Site gospel propaga falsa censura e descredibiliza pauta antiviolência no caso Maria da Penha

*com distorções enganosas

O portal de notícias gospel Pleno News noticiou, em 10 de agosto, a prisão do ex-marido da farmacêutica e ativista de direitos das mulheres Maria da Penha Fernandes, Marco Antonio Heredia Viveros. A matéria sugere que Viveros teve sua liberdade de expressão atacada e que a Rede Record, de propriedade da Igreja Universal do Reino de Deus, teria sido censurada por entrevistar o agressor. Na verdade, o homem foi preso por descumprir decisão judicial, e a entrevista não foi ao ar por isso. 

Trechos da matéria publicada por Pleno News são compostos por expressões que induzem quem lê a relativizar a prisão de Viveros. O texto evita identificar o ex-marido da vítima como condenado pela Justiça e suavizam a infração cometida com a entrevista dada à Record. O título também atua com a sugestão de que a decisão judicial é prática de censura. 

A publicação com o título “Ex-marido de Maria da Penha é preso após dar entrevista” foi checada por Bereia.

Imagem: reprodução Pleno News

O que aconteceu, de fato

O economista Antônio Heredias Viveros foi preso em 9 de agosto passado, em Natal (RN), por descumprir medidas preventivas expedidas, em 2024, pelo Juizado da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Fortaleza (CE). Ele foi condenado, em 1996, a dez anos e seis meses de reclusão por  planejar e executar dois atentados contra a vida da esposa, Maria da Penha Fernandes. Porém, por meio de alegações de irregularidades, a defesa conseguiu a anulação do julgamento. 

Na busca incessante por reparação, em 1998, o Centro para a Justiça e o Direito Internacional (CEJIL) e o Comitê Latino-americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher (CLADEM) denunciaram, o caso para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (CIDH/OEA). 

Em 2001, após receber quatro ofícios da CIDH/OEA (1998 a 2001), o Estado brasileiro foi responsabilizado por negligência, omissão e tolerância em relação à violência doméstica praticada contra as mulheres brasileiras. Com esta responsabilização internacional, a Justiça brasileira agiu e Viveros foi preso em outubro de 2002, faltando apenas seis meses para a prescrição do crime. Ele cumpriu cerca de dois anos de pena em regime fechado e ganhou liberdade. 

A Lei Maria da Penha foi resultado da ação de um Consórcio de ONGs Feministas, em 2002, motivado pelo que Maria da Penha passou, diante da falta de medidas legais e ações efetivas, como acesso à justiça, proteção e garantia de direitos humanos a mulheres vítimas de violência doméstica e familiar. 

A medida cautelar contra Viveros é parte de processo judicial de 2024, instaurado depois que ele foi entrevistado para um documentário da produtora Brasil Paralelo. O conteúdo do vídeo desqualificava a memória de Maria da Penha, como símbolo da violência praticada contra mulheres e oferecia como revisão histórica, a versão do agressor, condenada em julgamento. A partir da divulgação, Maria da Penha se tornou vítima de ataques virtuais e ameaças. A Justiça determinou não só a retirada do vídeo da plataforma como estabeleceu as medidas cautelares que proibem Antonio Viveros de divulgar informações sobre o processo e de propagar o nome ou a imagem de Maria da Penha Fernandes e das duas filhas em mídias sociais, aplicativos ou outro ambiente virtual. 

Ocorre que, a propósito dos 20 anos da Lei Maria da Penha, neste 2026, a Rede Record decidiu entrevistar Viveros para que propagasse a sua versão do caso. Versão essa, com ampla circulação em ambientes religiosos, principalmente por meio de material falso e desinformativo produzido pela produtora Brasil Paralelo, que já foi retirado do ar pela Justiça brasileira.  

Antônio Viveros concedeu a entrevista ao jornalista e apresentador do programa Domingo Espetacular, Roberto Cabrini, na qual exporia sua história sobre Maria da Penha. Chamadas da entrevista foram divulgadas nas redes digitais. O portal G1 Ceará apurou que o documento do Ministério Público do Ceará enviado à Justiça (que pedia a prisão de Viveros) contém uma notificação com o pedido de suspensão da veiculação da entrevista à TV Record pelo Instituto Maria da Penha, assim como prints de e-mail e WhatsApp enviados também pelo instituto para funcionários da emissora.  

