A vara e o lápis: reflexões sobre o novo Ministro da Educação

O novo ministro da educação do governo Bolsonaro (o quarto, já), que tomou posse no dia 16 de julho, é evangélico, presbiteriano, mais especificamente.

A repercussão que seu nome provocou nos últimos dias é muito ruim, por conta de posicionamentos ultrapassados e deploráveis. Milton Ribeiro teve vídeos de suas palestras e pregações veiculados nas redes sociais; fala de castigos físicos e tem postura abertamente machista. Sim, tudo isso, obviamente, deve ser reprovado. Não se pode, em pleno século XXI, admitir que uma autoridade pública em educação pense com a cabeça de séculos atrás. Pior, que seu discurso seja uma contradição com um Estado democrático, pluralista, garantidor de direitos e igualitário. Em que pese o Estado brasileiro não conseguir fazer cumprir os direitos fundamentais de sua Constituição, não se pode, sob qualquer pretexto, aceitar um ministro de Estado que, em seu discurso e testemunho, reme contra tudo que está estampado como valor de uma Nação.

Mas há uma ponderação necessária a ser feita: se ele fosse católico, budista ou ateu, seu posicionamento retrógrado seria atribuído a sua religião? Ou seria simplesmente tratado como um equívoco de sua formação reacionária e fundamentalista (traços presentes em setores de todas as religiões e culturas)? Convenhamos, o que nunca nos faltou foi ministro reacionário. Mas por que somente os evangélicos são tratados pela designação de sua religião?

Concordo que, em muitos casos, sua conduta é expressão de seus valores e esses são fundamentados na sua fé religiosa. Mas não é diferente o que ocorre com outras visões de mundo. Explico melhor: há, sim, entre setores evangélicos um discurso de superioridade. Mas isso também ocorre em outros campos.

O que se deve ter em mente é que o problema não é ser evangélico. O problema é ser atrasado e desconectado de seu tempo. Coisa totalmente antagônica ao Evangelho. O ministro Milton Ribeiro pode confessar a fé que for, mas um país não pode não pode se quedar a um discurso tão nocivo como os que foram exibidos na internet de sua carreira de pastor.

Mas mantém-se a ponderação de base desse ensaio: se o ministro tivesse outra religião, seu posicionamento retrógrado seria atribuído a sua fé?
É preciso se perguntar sempre sobre preconceito. O dos outros é facilmente observável e condenado. O nosso, em geral, tem alguma desculpa, salvo-conduto ou mesmo legitimação. Criticar evangélicos virou esporte nacional. E isso é ruim. Muito ruim. Porque a imensa maioria dos evangélicos é gente simples, honesta, bem intencionada e, acima de tudo, Evangélica (na acepção mais profunda e ampla desse termo).

No seu discurso de posse, Ribeiro afirmou: “jamais falei de violência física na educação escolar, nunca defenderei tal prática, que faz parte de um passado que não queremos de volta. Entretanto, vale lembrar que devido à implementação de políticas e filosofias educacionais equivocadas no meu entendimento, que desconstruíram a autoridade do professor em sala de aula, o que agora existe são episódios de violência física de alguns maus alunos contra o professor. As mesmas vozes críticas da sociedade devem se posicionar contra esses episódios com a mesma intensidade”.

O ministro contradisse sua tese de que a educação precisa de “dor”. Que bom. Mas precisa esclarecer sobre que “políticas e filosofias educacionais” ele considera equivocadas. Quem são os “maus alunos”. E, sim, que se esforce para valorizar e proteger professores (oportunidade não faltará na necessária e urgente aprovação do Fundeb). Oxalá saiba separar a sua visão particular de mundo do que deve ser uma política pública de educação.

Quanto a nós, tomara aprendamos a dar a César o que é dele e a Deus o que é de Deus. E não tomemos o todo pela parte. Tampouco tomemos as tradições libertadoras do protestantismo em todos os seus matizes por meia dúzia de vendilhões no templo.

