Após o debate entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), realizado em 23 de outubro, na Rede Globo de TV, diferentes checagens foram divulgadas por veículos consolidados e por veículos alinhadas à direita.
Bereia verificou que algumas checagens favoreceram a candidatura de Flávio Bolsonaro, enquanto outras apontam que o candidato apresentou maiores taxas de uso de informações imprecisas e fatos falsos.
O criador de conteúdo Diego Ungari, formado em Direito pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e mestre em Administração, Organizações e Esfera Pública, publicou em seu perfil do Instagram uma análise das checagens promovidas por três veículos especializados – Agência Lupa, Aos Fatos e Estadão Verifica – e dois que atuaram exclusivamente no debateI – ICL Notícias e Ranking dos Políticos. Ungari aponta que as checagens da Lupa, do Aos Fatos e do Estadão Verifica utilizam como referência os parâmetros da International Fact-Checking Network (IFCN), enquanto o ICL Notícias, que foi mais favorável a Lula, e o Ranking dos Políticos, que foi mais favorável a Flávio Bolsonaro, estão fora dos critérios da rede. O Ranking dos Políticos, inclusive, é uma das iniciativas que se autodenominam parciais em seu próprio site.
A Rede Internacional de Checagem de Fatos (IFCN, na sigla em inglês), vinculada ao Instituto Poynter, foi fundada em 2015 e conecta mais de 170 organizações de checagem em todo o mundo, por meio de capacitação, eventos e colaboração. Seus parâmetros, seguidos pelo Bereia, contemplam imparcialidade, transparência das fontes, transparência de financiamento, transparência de método e correções abertas.
O que disse a Lupa
A Agência Lupa checou 43 afirmações de Lula e Flávio Bolsonaro, 16 do primeiro e 27 do segundo. Concluiu que Lula repetiu um erro sobre o Produto Interno Bruto (PIB) ao dizer que a economia não crescia acima de 3% desde 2010. Lula também atribuiu o “Tigrinho” ao governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), embora as apostas tenham sido autorizadas em 2018, durante o governo do ex-presidente Michel Temer (MDB), e exagerou ao dizer que acabou com a fome em 2012.
Flávio repetiu a falsidade de que Lula é o “pai do Tigrinho”, a edição enganosa da “cervejinha” e do roubo de celulares e a negação de que Jair Bolsonaro debochou de quem estava com falta de ar, além de dizer que vai “criar” a Casa da Mulher Brasileira, que existe desde 2013. A Lupa ainda classificou como “insustentáveis” três falas de Bolsonaro, entre elas a dos falsos $ 30 milhões do Banco Master para o filme de Lula, por falta de provas do pagamento.
Das afirmações de Lula, 50% foram consideradas verdadeiras, 18,8% foram feitas sem contexto, 12,5% foram falsas, 12,5% subestimadas e 6,3% exageradas.
Das de Flávio Bolsonaro, 18,5% foram consideradas pela Lupa verdadeiras, 29,6% foram feitas sem contexto, 22,2% foram falsas, 18,5% exageradas e 11,1% insustentáveis.
Como a Lupa checou mais falas de Flávio e cada checagem tem peso diferente, os percentuais mostram a distribuição das classificações neste debate e não quem “mentiu mais” no geral.
Aos Fatos
O Aos Fatos checou 46 afirmações em tempo real, 23 de cada candidato. O texto lista apenas manchetes, sem classificações formais como as da Lupa, então os percentuais abaixo são uma classificação do Bereia, feita a partir delas.
Entre as falas de Lula, a maioria foi confirmada como verdadeiras, como o recorde de exportações, os 700 novos mercados agrícolas, os 33,1 milhões de pessoas em insegurança alimentar grave e a taxa básica de juros (Selic) em 13% quando assumiu o governo. O principal erro foi dizer que a economia não cresceu acima de 3% após 2010, pois o PIB ultrapassou essa marca em 2011, 2021 e 2022. Ele falou a verdade sobre ter herdado muitas obras paradas que herdou: disse seis mil, mas subestimou este número, já que o Tribunal de Contas da União (TCU) contabilizava 8.603 em abril de 2023.
Flávio teve mais afirmações contraditas pelo Aos Fatos, como o número de obras paradas no governo Lula (4.215, e não 11.500); o Auxílio Brasil de R$ 600, quec foi concedido apenas no fim do governo Bolsonaro; a afirmação falsa de que Lula é o “pai do Tigrinho” e a Casa da Mulher Brasileira, que já existe.
Ele acertou ao falar da dívida bruta de R$ 11 trilhões e do aumento da população em situação de rua. Outras falas foram imprecisas, como as relativas às milícias, já que há evidências de ligação.
No total, 73,9% das falas de Lula (17) foram confirmadas, 17,4% (quatro) foram imprecisas ou sem contexto e 8,7% (duas) foram consideradas falsas ou enganosas. Entre as de Flávio Bolsonaro, 43,5% (dez) foram falsas ou enganosas, 39,1% (nove) foram imprecisas ou sem contexto e 17,4% (quatro) foram confirmadas. Como a classificação é do Bereia, ela pode diferir da dos checadores. Além disso, o Aos Fatos escolhe quais afirmações verificar, de modo que os percentuais descrevem este debate, não quem “mentiu mais” no geral.