Com a publicação de trechos da entrevista nas mídias digitais, como chamada para o programa, o MP-CE fez o pedido da prisão de Viveros, por entender que as publicações violavam a medida cautelar judicial.  Além disso, a Justiça determinou a retirada imediata do ar de conteúdos relacionados à entrevista e proibiu a veiculação da reportagem por ferir decisões judiciais sobre o caso. A prisão de Antônio Heredias Viveros ocorreu dois dias após a Lei Maria da Penha completar 20 anos. 

Milícias digitais entram em ação

Com a notícia da prisão e da suspensão da entrevista, políticos e apoiadores da direita extremista vieram a público para contestar a Justiça. Várias publicações nas redes alegaram censura à Rede Record e impedimento da liberdade de expressão do homem condenado por tentativa de assassinato da esposa, que a deixou paraplégica. 

Imagem: reprodução YouTube, canal do jornalista foragido Allan dos Santos

Imagem: reprodução/Alexandre Paiva/Instagram

Imagem: reprodução/Flávio Bolsonaro/Instagram

A deputada federal católica Júlia Zanatta (PL-SC) também publicou, em 11 de agosto, uma sequência de stories em seu perfil no Instagram para comentar o tratamento judicial dado a Viveros e insinuar que ele sofre censura.  A parlamentar chegou a fazer comparações com casos criminais midiáticos e produções audiovisuais do gênero true crime para alegar que o agressor de Maria da Penha teria direito à liberdade de expressão.

Imagem: reprodução/Julia Zanatta/Instagram

A defesa do agressor condenado e da emissora de TV aberta que daria voz a ele, são um reforço recorrente ao questionamento da existência da  Lei, que representa um histórico enfrentamento à violência doméstica e familiar contra  mulheres, que recebeu o nome de Maria da Penha. O nome foi dado por conta da brutalidade do caso e do processo de injustiça que quase resultou na não punição do agressor, como já ocorreu, no passado, com muitas tantas situações.

A  Lei Maria da Penha é reconhecida internacionalmente como uma referência de legislação de gênero, foi promulgada em 7 de agosto de 2006, tendo seus 20 anos celebrados em vários eventos, dois dias antes da prisão de Viveros.

Associação de jornalistas repudia a Rede Record

Em nota pública, a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) descarta a ideia de censura e repudia a iniciativa da Rede Record de entrevistar um agressor de mulher e homicida, para oferecer sua versão dos fatos, já condenada pela Justiça.

Imagem: Federação Nacional dos Jornalistas

Para a FENAJ, a emissora presta um desserviço que é motivo de repúdio por decidir abrir espaço para um homem que foi condenado pela violência que transformou Maria da Penha em símbolo mundialmente conhecido da luta contra a violência doméstica, justamente no marco dos 20 anos da lei que leva o nome da sobrevivente.

“Há uma diferença fundamental entre ouvir alguém em nome do contraditório e dar protagonismo a um agressor condenado, cuja própria conduta, ao conceder a entrevista, resultou no descumprimento de uma medida protetiva e em sua prisão.”, diz um trecho da nota que pode ser lida na íntegra aqui.

Discurso que descredibiliza o enfrentamento da violência contra mulher 

Enquanto todas as grandes mídias de notícias credenciadas no Brasil oferecem informação responsável sobre a suspensão da entrevista e a prisão de Viveros, e a FENAJ repudia a iniciativa da Rede Record, veículos alinhados à direita extremista repercutiram o questionamento à Justiça.  

Nos espaços religiosos, a matéria do Pleno News, checada pelo Bereia, oferece consonância com o discurso de seguidores da ultradireita e de influenciadores misóginos. Já o jornal Gazeta do Povo também noticiou a prisão, indicando censura.

Imagem: reprodução de matéria da Gazeta do Povo, publicada em 10 ago 2026

Em uma outra publicação, o jornal Gazeta do Povo destaca participações de Antonio Heredia Viveros em outras entrevistas, abre espaço para a propagação da versão do condenado já recusada pela Justiça em julgamento em 1996.

