“Auê”: uma canção evangélica desafia a cultura gospel e se torna alvo de mentiras

Nos últimos dias, a cena musical gospel brasileira foi sacudida por uma intensa controvérsia envolvendo a canção “Auê (A fé ganhou)” do Coletivo Candieiro. O Bereia verificou que a música se tornou centro de uma intensa onda de ataques e desinformação em plataformas como Instagram, TikTok e X (antigo Twitter). 

A produção, que integra o projeto audiovisual “O Grande Banquete”, gravado ao vivo em João Pessoa (PB), tem sido alvo de perfis de identidade religiosa conservadora que classificam a composição como “macumba gospel”, “invocação de demônios” e acusam seus autores de serem “servos de Satanás”. Bereia buscou informações em torno da produção, da identidade do grupo musical e confrontou críticas com ataques de violência verbal que circulam no ambiente digital.

A produção “O Grande Banquete” e a canção “Auê”

A música “Auê” faz parte do álbum “O Grande Banquete”, lançado no início deste 2026 pelo pastor e cantor Marco Telles, em parceria com o Coletivo Candieiro. Os compositores explicam que o álbum é concebido como um “sermão musical”, uma experiência sonora contínua composta por nove faixas que exploram a temática da hospitalidade divina e a inclusão dos “improváveis” no banquete do Reino de Deus. 

Ritmicamente, “Auê” é uma fusão de elementos da música popular brasileira, com forte presença da ciranda, do samba e de percussões nordestinas. A letra utiliza termos do cotidiano brasileiro para ilustrar a alegria da fé. A polêmica concentra-se em trechos como:

“Agora que o Zé entrou, e todo mundo viu / (…) Agora que a fé ganhou, e a Maria sambou / Sua saia balançou, alguém se incomodou”.

O que é o Coletivo Candieiro?

O Coletivo Candieiro não é uma banda vinculada a uma única denominação, mas o selo de um movimento de artistas cristãos, majoritariamente do nordeste do país, fundado por volta de 2019. O grupo é liderado por Marco Telles, que também é pastor da Igreja Luzeiro, em João Pessoa (PB). O propósito do coletivo, conforme manifesto publicado em seu site oficial e em entrevistas a veículos como Ultimato e Apenas Música, é “ecoar a voz e o canto da regionalidade com sotaque”, rompendo com a estética homogeneizada da indústria gospel do Sudeste. O grupo defende a “teologia da cultura”, buscando expressar a fé cristã através das linguagens e ritmos brasileiros, combatendo o que chamam de “elitismo litúrgico”.

Desinformação e ataques

As publicações verificadas pelo Bereia mostram que a polêmica não se restringe a uma mera divergência estética. Críticos, majoritariamente de vertentes teológicas e políticas mais conservadoras apontam para elementos na letra e no ritmo que, em sua visão, rompem com os padrões estabelecidos da música cristã. O uso da palavra “auê” – que significa barulho, agitação – e referências a figuras populares como “Zé” e “Maria”, além da incorporação de ritmos como ciranda e samba, foram interpretados por alguns como um perigoso flerte com o sincretismo religioso e uma diluição da pureza doutrinária cristã. 

A associação de “Maria sambou” com a figura de Maria Padilha, divindade de religiões de matriz africana, e a menção a “Zé” remetendo a Zé Pelintra, entidades afro-brasileiras, são exemplos das interpretações que alimentaram a controvérsia e causou repercussão negativa entre os mais conservadores agitando as redes sociais. Ouvidos pelo Bereia, os compositores Marco Telles e Filipe da Guia reafirmaram o que tem sido amplamente divulgado pelo grupo nas mídias sociais: que os nomes representam o “povo comum brasileiro” e que a intenção foi “representar o nosso povo e de forma nenhuma fazer alguma conexão ou associação a outra religião”.

A controvérsia, marcada inicialmente por estas interpretações, acabou sendo alimentada por desinformação. Alguns perfis publicaram vídeos da apresentação da música, com edições manipuladas, afirmando que a música conteria “mensagens subliminares” e que o ritmo de ciranda seria uma forma de “evocação espiritual não-cristã”.

Entre as mentiras levantadas na pesquisa do Bereia, destacam-se acusações de “satanismo” – postagens que classificam os integrantes como “intrusos do satanismo no meio evangélico”.

Imagem: reprodução/Youtube


Imagem: reprodução/Instagram

Imagem: reprodução/Instagram

Foram publicadas também afirmações de que o grupo estaria realizando um ritual sincrético oculto, com desconsideração ao histórico dos músicos e as explicações teológicas e poéticas que forneceram.

Apoios e defesa da pluralidade

Apesar dos ataques, o Coletivo Candieiro recebeu apoio de lideranças evangélicas de diferentes vínculos políticos e teológicos e de pessoas das igrejas, evidenciando que a aceitação da obra não está restrita a um único grupo.

