Abuso eleitoral nas mídias: intolerância religiosa e discurso de “guerra espiritual” são usados em mentira de campanha

Um vídeo de uma manifestação realizada em 22 de outubro, no Largo da Batata, em São Paulo (SP), ganhou repercussão nas redes digitais e foi compartilhado por políticos evangélicos, lideranças religiosas e pelo site gospel Pleno News. As publicações usam as imagens de  praticantes de religiões de matriz africana para afirmar que os participantes cantavam “amarrar Bolsonaro no cipó”, pedindo a morte do candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL).

O episódio também passou a ser utilizado em publicações que convocam cristãos a uma “guerra espiritual” como campanha eleitoral para o candidato supostamente atacado.

Para checar o caso, o Bereia ouviu o pai de santo umbandista David Dias, um dos participantes do evento, e a historiadora e pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) Carolina Rocha sobre a interpretação de manifestações espirituais e a intolerância religiosa no debate político.

O que diz o conteúdo publicado?

O vídeo foi gravado durante a Grande Roda da Rua, no ato “Tambores pela Democracia: Bolsonaro Nunca Mais”, realizado na capital paulista. Nas imagens, um grupo de pessoas aparece reunido em uma roda, ao som de tambores e cantos, enquanto dança ao redor de uma pequena chama no chão.

Imagem: Captura do vídeo durante o ato. Reprodução: Itanife.lulusapia

Publicações que repercutiram o registro atribuem o canto a praticantes de Umbanda e Candomblé e afirmam que os participantes entoavam a frase “amarrar Bolsonaro no cipó”, interpretada como uma ameaça ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

O deputado federal evangélico Nikolas Ferreira (PL-MG), reeleito no primeiro turno, primeiro colocado no levantamento do Bereia sobre perfis desinformantes com identidade religiosa, compartilhou o vídeo em seu perfil no Instagram. Outros políticos, pastores e páginas religiosas também repercutiram as imagens, associando-as a uma suposta “guerra espiritual”.

Imagens: reprodução/Instagram

Algumas dessas publicações relacionam a presença de praticantes de religiões de matriz africana ao apoio político ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a supostas práticas espirituais contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República.

Essa abordagem apresenta a disputa eleitoral como um confronto entre forças do bem e do mal, associando manifestações religiosas a ameaças políticas.

O que diz o organizador do evento?

Em resposta ao Bereia, o pai de santo umbandista David Dias esclareceu que o trecho divulgado mostra indígenas cantando um Toré, manifestação cultural e espiritual presente em diferentes povos indígenas, que envolve cantos, danças e outros elementos tradicionais.

“Sim! Estávamos presentes ontem neste evento organizado pelo coletivo do PSOL, chamado EmancipAxé. No momento desses cantos, trata-se de um grupo de indígenas cantando um Toré com suas cantigas tradicionais”, afirmou David Dias.

Segundo o organizador do evento, a proposta era reunir povos tradicionais para articular forças contra um projeto político que considera ameaçador. Ele relaciona a mobilização a declarações do candidato Flávio Bolsonaro sobre a intenção de decretar que o Brasil pertence ao Senhor Jesus Cristo.

Para o religioso, uma proposta dessa natureza contraria o princípio da laicidade do Estado, previsto na Constituição Federal. O artigo 19, inciso I, proíbe a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios de estabelecerem cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los ou manter com eles relações de dependência ou aliança, ressalvadas as exceções previstas no próprio dispositivo.

David Dias explicou ainda que a cantiga entoada no ato pertence à tradição da Jurema e apresenta uma versão conhecida com os versos “vamos dançar, dançar o catimbó, para trazer o inimigo amarrado no cipó”. Segundo ele, a letra foi adaptada durante a manifestação para identificar o adversário político a quem o grupo se opunha.

O religioso acrescentou que existem cantigas com expressões semelhantes em terreiros de Umbanda, mas ressaltou que os repertórios tradicionais são dinâmicos e podem ser adaptados de acordo com o contexto. Segundo sua interpretação, a figura do inimigo, nessas cantigas, pode representar quem ameaça os territórios, derruba a mata ou coloca em risco os modos de vida dos povos tradicionais.