Imagem: matéria da Gazeta do Povo, publicada em 10 ago 2026

Ao acusar de censura o ocorrido com a entrevista da Rede Record, a Gazeta do Povo relaciona o caso à proibição judicial da exibição do documentário desinformativo produzido pela Brasil Paralelo “Investigação Paralela: o Caso de Maria da Penha, ocorrida em 2025”, já citada nesta matéria.

Em março de 2025, a Advocacia-Geral da União (AGU) moveu uma Ação Civil Pública contra a empresa Brasil Paralelo por disseminar conteúdo desinformativo a respeito do emblemático caso de Maria da Penha, usando a versão do ex-marido homicida como referência. A ação exige uma indenização de R$ 500 mil por danos morais coletivos e determina a veiculação de material informativo correto sobre o caso.

Em reportagem, Bereia  aponta que a produção audiovisual, criada e distribuída pela empresa de comunicação alinhada à ultradireita, apresenta uma versão distorcida dos fatos para privilegiar argumentos do agressor. O material disseminado pela Brasil Paralelo não menciona que essas alegações já haviam sido rejeitadas pela Justiça no julgamento que condenou Viveros. 

O conteúdo da produtora sugeria, naquele momento, que o processo judicial não considerou devidamente a versão do acusado. Em resposta, a AGU afirmou que o tipo de abordagem usado pela produtora mina a credibilidade não apenas da decisão judicial, mas também da Lei Maria da Penha e das políticas públicas de proteção às mulheres.

Em agosto do mesmo ano, MP-CE determinou a suspensão de todos os episódios da produtora Brasil Paralelo que tratam do caso Maria da Penha. Bereia apurou o conteúdo falso que circulou nas redes. Nele a Brasil Paralelo usava a falácia de censura como reação à decisão do MP-CE. O parecer é de que se tratava de “uma campanha de ódio promovida nas redes sociais contra a farmacêutica!”.

A decisão da Justiça diz respeito à terceira temporada do projeto Investigação Paralela, publicado pela produtora, em 10 de julho de 2023,  com o episódio nomeado O Caso Maria da Penha. A sinopse afirma: “o documentário vai te surpreender com uma das possíveis maiores reviravoltas do país”. 

Conforme divulgado por Bereia, um processo judicial decorrente da veiculação deste documentário foi julgado em 2024 e  determinou  o cumprimento de mandados e ações para aprofundar a investigação de crimes cibernéticos e perseguição virtual praticados nas redes digitais contra Maria da Penha Fernandes, por conta do documentário da Brasil Paralelo. As medidas cautelares contra Antonio Viveros são parte das decisões judiciais.

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Bereia avalia como falsas as alegações de censura à Rede Record e à liberdade de expressão de Marcos Antonio Heredia Viveros, condenado por tentativa de homicídio de Maria da Penha Fernandes. A prisão preventiva e as medidas de proibição de divulgação de conteúdos foram solicitadas pelo Ministério Público do Ceará (MPCE) com base em decisão da Justiça, em 2024, que não permite publicações de pronunciamentos do agressor homicida. Estas decisões são de amplo conhecimento de Viveros e do seu advogado, porém o ex-marido de Maria da Penha Fernandes optou por descumprí-las. A ênfase dada a versões de agressores de mulheres é uma tática recorrente de sustentação da violência de gênero para descredibilizar a reputação da vítima. 

Bereia alerta ainda para a existência de um discurso articulado contra a legitimação do enfrentamento das instituições brasileiras à violência contra a mulher, quando considerada a relevância da legislação. O caso tem uma dimensão simbólica e histórica, ao reforçar a autoridade das instituições jurídicas do país, especialmente em uma data em que a Lei completa 20 anos em vigor.

Veículos, influenciadores digitais e políticos de identidade religiosa, alinhados à ultradireita, têm endossado o discurso conservador, isto é, que visa conservar a estrutura de violência doméstica, ao atacarem a própria Justiça, no cumprimento de leis que garantem direitos. Repercutem ainda conteúdos que atacam movimentos em busca de justiça para mulheres vítimas de violência, usando como pretexto a  defesa de pautas de costumes religiosos e a preservação de papéis tradicionais de gênero que representam a subjugação das mulheres e a sujeição delas a múltiplas violências dentro de fora de casa.  

