Pouco mais de um mês após matar a golpes de facão a esposa Auriscléia Lima do Nascimento, 25 anos, na comunidade Campo Alegre, zona rural de Capixaba (AC), o pastor evangélico Natalino do Nascimento Santiago, 50, tornou-se réu por feminicídio e duas tentativas de homicídio. Segundo a denúncia do Ministério Público do Acre, além de assassinar a companheira, ele feriu o filho dela e o cunhado. O histórico do acusado inclui condenações anteriores por homicídio e estupro. O caso traz novamente à tona o tema pouco enfrentado dentro das igrejas: a violência de gênero que atravessa espaços de fé.
O Brasil é um país onde a religião ocupa lugar central na vida cotidiana e pode, sim, funcionar como rede de apoio, acolhendo e oferecendo suporte jurídico a mulheres em situação de violência doméstica. Porém, o mesmo ambiente pode se converter em barreira, quando é pedido para a mulher que ore e sustente a relação em nome indissolubilidade do casamento, em vez de romper o ciclo abusivo. Uma realidade tanto de comunidades evangélicas como católicas.
Os números da quinta edição do relatório Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública/Datafolha de 2025, reforçam a urgência desse debate específico. Entre as brasileiras que se declaram evangélicas, 42,7% relataram ter sofrido violência por parceiro íntimo ou ex-parceiro ao longo da vida; entre as católicas, o índice é de 35,1%. O recorte religioso dialoga com outra informação relevante: a população evangélica atinge cerca de 26,9%, de acordo com o Censo 2022 do IBGE.
Dentro de certas comunidades, mulheres que tentam denunciar agressões esbarram em discursos teológicos que naturalizam o sofrimento feminino e demonizam a separação. É nessa hora que o Movimento Evangélicas pela Igualdade de Gênero (EIG) se insere como espaço de acolhimento a partir de uma perspectiva de fé libertadora. “A violência de gênero e de raça/etnia, assim como a violência política e doméstica, perpassam ambientes religiosos com diversas nuances. Hoje sabemos que as mulheres evangélicas são as que mais sofrem violência doméstica no Brasil, sendo que, entre elas, as negras e residentes em periferias são as maiores vítimas”, afirma a teóloga e doutora em Ciências da Religião Lauana Flor, integrante do EIG.
“É possível entrelaçar debates e promover construções coletivas que dialoguem com vivências religiosas e espiritualidades diversas, para enfrentar as múltiplas formas de violência, inclusive as religiosas e espirituais, que atingem meninas, mulheres cis, travestis e mulheres trans”, analisa a teóloga, que ainda lembra sobre a importância da Área 44, do Ministério da Educação e Cultura (MEC), que trata de Teologia e Ciências da Religião, como espaço legítimo para falar sobre democracia, laicidade do Estado e experiências cotidianas.
A pastora e pesquisadora Lívia Carvalho, membra do EIG, reforça o dado do Fórum de Segurança Pública que aponta a religiosidade cristã como um ambiente onde “há inúmeros registros de violência contra a mulher” e defende políticas públicas que considerem a espiritualidade como parte da saúde integral feminina. “Acreditamos em um Cristo que traz justiça social e vida abundante, e na manifestação feminina de Deus na figura de Ruah, pois somos feitas à imagem do divino, com direito à dignidade, ao bem-viver e à restauração corporal”.
A atuação do EIG não se restringe à denúncia. Em junho, a organização iniciou uma série de três conferências intituladas Livres, com o objetivo discutir fé, democracia e políticas públicas de gênero que rompam o ciclo da violência dentro das igrejas. A organização pretende levar propostas à 5ª Conferência Nacional de Políticas para Mulheres e compor uma Plataforma Nacional das Mulheres. Antes mesmo da conclusão, integrantes do EIG levaram até a ministra do governo federal da Mulheres Márcia Lopes propostas debatidas no primeiro encontro.
Foto: acervo/EIG
As próximas edições da conferência estão marcadas para os dias 26 de julho e 9 de agosto. “Nossa fé não nos cala, nos move. O Evangelho que seguimos é antirracista, acolhedor e comprometido com a justiça social”, declara a presidenta do EIG, a cientista da Religião Valéria Cristina Vilhena.
Uma vez mais, a ministra do Meio Ambiente e Crise Climática Marina Silva, travou embate com parlamentares ligados ao agronegócio, durante reunião da Comissão de Agricultura, Pecuária e Abastecimento da Câmara dos Deputados, neste 2 de julho passado. O confronto entre governo e oposição já era esperado, mas o novo episódio repetiu cenas de ofensas pessoais vistas em audiências anteriores, com tentativas de desestabilizar a ministra.
Na abertura da audiência, Marina Silva apresentou resultados de sua pasta, entre eles, o menor número de alertas de desmatamento para um mês de junho desde 2018 e queda de 32 % em relação a 2022. Ela reiterou que as ações ocorreram a partir do diálogo com todos os segmentos da produção, sem isolar nenhum.
Contudo, a ministra foi interrompida pelo deputado federal Evair Vieira de Melo (PP-ES) que a acusou de ser ‘adestrada’ e ‘mal-educada’, além de usar “táticas terroristas como as do Hamas e do Hezbollah”. O parlamentar acrescentou que a ministra evangélica, eleita deputada pela Rede-SP, “nunca trabalhou”, deslocando o debate do mérito das políticas ambientais para ataques pessoais.
Adepto ao lema Deus, Pátria e Família, Evair de Melo é vice-líder da oposição e figura próxima de expoentes da direita extremista no Congresso, como Eduardo Bolsonaro e Carla Zambelli. No seu histórico legislativo, o deputado do Partido Progressistas votou a favor do impeachment da então presidente Dilma Rousseff em 2016, apoiou o teto de gastos que restringe políticas públicas (PEC 55/2016), e a diminuição de direitos de trabalhadores com a reformulação a CLT de 2017 (chamada de Reforma Trabalhista) e a redução de direitos de aposentadoria (a chamada Reforma da Previdência) de 2019. Melo é católico e integra a Frente Parlamentar Evangélica da Câmara dos Deputados.
