Flávio Bolsonaro repete em debate mentira sobre voto de presidiários

Desde a divulgação do resultado do primeiro turno das Eleições 2026, uma rede de perfis nas redes digitais, alinhados à direita extremista, passou a divulgar que o candidato à reeleição à Presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teria vencido com folga nas seções eleitorais instaladas em presídios. As publicações apresentam o resultado como suposta prova de manipulação dos votos e relação com a criminalidade.

Durante o primeiro debate presidencial das Eleições de 2026 que aconteceu no domingo, 18 de outubro passado, na Rede Bandeirantes de TV, o então senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ), provocou Lula afirmando que durante o primeiro turno ele teria sido eleito por “aclamação nos presídios”. Bolsonaro reforçou o estigma contra presidiários ao questionar o telespectador se ele quer ter o mesmo voto que o “ladrão que rouba o seu celular”. 

Bereia já checou que, embora os números apresentados sejam verdadeiros, as afirmações do candidato à presidência são enganosas: posicionamento de Flávio Bolsoanro e a forma como ele circula nas mídias de notícias e de apoiadores omitem quem são os presos com direito a voto. De acordo com a legislação, apenas os presos provisórios, sem condenação criminal definitiva.

O que dizem os perfis nas redes

Perfis alinhados à direita extremista, incluindo influenciadores, páginas de conteúdo político, apoiadores de Flávio Bolsonaro e o próprio candidato já vinham transformando, mais uma vez, a votação nas unidades prisionais em tema de campanha.

O mesmo conteúdo já havia circulado nas eleições municipais de 2024, quando o portal Pleno.News destacou a votação do candidato à Prefeitura da cidade de São Paulo, Guilherme Boulos (PSOL), em presídios e unidades socioeducativas de São Paulo, para levar seguidores a acreditarem que o candidato teria ligação com criminosos. Na ocasião, o Bereia apontou que, embora os dados estivessem corretos, a matéria omitia o contexto de que apenas 484 pessoas votaram nessas unidades e que somente presos provisórios, ainda não julgados, têm direito ao voto. A abordagem, poderia reforçar estereótipos sobre a população encarcerada e associar sua imagem a determinados setores políticos, como acontece novamente em  2026.

Em 2026, nas eleições à  Presidência da República, o conteúdo tem sido atualizado para se afirmar que “Lula venceu em todos os presídios” ou que houve uma “votação maciça do PT entre presos”. Porém,  no contexto atual é trazida uma novidade, a de que os conteúdos sugerem que a votação seria artificial, resultado de manipulação nas seções especiais ou de alguma vantagem indevida concedida ao candidato.

A circulação dessas alegações começou logo após a divulgação do resultado do primeiro turno, em 4 de outubro passado, e se intensificou nas semanas seguintes. Vídeos, capturas de tela de tabelas e postagens passaram a destacar o desempenho de Lula nas seções prisionais, apresentado como algo negativo ou suspeito.

Os dados são divulgados em falas, textos e vídeos, mas recebem um enquadramento que trata o voto de pessoas presas como uma possível irregularidade, em vez de contextualizá-lo como exercício de um direito previsto na legislação brasileira. Em vez de explicar quem pode votar nesses locais e quais são as condições para participar da eleição, as publicações exploram o tema como um assunto polêmico, ligando o atual presidente da República à criminalidade e irregularidade, como campanha eleitoral negativa.

O conteúdo circula principalmente em mídias sociais como X, Instagram, TikTok e Facebook, além de grupos de WhatsApp. A repetição das mesmas alegações por diferentes perfis contribui para ampliar a repercussão desse discurso.

Quem pode votar em presídios e como funciona

Como o Bereia já havia checado em 2024, a Constituição Federal estabelece, no artigo 15, que a suspensão dos direitos políticos ocorre, entre outras hipóteses, em caso de condenação criminal transitada em julgado, enquanto durarem seus efeitos. Isso significa que pessoas presas provisoriamente, que ainda não foram julgadas, mantêm seus direitos políticos, incluindo o direito ao voto. A possibilidade também alcança adolescentes acima de 16 anos, com direito a voto,  submetidos a medidas socioeducativas de internação.

