Eleições 2026: Publicações sobre perseguição a cristãos voltam a ganhar espaço nas redes digitais

*colaboração: Ana Clara Bento

O tema sobre perseguição a cristãos voltou a ocupar espaço nas mídias digitais. Publicações sobre casos avaliados como perseguição religiosa ao redor do mundo passaram a circular com maior frequência nos últimos meses. A Nigéria é um país com um grande número de menções, mas Israel começa a aparecer em várias postagens.

Por se tratar de ano eleitoral, é comum ver este tema sendo instrumentalizado especialmente por atores da direita extremista, para fomentar pânico religioso e clima de ameaça sobre daqueles que professam a fé cristã. 

Bereia checou as publicações que ganharam mais visibilidade nas últimas semanas no Brasil.

Israel no foco da perseguição a cristãos

A divulgação, neste julho de 2026, do Relatório de Liberdade Religiosa, publicado trimestralmente pela Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (ACN), da Igreja Católica, colocou Israel no foco da perseguição a cristãos. Na edição do relatório referente ao trimestre de abril a junho de 2026, foram registrados 83 atos de assédio em 76 incidentes distintos em Israel. Dentre esses, se destacam os ‘cuspes’ direcionados aos cristãos, principalmente a monges e freiras, com 47 casos.

A ACN tem uma linha direta que recebe relatos de assédio por meio de um telefone multilíngue e de um sistema de denúncia online. Os voluntários mantêm contato regular com as comunidades cristãs e instituições religiosas, coletam informações e documentação e auxiliam as vítimas a entrar em contato com as autoridades e a registrar boletins de ocorrência.

A Fundação Pontifícia ACN é uma obra da Santa Sé que apoia projetos pastorais da Igreja no mundo e tem sua sede no Vaticano. As contribuições coletadas pelos 23 escritórios nacionais da organização são gerenciadas pela sede administrativa na cidade de Königstein, na Alemanha. Conhecida no Brasil como ‘Ajuda à Igreja que Sofre’, a sigla atual, adotada mundialmente em 2016, vem do inglês, Aid to the Church in Need. O nome ACN reflete a sua missão: apoiar projetos da Igreja em locais de extrema necessidade ou de perseguição.

Fonte: Centro de Dados de Liberdade Religiosa (RFDC)

De acordo com o último relatório do RFDC, Jerusalém continua sendo o epicentro do assédio anticristão. Dos 76 incidentes registrados no segundo trimestre de 2026, 68 ocorreram na região.

Fonte: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

Em maio deste ano repercutiu fortemente nas redes o vídeo de uma freira francesa sendo agredida e empurrada ao chão em Jerusalém por um homem, que só saiu de perto da mulher quando uma terceira pessoa interveio. Depois da ampla repercussão do caso nas redes digitais, o Ministério das Relações Exteriores de Israel se manifestou sobre o ocorrido e o classificou como um “ato vergonhoso”. As autoridades israelenses também se apressaram para condenar o ataque a freira e afirmou que o ataque “não tem lugar” na sociedade israelense e efetuou  a prisão do agressor. 

Imagem: Captura das redes da BBC News Brasil

O vídeo, entretanto, não é um caso isolado do que está acontecendo na região de Jerusalém agora. Para os cerca de 180 mil cristãos que vivem em Israel, e para os cerca de 10 mil cristãos que vivem em Jerusalém Oriental, o ataque é o mais recente de um número crescente de episódios de abuso, agressão e intimidação. De acordo com os depoimentos, as situações aumentaram em paralelo ao crescimento do nacionalismo de extrema direita em Israel. Analistas do tema dizem que a confiança no Estado israelense é pequena e muitos dos casos sequer são denunciados.

De acordo com o relatório da ACN de outubro de 2025, a situação na Palestina segue grave. As garantias constitucionais na região não são suficientes para o exercício da liberdade religiosa pelos cristãos, que se veem limitados pela guerra e pelas restrições israelenses. Em Gaza, os fiéis cristãos e os muçulmanos sofreram graves perdas e enfrentam insegurança, tendo o acesso a Jerusalém bloqueado e os locais de culto destruídos, diz o documento.

O material divulgado é um estudo global compartilhado pela ACN a cada dois anos desde 1999, que analisa a liberdade religiosa em 196 países do mundo e abrange todas as religiões. Em 2025, o relatório enquadrou os cristãos palestinos como vítimas de discriminação, e não perseguição religiosa. A ACN afirma que o nacionalismo religioso está aumentando em Israel, alimentando a exclusão e a repressão das minorias, e que a identidade nacional é cada vez mais moldada pelo nacionalismo étnico-religioso, corroendo os direitos das minorias. 