Não é a primeira vez que Marina Silva é alvo de violência política de gênero. Bereia cobriu diversos ataques semelhantes à ministra no período de um ano e identificou um padrão: o parlamentar agressor pertence a partido da direita política, abandona o estilo de manifestação de divergência (o que seria natural em uma discussão política) e personaliza a crítica destruindo a dignidade da autoridade governamental que considera sua oponente. Com isso, atribui-lhe preconceituosamente adjetivos que lhe diminuem a dignidade. No caso mais recente, ao chamar a ministra de “adestrada”, Evair Melo fica sujeito à representação junto ao Conselho de Ética da Câmara
Bereia ouviu a socióloga da religião Maria José do Rosado Nunes, uma das fundadoras da ONG Católicas pelo Direito de Decidir sobre a postura de parlamentares como Evair Melo, nos ataques contra a ministra Marina Silva. Para a professora e pesquisadora, o que acontece no parlamento “é uma decorrência de uma masculinidade tóxica que se dissemina nas relações entre homens e mulheres reproduzidas dentro da família, da igreja e da sociedade como um todo”.
Rosado Nunes explica que “o feminismo entende que a luta por direitos não é setorializada; ela se dá pela perspectiva do bem viver envolvendo todas as relações humanas. Isso inclui o econômico, o social e o cultural”. Por isso se pode avaliar, segundo a socióloga católica, que “a revolta desses machistas tóxicos se dá ainda mais quando a mulher ousa ocupar o lugar que eles não consideram ser o lugar delas, daí a frase já dirigida a Marina Silva pelo senador [Marcos Rogério, PL-RO]:’ponha-se no seu lugar!’”.
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Bereia recomenda a leitura e a aplicação da Cartilha Desinformação: uma das dimensões da violência de gênero e coloca seus canais de contato à disposição para o envio de materiais a que leitores e leitoras tenham acesso e devam ser confrontados com checagem e denúncia de violência de gênero contra pessoas com identidade religiosa.
Bereia levantou os perfis dos dois agressores e da ministra do Meio Ambiente e Mudança no Clima
No final de maio de 2025, a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima Marina Silva, foi alvo de ataques verbais por parte dos senadores Plínio Valério (PSDB-AM) e Marcos Rogério (PL-RO) durante uma sessão da Comissão de Infraestrutura do Senado.
Os episódios, marcados por misoginia e desrespeito, não são casos isolados, mas expressam uma escalada do tensionamento político em torno das pautas ambientais no Congresso. Os dois senadores, ligados à bancada ruralista, têm histórico de confrontos com movimentos socioambientais e reforçam, em seus discursos, uma retórica hostil às políticas de preservação ambiental e de defesa dos povos da floresta.
O convite para participação da ministra Marina Silva na comissão do Senado partiu, formalmente, de um requerimento do senador Lucas Barreto (PSD-AP), sob o argumento de discutir a criação de unidades de conservação marinha na região Norte e seus possíveis impactos sobre a prospecção de petróleo na Margem Equatorial do Amapá. A audiência, rapidamente, deixou de ser um debate técnico e transformou-se em uma armadilha discursiva para desferir ataques pessoais à ministra.
Como parte do compromisso do Bereia com a circulação de informação qualificada sobre religião, foram levantados os perfis dos dois senadores e da ministra envolvidos no caso, diante da repercussão que ele ganhou nas mídias digitais, uma vez que os três têm identidade religiosa.
Marcos Rogério: a face legalista do ruralismo radical
O presidente da Comissão de Infraestrutura do Senado Marcos Rogério iniciou sua trajetória política no PDT. Eleito vereador em Ji-Paraná (RO) em 2008, logo despontou na política estadual. Foi eleito deputado federal, em 2010, e, em 2014, foi o segundo mais votado no estado. Em 2016, trocou o PDT pelo DEM. Em 2018, com a alavancada da extrema direita no processo eleitoral, Rogério alcançou o topo das urnas: foi o senador mais votado de Rondônia, com 324.939 votos (24,06%). Em 2020, ingressou no PL,como fizeram vários apoiadores de Jair Bolsonaro, quando o então presidente da República migrou do PFL para este partido.
Em 2022, foi candidato ao governo de Rondônia e chegou ao segundo turno, mas acabou derrotado por Marcos Rocha (União Brasil). Atualmente, preside a Comissão de Infraestrutura do Senado, cargo que já havia ocupado entre 2019 e 2020.
Marcos Rogério é membro da Frente Parlamentar da Agropecuária e relator de projetos polêmicos, como o PL do Marco Temporal, que busca limitar a demarcação de terras indígenas — proposta considerada inconstitucional pelo STF, mas amplamente defendida por ruralistas. Também articula medidas para flexibilizar normas ambientais, incluindo a tentativa de anular decretos antifogo do governo federal em meio aos recordes de queimadas na Amazônia e no Pantanal.
Articulado com as estratégias políticas que caracterizam a direita extremista no Brasil e em outras partes do mundo, o senador do PL é notório propagador de desinformação em mídias digitais. Bereia já checou declarações de Marcos Rogério durante a CPI da Pandemia, como uso de vídeos fora de contexto sobre cloroquina, alegação enganosa sobre repasses federais, falsa narrativa sobre interferência do STF e manipulação de fala de médicos e governadores.
Plínio Valério: o antiambientalismo que se veste de soberania
Plínio Valério teve uma trajetória política marcada por instabilidade e sucessivas derrotas até conquistar o Senado em 2018. Passou por cinco partidos ao longo da carreira: PDT (1979–2001), PV (2001–2007), PTB (2007–2009), DEM (2009–2011) e, desde então, está filiado ao PSDB. Foi vereador em Manaus por dois mandatos, mas enfrentou diversos fracassos eleitorais: foi derrotado nas disputas para o Senado (2002 e 2006), para a Prefeitura de Manaus (2004), para deputado federal (2010) e para deputado estadual (2014).
