Eleições 2026: Publicações sobre perseguição a cristãos voltam a ganhar espaço nas redes digitais
*colaboração: Ana Clara Bento
O tema sobre perseguição a cristãos voltou a ocupar espaço nas mídias digitais. Publicações sobre casos avaliados como perseguição religiosa ao redor do mundo passaram a circular com maior frequência nos últimos meses. A Nigéria é um país com um grande número de menções, mas Israel começa a aparecer em várias postagens.
Por se tratar de ano eleitoral, é comum ver este tema sendo instrumentalizado especialmente por atores da direita extremista, para fomentar pânico religioso e clima de ameaça sobre daqueles que professam a fé cristã.
Bereia checou as publicações que ganharam mais visibilidade nas últimas semanas no Brasil.
Israel no foco da perseguição a cristãos
A divulgação, neste julho de 2026, do Relatório de Liberdade Religiosa, publicado trimestralmente pela Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (ACN), da Igreja Católica, colocou Israel no foco da perseguição a cristãos. Na edição do relatório referente ao trimestre de abril a junho de 2026, foram registrados 83 atos de assédio em 76 incidentes distintos em Israel. Dentre esses, se destacam os ‘cuspes’ direcionados aos cristãos, principalmente a monges e freiras, com 47 casos.
A ACN tem uma linha direta que recebe relatos de assédio por meio de um telefone multilíngue e de um sistema de denúncia online. Os voluntários mantêm contato regular com as comunidades cristãs e instituições religiosas, coletam informações e documentação e auxiliam as vítimas a entrar em contato com as autoridades e a registrar boletins de ocorrência.
A Fundação Pontifícia ACN é uma obra da Santa Sé que apoia projetos pastorais da Igreja no mundo e tem sua sede no Vaticano. As contribuições coletadas pelos 23 escritórios nacionais da organização são gerenciadas pela sede administrativa na cidade de Königstein, na Alemanha. Conhecida no Brasil como ‘Ajuda à Igreja que Sofre’, a sigla atual, adotada mundialmente em 2016, vem do inglês, Aid to the Church in Need. O nome ACN reflete a sua missão: apoiar projetos da Igreja em locais de extrema necessidade ou de perseguição.

De acordo com o último relatório do RFDC, Jerusalém continua sendo o epicentro do assédio anticristão. Dos 76 incidentes registrados no segundo trimestre de 2026, 68 ocorreram na região.

Fonte: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)
Em maio deste ano repercutiu fortemente nas redes o vídeo de uma freira francesa sendo agredida e empurrada ao chão em Jerusalém por um homem, que só saiu de perto da mulher quando uma terceira pessoa interveio. Depois da ampla repercussão do caso nas redes digitais, o Ministério das Relações Exteriores de Israel se manifestou sobre o ocorrido e o classificou como um “ato vergonhoso”. As autoridades israelenses também se apressaram para condenar o ataque a freira e afirmou que o ataque “não tem lugar” na sociedade israelense e efetuou a prisão do agressor.

Imagem: Captura das redes da BBC News Brasil
O vídeo, entretanto, não é um caso isolado do que está acontecendo na região de Jerusalém agora. Para os cerca de 180 mil cristãos que vivem em Israel, e para os cerca de 10 mil cristãos que vivem em Jerusalém Oriental, o ataque é o mais recente de um número crescente de episódios de abuso, agressão e intimidação. De acordo com os depoimentos, as situações aumentaram em paralelo ao crescimento do nacionalismo de extrema direita em Israel. Analistas do tema dizem que a confiança no Estado israelense é pequena e muitos dos casos sequer são denunciados.
De acordo com o relatório da ACN de outubro de 2025, a situação na Palestina segue grave. As garantias constitucionais na região não são suficientes para o exercício da liberdade religiosa pelos cristãos, que se veem limitados pela guerra e pelas restrições israelenses. Em Gaza, os fiéis cristãos e os muçulmanos sofreram graves perdas e enfrentam insegurança, tendo o acesso a Jerusalém bloqueado e os locais de culto destruídos, diz o documento.
O material divulgado é um estudo global compartilhado pela ACN a cada dois anos desde 1999, que analisa a liberdade religiosa em 196 países do mundo e abrange todas as religiões. Em 2025, o relatório enquadrou os cristãos palestinos como vítimas de discriminação, e não perseguição religiosa. A ACN afirma que o nacionalismo religioso está aumentando em Israel, alimentando a exclusão e a repressão das minorias, e que a identidade nacional é cada vez mais moldada pelo nacionalismo étnico-religioso, corroendo os direitos das minorias.
O caso da Nigéria
Bereia recebeu para checagem uma publicação que tem circulado nas mídias desde julho deste ano sobre “mais de 350 cristãos mortos por ataques de extremistas islâmicos” na Nigéria. O conteúdo foi publicado em um perfil do Instagram que publica conteúdos “sob uma perspectiva cristã”.