Pastor Carlos Alberto Bezerra Jr.  Imagem: reprodução/Instagram

Pastor Alexandre Gonçalves. Imagem: reprodução/X

Pastor Luiz Sayão. Imagem: reprodução/Instagram

 

Pastor Kenner Terra. Imagem: reprodução/X

Sincretismo ou racismo religioso? A visão dos especialistas

Bereia ouviu o especialista em pluralismo religioso, pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, Prof. Dr. Cláudio Ribeiro sobre o caso. Para ele, a polêmica em torno da música está diretamente relacionada ao uso dos termos “Zé e Maria” como expressão do universo afro-brasileiro. Ele considera que essa controvérsia expõe uma dificuldade dos grupos evangélicos em lidar com elementos religiosos de matriz africana. Ribeiro é categórico ao afirmar:

“Quando as pessoas falam de sincretismo, elas estão escondendo o racismo que está dentro delas; elas não querem se misturar com elementos de outras religiões, em especial das comunidades negras. É um racismo religioso.”

Para o pesquisador, essa perspectiva lança luz sobre uma dimensão frequentemente ignorada no debate: o racismo religioso, onde a aversão a certas expressões culturais pode mascarar preconceitos mais profundos.

Já o músico Jorge Camargo, com uma trajetória sólida de 45 anos na cena musical evangélica, também ouvido pelo Bereia, destaca que a letra que menciona “a Maria sambou e o céu se abriu” gera desconforto por associar o samba ao ambiente de adoração. 

Para Camargo, essa é uma discussão antiga, pois “em nossas liturgias, a presença do corpo ou de danças sempre foi muito rechaçada sobre o argumento de que isso possa sensualizar ou carnalizar as nossas expressões de louvor e tudo mais.”  O músico defende que a dança deveria ter mais espaço, criticando a superficialidade ou os “cuidados excessivos” que cercam essa expressão, como se a carnalidade estivesse presente apenas nas manifestações artísticas culturais e não no “labor teológico, no labor da pregação”. 

Músico Jorge Camargo. Imagem: reprodução/Instagram

Camargo traça um paralelo histórico, lembrando que a figura do artista e do músico no Brasil, desde o início do século 20, foi muitas vezes associada ao “boêmio e que não gostasse de trabalhar”. Para ele, a reação a “Auê” é um “filme antigo” que se repete:

“Nada muda desde a década de 80, a arte chamada secular contaminando a arte cristã para os tradicionais.

No seu ponto de vista, o que está acontecendo com a canção ‘Auê’ parece mais do mesmo, parece a reprodução de um filme antigo; onde muda-se as personagens, muda-se o tema, o roteiro, mas a essência é a mesma. Esse misto de ignorância e, hoje com o advento das mídias sociais, também um componente de maldade e de agressividade gratuito.”

O que dizem os compositores de “Auê”

Em entrevista ao Bereia, o diretor criativo do Coletivo Candieiro e um dos compositores da canção pastor Marco Telles, oferece uma avaliação sobre o impacto de “Auê”. Ele acredita que o “burburinho” causado pela música no contexto das igrejas evangélicas se deve a um distanciamento da própria cultura brasileira:

“Acho que essa música causou tanto burburinho na igreja porque a igreja tem demonstrado um imenso afastamento de sua própria cultura, de seus traços mais elementares, dos seus símbolos de identificação própria. Como a música AUÊ resgata alguns dos símbolos e traços culturais do Brasil, isso soa estranho para a igreja.”

Essa avaliação sugere que a estranheza não reside na música em si, mas na desconexão de parte do evangelicalismo com as raízes culturais do país, preferindo modelos importados que, por vezes, não dialogam com a realidade local.

“Quando eu e Filipe estávamos compondo essa canção a gente só pensava na alegria de representar o povo brasileiro entrando na festa de Deus. A gente só queria representar que essa festa de Deus é um banquete para os improváveis, é uma festa que acolheu tanta gente diferente no mundo, tanta gente diminuta, tanta gente periférica e entre esses estamos nós os latino-americanos, que estamos na parte sul do globo e que historicamente estamos sempre submetidos a tanta exploração e tantas guerras culturais.

A gente agora tem a possibilidade de se ver na festa de Deus, de se ver na obra de Cristo, de se encontrar na obra de Cristo. Nossa única intenção foi representar o nosso povo e de forma nenhuma fazer alguma conexão ou associação a outra religião” destaca Telles.

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A partir desta apuração, Bereia avalia que “Auê” do Coletivo Candieiro, mais do que uma simples canção, tornou-se um catalisador para debates urgentes e necessários para o campo religioso. A controvérsia em torno da letra e do ritmo da canção não apenas expõe as tensões entre religião  e cultura musical, mas também revela questões mais profundas relacionadas à identidade cultural, ao racismo religioso e à forma como a fé se expressa em um contexto tão plural como o Brasil. 

A música, ao resgatar símbolos e traços culturais nacionais, força as igrejas e suas lideranças a confrontarem seu próprio espelho, questionando até que ponto estão dispostas a abraçar a riqueza da cultura brasileira sem cair em preconceitos ou em uma ditadura do mercado gospel”  que marginaliza expressões autênticas de fé. O “auê” gerado pela canção é, em última instância, um convite à reflexão sobre o futuro de uma fé que busca ser relevante e encarnada em seu próprio “chão”.

