Religião se transformou em um dos principais espaços de disputa política nas eleições deste ano
O primeiro turno da eleição presidencial de 2026 foi encerrado com uma constatação que já vinha se desenhando ao longo da campanha: no Brasil, a disputa pelo voto também passou pela fé. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), historicamente associado ao eleitorado católico e que terminou o primeiro turno com forte desempenho entre esse segmento. Do outro, o senador Flávio Bolsonaro (PL), que avançou para o segundo turno mobilizando de maneira significativa o eleitorado evangélico. Os números ajudam a dimensionar essa divisão. Pesquisa Datafolha divulgada antes da votação apontava Lula com 50% das intenções de voto entre católicos, enquanto Flávio Bolsonaro alcançava 52% entre evangélicos. No resultado das urnas, Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula.
A fé como identidade política em 2026
A religião ganhou centralidade não apenas nos discursos dos candidatos, mas também nas redes sociais, nos grupos de WhatsApp e nas estratégias de comunicação política. Pesquisa Iser/Quaest mostra que os evangélicos representam atualmente 29% da população brasileira, enquanto os católicos correspondem a 50%. O levantamento também aponta que 66% dos entrevistados utilizam o WhatsApp como espaço de articulação de comunidades e grupos religiosos.
Na prática, isso significa que a influência religiosa não depende necessariamente de uma orientação explícita dentro de um templo. Ela pode circular por vídeos, mensagens, influenciadores, familiares e lideranças. Foi nesse ambiente que temas como aborto, costumes, família, liberdade religiosa, cristianismo e até símbolos nacionais passaram a ser utilizados como instrumentos de mobilização eleitoral principalmente pela direita. A figura da madrasta Michelle Bolsonaro foi amplamente utilizada para consolidar a conexão com as mulheres cristãs e reforçar o discurso de proteção da família tradicional.
O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) afirmou que a promessa de “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo” se refere a uma oração simbólica, e não a uma medida com efeitos legais, em uma tentativa de conter o desgaste político entre o eleitorado católico na reta final da campanha de 2026. A declaração original do senador havia sido feita durante uma transmissão ao vivo em agosto. No entanto, o assunto voltou a repercutir intensamente nas redes sociais e na imprensa, as quais alegavam erroneamente que o parlamentar pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título oficial de padroeira do Brasil. Em nota enviada por sua equipe, o candidato desmentiu o boato e reforçou seu respeito a todas as religiões e expressões de fé.
Nossa Senhora Aparecida no debate eleitoral
A reta final do primeiro turno das Eleições 2026 foi marcada por uma intensa disputa narrativa envolvendo Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, transformando o símbolo católico no centro de uma complexa crise que mobilizou a imprensa, o Judiciário e campanha política. O caso evidencia como desinformação e interpretações distorcidas moldam o debate eleitoral na última semana de campanha.
A controvérsia teve início em 24 de setembro, após um comentário da jornalista Maria Cristina Fernandes no programa “Em Pauta”, da GloboNews. A analista reportou que lideranças católicas temiam a articulação de setores evangélicos para retirar o título de padroeira nacional da santa. Embora a jornalista não tenha mencionado o candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL), conteúdos nas redes sociais passaram a associar enganosamente o senador a um projeto de lei com esse objetivo. Posteriormente, a emissora corrigiu a informação, esclarecendo que a proposta citada (PL 2.623/2007) foi apresentada em 2007 por um ex-deputado do PMDB-MT e acabou arquivada em 2008.
O episódio escalou rapidamente para a esfera jurídica e institucional envolvendo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) chegou a ordenar a remoção de conteúdos que exploravam o tema, mas a decisão foi posteriormente derrubada pelo Supremo Tribunal Federal. E foi além: o imbróglio coincidiu com orientações de bispos católicos sobre o voto e com problemas técnicos de acesso da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) à sua conta oficial na plataforma X.
O primeiro turno ficou marcado por se tratar não apenas de convencer o eleitor sobre um programa de governo – planejamento de segurança pública, saúde ou educação –, mas de apresentar determinado candidato como alguém que protegeria ou ameaçaria valores e símbolos considerados sagrados por parte da população.
Evangélicos não são um bloco eleitoral unânime
Apesar da forte associação entre o bolsonarismo e setores do evangelicalismo, os dados eleitorais mostram que o segmento está longe de ser homogêneo. A própria pesquisa Iser/Quaest aponta diferenças importantes dentro do eleitorado evangélicos relacionados a renda, escolaridade e outros fatores sociais. A religião influencia valores e identidades, mas não determina automaticamente o voto.
Essa diversidade também apareceu nas eleições proporcionais. Levantamento do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) identificou 445 candidaturas com referências religiosas no nome de urna em 2026. Desse total, 56,6% estavam em partidos classificados como de direita, 21,8% na esquerda e 21,6% no centro.
A política entrou no templo e saiu dele pelas redes
A campanha política tem encontrado outros caminhos. Na era digital, influenciadores religiosos, páginas de conteúdo cristão, grupos de WhatsApp e perfis de candidatos passaram a ocupar ainda mais um espaço que tradicionalmente pertencia ao púlpito mas já abria muitas brechas ao convencimento eleitoral.
A campanha eleitoral de 2026 mostrou que a mensagem política pode chegar ao fiel sem que um pastor ou padre precise fazer uma declaração explícita durante um culto ou missa. É uma mudança importante: a disputa religiosa da política brasileira deixou de depender exclusivamente das instituições religiosas e passou a ser travada também no ambiente digital. Algo que foi facilmente percebido e orquestrado pelo Partido Liberal (PL) nesse primeiro turno.
Essa etapa das eleições deixou evidente que a religião continuará sendo um dos principais campos de batalha do segundo turno. Lula e Flávio Bolsonaro agora precisam disputar não apenas votos, mas também narrativas sobre quem representa determinados valores religiosos e morais. O desafio, entretanto, será evitar que uma população religiosamente diversa seja tratada como um eleitorado único.
O Brasil não tem apenas católicos de um lado e evangélicos do outro. Há evangélicos progressistas e conservadores, católicos de esquerda e de direita, pessoas sem religião, espíritas, religiões de matriz africana e diferentes tradições religiosas convivendo no mesmo espaço político.
A eleição de 2026 mostrou que a fé tem peso eleitoral. Mas também revelou que nenhuma igreja, denominação ou liderança possui o monopólio da consciência política de seus fiéis. Mais do que uma guerra entre religiões, o primeiro turno revelou uma disputa pela interpretação da própria identidade religiosa brasileira.
E, na corrida do segundo turno, essa disputa já continua.
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Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil


