Site gospel propaga falsa censura e descredibiliza pauta antiviolência no caso Maria da Penha

*com distorções enganosas

O portal de notícias gospel Pleno News noticiou, em 10 de agosto, a prisão do ex-marido da farmacêutica e ativista de direitos das mulheres Maria da Penha Fernandes, Marco Antonio Heredia Viveros. A matéria sugere que Viveros teve sua liberdade de expressão atacada e que a Rede Record, de propriedade da Igreja Universal do Reino de Deus, teria sido censurada por entrevistar o agressor. Na verdade, o homem foi preso por descumprir decisão judicial, e a entrevista não foi ao ar por isso. 

Trechos da matéria publicada por Pleno News são compostos por expressões que induzem quem lê a relativizar a prisão de Viveros. O texto evita identificar o ex-marido da vítima como condenado pela Justiça e suavizam a infração cometida com a entrevista dada à Record. O título também atua com a sugestão de que a decisão judicial é prática de censura. 

A publicação com o título “Ex-marido de Maria da Penha é preso após dar entrevista” foi checada por Bereia.

Imagem: reprodução Pleno News

O que aconteceu, de fato

O economista Antônio Heredias Viveros foi preso em 9 de agosto passado, em Natal (RN), por descumprir medidas preventivas expedidas, em 2024, pelo Juizado da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Fortaleza (CE). Ele foi condenado, em 1996, a dez anos e seis meses de reclusão por  planejar e executar dois atentados contra a vida da esposa, Maria da Penha Fernandes. Porém, por meio de alegações de irregularidades, a defesa conseguiu a anulação do julgamento. 

Na busca incessante por reparação, em 1998, o Centro para a Justiça e o Direito Internacional (CEJIL) e o Comitê Latino-americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher (CLADEM) denunciaram, o caso para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (CIDH/OEA). 

Em 2001, após receber quatro ofícios da CIDH/OEA (1998 a 2001), o Estado brasileiro foi responsabilizado por negligência, omissão e tolerância em relação à violência doméstica praticada contra as mulheres brasileiras. Com esta responsabilização internacional, a Justiça brasileira agiu e Viveros foi preso em outubro de 2002, faltando apenas seis meses para a prescrição do crime. Ele cumpriu cerca de dois anos de pena em regime fechado e ganhou liberdade. 

A Lei Maria da Penha foi resultado da ação de um Consórcio de ONGs Feministas, em 2002, motivado pelo que Maria da Penha passou, diante da falta de medidas legais e ações efetivas, como acesso à justiça, proteção e garantia de direitos humanos a mulheres vítimas de violência doméstica e familiar. 

A medida cautelar contra Viveros é parte de processo judicial de 2024, instaurado depois que ele foi entrevistado para um documentário da produtora Brasil Paralelo. O conteúdo do vídeo desqualificava a memória de Maria da Penha, como símbolo da violência praticada contra mulheres e oferecia como revisão histórica, a versão do agressor, condenada em julgamento. A partir da divulgação, Maria da Penha se tornou vítima de ataques virtuais e ameaças. A Justiça determinou não só a retirada do vídeo da plataforma como estabeleceu as medidas cautelares que proibem Antonio Viveros de divulgar informações sobre o processo e de propagar o nome ou a imagem de Maria da Penha Fernandes e das duas filhas em mídias sociais, aplicativos ou outro ambiente virtual. 

Ocorre que, a propósito dos 20 anos da Lei Maria da Penha, neste 2026, a Rede Record decidiu entrevistar Viveros para que propagasse a sua versão do caso. Versão essa, com ampla circulação em ambientes religiosos, principalmente por meio de material falso e desinformativo produzido pela produtora Brasil Paralelo, que já foi retirado do ar pela Justiça brasileira.  

Antônio Viveros concedeu a entrevista ao jornalista e apresentador do programa Domingo Espetacular, Roberto Cabrini, na qual exporia sua história sobre Maria da Penha. Chamadas da entrevista foram divulgadas nas redes digitais. O portal G1 Ceará apurou que o documento do Ministério Público do Ceará enviado à Justiça (que pedia a prisão de Viveros) contém uma notificação com o pedido de suspensão da veiculação da entrevista à TV Record pelo Instituto Maria da Penha, assim como prints de e-mail e WhatsApp enviados também pelo instituto para funcionários da emissora.  

Com a publicação de trechos da entrevista nas mídias digitais, como chamada para o programa, o MP-CE fez o pedido da prisão de Viveros, por entender que as publicações violavam a medida cautelar judicial.  Além disso, a Justiça determinou a retirada imediata do ar de conteúdos relacionados à entrevista e proibiu a veiculação da reportagem por ferir decisões judiciais sobre o caso. A prisão de Antônio Heredias Viveros ocorreu dois dias após a Lei Maria da Penha completar 20 anos. 

Milícias digitais entram em ação

Com a notícia da prisão e da suspensão da entrevista, políticos e apoiadores da direita extremista vieram a público para contestar a Justiça. Várias publicações nas redes alegaram censura à Rede Record e impedimento da liberdade de expressão do homem condenado por tentativa de assassinato da esposa, que a deixou paraplégica. 

Imagem: reprodução YouTube, canal do jornalista foragido Allan dos Santos

Imagem: reprodução/Alexandre Paiva/Instagram

Imagem: reprodução/Flávio Bolsonaro/Instagram

A deputada federal católica Júlia Zanatta (PL-SC) também publicou, em 11 de agosto, uma sequência de stories em seu perfil no Instagram para comentar o tratamento judicial dado a Viveros e insinuar que ele sofre censura.  A parlamentar chegou a fazer comparações com casos criminais midiáticos e produções audiovisuais do gênero true crime para alegar que o agressor de Maria da Penha teria direito à liberdade de expressão.

Imagem: reprodução/Julia Zanatta/Instagram

A defesa do agressor condenado e da emissora de TV aberta que daria voz a ele, são um reforço recorrente ao questionamento da existência da  Lei, que representa um histórico enfrentamento à violência doméstica e familiar contra  mulheres, que recebeu o nome de Maria da Penha. O nome foi dado por conta da brutalidade do caso e do processo de injustiça que quase resultou na não punição do agressor, como já ocorreu, no passado, com muitas tantas situações.

A  Lei Maria da Penha é reconhecida internacionalmente como uma referência de legislação de gênero, foi promulgada em 7 de agosto de 2006, tendo seus 20 anos celebrados em vários eventos, dois dias antes da prisão de Viveros.

Associação de jornalistas repudia a Rede Record

Em nota pública, a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) descarta a ideia de censura e repudia a iniciativa da Rede Record de entrevistar um agressor de mulher e homicida, para oferecer sua versão dos fatos, já condenada pela Justiça.

Imagem: Federação Nacional dos Jornalistas

Para a FENAJ, a emissora presta um desserviço que é motivo de repúdio por decidir abrir espaço para um homem que foi condenado pela violência que transformou Maria da Penha em símbolo mundialmente conhecido da luta contra a violência doméstica, justamente no marco dos 20 anos da lei que leva o nome da sobrevivente.

“Há uma diferença fundamental entre ouvir alguém em nome do contraditório e dar protagonismo a um agressor condenado, cuja própria conduta, ao conceder a entrevista, resultou no descumprimento de uma medida protetiva e em sua prisão.”, diz um trecho da nota que pode ser lida na íntegra aqui.

Discurso que descredibiliza o enfrentamento da violência contra mulher 

Enquanto todas as grandes mídias de notícias credenciadas no Brasil oferecem informação responsável sobre a suspensão da entrevista e a prisão de Viveros, e a FENAJ repudia a iniciativa da Rede Record, veículos alinhados à direita extremista repercutiram o questionamento à Justiça.  

Nos espaços religiosos, a matéria do Pleno News, checada pelo Bereia, oferece consonância com o discurso de seguidores da ultradireita e de influenciadores misóginos. Já o jornal Gazeta do Povo também noticiou a prisão, indicando censura.

Imagem: reprodução de matéria da Gazeta do Povo, publicada em 10 ago 2026

Em uma outra publicação, o jornal Gazeta do Povo destaca participações de Antonio Heredia Viveros em outras entrevistas, abre espaço para a propagação da versão do condenado já recusada pela Justiça em julgamento em 1996.