As críticas resultam de interpretações subjetivas e preconceitos culturais (racismo religioso) contra ritmos e termos da cultura popular brasileira. A verificação mostra que o Coletivo Candieiro possui fundamentação teórica e teológica para sua produção, e que as acusações de “invocação de demônios” são FALSAS pois carecem de base factual, servindo para alimentar o pânico religioso e a perseguição a artistas que buscam inovar na estética cristã nacional.

Referências

https://www.apenasmusica.com.br/entrevista/por-um-canto-com-sotaque-am-entrevista-coletivo-candiero Acesso em 10 fev 2026

https://www.ultimato.com.br/conteudo/colcha-de-retalhos-coletivo-candiero Acesso em 10 fev 2026

https://comunhao.com.br/musicas-gospel-au-e-controversia-entre-evangelicos/ Acesso em 10 fev 2026

https://www.instagram.com/reel/DUV_1sIEb1t/?igsh=Y3preGQycTM5emZu Acesso em 10 fev 2026

https://www.instagram.com/p/DUbhCw9Accz/?igsh=NmIwanl3bDFkMno2 Acesso em 10 fev 2026

https://x.com/pr_alexandregon/status/2019001176604152307?s=46 Acesso em 10 fev 2026

https://www.instagram.com/reel/DURuy-DDlCh/?igsh=MXYxYXFrNWRzam45dQ== Acesso em 10 fev 2026

Notícias sobre inauguração de templo dedicado a Lúcifer viralizam mas não informam

* Matéria atualizada em 18/12/2024, às 14:13

Depois de ter viralizado nas mídias sociais, a divulgação do lançamento de uma imagem de cinco metros de altura em culto a Lúcifer virou pauta nos principais veículos de imprensa do Brasil. Em 9 de agosto passado, Bereia teve acesso a matérias de mídias religiosas e seculares que noticiam a inauguração do que seria considerado “o maior santuário dedicado a Lúcifer no Brasil, localizado em Gravataí”, no Rio Grande do Sul. 

Imagem: reprodução/Pleno News

Imagem: reprodução/G1

Imagem: reprodução/UOL

Diversas mídias de notícias, como G1, Folha de São Paulo, CNN e UOL,  também deram destaque ao assunto, além de outros sites religiosos como o Gospel Prime, o Pleno News e perfis em mídias digitais. Especialistas questionam o apelo e a relevância dessa prática no Brasil, enquanto grupos religiosos expressam preocupações sobre o impacto desse movimento no cenário religioso nacional.

O local, que abriga uma estátua, mantido sob sigilo por questões de segurança, segundo as notícias, se propõe a ser espaço de rituais de “demonolatria” que pretendiam desmistificar a figura de Lúcifer. 

Ouvidos pelo UOL, os fundadores da  Nova Ordem de Lúcifer na Terra, a instituição proprietária da imagem, afirmam que o grupo  conta com cerca de 100 membros. 

A Nova Ordem de Lúcifer 

A imagem que gerou a polêmica nas mídias seria inaugurada em 13 de agosto passado pela Nova Ordem de Lúcifer na Terra, um grupo que define ter práticas que envolvem a adoração a Lúcifer. No entanto, os fundadores afirmam não terem conseguido realizar o evento, que seria interno para os participantes dos cultos, por terem sofrido “intolerância religiosa da Prefeitura de Gravataí”.

“É curioso que hoje, essa mesma data, na nossa cidade, está tendo numa área pública um movimento, uma movimentação de cristãos, e lá é permitido um espaço público, agora aqui, um espaço particular, privado, que não tem dinheiro público para nada, nós estamos sendo proibidos pela prefeitura, que entrou com uma ação e olha, espantem-se, multa de 50 mil reais se a gente fizer nossa inauguração hoje. A realidade é que isso se trata de um episódio de intolerância religiosa”,  diz Lukas de Bará da Rua, um dos fundadores da organização, em vídeo no Instagram, publicado em 16 de agosto.

Imagem: reprodução/Instagram

No perfil do Instagram, criado em fevereiro de 2024, a organização se apresenta como uma alternativa às religiões tradicionais, com proposta de uma visão diferente sobre figuras demoníacas, que são vistas por seus seguidores como símbolos de conhecimento e autoconhecimento.

Para a tradição cristã, “Lúcifer” é conhecido por ser o anjo caído. Dado como orgulhoso, Lúcifer decidiu que queria construir seu trono acima de Deus e convenceu cerca de um terço dos anjos de apoiá-lo. O exército dos rebeldes  acabou perdendo e, assim como aqueles que abraçaram a ideia do “anjo orgulhoso”, todos foram enviados para o inferno, para arder pela eternidade.

Ao Uol, os fundadores da ordem afirmam que a imagem representa “a dualidade entre carne e espírito”. Para eles, Lúcifer foi injustamente demonizado pela Igreja Católica, e o santuário pretende divulgar a imagem da entidade como “portadora da luz e do autoconhecimento”. Em publicações feitas nas mídias digitais, eles também explicam que Lúcifer representa “a luz e o equilíbrio das energias universais”. 

