O portal gospel Pleno News publicou matéria e divulgou em seus perfis de mídias sociais a notícia de que uma igreja evangélica estaria “na mira” do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), por suposta prática de homofobia em desfile cívico, no último 7 de setembro.
Imagem: Extrato da matéria publicada no Portal Pleno News, em 16 set 2026Imagem: Publicação no perfil do Pleno News no Instagram, 16 set 2026
O que se confirma
No desfile cívico da cidade de Içara, cidade de Santa Catarina, os membros da Assembleia de Deus se apresentaram expondo sua organização em ministérios (serviços) da igreja. Faixas com conteúdo polêmico foram apresentadas no pelotão “Ministério da Família”. Os textos faziam referência à defesa do casamento monogâmico e heterossexual, à família formada por homem, mulher e filhos, à oposição à “ideologia de gênero“, contra o aborto e citavam o livro bíblico de Marcos 10:6 (“Porém, desde o princípio da criação, Deus os fez macho e fêmea”).
O MPSC instaurou um procedimento (uma Notícia de Fato) após receber denúncia sobre as faixas exibidas pela entidade religiosa no desfile cívico de 7 de Setembro, em Içara (SC), com mensagens consideradas potencialmente discriminatórias.
O órgão acolheu a denúncia, feita pela internet, e a Promotoria determinou o prazo de dez dias para que a Prefeitura, de Dalvania Cardoso (PL-SC), explique como a igreja foi autorizada a participar do evento oficial. Além do desfile, o pastor presidente da Assembleia de Deus de Içara Hebrom Mussini acompanhou a programação no palanque principal, ao lado de autoridades.
Pleno News distorce ao noticiar
O portal de notícias gospel enquadra a notícia de maneira enganosa, ao afirmar que a igreja evangélica em questão estaria sendo investigada por possível prática de homofobia. O fato é que o procedimento aberto pelo MP-SC trata-se de uma Notícia de Fato, que é o protocolo inicial e sumário instaurado para apurar se uma informação sobre irregularidade tem fundamento e exige investigação. Ou seja, o procedimento busca averiguar se a denúncia encaminhada configura ato de discriminação contra a população LGBTQIA+, com prazo para que a Prefeitura explique a autorização para a participação da igreja no evento oficial.
Além disso, Pleno News publica mentira ao afirmar que “o MPSC agora busca encontrar elementos contra a denominação.” Não há indícios que confirmem tal afirmação. O que foi encaminhado oficialmente até o momento é uma apuração do ocorrido com a Prefeitura, responsável pelo desfile cívico, podendo resultar em denúncia e inquérito civil ou no arquivamento do caso. No momento não há juízo de valor ou constatação prévia de irregularidade.
O portal de notícias omite informações
A fim de vitimizar a igreja Assembleia de Deus de Içara (SC) com o registro de um processo judicial inexistente, o Pleno News omite informação sobre a denúncia ter partido do Instituto Humaniza. A organização cita no texto encaminhado ao MPSC a criminalização da homofobia e da transfobia no Brasil e destacou o caráter laico do Estado brasileiro. Há omissão também no fato de o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) local também ter se manisfestado sobre o acontecido, alegando possível violação da laicidade em evento público.
Bereia classifica a notícia do Pleno News, de que a igreja Assembleia de Deus de Içara (SC), estaria sendo perseguida pelo Ministério Público de Santa Catarina, como enganosa.
O veículo de notícias expressa a verdade sobre a instituição religiosa ter desfilado e sobre o conteúdo presente nas faixas apresentado por um dos grupos. No entanto, o portal gospel apresenta informações enganosas que levam leitores a assimilarem que a igreja estaria sendo alvo de perseguição por defender o formato tradicional de família, e que a liberdade religiosa e de expressão estariam em risco. O título e o subtítulo da matéria carregam uma interpretação que não condiz com a atuação do Ministério Público em curso.
Bereia alerta leitores e leitoras para o recorrente uso da noção de perseguição de cristãos por perfis e veículos cristãos, em especial em períodos eleitorais, por meio da distorção de fatos e procedimentos, em especial no campo judicial.
O tema sobre perseguição a cristãos voltou a ocupar espaço nasmídias digitais. Publicações sobre casos avaliados como perseguição religiosa ao redor do mundo passaram a circular com maior frequência nos últimos meses. A Nigéria é um país com um grande número de menções, mas Israel começa a aparecer em várias postagens.
Por se tratar de ano eleitoral, é comum ver este tema sendo instrumentalizado especialmente por atores da direita extremista, para fomentar pânico religioso e clima de ameaça sobre daqueles que professam a fé cristã.
