humana. Quando esse mistério for desvendado, novas possibilidades serão abertas para a Psicologia, para o tratamento de problemas Psiquiátricos e inclusive para a Inteligência Artificial.

A consciência é tanto uma forma de conhecimento de si, como também um processo de como nossa mente lida com experiências, emoções e informações que temos durante a vida toda. Tudo está gravado para ser usado nas várias situações e contextos que vivenciamos. Nesse processo, a consciência depende da memória, da linguagem e das emoções. Num procedimento rápido, nossa memória é capaz de encontrar respostas para cada situação no meio do que está guardado de alguma forma em algum canto de nossa mente. Pela consciência, desenvolvemos uma imagem de quem somos ao mesmo tempo em que produzimos sentidos e respostas para o que enfrentamos a fim de dar conta desse eu imaginado. O que não gostamos, deixamos escondido em algum lugar – nas sombras, como diria Jung –, mas que de algum modo insiste em aparecer.

Fake News é uma notícia que, embora seja falsa ou falseada, agrada essa consciência escondida, disfarçada que carregamos dentro de nós mesmos. A verdade sempre nos confronta diante daquilo que nos envergonha ou mesmo fere saberes que acumulamos ao longo de nossa história. É horrível descobrir que você foi enganado, que acreditou numa mentira ou que foi manipulado. É mais confortável continuar acreditando nas histórias que nos contaram do que assumir a insegurança de um fato novo que coloca em xeque nossas convicções, crenças e saberes.

Não, Fake News não é coisa inventada pelos tios nos grupos da família. Elas também não são notícias mentirosas simplesmente. Elas são um produto de nosso tempo. É bem verdade que Fake News sempre existiram. Mas o modo como elas acontecem hoje está ligado à própria complexidade da produção de conhecimento. Para que uma mentira ganhe fórum de verdade, não basta ser repetida várias vezes, como ensinava o nazista Goebbels. Isso é meme. Ela precisa ser produzida de tal modo que agrade à consciência de uma massa enganada e ferida.

A era da pós-verdade

O texto bíblico de João 8:32 foi usado pelo candidato do PSL de forma exaustiva nas eleições de 2018. O fim era capturar o voto do eleitorado evangélico para a “verdade” que, supostamente, o candidato estava encabeçando. O mesmo candidato que usou as fake news como principal arma de campanha e que até o momento o TSE ainda não julgou o mérito da ação, mesmo a CPI das “Fake News”, ainda em curso, está concluindo que o principal elemento que tornou possível a eleição do então candidato do PSL foram os conteúdos falsos disseminados nas redes sociais e principalmente em grupos de WhatsApp patrocinado por empresas para fazer os disparos diários.

Voltando ao texto bíblico usado de forma indevida pelo então candidato como um chavão diz que “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. É claro que o chavão em que se tornou o texto não tem nenhuma relação com a verdade do Evangelho de João, que tem como fundo exegético a percepção de que Jesus é a verdade, em virtude de nele residir a realidade divina do amor. Assim, com sua atividade em favor do outro, ele (Jesus) manifesta o amor de Deus. Portanto, para conhecer a verdade é preciso entrar em contato com ela, a verdade, que é Jesus. Assim, a discípula e o discípulo de Jesus experimenta os efeitos desse amor que é o encontro da realidade divina com a humana. Uma vez conhecendo a verdade (a mensagem de amor proclamada por Jesus), ela liberta da mentira na teologia joanina; mentira essa que tem um “pai” e trabalha para diminuir a vida do ser humano, tornando-o escravo da mentira (1). Essa percepção de verdade que está no Evangelho de João, não é compartilhada por uma parcela significativa de evangélicos no Brasil que preferiram o “pai da mentira”, aquele “chefe” que escraviza mentes e corações a partir da disseminação do falso.

Filosoficamente, a verdade é a adequação que o indivíduo faz entre o intelecto e a realidade, portanto a verdade é uma propriedade do juízo e este, o juízo, é capaz de diferenciar o falso do verdadeiro. Aprofundando um pouco mais essa noção de verdade no Ocidente, está se dá quando há um consenso ou acordo em sociedade quanto ao aceitável enquanto normas de conduta, algo estabelecido culturalmente para um determinado grupo social (2). No caso do Brasil, cultural e religiosamente cristão, a verdade se dá a partir de uma ordem vigente que tem na tradição judaico-cristã (cristandade) o seu consenso entre verdade e mentira. A verdade (real), nesse sentido, é contrária à mentira (falso), mas para dizer a verdade é preciso o juramento, pelo menos nos tribunais. Sendo o juramento algo tipicamente teológico.