Imagem: reprodução/Instagram

“Lúcifer, na nossa visão, representa a luz do autoconhecimento. Não existe a ‘queda de Lúcifer’. Na verdade, temos uma interpretação diferente sobre as energias que equilibram o Universo”, explica Lukas de Bará da Rua.

“Não vemos necessidade de um livro escrito. Valorizamos a tradição e o conhecimento transmitido. No entanto, estamos finalizando a ‘Bíblia do Diabo Segundo a Corrente 72’, que será publicada em breve”, afirma Tatá Hélio de Astaroth, cofundador da Ordem, que no seu site oficial, se apresenta como o “Tatá do Amor”.

Imagem: reprodução/Instagram Tatá Hélio de Astaroth

Lukas de Bará da Rua mantém um site onde se apresenta como “Rei da Amarração Amorosa” e “Táta (sacerdote) de Quimbanda Independente”. Ele afirma trabalhar com Exús, Pomba Giras e Demônios e realizar diversos tipos de trabalhos espirituais. Com mais de 18 anos de experiência religiosa, especializou-se em rituais voltados para questões amorosas, incluindo “Adoçamento Amoroso”, “Afastamento de Rival” e “Brochamento”.

A Quimbanda é  uma prática religiosa afro-brasileira que lida com entidades conhecidas como Exús e Pomba Giras, frequentemente associadas a rituais de magia e espiritualidade que não seguem as normas do Candomblé ou da Umbanda. Praticada no no Rio Grande do Sul, adquiriu uma posição singular em comparação com outras regiões do Brasil.

A Nova Ordem de Lúcifer se conecta à “Quimbanda Independente”, prática declarada por  Lukas de Bará da Rua, um dos fundadores da Ordem, que se autodenomina “Táta de Quimbanda Independente”. Ao se denominar desta forma, os fundadores da Nova Ordem de Lúcifer sugerem se apropriar das bases da Quimbanda mas se distanciar das tradições desta expressão religiosa, que têm raízes afro-brasileiras. 

De acordo com estudos acadêmicos, como os publicados na Revista de Antropologia da USP, a Quimbanda é uma prática religiosa com uma base histórica sólida, profundamente enraizada em tradições religiosas afro-brasileiras. A versão praticada pela Nova Ordem de Lúcifer, no entanto, parece ser uma interpretação ou ressignificação dessa tradição, o que levanta questionamentos sobre sua autenticidade e conexão com a Quimbanda original.

Santuário interditado pela Justiça

 O grupo anunciou a inauguração do Santuário a Lúcifer, no perfil do Instagram, para o dia 13 de agosto, em Gravataí (RS). Por conta da repercussão, a Prefeitura local publicou uma nota com desmentido sobre boatos quanto ao uso de recursos públicos na construção do templo. Em nota oficial, publicada em 8 de agosto, a Prefeitura afirmou desconhecer qualquer iniciativa de criação do santuário.

Porém, a Justiça do Rio Grande do Sul suspendeu a inauguração do espaço. A decisão da 4ª Vara Cível, em 13 de agosto,  atendeu a um pedido da Prefeitura local e determinou uma multa diária de R$50 mil caso a determinação seja descumprida. A suspensão foi motivada pela falta de regularização administrativa do templo, que não possui as licenças obrigatórias nem CNPJ. Embora a decisão reconheça o direito à liberdade religiosa, ressaltou a necessidade de cumprimento das exigências legais para o funcionamento de qualquer templo religioso.

Além disso, a Justiça acatou o argumento da Prefeitura sobre o risco à segurança pública, devido à grande repercussão do novo local e à localização isolada do templo, o que poderia dificultar a prestação de assistência pelo Poder Público em caso de incidentes.

Esse contexto jurídico expõe as tensões entre a liberdade de crença e o cumprimento das normas de segurança e regularização, elementos centrais para se entender a controvérsia em torno da inauguração desse santuário.

Apelo e relevância no Brasil

Apesar da ampla cobertura midiática, Bereia destaca o questionamento quanto à relevância de se noticiar a inauguração deste santuário. A Nova Ordem de Lúcifer se mostra uma organização de alcance limitado, com cerca de 100 participantes, cujas práticas e doutrinas foram desenvolvidas recentemente por seus próprios fundadores. Tais nuances não foram destacadas nas matérias checadas pelo Bereia. Além disso, o Satanismo tem pouca relevância no Brasil em termos de influência cultural e religiosa.

Estudos indicam que a maioria dos satanistas modernos são não teístas, e veem Satanás mais como um símbolo de rebelião e autoconhecimento do que como uma entidade sobrenatural. No Brasil, o Satanismo é, frequentemente, alvo de desinformação relacionada a destruição de reputações políticas, como  o Bereia já apontou, além da pouca expressão ou impacto significativo. 

O Satanismo tem pouca adesão e impacto social no país, conforme apontam estudos e especialistas. A maioria dos praticantes segue correntes que derivam de tradições internacionais, como o Satanismo Moderno e o Satanismo Tradicional, mas essas práticas são bastante marginalizadas e pouco expressivas.