Sobre o significado da expressão “amarrar no cipó”, David Dias afirmou que, naquele contexto, ela representa um pedido para conter a força de alguém considerado ameaçador, impedindo que cause danos. “Não há na cantiga pedido de morte ou de doença para ninguém”, declarou. Ele explicou que o cipó representa a própria mata e que a imagem de trazer o inimigo amarrado nele expressa um pedido para que a floresta contenha quem pretende destruí-la.

David Dias também criticou a interpretação da cantiga como uma maldição. Para ele, classificar práticas indígenas e afro-brasileiras como feitiçaria reproduz uma tradição histórica de perseguição religiosa. Dias lembrou que o Código Penal de 1890 criminalizava práticas descritas como “magia e seus sortilégios”, no artigo 157, dispositivo que integra a história da repressão estatal a determinadas práticas religiosas.

Na avaliação do religioso, existe um tratamento desigual entre as manifestações espirituais de diferentes tradições. Discursos cristãos sobre o combate aos inimigos e às forças do mal são frequentemente reconhecidos como expressões de fé, mas práticas indígenas e afro-brasileiras podem ser classificadas como bruxaria ou ameaça. Ele associa essa diferença ao racismo religioso, que estigmatiza tradições historicamente perseguidas.

Por fim, David Dias afirmou que a defesa da laicidade não representa oposição ao cristianismo, mas a garantia de que nenhuma religião seja privilegiada pelo Estado. Segundo ele, esse princípio permite que diferentes comunidades celebrem seus cultos sem medo de perseguição ou discriminação.

Racismo religioso e a interpretação das manifestações espirituais

A historiadora e pesquisadora do ISER Carolina Rocha chama a atenção para a necessidade de considerar o contexto histórico e religioso antes de interpretar a cantiga registrada no vídeo como uma ameaça literal de morte. 

Confirmando o que Davi Dias afirmou ao Bereia, Carolina Rocha explica que manifestações espirituais indígenas e afro-brasileiras podem mobilizar sentidos de proteção, fortalecimento coletivo, resistência e afastamento de forças consideradas ameaçadoras, sem necessariamente indicar o desejo de matar alguém. Ela indica que o cipó também aparece em diferentes tradições e cosmologias indígenas, que não devem ser confundidas entre si.

A estudiosa relaciona o episódio ao debate sobre a chamada “guerra espiritual” no cenário político brasileiro. De acordo com ela, discursos de figuras públicas que apresentam disputas políticas como confrontos entre o bem e o mal precisam ser analisados considerando seus efeitos sobre grupos religiosos historicamente marginalizados.

As religiões de matriz africana e espiritualidades indígenas, segundo a pesquisadora, foram frequentemente associadas ao mal e ao demoníaco, embora suas cosmologias não sejam necessariamente organizadas a partir da figura do diabo cristão. A interpretação dessas tradições com base em referências religiosas que não lhes são próprias contribui para a reprodução de estigmas e constitui uma das expressões do racismo religioso.

Como exemplo desse contexto, Carolina Rocha menciona a pesquisa “Religião e Vida Pública no Brasil”, realizada pelo ISER em parceria com a Quaest, que investigou, entre outras questões, as representações religiosas do mal. Os resultados ajudam a compreender como determinadas associações entre crenças religiosas e forças malignas são construídas e reproduzidas socialmente.

Eleições, intolerância religiosa e uso do discurso de guerra espiritual

A circulação do vídeo ocorre em um contexto eleitoral no qual manifestações religiosas também são mobilizadas para interpretar disputas políticas. Nas publicações que enquadram o episódio como parte de uma “guerra espiritual”, imagens de povos indígenas e praticantes de religiões de matriz africana são apresentadas como elementos de um confronto religioso associado à disputa eleitoral.