Referências:

Senado Notícias

https://www12.senado.leg.br/noticias/videos/2026/08/lei-maria-da-penha-completa-20-anos-em-constante-aperfeicoamento Acesso em: 11 AGO 2026

https://www12.senado.leg.br/noticias/infomaterias/2026/07/a-historia-por-tras-dos-20-anos-da-lei-maria-da-penha Acesso em: 13 AGO 2026

https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/08/06/debate-aponta-avancos-e-desafios-nos-20-anos-da-lei-maria-da-penha Acesso em: 13 AGO 2026

G1

https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2026/08/09/por-que-justica-voltou-a-prender-o-ex-marido-de-maria-da-penha-mulher-que-inspirou-lei-contra-violencia-domestica.ghtml Acesso em: 11 AGO 2026

https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2026/08/10/quem-e-e-por-que-estava-solto-o-ex-marido-de-maria-da-penha.ghtml Acesso em: 12 AGO 2026

Carta Capital

https://www.cartacapital.com.br/justica/ex-marido-de-maria-da-penha-e-preso-apos-entrevista-a-record-sobre-tentativa-de-feminicidio/ Acesso em: 11 AGO 2026

CNN

https://www.cnnbrasil.com.br/politica/governo-processa-brasil-paralelo-por-conteudo-sobre-caso-maria-da-penha/ Acesso em: 11 AGO 2026

Agência Pública

https://apublica.org/2025/07/brasil-paralelo-usou-laudo-falso-para-atacar-maria-da-penha/ Acesso em: 11 AGO 2026

Coletivo Bereia

https://coletivobereia.com.br/brasil-paralelo-usa-falacia-de-censura-para-reagir-a-suspensao-video-negacionista-sobre-caso-maria-da-penha/ Acesso em: 12 AGO 2026

https://coletivobereia.com.br/agu-entra-com-acao-contra-brasil-paralelo-por-desinformacao-sobre-caso-maria-da-penha/ Acesso em: 12 AGO 2026

Advocacia-Geral da União

https://www.gov.br/agu/acl_users/credentials_cookie_auth/require_login?came_from=https%3A//www.gov.br/agu/pt-br/comunicacao/noticias/agu-processa-portal-por-desinformacao-sobre-caso-maria-da-penha Acesso em: 12 AGO 2026

Federação Nacional dos Jornalistas

https://fenaj.org.br/rede-record-presta-desservico-ao-entrevistar-agressor-de-maria-da-penha/ Acesso em: 12 AGO 2026

X

https://x.com/JFreiress_/status/2087377287561785722 Acesso em: 12 AGO 2026

Artigo: Violência contra a mulher: representações do discurso midiático

https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/8997999.pdf  Acesso em: 12 AGO 2026

Brasil Paralelo usa falácia de censura para reagir à suspensão vídeo negacionista sobre caso Maria da Penha

Passou a circular nas redes neste agosto de 2025, notícia de que o Ministério Público do Estado do Ceará (MP-CE)  anunciou, em 15 de julho, a determinação da suspensão de todos os episódios da produtora Brasil Paralelo (BP) que tratam do caso Maria da Penha. O parecer é que são “uma campanha de ódio promovida nas redes sociais contra a farmacêutica!”.

A decisão da Justiça diz respeito à terceira temporada do projeto “Investigação Paralela”, publicado pela BP em 10 de julho de 2023,  com o episódio nomeado “O Caso Maria da Penha”; A sinopse afirma:”o documentário vai te surpreender com uma das possíveis maiores reviravoltas do país”´. 

“Investigação Paralela” é uma série do BP que tem como objetivo produzir documentários sobre casos populares e expor, o que a produtora anuncia ser, a veracidade dos fatos. No entanto, no episódio lançado em 10 de julho há uma série de inconsistências. Bereia checou o caso, uma vez que as produções da BP circulam amplamente em ambientes digitais religiosos.

O caso Maria da Penha

Maria da Penha Maia Fernandes foi vítima, em 1983, de dupla tentativa de feminicídio por parte do então marido Marco Antonio Heredia Viveiros. Primeiro, ele deu um tiro nas costas da mulher enquanto ela dormia. Como resultado dessa agressão, Maria da Penha, hoje com 80 anos, farmacêutica bioquímica de Fortaleza (CE)  ficou paraplégica, além de outras complicações físicas e traumas psicológicos.