Imagem: matéria da Gazeta do Povo, publicada em 10 ago 2026

Ao acusar de censura o ocorrido com a entrevista da Rede Record, a Gazeta do Povo relaciona o caso à proibição judicial da exibição do documentário desinformativo produzido pela Brasil Paralelo “Investigação Paralela: o Caso de Maria da Penha, ocorrida em 2025”, já citada nesta matéria.

Em março de 2025, a Advocacia-Geral da União (AGU) moveu uma Ação Civil Pública contra a empresa Brasil Paralelo por disseminar conteúdo desinformativo a respeito do emblemático caso de Maria da Penha, usando a versão do ex-marido homicida como referência. A ação exige uma indenização de R$ 500 mil por danos morais coletivos e determina a veiculação de material informativo correto sobre o caso.

Em reportagem, Bereia  aponta que a produção audiovisual, criada e distribuída pela empresa de comunicação alinhada à ultradireita, apresenta uma versão distorcida dos fatos para privilegiar argumentos do agressor. O material disseminado pela Brasil Paralelo não menciona que essas alegações já haviam sido rejeitadas pela Justiça no julgamento que condenou Viveros. 

O conteúdo da produtora sugeria, naquele momento, que o processo judicial não considerou devidamente a versão do acusado. Em resposta, a AGU afirmou que o tipo de abordagem usado pela produtora mina a credibilidade não apenas da decisão judicial, mas também da Lei Maria da Penha e das políticas públicas de proteção às mulheres.

Em agosto do mesmo ano, MP-CE determinou a suspensão de todos os episódios da produtora Brasil Paralelo que tratam do caso Maria da Penha. Bereia apurou o conteúdo falso que circulou nas redes. Nele a Brasil Paralelo usava a falácia de censura como reação à decisão do MP-CE. O parecer é de que se tratava de “uma campanha de ódio promovida nas redes sociais contra a farmacêutica!”.

A decisão da Justiça diz respeito à terceira temporada do projeto Investigação Paralela, publicado pela produtora, em 10 de julho de 2023,  com o episódio nomeado O Caso Maria da Penha. A sinopse afirma: “o documentário vai te surpreender com uma das possíveis maiores reviravoltas do país”. 

Conforme divulgado por Bereia, um processo judicial decorrente da veiculação deste documentário foi julgado em 2024 e  determinou  o cumprimento de mandados e ações para aprofundar a investigação de crimes cibernéticos e perseguição virtual praticados nas redes digitais contra Maria da Penha Fernandes, por conta do documentário da Brasil Paralelo. As medidas cautelares contra Antonio Viveros são parte das decisões judiciais.

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Bereia avalia como falsas as alegações de censura à Rede Record e à liberdade de expressão de Marcos Antonio Heredia Viveros, condenado por tentativa de homicídio de Maria da Penha Fernandes. A prisão preventiva e as medidas de proibição de divulgação de conteúdos foram solicitadas pelo Ministério Público do Ceará (MPCE) com base em decisão da Justiça, em 2024, que não permite publicações de pronunciamentos do agressor homicida. Estas decisões são de amplo conhecimento de Viveros e do seu advogado, porém o ex-marido de Maria da Penha Fernandes optou por descumprí-las. A ênfase dada a versões de agressores de mulheres é uma tática recorrente de sustentação da violência de gênero para descredibilizar a reputação da vítima. 

Bereia alerta ainda para a existência de um discurso articulado contra a legitimação do enfrentamento das instituições brasileiras à violência contra a mulher, quando considerada a relevância da legislação. O caso tem uma dimensão simbólica e histórica, ao reforçar a autoridade das instituições jurídicas do país, especialmente em uma data em que a Lei completa 20 anos em vigor.

Veículos, influenciadores digitais e políticos de identidade religiosa, alinhados à ultradireita, têm endossado o discurso conservador, isto é, que visa conservar a estrutura de violência doméstica, ao atacarem a própria Justiça, no cumprimento de leis que garantem direitos. Repercutem ainda conteúdos que atacam movimentos em busca de justiça para mulheres vítimas de violência, usando como pretexto a  defesa de pautas de costumes religiosos e a preservação de papéis tradicionais de gênero que representam a subjugação das mulheres e a sujeição delas a múltiplas violências dentro de fora de casa.  

Referências:

Senado Notícias

https://www12.senado.leg.br/noticias/videos/2026/08/lei-maria-da-penha-completa-20-anos-em-constante-aperfeicoamento Acesso em: 11 AGO 2026

https://www12.senado.leg.br/noticias/infomaterias/2026/07/a-historia-por-tras-dos-20-anos-da-lei-maria-da-penha Acesso em: 13 AGO 2026

https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/08/06/debate-aponta-avancos-e-desafios-nos-20-anos-da-lei-maria-da-penha Acesso em: 13 AGO 2026

G1

https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2026/08/09/por-que-justica-voltou-a-prender-o-ex-marido-de-maria-da-penha-mulher-que-inspirou-lei-contra-violencia-domestica.ghtml Acesso em: 11 AGO 2026

https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2026/08/10/quem-e-e-por-que-estava-solto-o-ex-marido-de-maria-da-penha.ghtml Acesso em: 12 AGO 2026

Carta Capital

https://www.cartacapital.com.br/justica/ex-marido-de-maria-da-penha-e-preso-apos-entrevista-a-record-sobre-tentativa-de-feminicidio/ Acesso em: 11 AGO 2026

CNN

https://www.cnnbrasil.com.br/politica/governo-processa-brasil-paralelo-por-conteudo-sobre-caso-maria-da-penha/ Acesso em: 11 AGO 2026

Agência Pública

https://apublica.org/2025/07/brasil-paralelo-usou-laudo-falso-para-atacar-maria-da-penha/ Acesso em: 11 AGO 2026

Coletivo Bereia

https://coletivobereia.com.br/brasil-paralelo-usa-falacia-de-censura-para-reagir-a-suspensao-video-negacionista-sobre-caso-maria-da-penha/ Acesso em: 12 AGO 2026

https://coletivobereia.com.br/agu-entra-com-acao-contra-brasil-paralelo-por-desinformacao-sobre-caso-maria-da-penha/ Acesso em: 12 AGO 2026

Advocacia-Geral da União

https://www.gov.br/agu/acl_users/credentials_cookie_auth/require_login?came_from=https%3A//www.gov.br/agu/pt-br/comunicacao/noticias/agu-processa-portal-por-desinformacao-sobre-caso-maria-da-penha Acesso em: 12 AGO 2026

Federação Nacional dos Jornalistas

https://fenaj.org.br/rede-record-presta-desservico-ao-entrevistar-agressor-de-maria-da-penha/ Acesso em: 12 AGO 2026

X

https://x.com/JFreiress_/status/2087377287561785722 Acesso em: 12 AGO 2026

Artigo: Violência contra a mulher: representações do discurso midiático

https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/8997999.pdf  Acesso em: 12 AGO 2026

“Mulher não sabe votar!”: como extremistas propagam violência política contra mulheres

O trecho da live de Paulo Figueiredo que viralizou nas mídias digitais, em junho passado, apresenta elementos alarmantes de extremismo. O influenciador, neto do ditador general. João Figueiredo, e apoiador da família Bolsonaro, afirmou em vídeo publicado no YouTube, em 25 de junho, que “mulher vota estatisticamente muito mal, principalmente mulheres solteiras. Mulheres casadas, em geral, tendem a acompanhar o voto do marido”. 

Imagem: reprodução/Instagram

Essa visão sobre as mulheres se entrelaça com a proposta de revisão ou de revogação da 19ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que garantiu o direito de voto às mulheres naquele país em 1920. Ela tem sido defendida por setores da direita radical ligados ao nacionalismo cristão dos Estados Unidos, onde vive Paulo Figueiredo. 

Pastores, como Douglas Wilson e Dale Partridge, além de influenciadores como Nick Fuentes propagam pelas mídias digitais o ideal de retirar das mulheres o direito arduamente conquistado de participar democraticamente da escolha de líderes políticos. Entre as propostas defendidas estão ideias como o voto unitário por família, em que a unidade familiar teria um único voto, exercido pelo homem. O secretário de Defesa dos Estados Unidos e líder do Pentágono Pete Hegseth compartilhou, em seu perfil no X (antigo Twitter), uma reportagem sobre as ideias do nacionalismo cristão. 