Essa abordagem exige atenção porque pode reforçar a ideia de que determinadas tradições religiosas representam uma ameaça, sobretudo quando as imagens são acompanhadas de acusações que não apresentam evidências suficientes para sustentar a interpretação proposta.

Carolina Rocha questiona a diferença de tratamento dada às expressões afrorreligiosas. Enquanto discursos cristãos sobre expulsar o mal, combater inimigos e travar batalhas espirituais podem ser reconhecidos como parte da linguagem da fé, manifestações indígenas e afro-brasileiras podem ser apresentadas como evidências de violência, sem que seus contextos sejam considerados.

A pesquisadora destaca que o Toré pode expressar espiritualidade, ancestralidade, fortalecimento coletivo, afirmação identitária e resistência política. Essas dimensões podem estar articuladas, especialmente diante das violências historicamente enfrentadas por povos indígenas.

A interpretação de uma manifestação como intenção de matar uma pessoa exige evidências específicas, e não pode se apoiar exclusivamente em associações feitas a partir de imagens ou de expressões religiosas descontextualizadas.

A divulgação do vídeo como suposta ameaça de morte pode contribuir para a demonização de povos indígenas e comunidades de terreiro. Embora manifestações políticas e religiosas possam ser questionadas, essa análise precisa considerar as tradições envolvidas e evitar que grupos historicamente perseguidos sejam tidos automaticamente como violentos ou criminosos.

No contexto eleitoral, a associação entre religião, disputa política e forças malignas também pode aprofundar a polarização e estimular a hostilidade contra grupos que professam crenças diferentes. Quando esse discurso circula sem contextualização, a manifestação de uma minoria religiosa pode ser transformada em instrumento de mobilização política contra ela.

A liberdade religiosa assegura a todas as tradições o direito de expressar sua espiritualidade, inclusive em manifestações públicas com dimensão política. Esse direito não elimina a necessidade de verificar alegações sobre ameaças concretas, mas exige que acusações sejam sustentadas por evidências e que a interpretação das imagens não reproduza preconceitos religiosos.

***

O Bereia classifica o conteúdo publicado pelo Pleno News e por lideranças políticas e religiosas evangélicas como falso. Embora o vídeo registre uma manifestação durante o ato “Tambores pela Democracia: Bolsonaro Nunca Mais”, não há elementos comprobatórios para se afirmar que uma ameaça de morte contra Bolsonaro pai ou filho foi entoada no evento, como propagado na publicação circulante. 

Bereia ouviu o organizador, o pai de santo David Dias, que explica que o trecho manipulado mostra indígenas cantando um Toré. A pesquisadora das religiões Carolina Rocha acrescenta que a circulação das imagens associadas à ideia de “guerra espiritual” reforça, com campanha eleitoral,  intolerância religiosa e estigmatização de povos indígenas e comunidades de terreiro.

Referências:

ISER. https://iser.org.br/religiaoevidapublicanobrasil/. Acesso em 23 de outubro de 2026.

Site gospel propaga falsa censura e descredibiliza pauta antiviolência no caso Maria da Penha

*com distorções enganosas

O portal de notícias gospel Pleno News noticiou, em 10 de agosto, a prisão do ex-marido da farmacêutica e ativista de direitos das mulheres Maria da Penha Fernandes, Marco Antonio Heredia Viveros. A matéria sugere que Viveros teve sua liberdade de expressão atacada e que a Rede Record, de propriedade da Igreja Universal do Reino de Deus, teria sido censurada por entrevistar o agressor. Na verdade, o homem foi preso por descumprir decisão judicial, e a entrevista não foi ao ar por isso. 

Trechos da matéria publicada por Pleno News são compostos por expressões que induzem quem lê a relativizar a prisão de Viveros. O texto evita identificar o ex-marido da vítima como condenado pela Justiça e suavizam a infração cometida com a entrevista dada à Record. O título também atua com a sugestão de que a decisão judicial é prática de censura. 

A publicação com o título “Ex-marido de Maria da Penha é preso após dar entrevista” foi checada por Bereia.