Seguindo o raciocínio de Christian Dunker (3), o que ocorre hoje é o que está se chamando de “pós-verdade”. Para o autor, “a pós-verdade inaugura uma reflexão prática e política sobre o que devemos entender por verdade e sobre a autoridade que lhe é suposta”. A partir disso, a verdade enquanto pressuposição transcendental calcada na tradição judaico-cristã, não importa mais. A verdade passa por uma espécie de metamorfose quando diante de uma necessidade coletiva e/ou subjetiva que atenda os ideais de um segmento social com o intuito de obter poder. Nessa era de “pós-verdade”, o que conta mesmo é a “aptidão para a inversão”. É nesse espaço público que a aptidão para as inversões conceituais com a transmutação da realidade que as fake news inaugura uma prática de produzir, disseminar e assassinar reputações a partir de conteúdos que promovem um espectro do quadro político à direita (extrema), que julga ter autoridade para estabelecer a mentira como “verdade”, em nome de uma suposta moralidade que julga está decadente na civilização ocidental por conta, exatamente, de governos populares de esquerda. Dentro desse quadro maior que a ala evangélica, seja por ingenuidade, falta de pudor ou senso crítico, não apenas embarcou nas fake news como também divulgou por meios das redes sociais conteúdos falsos quando esse material estava condizente com a mentalidade político-moral do que se entende estar expurgando o “mal” e quem o representa.

Um caso que exemplifica o que estamos aqui tratando.

O padre Fábio de Melo foi vítima de fake news quando da tragédia que aconteceu na escola em Suzano/SP neste ano. O texto intitulado “Melhor texto que já li sobre o acontecimento de ontem” ganhou enorme proporção na internet. O texto foi atribuído ao padre e por isso viralizou nas redes e grupos de WhatsApp. Segue o texto:

Melhor texto que já li sobre o acontecimento de ontem

Autor: Padre Fábio de Melo

“Cansado e perplexo com tantas baboseiras e falsas justificativas para as atrocidades que ainda nos surpreendem todos os dias…

Os meninos não mataram porque o porte de arma é um projeto do atual governo. Os meninos não mataram porque jogavam jogos violentos. Os meninos não mataram porque a escola foi omissa. Os meninos não mataram porque sofreram Bullying…

Eles mataram porque as famílias estão desestruturadas e fracassadas, porque não se educa mais em casa, não se acompanha mais de perto, a tecnologia substitui o diálogo, presentes compram limites, direitos e deveres e não há o conhecimento e respeito a Deus.

Precisamos parar de nos omitir, de transferir culpas. A culpa é minha, é sua, de todos nós!

Quando Fábio de Melo soube da repercussão do texto atribuído, falsamente, à ele, foi ao Twitter e desmentiu o texto dizendo: “O texto que está viralizado sobre o atentado em Suzano, cujo título é ‘O melhor texto que já li sobre o acontecimento de ontem’, não foi escrito por mim” (4). Mesmo o padre desmentindo o texto e se posicionando contra o decreto das armas do governo, muitos evangélicos não pararam de divulgar o texto. As pessoas, mesmo depois de saberem que o texto não foi escrito e divulgado por Fábio de Melo, insistiram na mentira com a seguinte argumentação: “Não interessa quem escreveu, é uma verdade e pronto” (5). Os robôs da milícia digital do atual governo impulsionou essa fake news e a palavra do padre desmentindo ser o autor do falso texto já não tinha qualquer importância (6). Essa fake news é um típico caso de inversão da qual Dunker pontuou, ou seja, o texto só viralizou porque foi, supostamente, escrito por um padre conhecido, defendendo a política de armas do governo a partir de uma tragédia; quando o suposto autor desmente, ou seja, a verdade vem à tona, esta não tem mais validade porque o objetivo já foi alcançado, tornar o que é falso em verdadeiro.

Uma parcela significa de evangélicos participam imensamente desse processo de produção de fake news. Quando foram coniventes diante do uso político e descontextualizado do texto bíblico de João 8,32, mostraram que não conhecem a verdade de Jesus. Não obstante esse pecado, essa parcela de evangélicos no país vem demonstrando que não tem qualquer compromisso em pautar a realidade político-social com a verdade.

Notas:

* Alonso Gonçalves é graduado em Teologia e Filosofia. Mestre e doutorando em Ciências da Religião (Universidade Metodista de São Paulo). Pastor na Igreja Batista Central em Pariquera-Açu (São Paulo).