Imagem: reprodução/X

Violência política contra mulher

A violência política contra as mulheres se manifesta por ações ou omissões, de forma direta ou indireta, que visem ou causem danos ou sofrimento a uma ou várias mulheres com o propósito de anular, impedir, depreciar ou dificultar o exercício dos seus direitos políticos, pelo fato de ser mulher, de acordo com cartilha sobre o tema, elaborada pelo Observatório da Violência Política Contra a Mulher, com o apoio do Tribunal Superior Eleitoral (TSE)

O documento deixa claro que a violência política de gênero se manifesta como atos que restringem ou anulam o direito ao voto livre e secreto das mulheres, como qualquer expressão que rebaixe a mulher no exercício de suas funções políticas. O texto alerta que tais atos se dão com base no estereótipo de gênero, com o propósito ou o resultado de minar a sua imagem pública ou anular seus direitos políticos e que pode ocorrer no espaço virtual. A Lei nº 14.192 que determina regras para prevenção, repressão e combate à violência política contra a mulher entrou em vigor em 2021.  

No vídeo disseminado pelas redes, Paulo Figueiredo também sugere, sem apresentar dados, que estatísticas corroboram sua afirmação. Uma outra cartilha, esta elaborada pelo Internetlab e o Programa de Combate à Desinformação do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre desinformação como uma das dimensões da violência de gênero, considera como desinformação mensagens que imitam o formato jornalístico ou se alinham a crenças, preconceitos e convicções visuais para reforçar narrativas sem apoio nos fatos. 

A publicação é taxativa em apontar que esse fenômeno acarreta diversas consequências negativas para a integridade do ambiente informacional. O texto alerta que discursos misóginos que estruturam a sociedade também se reproduzem no ambiente digital e que algumas características desse ecossistema, como a rápida replicabilidade de conteúdos para um grande público, podem amplificá-los ainda mais. 

Episódios marcantes na história política do Brasil

A violência política não atinge apenas as eleitoras, como praticou Paulo Figueiredo. Mulheres em cargos públicos, posição de liderança e destaque no campo político são historicamente agredidas no Brasil. Um caso emblemático para o combate a esse tipo de crime foi o assassinato da trabalhadora rural e líder sindical paraibana Margarida Alves, em 1983, a mando de latifundiários em Alagoa Grande (PB). A líder católica tornou-se mártir pela causa da justiça e dá nome à maior manifestação de trabalhadoras rurais da América Latina, a Marcha das Margarida, realizada, desde 2000, anualmente, em Brasília.

Mais recentemente, o caso de Marielle Franco tornou-se também representativo no combate à violência política de gênero. Insultos à sua vida pessoal foram uma das táticas mais usadas para atacar e desqualificar a atuação da vereadora do Rio de Janeiro pelo PSOL. Marielle Franco foi morta a tiros, em 2018, a mando de políticos, os irmãos Brazão (União Brasil e PL), que tiveram seus interesses atravessados pela atuação política da parlamentar. 

Dilma Roussef, Manuela D’Ávila, Maria do Rosário, Eliziane Gama entre tantas outras, são nomes que viveram na pele essa tipificação da violência contra mulher em suas variadas formas. A ex-presidenta do Brasil, além de ter seu mandato interrompido, foi vítima de muitos ataques contra sua capacidade intelectual, de controle emocional e de liderança, como ficou registrado na agressiva capa da revista Istoé.

Imagem: Reprodução da capa da revista IstoÉ com ataque desqualificador da presidenta Dilma Rousseff 

A pré-candidata ao senado Manuela D’Ávila foi vítima de manterrupting (interrupção desnecessária da fala de uma mulher), durante entrevista à TV Cultura, alvo de desinformação relacionada a temas morais (classificada como “abortista”) e religiosos (denunciada como anticristã) e falsamente associada ao ataque a faca sofrido por Jair Bolsonaro em Juiz de Fora (MG). Todos estes ataques misóginos ocorreram durante a campanha eleitoral de 2018, na qual D’Ávila compunha, como vice, a chapa de Fernando Haddad (PT) à Presidência da República. 

Quando voltou a se candidatar, dessa vez à Prefeitura de Porto Alegre, em 2020, os ataques se intensificaram. Naquele ano, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul (TRE-RS) ordenou que links com mentiras sobre a então candidata, em diferentes plataformas digitais, fossem removidos. Em 2022, Manuela D’Ávila comunicou a decisão de não concorrer ao Senado e, entre as principais justificativas, apontou a insegurança que ela e sua família enfrentaram nos anos anteriores. A ex-deputada continuou a denunciar que, além dela, a filha e a mãe foram ameaçadas.    

Em entrevista à Agência Pública, a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) declarou não querer ser conhecida pela mulher agredida por Jair Bolsonaro, à época deputado federal. O caso de violência marcante aconteceu em 2014, quando o ex-presidente disse em plenário que não a estupraria porque ela não merecia. Bolsonaro foi condenado a se retratar e pagar 10 mil reais por danos morais, mas o processo por incitação ao estupro foi arquivado por prescrição

Em 2023, a senadora evangélica Eliziane Gama (PSD-MA) exercia a função de relatora da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre os ataques a Brasília em 8 de janeiro, para golpe de Estado, quando teve sua competência descredibilizada e a capacidade intelectual para ocupar a função de relatora questionada por parlamentares. A senadora foi chamada de ‘burra’ e ‘analfabeta’, entre outros xingamentos proferidos por apoiadores de seus colegas extremistas nas redes digitais.

Também em 2023, no primeiro dia da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), que investigava o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o presidente da comissão, o deputado federal tenente-coronel Zucco (Republicanos-RS), desligou o microfone da deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) enquanto ela se pronunciava. Em 2025, foi a vez do deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO), que comparou a deputada federal Gleisi Hoffman (PT-PR) a profissionais do sexo em publicação no X (antigo Twitter). 

Conforme explica a doutora em Ciências Sociais Lívia Reis, ouvida pelo Bereia, o Brasil é uma sociedade estruturalmente machista e os espaços de decisão não foram construídos para serem ocupados por mulheres, que deveriam, supostamente, ficar restritas ao domínio privado. “A violência política de gênero não é, nesse sentido, um ataque ao conteúdo do que as mulheres defendem, mas à sua presença num espaço codificado como masculino”, afirma a antropóloga pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER).

Casos recentes de violência política de gênero

A ex-ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima Marina Silva (Rede-SP)  é antigo alvo de ataques contra sua condição física e sua inteligência. Porém,  em 2025 se viu no meio, não de um, mas dois episódios de violência no Congresso Nacional

Durante a audiência pública na Comissão de Serviços de Infraestrutura do Senado, em maio, o senador evangélico Marcos Rogério (PL-RO) afirmou durante o debate que a então ministra, que tem identidade religiosa evangélica, deveria pôr-se no seu lugar. Na mesma ocasião, o senador Plínio Valério (PSDB-AM) também declarou, referindo-se a Marina Silva, que “a mulher merece respeito; a ministra, não”. Meses antes, o parlamentar já havia feito referência a enforcar a hoje pré-candidata ao Senado, por São Paulo, e, posteriormente, afirmou não estar arrependido. 

Já durante audiência na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados, em julho daquele ano, Marina Silva ouviu do deputado federal católico Cabo Gilberto (PL-PB), em tom paternalista, que deveria se acalmar. A pré-candidata a senadora repudiou a fala. Cerca de um ano depois, a ex-ministra de Estado também manifestou-se em defesa da senadora evangélica Damares Alves (Republicanos-DF), após a parlamentar ter sido vítima do mesmo tipo de violência. 

“O apoio de Marina a Damares no combate à violência política de gênero mostra que uma parlamentar conservadora, que defende papéis tradicionais, também é atacada como mulher no momento em que ocupa autoridade pública. Isso acontece porque essa violência atravessa esquerda e direita, pessoas de qualquer religião. O motivo do ataque não é a ideologia da mulher, mas é ela ser mulher num lugar de poder”, observa Lívia Reis.

Durante reunião da Comissão de Direitos Humanos do Senado, em 1º de julho último, Damares Alves revelou ter sido vítima de desinformação de gênero, ataques à honra e ter recebido ameaças de morte contra ela e sua filha por apoiadores do senador Flávio Bolsonaro (PL). Um dia antes, a parlamentar havia afirmado que não compareceria à reunião voltada a lideranças femininas do PL, organizada pelo pré-candidato à Presidência da República.   