Imagem: reprodução Pleno News

O que aconteceu, de fato

O economista Antônio Heredias Viveros foi preso em 9 de agosto passado, em Natal (RN), por descumprir medidas preventivas expedidas, em 2024, pelo Juizado da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Fortaleza (CE). Ele foi condenado, em 1996, a dez anos e seis meses de reclusão por  planejar e executar dois atentados contra a vida da esposa, Maria da Penha Fernandes. Porém, por meio de alegações de irregularidades, a defesa conseguiu a anulação do julgamento. 

Na busca incessante por reparação, em 1998, o Centro para a Justiça e o Direito Internacional (CEJIL) e o Comitê Latino-americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher (CLADEM) denunciaram, o caso para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (CIDH/OEA). 

Em 2001, após receber quatro ofícios da CIDH/OEA (1998 a 2001), o Estado brasileiro foi responsabilizado por negligência, omissão e tolerância em relação à violência doméstica praticada contra as mulheres brasileiras. Com esta responsabilização internacional, a Justiça brasileira agiu e Viveros foi preso em outubro de 2002, faltando apenas seis meses para a prescrição do crime. Ele cumpriu cerca de dois anos de pena em regime fechado e ganhou liberdade. 

A Lei Maria da Penha foi resultado da ação de um Consórcio de ONGs Feministas, em 2002, motivado pelo que Maria da Penha passou, diante da falta de medidas legais e ações efetivas, como acesso à justiça, proteção e garantia de direitos humanos a mulheres vítimas de violência doméstica e familiar. 

A medida cautelar contra Viveros é parte de processo judicial de 2024, instaurado depois que ele foi entrevistado para um documentário da produtora Brasil Paralelo. O conteúdo do vídeo desqualificava a memória de Maria da Penha, como símbolo da violência praticada contra mulheres e oferecia como revisão histórica, a versão do agressor, condenada em julgamento. A partir da divulgação, Maria da Penha se tornou vítima de ataques virtuais e ameaças. A Justiça determinou não só a retirada do vídeo da plataforma como estabeleceu as medidas cautelares que proibem Antonio Viveros de divulgar informações sobre o processo e de propagar o nome ou a imagem de Maria da Penha Fernandes e das duas filhas em mídias sociais, aplicativos ou outro ambiente virtual. 

Ocorre que, a propósito dos 20 anos da Lei Maria da Penha, neste 2026, a Rede Record decidiu entrevistar Viveros para que propagasse a sua versão do caso. Versão essa, com ampla circulação em ambientes religiosos, principalmente por meio de material falso e desinformativo produzido pela produtora Brasil Paralelo, que já foi retirado do ar pela Justiça brasileira.  

Antônio Viveros concedeu a entrevista ao jornalista e apresentador do programa Domingo Espetacular, Roberto Cabrini, na qual exporia sua história sobre Maria da Penha. Chamadas da entrevista foram divulgadas nas redes digitais. O portal G1 Ceará apurou que o documento do Ministério Público do Ceará enviado à Justiça (que pedia a prisão de Viveros) contém uma notificação com o pedido de suspensão da veiculação da entrevista à TV Record pelo Instituto Maria da Penha, assim como prints de e-mail e WhatsApp enviados também pelo instituto para funcionários da emissora.  

Com a publicação de trechos da entrevista nas mídias digitais, como chamada para o programa, o MP-CE fez o pedido da prisão de Viveros, por entender que as publicações violavam a medida cautelar judicial.  Além disso, a Justiça determinou a retirada imediata do ar de conteúdos relacionados à entrevista e proibiu a veiculação da reportagem por ferir decisões judiciais sobre o caso. A prisão de Antônio Heredias Viveros ocorreu dois dias após a Lei Maria da Penha completar 20 anos. 

Milícias digitais entram em ação

Com a notícia da prisão e da suspensão da entrevista, políticos e apoiadores da direita extremista vieram a público para contestar a Justiça. Várias publicações nas redes alegaram censura à Rede Record e impedimento da liberdade de expressão do homem condenado por tentativa de assassinato da esposa, que a deixou paraplégica. 