O caso da Nigéria

Bereia recebeu para checagem uma publicação que tem circulado nas mídias desde julho deste ano sobre “mais de 350 cristãos mortos por ataques de extremistas islâmicos” na Nigéria. O conteúdo foi publicado em um perfil do Instagram que publica conteúdos “sob uma perspectiva cristã”. 

Imagem: reprodução/Instagram

Esta é mais uma de muitas publicações sobre violência contra cristãos na Nigéria, o que de fato existe, porém expostas sem contextualização e sem a informação de que a violência é política e atinge outros grupos religiosos além dos cristãos, como Bereia já checou.

Em maio deste ano, Bereia checou o vídeo compartilhado em ambientes digitais religiosos que mostrava milhares de corpos cristãos enterrados no continente africano com as mãos levantadas ao céu. Bereia concluiu que o conteúdo é falso e foi gerado por inteligência artificial com intuito de causar comoção e pânico. Em 2025, Bereia classificou como enganoso informações propagadas por veículos religiosos alinhados à extrema direita brasileira sobre ataques sofridos por cristãos na Nigéria, nas quais foram usados dados antigos como se fossem atuais e houve falta de contextualização de fatos para o estabelecimento de outros sentidos a eles.

A Nigéria foi considerada, em 2025, o maior cemitério do mundo para cristãos. Os registros indicam que o país tem sofrido com ataques de grupos armados e políticos do norte e centro do país promoveram investidas a civis, atingindo de modo especial meninas e mulheres, que foram sequestradas, submetidas à violência sexual, conversão forçada e casamento forjado.

Em 2022, o então diretor editorial da revista África, Marco Trovato havia mostrado um panorama da situação de perseguição a cristãos na Nigéria. De acordo com Marco, o incidente acompanhado por ele teve como principais motivações a guerra política entre as milícias locais, que buscam estabelecer seu poder, incluindo sua crença.  

Em 2025, Bereia entrevistou o executivo do Programa de Promoção da Paz na África do Conselho Mundial de Igrejas e pastor da Convenção de Igrejas Batistas da Nigéria Dr. Ibrahim Wushishi Yusuf que explicou com detalhes a situação complexa que envolve disputas de poder político.

Em janeiro deste ano, mais de 160 cristãos foram sequestrados durante um ataque realizado por bandos armados contra duas igrejas em um vilarejo isolado no estado de Kaduna, no norte da Nigéria. A informação foi divulgada por um representante do clero cristão local e por um relatório sobre a segurança das Nações Unidas consultado pela Agence France-Presse  (AFP).

No mês de junho deste ano, a Organização das Nações Unidas (ONU) informou que grupos extremistas armados estão atuando no norte da Nigéria, em um contexto de impunidade marcado por violência sistemática contra cristãos e contra outras minorias religiosas.  De acordo com o comunicado, existe um ambiente hostil, intensificado pela aplicação de interpretações locais da Sharia, a lei islâmica, nos estados do norte da Nigéria. Nesse cenário, os cristãos e outros cidadãos de outras religiões, inclusive islâmicos, sofrem com a imposição de leis contra a blasfêmia, que são aplicadas, muitas vezes, sem critério rigoroso. Os acusados também enfrentam dificuldades de acesso à justiça.  

Fonte: InterSociety

Geopolítica internacional: distorção dos fatos e dos dados

A compreensão de que o cristianismo está sob ataque há muito tempo permeia a cultura política americana. Grupos conservadores nos Estados Unidos afirmam, inclusive, que os cristãos são o grupo religioso mais perseguido do mundo

Em 2025, o vice-presidente James David Vance publicou que “em todo o mundo, os cristãos são o grupo religioso mais perseguido”. Essa ideia comum é repetida por presidentes , autoridades governamentais e membros do Congresso, influenciando debates sobre política interna e externa, imigração, ajuda externa e eleições presidenciais. 

Líderes religiosos e políticos frequentemente citam dados quantificados, principalmente pelo Pew Research Center, sobre restrições religiosas, e pela organização Portas Abertas, que denuncia perseguição a cristãos. Estes dados ajudam a fortalecer a afirmação de que os cristãos são o grupo religioso mais perseguido em todo o mundo.