A decisão de Damares Alves e os ataques que ela recebeu, assim como as declarações de Paulo Figueiredo, seguiram na esteira do pronunciamento em vídeo divulgado pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, em seu perfil no Instagram, em 24 de junho passado, sobre violência política que teria sofrido do enteado Flávio Bolsonaro. A transmissão de Paulo Figueiredo no YouTube, no dia seguinte, foi inteiramente pautada no posicionamento da ex-primeira-dama.

Contribuição de políticos extremistas para violência de gênero

Estes casos tornam evidente que políticos extremistas, e por vezes com identidade religiosa cristã declarada, estejam envolvidos em episódios de violência de gênero, no campo político, ou para além dele. Sob a alegação de princípios tradicionais e defesa da liberdade de expressão, essas figuras públicas atacam medidas como a criminalização da misoginia e defendem que o lugar da mulher se restringe à esfera particular.

Mesmo quando são “autorizadas” na esfera pública, seus papéis são reduzidos a  uma figura acessória dos maridos, dos filhos, de líderes políticos ou outros homens ocupantes de espaços de poder. Ao mesmo tempo, espera-se delas uma postura submissa. Isso fica explicitado no conflito interno da família Bolsonaro, que surge da diferença de compreensão sobre o lugar que a ex-primeira-dama pode ocupar.

De acordo com Lívia Reis, a identidade religiosa explicitada acrescenta uma linguagem que dá sentido e legitima a hierarquia entre os gêneros e a divisão dos papéis sociais. “As mulheres, nessa visão, devem se preocupar em cuidar e sustentar a família material e espiritualmente. Para esses políticos – e isso se concentra, mas não se restringe, ao campo da direita – a pauta de gênero e de costumes não é um tema entre outros, mas é um eixo que organiza a mobilização política”.

Apesar da relevância de Michelle Bolsonaro para a aliança da direita extremista com grupos evangélicos, e sua consequente influência sobre o eleitorado feminino e cristão nas eleições de 2026, o desentendimento tem significado. Ele mostra que, além do enteado e do marido, a liderança do partido também consente com o papel concedido à ex-primeira-dama – presidente do PL Mulher –, mas não com um escolhido por ela. Ao negar às mulheres igual capacidade de atuação política, essas narrativas enfraquecem valores essenciais à democracia. 

Nesse sentido, as críticas de Paulo Figueiredo à falta de apoio de Michelle Bolsonaro a Flávio Bolsonaro, assim como a fala do vídeo sem base científica, que usa enganosamente o tema da estatística, mobiliza uma visão patriarcal de suposta incapacidade feminina de exercer cidadania por meio de participação política, associada a uma negação de autonomia política às mulheres.

Imagem: reprodução/YouTube

“A desigualdade de gênero estrutura a nossa sociedade, e no enquadramento religioso, a mulher que desafia a ordem de gênero deixa de ser uma adversária comum e passa a ser vista como ameaça à ordem moral, quase como um mal a ser combatido. Isso dá ao ataque um tom de defesa do sagrado, e não de mero debate político, e é justamente esse deslocamento que autoriza a agressão”, acrescenta Lívia Reis.

Referências

Instagram
https://www.instagram.com/p/DaL-MqTjDLO/ Acesso em 2 JUL 2026

https://www.instagram.com/p/DaL96HxgtRi/?hl=pt-br Acesso em 2 JUL 2026 

Jornal Opção

https://www.jornalopcao.com.br/ultimas-noticias/apos-serie-de-ataques-a-dilma-justica-condena-istoe-a-direito-de-resposta-71649/ Acesso em 2 JUL 2026 

Correio do Povo
https://www.correiodopovo.com.br/not%C3%ADcias/pol%C3%ADtica/marina-silva-se-solidariza-com-damares-alves-apos-ataques-de-misoginia-1.1728078 Acesso em 3 JUL 2026 

CNN
https://www.cnnbrasil.com.br/politica/damares-diz-que-faltara-ao-evento-feminino-de-flavio-apos-video-de-michelle/#goog_rewarded Acesso em 3 JUL 2026 

YouTube
https://www.youtube.com/shorts/Wl9j4U_UfRM Acesso em 4 JUL 2026 

Coletiva.net
https://coletiva.net/noticias/manuela-d-avila-vence-processo-contra-record-nacional-e-igreja-universal/  Acesso em 4 JUL 2026 

Do altar ao banco dos réus: feminicídio no Acre reacende debate sobre violência contra mulheres nas igrejas

Pouco mais de um mês após matar a golpes de facão a esposa Auriscléia Lima do Nascimento, 25 anos, na comunidade Campo Alegre, zona rural de Capixaba (AC), o pastor evangélico Natalino do Nascimento Santiago, 50, tornou-se réu por feminicídio e duas tentativas de homicídio. Segundo a denúncia do Ministério Público do Acre, além de assassinar a companheira, ele feriu o filho dela e o cunhado. O histórico do acusado inclui condenações anteriores por homicídio e estupro. O caso traz novamente à tona o tema pouco enfrentado dentro das igrejas: a violência de gênero que atravessa espaços de fé.

O Brasil é um país onde a religião ocupa lugar central na vida cotidiana e pode, sim, funcionar como rede de apoio, acolhendo e oferecendo suporte jurídico a mulheres em situação de violência doméstica. Porém, o mesmo ambiente pode se converter em barreira, quando é pedido para a mulher que ore e sustente a relação em nome indissolubilidade do casamento, em vez de romper o ciclo abusivo. Uma realidade tanto de comunidades evangélicas como católicas.

Os números da quinta edição do relatório Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil,  produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública/Datafolha de 2025, reforçam a urgência desse debate específico. Entre as brasileiras que se declaram evangélicas, 42,7% relataram ter sofrido violência por parceiro íntimo ou ex-parceiro ao longo da vida; entre as católicas, o índice é de 35,1%. O recorte religioso dialoga com outra informação relevante: a população evangélica atinge cerca de 26,9%, de acordo com o Censo 2022 do IBGE.

Dentro de certas comunidades, mulheres que tentam denunciar agressões esbarram em discursos teológicos que naturalizam o sofrimento feminino e demonizam a separação. É nessa hora que o Movimento Evangélicas pela Igualdade de Gênero (EIG) se insere como espaço de acolhimento a partir de uma perspectiva de fé libertadora. “A violência de gênero e de raça/etnia, assim como a violência política e doméstica, perpassam ambientes religiosos com diversas nuances. Hoje sabemos que as mulheres evangélicas são as que mais sofrem violência doméstica no Brasil, sendo que, entre elas, as negras e residentes em periferias são as maiores vítimas”, afirma a teóloga e doutora em Ciências da Religião Lauana Flor, integrante do EIG.

“É possível entrelaçar debates e promover construções coletivas que dialoguem com vivências religiosas e espiritualidades diversas, para enfrentar as múltiplas formas de violência, inclusive as religiosas e espirituais, que atingem meninas, mulheres cis, travestis e mulheres trans”, analisa a teóloga, que ainda lembra sobre a importância da Área 44, do Ministério da Educação e Cultura (MEC), que trata de Teologia e Ciências da Religião, como espaço legítimo para falar sobre democracia, laicidade do Estado e experiências cotidianas.

A pastora e pesquisadora Lívia Carvalho, membra do EIG, reforça o dado do Fórum de Segurança Pública que aponta a religiosidade cristã como um ambiente onde “há inúmeros registros de violência contra a mulher” e defende políticas públicas que considerem a espiritualidade como parte da saúde integral feminina. “Acreditamos em um Cristo que traz justiça social e vida abundante, e na manifestação feminina de Deus na figura de Ruah, pois somos feitas à imagem do divino, com direito à dignidade, ao bem-viver e à restauração corporal”.

A atuação do EIG não se restringe à denúncia. Em junho, a organização iniciou uma série de três conferências intituladas Livres, com o objetivo discutir fé, democracia e políticas públicas de gênero que rompam o ciclo da violência dentro das igrejas. A organização pretende levar propostas à 5ª Conferência Nacional de Políticas para Mulheres e compor uma Plataforma Nacional das Mulheres. Antes mesmo da conclusão, integrantes do EIG levaram até a ministra do governo federal da Mulheres Márcia Lopes propostas debatidas no primeiro encontro. 


Foto: acervo/EIG

As próximas edições da conferência estão marcadas para os dias 26 de julho e 9 de agosto. “Nossa fé não nos cala, nos move. O Evangelho que seguimos é antirracista, acolhedor e comprometido com a justiça social”, declara a presidenta do EIG, a cientista da Religião Valéria Cristina Vilhena.