Em 2010, assumiu, por nove meses, o mandato de deputado federal como suplente. Sua primeira vitória só veio em 2018, quando, na esteira da consolidação da extrema direita e do discurso antipetista, foi eleito senador pelo Amazonas com mais de 834 mil votos.
Plínio Valério expõe publicamente sua fé como cristão católico:
A atuação política do senador é marcada pela articulação de um discurso nacionalista, com críticas contundentes a organizações não governamentais (ONGs) que atuam na Amazônia. Em 2023, presidiu a Comissão Parlamentar de Inquérito das ONGs, pela qual acusou essas entidades de operarem como “poder paralelo” na região.
O colunista da Agêncioa Pública Rubens Valente explica que a chamada CPI das ONGs, instalada no Senado sob forte influência da direita, foi criticada por não apresentar um fato determinado — requisito básico para sua legalidade — e por ter um escopo tão amplo (21 anos de repasses a centenas de milhares de entidades) que se torna ineficaz e impossível de investigar de forma séria.
A iniciativa, liderada pelo senador Plínio Valério (PSDB-AM), resgatou teorias conspiratórias antigas sobre ONGs na Amazônia e ignorou o papel já desempenhado por órgãos oficiais de fiscalização, como o TCU e a CGU.
Com requerimentos genéricos e convites a figuras negacionistas e ex-gestores ligados ao governo Bolsonaro, a CPI se desenhou como um palco de desinformação, mais preocupada em desgastar adversários do que em apurar irregularidades reais. Dois senadores membros da CPI deviam, à época, R$ 548 mil em multas ao Ibama.
Além disso, segundo investigação da Agência Pública, Valério apresentou, em 1983, cinco requerimentos para pesquisa de ouro em uma área de 5 mil hectares no município de São Gabriel da Cachoeira (AM), região com presença de povos indígenas e reservas ambientais. Todos os pedidos foram rejeitados pela Agência Nacional de Mineração (à época, DNPM) por sobreposição com áreas protegidas. Questionado sobre o caso, o atual senador alegou que os requerimentos teriam sido feitos com “interesse jornalístico”, com o intuito de investigar a atuação de ONGs na Amazônia.
Um relatório do projeto Amazônia Livre de Fake, coordenado pelo Intervozes e outras 14 organizações, apontou o senador Plínio Valério como um dos principais propagadores de desinformação socioambiental na Amazônia Legal.
O antropólogo e professor universitário José Ribamar Bessa Freire, pesquisador renomado da cultura amazônica e das populações indígenas, já foi professor de Plínio Valério e da ministra Marina Silva nos anos 1970 e escreveu duas crônicas contundentes sobre o senador.
Nas crônicas, o professor critica a atuação de Valério na CPI das ONGs, sua retórica agressiva contra ambientalistas e a defesa da pavimentação da BR-319 a qualquer custo. Segundo Bessa, o senador se tornou símbolo de um antiambientalismo que fala em nome da soberania nacional enquanto, na prática, abre caminho para a grilagem, o desmatamento e o lucro fácil de poucos. Ele acusa Valério de ignorar os saberes tradicionais e a ciência, e de promover uma guerra cultural contra a floresta em nome de uma ideia distorcida de “progresso”.
Marina Silva: uma vida entre a floresta, a fé e o fogo cruzado político
Filha de seringueiros do Acre, alfabetizada apenas aos 16 anos e sobrevivente de malária, hepatite e mercúrio, Marina Silva construiu uma das trajetórias mais respeitadas na política ambiental global. Ex-seringueira, formou-se em História, tornou-se vereadora, deputada estadual, senadora e ministra do Meio Ambiente no primeiro governo Lula.
Desde o início, atuou em defesa dos povos tradicionais da floresta e da preservação da Amazônia — enfrentou interesses econômicos poderosos e o escárnio de adversários políticos de todos os espectros.
Durante sua primeira passagem pelo Ministério do Meio Ambiente (2003–2008), no primeiro mandato de Lula na Presidência da República, Marina Silva implementou a mais bem-sucedida política de combate ao desmatamento da história brasileira, derrubando os índices de destruição da floresta com medidas estruturais e articulações interministeriais.
Nas eleições de 2022, rompeu anos de silêncio e se aproximou novamente do então candidato Lula. A ambientalista candidatou-se pela Rede a deputada federal por São Paulo, tendo sido eleita com 237.526 votos.Com a vitória de Lula e a construção do novo governo, Marina Silva aceitou retornar ao governo federal e assumir o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
Marina Silva durante campanha eleitoral de 2022. Foto: Ricardo Stuckert
Apesar de sua trajetória reconhecida internacionalmente — com prêmios como o Goldman Environmental Prize e convites para palestrar em fóruns mundiais de ampla repercussão —, Marina Silva segue sendo alvo frequente de desqualificação no Brasil, da parte de lideranças políticas e outras personagens ligadas ao agronegócio, a hidrelétricas, a mineradoras e outros grupos interessados na exploração predatória do meio ambiente.
A ministra é tratada com frequência como “empecilho ao progresso”, numa inversão retórica que revela a profunda resistência a modelos de desenvolvimento que incluam justiça socioambiental. A Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas, por exemplo, aprovou moção de repúdio a Marina Silva, projeto do deputado estadual Delegado Péricles (PL), que a criticou por considerar que ela representa um empecilho ao desenvolvimento da região.
O episódio na Comissão de Infraestrutura: ataques à Marina Silva e omissão institucional
A audiência da Comissão de Infraestrutura do Senado foi presidida pelo senador Marcos Rogério (PL-RO), em 27 de maio, e o tom do debate escalou rapidamente para a hostilidade quando o senador Plínio Valério (PSDB-AM) passou a questionar duramente a ministra.