Fonte: Alma Preta Jornalismo/ Instagram

No entanto, nenhuma dessas fontes de dados comprova essa afirmação. A Portas Abertas é uma organização missionária cristã que coleta informações sobre a perseguição aos cristãos em várias partes do mundo. Anualmente, ela publica uma lista com os 50 países “onde é mais difícil seguir Jesus”, além de divulgar o número de cristãos que vivem em nações com alto risco de perseguição. Curiosamente, diferentemente do relatório ACN da Igreja Católica, Israel não consta nesta lista.

Como as Portas Abertas coletam dados apenas sobre cristãos, não é possível usar suas informações para sustentar afirmações sobre a experiência de sofrimento entre diferentes grupos religiosos, impossibilitando uma análise comparativa.

O Pew Research Center é outra fonte de dados muito valorizada por defensores da liberdade religiosa internacional em Washington, D. C. Esta organização apartidária analisa dados sobre religiões, entre elas as restrições a grupos, a partir de dados sobre limitações governamentais e hostilidades sociais. Os relatórios do Pew indicam o número total de países onde cada grupo religioso enfrenta restrições. 

Em 2021, os cristãos foram afetados em 160 países, seguidos pelos muçulmanos em 141 e pelos judeus em 91 países.

Entretanto, a instituição esclarece que suas conclusões sobre a extensão das restrições não devem ser interpretadas como indicativas de que um determinado grupo esteja sofrendo a maior perseguição globalmente.  O problema é amplificado pela falta de consistência e clareza sobre o que exatamente está sendo medido. Termos como perseguição a cristãos, liberdade religiosa e restrições religiosas são usados indistintamente, apesar de se referirem a fenômenos sociais diferentes. É importante notar que o termo “perseguição” é vago e evocativo, pois não identifica o agressor e também não esclarece a natureza da ofensa, mas caracteriza um grupo de pessoas como vítimas. A expressão pode ser eficaz na mobilização daqueles que se preocupam com o sofrimento dos cristãos, mas empobrece a clareza conceitual e empírica. 

Fonte: É o Mundo Oficial/Instagram

Recentemente, em uma publicação do presidente do Instituto de Liberdade Religiosa nos Estados Unidos David Trimble, sobre as conclusões do relatório Portas Abertas para 2025, é enfatizado que a atenção à perseguição dos cristãos não deve se transformar na polarização política partidária, nem ofuscar a perseguição de outros grupos religiosos. 

Fonte: Jovem Pan News/TikTok

Enfrentando a desinformação

No Brasil, o termo “cristofobia” ganhou força durante o governo de Jair Bolsonaro (PL, 2019-2022), tornando-se parte de um discurso alinhado à direita cristã dos EUA, que busca consolidar poder político por meio do tema da perseguição religiosa. E, em ano eleitoral, a direita extremista costuma trazer a expressão novamente à tona, para incentivar a ideia de uma perseguição religiosa que não é comprovada. O Bereia já apurou as motivações por trás do uso da palavra e produziu material explicando por que não se deve propagar esse tipo de ideia. Um artigo da professora e pesquisadora da Unicamp Brenda Carranza também mostra ser falso que os cristãos sofram algum tipo de perseguição no Brasil.

Nas eleições de 2022 o Bereia fez um levantamento que mostrou que a  perseguição a cristãos e ameaças de fechamento de igrejas estavam entre os temas com mais conteúdo falso e enganoso circulante em espaços digitais religiosos. 

Em outras apurações, o Bereia checou casos de afirmações falsas de perseguição religiosa, dentre esses, a queixa do pastor presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo Silas Malafaia, divulgada em redes digitais e na imprensa, após ele ter sido incluído em inquérito da Polícia Federal (PF). Também sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), junto a extremistas da direita política, ter usado seus perfis nas mídias digitais para denunciar uma suposta perseguição religiosa contra o padre de Osasco (SP) José Eduardo de Oliveira e Silva, um dos 37 indiciados no inquérito da Polícia Federal (PF) sobre a tentativa de um golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito durante e depois das eleições de 2022. 

Possivelmente este tema será pautado nas discussões da campanha eleitoral no Brasil em 2026 e deve ter a atenção de leitores e leitoras do Bereia para não assimilarem conteúdo desinformativo, baseado em pânico e ameaças que em nada contribuem para o debate público.