Segundo a moderadora do Grupo de Estudos Satanismo Brasileiro Andreia Cardoso, a maioria dos grupos satanistas no Brasil adere a bases filosóficas importadas de outros países, e a prática é mais associada a uma forma de rebelião simbólica contra normas sociais dominantes do que a uma religião organizada com grande número de seguidores. 

A pesquisadora também destaca que o Satanismo é frequentemente mal compreendido, sendo muitas vezes associado erroneamente a práticas violentas ou depravadas, o que contribui para a sua marginalização.

Além disso,  os estudos ressaltam que o Satanismo no país é mitificado da mesma forma que as religiões de matriz africana são, “julgados como cultuadores de demônios, e acusados de realizarem trabalhos de magia negra, a ‘razão’ para a desgraça da vida de muitos”, diz Andreia Cardoso. 

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Bereia avalia que as matérias publicadas sobre a inauguração do templo satanista em Gravataí (RS), com temáticas ligadas ao grupo, suas crenças e práticas, são imprecisas. O conteúdo não apresenta dados suficientes para justificar relevância na cobertura deste tema, deixando para os leitores a busca de informações sobre tais práticas no País. Além disso, como Bereia levantou, o Satanismo é um movimento que não tem relevância no Brasil. 

Esta combinação de fatores sugere que a importância atribuída a essa notícia por tantas mídias é desproporcional ao impacto do grupo Nova Ordem de Lúcifer no cenário religioso nacional, o que aponta para um sensacionalismo em relação a um tema de apelo sensível.

Bereia já checou várias matérias que mostram o uso do tema e como ele afeta pessoas, o que se torna fonte para intolerância religiosa – principalmente relacionada a religiões de matriz africana –  e política.

ATUALIZAÇÃO:

A Justiça do Rio Grande do Sul confirmou a interdição do imóvel na zona rural de Gravataí que seria usado como um templo dedicado a Lúcifer. Segundo a decisão da 4ª Vara Cível Especializada em Fazenda Pública (Processo 5021580-57.2024.8.21.0015), o local só poderá funcionar após regularização e obtenção de licenças obrigatórias. 

A sentença ressalta que, embora haja liberdade religiosa, templos também precisam cumprir normas administrativas e possuir alvarás. A organização responsável pelo espaço não apresentou registros formais que comprovassem o uso restrito aos membros, sem abertura ao público. Caso descumpram a ordem, os responsáveis pagarão multa diária de R$ 50 mil.

Um dos líderes da entidade religiosa, Mestre Lukas, afirmou ser vítima de perseguição religiosa. O processo judicial tramita sob segredo de justiça, por essa razão, os detalhes do caso não são acessíveis ao público geral, sendo restritos às partes diretamente envolvidas, seus advogados e autoridades competentes. Divulgações feitas por veículos de imprensa sobre o caso são limitadas e baseadas em informações superficiais.

Referências de checagem:

Instagram.

https://www.instagram.com/novaordemdelucifernaterra/ Acesso em: 13 Ago 2024

https://www.instagram.com/tatahelio.com_/ Acesso em: 13 Ago 2024

https://www.instagram.com/reel/C-tUVXaOQZm/ Acesso em: 13 Ago 2024

https://www.instagram.com/reel/C-tmEg6Myyh/ Acesso em: 13 Ago 2024

Mestre Lukas. https://oreidaamarracaoamorosa.com/ Acesso em: 13 Ago 2024

UOL.

https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2024/08/12/santuario-dedicado-a-lucifer-com-estatua-de-5-metros-gera-polemica-no-rs.htm Acesso em: 13 Ago 2024

https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2024/08/13/justica-suspende-inauguracao-de-santuario-no-rs-dedicado-a-lucifer.htm Acesso em: 13 Ago 2024

Artigo. O Enigma da quimbanda: formas de existência e de exposição de uma modalidade religiosa afro-brasileira no Rio Grande do Sul https://www.revistas.usp.br/ra/article/view/186652/174790 Acesso em: 13 Ago 2024

Artigo. https://revistas.est.edu.br/periodicos_novo/index.php/Identidade/article/view/1193 Acesso em: 13 Ago 2024

Editora Fontenele. https://www.editorafontenele.com.br/loja-comprar-livro/ELES-ESTAO-AQUI!—Baseado-na-corrente-72-Religiao-e-Espiritualidade/62713440/livraria Acesso em: 13 Ago 2024

Prefeitura de Gravataí.

https://gravatai.atende.net/cidadao/noticia/nota-de-esclarecimento-templo-religioso Acesso em: 13 Ago 2024

https://gravatai.atende.net/cidadao/noticia/nota-templo-religioso Acesso em: 13 Ago 2024

TJ-RS. https://www.tjrs.jus.br/novo/noticia/justica-suspende-inauguracao-de-templo-religioso-por-falta-de-alvara-de-funcionamento/ Acesso em: 13 Ago 2024

 Folha de São Paulo. https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2024/05/padre-diz-em-missa-que-rio-grande-do-sul-abracou-a-bruxaria-e-o-satanismo.shtml Acesso em: 13 Ago 2024

BBC. https://www.bbc.com/portuguese/geral/2016/05/160508_diabo_vermelho_chifres_rb  Acesso em: 13 Ago 2024

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Foto de capa: reprodução/Instagram

Satanismo volta a ser utilizado em narrativas politizadas

Vídeos antigos mostrando suposto ritual satânico com imagem do presidente Lula (PT) voltaram a circular nas redes digitais e passaram a ser associados por internautas ao atentado a uma creche em Blumenau (SC), ocorrido em 5 de abril.