(1) MATEOS, Juan; BARRETO. Vocabulário teológico do evangelho de São João. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2005, p. 277-283.

(2) JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. 3. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996, p. 269.

(3) DUNKER, Christian. “Subjetividade em tempos de pós-verdade”. In: LITERCULTURA (Org.). Ética e pós-verdade. Porto Alegre: Dublinense, 2017, p. 13.

(4) Disponível: <https://g1.globo.com/fato-ou-fake/noticia/2019/03/15/e-fake-que-padre-fabio-de-melo-fez-texto-sobre-massacre-em-suzano-dizendo-que-armas-nao-matam.ghtml>.

(5) Li isso de uma internauta quando a questionei sobre a fake news que ela estava disseminando com o falso texto atribuído ao Pe. Fábio de Melo.

(6) Disponível: <https://revistaforum.com.br/politica/robos-de-bolsonaro-viralizam-texto-fake-de-padre-fabio-de-melo-sobre-massacre-em-suzano/>.

Um desafio: a salvaguarda da unidade da família humana

Há o risco real de que a família humana seja bifurcada, entre aqueles que se beneficiam dos avanços tecnológicos, da biotecnologia, da inteligência artificial e da nanotecnologia e dispõem de todos os meios possíveis de vida e de bem-estar, cerca de 1,6 bilhões de pessoas, podendo prolongar a vida até aos 120 anos que corresponde à idade possível das células. E a outra humanidade, os restantes mais de 5,4 bilhões, barbarizados, entregues à sua sorte, podendo viver, se tanto, até os 60-70 anos com as tecnologias convencionais num quadro perverso de pobreza, miséria e exclusão.

Esse fosso deriva do horror econômico que tomou a cena histórica sob a dominação do capital globalizado especialmente do especulativo sob a regência cruel do neoliberalismo radical. Considerando-se triunfante face ao socialismo real cuja derrocada se deu no final dos anos 80, exacerbou seus princípios como a competição,o individualismo, a privatização e a difamação de todo tipo de política e satanização do Estado, reduzido ao mínimo. Cerca de 200 megacorporações, cujo poder econômico equivale a 182 países, conduzem junto com os organismos da ordem capitalista como o FMI, o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio a economia mundial sob o princípio da competição sem qualquer sentido de cooperação e de respeito ecológico da natureza. Tudo é feito mercadoria, do sexo à religião, numa volúpia de acumulação desenfreada de riquezas e serviços à custa da devastação da natureza e da precarização ilimitada dos postos de trabalho.

Há o risco real de que a família humana seja bifurcada, entre aqueles que se beneficiam dos avanços tecnológicos, da biotecnologia, da inteligência artificial e da nanotecnologia e dispõem de todos os meios possíveis de vida e de bem-estar, cerca de 1,6 bilhões de pessoas, podendo prolongar a vida até aos 120 anos que corresponde à idade possível das células. E a outra humanidade, os restantes mais de 5,4 bilhões, barbarizados, entregues à sua sorte, podendo viver, se tanto, até os 60-70 anos com as tecnologias convencionais num quadro perverso de pobreza, miséria e exclusão.

O risco consiste em que os muito ricos criem um mundo só para si, que rebaixem os direitos humanos a uma necessidade humana que deve ser atendida pelos mecanismos do mercado (portanto só tem direitos quem paga e não quem é simplesmente pessoa humana), que façam dos diferentes desiguais e dos desiguais dissemelhantes, aos quais se nega praticamente a pertença à espécie humana. São outra coisa, óleo gasto,zeros econômicos.

No Ocidente que hegemoniza o processo de globalização, a ideia de igualdade politicamente nunca triunfou. Ela ficou limitada ao discurso religioso-cristão, de conteúdo idialístico. Esse déficit de uma cultura igualitária impediria a bifurcação da família humana. Pode triunfar uma idade das trevas mundial que se abateria sobre toda a humanidade. Seria a volta da barbárie.

O desafio a ser enfrentado é fazer tudo para manter a unidade da família humana, habitando a mesma Casa Comum. Todos são Terra, filhos e filhas da Terra, para os cristãos, criados à imagem e semelhança do Criador, feitos irmãos e irmãs de Cristo e templos do Espírito. Todos têm direito de serem incluídos nesta Casa Comum e de participarem de seus dons.