Para participar, inscreva-se pelo formulário https://forms.gle/oPc22qf52jvTXDqh8 e siga EIG @mulhereseig no Instagram


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Imagem de capa: Tânia Rego/Agência Brasil

Governo Federal não tem tido olhar diferenciado para a proteção da mulher

Durante uma coletiva de imprensa sobre a Operação Resguardo, para enfrentamento da violência contra a mulher, coordenada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), a Ministra do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos Damares Alves afirmou:

“Eu quero registrar também agradecimento ao mais incrível presidente da República que o país já teve, o presidente mais mulher que já vi e quando ele deu ordem a todos nós que o tema tinha que ser transversal, é exatamente isso que estamos mostrando isso aqui hoje. É um governo que tem tido um olhar diferente para a proteção da mulher”.

Damares Alves

Governo investiu pouco nos direitos das mulheres

Esta não é a primeira declaração da ministra para exaltar as políticas do Governo Bolsonaro para os direitos das mulheres. Em fevereiro de 2021, Damares Alves fez um pronunciamento no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas (ONU), no qual afirmou que o orçamento de 2020 para os direitos das mulheres foi o maior dos últimos cinco anos. O discurso foi verificado pelo Bereia que concluiu que a afirmação é enganosa.

Apesar do Governo Federal divulgar essa marca de investimento, levantamento da agência Gênero e Número, a partir dos dados do próprio ministério, aponta que apenas 2,7% da verba empenhada para os Direitos das Mulheres foram gastos pela pasta de Damares Alves.

Um destaque negativo neste levantamento está no baixo investimento para a Casa da Mulher Brasileira. Apenas 66 mil de 61 milhões (cerca de 0,1%) foram gastos na instituição durante 2020. Em junho de 2020, um pronunciamento do Governo Federal explicou que a execução de verba só tinha sido autorizada em maio daquele ano por conta da pandemia.

Além disso, um estudo da consultoria da Câmara dos Deputados, divulgado em junho, apontou que o Governo tinha gastado, até aquele momento, apenas R$ 5,6 milhões dos R$ 126,4 milhões previstos para políticas direcionadas aos direitos das mulheres, menos de 5%.

Violência contra a mulher no Brasil

Produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Atlas da Violência de 2020 trata de dados imediatamente anteriores à posse de Bolsonaro, até o ano de 2018. Naquele ano, a taxa de mulheres assassinadas era de 4,3 por 100 mil habitantes no país. O índice é uma queda de 9,3% em relação ao ano anterior, mas a tendência entre 2008 e 2018 é de aumento de 4,2%. O Ipea assinala que 68% das mulheres assassinadas eram negras. 

O relatório informa que o índice mais que dobrou entre 2008 e 2018 no Ceará, Roraima e Acre, com aumentos de 278,6%, 186,6% e 126,6%.  Já o Espírito Santo reduziu em 52,2%, São Paulo o fez em 36,3% e no Paraná o índice caiu em 35,1%. 

Além disso, o texto assinala que o feminicídio pode ser considerado o resultado final de um ciclo de violência praticado, muitas vezes, por conhecidos ou íntimos da vítima. Por isso, o relatório usa os dados de homicídios dentro de casa como correspondentes ao crime que virou lei em 2015. A conclusão é que “30,4% dos homicídios de mulheres ocorridos em 2018 no Brasil teriam sido feminicídios – crescimento de 6,6% em relação a 2017 –, indicando crescimento da participação da mortalidade na residência em relação ao total de mulheres vítimas de homicídio” (p. 39).

Já em 2019, o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos informou que a Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180) recebeu 67.438 denúncias, o número significa aumento de 7,95% em relação ao ano anterior. Quase oito em cada 10 chamadas ao Ligue 180 tratavam de violência doméstica e familiar.

Violência contra a mulher na pandemia

A violência contra a mulher se agravou durante a pandemia em vários países. Relatório da ONU Mulheres apontou crescimento dos casos em países como Argentina, Espanha, EUA e Reino Unido.

A pandemia também agravou a situação no Brasil. Elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2020 compara dados do primeiro semestre de 2019 com o primeiro semestre do ano seguinte. Enquanto os registros de lesão corporal dolosa, ameaças, estupros (de mulheres e de vulneráveis) caíram entre 9% e 22%, feminicídios e homicídios dolosos de mulheres subiram em 2%, bem como as ligações ao 190 por violência doméstica (3,8%).

O Anuário também compara as medidas tomadas por governos do Brasil, Argentina, Uruguai, Espanha, Itália e França em relação às recomendações da ONU para combate à violência de gênero na pandemia (p. 40). O Brasil investiu em atendimento online,mas não adotou outras políticas como: abrigos temporários para vítimas; estabelecimento de serviço de alerta de emergência em supermercados e farmácias; investimento em organizações da sociedade civil; declaração de abrigos e serviços de atendimento à mulher como essencial. A França é o melhor exemplo, adotou quatro das cinco medidas (não fez declaração desse serviço como essencial).

Em julho, no entanto, o presidente Jair Bolsonaro sancionou a lei 14.022/2020, que torna essencial o serviço de atendimento à mulher vítima de violência doméstica ou familiar (bem como idosos, pessoas com deficiências, crianças e adolescentes). Além disso, o número de denúncias de violência contra mulher chegou a 105.821. O dado não pode ser comparado aos anos anteriores devido a mudança de metodologia. A alteração permite que uma denúncia contemple mais de um crime ou que mais de uma denúncia seja colocada em um mesmo protocolo.

Governo Federal se recusou a assinar declaração pela igualdade de gênero 

Em 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o governo brasileiro se recusou a assinar uma declaração conjunta da ONU por avanço em ações pela igualdade de gênero, assinado por 53 países, entre eles Estados Unidos, Israel e Argentina. A declaração ressalta o papel das mulheres durante a pandemia, em especial as profissionais de saúde: “As mulheres representam 70% da força de trabalho do setor social e de saúde em todo o mundo. Embora elas tenham recebido principalmente reconhecimento simbólico, este reconhecimento também deve se refletir na redução da diferença salarial entre os sexos”, defendem os países. 

O documento também toca na questão da violência sexual e da saúde sexual e reprodutiva. “Em meio à crise, os serviços de saúde sexual e reprodutiva continuam sendo essenciais e devem fazer parte dos planos nacionais que lidam com a pandemia”, afirma. 

Em nota, o Ministério das Relações Exteriores explicou o motivo para não assinar o documento. “O governo brasileiro salienta a importância do reconhecimento, na declaração, de pautas salutares em defesa da mulher, em especial por ocasião da referida data, como o reconhecimento do trabalho não remunerado e a necessidade de se combater a violência contra a mulher, em especial no período pandêmico. Entretanto, não apoia referências a termos e expressões ambíguas, tais como direitos sexuais e reprodutivos”, declarou. 

Reconhecimento de retrocessos

O discurso de Damares Alves foi proferido durante coletiva de imprensa sobre a Operação Resguardo, de combate a crimes de violência contra a mulher, comandada pelo Ministério da Justiça. Segundo o Governo Federal, nove mil pessoas foram presas entre 1º de janeiro e 8 de março, 1.500 em8 de março, quando a Polícia Civil realizou uma ação chamada de “Dia D”.  Foram apreendidas 1.226 armas nas casas dos agressores. O secretário de operações integradas do Ministério da Justiça Jefferson Lisbôa participou da coletiva e afirmou que as ações terão continuidade. “Isso vai se tornar uma operação de rotina. Hoje é uma data comemorativa, mas vamos transformar ações de defesa à mulher em rotina”.

A defensora pública estadual de Mato Grosso e coordenadora do Núcleo de Defesa da Mulher (NUDEM) Rosana de Barros conversou com o Coletivo Bereia a respeito do cenário de combate à violência contra a mulher. De acordo com ela, políticas públicas implementadas em governos anteriores, como a Casa da Mulher Brasileira, se perderam nesta gestão.

“Como Defensora Pública, sei que a maioria dos boletins de ocorrência lavrados na atualidade se constituem em delitos contra as mulheres. Há necessidade de um olhar diferenciado para as mulheres, tendo em vista as estatísticas apontarem grande índice de crimes praticados contra elas, e, ainda, o número crescente dos feminicídios, que são delitos anunciados, podendo ser evitados. Sabemos que os direitos humanos não podem retroceder”.