Bereia checou as publicações que ganharam mais visibilidade nas últimas semanas no Brasil.
Israel no foco da perseguição a cristãos
A divulgação, neste julho de 2026, do Relatório de Liberdade Religiosa, publicado trimestralmente pela Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (ACN), da Igreja Católica, colocou Israel no foco da perseguição a cristãos. Na edição do relatório referente ao trimestre de abril a junho de 2026, foram registrados 83 atos de assédio em 76 incidentes distintos em Israel. Dentre esses, se destacam os ‘cuspes’ direcionados aos cristãos, principalmente a monges e freiras, com 47 casos.
A ACN tem uma linha direta que recebe relatos de assédio por meio de um telefone multilíngue e de um sistema de denúncia online. Os voluntários mantêm contato regular com as comunidades cristãs e instituições religiosas, coletam informações e documentação e auxiliam as vítimas a entrar em contato com as autoridades e a registrar boletins de ocorrência.
A Fundação Pontifícia ACN é uma obra da Santa Sé que apoia projetos pastorais da Igreja no mundo e tem sua sede no Vaticano. As contribuições coletadas pelos 23 escritórios nacionais da organização são gerenciadas pela sede administrativa na cidade de Königstein, na Alemanha. Conhecida no Brasil como ‘Ajuda à Igreja que Sofre’, a sigla atual, adotada mundialmente em 2016, vem do inglês, Aid to the Church in Need. O nome ACN reflete a sua missão: apoiar projetos da Igreja em locais de extrema necessidade ou de perseguição.
Fonte: Centro de Dados de Liberdade Religiosa (RFDC)
De acordo com o último relatório do RFDC, Jerusalém continua sendo o epicentro do assédio anticristão. Dos 76 incidentes registrados no segundo trimestre de 2026, 68 ocorreram na região.
Fonte: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)
Em maio deste ano repercutiu fortemente nas redes o vídeo de uma freira francesa sendo agredida e empurrada ao chão em Jerusalém por um homem, que só saiu de perto da mulher quando uma terceira pessoa interveio. Depois da ampla repercussão do caso nas redes digitais, o Ministério das Relações Exteriores de Israel se manifestou sobre o ocorrido e o classificou como um “ato vergonhoso”. As autoridades israelenses também se apressaram para condenar o ataque a freira e afirmou que o ataque “não tem lugar” na sociedade israelense e efetuou a prisão do agressor.
Imagem: Captura das redes da BBC News Brasil
O vídeo, entretanto, não é um caso isolado do que está acontecendo na região de Jerusalém agora. Para os cerca de 180 mil cristãos que vivem em Israel, e para os cerca de 10 mil cristãos que vivem em Jerusalém Oriental, o ataque é o mais recente de um número crescente de episódios de abuso, agressão e intimidação. De acordo com os depoimentos, as situações aumentaram em paralelo ao crescimento do nacionalismo de extrema direita em Israel. Analistas do tema dizem que a confiança no Estado israelense é pequena e muitos dos casos sequer são denunciados.
De acordo com o relatório da ACN de outubro de 2025, a situação na Palestina segue grave. As garantias constitucionais na região não são suficientes para o exercício da liberdade religiosa pelos cristãos, que se veem limitados pela guerra e pelas restrições israelenses. Em Gaza, os fiéis cristãos e os muçulmanos sofreram graves perdas e enfrentam insegurança, tendo o acesso a Jerusalém bloqueado e os locais de culto destruídos, diz o documento.
O material divulgado é um estudo global compartilhado pela ACN a cada dois anos desde 1999, que analisa a liberdade religiosa em 196 países do mundo e abrange todas as religiões. Em 2025, o relatório enquadrou os cristãos palestinos como vítimas de discriminação, e não perseguição religiosa. A ACN afirma que o nacionalismo religioso está aumentando em Israel, alimentando a exclusão e a repressão das minorias, e que a identidade nacional é cada vez mais moldada pelo nacionalismo étnico-religioso, corroendo os direitos das minorias.
O caso da Nigéria
Bereia recebeu para checagem uma publicação que tem circulado nas mídias desde julho deste ano sobre “mais de 350 cristãos mortos por ataques de extremistas islâmicos” na Nigéria. O conteúdo foi publicado em um perfil do Instagram que publica conteúdos “sob uma perspectiva cristã”.
Imagem: reprodução/Instagram
Esta é mais uma de muitas publicações sobre violência contra cristãos na Nigéria, o que de fato existe, porém expostas sem contextualização e sem a informação de que a violência é política e atinge outros grupos religiosos além dos cristãos, como Bereia já checou.