Para dar corpo a este desafio precisamos de uma outra ética humanitária que implica resgatar os valores ligados à solidariedade, à empatia e à compaixão. Importa recordar que foi a solidariedade/cooperação que permitiu a nossos ancestrais, há alguns milhões de anos, darem o salto da animalidade à humanidade. Ao saírem para recoletar alimentos, não os comiam individualmente como o fazem os animais. Antes, reuniam os frutos e a caça e os levavam para o grupo de coiguais e os repartiam solidariamente entre todos. Deste gesto primordial nasceu a socialidade, a linguagem e a singularidade humana. Será hoje ainda a solidariedade irrestrita, a partir de baixo, a compaixão que se sensibiliza diante do sofrimento do outro e da Mãe Terra, que garantirão o caráter humano de nossa identidade e de nossas práticas. Foi o que vergonhosamente faltou aos grandes credores internacionais que face à tragédia do tsunami do sudeste da Ásia não perdoaram os 26 bilhões de dívidas daqueles países flagelados, Apenas protelaram por um ano, o seu pagamento.

Sem o gesto do bom samaritano que se verga sobre os caídos da estrada ou a vontade de infinita compaixão do bodhisatwa que renuncia penetrar no nirvana por amor à pessoa que sofre, ao animal quebrantado ou à árvore mirrada, dificilmente faremos frente à desumanidade cotidiana que está se naturalizando a nível brasileiro e mundial.

Na perspectiva dos astronautas, daqueles que tiveram o privilégio de ver a Terra de fora da Terra, Terra e Humanidade formam uma só entidade, complexa mas una. Ambas estão agora ameaçadas. Ambas possuem um mesmo destino comum e comparecem juntas diante do futuro. Sua salvaguarda constitui o conteúdo maior de um ancestral sonho: todos sentados à mesa, numa imensa comensalidade, desfrutando dos frutos da boa e generosa Mãe Terra.

 Se o cristianismo e os demais caminhos espirituais não ajudarem a realizar esse sonho e não levarem as pessoas a concretizá-lo, não teremos cumprido a missão que o Criador nos reservou no conjunto dos seres, que é a de sermos o anjo bom e não o Satã da Terra. Nem teremos escutado e seguido Aquele que disse: “Vim trazer vida e vida em abundância”(Jo 10,10).

Importa conscientizarmo-nos de nossa responsabilidade, sabendo que nenhuma preocupação é mais fundamental do que cuidar da única Casa Comum que temos e de alcançar que toda a família humana, superando as contradições sempre existentes, possa viver unida dentro dela com um mínimo de cuidado, de solidariedade, de irmandade, de compaixão e de reverência face ao Mistério de todas as coisa, que produzem a discreta felicidade pelo curto tempo que nos é concedido passar por esse pequeno, belo e radiante Planeta.

 Uma utopia? Sim, mas necessária se quisermos sobreviver.

Fake god… Fake news!

Um povo nunca vai além do seu Deus. Ou, para ser mais honesto, nunca vai além dos discursos sobre o seu Deus, pois de Deus não sabemos quase nada, a não ser os discursos que sobre Ele propomos.

Um deus fake, que ama a violência, não vê a hora de vingar os seus inimigos, aqueles que não acreditam nEle e nem fazem o que ordena, ou o que “achamos” que Ele ordena.

Esse deus fake odeia homoafetivos, oprime mulheres e escraviza negros. 

Certamente, sua legião de seguidores imprimirá esse mesmo ódio por onde passar.

E, já que esse deus é um simulacro, uma piada sem graça, uma “mentira santa”, legitimará em seu exército quaisquer mentiras outras que façam valer o seu poder, todo baseado na ausência de verdade.

Por essas e outras, em nada me espanta a quantidade de fake news abraçada, infelizmente, por parte de muitos que se reconhecem como “Igrejas do Senhor”.  Eles apenas propagam aquilo do que seu coração está cheio: ódio e mentira. Nada novo para Jesus, que foi assertivo: “a boca fala do que o coração está cheio”. Na Bíblia, em linguagem “internética”, poderíamos afirmar: “os dedos teclam do que está cheio o coração.”

É necessária uma conversão coletiva. Um arrependimento em massa, pois muitos dos que se apresentam como cristãos têm servido o pai da mentira, um deus fake, que tem um evangelho fake, que nada se parece com a boa nova de Cristo. É, no máximo, um “jornalismo marrom” sobre um deus tirano, branco, hétero, macho e sem graça alguma. Nada de Evangelho, tudo de Fake News.

Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, tende piedade de nós!