A Lei Antifacção, também denominada Lei Raul Jungmann, aprovada pelo Congresso Nacional, em vigor desde março de 2026, incluiu a vedação ao alistamento eleitoral e ao voto de todas as pessoas presas. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), porém, suspendeu esse trecho por entender que a mudança violava o princípio da anualidade eleitoral, que impede alterações nas regras eleitorais a menos de um ano do pleito. Com a decisão, o voto de presos provisórios foi mantido nas eleições de outubro de 2026; a proibição integral poderá entrar em vigor a partir de 2027.

Na prática, a Justiça Eleitoral instala seções especiais em estabelecimentos penais e unidades de internação, além de realizar procedimentos de alistamento e transferência de títulos eleitorais. A participação, no entanto, é restrita: para votar, a pessoa presa provisoriamente precisa estar com a situação eleitoral regular e ter solicitado o alistamento ou a transferência dentro do prazo estabelecido, encerrado em maio passado, para as Eleições 2026.

Há ainda obstáculos operacionais, como a quantidade limitada de seções instaladas, a exigência de um número mínimo de eleitores e a falta de documentação pessoal de parte da população carcerária. Nas eleições nacionais de 2022, cerca de 3% dos presos provisórios, aproximadamente 12,9 mil pessoas, votaram. Em 2014, uma iniciativa coordenada em São Paulo criou seções com exigência mínima excepcional para adolescentes, enquanto foi mantido o piso de 50 eleitores para presos provisórios.

Resultados das votações em presídios

Os números apresentados para o primeiro turno de 2026 indicam que todos os candidatos receberam votos em unidades prisionais, com Lula tendo recebido mais votos.

IndicadorResultado
Seções classificadas no primeiro turno245
Seções com votos apurados e individualizados243
Seções com resultados agregadosduas
Votos válidos11.190
Eleitores aptos14.959
Comparecimento11.679 (78,07%)
Lula8.118 votos (72,55%)
Flávio Bolsonaro2.605 votos (23,28%)
Augusto Cury177 votos
Ronaldo Caiado168 votos
Renan Santos73 votos
Seções vencidas por Lula214
Seções vencidas por Flávio Bolsonaro24
Seções vencidas por Caiadouma
Seções com empatequatro
Fonte: Dados TSE/ Quadro elaborado pelo Bereia

A interpretação desses dados exige considerar dois aspectos: o primeiro é o tamanho do eleitorado: são cerca de 11 mil votos válidos, um universo muito reduzido diante do total de votos contabilizados nacionalmente. O segundo é a composição desse eleitorado, formado por pessoas que, apesar de estarem privadas de liberdade, provisoriamente, mantêm os direitos políticos por não terem sido julgadas.

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A palavra do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro em debate televisivo, repete as publicações que já vinham sendo monitoradas pelo Bereia que são enganosas e desqualificam os direitos políticos das pessoas presas provisoriamente. Ao apresentar o voto desse grupo como uma irregularidade ou aspecto de criminalidade, perfis e veículos da direita extremista transformam um direito previsto na legislação em algo a se rechaçar. 

Além disso, estas postagens criam suspeita sobre os votos nos presídios,  em número restrito, serem objeto de manipulação criminosa, o que não tem qualquer base factual comprobatória. Elas servem apenas para campanha eleitoral negativa além de diminuírem a existência de seres humanos que são alvo de acompanhamento e apoio espiritual de grupos religiosos.

Referências

Agência Senado. Com proibição suspensa pelo TSE, presos provisórios votarão em 2026. https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/09/11/com-proibicao-suspensa-pelo-tse-presos-provisorios-votarao-em-2026. Acesso em 17 out 2026.