O conteúdo, que já havia despontado durante o período eleitoral de 2022, foi sinalizado pelo Whatsapp como encaminhado com frequência. No Facebook, Tik Tok e Youtube somam pelo menos 25 mil visualizações.

O que mostram os vídeos

Imagens gravadas por um celular aparentam um flagrante por parte de um cristão que sobe ao topo de um monte à noite para orar. Elementos ritualísticos espalhados pelo chão, fogueiras e um cavalete com a fotografia do presidente Lula da Silva, vestindo a faixa presidencial, aparecem na imagem. 

Um segundo vídeo flagrante, no mesmo local, mostra pessoas encapuzadas se movimentando entre a foto de Lula e as fogueiras, e gritando algumas palavras distorcidas por ruídos. As legendas no vídeo são alarmantes e simplificam a mensagem em: “sacrifício de 10 mil crianças”.

Imagem: reprodução do Tik Tok

O conteúdo audiovisual está fundamentado no conceito cristão de malignidade, sendo evidenciados signos do Cristianismo que representam o mal. Isto pode ser observado nas cores, nas simbologias de morte representadas pelo sangue e pela caveira, símbolos associados, historicamente, à imagem de Satanás, que é parte do repertório cristão relacionado ao mal,  e também elementos relacionados a religiões afro-brasileiras. 

A narrativa que se impõe é a de que ocorria, no local, um ritual satânico que buscava garantir a vitória do então candidato Luís Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais de 2022. Afora a aparência de simulação de flagrante, em local aberto, com a presença de outras pessoas e a desenvoltura teatral daqueles que aparecem no vídeo, chama atenção a falta de informações específicas como endereço, data e autores dos vídeos.

Eleições de 2022

Ainda durante as eleições, a coligação Brasil da Esperança acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para pedir  a remoção de conteúdos audiovisuais que associavam o seu então candidato à Presidência Lula ao satanismo, conforme noticiou o site Consultor Jurídico. Para os advogados da chapa, tratava-se de uma “narrativa fantasiosa e danosa à imagem e honra de Lula”. 

Na época, o Correio Braziliense também noticiou o fato do Partido dos Trabalhadores (PT) ter acionado o TSE. Segundo o jornal, a Corte já havia tomado providências para que os vídeos fossem retirados das plataformas. A ação impetrada pelo PT explicitava que a candidatura adversária, encabeçada por Jair Bolsonaro (PL), buscava levar a religião para o centro do debate político, “utilizando-se da repulsa social que todos os cristãos têm com a figura do diabo e satanistas”.

Antes do episódio que coincidiu com o segundo turno das eleições, um caso semelhante já havia ocorrido. Um vídeo que apresentava um influenciador satanista apoiando Lula circulou nas redes digitais, conforme noticiado pelo blog da jornalista Malu Gaspar, em O Globo. Segundo a colunista, grupos digitais que apoiavam Jair Bolsonaro incentivavam o compartilhamento do vídeo. Na ocasião, o apoio a Lula foi desmentido pelo próprio influenciador que aparece no vídeo, como mostra a checagem feita por Bereia realizada à época.

Permanência dos vídeos nas plataformas digitais

Mesmo após decisões da Justiça, é possível constatar que o conteúdo continua disponível em plataformas como TikTok, Facebook e Youtube. A maior parte das publicações encontradas data de 28 de outubro de 2022, antevéspera do segundo turno das eleições presidenciais. No Facebook, há publicação veiculada em 30 de outubro, dia do pleito.

Imagem: reprodução do YouTube

No TikTok, pelo menos quatro perfis publicaram o vídeo do suposto ritual em 28 de outubro de 2022. Em uma delas, feita pelo perfil Apóstolo Paulo Magno, a publicação exibe a etiqueta “paid partnership” (parceria paga). Bereia entrou em contato com Magno, mas não obteve resposta até o fechamento desta checagem.

Imagem: reprodução do TikTok

Outro perfil do TikTok que publicou o conteúdo na antevéspera das eleições presidenciais foi o Portal Novo Norte. O editor-chefe do portal, Pablo Carvalho, em conversa com Bereia, afirmou que “uma pessoa entrou em contato via WhatsApp e enviou esse vídeo alegando ter estado no momento da gravação”. Carvalho disse não possuir mais informações. O vídeo continua ativo no perfil Portal Novo Norte no TikTok.

