Ataques ao sistema eleitoral brasileiro continuam circulando pelas redes sociais, com políticos eleitos entre os principais veiculadores. Em 28 de outubro passado, o deputado federal católico Marcos Pollon (PL-MS), destacado representante da pauta armamentista na Câmara Federal, publicou um vídeo repetindo mentiras já conhecidas sobre o sistema eleitoral, com afirmações, sem provas, que houve fraude nas eleições de 2026. O vídeo chegou ao 142 mil visualizações até o fechamento desta matéria.
“Mas o fato é o seguinte: a fraude é tão bem-feita que sequer o voto impresso resolveria. Não tem como provar. E pra deixar bem claro, não sou nem eu que vou explicar que fraude é essa, é o Gilmar Mendes”, diz o parlamentar.
Marcos Pollon usa o trecho de uma declaração do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes que fala sobre a figura do “mesário pianista”, que votaria no lugar de eleitores que não compareceram às urnas. Na declaração dada em 2018, o ministro havia apontado que as vulnerabilidades do sistema de votação já eram de conhecimento da Justiça Eleitoral e que medidas estavam sendo tomadas para resolvê-las. Gilmar Mendes ressaltou, ainda, que esse tipo de fraude foi identificado em regiões isoladas e não apresentava relevância estatística.
O mesmo recorte da fala de Gilmar Mendes já havia sido usado para contestar o resultado das eleições de 2022, o que foi desmentido pela Justiça Eleitoral à época.

Imagem: captura de tela de publicação de Marcos Pollon no Instagram
Biometria coíbe fraude citada por Gilmar Mendes
O recorte maldosamente usado no vídeo de Marcos Pollon omite o trecho em que o ministro destaca que Justiça Eleitoral trata a vulnerabilidade com abertura e cita a implementação da coleta da biometria da impressão digital dos eleitores como solução.
De acordo com a Justiça Eleitoral, mais de 88% dos eleitores têm sua identificação biométrica cadastrada, o que reforça a segurança do processo do voto. Desse modo, a primeira forma de identificação do eleitor é por seu documento com foto, que deve ser apresentado obrigatoriamente.
A identificação biométrica é feita em seguida e, se após quatro tentativas o eleitor não for identificado, a urna só é liberada para votação pelo ano de nascimento do eleitor, informação que não consta no caderno usado pelos mesários.
No atual vídeo para criticar as eleições de 2026, o deputado Marco Pollon afirma que o único jeito de resolver o problema do “mesário pianista” é ter câmeras em todas salas de votação ou ter fiscais em todas as urnas. “São quase 500 mil urnas, a gente precisa montar um exército de 500 mil fiscais. E a hora é agora”, afirma.
O parlamentar ignora que os mecanismos atuais coíbem fraudes e impedem que outra pessoa vote no lugar do eleitor. Quando a biometria do eleitor não é identificada, a imagem da impressão digital não reconhecida do eleitor e a digital do mesário que habilitou o voto ficam gravadas na urna para uma posterior verificação.