Esta é mais uma de muitas publicações sobre violência contra cristãos na Nigéria, o que de fato existe, porém expostas sem contextualização e sem a informação de que a violência é política e atinge outros grupos religiosos além dos cristãos, como Bereia já checou.
Em maio deste ano, Bereia checou o vídeo compartilhado em ambientes digitais religiosos que mostrava milhares de corpos cristãos enterrados no continente africano com as mãos levantadas ao céu. Bereia concluiu que o conteúdo é falso e foi gerado por inteligência artificial com intuito de causar comoção e pânico. Em 2025, Bereia classificou como enganoso informações propagadas por veículos religiosos alinhados à extrema direita brasileira sobre ataques sofridos por cristãos na Nigéria, nas quais foram usados dados antigos como se fossem atuais e houve falta de contextualização de fatos para o estabelecimento de outros sentidos a eles.
A Nigéria foi considerada, em 2025, o maior cemitério do mundo para cristãos. Os registros indicam que o país tem sofrido com ataques de grupos armados e políticos do norte e centro do país promoveram investidas a civis, atingindo de modo especial meninas e mulheres, que foram sequestradas, submetidas à violência sexual, conversão forçada e casamento forjado.
Em 2022, o então diretor editorial da revista África, Marco Trovato havia mostrado um panorama da situação de perseguição a cristãos na Nigéria. De acordo com Marco, o incidente acompanhado por ele teve como principais motivações a guerra política entre as milícias locais, que buscam estabelecer seu poder, incluindo sua crença.
Em 2025, Bereia entrevistou o executivo do Programa de Promoção da Paz na África do Conselho Mundial de Igrejas e pastor da Convenção de Igrejas Batistas da Nigéria Dr. Ibrahim Wushishi Yusuf que explicou com detalhes a situação complexa que envolve disputas de poder político.
Em janeiro deste ano, mais de 160 cristãos foram sequestrados durante um ataque realizado por bandos armados contra duas igrejas em um vilarejo isolado no estado de Kaduna, no norte da Nigéria. A informação foi divulgada por um representante do clero cristão local e por um relatório sobre a segurança das Nações Unidas consultado pela Agence France-Presse (AFP).
No mês de junho deste ano, a Organização das Nações Unidas (ONU) informou que grupos extremistas armados estão atuando no norte da Nigéria, em um contexto de impunidade marcado por violência sistemática contra cristãos e contra outras minorias religiosas. De acordo com o comunicado, existe um ambiente hostil, intensificado pela aplicação de interpretações locais da Sharia, a lei islâmica, nos estados do norte da Nigéria. Nesse cenário, os cristãos e outros cidadãos de outras religiões, inclusive islâmicos, sofrem com a imposição de leis contra a blasfêmia, que são aplicadas, muitas vezes, sem critério rigoroso. Os acusados também enfrentam dificuldades de acesso à justiça.

Geopolítica internacional: distorção dos fatos e dos dados
A compreensão de que o cristianismo está sob ataque há muito tempo permeia a cultura política americana. Grupos conservadores nos Estados Unidos afirmam, inclusive, que os cristãos são o grupo religioso mais perseguido do mundo.
Em 2025, o vice-presidente James David Vance publicou que “em todo o mundo, os cristãos são o grupo religioso mais perseguido”. Essa ideia comum é repetida por presidentes , autoridades governamentais e membros do Congresso, influenciando debates sobre política interna e externa, imigração, ajuda externa e eleições presidenciais.
Líderes religiosos e políticos frequentemente citam dados quantificados, principalmente pelo Pew Research Center, sobre restrições religiosas, e pela organização Portas Abertas, que denuncia perseguição a cristãos. Estes dados ajudam a fortalecer a afirmação de que os cristãos são o grupo religioso mais perseguido em todo o mundo.

No entanto, nenhuma dessas fontes de dados comprova essa afirmação. A Portas Abertas é uma organização missionária cristã que coleta informações sobre a perseguição aos cristãos em várias partes do mundo. Anualmente, ela publica uma lista com os 50 países “onde é mais difícil seguir Jesus”, além de divulgar o número de cristãos que vivem em nações com alto risco de perseguição. Curiosamente, diferentemente do relatório ACN da Igreja Católica, Israel não consta nesta lista.
Como as Portas Abertas coletam dados apenas sobre cristãos, não é possível usar suas informações para sustentar afirmações sobre a experiência de sofrimento entre diferentes grupos religiosos, impossibilitando uma análise comparativa.
O Pew Research Center é outra fonte de dados muito valorizada por defensores da liberdade religiosa internacional em Washington, D. C. Esta organização apartidária analisa dados sobre religiões, entre elas as restrições a grupos, a partir de dados sobre limitações governamentais e hostilidades sociais. Os relatórios do Pew indicam o número total de países onde cada grupo religioso enfrenta restrições.
Em 2021, os cristãos foram afetados em 160 países, seguidos pelos muçulmanos em 141 e pelos judeus em 91 países.
Entretanto, a instituição esclarece que suas conclusões sobre a extensão das restrições não devem ser interpretadas como indicativas de que um determinado grupo esteja sofrendo a maior perseguição globalmente. O problema é amplificado pela falta de consistência e clareza sobre o que exatamente está sendo medido. Termos como perseguição a cristãos, liberdade religiosa e restrições religiosas são usados indistintamente, apesar de se referirem a fenômenos sociais diferentes. É importante notar que o termo “perseguição” é vago e evocativo, pois não identifica o agressor e também não esclarece a natureza da ofensa, mas caracteriza um grupo de pessoas como vítimas. A expressão pode ser eficaz na mobilização daqueles que se preocupam com o sofrimento dos cristãos, mas empobrece a clareza conceitual e empírica.