Após meses de tratamento e diversas cirurgias, Maria da Penha voltou para casa, onde foi posta em cativeiro pelo marido. Viveiros declarou à polícia que tudo não havia passado de uma tentativa de assalto, versão que foi posteriormente desmentida pela perícia. Passados 15 dias, o homem fez nova tentativa de assassinato ao tentar eletrocutá-la durante o banho. Receosa de sair de casa e perder a guarda das filhas pela possível alegação de abandono de lar, Maria da Penha ingressou na Justiça para se afastar legalmente de casa e garantir seus direitos, sendo amparada pela família e por amigos.

Concluídas as investigações, constatou-se que os atentados à vida de Maria da Penha haviam sido planejados e executados por Marco Antônio Viveiros. No entanto, o primeiro julgamento só aconteceu em 1991, oito anos depois dos crimes. Ele foi condenado a 15 anos de prisão, mas pôde recorrer em liberdade. Após muitos recursos, somente em 1996 aconteceu um novo julgamento, que resultou na redução da pena do ex-marido de Maria da Penha, a dez anos e seis meses de reclusão. Porém, por meio de alegações de irregularidades, a defesa conseguiu a anulação do julgamento.

Na busca incessante por reparação, o Centro para a Justiça e o Direito Internacional (CEJIL) e o Comitê Latino-americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher (CLADEM) denunciaram, em 1998, o caso de Maria da Penha para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (CIDH/OEA).

Mesmo diante de um litígio internacional, o qual trazia uma questão grave de violação de direitos humanos e deveres protegidos por documentos que o próprio Estado assinou, as instituições brasileiras permaneciam omissas e não se pronunciaram em nenhum momento durante o processo. Em 2001, após receber quatro ofícios da CIDH/OEA (1998 a 2001) − silenciado diante das denúncias −, o Estado foi responsabilizado por negligência, omissão e tolerância em relação à violência doméstica praticada contra as mulheres brasileiras. 

A Lei Maria da Penha foi resultado da ação de um Consórcio de ONGs Feministas, em 2002, motivado pelo que Maria da Penha passou, diante da falta de medidas legais e ações efetivas, como acesso à justiça, proteção e garantia de direitos humanos a mulheres vítimas de violência doméstica e familiar. em 2002. O consórcio atuou pela elaboração de uma lei, o que, após muitos debates com o Legislativo, o Executivo e a sociedade, resultou em Projetos de Lei na Câmara e no Senado Federal e foi aprovado por unanimidade em ambas as Casas.

Uma das recomendações da CIDH foi reparar Maria da Penha tanto material quanto simbolicamente. O Estado do Ceará pagou a ela uma indenização e o governo federal, por meio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nomeou Lei 11.340/2006 com o nome Lei Maria da Penha, como reconhecimento da luta contra as violações dos direitos humanos das mulheres. 

Maria da Penha no episódio da Brasil Paralelo

O episódio da Brasil Paralelo, publicado em 2023, oferece roteiro de desqualificação da memória de Maria da Penha e da relevância dela nas políticas de enfrentamento da violência contra mulheres. O conteúdo é baseado na tese de defesa do ex-marido e agressor condenado Marco Antonio Heredias Viveiros e dá voz a ele. 

O documentário de 84 minutos recupera um documento que foi usado pela defesa de Viveiros no processo de 25 anos atrás. Foi alegado, à época,  que houve uma troca de laudos periciais durante o processo para que o agressor fosse condenado. Na produção em vídeo é apresentado um suposto laudo de   posse do ex-marido de Maria da Penha, que, sem motivo determinado, não  foi anexado ao processo judicial. 

Na investigação decorrente de denúncia contra a veiculação do documentário, o MP-CE afirma que o referido laudo é resultante de um crime de falsificação de documento público, com irregularidades claras, como baixa qualidade na imagem, diferenças nas assinaturas e até mesmo erros de datilografia. 

Comparação do laudo verdadeiro com o laudo apresentado por Marco Antonio.