Em maio deste ano, Bereia checou o vídeo compartilhado em ambientes digitais religiosos que mostrava milhares de corpos cristãos enterrados no continente africano com as mãos levantadas ao céu. Bereia concluiu que o conteúdo é falso e foi gerado por inteligência artificial com intuito de causar comoção e pânico. Em 2025, Bereia classificou como enganoso informações propagadas por veículos religiosos alinhados à extrema direita brasileira sobre ataques sofridos por cristãos na Nigéria, nas quais foram usados dados antigos como se fossem atuais e houve falta de contextualização de fatos para o estabelecimento de outros sentidos a eles.
A Nigéria foi considerada, em 2025, o maior cemitério do mundo para cristãos. Os registros indicam que o país tem sofrido com ataques de grupos armados e políticos do norte e centro do país promoveram investidas a civis, atingindo de modo especial meninas e mulheres, que foram sequestradas, submetidas à violência sexual, conversão forçada e casamento forjado.
Em 2025, Bereia entrevistou o executivo do Programa de Promoção da Paz na África do Conselho Mundial de Igrejas e pastor da Convenção de Igrejas Batistas da Nigéria Dr. Ibrahim Wushishi Yusuf que explicou com detalhes a situação complexa que envolve disputas de poder político.
No mês de junho deste ano, a Organização das Nações Unidas (ONU) informou que grupos extremistas armados estão atuando no norte da Nigéria, em um contexto de impunidade marcado por violência sistemática contra cristãos e contra outras minorias religiosas. De acordo com o comunicado, existe um ambiente hostil, intensificado pela aplicação de interpretações locais da Sharia, a lei islâmica, nos estados do norte da Nigéria. Nesse cenário, os cristãos e outros cidadãos de outras religiões, inclusive islâmicos, sofrem com a imposição de leis contra a blasfêmia, que são aplicadas, muitas vezes, sem critério rigoroso. Os acusados também enfrentam dificuldades de acesso à justiça.
Fonte: InterSociety
Geopolítica internacional: distorção dos fatos e dos dados
Em 2025, o vice-presidente James David Vance publicou que “em todo o mundo, os cristãos são o grupo religioso mais perseguido”. Essa ideia comum é repetida por presidentes , autoridades governamentais e membros do Congresso, influenciando debates sobre política interna e externa, imigração, ajuda externa e eleições presidenciais.
Líderes religiosos e políticos frequentemente citam dados quantificados, principalmente pelo Pew Research Center, sobre restrições religiosas, e pela organização Portas Abertas, que denuncia perseguição a cristãos. Estes dados ajudam a fortalecer a afirmação de que os cristãos são o grupo religioso mais perseguido em todo o mundo.
Fonte: Alma Preta Jornalismo/ Instagram
No entanto, nenhuma dessas fontes de dados comprova essa afirmação. A Portas Abertas é uma organização missionária cristã que coleta informações sobre a perseguição aos cristãos em várias partes do mundo. Anualmente, ela publica uma lista com os 50 países “onde é mais difícil seguir Jesus”, além de divulgar o número de cristãos que vivem em nações com alto risco de perseguição. Curiosamente, diferentemente do relatório ACN da Igreja Católica, Israel não consta nesta lista.
Como as Portas Abertas coletam dados apenas sobre cristãos, não é possível usar suas informações para sustentar afirmações sobre a experiência de sofrimento entre diferentes grupos religiosos, impossibilitando uma análise comparativa.
O Pew Research Center é outra fonte de dados muito valorizada por defensores da liberdade religiosa internacional em Washington, D. C. Esta organização apartidária analisa dados sobre religiões, entre elas as restrições a grupos, a partir de dados sobre limitações governamentais e hostilidades sociais. Os relatórios do Pew indicam o número total de países onde cada grupo religioso enfrenta restrições.
Em 2021, os cristãos foram afetados em 160 países, seguidos pelos muçulmanos em 141 e pelos judeus em 91 países.
Entretanto, a instituição esclarece que suas conclusões sobre a extensão das restrições não devem ser interpretadas como indicativas de que um determinado grupo esteja sofrendo a maior perseguição globalmente. O problema é amplificado pela falta de consistência e clareza sobre o que exatamente está sendo medido. Termos como perseguição a cristãos, liberdade religiosa e restrições religiosas são usados indistintamente, apesar de se referirem a fenômenos sociais diferentes. É importante notar que o termo “perseguição” é vago e evocativo, pois não identifica o agressor e também não esclarece a natureza da ofensa, mas caracteriza um grupo de pessoas como vítimas. A expressão pode ser eficaz na mobilização daqueles que se preocupam com o sofrimento dos cristãos, mas empobrece a clareza conceitual e empírica.