Referências

Organização das Nações Unidas

https://news.un.org/pt/story/2026/06/1853370 23 JUL 26

https://brasil.un.org/pt-br/84022-mundo-precisa-acabar-com-persegui%C3%A7%C3%A3o-grupos-religiosos-diz-chefe-da-onu-em-dia-internacional 23 JUL 26

Instituto Humanitas

https://ihu.unisinos.br/categorias/172-noticias-2012/505846-cinco-mitos-sobre-a-perseguicao-anticrista 24 JUL 26

https://ihu.unisinos.br/categorias/625688-um-cristao-em-cada-sete-no-mundo-e-perseguido-por-sua-fe 24 JUL 26

https://ihu.unisinos.br/categorias/619312-nigeria-e-um-choque-enorme-agora-mesmo-no-sul-cristao-ninguem-se-sente-seguro-entrevista-com-marco-trovato 24 JUL 26

O Globo

https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2023/09/24/ataques-a-cristaos-aumentam-na-terra-santa.ghtml 24 JUL 26

Vatican News

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2025-04/terra-santa-100-casos-violencia-contra-cristaos-2024.html 24 JUL 26

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-07/israel-cristao-religiao-jerusalem.html 24 JUL 26

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-01/nigeria-mais-fieis-sequestrados-ataque-duas-igrejas.html 24 JUL 26

BBC

https://www.bbc.com/portuguese/articles/cx23v1jd01yo 24 JUL 26

Religious Freedom Data Center (Relatório)

https://report-hotline-jlm.co.il/reports/RFDC_2026_Q2_Report.pdf 24 JUL 26

Revista Opera Mundi

https://revistaopera.operamundi.uol.com.br/2026/07/12/morte-aos-cristaos-a-crescente-violencia-anticrista-em-israel/ 24 JUL 26

Federação Árabe Palestina do Brasil

https://fepal.com.br/para-os-cristaos-em-israel-e-em-jerusalem-a-intolerancia-esta-se-tornando-normal/ 24 JUL 26

Intercept Brasil

https://www.intercept.com.br/2020/02/04/evangelicos-calvinistas-bolsonaro/ 24 JUL 26

Canopy Forum

https://canopyforum.org/2025/09/11/are-christians-the-most-persecuted-religious-group-worldwide/ 24 JUL 26

Coletivo Bereia

https://coletivobereia.com.br/cristofobia/ 24 JUL 26

https://coletivobereia.com.br/cristofobia-perseguicao-a-cristaos-e-fechamento-de-igrejas-estao-entre-os-temas-com-mais-desinformacao-em-espacos-religiosos-nestas-eleicoes/ 24 JUL 26

https://coletivobereia.com.br/cristofobia-uma-estrategia-preocupante/ 24 JUL 26

https://coletivobereia.com.br/pastor-malafaia-usa-ideia-de-perseguicao-religiosa-para-questionar-inclusao-em-inquerito-da-pf/ 24 JUL 26

https://coletivobereia.com.br/politicos-apoiadores-de-padre-indiciado-em-trama-golpista-usam-falsa-acusacao-de-perseguicao-religiosa/ 24 JUL 26

https://coletivobereia.com.br/video-de-cristaos-enterrados-com-maos-erguidas-foi-feito-por-ia/  28 JUL 26

https://coletivobereia.com.br/site-gospel-manipula-conteudo-antigo-para-ligar-casos-recentes-de-violencia-na-nigeria-a-religiao-islamica/  28 JUL 26

Resolução 594. Congresso

https://rileymoore.house.gov/media/bills/h-res-594 24 JUL 26

Religious Freedom Institute

https://religiousfreedominstitute.org/david-trimble-2/ 24 JUL 26

Ajuda à Igreja que Sofre

https://www.acn.org.br/tag/ajuda-a-igreja-que-sofre/  24 JUL 26

https://www.acn.org.br/quem-somos/ 24 JUL 26

Vídeo de cristãos enterrados com mãos erguidas foi feito por IA

Circula em ambientes digitais religiosos um vídeo que mostra milhares de corpos cristãos enterrados no continente africano com as mãos levantadas ao céu. A pauta foi indicada por integrante do grupo de correspondentes do Bereia, que verificou a veracidade do vídeo e das informações.

A legenda do vídeo afirma que  há milhares de corpos enterrados no continente africano. Todos estariam com os braços fora da terra, direcionados para cima, como de costume cristão em orações. No vídeo há o letreiro “Milhares de cristãos”, e na legenda “África milhares de cristãos, enterrados vivos pelo regime islã”. Além disso, há um letreiro em destaque na imagem “Antes que comentem: não é IA”.

A versão que mais circula nas mídias digitais tem marca d’água que direciona ao perfil de um pastor evangélico, e foi publicada entre os dias 27 e 28 de fevereiro. No entanto, Bereia encontrou uma outra postagem, publicada de dois a três dias antes, sem as legendas inseridas pelo pastor.