Abraços,

Zé Barbosa Junior

Censura e fake news

É imprescindível valorizar o jornalismo profissional e combater duas anomias do nosso tempo. Uma delas é o ressurgimento da velha e antiquada censura, que parece ganhar novos contornos mundo afora a guiar as investidas de mandatários que flertam em inviabilizar o contraditório, destruir opositores e asfixiar o debate público. A outra anomia é resultante das tecnologias acopladas ao cotidiano das pessoas e que são usadas indiscriminadamente para a disseminação de notícias falsas, as chamadas fake news. Essas duas anomias impõem uma questão ética fundamental que não podemos nos furtar de responder. Que sociedade, afinal, queremos construir?

Tem surgido várias campanhas em defesa do jornalismo que miram a proteção da sociedade e de suas instituições. É bom sempre lembrar que a imprensa livre e autônoma é parte inerente de qualquer sociedade que se pretenda democrática. A Constituição Federal, no rol dos direitos fundamentais, infere de forma taxativa no Art. 5º, XIV, que “é assegurado a todos o direito à informação”. Logo, não há democracia sem a liberdade de informar e o direito de ser informado.

É necessário haver um diálogo franco com todos aqueles que almejam credibilidade nas notícias divulgadas, cientes de que o direito à informação é condição indispensável para gerir o debate público de forma qualificada e responsável.

Para combater formas autoritárias que pretendem, ainda que indiretamente, mitigar ou restringir a liberdade de expressão, é essencial a aplicação dos pressupostos assegurados constitucionalmente, incluindo o direito à informação, que é legitimado pelo papel da imprensa, de jornais e jornalistas, e, sobretudo, de fontes detentoras de confiabilidade.

É patente que o restringimento de informação ou a mitigação de sua qualidade ferem os direitos fundamentais da liberdade de informação, indispensáveis para o exercício da cidadania e manutenção da democracia. Sem informação qualificada corre-se o risco de gerar uma espécie de arpaithed digital na sociedade, com pessoas aninhadas nas redes sociais, em guetos, sob a regência de algoritmos que as isentam de qualquer espécie de contraditório e as impedem de leitura crítica acerca dos fenômenos que envolvem a dinâmica e a complexidade da sociedade.

Se a democracia é o jogo do consenso, ela depende da capacidade de diálogo, do debate refletido, de argumentos sustentados à luz da racionalidade e do bom senso. Antes, no entanto, de dialogar com o outro, é preciso dialogar com a informação, com o conteúdo proposicional que vincula a relação entre falantes e ouvintes. Dialogar é questionar o outro a respeito da pretensão de verdade que este levanta, sustenta e defende. O diálogo é um processo que exige maturidade e disposição de aprender com o outro. A única coerção possível numa relação dialógica é aquela exercida pela força do melhor argumento. É justamente esse caráter pedagógico, próprio do diálogo, que está sendo eliminado pelas fake news.

O que é possível aprender quando, de saída, observa-se que as informações que o outro dispõe são falsas? É preciso primeiro haver informação lastreada por fatos e proposições autênticas para que haja a possibilidade do diálogo, do debate e de sólida formação da opinião pública. Não dispomos, até o momento, de remédios jurídicos que reparem as fake news. O único antídoto para esse esparre de notícias falsas, tal qual um câncer em metástase no tecido social, está em redobrar a confiança em uma imprensa responsável, plural e livre.

Somos, afinal, corresponsáveis pelas soluções ofertadas às demandas da sociedade e igualmente pelo futuro da democracia. Está em nossas mãos o poder de separar o joio e guardar o trigo.

(A versão preliminar desse artigo foi publicado na Folha de Londrina, edição de 03/11/19)

Calvino e as Fake News

O contexto da Reforma foi de muitos conflitos no campo da comunicação. Por meio da imprensa recém inventada, muitas imagens de caricaturas e escritos circularam na Europa divulgando, de ambos os lados, protestante e católico, acusações, calúnias, impropérios, ameaças e mentiras. Defenestrar o inimigo era uma estratégia para impor uma verdade por meio, se possível, da mentira. 

Defensor da tolerância aos protestantes franceses, Calvino tentou persuadir “ao Potentíssimo e Ilustríssimo Monarca Francisco, Rei Cristianíssimo dos Franceses, Seu Príncipe”, da inocência dos protestantes diante de muitas acusações, escrevendo sua maior obra, A Instituição da Religião Cristã, encerrada no ano de 1559.  

Seu objetivo primeiro foi:

… preparar e instruir os candidatos ao aprendizado da palavra divina da sagrada Teologia, para que possam ter acesso fácil a ela, assim como prosseguir livremente em seus passos, pois que considero ter reunido uma tal suma da religião em todas as suas partes e tenha classificado em tal ordem, que qualquer um que a considere retamente não terá dificuldade em estabelecer e buscar o que é principal na Escritura, e possa aquele, ao final, referir tudo que nela está contido.1 

João Calvino

Evidencia-se a lógica calviniana em estruturar uma obra de forma racional obedecendo uma ordem de apresentação temática em partes e classificada com a finalidade de “estabelecer e buscar o que é principal na Escritura”. Os dois livros reunidos em um só tomo explorou a suma ou o sumo do que as Escrituras ensinam a fim de preparar e instruir os novos aprendizes da fé.  

No entanto, outro propósito se apresentou na obra, qual seja, a de orientar o monarca e alertá-lo quanto aos equívocos das acusações, calúnias, ardis e mentiras proferidas. Dirigindo-se ao rei, Calvino reiterou o objetivo de “ensinar alguns rudimentos”, para “ser ensinado de modo fácil e simples”, não somente aos franceses, mas ao próprio soberano na condição de um principiante que deveria atentar para as fakenews contra os protestantes franceses: 

Evidentemente se alguém, com o pretexto de excitar o ódio a essa doutrina da qual procuro expor a vós a razão, der como pretexto que, condenada por toda ordem de cálculos, já tivesse sido criticada por muitas sentenças do foro, não teria dito se não que, em parte, foi violentamente abatida pelo conluio e potência dos adversários, e em parte insidiosa e fraudulentamente oprimida por mentiras, ardis e calúnias. É violência que, por pretexto, não declarado, sejam levantadas contra ela sentenças sanguinárias; fraude, que seja, acusada de sedição e de malefícios sem merecimento.2   

Assim, Calvino incidiu contra a rede de propagação de mentiras sobre os protestantes na França, apelando para o bom senso e a verdade do rei, bem como dos leitores.  

[1] CALVIN, Jean. A instituição da religião cristã, Tomo I, Livros I e II. Trad. Carlos Eduardo de Oliveira. São Paulo: Editora UNESP, 2008, p. 12. [1] CALVIN, Jean. A instituição da religião cristã, Tomo I, Livros I e II. Trad. Carlos Eduardo de Oliveira. São Paulo: Editora UNESP, 2008, p. 14.

Aos pastores, pregadores da verdade, e aos impostores, propagadores de fake news

Por favor, não ousem colocar na conta de Deus suas predileções políticas. Não se atrevam a dizer que foi o Espírito Santo quem lhes mandou trabalhar pela eleição de Bolsonaro.Vocês não percebem que com isso a igreja só faz perder cada vez mais sua credibilidade ante a sociedade? 

Durante o último processo eleitoral, o autointitulado apóstolo Renê Terra Nova, o mesmo que organizou um batismo no Rio Jordão em que os fiéis formavam o número 17, “decretou” no mundo espiritual a vitória de seu candidato. Quanta sandice! Desde quando Deus se dobra aos nossos decretos? Chega a soar blasfemo. Enquanto isso, uma enorme ferida se abre no Corpo de Cristo (a igreja), aumentando exponencialmente o número de desigrejados. 

Que WhatsApp que nada! As igrejas se tornaram a principal fábrica de Fake News. 

Mentiras foram ditas nos púlpitos sem o menor constrangimento. Quem quer que tenha certo conhecimento se nega a continuar frequentando esses comitês eleitorais disfarçados de igreja. Pastores chantagearam seu rebanho, ameaçando excluir membros que se negassem a votar em Bolsonaro. Afirmaram que se o candidato oponente vencesse igrejas seriam fechadas, crianças seriam erotizadas nas escolas, pastores seriam forçados a celebrar casamentos gays e o Brasil se tornaria uma Venezuela.

Será que se esqueceram quem é o pai da mentira? 

Haviam grupos de pastores no whatsApp onde a mentira corria solta. Alguns trocavam fichinhas entre si para ver quais as Fake News da vez que deveriam ser contadas no culto seguinte. Não digo que o faziam conscientemente. A maioria, enganada, acreditava que finalmente teriam “um dos nossos” lá, defendo os valores nos quais hipotecamos nossa fé. 

Curiosamente, as mesmas correntes evangélicas que apoiaram o Bolsonaro aqui, são as que apoiaram Donald Trump nos Estados Unidos, com a mesma fábrica de fake news comandada por Steve Bannon.

No site da Unisinos, há um artigo que diz que Bannon estaria na Europa para fazer a mesma coisa: dividir a sociedade do velho continente, inserindo o nazifascismo. Na Itália, conspira contra o Papa. Por onde passa deixa um rastro de ódio e preconceito. 