Imagem: reprodução YouTube, canal do jornalista foragido Allan dos Santos

Imagem: reprodução/Alexandre Paiva/Instagram

Imagem: reprodução/Flávio Bolsonaro/Instagram

A deputada federal católica Júlia Zanatta (PL-SC) também publicou, em 11 de agosto, uma sequência de stories em seu perfil no Instagram para comentar o tratamento judicial dado a Viveros e insinuar que ele sofre censura.  A parlamentar chegou a fazer comparações com casos criminais midiáticos e produções audiovisuais do gênero true crime para alegar que o agressor de Maria da Penha teria direito à liberdade de expressão.

Imagem: reprodução/Julia Zanatta/Instagram

A defesa do agressor condenado e da emissora de TV aberta que daria voz a ele, são um reforço recorrente ao questionamento da existência da  Lei, que representa um histórico enfrentamento à violência doméstica e familiar contra  mulheres, que recebeu o nome de Maria da Penha. O nome foi dado por conta da brutalidade do caso e do processo de injustiça que quase resultou na não punição do agressor, como já ocorreu, no passado, com muitas tantas situações.

A  Lei Maria da Penha é reconhecida internacionalmente como uma referência de legislação de gênero, foi promulgada em 7 de agosto de 2006, tendo seus 20 anos celebrados em vários eventos, dois dias antes da prisão de Viveros.

Associação de jornalistas repudia a Rede Record

Em nota pública, a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) descarta a ideia de censura e repudia a iniciativa da Rede Record de entrevistar um agressor de mulher e homicida, para oferecer sua versão dos fatos, já condenada pela Justiça.

Imagem: Federação Nacional dos Jornalistas

Para a FENAJ, a emissora presta um desserviço que é motivo de repúdio por decidir abrir espaço para um homem que foi condenado pela violência que transformou Maria da Penha em símbolo mundialmente conhecido da luta contra a violência doméstica, justamente no marco dos 20 anos da lei que leva o nome da sobrevivente.

“Há uma diferença fundamental entre ouvir alguém em nome do contraditório e dar protagonismo a um agressor condenado, cuja própria conduta, ao conceder a entrevista, resultou no descumprimento de uma medida protetiva e em sua prisão.”, diz um trecho da nota que pode ser lida na íntegra aqui.

Discurso que descredibiliza o enfrentamento da violência contra mulher 

Enquanto todas as grandes mídias de notícias credenciadas no Brasil oferecem informação responsável sobre a suspensão da entrevista e a prisão de Viveros, e a FENAJ repudia a iniciativa da Rede Record, veículos alinhados à direita extremista repercutiram o questionamento à Justiça.  

Nos espaços religiosos, a matéria do Pleno News, checada pelo Bereia, oferece consonância com o discurso de seguidores da ultradireita e de influenciadores misóginos. Já o jornal Gazeta do Povo também noticiou a prisão, indicando censura.

Imagem: reprodução de matéria da Gazeta do Povo, publicada em 10 ago 2026

Em uma outra publicação, o jornal Gazeta do Povo destaca participações de Antonio Heredia Viveros em outras entrevistas, abre espaço para a propagação da versão do condenado já recusada pela Justiça em julgamento em 1996.

Imagem: matéria da Gazeta do Povo, publicada em 10 ago 2026

Ao acusar de censura o ocorrido com a entrevista da Rede Record, a Gazeta do Povo relaciona o caso à proibição judicial da exibição do documentário desinformativo produzido pela Brasil Paralelo “Investigação Paralela: o Caso de Maria da Penha, ocorrida em 2025”, já citada nesta matéria.

Em março de 2025, a Advocacia-Geral da União (AGU) moveu uma Ação Civil Pública contra a empresa Brasil Paralelo por disseminar conteúdo desinformativo a respeito do emblemático caso de Maria da Penha, usando a versão do ex-marido homicida como referência. A ação exige uma indenização de R$ 500 mil por danos morais coletivos e determina a veiculação de material informativo correto sobre o caso.

