Dizer que não há fome no Brasil é mentira

Em um café com jornalistas estrangeiros, dia 19 de julho de 2019, o presidente Jair Bolsonaro declarou que não há fome no Brasil. “Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira. Passa-se mal, não come bem. Aí eu concordo. Agora, passar fome, não. Você não vê gente pobre pelas ruas com físico esquelético como a gente vê em alguns outros países por aí pelo mundo”, disse o Presidente da República.

Bereia recuperou esta afirmação a propósito da intensificação da Campanha Natal sem Fome neste 2019. A campanha foi idealizada pelo sociólogo Betinho em 1994, suspensa em 2007 por conta dos avanços no país no enfrentamento da pobreza, e retomada em 2017, em razão da ameaça de inclusão do país de volta ao Mapa da Fome da ONU.  A campanha é realizada, no presente, por um grupo de organizações sociais e empresas, e chama a atenção da sociedade para ajudar famílias que convivem com a crueldade da fome. A iniciativa tem como principal objetivo a erradicação da fome no país e desde 1994 ajuda milhões de brasileiros a terem um Natal digno.  

Em 2017, 5.653 pessoas morreram por desnutrição por dia no Brasil – 37% das mortes ocorreram no nordeste do país (média de mais de 15 pessoas por dia, dados mais recentes disponíveis do Ministério da Saúde).

De acordo com Daniela Frozi, especialista em nutrição e pesquisadora ligada à Fiocruz, a fome é a escassez temporária ou permanente de alimentação adequada de forma regular. “O que caracteriza a fome é a ausência de alimentos para todas as pessoas dentro de um domicílio. É a mãe que deixa de comer para que um filho coma pelo ao menos uma vez ao dia durante o dia inteiro e isso ir se repetindo em um contexto de incerteza sobre o que vai aparecer de alimentos para a próxima refeição.”, explica a especialista.

Foto: Cristiano Mariz Data: 29/11/2017 Brasília – DF – Revista Veja

Frozi comenta ainda que “a fome e a pobreza extrema são irmãs gêmeas de um mesmo contexto de desigualdades econômicas em um país. A fome e a pobreza extrema são o lugar social de ausências do direito humano mais básico que é o da alimentação e, na verdade, a condição da não existência humana.”

Segundo o coordenador da campanha Natal Sem Fome, Rodrigo Kiko Afonso, o intuito do movimento é chamar atenção dos políticos, da imprensa e da sociedade para que voltem o olhar para a fome, um problema que tem aumentado drasticamente no país. Ele explica ainda que a solução do problema vai muito além da distribuição de alimentos, depende de políticas públicas.

Uma das maiores críticas ao governo de Jair Bolsonaro e à política econômica que adotou é a falta de foco nos programas sociais. A fala da entrevista de julho passado, citada no início desta matéria, reflete isto. Dados oficiais mostram que a extrema pobreza subiu no Brasil e chegou, em 2018, a 13,5 milhões de pessoas sobrevivendo com até 145 reais por mês. O número de miseráveis tem crescido desde 2015. Em 2014, 4,5 milhões de pessoas caíram para a extrema pobreza, passando a viver em condições miseráveis, segundo o IBGE, que atribui o problema à alta do desemprego, aos cortes nos programas sociais, à falta de reajuste de subvenções como o Bolsa Família, especialmente com as políticas assumidas no país desde 2016. Naquele ano, 1.339 milhão de pessoas se tornaram miseráveis. De 2017 para 2018 foram 200.000 pessoas a mais. Nesse período, o Brasil ajudou a inflar os dados de extrema pobreza em todo o continente, como mostrou um estudo da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL, um órgão da ONU). O indicador de pobreza do Bolsa Família, por exemplo, é de 89 reais, abaixo do parâmetro de 145 reais utilizado pelo Banco Mundial.

Bereia apoia a Campanha Natal Sem Fome e classifica a afirmação do presidente Jair Bolsonaro de que a fome não existe no Brasil como falsa.