Imagem: reprodução do Tik Tok

Pânico como arma política

Principalmente a partir de 5 de abril, data em que um homem invadiu uma creche em Blumenau (SC) , matou quatro crianças e feriu outras cinco com uma machadinha, internautas passaram a sugerir que o ato criminoso estaria relacionado aos sacrifícios de crianças referidos nos vídeos, e ampliaram as ações de compartilhamento.

Na postagem feita pelo Portal Novo Norte, por exemplo, é possível encontrar comentários recentes, associando o ataque em Blumenau ao suposto ritual pela vitória de Lula nas eleições. Comentários raivosos também podem ser lidos na publicação do Apóstolo Paulo Magno: “faz o L (…) agora chora os filhos de vcs” (sic). 

O perfil Assembleianos de Valor publicou, no Facebook, texto em que associa o ataque às crianças com o atual governo, ao dizer que “hoje a sede do governo do Brasil é consagrada a Exu”, entre outras insinuações. Na plataforma, o perfil deixa clara sua associação com a Assembleia de Deus no Brasil e se apresenta como “site de notícias e mídia”.

Imagem: reprodução do Facebook

O atentado em Blumenau (SC) por sí só é uma tragédia e representa a vulnerabilidade da sociedade diante das violências do mundo contemporâneo. A partir disso, surgiram diversos debates sobre a necessidade de treinamento policial e tecnologias para evitar episódios semelhantes. 

Notícias de supostos ataques parecidos se espalharam por diferentes cidades do país nos últimos dias e veículos de comunicação precisaram adotar medidas sobre a cobertura de tais eventos para minimizar o efeito do temor na população. Diante disso, é notório o pânico que informações relacionadas a atentados contra crianças e em locais do cotidiano podem causar nas pessoas por se sentirem desprotegidos. 

A associação deste medo com a abominação, que uma sociedade majoritariamente cristã cultiva contra a ideia do maligno, com o intuito de construir uma narrativa de poder político é uma estratégia para trazer a sensação extrema de pânico.

Além disso, este tipo de desinformação amplifica conteúdos relacionados a intolerância contra religiões de matriz africana, como já foi identificado pelo Bereia em checagens.

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Bereia considera falso o conteúdo avaliado. O conteúdo dos vídeos não fornece substância factual para ser considerado informação e pode ser caracterizado como boato ou conteúdo fabricado para parecer informação.

Os vídeos em questão apresentam características comuns em conteúdos desinformativos, como baixa qualidade de imagem e som, ausência de informações relacionadas à data e ao local em que teria ocorrido o evento e inexistência de testemunhas. A narrativa emprestada ao conteúdo é difusa e apenas sugestiva, enquanto algumas apresentações omitem dados para criar uma falsa credibilidade.

A equipe de checagem entrou em contato com diversos perfis que publicaram o conteúdo, mas só obteve resposta do Portal Novo Norte, que se limitou a dizer que recebeu o vídeo de um indivíduo que permanece anônimo. A indicação de parceria paga na postagem feita pelo perfil Apóstolo Paulo Magno no TikTok permanece sem explicação.

Referências da checagem:

Correio Braziliense. https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2022/10/5047881-pt-aciona-tse-contra-fake-news-que-liga-lula-a-satanismo.html Acesso em: 14 abr 2023

O Globo. https://oglobo.globo.com/blogs/malu-gaspar/post/2022/10/campanha-do-pt-reage-a-fake-news-que-incendiou-redes-bolsonaristas-ligando-lula-ao-satanismo.ghtml Acesso em: 14 abr 2023

Lula. https://lula.com.br/lula-e-cristao-nao-existe-qualquer-relacao-com-satanismo/ Acesso em: 14 abr 2023

UOL. https://noticias.uol.com.br/confere/ultimas-noticias/2022/08/22/lula-video-relacao-com-demonio.htm?cmpid=copiaecola Acesso em: 14 abr 2023

Bereia.

https://coletivobereia.com.br/mensagem-sobre-sacrificios-de-touros-em-nome-de-lula-e-desmentida-pela-ordem-dos-pastores-batistas-do-brasil/ Acesso em: 14 abr 2023

https://coletivobereia.com.br/video-manipulado-que-liga-o-ex-presidente-lula-ao-satanismo-viraliza-entre-evangelicos/ Acesso em: 14 abr 2023

https://coletivobereia.com.br/pastor-felippe-valadao-promove-intolerancia-religiosa-em-evento-publico/ Acesso em: 17 abr 2023

Vídeo manipulado que liga ex-presidente Lula ao satanismo viraliza entre evangélicos

* Matéria atualizada em 06/10/2022 às 21:25 após novas informações surgirem após a publicação

Bereia recebeu de leitores indicação de checagem de um vídeo de um influencer digital que se identifica como “satanista”, que faz a previsão de uma vitória de Lula no primeiro turno das eleições brasileiras de 2022. O vídeo viralizou, especialmente entre cristãos, com acusações a Lula de ser vinculado e ter o apoio de satanistas e causou muitas reações nas mídias digitais. 

Imagem: reprodução da internet

O homem que fala no vídeo é Vicky Vanilla, influenciador digital, com quase 1 milhão de seguidores no TikTok e que se apresenta como “mestre e líder da Igreja de Lúcifer do Novo Aeon”. 