Depois de discordar dos dados e argumentos apresentados por Marina Silva, com referência a suposta demora em conceder licenças ambientais, e ouvir da ministra que demandava respeito dos senadores, Valério afirmou: “A mulher merece respeito, a ministra, não”. A frase foi proferida com ironia, num tom acusatório e desdenhoso, o que levou a ministra a pedir a palavra e se retirar da audiência, dizendo: “Eu sou uma mulher, e não admito ser desrespeitada”.
Antes disso, Valério já havia proferido, em 13 de março, durante evento na Federação do Comércio do Amazonas, a seguinte frase: “Tolerar Marina por 6 horas e 10 minutos sem enforcá-la é muito”. Como Bereia checou e alertou leitores e leitoras, o acúmulo de declarações agressivas revela não apenas uma estratégia de desestabilização da interlocutora, mas também uma prática contínua de violência política de gênero.
Durante o episódio na Comissão de Infraestrutura, o presidente da sessão, senador Marcos Rogério, se absteve de intervir para garantir a ordem ou mediar o respeito entre os parlamentares. Ao contrário, reforçou o tom agressivo ao não permitir que a ministra contradissesse afirmações questionáveis dos senadores, ao dizer a ela que“deveria se pôr no seu lugar”. A declaração, amplamente criticada por movimentos sociais e parlamentares progressistas, depois de propagada no noticiário, foi vista como um endosso à violência verbal praticada por Valério.
O líder do governo no Senado Rogério Carvalho (SE) e parlamentares da base, como a senadora Eliziane Gama (PSD-MA) e o senador Randolfe Rodrigues (sem partido-AP), se pronunciaram tanto durante a sessão quanto fizeram publicações, em mídias sociais, em repúdio ao episódio. O presidente Luis Inácio Lula da Silva ligou para a ministra para manifestar apoio e condenar a agressão praticada contra ela.
A sessão evidenciou, mais uma vez, como a pauta ambiental se tornou campo de batalha ideológica no Congresso Nacional — onde o debate técnico é frequentemente substituído por ataques pessoais, negacionismo climático e misoginia explícita. O Código de Ética do Senado prevê sanções para condutas desrespeitosas entre parlamentares — algo que não foi sequer cogitado pela Presidência da Casa, em relação a este caso.
Marina Silva, que já havia sido alvo de campanhas difamatórias em outras gestões, na atual segue como um dos principais focos de hostilidade por parte de parlamentares ligados ao agronegócio, como Bereia já informou.
O conteúdo do material tem como foco dois temas urgentes: a violência de gênero e a desinformação. O esforço se dá diante da escalada de ataques contra parlamentares mulheres que se potencializou nos processos eleitorais a partir de 2018, registrando ataques sistemáticos no ambiente digital.
Ainda que a cartilha não trate da necessidade de regulamentação das redes digitais no Brasil como um caminho para a solução do problema e dos abusos em torno da “liberdade de expressão”, usada como artifício para um “passe livre” na prática de crimes na internet, o material tem conteúdo bastante relevante. A cartilha oferece um amplo espectro de informações que mostra o caminho que os violadores têm percorrido contra mulheres e pessoas LGBTQIA+ e como reagir às violações.
Violência de gênero a desinformação
Em 1993, a ONU aprovou a Declaração para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres durante a sua Convenção sobre Direitos Humanos. No primeiro artigo, essa declaração define o que é a violência de gênero como “qualquer ato violento ligado ao gênero que cause ou possa causar dor ou sofrimento físico, sexual ou psicológico às mulheres, englobando ameaças, coerção ou a privação de liberdade de forma arbitrária, tanto na esfera pública quanto na privada”.
O documento foi criado com o intuito de esclarecer os mecanismos do antigo – porém persistente e arraigado – desafio da violência de gênero, que afeta mulheres e outros grupos que exercem autoridade nas arenas públicas. As campanhas de desinformação, bem como o sexismo e a misoginia direcionados contra as mulheres, normalmente ocorrem em oposição à atuação das representantes políticas. Embora a agressão contra as mulheres seja reconhecida globalmente como uma infração aos direitos humanos, os desafios enfrentados por este grupo continuam a ser uma reação a suas opiniões, resultando em ataques que colocam suas vozes e integridade em risco.
No cenário da desinformação, essa dinâmica se torna ainda mais intrincada, pois quando combinados, a desinformação e a violência de gênero manifestam diversas formas de discriminação que mulheres e indivíduos com outras identidades de gênero enfrentam diariamente.
Bereia já checou muito conteúdo sobre o tema. Lideranças políticas como a ministra do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas Marina Silva, que recentemente sofreu ataques dentro do próprio Senado Federal, e ainda ouviu do presidente da comissão com quem dividia a bancada, que deveria “se pôr no seu lugar”, é alvo frequente.
Além da ministra, são recorrentes os ataques à ex-presidente Dilma Housseff, seja através de memes na internet, recortes de entrevistas ou falas descontextualizadas, colocam a ex-presidente como uma mulher irascível, emocionalmente descontrolada e intelectualmente incapaz. Agressões a outras lideranças políticas também se tornaram conhecidos, como os contra a senadora Eliziane Gama (PSD-MA), a ex-deputada federal Manuela D’Ávila, a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), a deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP), e a vereadora Marielle Franco.
A título de exemplo, essas parlamentares mostram que tipo de perfil atrai os agressores: mulheres em espaços de poder. Quando não foram atacadas com desinformações relacionadas à pauta moral, foram acusadas de serem anticristãs – no caso das que já assumiram uma confissão religiosa evangélica.
Este cenário aponta para um retrocesso em relação à Lei nº 14.192, que trata da violência política de gênero, aprovada no Congresso Nacional, em 2021. A lei busca “prevenir, reprimir e combater a violência política contra a mulher; e altera a Lei nº 4.737, de 15 de julho de 1965 (Código Eleitoral), a Lei nº 9.096, de 19 de setembro de 1995 (Lei dos Partidos Políticos), e a Lei nº 9.504, de 30 de setembro de 1997 (Lei Eleitoral), para dispor sobre os crimes de divulgação de fato ou vídeo com conteúdo inverídico no período de campanha eleitoral, para criminalizar a violência política contra a mulher e para assegurar a participação de mulheres em debates eleitorais proporcionalmente ao número de candidatas às eleições proporcionais”.