Referências de checagem:

COPLE, Julia. ‘Passar fome no Brasil é uma grande mentira’, diz Bolsonaro. O Globo, 19 jul 2019. Disponível em: https://oglobo.globo.com/brasil/passar-fome-no-brasil-uma-grande-mentira-diz-bolsonaro-23818496

NATAL sem Fome. Disponível em: https://www.natalsemfome.org.br/

DATASUS. Disponível em: http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/index.php?area=0205&id=6937

Extrema pobreza atinge 13,5 milhões de pessoas e chega ao maior nível em 7 anos. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/25882-extrema-pobreza-atinge-13-5-milhoes-de-pessoas-e-chega-ao-maior-nivel-em-7-anos

Extrema pobreza atinge seu nível mais alto desde 2008. Disponível em: https://www.cepal.org/pt-br/comunicados/pobreza-america-latina-manteve-se-estavel-2017-mas-extrema-pobreza-aumentou-atingindo

PT cearense não quer criminalizar o cristianismo

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Por sugestão de nossos leitores, checamos uma postagem que circula nas redes sociais. O post contém uma foto onde aparece o deputado Elmano de Freitas, numa entrevista, com a legenda “PT cearense quer criminalizar o cristianismo”.


Foram 85 compartilhamentos e dezenas de comentários na publicação, que diz: “Esses canalhas apresentaram projeto contra o povo de Deus, os que assinaram foram Elmano de Freitas, Acrísio Sena, Fernando Santana e Moysés Braz, a lei tem por objetivo inibir e proibir manifestações religiosas (diga-se cristãs), sob pena de prisão e multas. Com texto enganoso, pretende por exemplo: proibir evangelização a pretexto de ser tratada como forma de coação ao indivíduo”.

Existe na Assembleia Legislativa do Ceará um projeto assinado pelos petistas Elmano de Freitas, Acrísio Sena, Fernando Santana e Moysés Braz. Trata-se do PL 578/2019 que dispõe sobre “penalidades administrativas a serem aplicadas pela prática de discriminação por motivos religiosos”.


O projeto foi alvo de críticas do vereador Jorge Pinheiro (DC), na sessão do dia 22 de outubro. Pinheiro alegou que o projeto fere a liberdade de expressão religiosa, além de ser parte de uma grande campanha de perseguição aos cristãos. Ele citou o Art. 1º do PL: “Será punida, nos termos desta lei, toda manifestação atentatória e todo ato discriminatório por motivo de religião, praticado no Estado do Ceará por qualquer pessoa, jurídica ou física, inclusive a que exerça função pública”.


Em declaração na tribuna, documentada pela imprensa da Câmara de Vereadores de Fortaleza, Jorge Pinheiro questionou: “Estão querendo nos amordaçar na luta pela nossas crianças e pelo direito de propagar o Cristianismo. Quer dizer então que esta minha fala poderia ser processada porque defendo minha religião?”.


A matéria proposta não versa sobre proibição de manifestações religiosas, sequer proíbe o evangelismo ou criminaliza o cristianismo. Segundo o texto do Projeto de Lei, atos discriminatórios por motivo de religião seriam:
I- praticar qualquer tipo de ação violenta;
II- proibir o ingresso ou a permanência em ambiente ou estabelecimento aberto ao público;
III- criar embaraços à utilização das dependências comuns e áreas não privativas de edifícios;
IV- criar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propagandas que incitem ou induzam à discriminação.


Na justificativa do Projeto de Lei, os deputados alegam que “O projeto prevê penas administrativas para atos de discriminação religiosa contra qualquer crença” e que “a demanda chegou ao mandato por meio de lideranças de matizes africanas, mas a proposta é ampla e atende ao princípio da liberdade religiosa, previsto no Art. 5, inc. VII da costitui;ção Federal de 1988”.

Por não se tratar de um projeto que “criminalize o cristianismo” e nem “amordaçar na luta pela nossas crianças e pelo direito de propagar o Cristianismo”, avaliamos o conteúdo da postagem publicada como “FALSA”.

Referências de checagem:

http://www.cmfor.ce.gov.br/vereador-se-manifesta-contra-projeto-que-preve-penalidade-para-atos-de-discriminacao-religiosa/ https://www2.al.ce.gov.br/legislativo/proposicoes/ver.php?nome=30_legislatura&tabela=projeto_lei&codigo=577