Imagem: Reprodução da foto de Fernando Frazão/Agência Brasil
Atualmente, fiscais escolhidos pelos partidos políticos, coligações e federações já acompanham a votação e a apuração das eleições nas seções eleitorais. De acordo com as regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os fiscais podem examinar os documentos de identificação dos eleitores, assinar relatórios emitidos pela urna eletrônica (como a Zerésima e o Boletim de Urna), formular protestos e acompanhar a auditoria de funcionamento das urnas.
Assim, os fiscais não podem interferir nas atividades dos mesários, dar ordens aos integrantes da mesa receptora ou manipular equipamentos e materiais eleitorais. Também é proibido que eles entrem na cabina de votação para acompanhar o voto, fotografar a escolha dos eleitores ou praticar qualquer ato que comprometa o sigilo do voto.
Flávio Bolsonaro pediu extensão do horário de votação
Após usar maldosamente o recorte de fala antiga do ministro do STF Gilmar Mendes, o deputado do PL questiona o motivo de o horário de votação ter sido prorrogado, insinuando que teria relação com o tipo de fraude que a biometria não permite. Como noticiado pelo Bereia, o Supremo Tribunal Federal (STF), por meio deliberação do ministro Cristiano Zanin, determinou que a votação do segundo turno, no domingo, 25 de outubro, fosse prorrogada até as 19h do horário de Brasília.
A decisão atendeu aos pedidos das campanhas de Lula (PT) e de Flávio Bolsonaro (PL) ao TSE, para prorrogação do horário de votação por conta da redução de frotas de ônibus em várias cidades e das chuvas que atingiram diferentes regiões e impediam o acesso de eleitores aos locais de votação. Os pedidos foram encaminhados no início da tarde ao TSE.
Nenhum dos pedidos foi decidido pela Corte Eleitoral antes do encerramento da votação. Segundo integrantes do TSE ouvidos pelo portal Vero Notícias, o presidente do tribunal se absteve de decidir e aguardou o posicionamento do STF.
Diante dos fatos, as afirmações do deputado Marcos Pollon são infundadas e insustentáveis e se mostram como uma tentativa de gerar desconfiança nos seus seguidores sobre o resultado das eleições.
Vídeo antigo de Flávio Dino retirado de contexto
O deputado do PL também usa no vídeo publicado o trecho de uma fala de outro ministro do STF, Flávio Dino, também retirado de contexto para gerar dúvidas sobre a segurança das urnas. O recorte é da gravação de uma participação de Dino, então deputado federal (PCdoB-MA) no programa Expressão Nacional, em outubro de 2010. Na ocasião, Flávio Dino afirma haver necessidade de aprimorar o sistema de urnas eletrônicas.
No recorte usado pelo deputado federal, Flávio Dino diz que, após as 17h, os mesários verificam quais eleitores não compareceram, usam o número do título de eleitor para liberar a urna e votam como se fossem os ausentes. Trata-se do mesmo formato de fraude mencionado pelo ministro Gilmar Mendes, em anos anteriores, e que é impossibilitado pelo modelo atual, que usa a biometria e o ano de nascimento do eleitor para liberar a urna para votação.
Na ocasião em que foi gravada a fala de Flávio Dino, ocorriam as eleições de 2010, que foram as primeiras a exigir a apresentação de um documento de identificação com foto na hora de votar. Antes de citar a possibilidade de fraude, Flávio Dino diz que a exigência de apresentar um documento oficial com foto foi um acerto que inibe as fraudes, fala que foi cortada na montagem de Marcos Pollon.
Na sequência da gravação, o então deputado federal do PCdoB do Maranhão afirma que o passo seguinte seria a Justiça Eleitoral retirar do caderno de votação o número do título de eleitor, que supostamente seria usado para liberar a urna e facilitaria a ocorrência de irregularidades.
Quem é Marcos Pollon
Marcos Pollon (PL-MS) é deputado federal pelo Mato Grosso do Sul, eleito em 2022 como o parlamentar mais votado do estado. Nas eleições de 2026, foi reeleito com 140 mil votos. Advogado e fundador da Associação Nacional Movimento Pró Armas (AMPA), é um dos representantes da pauta armamentista no Congresso Nacional.
O Monitoramento Legislativo da Plataforma Religião e Poder, do Instituto de Estudos da Religião (ISER) mostra que a atuação do parlamentar também inclui iniciativas contrárias a políticas de demarcação de territórios indígenas. Apenas em 2025, Marcos Pollon apresentou 21 Projetos de Decreto Legislativo (PDLs) para tentar suspender atos do governo federal relacionados ao reconhecimento e à proteção de territórios indígenas.
Católico, Marcos Pollon integra as frentes parlamentares católica e evangélica, e propôs aumentar as penas para crimes contra o sentimento religioso, com punição específica para ataques à hóstia católica.
Em agosto de 2025, Marcos Pollon participou da ocupação da Mesa Diretora da Câmara dos Deputados por parlamentares da oposição. O protesto começou em 5 de agosto e impediu a retomada dos trabalhos legislativos

Imagem: Marcos Pollon ocupa cadeira de Hugo Motta na Mesa Diretora da Câmara ao lado de Marcel van Hattem (Novo-RS) / Captura de tela de vídeo da TV Câmara no Youtube
Entre as reivindicações dos oposicionistas estavam a votação de uma proposta de anistia aos condenados pelos ataques de 8 de janeiro de 2023, com tentativa de golpe de Estado, e medidas contra o ministro do STF Alexandre de Moraes. O movimento também ocorreu em reação à prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro, determinada pelo STF.
Em dia 6 de agosto, quando o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), tentou reassumir a condução dos trabalhos, Pollon estava sentado na cadeira destinada à Presidência da Casa, impedindo temporariamente que Motta ocupasse seu lugar. O episódio foi registrado em imagens do plenário e motivou uma representação por quebra de decoro parlamentar.
Em maio de 2026, o Conselho de Ética da Câmara aprovou a suspensão por 60 dias do mandato de Marcos Pollon e de outros parlamentares envolvidos na ocupação da Mesa Diretora. Em junho do mesmo ano, o Conselho de Ética aprovou uma segunda suspensão de 60 dias, motivada por declarações ofensivas contra Hugo Motta durante uma manifestação em Campo Grande (MS), em agosto de 2025.
O deputado recorreu das decisões e elas aguardam análise da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

Imagem: deputados Marcos Pollon, Zé Trovão e Marcel van Hattem em Conselho de Ética da Câmara / Reprodução de Lula Marques/Agência Brasil
Referências
Agência Brasil
Justiça Eleitoral
Youtube – Supremo Tribunal Federal
https://www.youtube.com/watch?v=3Ods1_cvKNI&t=466s Acesso em 29 de out 2026
Youtube TV Câmara
https://www.youtube.com/watch?v=rS7yibxb98s Acesso em 30 de out 2026
Aos Fatos
https://www.aosfatos.org/noticias/video-gilmar-mendes-mesario-pianista/ Acesso em 29 de out 2026
Consultor Jurídico
Congresso Em Foco
Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas
Vero Notícias
Hubpolítico
https://hubpolitico.com.br/perfil/marcospollon Acesso em 30 de out 2026
Plataforma Religião e Poder