Mas afinal, qual a relação entre a desinformação e a violência de gênero?
Em um cenário onde qualquer pessoa online pode enviar mensagens a um vasto público, as plataformas digitais ficam saturadas com conteúdos que não são submetidos a algum tipo de “filtro” avaliativo. A variedade de informações deixa de se preocupar com a imparcialidade, sendo largamente influenciada por perspectivas de indivíduos guiados por interesses políticos ou econômicos. É nesse contexto, que em certas situações, a comunicação nas mídias digitais ainda é afetada por técnicas de publicidade e métodos de manipulação diversas.
A desinformação pode se manifestar de diversas maneiras. Quando se espalham histórias, dados falsos ou enganosos com o intuito de prejudicar mulheres ou discriminar indivíduos com base na sua identidade de gênero. Esse tipo de desinformação pode ser direcionado também contra homens e pessoas de outras identidades de gênero, já que seu objetivo é diminuir a participação na esfera pública e restringir a variedade de vozes e perspectivas, reforçando papeis que historicamente foram atribuídos a homens e/ou mulheres. Assim, qualquer pessoa que se desvie desses estereótipos pode se tornar um alvo desse fenômeno.
A instrumentalização da violência de gênero online
Outro lado da violência de gênero é a divulgação não autorizada de fotos íntimas de mulheres. Embora essa questão não seja recente, sua visibilidade na mídia e sua extensão aumentaram com a capacidade de compartilhamento via internet, e atualmente, se tornaram ainda mais complexas com o uso cada vez maior da inteligência artificial (IA).
Com a popularização do uso da IA, a criação e modificação de imagens ficou mais fácil, resultando em novos episódios de divulgação não consentida de imagens íntimas, frequentemente chamadas de “deepfakes”. A produção e a distribuição de imagens e vídeos íntimos de mulheres são consideradas uma forma de violência de gênero, pois são utilizadas para promover o constrangimento, envergonhando e reafirmando o poder em cenários que ameaçam identidades e papeis tradicionais.
Diante da complexidade do quadro, a desinformação pode ser empregada como um meio para restringir as conquistas alcançadas por mulheres e outros grupos que historicamente enfrentam marginalização dentro da política formal, em diversos locais de influência. Assim, a desinformação pode potencializar a maneira como a propagação de informações falsas impacta negativamente a atividade política e profissional das mulheres, afetando seu bem-estar mental e físico, além de pôr em perigo a segurança de suas famílias.
As várias formas de violência não se restringem apenas a ataques de natureza de gênero, mas também se interligam a outros marcadores sociais da diferença, como etnia, classe social e orientação sexual. Nesse contexto, os conteúdos desinformativos são utilizados como uma tática para deslegitimar as mulheres, colocando direitos já garantidos pela Constituição em questão.
Bereia recomenda a leitura e a aplicação da Cartilha Desinformação: uma das dimensões da violência de gênero e coloca seus canais de contato à disposição para o envio de materiais que leitores e leitoras tenham acesso e devam ser confrontados com checagem e denúncia.
Referências:
Notícias Supremo Tribunal Federal – Guia Desinformação: uma das dimensões da violência de gênero
Uma fala do senador da República Plínio Valério (PSDB-AM) a respeito da ministra Marina Silva repercutiu nas mídias sociais e foi alvo de críticas pelo teor da declaração. No trecho que circula, o parlamentar afirma que a participação da ministra na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das ONGs, em 2023, o fez “querer enforcá-la”. Bereia confirmou a veracidade do recorte e checou o caso.
Imagem: reprodução/Instagram
O vídeo foi gravado durante solenidade realizada pela Federação do Comércio do Amazonas (Fecomércio-AM) no último dia 13 de março, em Manaus. Em pronunciamento na quarta-feira, 19 de março, ao programa “Bom Dia, Ministra”, da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), a ministra repudiou a atitude do senador: “Alguém que é ministra do Meio Ambiente, alguém que, de certa forma, é conhecida dentro e fora do país, tem que ouvir uma coisa dessas de alguém incitando a violência por discordar de alguém, é uma forma de incitar a violência contra uma mulher. Dificilmente, talvez, isso fosse dito se o debate fosse com um homem”. Além disso, a chefe da pasta do Meio Ambiente e Mudanças do Clima, que é evangélica, comentou que esse tipo de atitude é “típica de psicopata”.
Após ser repreendido pelo presidente do Senado Federal Davi Alcolumbre (União-AP) e por senadoras de diversos partidos, em sessão no Plenário em 19 de março, o senador Plínio Valério afirmou: “Eu não excedi, eu brinquei, talvez, fora da hora. Mas não me excedi. Eu passei seis horas e dez minutos tratando [a ministra] com decência, como merece toda mulher”. O parlamentar sustentou que não trata as mulheres mal e que “isso [a acusação de violência contra a ministra] para mim não pega”.
Na noite de 19 de março, o parlamentar fez mais uma menção ao episódio, dessa vez por meio de uma postagem em seu perfil do X. Nela, afirmou que a repercussão negativa da fala está sendo usada para uso político. “Usei figura de linguagem para expressar minha indignação e dos amazonenses com a falta de sensibilidade da ministra Marina Silva, que na CPI das ONGs fez piada com o clamor de meus conterrâneos em ter a BR-139”. No dia seguinte, o senador também emitiu uma nota oficial em que desmentia os adjetivos de machista e misógino: “Minhas divergências são em relação à atuação da ministra Marina Silva, e não à sua pessoa. Peço desculpas, de forma sincera, a todos que se sentiram ofendidos pela minha infeliz colocação”, escreveu.