Em reportagem, Bereia  aponta que a produção audiovisual, criada e distribuída pela empresa de comunicação alinhada à ultradireita, apresenta uma versão distorcida dos fatos para privilegiar argumentos do agressor. O material disseminado pela Brasil Paralelo não menciona que essas alegações já haviam sido rejeitadas pela Justiça no julgamento que condenou Viveros. 

O conteúdo da produtora sugeria, naquele momento, que o processo judicial não considerou devidamente a versão do acusado. Em resposta, a AGU afirmou que o tipo de abordagem usado pela produtora mina a credibilidade não apenas da decisão judicial, mas também da Lei Maria da Penha e das políticas públicas de proteção às mulheres.

Em agosto do mesmo ano, MP-CE determinou a suspensão de todos os episódios da produtora Brasil Paralelo que tratam do caso Maria da Penha. Bereia apurou o conteúdo falso que circulou nas redes. Nele a Brasil Paralelo usava a falácia de censura como reação à decisão do MP-CE. O parecer é de que se tratava de “uma campanha de ódio promovida nas redes sociais contra a farmacêutica!”.

A decisão da Justiça diz respeito à terceira temporada do projeto Investigação Paralela, publicado pela produtora, em 10 de julho de 2023,  com o episódio nomeado O Caso Maria da Penha. A sinopse afirma: “o documentário vai te surpreender com uma das possíveis maiores reviravoltas do país”. 

Conforme divulgado por Bereia, um processo judicial decorrente da veiculação deste documentário foi julgado em 2024 e  determinou  o cumprimento de mandados e ações para aprofundar a investigação de crimes cibernéticos e perseguição virtual praticados nas redes digitais contra Maria da Penha Fernandes, por conta do documentário da Brasil Paralelo. As medidas cautelares contra Antonio Viveros são parte das decisões judiciais.

***

Bereia avalia como falsas as alegações de censura à Rede Record e à liberdade de expressão de Marcos Antonio Heredia Viveros, condenado por tentativa de homicídio de Maria da Penha Fernandes. A prisão preventiva e as medidas de proibição de divulgação de conteúdos foram solicitadas pelo Ministério Público do Ceará (MPCE) com base em decisão da Justiça, em 2024, que não permite publicações de pronunciamentos do agressor homicida. Estas decisões são de amplo conhecimento de Viveros e do seu advogado, porém o ex-marido de Maria da Penha Fernandes optou por descumprí-las. A ênfase dada a versões de agressores de mulheres é uma tática recorrente de sustentação da violência de gênero para descredibilizar a reputação da vítima. 

Bereia alerta ainda para a existência de um discurso articulado contra a legitimação do enfrentamento das instituições brasileiras à violência contra a mulher, quando considerada a relevância da legislação. O caso tem uma dimensão simbólica e histórica, ao reforçar a autoridade das instituições jurídicas do país, especialmente em uma data em que a Lei completa 20 anos em vigor.

Veículos, influenciadores digitais e políticos de identidade religiosa, alinhados à ultradireita, têm endossado o discurso conservador, isto é, que visa conservar a estrutura de violência doméstica, ao atacarem a própria Justiça, no cumprimento de leis que garantem direitos. Repercutem ainda conteúdos que atacam movimentos em busca de justiça para mulheres vítimas de violência, usando como pretexto a  defesa de pautas de costumes religiosos e a preservação de papéis tradicionais de gênero que representam a subjugação das mulheres e a sujeição delas a múltiplas violências dentro de fora de casa.  