Recentemente, em uma publicação do presidente do Instituto de Liberdade Religiosa nos Estados Unidos David Trimble, sobre as conclusões do relatório Portas Abertas para 2025, é enfatizado que a atenção à perseguição dos cristãos não deve se transformar na polarização política partidária, nem ofuscar a perseguição de outros grupos religiosos.

Fonte: Jovem Pan News/TikTok
Enfrentando a desinformação
No Brasil, o termo “cristofobia” ganhou força durante o governo de Jair Bolsonaro (PL, 2019-2022), tornando-se parte de um discurso alinhado à direita cristã dos EUA, que busca consolidar poder político por meio do tema da perseguição religiosa. E, em ano eleitoral, a direita extremista costuma trazer a expressão novamente à tona, para incentivar a ideia de uma perseguição religiosa que não é comprovada. O Bereia já apurou as motivações por trás do uso da palavra e produziu material explicando por que não se deve propagar esse tipo de ideia. Um artigo da professora e pesquisadora da Unicamp Brenda Carranza também mostra ser falso que os cristãos sofram algum tipo de perseguição no Brasil.
Nas eleições de 2022 o Bereia fez um levantamento que mostrou que a perseguição a cristãos e ameaças de fechamento de igrejas estavam entre os temas com mais conteúdo falso e enganoso circulante em espaços digitais religiosos.
Em outras apurações, o Bereia checou casos de afirmações falsas de perseguição religiosa, dentre esses, a queixa do pastor presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo Silas Malafaia, divulgada em redes digitais e na imprensa, após ele ter sido incluído em inquérito da Polícia Federal (PF). Também sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), junto a extremistas da direita política, ter usado seus perfis nas mídias digitais para denunciar uma suposta perseguição religiosa contra o padre de Osasco (SP) José Eduardo de Oliveira e Silva, um dos 37 indiciados no inquérito da Polícia Federal (PF) sobre a tentativa de um golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito durante e depois das eleições de 2022.
Possivelmente este tema será pautado nas discussões da campanha eleitoral no Brasil em 2026 e deve ter a atenção de leitores e leitoras do Bereia para não assimilarem conteúdo desinformativo, baseado em pânico e ameaças que em nada contribuem para o debate público.
Referências
Organização das Nações Unidas
https://news.un.org/pt/story/2026/06/1853370 23 JUL 26
Instituto Humanitas
https://ihu.unisinos.br/categorias/625688-um-cristao-em-cada-sete-no-mundo-e-perseguido-por-sua-fe 24 JUL 26
O Globo
https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2023/09/24/ataques-a-cristaos-aumentam-na-terra-santa.ghtml 24 JUL 26
Vatican News
https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-07/israel-cristao-religiao-jerusalem.html 24 JUL 26
BBC
https://www.bbc.com/portuguese/articles/cx23v1jd01yo 24 JUL 26
Religious Freedom Data Center (Relatório)
https://report-hotline-jlm.co.il/reports/RFDC_2026_Q2_Report.pdf 24 JUL 26
Revista Opera Mundi
Federação Árabe Palestina do Brasil
Intercept Brasil
https://www.intercept.com.br/2020/02/04/evangelicos-calvinistas-bolsonaro/ 24 JUL 26
Canopy Forum
https://canopyforum.org/2025/09/11/are-christians-the-most-persecuted-religious-group-worldwide/ 24 JUL 26
Coletivo Bereia
https://coletivobereia.com.br/cristofobia/ 24 JUL 26
https://coletivobereia.com.br/cristofobia-uma-estrategia-preocupante/ 24 JUL 26
https://coletivobereia.com.br/video-de-cristaos-enterrados-com-maos-erguidas-foi-feito-por-ia/ 28 JUL 26
Resolução 594. Congresso
https://rileymoore.house.gov/media/bills/h-res-594 24 JUL 26
Religious Freedom Institute
https://religiousfreedominstitute.org/david-trimble-2/ 24 JUL 26
Ajuda à Igreja que Sofre
https://www.acn.org.br/tag/ajuda-a-igreja-que-sofre/ 24 JUL 26
https://www.acn.org.br/quem-somos/ 24 JUL 26