Rádio Senado. TSE mantém direito de voto para presos provisórios nas eleições de 2026. https://www12.senado.leg.br/radio/1/noticia/2026/04/24/tse-mantem-direito-de-voto-para-presos-provisorios-nas-eleicoes-de-2026. Acesso em 17 out 2026.

Ministério Público Federal, Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo. Direito de voto dos presos provisórios. https://www.mpf.mp.br/atuacao/eleitoral/pre-sp/cidadao/grandes-temas/direito-de-voto-dos-presos-provisorios.  Acesso em 17 out 2026.

Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Dados abertos: Eleitorado por local de votação, 2026. https://cdn.tse.jus.br/estatistica/sead/odsele/eleitorado_locais_votacao/eleitorado_local_votacao_2026.zip. Acesso em 17 out 2026.

Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Dados abertos: Votação por seção eleitoral, 2026. https://cdn.tse.jus.br/estatistica/sead/odsele/votacao_secao/votacao_secao_2026_BR.zip
Acesso em 17 out 2026.

Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Dados abertos: Detalhe da apuração por seção eleitoral, 2026. https://cdn.tse.jus.br/estatistica/sead/odsele/detalhe_votacao_secao/detalhe_votacao_secao_2026.zip. Acesso em 17 out 2026.

Plantão Bereia nas Eleições: Mentira sobre voto digital foi patrocinada e impulsionada pela Meta

A informação falsa de que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) disponibilizou o voto digital circula pelas mídias sociais neste 4 de outubro, dia de primeiro turno das eleições. A única forma de voto existente no Brasil é presencial, por meio das urnas eletrônicas disponibilizadas nos colégios eleitorais sem conexão com a internet. Não há qualquer informação oficial do TSE sobre mudanças na forma de votação.

Reprodução/Mídias Sociais

O conteúdo falso, checado pelo Bereia, usa identidade visual do TSE e afirma que a medida foi tomada para que chuvas, ventos e enchentes não impeçam que a população vote. A publicação com informações falsas foi impulsionada pela Meta, empresa dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, como anúncio pago.

A publicação também oferece um link para uma página falsa que usa o termo “Autoatendimento” em referência ao serviço “Autoatendimento do Eleitor” do Tribunal Superior eleitoral, mas o endereço não possui vínculos com a Justiça Eleitoral.

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Referências

Tribunal Superior Eleitoral (TSE)

https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Setembro/manual-do-eleitor-veja-como-se-preparar-para-a-votacao

https://www.tse.jus.br/servicos-eleitorais/autoatendimento-eleitoral#

Bereia Explica: O dia de votar está chegando! Saiba como agir para denunciar abuso religioso nas eleições

Nove em cada dez brasileiros ligados a uma religião discordam que haja campanha eleitoral dentro dos templos. É o que mostra a pesquisa Religião e Vida Pública no Brasil, do Instituto de Estudos da Religião (ISER), realizada em parceria com a Quaest. O levantamento ouviu presencialmente 15 mil pessoas em diferentes regiões do país, e a recusa à campanha no templo é parecida entre católicos, evangélicos e fiéis de outras religiões.

Na prática, porém, a mesma pesquisa mostra que a orientação de voto ainda chega aos bancos das igrejas. Os pesquisadores identificaram casos de líderes religiosos indicando candidatos na eleição presidencial de 2022, sobretudo em segmentos evangélicos. Entre pentecostais, grupo que reúne denominações como Assembleia de Deus, Igreja Universal e Quadrangular, 23% relataram ter recebido indicação de voto em Bolsonaro. Na Igreja Universal, 27% disseram que o pastor recomendou o voto em Bolsonaro e 12% afirmaram ter sido orientados a votar em Lula. A indicação também circula fora do templo: um em cada cinco entrevistados participa de grupos ou comunidades religiosas nas redes sociais.

Para a coordenadora da pesquisa, a antropóloga Lívia Reis, a igreja funciona como uma rede de confiança, em que informações compartilhadas por líderes e membros podem influenciar escolhas políticas, mas a insistência na indicação de candidatos também pode afastar fiéis. É para enfrentar esse descompasso entre o que os fiéis desejam e o que acontece nas celebrações, que o Bereia preparou um roteiro para registro e encaminhamento de denúncias de instrumentalização eleitoral de atos religiosos.