Referências:

Senado Notícias

https://www12.senado.leg.br/noticias/videos/2026/08/lei-maria-da-penha-completa-20-anos-em-constante-aperfeicoamento Acesso em: 11 AGO 2026

https://www12.senado.leg.br/noticias/infomaterias/2026/07/a-historia-por-tras-dos-20-anos-da-lei-maria-da-penha Acesso em: 13 AGO 2026

https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/08/06/debate-aponta-avancos-e-desafios-nos-20-anos-da-lei-maria-da-penha Acesso em: 13 AGO 2026

G1

https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2026/08/09/por-que-justica-voltou-a-prender-o-ex-marido-de-maria-da-penha-mulher-que-inspirou-lei-contra-violencia-domestica.ghtml Acesso em: 11 AGO 2026

https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2026/08/10/quem-e-e-por-que-estava-solto-o-ex-marido-de-maria-da-penha.ghtml Acesso em: 12 AGO 2026

Carta Capital

https://www.cartacapital.com.br/justica/ex-marido-de-maria-da-penha-e-preso-apos-entrevista-a-record-sobre-tentativa-de-feminicidio/ Acesso em: 11 AGO 2026

CNN

https://www.cnnbrasil.com.br/politica/governo-processa-brasil-paralelo-por-conteudo-sobre-caso-maria-da-penha/ Acesso em: 11 AGO 2026

Agência Pública

https://apublica.org/2025/07/brasil-paralelo-usou-laudo-falso-para-atacar-maria-da-penha/ Acesso em: 11 AGO 2026

Coletivo Bereia

https://coletivobereia.com.br/brasil-paralelo-usa-falacia-de-censura-para-reagir-a-suspensao-video-negacionista-sobre-caso-maria-da-penha/ Acesso em: 12 AGO 2026

https://coletivobereia.com.br/agu-entra-com-acao-contra-brasil-paralelo-por-desinformacao-sobre-caso-maria-da-penha/ Acesso em: 12 AGO 2026

Advocacia-Geral da União

https://www.gov.br/agu/acl_users/credentials_cookie_auth/require_login?came_from=https%3A//www.gov.br/agu/pt-br/comunicacao/noticias/agu-processa-portal-por-desinformacao-sobre-caso-maria-da-penha Acesso em: 12 AGO 2026

Federação Nacional dos Jornalistas

https://fenaj.org.br/rede-record-presta-desservico-ao-entrevistar-agressor-de-maria-da-penha/ Acesso em: 12 AGO 2026

X

https://x.com/JFreiress_/status/2087377287561785722 Acesso em: 12 AGO 2026

Artigo: Violência contra a mulher: representações do discurso midiático

https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/8997999.pdf  Acesso em: 12 AGO 2026

Eleições 2024: Portal gospel desinforma e engana com matérias que relativizam caso do laudo falso publicado por Marçal contra Boulos

O portal gospel Pleno.news publicou uma notícia, no dia 4 de outubro, que divulga um falso laudo médico exposto, no mesmo dia, nas mídias sociais pelo candidato à Prefeitura de São Paulo, autoidentificado como cristão não determinado, Pablo Marçal (PRTB). O falso documento buscou levar eleitores a crerem que o também candidato Guilherme Boulos (PSOL) havia sido internado em uma clínica médica por conta do consumo de drogas.

A notícia publicada pelo Pleno.news, ainda disponível no site até o fechamento desta nota, detalha o documento médico que foi rapidamente desmentido por Boulos, especialistas e pela própria imprensa na mesma noite.

Imagem: Reprodução/Pleno.news

O laudo, datado de 2021, carece de autenticidade devido a elementos discrepantes e inconsistentes, como o número errado do RG de Boulos, o nome incorreto da clínica onde ele teria sido atendido, além de uma assinatura falsa de um médico já falecido. Também, Boulos tem provas de que não foi atendido ou internado nas datas que constam no laudo divulgado. A secretária e a filha do médico também já declararam que a assinatura no documento é falsa, e a imprensa identificou que o dono da clínica, que teria emitido o laudo, é apoiador da campanha de Pablo Marçal e já foi processado e condenado por falsificação de diploma.