Rosana de Barros, defensora pública de Mato Grosso

Em março de 2020, o presidente Jair Bolsonaro relacionou a violência doméstica com a falta de comida em casa, para criticar as medidas de isolamento social. “Tem mulher apanhando em casa. Por que isso? Em casa que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão. Como é que acaba com isso? Tem que trabalhar, meu Deus do céu. É crime trabalhar?”, questionou o presidente.

No entanto, o estudo do Ipea publicado em 2019 vai contra o senso comum de que mulheres fora do mercado de trabalho sofrem mais violência. As estatísticas revelam que as ocorrências entre as mulheres que fazem parte da população economicamente ativa são o dobro em comparação àquelas que não trabalham (p. 17).

Rosana de Barros destaca que no começo da pandemia observou que a procura pelo Núcleo de Defesa da Mulher diminuiu devido às medidas de combate ao coronavírus. “Todavia, sabíamos que a violência doméstica e familiar havia aumentado, pois as mulheres estavam em isolamento social com os seus agressores. Enquanto os homens são assassinados fora de casa, as mulheres estão sendo assassinadas dentro de casa. Logo, são delitos anunciados e que podem ser evitados”.

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Bereia conclui que a declaração da ministra Damares Alves a respeito da atuação do presidente Jair Bolsonaro em relação à proteção das mulheres é enganosa. Apesar de o Governo Federal realizar ações contra a violência doméstica, como a Operação Resguardo e o registro online de ocorrências, outras iniciativas recomendadas pela ONU, aos países para combate à violência de gênero na pandemia, não foram tomadas. 

A respeito da declaração de igualdade de gênero na ONU, o Itamaraty justifica a ambiguidade dos termos referentes à saúde reprodutiva o que atribui a uma consonância com o direito ao aborto. Ainda assim, as declarações da ministra ocultam a falta de investimento nos direitos das mulheres em 2020, mesmo que haja orçamento liberado para tal, contradizem afirmações do presidente que simplificam e banalizam a grave questão da violência contra a mulher.

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Foto de capa: Pixabay/reprodução

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Referências

Último Segundo iG. https://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2021-03-08/bolsonaro-e-o-presidente-mais-mulher-que-ja-vi-diz-ministra-damares-alves.html. Acesso em: 08 de março de 2021.

Coletivo Bereia, https://coletivobereia.com.br/discurso-de-damares-a-onu-engana-a-respeito-de-acoes-do-governo-na-pandemia/. Acesso em: 09 de março de 2021.

Agência Gênero e Número, http://www.generonumero.media/orcamento-damares-2020-mulheres-lgbt/. Acesso em: 09 de março de 2021.

Consultoria de Orçamento e Fiscalização Financeira, https://www2.camara.leg.br/orcamento-da-uniao/estudos/2020/ET16_Violncia_MUlher.pdf. Acesso em: 09 de março de 2021.

Câmara dos Deputados, https://www.camara.leg.br/noticias/668512-governo-gastou-apenas-r-56-milhoes-de-um-total-de-r-1264-milhoes-previstos-com-politicas-para-mulheres/. Acesso em: 09 de março de 2021.

Ipea, https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/download/24/atlas-da-violencia-2020. Acesso em: 09 de março de 2021.

Planalto, http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13104.htm. Acesso em: 09 de março de 2021.

Governo Federal, https://www.gov.br/pt-br/noticias/assistencia-social/2020/05/central-de-atendimento-a-mulher-registrou-1-3-milhao-de-chamadas-em-2019. Acesso em: 09 de março de 2021.

ONU Mulheres, https://www.onumulheres.org.br/noticias/violencia-contra-as-mulheres-e-meninas-e-pandemia-invisivel-afirma-diretora-executiva-da-onu-mulheres/. Acesso em: 09 de março de 2021.

Planalto, http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2020/lei/L14022.htm. Acesso em: 09 de março de 2021.

G1, https://g1.globo.com/politica/noticia/2021/03/07/brasil-teve-105-mil-denuncias-de-violencia-contra-mulher-em-2020-pandemia-e-fator-diz-damares.ghtml. Acesso em: 09 de março de 2021.

G1, https://g1.globo.com/mundo/noticia/2021/03/08/brasil-fica-de-fora-de-declaracao-conjunta-com-mais-de-50-paises-pelo-dia-internacional-da-mulher-na-onu.ghtml. Acesso em: 10 de março de 2021.

UOL, https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2021/03/08/brasil-nao-adere-a-ato-de-60-democracias-na-onu-pela-defesa-das-mulheres.htm. Acesso em: 10 de março de 2021.

Governo Federal, https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/noticias/operacao-resguardo-mira-combate-a-crimes-de-violencia-contra-a-mulher-no-brasil. Acesso em: 10 de março de 2021.

G1, https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2021/03/08/dez-sao-presos-em-operacao-de-combate-a-violencia-contra-mulher-no-pais.ghtml. Acesso em: 10 de março de 2021.

UOL, https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/03/30/por-que-bolsonaro-erra-ao-usar-violencia-domestica-para-criticar-isolamento.htm. Acesso em: 11 de março de 2021.Ipea, https://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/TDs/td_2501.pdf. Acesso em: 11 de março de 2021.

“Ah, se eu pudesse falar!” A narrativa da concubina pela própria Concubina (Jz 19)

* Publicado originalmente no Portal Metodista.

Muitas vezes, ao ler a Bíblia e encontrar relatos que envolvem mulheres, me pergunto como seria aquela história se as mulheres a tivessem contado. Que detalhes nos escapam sobre as mulheres midianitas mortas e suas filhas tomadas pelos israelitas (Nm. 31, 9-18)? O que saberíamos se as filhas de Siló pudessem falar (Jz 21, 8-24)? O que diria Tamar sobre o seu estuprador (II Sm 13, 10-20)?

Quero convidá-las e convidá-los para imaginarmos a carta de uma mulher bíblica que experimentou os mais variados tipos de violência. Ela experimentou violência psicológica, violência patrimonial, violência física, violência sexual e, por fim, o feminicídio. Me refiro à concubina violentada e esquartejada, cuja história encontramos em Juízes 19. Parece estranho que estejamos falando de alguém na Bíblia, mas sim, encontramos essa mulher, dentre tantas outras, no texto bíblico, e preferimos calar sobre ela, pois é “desconfortável” tratar desses assuntos. Nossa insistência em nos mantermos caladas e calados sobre a violência contra as mulheres e aconselhá-las e até mesmo forçá-las a se calarem sobre seus sofrimentos tem sido o mais forte mecanismo de perpetuação dessa violência. Silenciar sobre as mulheres e silenciar as mulheres, negando-lhes o direito de se contarem não é apenas compactuar com a violência, é também um ato violento. O segredo acerca da violência contra as mulheres a tem perpetuado. Dizê-la é confrontar um sistema que tem ferido de morte milhares de mulheres todos os anos.

A narrativa de Juízes não dá nome à mulher que foi violentada. Ela é conhecida como a “concubina do levita”. Tudo o que ela sofreu e, nem ao menos o seu nome foi registrado. O nome confere identidade, dá rosto àquela que sofre violência. Não nomeá-la é também uma forma de violentá-la, pois a distancia ainda mais da possibilidade de encontrar em nós, leitoras e leitores do texto, a acolhida de sua história e a indignação contra o que lhe aconteceu. Na falta de um nome, vou utilizar aqui “Concubina” como nome próprio. Meu convite a vocês é para que deixemos Concubina falar. Não estou dizendo aqui que há uma fonte histórica oculta, um achado arqueológico que “prova” que Concubina disse o que leremos abaixo. Estou pedindo que nos sensibilizemos com a sua dor, que imaginemos qual seria a história de uma mulher que era tida como propriedade de um homem, inferior à condição de esposa, que fugiu dessa situação correndo para a casa do pai, que foi retirada dessa casa pelo homem do qual fugiu, que foi lançada por esse homem e seu anfitrião para um grupo de estupradores, que foi estuprada por todos eles durante toda a noite e que foi esquartejada pelo homem que a tinha como propriedade.

Fazer teologia é também reconhecer que outras narrativas são possíveis, é perguntar como seria a história se outras pessoas, especialmente as que sofrem, a pudessem contar. É esse o exercício que quero fazer com vocês. Quero pedir para se deixarem “afetar” pela vida concreta dessa mulher que nomeei de Concubina, para reconhecerem em sua trajetória a interpelação à Igreja e ao seu compromisso com a vida das mulheres.