Imagem: reprodução/X
CPI das ONGs: o que ocorreu entre Plinio Valério e Marina Silva
A CPI das ONGs foi protocolada pelo senador Plínio Valério em outubro de 2019 e instaurada no Senado Federal em abril de 2023. O objetivo registrado era apurar se os repasses de recursos públicos destinados a organizações não governamentais (ONGs) de cunho ambiental estavam sendo utilizados corretamente, para cumprir a finalidade das ONGs.
Plínio Valério foi eleito presidente da comissão, que se encerrou em dezembro de 2023. Marina Silva foi uma das 38 pessoas que prestaram depoimento perante o colegiado. A ministra compareceu à reunião de 27 de novembro, após convocação, e passou as primeiras três horas de depoimento respondendo a questionamentos e indagações do senador Plínio Valério e do relator, senador Márcio Bittar (União-AC).
Na ocasião, o presidente da CPI esteve ao lado da ministra durante as seis horas de depoimento. Dentre as divergências entre os dois está o posicionamento contrário de Marina a obras de pavimentação e restauração na BR-319, que liga Rondônia a Porto Velho e passa por Manaus. Para o senador, a rodovia é vital para a integração da região amazônica com o restante do Brasil, facilitando o escoamento de produtos da Zona Franca de Manaus e o trânsito de pessoas. Ele atribui o elevado número de mortos por covid-19 na Amazônia, durante a pandemia, ao esfacelamento das rodovias da região, que atrasaram a chegada de insumos às vítimas da doença. Já a ministra defende que as obras podem ser prejudiciais à região se não passarem antes por minuciosa avaliação técnica.
Durante a reunião da CPI em que Marina Silva esteve presente, ela afirmou que as obras ainda não foram realizadas devido à dificuldade de provar a viabilidade econômica e ambiental do trecho. Em determinado momento, a ministra comentou que, apesar da importância social da rodovia, “não se faz uma estrada de 400km no meio de floresta virgem apenas para passear de carro, se não estiver associado a um projeto produtivo”. Na gravação, disponível na íntegra no canal da TV Senado no Youtube, não é possível ver a reação imediata do presidente da comissão.
Quem é Plínio Valério?
O senador Plínio Valério, natural de Eirunepé (AM), foi eleito para o mandato de senador pelo estado do Amazonas em 2018. Ele professa a fé católica e, inclusive, afirmou que sua religiosidade não influenciou seu voto na sabatina do ministro André Mendonça para compor o Supremo Tribunal Federal (STF), em 2021. “Acho irrelevante a questão religiosa. Ele é evangélico e sou católico. Acredito em N. Senhora e S. Francisco e isso não influenciará meu voto”, publicou no Twitter (atual X) em 1° de dezembro daquele ano.
Imagem: reprodução/X
Plínio Valério é jornalista, formado pela Universidade Federal do Amazonas. Dentre as pautas defendidas por ele estão o mandato fixo de dez anos e a possibilidade de impeachment para os ministros do STF. Em 2022, o senador cobrou a regulamentação urgente da lei, de sua autoria, que inclui o combate à violência contra a mulher no currículo escolar.
Repercussão da fala destaca violência política de gênero
A fala de Plínio Valério foi destacada como violência política de gênero por parlamentares como a deputada federal Erika Kokay (PT-DF), Tábata Amaral (PSB-SP) e Jandira Feghali (PCdoB-RJ). Em 20 de março, nove deputadas assinaram uma representação ao Conselho de Ética do Senado contra o parlamentar. No documento, afirmam que houve extrapolação dos limites da imunidade parlamentar, e que a fala não pode ser relativizada: “O uso do termo ‘enforcá-la’ direcionado a uma mulher em um contexto de discordância política carrega uma carga simbólica extremamente grave, pois remete à supressão da voz feminina pelo uso da força, à tentativa de desqualificar e intimidar uma liderança política pelo simples fato de ser mulher”
Ainda, a Secretaria da Mulher, da Câmara dos Deputados, emitiu uma nota de solidariedade a Marina Silva. No texto, o órgão representativo da Bancada Feminina ressalta que “quando homens em posições de liderança desrespeitam mulheres publicamente, eles reforçam e validam comportamentos agressivos e misóginos na sociedade, alimentando um ciclo de violência e deslegitimação da participação feminina na política”.
Imagens: reprodução/X
No Brasil, a Lei n° 14.192 de 2021 criminaliza a violência política de gênero e a define como qualquer ação que discrimina, exclui ou restringe o reconhecimento ou o exercício dos direitos e liberdades políticas fundamentais das mulheres. Bereia publicou em março que tanto a desinformação quanto as ofensivas de gênero exemplificam a utilização e a tolerância de ataques misóginos como estratégias políticas contra a oposição, sob a justificativa de configurarem o exercício da liberdade de expressão.
Marina Silva: alvo recorrentede violência política
A ministra do Meio Ambiente e Mudança Climática é alvo frequente de ataques que a desqualificam como mulher e como ministra. Comentários sobre sua aparência são recorrentes na internet, pelo menos desde a sua candidatura à Presidência da República, pelo PSB, em 2014, e seu posicionamento político e autoridade são frequentemente descredibilizados por parlamentares.
Exemplo ainda são os ataques verbais que ela sofre, como ocorreu na sessão na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural, em 2024, quando foi chamada de “adestrada” pelo presidente da comissão, Evair de Melo (PP-ES), ao rebater questionamentos sobre sua atuação na pasta. A ministra também já sofreu agressões verbais de cunho machista pelo ex-governador, ex-ministro e ex-deputado Ciro Gomes (PDT), ao se referir à pré-candidatura dela à Presidência da República, pela Rede Sustentabilidade, em 2017.
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Após checar informações sobre o conteúdo que circulou nas redes digitais, Bereia classifica o vídeo que circula com a fala do senador Plínio Valério como verdadeiro. O vídeo, apesar de ser um recorte do discurso do parlamentar, foi confirmado pelo próprio congressista como sendo intencional. Este tipo de discurso contra mulheres na política é prática recorrente e deve ser informado como violência política de gênero.