Estadão Verifica
O Estadão Verifica checou 44 falas, 22 de cada candidato, e utiliza etiquetas próprias, como “falso”, “enganoso”, “exagerado” e “falta contexto”. A página foi atualizada em 24 de outubro, e a checagem das obras paralisadas citadas por Flávio Bolsonaro, antes considerada verdadeira com base em dados de 2025, passou a ser classificada como falsa com o dado de abril de 2026, de 4.215 obras.
Nas afirmações de Lula, foram confirmadas as exportações recordes, a fala de Bolsonaro sobre o “bolsa farelo” e o voto isolado do senador contra a licença-maternidade. Foram consideradas falsas as afirmações de que há fotos de Flávio Bolsonaro com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro (o que existem são áudios), de que Jair Bolsonaro é o “pai do Tigrinho” (ele não regulamentou a prática). A afirmação sobre o PIB foi classificada como enganosa.
Nas afirmações de Flávio, foram classificadas como falsas as que dizem ser Lula o “pai do Tigrinho”, as obras paralisadas, o deboche de Jair Bolsonaro com a falta de ar e a “cervejinha” com roubo de celulares. Foram consideradas enganosas as falas sobre o pedágio zero, que vale apenas para novas concessões federais, e o Bolsa Família de R$ 600, cuja proposta partiu do Congresso e não do governo Bolsonaro à época. Ele acertou ao falar da carga tributária recorde e dos juros reais elevados.
Pela contagem do Bereia no Estadão Verifica, das afirmações de Lula, 36,4% foram verdadeiras (oito), 18,2% foram oferecidas sem contexto (quatro), 13,6% foram exageradas (três) e 18,2% foram falsas ou enganosas (quatro). Das de Flávio Bolsonaro, 22,7% foram falsas (cinco), 22,7% foram expressas sem contexto (cinco), 18,2% foram verdadeiras (quatro), 18,2% foram enganosas (quatro), 13,6% foram imprecisas (três) e 4,5% exageradas (uma). Somadas, as categorias falsa e enganosa representam 18,2% das falas de Lula e 40,9% das de Flávio.
ICL Notícias
O ICL Notícias, que realizou a checagem ao vivo com Eduardo Moreira e André Janones, acompanhada de comentários de jornalistas do canal, deu veredito explícito a 12 falas: quatro de Lula e oito de Flávio. As demais, como as relativas à “cervejinha”, ao “pai do Tigrinho” e à casa de R$ 10 milhões, aparecem apenas como relatos do debate, sem classificação.
Lula teve quatro falas classificadas como “verdadeiras”, entre elas a sociedade de Flávio com Willer Tomaz, baseada na suspeita da Polícia Federal (PF) encaminhada ao Supremo Tribunal Federal (STF), e a de que o salário mínimo seria inferior a R$ 900 sem os governos do PT. Flávio teve seis afirmações classificadas como “falsas”, como a de que Lula “mora em palácio”, a de que ele “massacra o agro”, diante do Plano Safra de R$ 622 bilhões, e a negação do deboche de Jair Bolsonaro com a falta de ar. Duas foram consideradas “imprecisas”: a falta de dipirona nas UBSs (responsabilidade das Prefeituras) e a afirmação de que “está tudo mais caro”.
Pela avaliação do Bereia, 100% das afirmações checadas de Lula (quatro de quatro) foram verdadeiras. Entre as de Flávio, 75% (seis de oito) foram falsas e 25% (duas de oito) imprecisas. A amostra é pequena e desequilibrada, pois nenhuma afirmação de Lula recebeu etiqueta negativa, de modo que os percentuais não são comparáveis aos da Lupa, do Aos Fatos e do Estadão Verifica, que checaram entre 22 e 43 falas por veículo.
Também há divergências: o Estadão Verifica considerou inconclusiva a afirmação sobre a sociedade de Flávio Bolsonaro com Willer Tomaz, enquanto o ICL a classificou como verdadeira. A própria página mostra que o canal está em disputa com a campanha de Bolsonaro, que pediu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a retirada de 241 publicações de três veículos, entre eles o ICL. Esse contexto deve ser considerado na leitura das classificações.
Ranking dos Políticos
O Ranking dos Políticos checou 137 afirmações, 63 de Lula e 74 de Flávio, e deixou 21 falas de fora da contagem, entre promessas, perguntas e ataques pessoais. O veículo utiliza apenas três etiquetas: verdadeira, imprecisa e falsa.
Entre as afirmações de Lula classificadas como falsas estão a de que a transposição do Rio São Francisco é a “maior obra hídrica em funcionamento no mundo”, a de que o “Tigrinho” foi criado em 2022 e a de que a economia não cresce acima de 3% desde 2010. Foram imprecisas as seis mil obras herdadas e o superávit de “85 bilhões de reais”, que seria em dólares. Entre as de Bolsonaro, foram falsas a “cervejinha” e a afirmação sobre juros reais de 20% no Plano Safra. Foram consideradas imprecisas, entre outras, o Bolsa Família de R$ 600 e o “nunca fui investigado por milícia”.