A publicação mais antiga foi feita por um perfil identificado como criador de conteúdo, no Facebook. Nessa conta, Bereia levantou outra postagem, realizada no mesmo dia, com conteúdo parecido: milhares de corpos enterrados, no mesmo ambiente, mas com as cabeças para fora da terra. 

Bereia checou e concluiu que o conteúdo é falso e foi gerado por inteligência artificial. No vídeo, é possível ver pequenas deformações, como mãos muito alongadas, dedos deformados e quantidade de dedos menor que o usual. 

Além disso, a legenda apresenta características comuns a conteúdo falso nas redes digitais: não oferece informações básicas, como o local do ocorrido – apenas menciona genericamente o imenso continente africano – e a data em que tal massacre teria se dado.

Contexto sociopolítico

O vídeo circula em meio a afirmações de perseguição a cristãos na África e a conflitos geopolíticos no Oriente Médio. Em 2025, o presidente dos Estados Unidos Donald Trump declarou que cristãos estariam sendo perseguidos na Nigéria, e sugeriu uma possível intervenção militar no país. 

Em resposta, o governo nigeriano afirmou não tolerar perseguição religiosa. A realidade no país é grave quanto a conflitos religiosos, mas não necessariamente ligada a uma perseguição ao cristianismo, e sim àqueles que são contrários a grupos terroristas políticos, como Bereia já checou. Inclusive, as estatísticas apontam para um maior número de muçulmanos assassinados, em relação ao número de cristãos.

Nos últimos dias, a crise no Oriente Médio, região majoritariamente islâmica,  tem dominado o noticiário, por conta dos ataques bélicos de Estados Unidos e Israel ao Irã, que levaram ao assassinato do líder supremo do país o aiatolá Ali Khamenei. A ação reacende debates sobre a disputa político-territorial, da ação estadunidense e israelense como ideia de salvação do mundo e supostas disputas entre cristãos e muçulmanos.

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Bereia confirma  que o vídeo com imagens de cristãos enterrados na África por islâmicos é falso. O material foi gerado por inteligência artificial e circula no ambiente digital religioso com o intuito de causar comoção e pânico. A publicação circula poucos meses após declarações de políticos dos EUA a respeito de uma suposta onda de perseguição a cristãos na Nigéria, país localizado na África Ocidental. O conteúdo viraliza também no contexto anti-islã propagado por extremistas de direita a propósito dos ataques de EUA e Israel ao Irã. 

Como Bereia já checou, são inúmeras as iniciativas em espaços digitais religiosos que incentivam a intolerância contra a religião islâmica com base em conteúdo fraudulento; esta é mais uma delas. Leitores e leitoras devem estar atentos às características básicas de imagens produzidas por IA e de conteúdo falso expostas nesta matéria para não serem usados como propagadores de desinformação. 

Site gospel manipula conteúdo antigo para ligar casos recentes de violência na Nigéria à religião islâmica

*Atualizado às 10:52 de 23/05/25 para acréscimo e correção de informações.


Veículos religiosos alinhados ao extremismo de direita no Brasil continuam explorando o tema da violência contra cristãos na Nigéria, seja por meio da reprodução de informações antigas como se fossem atuais, seja por meio da falta de contextualização de fatos para estabelecer outro sentido a eles. Bereia identificou que em abril passado, o portal gospel Pleno.News publicou os mesmos dados sobre ataques na região central de Plateau, na Nigéria, que foram publicados por outros veículos dois anos atrás. Foi o caso da matéria publicada pelo jornal Gazeta do Povo, em dezembro de 2023. Os dados foram publicados pelo site gospel neste ano como se fossem atuais, e ainda se atribuiu o caso a um ataque de islâmicos a cristãos.

Imagem: matéria PlenoNews de 2025

Imagem: matéria Gazeta do Povo 2023

Ambas as matérias são marcadas pela descontextualização e a exploração de dados superficiais sobre a violência contra populações de determinadas áreas na Nigéria, como se fossem ações de motivação religiosa, exclusivas contra cristãos. Bereia tem observado, no monitoramento sobre a veiculação de tais conteúdos, como eles servem como combustível para a propagação de medo em relação a uma possível perseguição a cristãos no Brasil, que vem sendo denominada politicamente como “cristofobia”.

Bereia checou o conteúdo e apurou dados sobre a realidade da Nigéria, permeada por conflitos e tensões que afetam grupos religiosos.