Ainda na noite de 4 de outubro, a campanha de Guilherme Boulos tomou medidas contra Pablo Marçal, com uma representação por crime eleitoral no Tribunal Regional Eleitoral-SP (TRE-SP) e uma denúncia de crime, com pedido de prisão na Justiça comum. O Instagram já havia suspendido a publicação de Marçal devido ao filtro de conteúdo falso. Em 5 de outubro, véspera das eleições, o TRE-SP suspendeu a publicação nas outras mídias de Marçal, mas o conteúdo já havia sido acessado e compartilhado por centenas de milhares de seguidores.

Análise das publicações do portal

O texto do Pleno.news foi publicado às 22h52, cerca de uma hora após a publicação de Pablo Marçal. A matéria utiliza, no título e na linha fina, os termos “suposto laudo” e “supostamente internado”, o que oferece o benefício da dúvida ao que já é publicamente comprovado como falso. Além disso, a publicação é ilustrada com uma foto-montagem dos candidatos lado a lado, extraída de um dos debates eleitorais, com Pablo Marçal em destaque, fazendo o gesto acusatório de “cheirar cocaína” contra Boulos.

A matéria do site gospel reproduz a imagem do falso laudo e detalha todo o conteúdo, mencionando o nome da substância tóxica citada, que teria sido encontrada no paciente, e caracterizando a contaminação por drogas como causadora de surto, com necessidade de internação.

O texto é encerrado com a afirmação de que o candidato Boulos não havia se manifestado sobre o caso. 

Às 23h, dez minutos após a publicação, várias mídias sociais já repercutiam os desmentidos de Boulos, com textos e vídeos, e a imprensa já publicava matérias com as suspeitas em torno da veracidade do documento.

Além dessa matéria permanecer publicada, sem alterações, até o fechamento desta checagem, o Pleno.news publicou uma nova, na manhã de 5 de outubro, às 10h50, que não destaca a falsidade já comprovada do documento.

Imagem: Reprodução/Pleno.news

A chamada está centrada no tom acusatório de que Boulos pediu à Justiça a suspensão das redes de Marçal. Apenas na linha fina o Pleno.news afirma, ainda impondo dúvida: “Laudo exposto por Marçal em suas redes sociais seria falso.” No entanto, o foco da matéria é a busca de Boulos pela suspensão dos perfis de Marçal nas redes. O motivo, segundo o site gospel, foi a publicação de “suposto laudo em que aponta o uso de cocaína pelo deputado federal.” O Pleno.news repete a falsidade proferida por Pablo Marçal com destaque, sem reproduzir os desmentidos de Boulos, mencionando apenas o que seus advogados afirmaram.

Às 12h43, no dia 5 de outubro, véspera das eleições, o Pleno.news publicou uma nova matéria, desta vez em contraposição ao pedido de suspensão das contas de Marçal nas mídias sociais, feito por Boulos. Nessa última publicação, o site gospel apresenta um texto favorável a Pablo Marçal, retratando-o como líder de popularidade nas redes, sem oferecer a fonte das informações. O título diz: “Marçal atrai mais seguidores do que todos seus adversários juntos”, com a linha fina: “Empresário é considerado um fenômeno nas redes sociais.”

Imagem: Reprodução/Pleno.news

Essa construção de matérias segue sem informar sobre o crime eleitoral praticado por Marçal. De fato, articula a conclusão de que o pedido de suspensão dos perfis de Marçal nas redes sociais, feito por Boulos, estaria relacionado à popularidade do candidato, “que atrai mais seguidores do que todos os candidatos juntos.”

—

Bereia classifica as publicações do site gospel Pleno.news, que tratam do falso laudo médico usado por Pablo Marçal contra Guilherme Boulos, como enganosas. O veículo religioso omite do público informações e apurações que comprovam a falsidade do documento, continuando a tratá-lo como “suposto laudo médico”. Além disso, publicou matéria que atribui uma imagem negativa a Boulos, insinuando que ele busca suspender as redes de Marçal por concorrência.

Bereia participa da campanha Bote Fé no Voto. Votar é um direito que alerta sobre este tipo de má-fé nas eleições.  Saiba mais.