Fonte: É o Mundo Oficial/Instagram
Recentemente, em uma publicação do presidente do Instituto de Liberdade Religiosa nos Estados Unidos David Trimble, sobre as conclusões do relatório Portas Abertas para 2025, é enfatizado que a atenção à perseguição dos cristãos não deve se transformar na polarização política partidária, nem ofuscar a perseguição de outros grupos religiosos.
Fonte: Jovem Pan News/TikTok
Enfrentando a desinformação
No Brasil, o termo “cristofobia” ganhou força durante o governo de Jair Bolsonaro (PL, 2019-2022), tornando-se parte de um discurso alinhado à direita cristã dos EUA, que busca consolidar poder político por meio do tema da perseguição religiosa. E, em ano eleitoral, a direita extremista costuma trazer a expressão novamente à tona, para incentivar a ideia de uma perseguição religiosa que não é comprovada. O Bereia já apurou as motivações por trás do uso da palavra e produziu material explicando por que não se deve propagar esse tipo de ideia. Um artigo da professora e pesquisadora da Unicamp Brenda Carranza também mostra ser falso que os cristãos sofram algum tipo de perseguição no Brasil.
Nas eleições de 2022 o Bereia fez um levantamento que mostrou que a perseguição a cristãos e ameaças de fechamento de igrejas estavam entre os temas com mais conteúdo falso e enganoso circulante em espaços digitais religiosos.
Possivelmente este tema será pautado nas discussões da campanha eleitoral no Brasil em 2026 e deve ter a atenção de leitores e leitoras do Bereia para não assimilarem conteúdo desinformativo, baseado em pânico e ameaças que em nada contribuem para o debate público.
“‘Pastor do Lula’ quer criar escolas progressista de pastores” é o título da matéria publicada, em 12 de novembro, pelo site evangélico Gospel Prime. A matéria se baseia em uma das gravações publicadas no Twitter pelo pastor das Assembleias de Deus Paulo Marcelo Schallemberger, integrante do Núcleo de Evangélicos do Partido dos Trabalhadores (NEPT). As publicações do pastor relatam sua participação em uma reunião realizada, em 11 de novembro, pelo NEPT com lideranças evangélicas, na Sede do Diretório Nacional do PT, em São Paulo.
Imagem: reprodução do site Gospel Prime
A matéria do Gospel Prime baseou-se em um dos três vídeos publicados no Twitter pelo pastor, no qual ele tem uma fala na reunião. O site evangélico afirma que Paulo Marcelo “aparece no Diretório Nacional do PT ensinando como ocupar as igrejas” e incluiu o vídeo, com 53 segundos de duração, publicado também no perfil do Twitter do veículo com a chamada “’Pastor do Lula’ ensina como ocupar igrejas e enganar pastores”.
Imagem: reprodução do site Gospel Prime
O conteúdo publicado pelo Gospel Prime não contextualiza a fala do pastor, tão pouco a reunião da qual ele participou, e oferece aos leitores e leitoras uma avaliação: “Diante da forte rejeição do eleitor evangélico, o Partido dos Trabalhadores (PT) vem buscando formas de se infiltrar nas igrejas, incluindo a proposta de criar escolas progressistas de pastores, mas se identificar para atrair os líderes evangélicos”.
As publicações do pastor Paulo Marcelo Schallemberger
Paulo Marcelo Schallemberger tem sido alvo de abordagens negativas de lideranças e mídias evangélicas, desde que se apresentou em público, no início de 2022, como construtor de pontes entre o PT e os evangélicos. Ele ganhou o noticiário político nacional, como um líder das Assembleias de Deus participante da campanha eleitoral do ex-presidente Lula e foi o jornal Folha de S. Paulo que lhe atribuiu o apelido “Pastor do PT”, repetido agora pelo Gospel Prime.
Em abril, Bereia checou informações que circulavam em mídias sociais religiosas sobre o pastor, por indicação de leitores e leitoras, que incluíam várias acusações, verificadas como improcedentes. Nas eleições de outubro passado, Pastor Paulo Marcelo se candidatou a deputado federal (Solidariedade/SP), mas não conseguiu ser eleito, e consta no Tribunal Superior Eleitoral como suplente.