Uma carta para as mulheres que virão depois de mim

Queridas mulheres, vocês não me conhecem, mas as chamo de queridas porque realmente as quero bem. Talvez vocês conheçam alguma menina/mulher que esteja vivendo abusos e que precise de ajuda. É por isso que não posso guardar o que sofri somente para mim. Quem sabe meu relato as ajude a entender que não podemos soltar as mãos umas das outras, que devemos denunciar e combater a violência contra as mulheres e que precisamos que mais meninos/homens reconheçam em nós a imagem de Deus.

Minha existência foi marcada por muita violência desde muito cedo. Fui tomada como concubina por um homem, um levita (Jz 19, 1). Eu era tão jovem e tinha tantos sonhos… Queria aprender a ler e escrever, queria decidir o que fazer da minha vida, mas não me foi dada qualquer escolha. Fui retirada ainda novinha da casa da minha família. Essa foi uma de minhas primeiras experiências de violência. Na casa do levita fui violentada sistematicamente. Eu era considerada apenas um objeto. Não aguentei e fugi, retornando para a casa da minha família (Jz 19, 2). Alguns me acusaram de adultério, e na sociedade em que eu vivia, a mulher acusada de adultério era apedrejada, sem direito a defesa, especialmente porque a palavra de uma mulher nada valia. Tive tanto medo! Ainda bem que a minha família me acolheu. Mesmo assim, o medo me acompanhava todos os dias. Não demorou muito e aquele homem do qual fugi me encontrou (Jz 19, 3). Meu pai até que tentou mantê-lo ali. Ele até que conseguiu por uns dias (Jz 19, 4-9). Acho que ele queria mantê-lo sob sua vigilância, para que os abusos não voltassem a ocorrer e para que eu não fosse punida, mas não adiantou. Depois de um tempo ele me levou (Jz 19, 10). Eu não queria ir, mas não tive escolha. Pela segunda vez fui sequestrada por ele. Chorei tanto! No caminho, como já era tarde e ele estava cansado, paramos em Gibeá para passar a noite (Jz 19, 11-15). Um efraimita o acolheu na sua casa (Jz 19, 16-21). Eu entrei porque pertencia a ele. Não consegui comer direito porque não parava de pensar no que aconteceria comigo quando chegássemos à sua casa. Mal sabia eu que aquela noite me reservava dores inexprimíveis. Alguns homens de Gibeá contrários à hospedagem do levita quiseram que o efraimita o entregasse para que, assim, ele fosse estuprado e humilhado por eles (Jz 19, 22). Os dois homens da casa tremeram de medo, tanto medo que o anfitrião ofereceu a mim e à sua jovem filha para os estupradores para fazerem de nós o que quisessem (Jz 19, 23-24). Nós estávamos apavoradas. Como poderiam fazer isso conosco? Por que não nos enxergavam como iguais? Por que não nos amavam? Só por que somos mulheres? Tive vontade de abraçar a filha do efraimita e protege-la daqueles homens (os da casa e os de fora dela). Vontade de dizer a ela que precisávamos nos unir contra o patriarcado mortal que nos vitima a todas. Não deu tempo. O levita e o efraimita não hesitaram em escolher a presa para oferecer aos abutres: eu, que reúno todas as (des)qualidades que a minha sociedade abomina: sou mulher, concubina e serva. Fui lançada a eles e estuprada durante a noite toda (Jz 19, 25). Lançada a eles como um pedaço de carne é lançado a lobos famintos. Tantos homens, tanta violência! Meu frágil corpo sendo estuprado, espancado e ninguém saiu em meu socorro. Talvez algumas mulheres tenham tentado me ajudar, mas foram impedidas, não sei. Gritei tanto pedindo ajuda! Nenhuma porta ou janela de Gibeá se abriu para mim. Depois de algumas horas, já sem forças para gritar, desfaleci, mas eles continuaram a me violentar até o raiar do dia. Já no alpendre da casa do efraimita (Jz 19, 26-27), com o corpo e a alma destroçados, ouvi do homem que me tirou da casa da minha família e que me entregou para lobos devoradores: “Levanta-te e vamo-nos” (Jz 19, 28). Eu não conseguia nem ao menos respirar. Estava cheia de hematomas, coberta de sangue e sêmen e me restava pouca vida. O efraimita não saiu da casa para me oferecer nem ao menos um pouco de água. Sua filha tampouco saiu, mas imagino que ela tenha tentado e o pai a tenha proibido de me ajudar. E assim, desfalecida, fui colocada sobre um jumento e levada pelo levita até a sua casa. Alguém poderia imaginar que, finalmente, ele cuidaria de mim, mas não foi isso o que aconteceu. Ao chegar na casa ele pegou uma faca e me esquartejou em doze partes.

Eu já não existo mais, e aquilo que aconteceu comigo está esquecido para muitas pessoas, mas ainda hoje muitas mulheres têm suas vidas sequestradas por homens violentos. É por isso que a minha história e de tantas outras mulheres precisa ser contada, para que os violentadores sejam expostos, para que não continuem impunes, para que percebamos que não estamos sós. A afirmação insistente do segredo sobre a violência experimentada faz parecer que essa é uma experiência solitária, gerando sentimento de impotência, de culpa e de consequente aceitação dessa situação pelas mulheres. Precisamos nos empoderar pelo contar. É preciso publicizar essas experiências. Dizê-las é encontrar uma comunidade de iguais e assim nos fortalecer.

Esse empoderamento pelo contar também pode ocorrer no ambiente religioso. Por exemplo, as rodas de conversa sobre enfrentamento à violência contra mulheres ocorridas em algumas igrejas, têm sido lugares restauradores. É ali que a solidão se desfaz. Ali as mulheres se contam e se encontram nesse contar. Percebem que não apenas outras já passaram pelo que elas passaram, mas principalmente que elas se indignam juntas e reagem juntas ao sofrimento que já não é mais individual e já não é mais escravo do silêncio.

Publicizar o sofrimento, mesmo que de forma restrita, tem ação sanadora para todas nós. Isso é o que realmente poderíamos chamar de encontros de cura e libertação. O sem sentido do sofrimento dá lugar ao sentido de uma nova vida. O rompimento do pacto de silêncio publiciza o sofrimento que perdurou por anos em nossas vidas e é aí que a morte se faz vida.

Contar a violência sofrida implica romper o silêncio que envolve essa experiência e, portanto, a solidão que amedronta e imobiliza. É por isso que podemos tomar a orientação bíblica e empregá-la em nossas vidas: “ponderai isto, considerai, e falai” (Jz 19,30).


Em amor sororal,

Concubina

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Alguns textos que podem ajudar a aprofundar a reflexão sobre a violência contra as mulheres e o papel da Igreja:

FERNANDES, Andreia. O levita e a concubina: porque outras histórias de mulheres são possíveis e necessárias. Palestra proferida em seminário promovido pela Federação Metodista de Mulheres da 1a RE sobre Violência contra a Mulher. Igreja Metodista em Copacabana, dezembro de 2017.

SOUZA, Sandra Duarte de. ‘Eu não sou mulher’: violência doméstica e ética cristã. Revista Caminhando,v. 19, n. 2, 2014, p. 7-17. Disponível em: https://www.metodista.br/revistas/revistas-ims/index.php/Caminhando/article/view/5415


[1] Publicado na Revista Voz Missionária, março/abril 2021.

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Foto de Capa: Nappy/Reprodução

Casamento precoce forçado: violência contra mulheres que independe de adesão religiosa

Nas últimas semanas, continuou a ecoar em sites cristãos, nacionais e internacionais, o apelo pelo caso Maira Shahbaz, em que uma adolescente do Paquistão de 14 anos foi sequestrada, forçada a conversão ao islã e a casamento com um muçulmano de nome Mohamed Nakash. A indignação compartilhada nas redes refere-se ao fato de o tribunal de justiça paquistanês ter decidido devolver a guarda da menina ao homem que supostamente a sequestrou.

Gospel Mais e Guiame foram os sites brasileiros que repercutiram as notícias, indicando que sua fonte principal era o site americano Morning Star News, especializado em veicular notícias dedicadas exclusivamente ao tema da perseguição a cristãos.