Pelo menos, tudo o que está ocorrendo no Brasil serve para nos mostrar que o país segue sendo um grande campo missionário. E não me refiro aos milhões de desigrejados que deixaram suas igrejas por não aceitarem esta versão pervertida do Evangelho diluída no discurso fascista. Refiro-me aos tantos que ainda se mantêm nessas igrejas por se alinharem a este discurso. 

Indubitavelmente, o Brasil precisa urgentemente conhecer o evangelho do amor. 

Os Bots e a Esfera Pública

Derivação de robots (robôs), os bots são utilizados na rede mundial de computadores, por meio de perfis falsos, para a manipulação de discursos empregados nas redes sociais. A influência da internet e das redes sociais no desenvolvimento de posicionamentos político-ideológicos têm impactado fortemente a formação da opinião pública. As campanhas eleitorais não ficam à margem desse fenômeno. Países como Índia, Israel, Espanha e EUA já haviam conhecido, anos antes, o impacto das redes sociais na formatação da opinião do eleitorado. No Brasil, o efeito dos bots apareceu de forma embrionária nas eleições de 2014 e, de forma incisiva, na eleição do ano passado, a ponto de chamar a atenção do TSE para providências mais rigorosas quanto ao uso manipulativo de informações distorcidas ou falseadas. 

 
O modo deliberativo do cidadão e a maneira como este relaciona-se com o poder político são ameaçados pela influência de um sistema gerenciado por algoritmos. Os aplicativos de mensagens, diferente das redes sociais tradicionais, inovam na medida em que proporcionam o diálogo com um grande número de pessoas em ambiente privado. Isso poderia, em princípio, gerar um resultado positivo: o efetivo debate entre candidatos e eleitores, aprimorando a formação da opinião e da vontade decisional. No entanto, como afirma Marília Maciel, em estudo a respeito, “o uso de aplicativo de mensagens instantâneas pelos candidatos tem focado no espraiamento de conteúdo, mantendo-se na lógica de comunicação unidirecional que caracteriza as mídias mais tradicionais”. 

 
Tais ferramentas tecnológicas não permitem a ampliação da participação nem a qualificação do debate político. Geram, ao contrário, a instrumentalização dos meios de participação. Ao disparar mensagens sem lastro com fatos ou destituídas de um conteúdo proposicional verdadeiro, a pessoa não se dá conta de que as mesmas foram preparadas e pensadas estrategicamente por grupos de interesses, cuja pretensão não é o esclarecimento ou a reflexão ponderada, mas, sim, a manipulação. 

 
Em 2015, o escritor e filósofo Umberto Eco fez uma declaração polêmica ao alegar que “as redes sociais deram o direito à palavra à uma legião de imbecis que antes falavam apenas em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”. Diante da contemporaneidade do assunto, parece que a frase de Umberto Eco deve ser atualizada. A internet não deu o direito à palavra para as pessoas. Essas, maioria das vezes, sequer fazem uso da palavra, do discurso. Antes, pelo contrário, são meras transmissoras de fake news produzidas em série. Esse esparrame de notícias falsas, sem o mínimo de questionamento, tem potencializado o surgimento de cidadãos apolíticos, transformando a política em uma arena cada vez mais rarefeita e distante de nós. 

Artigo publicado na Folha de Londrina, edição de 19-20/10/2019, e no Jornal Ecos de Sant’Ana, edição 19-20/10/2019. 

Mentir é pecado: os cristãos e a propagação de fake news

Quem frequenta os espaços midiáticos digitais certamente já se deparou com as expressões “fake news” e “pós-verdade”, fenômeno que permeia especialmente as tão populares mídias sociais e atinge o jornalismo. Estas expressões são, contundo, termos sofisticados para definir uma prática muita própria do ser humano: a mentira. 
 
Do Whatsapp ao Facebook, do Twitter ao Youtube, para citar os mais populares, o processo é simples: alguém produz e divulga uma mentira na internet, geralmente no formato de notícia para criar mais veracidade, valendo-se até mesmo de dados científicos adaptados. 
 
Ela é debatida nos espaços das mídias sociais. Torna-se algo reconhecido, com caráter de sabedoria e verdade. Quando a mentira é revelada, há diferentes posturas, que vamos discutir adiante. 
 
Uma das maiores questões que envolvem este fenômeno dos nossos tempos é: por que os indivíduos acreditam e ainda divulgam e consolidam as mentiras da internet? Uma das respostas está na psicologia social. Ainda que constatem a mentira, não abrem mão, pois ela é coerente com seu jeito de pensar, de agir, de estar no mundo, ou lhe traz alguma compensação, conforto. 
 