O texto não é uma lei nem uma norma da Justiça Eleitoral. É um guia baseado na legislação sobre como colher informações de forma organizada, proteger quem denuncia e repassar os casos à assessoria jurídica ou ao Ministério Público Eleitoral. O Bereia explica a seguir os principais pontos.

Roteiro para registrar e encaminhar denúncias de uso eleitoral de atos religiosos

1. Quem está envolvido e onde aconteceu

A igreja e o local: informe o nome do templo, igreja, instituição religiosa, associação ou entidade envolvida, o endereço completo, a cidade, o CNPJ (se souber) e a qual igreja, denominação ou convenção ela pertence.

Os responsáveis e os candidatos: informe o nome e a função de líderes, pregadores, padres, pastores, ministros e administradores, e diga se algum deles ocupa cargo público. Diga claramente qual candidato, partido ou coligação foi favorecido ou atacado, para qual cargo e em qual eleição. Explique também quanta liderança ou influência essas pessoas têm sobre a comunidade presente.

Quantas pessoas foram atingidas: estime quantas pessoas estavam presentes e explique como chegou a esse número. Informe o alcance de transmissões por rádio, TV, redes sociais ou plataformas de vídeo. Descreva o perfil da comunidade e diga se a mesma prática se repetiu em outros eventos, celebrações ou canais de comunicação.

2. O que aconteceu, em detalhes

Quando e onde: informe a data, o horário e quanto tempo durou o ato (mesmo que aproximadamente). Diga qual era o objetivo anunciado do encontro, quem organizou e se a entrada era livre ou restrita. Descreva se aconteceu presencialmente (templo, espaço comunitário ou evento) ou pela internet (redes sociais, transmissões ao vivo ou grupos de mensagens).

O que foi dito e a propaganda feita: registre com as palavras exatas o que foi dito em sermões, homilias, orações, avisos ou discursos, incluindo o que veio antes e depois. Anote pedidos diretos para votar ou não votar em alguém, números de candidatos, frases de campanha e entrega de santinhos ou outro material impresso. Separe com cuidado o que você viu e ouviu pessoalmente do que outras pessoas contaram. Diga quem estava no altar, púlpito ou palco.

Quando o ato religioso vira campanha: conte em detalhes como o culto, a missa ou a celebração foi transformado em ato político ou comício, se houve propaganda dentro da igreja ou em suas dependências e se a autoridade moral ou espiritual do líder foi usada para influenciar o voto dos fiéis. Atenção: a simples presença de um candidato no local, ou falas que expressam apenas fé e convicção pessoal, não são ilegais por si só. Para haver irregularidade, é preciso mostrar abuso, ligação concreta com a eleição e gravidade nos fatos.

Pressão, ameaça ou troca de favores: registre se houve exigência de apoio ou participação na campanha, cobrança para repassar mensagens ou comprovar o voto; ameaças de condenação moral, de afastamento da comunidade, de perda de funções na igreja ou de corte de ajuda social; e promessas de bênçãos ou de benefícios materiais (cestas básicas, transporte ou emprego) em troca do voto. Anote as palavras exatas usadas e a consequência anunciada.

Se a prática continua: verifique se os atos continuam, se foram marcadas novas reuniões sobre o tema, se há cobranças frequentes em grupos e canais de comunicação ou outras pressões previstas para os próximos dias.

3. Fontes e provas

Quem está contando e quem mais viu: registre a ligação de quem denuncia com o local (membro da igreja, visitante ocasional ou vizinho). Confirme com precisão quem falou, qual candidatura foi promovida ou atacada e se houve pedido de voto. Identifique as testemunhas, o que cada uma viu e ofereça a elas formas seguras de contato.