O caso Maira Shahbaz

Maira Shahbaz foi sequestrada no dia 28 de abril deste ano, no Paquistão, por Mohamad Nakash, segundo o site Aid to the Church in Need. O sequestrador alegou que a jovem cristã teria se convertido ao islã e que ela, portanto, teria consentido em se casar com ele.

Uma decisão judicial permitiu que Maria fosse retirada da posse do muçulmano, ficando em um abrigo para mulheres aguardando julgamento final de uma Corte superior, de acordo com o site Church in Chains.

Porém, na primeira semana de agosto, o Tribunal de Faisalabad decidiu que a jovem cristã fosse devolvida ao sequestrador, supostamente seu “marido”. A decisão foi tomada pelo juiz Raja Muhammad Shahid Abbasi, do Tribunal Superior de Lahore. Em 22 de agosto, Maira Shahbaz escapou de seu sequestrador e se escondeu com sua mãe Nighat e irmãos.

Segundo a matéria em Aid to the Church in Need (ACN), a jovem cristã sofreu coerção e estupros, além de ser obrigada a dizer coisas favoráveis ao seu sequestrador para proteger os próprios familiares. Em contato com a ACN, Lala Robin Daniel, amiga da família de Maira, descreveu a sua vida em fuga, mudando-se de um lugar para outro a intervalos de poucos dias, acrescentando:

“Maira está traumatizada. Ela não pode falar. Queremos levá-la ao médico, mas temos medo de sermos vistos. Estamos todos com muito medo, mas colocamos nossa confiança em Deus. ”.

Lala Robin Daniel

Perseguição a cristãos ou abuso de uma mulher?

O caso foi abordado pelas mídias religiosas brasileiras e por várias outras em países distintos, com ênfase no fato de a jovem Maira Shahbaz ser uma cristã forçada a se casar e à conversão.

Entretanto, a maneira como as notícias são conduzidas leva à compreensão de que esse é um caso exclusivo do islamismo.

“O caso de Maria Shahbaz é um entre tantos que revelam uma prática que apesar de repugnante e primitiva, ainda existe em algumas regiões do planeta, colocando em risco a liberdade e os direitos de meninas que se tornam alvos do fanatismo religioso”

conclusão do site Gospel Mais

Estupros e casamentos forçados e precoces, são uma realidade em diversos países do Oriente e da África, mas não são exclusivos a estas regiões. No Brasil, isso também acontece e envolve líderes religiosos, inclusive, cristãos.

O Coletivo Bereia reuniu quatro casos de abuso e pedofilia por parte de religiosos, fora os marcantes casos de João de Deus e o abuso à ministra Damares.

Tem-se o polêmico caso do padre Pedro Leandro Ricardo, em Araras (SP), que assediou coroinhas e funcionários na paróquia em que residia. A revelação ocorreu em 2018 através de uma reportagem da Veja. Um grupo de sete pessoas quatro homens, duas trans e uma mulher fizeram a denúncia que o padre tinha cometido nos últimos 15 anos. A advogada Talitha Camargo da Fonseca e o produtor audiovisual José Eduardo Milani enviaram um dossiê de 68 páginas ao Vaticano para denunciar os crimes, incluindo relatos das vítimas.

O que gerou grande indignação na época, é que ele contou com a proteção de dom Vilson Dias de Oliveira, bispo emérito da Diocese de Limeira, jurisdição que representa dezesseis cidades do interior de São Paulo. Leandro acabou afastado das funções de padre e de reitor da Basílica de Santo Antônio de Pádua e está impedido de celebrar missas até a conclusão da investigação. O bispo Vilson, que o protegia, renunciou ao cargo quando o escândalo veio à tona. “Ele cansou de receber denúncias a respeito”, diz a advogada Talitha.

Em Santa Catarina, um padre chamado Vitalino Rodrigues foi preso em maio deste ano, após ser acusado de pedofilia em pelo menos cinco crianças. A notícia extraída do noticiário Balanço Geral diz que o padre já foi preso uma vez, em 2007 em Fazenda Rio Grande, município do Paraná e teria sido preso novamente agora por denúncia anônima. Os primeiros crimes aconteceram em 2007. A polícia relatou que no local em que o padre cometia os crimes foram encontrados brinquedos e filmes pornográficos.

No início de 2020, um pastor e psicólogo da Igreja Batista de Recife (PE), foi indiciado por assédio, estupro, difamação, injúria racial e violação de segredo profissional. A Convenção Batista afastou o pastor após oito mulheres que frequentavam o templo, afirmarem ter sido vítimas dessas violências entre os anos de 1996 e 2019. A identificação do pastor não foi liberada.

Em junho deste ano, o pastor Davi Passamani, líder da Igreja Casa, foi denunciado pelo Ministério Público do Estado de Goiás pelo crime de importunação sexual, que ocorreu em janeiro de 2019. Além disso, o pastor já havia sido denunciado por uma veterinária que frequentava sua igreja pelo mesmo crime, de acordo com a vítima, ele afirmou que queria sentir seu beijo e que havia sonhado com ela. Em abril de 2020, a Justiça de Goiás determinou o arquivamento do inquérito.

Além disso, segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), o Brasil ocupa a quarta posição em maior número de casamentos infantis em todo o mundo, sendo o maior na América Latina. Ao entrevistar mulheres de 20 a 24 anos, em 2015, constatou-se que 36% delas, ou 3 milhões de brasileiras, casaram-se precocemente.

A violência contra adolescentes ocorre em todos os lugares do mundo e pode envolver líderes de diversas religiões. Não é algo que está caracterizado ou vinculado a apenas uma crença.

Bereia chama a atenção de leitores/as para matérias em sites de notícias religiosas que desinformam por desviarem o assunto para outros temas de interesse deles. O tema da perseguição religiosa tem forte apelo de público, neste caso, foi o tema privilegiado na cobertura do Gospel Mais e de vários outros sites cristãos, o que, frequentemente, leva à rejeição do islã, colocado em evidência. Bereia demonstra, com esta verificação, que o material noticioso divulgado é impreciso e deixa de abordar o caso que é um problema mundial, portanto, também do Brasil, que envolve violência contra mulheres por meio do casamento forçado precoce, o que pode ter ou não relação com adesão religiosa.

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Foto de Capa: ACN Portugal/Reprodução

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Referências

GOSPEL MAIS. Adolescente cristã sequestrada por muçulmano diz que foi estuprada “repetidamente”, https://noticias.gospelmais.com.br/adolescente-crista-sequestrada-por-muculmano-diz-que-foi-estuprada-repetidamente.html. Acesso em: 12 out. 2020.

G1 GOIÁS. Após ter inquérito por assédio arquivado, pastor é denunciado por importunação sexual em outro caso, em Goiânia. https://g1.globo.com/go/goias/noticia/2020/06/11/apos-ter-inquerito-por-assedio-arquivado-pastor-e-denunciado-por-importunacao-sexual-em-outro-caso-em-goiania.ghtml. Acesso em: 14 out. 2020.

G1 GOIÁS. Justiça arquiva processo de assédio sexual contra pastor em Goiânia, diz advogado, https://g1.globo.com/go/goias/noticia/2020/04/28/justica-arquiva-processo-de-assedio-sexual-contra-pastor-em-goiania-diz-advogado.ghtml. Acesso em: 12 out. 2020.

G1 PERNAMBUCO. Pastor evangélico é indiciado pela polícia por violência sexual contra oito frequentadoras de igreja. https://g1.globo.com/pe/pernambuco/noticia/2020/02/28/pastor-evangelico-e-indiciado-pela-policia-por-violencia-sexual-contra-oito-frequentadoras-de-igreja.ghtml. Acesso em: 12 out. 2020.

GUIA ME. Sequestrada e forçada a casamento islâmico, garota cristã diz que ‘marido’ a estuprou. https://guiame.com.br/gospel/missoes-acao-social/sequestrada-e-forcada-casamento-islamico-garota-crista-diz-que-marido-estuprou.html. Acesso em: 14 out. 2020.

MORNING STAR NEWS. Verdict in Pakistan Portends More Forced Marriages/Conversions of Christian Girls. https://morningstarnews.org/2020/08/verdict-in-pakistan-portends-more-forced-marriages-conversions-of-christian-girls/. Acesso em: 14 out. 2020.

CHILDFUND. Como você pode ajudar a evitar casamento infantil no Brasil? https://www.childfundbrasil.org.br/blog/casamento-infantil-no-brasil/. Acesso em: 14 out. 2020.