Das afirmações de Lula, 44,4% foram consideradas verdadeiras (28), 41,3% imprecisas (26) e 14,3% falsas (nove). Das de Bolsonaro, 64,9% foram verdadeiras (48), 28,4% imprecisas (21) e 6,8% falsas (cinco). O Ranking conclui que 55,6% das falas de Lula e 35,1% das de Flávio apresentaram algum problema. Esse resultado é o oposto do observado nas checagens da Lupa, do Aos Fatos e do Estadão Verifica, que apontaram mais problemas nas falas de Flávio Bolsonaro.
Parte da diferença está na classificação de cada afirmação. O Ranking considerou verdadeira a fala de Flávio sobre as mais de 11.500 obras paradas no governo Lula, enquanto o Estadão Verifica e o Aos Fatos a classificaram como falsa, com base no dado de abril de 2026. O Ranking também considerou verdadeira a versão de que Jair Bolsonaro criticava a orientação de esperar pela falta de ar, enquanto os outros quatro veículos classificaram essa fala como falsa. Além disso, o Ranking utiliza apenas três classificações e checou mais afirmações, o que dilui os conteúdos problemáticos entre um número maior de declarações verdadeiras. Por isso, esses percentuais não podem ser usados para determinar quem “mentiu mais” no geral.
Posicionamentos e uso dos dados de forma parcial
O Metrópoles também publicou avaliações sobre o debate. Colunistas do portal deram notas aos candidatos, e a média mostra um cenário dividido: Lula recebeu notas altas de Reinaldo Azevedo (oito), Igor Gadelha (nove) e Matheus Leitão (oito), enquanto Tiago Pavinatto deu nota nove a Flávio e apenas um a Lula. Entre os pontos mais comentados estão o momento em que Flávio chamou Lula de “nove dedos” e precisou se desculpar, e o erro de Flávio Bolsonaro ao chamar a mãe da menina Ana Clara pelo nome da filha. Lula foi criticado por falar demais do passado e elogiado por pautar o adversário em temas como Vorcaro e licença-maternidade.
A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) produziu uma arte para divulgar a matéria do Metrópoles como se fosse uma posição do veículo. No entanto, o conteúdo reúne opiniões individuais de colunistas, cada um com seu próprio olhar e sua própria nota, e não representa necessariamente um direcionamento editorial do Metrópoles.

Perfis de direita têm compartilhado checagens do Ranking dos Políticos como forma de apoiar seus posicionamentos. Contudo, não destacam nem explicam os métodos utilizados nas verificações ou o posicionamento parcial do veículo. Bereia checa este ponto em nota específica.
Como aponta Ungari, é necessário estar atento às informações e verificar se as classificações se baseiam em métodos transparentes e critérios consistentes, como os estabelecidos pela IFCN.
O Bereia compilou em notas específicas as checagens das afirmações de Flávio Bolsonaro e de Lula no debate de 23 de outubro.
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Referências
Agência Lupa: Na Globo, Lula repete erro sobre PIB; Flávio faz acusações falsas e já desmentidas contra petista
https://www.agencialupa.org/checagem/2026/10/23/ao-vivo-checagem-do-ultimo-debate-entre-lula-e-flavio-bolsonaro-no-segundo-turno/ Acesso em 24 out 2026.
Aos Fatos: Checamos Flávio Bolsonaro e Lula no debate da Globo
https://www.aosfatos.org/noticias/checamos-flavio-bolsonaro-lula-debate-globo/ Acesso em 24 out 2026.
Estadão Verifica: Debate na TV Globo: checagem em tempo real
https://www.estadao.com.br/estadao-verifica/debate-tv-globo-checagem-tempo-real-ao-vivo/ Acesso em 24 out 2026.
ICL Notícias: Começa o debate entre Lula e Flávio Bolsonaro com checagem do ICL
https://iclnoticias.com.br/comeca-o-debate-entre-lula-e-flavio-bolsonaro-com-checagem-do-icl-siga/ Acesso em 24 out 2026.
Ranking dos Políticos: Checagem do debate Lula e Flávio Bolsonaro na Globo
https://ranking.org.br/artigos/checagem-debate-lula-flavio-bolsonaro-globo-2-turno-2026 Acesso em 24 out 2026.
Metrópoles: Flávio Bolsonaro ou Lula? Colunistas analisam quem venceu o debate da Globo
https://www.metropoles.com/brasil/flavio-bolsonaro-ou-lula-colunistas-do-metropoles-analisam-quem-venceu-debate-da-globo-veja-notas Acesso em 24 out 2026.
Poynter (IFCN): Sobre
https://www.poynter.org/about/ Acesso em 24 out 2026.
Diego Ungari (perfil no Instagram): análise das checagens do debate
https://www.instagram.com/p/De4HzgxxgWH/ Acesso em 24 out 2026.