Como parte do rito oficial para assumir uma vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal, o ex-Advogado Geral da União e ex-Ministro da Justiça André Mendonça passou por sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado Federal. Durante sua exposição inicial e nas respostas aos senadores, Mendonça fez diversas afirmações, que foram checadas pelo Bereia. Nesta parte da cobertura é apresentado o primeiro dos temas mais destacados.
Violência de gênero
André Mendonça respondeu perguntas da relatora do processo de indicação na CCJ Eliziane Gama (Cidadania/MA), sobre o enfrentamento da violência contra mulheres no Brasil. O sabatinado ressaltou o trabalho dele no governo de Jair Bolsonaro, à frente do Ministério da Justiça e citou operações da Polícia Federal e políticas de aglutinação que incluíram a proteção de crianças e de idosos.
“Como ministro da Justiça, fizemos as maiores operações da história no combate da violência contra a mulher, atuando na vida e na integridade física das mulheres. Agrego a isso grandes operações para proteção de idosos e crianças vítimas de pedofilia. Ressalto, também nesse contexto, que como Ministro da Justiça e Segurança Pública, aprovei um protocolo inovador de investigação de crime de feminicídio, consensuado por todos os órgãos de segurança pública do país e depois submetido à bancada feminina do Congresso Nacional.”
Na conclusão deste bloco de respostas, Mendonça destacou: “Feminicídio (morte por conta do gênero feminino) é um ato covarde. O destrato em relação às mulheres é um ato covarde. Nesse sentido meu compromisso é, diante de situações como essas, aplicar a Lei de forma plena e rigorosa.”
Operação Resguardo
Ao citar ter realizado as maiores operações no combate à violência contra a mulher, quando esteve à frente do Ministério da Justiça e da Segurança Pública, André Mendonça referiu-se à Operação Resguardo, da Secretaria de Operações Integradas, iniciada em 1 de janeiro de 2021 e concluída, simbolicamente, no Dia Internacional da Mulher do mesmo ano. A operação integrou o MJSP com as Unidades da Federação e o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, no combate à violência contra a mulher. Foram investigadas mais de 46 mil denúncias apuradas nos diversos canais municipais, estaduais e federais.
Como resultado, foram registrados mais de 9,1 mil presos, decorrentes de flagrantes e mandados de prisão expedidos pela Justiça; cumpridos cerca de 56 mil medidas protetivas, com mais de 168 mil vítimas atendidas, 1.226 armas apreendidas e realizadas cerca de 70 mil visitas e diligências realizadas pelas polícias civis. Ao todo, mais de 16 mil policiais civis atuaram, de forma conjunta, na busca de suspeitos de ameaças, tentativas de feminicídio, lesão corporal, descumprimentos de medidas protetivas, estupro, importunação, entre outros crimes.
A importância desta operação, de fato uma das maiores já realizadas pelo governo federal no combate à violência física contra mulheres, foi reconhecida por lideranças políticas de oposição. A deputada estadual de Goiás Delegada Adriana Accorsi (PT), que foi candidata à Prefeitura de Goiânia, por exemplo, afirmou que a ação “mostra a possibilidade das Forças de Segurança combaterem, com rigor, a violência cometida contra meninas e mulheres”. Ela acrescentou que “Operações desse tipo, que acontecem de maneira simbólica no dia 8 de março, são muito importantes. Esperamos esse rigor todos os anos, pois a impunidade é um mal que estimula o cometimento desses crimes”.
Protocolo nacional de investigação
É verdade também que André Mendonça atuou na aprovação do Protocolo Nacional de Investigação e Perícias nos Crimes de Feminicídio, em parceria com o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, publicado no Diário Oficial, em 22 junho de 2020. O protocolo prevê a uniformização dos procedimentos das polícias civis e de órgãos de perícia oficial de natureza criminal nos estados e no Distrito Federal (DF). Esta atuação conjunta tem por objetivo contribuir para a prevenção e a repressão aos crimes com o fortalecimento de ações que envolvam morte de mulheres decorrente de discriminação e de violência doméstica e familiar.
O protocolo determina a instauração imediata de inquérito policial nos casos de mortes violentas, com vítimas mulheres. Além disso, o texto estabelece que os atendimentos relacionados às ocorrências de feminicídio devem ter prioridade na realização de perícias.
Aglutinação de demandas, menos eficácia
Com relação à inclusão de idosos e de crianças vítimas de pedofilia nos programas governamentais de combate à violência citados positivamente por André Mendonça, dados divulgados pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (INESC) dizem que a aglutinação destas demandas causou perda na execução de políticas para mulheres. No estudo “O Brasil com baixa imunidade”, o INESC mostra que o governo federal dispõe de R$425 milhões alocados no Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos. Porém, até meados de maio de 2020, o ministério havia executado somente R$11,3 milhões, o equivalente a 2,6% do que estava disponível.
Uma nota técnica da consultoria da Câmara confirmou a baixa execução orçamentária para políticas públicas destinadas exclusivamente às mulheres: mostra que apenas R$ 5,6 milhões de um total de R$ 126,4 milhões previstos na Lei Orçamentária de 2020 foram efetivamente gastos com políticas públicas específicas para mulheres, sem contar os “restos a pagar” de anos anteriores.
O Plano Plurianual (PPA) 2020-2023 do governo de Jair Bolsonaro, excluiu o “Programa 2016: Políticas para as Mulheres: Promoção da Igualdade e Enfrentamento a Violência”, que era destinado somente às mulheres, e criou o “Programa 5034: Proteção à Vida, Fortalecimento da Família, Promoção e Defesa dos Direitos Humanos para Todos”, a que André Mendonça se referiu, que é um guarda-chuva para execução de políticas do ministério destinadas às mulheres, aos idosos e a pessoas com deficiência. “Ocorreu a fusão dos programas, o que pode dificultar o acompanhamento dessas políticas públicas e levar a uma redução da transparência”, diz a nota técnica da consultoria da Câmara. A palavra “mulher” aparece em apenas um objetivo da aglutinação, que coloca ênfase clara no conceito de família.