No vídeo que viralizou, Vanilla aparece em local com bandeira de Lula ao fundo, fala sobre suposta união de diferentes religiões, de segmentos satanistas e do ocultismo em nome da vitória do ex-presidente no primeiro turno de 2 de outubro.

O conteúdo foi publicado na sexta-feira, 30 de setembro, dois dias antes do pleito, e passou a ser compartilhado nas redes bolsonaristas no domingo, quando o resultado se encaminhava para definição por um segundo turno.

O Portal de Notícias da Record R7 e sites gospel como o Pleno News deram destaque ao vídeo.

Imagem: reprodução do R7
Imagem: reprodução do Pleno News

Vídeo falso, conteúdo manipulado

Antes mesmo que Bereia concluísse a pesquisa deste conteúdo, vários projetos de checagem de conteúdo, como Aos Fatos, e veículos jornalísticos, como o Correio Braziliense,  já haviam publicado uma verificação indicando a falsidade de tal material. 

Na tarde do dia 3 de outubro, a campanha de Lula publicou nota intitulada “Lula é cristão. Não existe qualquer relação com satanismo”. No texto, a campanha afirma: “A verdade, como já repetimos antes, é que Lula é cristão, católico, crismado, casado e frequentador da igreja. Não existe relação entre Lula e o satanismo” (…) Quem espalha isso é desonesto e abusa da boa-fé das pessoas. O vídeo circulou em muitos canais do Telegram e grupos de WhatsApp e comprova como os apoiadores de Bolsonaro abusam da boa-fé das pessoas”.

O próprio envolvido no conteúdo, Vicky Vanilla, publicou um vídeo para desmentir o caso e declarar que foi feita uma montagem a partir de imagens tiradas de contexto e chama a publicação que viralizou de “fake news”. “Está sendo espalhado como uma fake news tanto a meu respeito, quanto a respeito do candidato Lula, que não tem qualquer ligação com a nossa casa espiritual”, completou Vanilla. O influenciador disse ainda que recebeu diversas ameaças depois que o material foi espalhado: “o bastante para fazer um boletim de ocorrência e entrar com representação judicial contra meus agressores”, destacou. 

No perfil de Vicky Vanilla no TikTok, são encontrados conteúdo pró-Lula e anti-Bolsonaro. Porém há postagens em que ele ataca o candidato do PT de forma intensa e chega a associá-lo ao nazismo.

Viralização

Além de ter sido divulgado pelo Portal da Rede Record R7, por sites gospel e mídias sociais de lideranças e fiéis religiosos, o vídeo falso foi publicado pela deputada federal reeleita Carla Zambelli (PL-SP), que o utilizou para chamar seguidores para uma “guerra espiritual” no segundo turno das eleições, “do bem contra o mal”. Ainda na terça-feira, 4 de outubro, mesmo depois do desmentido da campanha de Lula e do próprio Vicky Vanilla,  o senador eleito Cleitinho (PSC-MG) divulgou o material falso para convocar o voto “dos mais de 40 milhões de brasileiros que se abstiveram no primeiro turno por Jair Bolsonaro” (na verdade, foram cerca de 32 milhões de abstenções).

Imagem: reprodução do Instagram

Até o momento em que esta matéria foi concluída o conteúdo falso ainda estava visível em todos estes espaços digitais.

ATUALIZAÇÃO: O Tribunal Superior Eleitoral determinou que o vídeo fosse tirado do ar nesta quinta, 6 de outubro.

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Bereia reafirma o que já foi publicado por agências de checagem e veículos de mídias: o vídeo que ainda circula vinculando o ex-presidente Lula a uma seita satânica é FALSO. Além de tal vinculação ter sido negada pela campanha do candidato, o próprio envolvido no conteúdo desmentiu sua participação e denunciou a montagem.

Bereia alerta seus leitores e leitoras para materiais divulgados durante o processo eleitoral para destruir a imagem de candidatos. Quem receber este tipo de conteúdo não deve compartilhar sem antes verificar a veracidade. 

Referências de checagem:

Aos Fatos. https://www.aosfatos.org/bipe/falsas-ligacoes-de-lula-e-bolsonaro-com-satanismo-viralizam-e-geram-explosao-de-buscas/ Acesso em: 4 out 2022.

Correio Braziliense. https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2022/10/5041843-lula-desmente-fake-news-sobre-satanismo-que-viralizou-entre-bolsonaristas.html Acesso em: 4 out 2022.

Site oficial de Lula. https://lula.com.br/a-verdade-sobre-lula-e-o-satanismo/ Acesso em: 4 out 2022.

Uol. https://www.uol.com.br/ecoa//videos/?id=influenciador-satanista-vicky-vanilla-desmente-apoio-a-lula-04020D9C3264C0897326 Acesso em: 4 out 2022.

TSE. https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2022/Outubro/100-das-secoes-totalizadas-confira-como-ficou-o-quadro-eleitoral-apos-o-1o-turno Acesso em: 4 out 2022.

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