Conflitos e tensões na Nigéria: marcas de um histórico conturbado

Como os muitos países da África, depois de sofrer invasões e explorações diversas do território, por séculos povoado e governado por reinos e impérios, a região onde se localiza hoje o Estado da Nigéria, foi colonizada pela Grã-Bretanha no final do século 19.  O país tornou-se independente em 1960, mas anos depois teve que enfrentar uma guerra civil e vários golpes militares. O comando da nação foi assumido alternadamente por governos civis democraticamente eleitos e por ditaduras militares. As eleições presidenciais de 2011 foram as primeiras consideradas razoavelmente livres e justas. 

A Nigéria se tornou uma potência importante do continente africano, especialmente por contra do petróleo. O país é habitado por mais de 500 grupos étnicos, entre os maiores estão os hauçás, os ibos e os iorubás. Do ponto de vista das religiões, o país é dividido igualmente entre os islâmicos. A maioria dos cristãos vive no sul e nas regiões centrais, e os islâmicos se concentram mais ao norte. Uma pequena parcela da população pratica as religiosidades tradicionais e locais denominadas ibo e iorubá, que tem marcas nas diversas expressões culturais e nas vivências das duas principais religiões do país.

Nestas décadas do século 21, a Nigéria ainda enfrenta o desafio de manter a unidade nacional diante de divisões étnicas e religiosas. Nas últimas décadas, milhares morreram em ataques de grupos extremistas autoidentificados islâmicos jihadistas, estabelecidos no nordeste do país, especialmente o Boko Haram, que também sequestra estudantes para exigir resgates ou usá-los em atentados. Movimentos separatistas, como o do Delta do Níger e o que defende a independência da região de Biafra, ganharam força. 

Sobre os conflitos na região de Plateau, áreas de Bokkos e Bassa

A matéria do Pleno.News, em abril de 2025, que reproduz informações de notícia da Gazeta do Povo, de dezembro de 2023, refere-se a ataques ocorridos no estado de Plateau, região central da Nigéria. Bereia apurou que ataques foram, de fato, registrados, naquela localização, em 14 de abril deste ano, porém com informações divergentes. 

Em entrevista ao Bereia, o executivo do Programa de Promoção da Paz na África do Conselho Mundial de Igrejas e pastor da Convenção de Igrejas Batistas da Nigéria Dr. Ibrahim Wushishi Yusuf reforçou que o norte da Nigéria continua sofrendo ataques violentos de extremistas e terroristas muçulmanos, como o Boko Haram. 

Segundo Yusuf, alguns pastores de gado criminosos, da etnia Fulani,  também realizam atos de violência nas comunidades. “Vão de aldeia em aldeia matando e sequestrando pessoas para pedir resgate. A maioria das comunidades no planalto, Takum, sul de Kaduna e Benue — que são predominantemente cristãs — sofreram mais em alguns desses ataques de abril passado. Algumas comunidades de Katsina, Zamfara, Yobe e Maiduri, com maioria muçulmana, também tiveram vítimas como consequência disso”.

O pastor batista confirmou o ataque em 14 de abril passado, que causou a morte de 51 pessoas do povo Irigwe, em Zikke, distrito de Kwall, área de governo local de Bassa. Yusuf relatou ao Bereia que milícias Fulani atacaram na madrugada daquela segunda-feira, 14 de abril, em operação que durou cerca de 90 minutos, contra homens e mulheres, crianças e idosos. Mais de dez pessoas ficaram gravemente feridas e receberam atendimento em diferentes centros médicos. Para agravar a destruição contra aquela comunidade, muitas casas e propriedades foram incendiadas pelos agressores, prática que é comum nesse tipo de ataque.

Ibrahim Wushishi Yusuf calcula que este foi o quarto ataque às mesmas comunidades, vitimando pessoas sem distinção da afiliação religiosa. “Ambas as religiões, cristã e muçulmana, sofreram com as ações desses criminosos. Existem muçulmanos bons e moderados na Nigéria que amam e pregam a paz”.

Em manifesto divulgado no próprio 14 de abril de 2025, que relata o ocorrido em Bassa, e expõe os nomes dos 51 mortos e suas idades, que variam entre 3 e 69 anos, o secretário nacional de Comunicação do Movimento Juvenil Irigwe  Joseph Chudu Yonkpa declara:

Como povo, todos os nossos esforços para amplificar nossa voz e mostrar ao mundo o genocídio contínuo em nossa terra têm sido ignorados. Mais de 30 pessoas foram mortas no último mês em ataques e emboscadas separados, totalizando quase 100 mortes entre dezembro de 2024 e hoje, com destruição incalculável de lavouras e propriedades. Esses ataques são excessivos, e o povo Irigwe está profundamente preocupado se realmente é considerado cidadão da Nigéria, pois nossos agressores continuam a mutilar e destruir nosso povo com impunidade e sem que os criminosos sejam presos.