Materiais e registros: guarde de forma organizada vídeos, áudios, prints de mensagens, convites, santinhos, e-mails e comprovantes de gastos. Guarde também gravações feitas por quem denuncia (esse tipo de prova é aceito pela Justiça Eleitoral), fotos com data e local, links e transmissões ao vivo, indicando quem registrou, quando e como.

Como guardar as provas sem perder valor: mantenha os arquivos no formato original, evitando enviá-los por aplicativos que comprimem as mídias e apagam informações como data e local. Salve os links anotando data e hora. Guarde vídeos e áudios completos, sem cortar trechos e sem publicar nas redes. No caso de conteúdo digital, faça prints que mostrem o número ou a conta que enviou, a data, as visualizações e compartilhamentos, o tamanho do grupo e se a conta é pessoal ou da instituição.

Ligação com a campanha e uso da estrutura da igreja: reúna informações que mostrem se a direção da entidade autorizou, pagou ou participou diretamente; se veículos, imóveis, doações, organização ou recursos da instituição foram usados em favor de candidatos; e o que o próprio candidato ou sua equipe fez, como discursos, entrega de material de campanha, pagamento de despesas ou divulgação oficial do evento.

4. Urgência

O que torna o caso urgente: proximidade da eleição, propaganda contínua em espaço religioso, risco de que postagens ou vídeos sejam apagados e risco à segurança de quem denuncia. Práticas em andamento, celebrações já marcadas, ameaças feitas e risco de corte de ajuda social devem ser comunicados na hora e enviados imediatamente à assessoria jurídica, mesmo que ainda faltem provas.

5. Como encaminhar a denúncia

Casos de propaganda eleitoral irregular em espaços religiosos podem ser comunicados à Justiça Eleitoral por meio do aplicativo – Pardal, que permite o envio de fotos, vídeos e áudios para subsidiar a apuração.

Denúncias também podem ser encaminhadas ao Ministério Público Eleitoral, especialmente quando houver propaganda ilegal, pressão, ameaça ou tentativa de obrigar alguém a votar em determinado candidato.

Fontes:

Constituição Federal, art. 5º, VI, art. 14, § 9º, art. 19
Lei nº 9.504/1997, art. 37, caput e § 4º
Tribunal Superior Eleitoral, Resolução do nº 23.610/2019, art. 19, caput e § 2º
Lei Complementar nº 64/1990, art. 22

Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

    Votando com sentido

    Acordei na segunda feira, 31 de outubro de 2022, com  a sensação de espanto e a surpresa dos sobreviventes. As eleições haviam acontecido e o Brasil tinha novo presidente.  O ar parecia mais puro e era possível respirar.  O medo se fazia longínquo e a vida retomava seu curso.  Lula era o presidente. 

    O tempo que precedeu esta segunda-feira foi de muita dor. O estresse era geral e agudo.  As pessoas viviam tensas  e  amedrontadas.  E de que tinham medo?  Que o pesadelo que já durava quatro anos continuasse.  E seguisse.  E se perpetuasse.  

    As mensagens de ódio e violência se sucediam na internet, amigos rompiam relações, familiares se afastavam.  A divisão – sinal claro e inequívoco segundo a Bíblia cristã do sufocamento do Espírito da paz, da alegria e do amor – reinava impune, separando, fragmentando e destruindo. 

    Na véspera do pleito, o fôlego e o alento eram artigos raros, luxo para poucos.  A ansiedade fazia o ar espesso e irrespirável.  Nada parecia fazer sentido na angústia de não dar certo o imenso esforço de tantos para superar o momento vivido que se arrastava. O horizonte em vez de aproximar-se, fazia-se mais distante e fugidio. O desânimo se agigantava e crescia a letargia que não permitia esboçar sequer um gesto, um suspiro, pronunciar uma palavra. 