Quanto a ele, tomara que desça do púlpito, deixe de lado a vara e consiga dar conta dos seus deveres de casa reais: Fundeb, Enem, aulas na pandemia, valorização dos professores, analfabetismo, evasão escolar etc.

Que o ministro passe a usar mais o lápis em detrimento da vara. Lápis cuja marca fica registrada no aprendizado, nas experiências de crescimento, na possibilidade de errar e corrigir, na qualidade de se permitir sempre e de novo se aprontar para melhor escrever e, sobretudo, na redação de uma história de dignidade para as novas gerações desse país tão profundamente injusto e desigual. Que abandone em definitivo a vara, cujas marcas nos fizeram o que temos assistido hoje (ódio e perseguição) e nos trouxeram até esse capítulo tão nefasto de nossa história.

Capa: Pixabay.com/Reprodução

Calvino e as Fake News

O contexto da Reforma foi de muitos conflitos no campo da comunicação. Por meio da imprensa recém inventada, muitas imagens de caricaturas e escritos circularam na Europa divulgando, de ambos os lados, protestante e católico, acusações, calúnias, impropérios, ameaças e mentiras. Defenestrar o inimigo era uma estratégia para impor uma verdade por meio, se possível, da mentira. 

Defensor da tolerância aos protestantes franceses, Calvino tentou persuadir “ao Potentíssimo e Ilustríssimo Monarca Francisco, Rei Cristianíssimo dos Franceses, Seu Príncipe”, da inocência dos protestantes diante de muitas acusações, escrevendo sua maior obra, A Instituição da Religião Cristã, encerrada no ano de 1559.  

Seu objetivo primeiro foi:

… preparar e instruir os candidatos ao aprendizado da palavra divina da sagrada Teologia, para que possam ter acesso fácil a ela, assim como prosseguir livremente em seus passos, pois que considero ter reunido uma tal suma da religião em todas as suas partes e tenha classificado em tal ordem, que qualquer um que a considere retamente não terá dificuldade em estabelecer e buscar o que é principal na Escritura, e possa aquele, ao final, referir tudo que nela está contido.1 

João Calvino

Evidencia-se a lógica calviniana em estruturar uma obra de forma racional obedecendo uma ordem de apresentação temática em partes e classificada com a finalidade de “estabelecer e buscar o que é principal na Escritura”. Os dois livros reunidos em um só tomo explorou a suma ou o sumo do que as Escrituras ensinam a fim de preparar e instruir os novos aprendizes da fé.  

No entanto, outro propósito se apresentou na obra, qual seja, a de orientar o monarca e alertá-lo quanto aos equívocos das acusações, calúnias, ardis e mentiras proferidas. Dirigindo-se ao rei, Calvino reiterou o objetivo de “ensinar alguns rudimentos”, para “ser ensinado de modo fácil e simples”, não somente aos franceses, mas ao próprio soberano na condição de um principiante que deveria atentar para as fakenews contra os protestantes franceses: 

Evidentemente se alguém, com o pretexto de excitar o ódio a essa doutrina da qual procuro expor a vós a razão, der como pretexto que, condenada por toda ordem de cálculos, já tivesse sido criticada por muitas sentenças do foro, não teria dito se não que, em parte, foi violentamente abatida pelo conluio e potência dos adversários, e em parte insidiosa e fraudulentamente oprimida por mentiras, ardis e calúnias. É violência que, por pretexto, não declarado, sejam levantadas contra ela sentenças sanguinárias; fraude, que seja, acusada de sedição e de malefícios sem merecimento.2   

Assim, Calvino incidiu contra a rede de propagação de mentiras sobre os protestantes na França, apelando para o bom senso e a verdade do rei, bem como dos leitores.  

[1] CALVIN, Jean. A instituição da religião cristã, Tomo I, Livros I e II. Trad. Carlos Eduardo de Oliveira. São Paulo: Editora UNESP, 2008, p. 12. [1] CALVIN, Jean. A instituição da religião cristã, Tomo I, Livros I e II. Trad. Carlos Eduardo de Oliveira. São Paulo: Editora UNESP, 2008, p. 14.