Nunca passamos por algo tão grave quanto o assassinato dessas 51 pessoas em nossa terra. Estamos clamando por ajuda do governo, de organizações não governamentais, de organizações da sociedade civil e de pessoas solidárias, para que não apenas condenem essa situação, mas se juntem a nós na exigência de justiça por todos os nossos irmãos assassinados, cujas vidas foram interrompidas pelas milícias Fulani.

Exigimos que um comitê independente seja criado pelo Comando de Defesa Nacional para investigar todas as formas de genocídio na terra Irigwe, prender os responsáveis, seus financiadores e cúmplices, com a esperança de trazer a justiça que nosso povo merece.

Também apelamos à NEMA, à PLASEMA, ao Ministério dos Assuntos Humanitários, a empresas e pessoas solidárias que venham em socorro ao nosso povo, pois suas casas, negócios, lavouras e, em alguns casos, os provedores das famílias foram afetados por esses ataques renovados.

Continuaremos a buscar justiça para nosso povo dentro dos limites da lei e oramos para que Deus conceda descanso às almas de nossos entes queridos.

Bereia levantou informações oferecidas pela rede de comunicação pública alemã Deutsche Welle (DW) de que os casos estão inseridos em um contexto de impunidade contra a violência mortal em áreas rurais. Os ataques são motivados por frequentes disputas de terra entre os pastores/criadores de gado, da etnia islâmica Fulani, e agricultores, não exclusivamente, mas majoritariamente, cristãos.

Segundo o DW, o aumento populacional na Nigéria ocasiona um crescimento no número de terras destinadas à agricultura, porém, as mudanças climáticas interferem na disponibilidade de terras para pastagens. Esta situação evidencia a natureza econômica, climática, étnica e política do conflito, longe de ter motivações religiosas. 

Em uma entrevista ao portal de notícias do Vaticano, em 2018, o padre missionário salesiano na Nigéria Roberto Castiglione falou sobre a violência em Plateau. “A polícia não é eficiente. Os pastores Fulani avançam armados e querem obrigar, com o medo e ameaças, as populações locais a abandonarem suas terras para depois tomar posse e reivindicar a propriedade”. 

O mau uso da ideia de perseguição religiosa na Nigéria

A afirmação de que “A violência religiosa é um problema grave” na Nigéria é um dos dez “mitos” desmentidos pelo projeto de pesquisa Nigeria Watch, uma base de dados que monitora a violência letal, os conflitos e a segurança humana na Nigéria, desde 2006. No relatório sobre os principais mitos acerca da violência no país, a iniciativa rebate a ideia de uma “oposição irredutível” entre um “Norte muçulmano” e um “Sul cristão”.

A análise é categórica ao declarar que “identificar a religião como a causa de confrontos fatais é bastante complexo. A violência que envolve questões religiosas ou que opõe muçulmanos e cristãos pode ser política, econômica ou social, como no caso das disputas de terra e dos conflitos entre pastores/criadores de gado no estado de Plateau. Essa é a razão pela qual, ao estudar o papel da religião na violência, é mais preciso focar nos detalhes dos atores rotulados como ‘cristãos’ ou ‘islâmicos’”. 

Um segundo levantamento do Nigeria Watch também aponta o estado de Plateau como um dos que registram maior número de mortes devido a conflito de terras, e destaca as questões entre fazendeiros e pastores de animais, e os conflitos étnicos da região. O documento do projeto de pesquisa, que trata do “mito” da violência religiosa, inclui dados que mostram que os confrontos com morte entre organizações islâmicas e cristãs são muito raros. O texto reforça que os incidentes fatais, com ao menos uma organização político-religiosa, envolvem principalmente o grupo jihadista Boko Haram (BH), classificado como organização islâmica terrorista, que age contra as forças de segurança do país. 

A iniciativa de pesquisa ressalta que a violência religiosa na Nigéria não é apenas inter-religiosa e mostra que o Boko Haram mata principalmente muçulmanos. O documento do Nigeria Watch destaca que é simplista considerar que confrontos letais entre cristãos e muçulmanos têm o potencial de segregar o país. Outras formas de intolerância também resultam em violência fatal na Nigéria, como a “caça às bruxas”, com falsas alegações de bruxaria contra expressões religiosas locais. Tais acusações, em alguns casos, são difundidas por pastores evangélicos do ramo pentecostal, e apoiadas por discursos que reforçam a crença em formas culturais locais de superstição.