“O desenho que vinha sendo construído desde 2004 mudou radicalmente e agora adquire um viés mais conservador”, critica o Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) em relatório lançado no início deste ano que faz um balanço do orçamento do governo federal.
Um levantamento de 2021, exclusivo da revista AzMina, mostra que entre janeiro de 2019 e julho de 2021, o governo federal não gastou R$ 376,4 milhões dos R$ 1,1 bilhão disponíveis para dez rubricas que têm as mulheres como público-alvo no Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos e no Ministério da Saúde. É um terço do total de recursos previstos no orçamento da União, carimbados especificamente para este conjunto de políticas públicas e com emprego autorizado pelo Congresso Nacional.
Entre os valores que não foram utilizados, está a maior parte dos recursos que deveriam construir e equipar Casas da Mulher Brasileira pelo país – estrutura que agrega uma série de serviços especializados para atendimento da mulher em situação de violência, como delegacia, juizado, promotoria e abrigamento de curta duração. Desde 2019, dos quase R$ 115 milhões disponíveis para essa política pública, apenas R$ 1 milhão foi efetivamente gasto. Para a Rede Cegonha, a estratégia de planejamento reprodutivo e atenção humanizada à gravidez, ao parto e ao puerpério do Ministério da Saúde, dos R$ 270 milhões autorizados, apenas R$ 182 milhões foram desembolsados e R$ 89 milhões ficaram pelo caminho.
Dados fornecidos pelo Ministério da Justiça e da Segurança Pública à revista Azmina, via Lei de Acesso à Informação, revelam outra face do descaso com a garantia de direitos das mulheres: recursos deste ministério destinados a dois importantes projetos estão caindo drasticamente desde 2019. Chamou a atenção das jornalistas o programa chamado Protejo, que paga bolsas a jovens em situação de violência doméstica como incentivo para frequentarem cursos de capacitação em diferentes áreas gastou, ao todo, R$ 3,3 milhões no primeiro semestre de 2021. Em 2019, essa política pública recebeu investimentos de R$ 64,7 milhões.
Já o Projeto Mulheres da Paz que também concede bolsas, mas neste caso para mulheres líderes de comunidade que atuam como mediadoras de conflitos em suas regiões, teve gastos sete vezes menores em 2021 do que no primeiro ano de mandato de Bolsonaro: R$ 184,7 milhões (em 2019) contra R$ 25.460,00 (até julho deste ano).
Respostas imprecisas
André Mendonça discorreu sobre seu trabalho como Ministro da Justiça e Segurança Pública, e incorreu em imprecisão.
Primeiramente, as ações descritas – a Operação Resguardo e o Protocolo de Investigações – esbarram em uma política do governo federal que é a ampliação do acesso a armas de fogo pela população. Já em 2019, no primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro, que tem como projeto o armamentismo, uma audiência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados abordou o tema. A Comissão ouviu especialistas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, do Núcleo Especializado em Diversidade e Igualdade Racial da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, do Grupo Especial de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher do Ministério Público do Estado de São Paulo. Todas as representações afirmaram que a ampliação do porte e posse de armas de fogo poderia aumentar os riscos para as mulheres e impactar os índices de feminicídio.
As especialistas na audiência mostraram como a presença de uma arma de fogo aumenta em cinco vezes a chance de ocorrência de homicídio ou suicídio. Foi afirmado que as políticas públicas do governo para a área não são baseadas nos dados e estatísticas disponíveis. Na audiência a representante do Ministério da Justiça e da Segurança Pública, então liderado por Sérgio Moro, foi a única a discordar da avaliação. “O simples desarmar não é a solução dos nossos problemas”, avaliou a servidora do ministério Thaylize Rodrigues.
Em 2021 esta indicação se comprovou com os resultados da mais recente edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado em julho de 2021, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), com dados colhidos em 2020, um ano depois da audiência da Câmara Federal. O relatório mostra que o Brasil praticamente dobrou em um ano o número de armas registradas em posse de cidadãos, ao mesmo tempo em que as mortes violentas cresceram, a despeito do maior isolamento social durante a pandemia. Dados do Sinarm, sistema da Polícia Federal que cadastra posse, transferência e comercialização de armas de fogo, em 2020 houve 186.071 novos registros, um aumento de 97,1% em um ano. A maioria desses registros é de cidadãos privados.
Enquanto especialistas em segurança pública apontam que a facilitação no acesso a armas favorece a violência, o governo federal justifica que as políticas armamentistas visam a desburocratização, a clareza das normas e “adequar o número de armas, munições e recargas ao quantitativo necessário ao exercício dos direitos individuais”.
Segundo o Anuário, o Brasil teve um aumento de 4% no número de mortes violentas intencionais em 2020, em comparação com 2019. Neste grupo, 1.350 mulheres foram mortas em episódios classificados como feminicídio, com uma alta de 0,7% em relação a 2019.
Em segundo lugar está o descaso do governo federal, que inclui o Ministério da Justiça e da Segurança Pública sob a liderança de André Mendonça, com os gastos com políticas de enfrentamento da violência contra a mulher. O Plano Plurianual (PPA) é uma lei elaborada a cada quatro anos e, de acordo com a Constituição Federal de 1988, estabelece, de forma regionalizada, diretrizes, objetivos e metas da administração pública federal para as despesas relativas aos programas de duração continuada. Caso o governo não aplique os recursos de forma adequada, o STF tem que atuar para que cumpra o que lhe cabe, o que deverá ser uma demanda sobre o novo ministro da corte André Mendonça.
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O então candidato à vaga no STF André Mendonça apresentou como respostas à inquirição da senadora Eliziane Gama realizações do trabalho dele como ministro da Justiça e da Segurança Pública em duas frentes. No entanto, Bereia classifica estas respostas como imprecisas pois a questão do enfrentamento da violência contra mulheres exige abordagem mais ampla da parte de um ministro da Corte que deve garantir o cumprimento das bases constitucionais do país, como a verificação acima mostra.