As publicações de Paulo Marcelo em seu perfil no Twitter, nas quais aborda a reunião do Diretório Nacional do PT, em 11 de novembro, são três, todas com pequenos vídeos de poucos segundos. Em dois deles, o pastor está falando aos presentes – um foi selecionado para a matéria do Gospel Prime (o terceiro na ordem de postagens):
Imagem: reprodução do Twitter
Imagem: reprodução do Twitter
Imagem: reprodução do Twitter
No primeiro vídeo, Paulo Marcelo oferece sugestões de como o PT deve se comunicar com as igrejas evangélicas e mostrar que elas têm um lugar no programa de governo. Ele explica que a comunicação é fundamental para superar a estratégia de grupos de direita que demonizam as esquerdas e colocam as igrejas como “reféns de maus líderes”. Segundo o pastor, “na verdade não são homens que verdadeiramente seguem a Deus porque se seguissem a Deus não teriam coragem de mentir, sabendo que estão falando uma coisa que é inverdade”. Paulo Marcelo reforça: “Nós [líderes] temos a responsabilidade de mudar isto”.
No segundo vídeo, utilizado para o conteúdo do Gospel Prime, o pastor refere-se ao valor das políticas públicas para que as lideranças ligadas ao novo governo não sejam mais “reféns de Malafaia e de Macedo”. Segundo ele, com políticas públicas atingindo positivamente pessoas que são fiéis de igrejas evangélicas haverá abertura para que as igrejas conheçam “uma palavra de libertação da mentira do fascismo”. Paulo Marcelo segue com a explicação de como fazer:
“Criando escolas progressistas de pastores em todo o Brasil. Não tem as escolas que eles fazem? Levam os pastores lá? São Paulo, Campinas, Curitiba, enfim, Rio de Janeiro, começa com os núcleos nas cidades, a partir das cidades ir às regiões, vai para os estados. Primeiro na escola de Teologia tal tal tal (sic.). Evitar o nome ‘progressista’. Traz primeiro os pastores para depois você falar que precisar se falar pois qualquer frase assusta.. [corte]”.
A reunião com evangélicos progressistas
Bereia não conseguiu contato com os organizadores da reunião promovida pelo Núcleo de Evangélicos do PT em São Paulo, em 11 de novembro. Para esta matéria, a equipe levantou com as coberturas da rede de TV CNN e do portal de notícias paulista Poá com acento, que o evento reuniu evangélicos progressistas, ligados a partidos de esquerda, para discutir como contribuir com o processo de transição em curso e com o futuro governo do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, com foco na questão social. Foram convidados para a reunião pastores, pastoras e deputados federais eleitos que são membros de alguma igreja evangélica.
Em entrevista, um dos participantes do evento, o pastor coordenador da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, Ariovaldo Ramos, explicou que o evento também teve caráter celebrativo da vitória nas urnas, e da participação de evangélicos na campanha. Os presentes tiveram tempo para discutir como apoiar o governo Lula e trabalhar com a base evangélica, além de também dialogar sobre como as lideranças progressistas poderão garantir um processo de interlocução com o governo Lula.
Ramos reconhece que houve uma “overdose” de evangélicos no governo Bolsonaro, de uma forma que o pastor considera “errada, pois comprometeu a laicidade do Estado”. Porém, o pastor alerta que não se pode desconsiderar que os evangélicos são uma parcela relevante da população e que há de se dialogar com ela e “trabalhar nas bases e construir uma consciência evangélica”.
A reunião foi pauta do programa Visão CNN, na edição de 11 de novembro. Na abordagem do canal de TV, o jornalista Leandro Resende afirma que, entre os encaminhamentos, estão o chamado a igrejas pequenas e independentes para atuarem com o governo Lula, sobretudo em projetos de assistência social.
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Bereia classifica as publicações de Gospel Prime como enganosas. O veículo usa um vídeo postado pelo pastor Paulo Marcelo Schallemberger, em matéria sem apuração sobre o evento e o contexto da fala do pastor. A matéria no site e o tuíte do Gospel Prime atuam para alimentar desinformação fartamente utilizada no período eleitoral para impor medo de que um novo governo Lula representaria uma ameaça às igrejas e a cristãos.
Ao afirmar que o “pastor está ensinando petistas se infiltrarem em igrejas e enganarem pastores”, o Gospel Prime manipula a informação compartilhada pelo pastor Paulo Marcelo, retirando-a do contexto original.
A publicação se apresenta como matéria jornalística, porém se configura uma interpretação descontextualizada com a intenção de promover rejeição ao pastor Paulo Marcelo e ao governo do presidente eleito em 30 de outubro entre leitores e leitoras evangélicos.
Bereia afirma o valor de um amplo debate público, com o direito à crítica e à oposição a governos, a políticos e a apoiadores deles, marca do processo democrático. Porém alerta que este debate deve ser conduzido com conteúdo verdadeiro, marcado pela dignidade, garantindo a leitores e leitoras o direito à informação.