Iniciativa de promoção da paz 

O pastor Yusuf revelou ainda, ao Bereia, que, em 2012, foi realizada uma visita de líderes inter-religiosos, promovida pelo Conselho Mundial de Igrejas e pelo Instituto para o Pensamento Islâmico Royal Aal al-Bayt, um centro de estudos islâmicos com sede na Jordânia, ligado à família real daquele país, que frequentemente colabora com líderes religiosos cristãos e muçulmanos em iniciativas de diálogo e reconciliação. Nessa visita foi identificada a necessidade de apoiar o Conselho Cristão da Nigéria e a organização Jama’atul Nasril Islam, que representa muçulmanos e cristãos nacionais.

Como resultado, foi fundado um centro inter-religioso como espaço de cooperação em enfrentamento às ações dos extremistas. Como integrante do Conselho Mundial de Igrejas, pastor atuante na Nigéria, Yusuf tornou-se responsável pelo centro inter-religioso, situado em Abuja, norte da Nigéria. 

“Supervisiono a iniciativa de construção da paz na África desde o ano passado, em meio a muitas dificuldades para oferecer apoio. São necessárias várias respostas, mas o centro continua enfrentando problemas de financiamento. O Conselho Mundial de Igrejas tem tentado conseguir financiamento para permitir uma atuação mais eficaz do centro diante dos conflitos violentos contínuos no norte da Nigéria”, afirmou o pastor batista.

Foto: Conselho Mundial de Igrejas

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Bereia conclui que veículos de imprensa gospel no Brasil têm destacado enganosamente apenas cristãos como vítimas dos ataques violentos na Nigéria, como ocorreu com a matéria do Pleno.News, publicada em abril passado. Há apenas a reprodução de informações enviadas por grupos do exterior ou levantadas por veículos brasileiros, sem apuração e sem contextualização sobre as razões dos conflitos. 

O mau tratamento do tema acaba produzindo material inusitado como o texto que repete, em 2025, dados publicados em 2023, inflando o número de mortos no atentado em questão.  O conteúdo termina por produzir a propagação de pânico e de intolerância, ao fortalecer um discurso de perseguição religiosa contra cristãos, por parte de islâmicos. 

Além do conteúdo disseminado no Brasil omitir a informação sobre islâmicos serem também vítimas dos ataques que não têm motivação religiosa, silencia também sobre  iniciativas de paz e reconciliação no país, realizadas e financiadas em conjunto por cristãos e islâmicos.

Diferentemente do que tem sido propagado no Brasil, a quase totalidade dos conflitos que envolvem grupos extremistas como o Boko Haram e Fulani na Nigéria, não se trata de ataques religiosos, nem tampouco de perseguição religiosa nacional. As motivações para os casos têm fundamentalmente caráter político, econômico, étnico e cultural, ou seja, os atos são praticados por grupos extremistas, com interesses específicos diversos e que têm uma identidade religiosa. 

Veículos de notícias religiosos e não religiosos no Brasil têm o dever de contextualizar e produzir informação completa e digna sobre estas situações para que não haja promoção de intolerância nem uso sensacionalista do tema por parte de quem faz política com uso da religião, para evitar equívocos e se possa produzir solidariedade com a população nigeriana que sofre com tamanha violência.

Referências da checagem

Deutsche Welle

https://www.dw.com/en/nigeria-amnesty-condemns-government-after-deadly-attack/a-72245453 Acesso em 23 ABR 25

Vatican News
https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2018-07/nigeria-pastores-fulani-salesianos.html Acesso em 30 ABR 25

Nigeria Watch
https://www.nigeriawatch.org/index.php Acesso em 23 ABR 25

https://www.nigeriawatch.org/media/html/Nigeria_Watch_10_MythFinal.pdf Acesso em 23 ABR 25

https://www.nigeriawatch.org/media/html/File/NW10Myths2023.pdf Acesso em 23 ABR 25

Carta Capital
https://www.cartacapital.com.br/educacao/o-avanco-do-terror-na-nigeria/ Acesso em 30 ABR 25

BBC News Brasil
https://www.bbc.com/portuguese/articles/cvgeyw81y12o Acesso em 23 ABR 25

Grupo de Estudos e Pesquisas em Segurança Internacional do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília
http://www.gepsi.unb.br/index.php?option=com_content&view=article&layout=edit&id=28&Itemid=599 Acesso em 30 ABR 25