    À noite, decidida a tentar dormir, fui olhar pela última vez o computador. Ali tudo mudou.  Li as palavras: “Honre os mortos com seu voto”.  “Vote por eles e por elas”.  “680 mil pessoas não são um número.” E tudo começou a fazer sentido. Não, não era possível que tudo aquilo tivesse sido em vão.  Não era possível que o desprezo  e o pouco caso que foi cuspido em cima da dor de mães, de filhos e filhas, de irmãos e irmãs, pudessem vencer.  Não era possível que os mortos que não puderam ser chorados e homenageados permanecessem insepultos e que sua memória fosse uma e outra vez pisoteada e escarnecida pela insensibilidade cruel que tomou conta do país durante e após a pandemia, ceifando, além de vidas, a dignidade e a honradez dos sobreviventes. 

    O que foi dito ao profeta Ezequiel diante dos ossos ressequidos em que se tinha transformado a casa de Israel enquanto atravessava o exílio foi repetido a meus ouvidos: “Filho do homem, poderiam esses ossos retornar à vida?”  Sentia-me tão desprovida de fé quanto o profeta, mas a pergunta era insistente. E o coração escutava mais que os ouvidos. 

    Foi então que aconteceu uma profunda comunhão.  Eu não estava mais sozinha, debatendo-me com um voto em cuja eficácia não acreditava.  Comigo estavam eles e elas.  O padre jovem e dedicado, colega de docência, que morreu logo no começo da pandemia porque não abriu mão de distribuir alimento para os pobres de sua paróquia.  A mãe da amiga que disse à filha na porta do hospital “Fala para seu pai não se preocupar não.  Já já volto para casa”.  E nunca mais foi vista nem ouvida pelo esposo desolado e pela filha em prantos.  A menina de 15 anos que a televisão mostrou em foto, ao mesmo tempo em que revelava o desespero dos pais ao saber que não havia resistido ao vírus. 

    Estavam igualmente os médicos cuja face já fazia uma unidade indissolúvel com a máscara cirúrgica e que, às vezes,  não suportavam e choravam.  Ou caíam doentes eles também. E eram levados junto a seus pacientes para o misterioso país das lágrimas, deixando atrás o grito de dor e o desespero impotente dos seres queridos. Estavam todos, uns e outros, eles e elas.

    E os que queriam abrir os caixões, os que se debruçavam sobre eles, fechados sobre os rostos amados.  E os que sufocavam em Manaus enquanto o oxigênio não chegava.  E os que se deitavam no chão das enfermarias porque leitos não mais havia.

    E a enfermeira Mônica, que qual nova Eva, deu à luz a esperança, filha menor do Bom Deus ao receber em seu braço a primeira picada salvadora da vacina graças à teimosia de um governador que enfrentou as forças do mal.  

    Votar por eles e por elas.  Com eles e com elas.  Isso tinha sentido, fazia todo sentido. Realizar o gesto de pressionar a tecla que se uniria a tantas outras e que significaria o fim da barbárie e a nova estação da liberdade e do cuidado com a vida. Os mortos não eram destinados à cova escura  como pretendia o discurso abominável de quem os tratou com desdém e frieza.  Estavam vivos e eram multidão.  Eles ganharam essa eleição.  O Brasil nunca poderá pagar a dívida que com eles contraiu. 

    O Deus da vida que permitiu aos ossos dos israelitas exilados readquirir força e vigor fez ouvir sua voz e sentir a força de seu braço no Brasil.  “ Ó meu povo, vou abrir os vossos túmulos;…Sabereis, então, que eu é que sou o Senhor, ó meu povo, quando eu abrir os vossos túmulos e vos fizer sair deles, quando eu colocar em vós o meu espírito para vos fazer voltar à vida…”

    Com todos esses filhos do povo brasileiro, votamos com sentido.  Que o Senhor da vida nos permita, a partir de agora, viver com sentido, experimentando em nossa boca o agridoce sabor da liberdade e reconstruir a memória e a alma desta combalida nação. 

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    Imagem de capa: TSE/Divulgação

    * Os artigos da seção Areópago são de responsabilidade de autores e autoras e não refletem, necessariamente, a opinião do Coletivo Bereia