Alerta de mentira nas redes: Não há registro de apagão ou fraude na contagem de votos das eleições brasileiras

Falso

Em 25 de outubro de 2026, dia do segundo turno das eleições, circulam nas redes digitais informações falsas sobre o sistema eleitoral brasileiro. Publicações e imagens compartilhadas nas mídias sociais e em grupos de apoiadores do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) questionam a integridade dos resultados das eleições no primeiro turno e na última eleição presidencial, e alegam que houve queda de energia nos órgãos responsáveis pela contabilização dos votos. Outros conteúdos que levantam suspeitas sobre a contabilização dos resultados das eleições também voltam a circular. Essas publicações questionam, por exemplo, como a soma dos votos em senadores da esquerda pode ser menor que a soma dos votos recebidos pelo candidato à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Imagem: Publicação do influenciador Eduardo Cyrino, no Instagram 6, out. 2026

O que já circulou e o que o TSE refutou

Este tipo de mentira não é nova. Em 2022, vídeos falsos circularam com teorias de que hackers teriam invadido o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e manipulado os resultados, de que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) teria ficado uma hora sem votos totalizados a seu favor e de que militares brasileiros, com a ajuda de hackers russos, teriam impedido a vitória de Lula e ordenado ao então presidente do TSE Alexandre de Moraes que houvesse segundo turno. Outros vídeos afirmavam que um apagão de energia teria possibilitado a manipulação da contagem de votos em favor do candidato Lula.

Na época, a circulação das notícias falsas foi verificada e refutada no portal oficial do TSE, com o apoio de veículos de checagem, como o Fato ou Boato. Em texto publicado em 29 de outubro de 2022, o tribunal reuniu as principais notícias falsas que circularam após o primeiro turno das eleições daquele ano. Boa parte das mentiras tinha como alvo o sistema de totalização, como a alegação de que um algoritmo determinaria os percentuais dos candidatos e de que o sistema teria travado ao receber os votos do Nordeste. O TSE explicou que os Boletins de Urna são processados conforme chegam, sem ordem predefinida de regiões, e que não houve interrupção nem problema técnico.

Também foram desmentidas as versões de que hackers russos teriam descoberto um esquema, travado a totalização em 96% e acionado o Exército, e de que a mensagem “Confira seu voto” faria com que o voto não fosse computado. Segundo o TSE, o sistema funcionou sem intercorrências, representantes das Forças Armadas apenas visitaram a sala de totalização, assim como outras entidades fiscalizadoras, e a mensagem serve para evitar enganos.

Outros conteúdos desmentidos pelo TSE envolviam análises equivocadas de dados e casos isolados. A diferença entre o número de eleitores aptos e o de votantes apenas para presidente, apontada como fraude em vídeos, é explicada pela existência de eleitores com transferência temporária de seção, que, em outro estado, só puderam votar para presidente. 

Os casos de pessoas que votaram no lugar de outras, no Rio de Janeiro e em Manaus, foram atribuídos a erros humanos de mesários ou de eleitores, registrados em ata e resolvidos. O TSE reforçou o treinamento dos mesários para o segundo turno. 

Já a alegação de que a Polícia Federal (PF) teria encontrado urnas com votos previamente inseridos é uma mentira reciclada de 2018, refutada pelo TSE, por agências de checagem e pela própria PF.

Há registro de apagões na contagem dos votos?

Bereia verificou que no primeiro turno de 2026, em 4 de outubro, não houve registro de apagão de energia na contagem do TSE, mas houve uma pane de cerca de uma hora na divulgação dos resultados, que alguns veículos chamaram de “apagão”. Segundo o ministro presidente do TSE Kassio Nunes Marques, o painel ficou sem atualizar por um congestionamento de dados, e a apuração e a totalização não foram afetadas. A totalização nacional para presidente travou em cerca de 64% por volta das 19h e voltou por volta das 20h, já em cerca de 84%. 

O tribunal disse depois que a falha ficou restrita ao módulo que exibe a visão nacional na internet e que uma nova rotina está sendo desenvolvida para evitar repetição no segundo turno. A falta de luz que atingiu seções de 94 municípios do Paraná, por chuvas fortes, não foi relacionada pelo TSE ao atraso. 

O Bereia também verificou que não existem registros que apontem para apagões ou interferências diretas na contabilização e manipulação dos votos durante as eleições de 2018 e 2022. Em texto publicado em seu portal oficial, o TSE afirmou que o sistema de totalização funcionou sem registros de travamento ou qualquer intercorrência, mas não mencionou apagões. A alegação, porém, circulou e foi checada pelo Projeto Comprova, cujo conteúdo foi republicado por veículos como NSC Total, Diário do Nordeste, O Popular e Poder360.

Segundo essas publicações, um vídeo de cerca de seis minutos afirmava que as Forças Armadas teriam descoberto fraudes em 2014 e 2018, provocadas por apagões que alteraram a sequência de divulgação dos votos. O Comprova concluiu que o vídeo enganava, pois não havia evidências de fraude nessas eleições, e o Ministério da Defesa não confirmou ter investigado o tema. 

O NSC Total e o Diário do Nordeste reproduziram a checagem e destacaram que o único apagão apontado foi uma queda de energia de 20 minutos em dez cidades de Roraima, em 26 de outubro de 2014, fora do período de apuração, que começa após o fim da votação, às 17h.

Sobre 2022, o portal Exame registrou, em 2 de outubro de 2022, dia do primeiro turno, que faltou energia por cerca de uma hora em uma seção eleitoral de Santa Maria (DF) e explicou que as urnas continuam funcionando com baterias, conforme o protocolo de contingência do TSE.