Isto é o que se chama “dissonância cognitiva”. Ela acontece quando indivíduos têm necessidade de estabelecer uma coerência entre suas cognições (seus conhecimentos, suas opiniões, suas crenças), que acreditam ser o certo, com o que se apresenta como opção de comportamento ou de pensamento. 
 
Para superar a dissonância, e buscar consonância, há duas atitudes: aceitar o que é oferecido e refletir no que deve ser mudado ou rejeitar a opção em nome do que pensam ser “o certo”. 
 
E é aqui que se situa a perspectiva da religião e como os grupos religiosos, especificamente os conservadores, estão propensos não só a assimilar as notícias e ideias mentirosas que circulam pela internet, coerentes com suas crenças, mas a propaga-la, seguir a  “evangelização”, espalhando estas notícias e ideias para que convertam gente ao mesmo propósito. 
 
Não são apenas conservadores que propagam mentiras. Como dito acima, a disseminação de falsidades ocorre entre diferentes grupos ideológicos, intensificando polarizações. Grupos cristãos conservadores parecem, no entanto, ser os mais propensos à propagação, por conta de maior exposição à “dissonância cognitiva”. 
 
Tais grupos são interpelados pelas transformações sociais e políticas que colocam em xeque boa parte de suas convicções alimentadas por uma leitura descontextualizada da fé, e, consequentemente, do mundo. 
 
As notícias e ideias falsas disseminadas por cristãos conservadores são muitas, mas o maior destaque tem sido aquelas relacionadas à chamada “ideologia de gênero”, que pode ser classificada como a mais bem sucedida concepção falsa criada no âmbito religioso. 
 
Surgida no ambiente católico e abraçado por grupos evangélicos distintos, o termo trata de forma pejorativa a categoria científica “gênero” e as lutas por justiça de gênero, atrelando-as ao termo “ideologia”, no sentido banalizado de “ideia que manipula, que cria ilusão”. 
 
A “ideologia de gênero” nesta lógica, é apresentada como uma técnica “marxista”, utilizada por grupos de esquerda, com vistas à destruição da “família tradicional”. 
 
É fato que qualquer tema que levante o assunto “sexo” e “sexualidade” mexe com o imaginário dos cristãos e provoca muitas emoções (tratei disto no artigo “Por que os evangélicos só pensam em sexo?”). É de se considerar também que nos últimos anos, o contexto político brasileiro ressuscitou e realimentou o velho temor do comunismo e do marxismo. Como a maioria nunca leu uma linha das teorias de Karl Marx, vai acreditar nos irmãos de fé que falam de novas técnicas de escravização de mentes. 
 
É fato ainda que os avanços nas políticas que garantem mais direitos às mulheres e aos LGTBs e mais participação deles no espaço público causam desconforto às convicções e crenças de grupos que defendem, por meio de leituras religiosas, a submissão das mulheres e a cura dos LGBTs. 
 
Por isso, para estes grupos, não adianta o trabalho das agências de pesquisa e dos sites que promovem a checagem de informações. 
 
Não adianta que interlocutores, pacientemente, tentem mostrar que o que se divulga é mentira. Isto porque, como vimos aqui, o que sustenta este processo de crença nas mentiras não é apenas a ignorância, mas o fato de que a audiência acredita no que escolhe acreditar. 
 
Quando um grupo se identifica com mentiras, mesmo que elas sejam demolidas em nome da ética e da justiça, permanece com elas e as defende de qualquer jeito. Não importa que seja mentira, a falsidade não é apagada dos espaços virtuais e continua a ser reproduzida. 
 
Mais: aquele que desmascarou a notícia ou a ideia, que pode ser um familiar, amigo ou irmão na fé, chega a ser objeto de desqualificação e rancor. 
 
Resta-nos então apelar para a fé e a conversão dos disseminadores de mentiras pela internet. Ainda mais nos tempos eleitorais que virão por aí. 
 
Dos tantos textos da Bíblia cristã que desaprovam quem propaga falsidades e trazem dura condenação ao pecado da mentira, registro aqui um trecho dos Provérbios, com um chamado à consciência: “Seis coisas aborrecem Deus, e a sétima a sua alma abomina: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que trama projetos iníquos, pés que se apressam a correr para o mal, testemunha falsa que profere mentiras e o que semeia contendas entre irmãos” (Provérbios 6. 16-19).