Integridade das urnas eletrônicas

De acordo com informações da Agência Senado, as urnas eletrônicas são utilizadas desde 1996, e o TSE afirma que não há registro comprovado de fraude na coleta, apuração e totalização dos votos desde então. A segurança não depende de um único mecanismo: a Justiça Eleitoral realiza mais de 40 processos de auditoria, com a participação de partidos políticos, Ministério Público, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e Congresso Nacional. 

Antes das eleições, os sistemas são inspecionados, têm o código-fonte disponibilizado para fiscalização, passam por testes públicos de segurança e recebem assinaturas digitais e hashes na cerimônia de lacração, o que permite verificar sua autenticidade e integridade.  Cada urna também tem chaves criptográficas próprias para assinar seus resultados.

Durante a votação, a urna funciona de forma isolada, sem conexão à internet, Wi-Fi ou Bluetooth, e não tem hardware para isso. Ao final, imprime o Boletim de Urna (BU) e grava o resultado em uma mídia, que segue para a totalização por meio de uma rede exclusiva da Justiça Eleitoral. A urna também armazena o Registro Digital do Voto, que permite refazer a contagem em auditorias e recontagens. O Teste de Integridade, que compara os votos de cédulas de papel digitados na urna com o resultado registrado por ela, ganhou, em 2024, uma modalidade com biometria.

A urna tem bateria própria e pode continuar funcionando em caso de falta de energia. Também existem alternativas previstas para locais de difícil acesso. O texto da Agência Senado destaca que o presidente do TSE Kássio Nunes Marques e o presidente do Senado Davi Alcolumbre (União-AP) defendem a transparência e a confiabilidade do trajeto denominado “Caminho do Voto”.

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Bereia classifica como falso o conteúdo que usa supostos apagões de energia para questionar a integridade da contabilização dos votos, pois ele contraria os registros oficiais e as checagens já realizadas. Como apurado, não há registros de apagões ou interferências que tenham alterado a contagem nas eleições de 2018 e 2022. O único apagão apontado em checagens anteriores ocorreu fora do período de apuração, e a falta de energia em seção eleitoral é prevista pelo protocolo de contingência, já que as urnas funcionam com bateria. Além disso, o TSE afirma que não há registro comprovado de fraude desde a adoção das urnas eletrônicas, em 1996, e o sistema é submetido a mais de 40 processos de auditoria.

Bereia recomenda que leitores e leitoras não compartilhem publicações que questionem op sistema eleitoral e os resultados sem antes consultar o portal do TSE e as checagens de veículos especializados, como o Bereia.

Foto: Saulo Cruz/Agência Senado

Referências

TSE.  https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2022/Outubro/fato-ou-boato-justica-eleitoral-desmentiu-as-principais-fake-news-sobre-o-processo-eleitoral-em-2022. Acesso em: 25 out. 2026.

https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Outubro/presidente-do-tse-conclui-1o-turno-das-eleicoes-2026-e-projeta-mesma-tranquilidade-para-segunda-fase-do-pleito. Acesso em: 25 out. 2026.

https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Outubro/saiba-como-foi-a-totalizacao-dos-votos-no-1o-turno-das-eleicoes-2026. Acesso em: 25 out. 2026.

AGÊNCIA SENADO. https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/09/16/urna-eletronica-veja-como-funciona-e-como-o-voto-e-protegido. Acesso em: 25 out. 2026.

DIÁRIO DO NORDESTE. https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/pela-palavra/nao-ha-provas-de-fraudes-em-apagoes-nas-eleicoes-de-2014-e-2018-ao-contrario-do-que-afirma-post-1.3259892. Acesso em: 25 out. 2026.

O POPULAR. https://opopular.com.br/politica/n-o-ha-provas-de-fraudes-em-apag-es-nas-eleic-es-de-2014-e-2018-ao-contrario-do-que-afirma-post-1.2497479. Acesso em: 25 out. 2026.

PODER360. https://www.poder360.com.br/eleicoes/post-engana-ao-dizer-que-houve-fraude-nas-urnas-em-2014-e-2018/. Acesso em: 25 out. 2026.

NSC TOTAL. https://www.nsctotal.com.br/?p=2345187. Acesso em: 25 out. 2026.

https://www.nsctotal.com.br/?p=2391150. Acesso em: 25 out. 2026.

CORREIO BRAZILIENSE. https://www.correiobraziliense.com.br/holofote/2022/10/5042742-exercito-nao-interferiu-na-apuracao-dos-votos-para-presidente-no-dia-da-eleicao-ao-contrario-do-que-diz-video.html. Acesso em: 25 out. 2026.

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https://www.aosfatos.org/noticias/dialogo-falso-moraes-engenheiro-oracle-fraude-2022/. Acesso em: 25 out. 2026.

EXAME. – https://exame.com/brasil/e-possivel-votar-quando-acaba-a-luz-durante-as-eleicoes-entenda/. Acesso em: 25 out. 2026.

EMPORIO DO DIREITO. https://emporiododireito.com.br/leitura/votos-brancos-e-nulos-contam-na-apuracao-das-eleicoes. Acesso em: 25 out. 2026.

DIÁRIO DE PERNAMBUCO.  https://www.diariodepernambuco.com.br/noticia/brasil/2020/11/plenario-do-tse-confirma-suspensao-da-eleicao-em-macapa.html. Acesso em: 25 out. 2026.

EIXOS. https://eixos.com.br/tre-do-amapa-pede-adiamento-das-eleicoes-na-capital/. Acesso em: 25 out. 2026.

PROJETO COMPROVA. https://projetocomprova.com.br/publica%C3%A7%C3%B5es/nao-ha-provas-de-fraudes-em-apagoes-nas-eleicoes-de-2014-e-2018-ao-contrario-do-que-afirma-post/ Acesso em: 25 out. 2026.

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