Na operação do último 15 de agosto, o MP-CE cumpriu um mandado de busca e apreensão na cidade de Natal, no Rio Grande do Norte, contra um dos suspeitos do envolvimento nas campanhas de ódio promovida nas redes sociais contra a farmacêutica Maria da Penha. Além disso, a 9ª Vara Criminal de Fortaleza determinou a suspensão de todos os episódios do documentário por 90 dias.

Na ação foram apreendidos aparelhos eletrônicos e documentos que seguirão para análise no MP do Ceará. Segundo o órgão, a medida visa aprofundar a investigação de crimes cibernéticos e perseguição virtual praticados nas redes sociais contra Maria da Penha desde o início da investigação, no primeiro semestre de 2024.

Reação da produtora

Em nota à imprensa, a liderança da  Brasil Paralelo alega ser alvo de censura pelo MP-CE, “Trata-se de um ato grave, que fere frontalmente a liberdade de imprensa e o direito constitucional à livre expressão do pensamento. Estamos diante da censura prévia de um conteúdo jornalístico, algo inaceitável em qualquer democracia séria”. 

Como veículo é vinculado e serve a pautas da direita extremista, a reação da Brasil Paralelo tem ampla repercussão nas redes deste grupo político e de apoiadores.

Captura feita do X do perfil “Chequei Ancap”, projeto autodeclarado como contra a censura.

O episódio não foi a última vez que a BP direcionou ataques à integridade de Maria da Penha. Em agosto de 2023, a produtora publicou um artigo com a divulgação de conteúdo que contesta a memória do caso e dá crédito à versão oposta do ex-marido agressor. 

Título do artigo  produzido pela redação da Brasil Paralelo em 2023

É importante mencionar a participação do diretor-presidente do Instituto de Defesa do Direito do Homem (IDDH) Alexandre Paiva no documentário suspenso pelo MP-CE. Paiva cumpre uma medida protetiva, requerida há quase seis anos, por meio da Lei Maria da Penha, pela ex-esposa, que inclui as duas filhas do ex-casal. Desde então, o diretor do IDDH faz uso de seus perfis em redes sociais para propagar discursos contra a principal lei antifeminicídio do país.

Em sua biografia em perfil de mídia social, Paiva afirma estar “alertando sobre o mal uso da Lei Maria da Penha”.

Reprodução do perfil de Alexandre Paiva no Instagram

Alexandre Paiva é um dos principais personagens do documentário produzido pelo Brasil Paralelo, tendo a primeira aparição nos primeiros minutos, com fala em defesa de Viveiros.  

Sobre a Brasil Paralelo

A Brasil Paralelo é uma empresa brasileira, fundada em 2016, que produz conteúdo audiovisual sobre política, história, filosofia e outras áreas do conhecimento afins, sob um viés conservador e alinhado às pautas da extrema direita politica que se intensificou no período.

Na pesquisa de Mestrado em História, pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná,  Mayara Aparecida Machado expõe o objetivo do conteúdo publicado pela Brasil Paralelo. o estudo mostra que a produtora busca apresentar versões paralelas e negacionistas de questões sociais importantes historicamente desenvolvidas entre pesquisadores e jornalistas brasileiros, os quais a organização acusa de serem “esquerdistas”. Além disso, a BP defende explicitamente valores políticos da direita, do ultraconservadorismo moral e do Cristianismo fundamentalista. 

Mayara Machado mostra que o escritor e ativista da direita Olavo de Carvalho é a principal referência da BP, que é 8articulada por pessoas e entidades representativas desse grupo político, como o Instituto Millenium, o Instituto de Estudos Empresariais, o Fórum da Liberdade, o Instituto Liberal, o Instituto Borborema e o Instituto Von Mises Brasil. Os materiais da BP, de acordo com a pesquisa de Machado, são voltados à produção e à disseminação de conteúdos sobre o que seus articuladores consideram ser a “verdadeira” história do país. 

Entre os vários processos judiciais na qual a BP é citada, a produtora foi denunciada na Comissão Parlamentar Mista de  Inquérito sobre a Covid-19 (2021) por conta de conteúdo falso disseminado sobre o tema. Seus articuladores apresentaram queixa ao Supremo Tribunal Federal o que levou à suspensão das investigações naquele momento.

Referências:

https://unrollnow.com/status/1959340207612072118  Acesso em 28 ago 2025

https://apublica.org/2025/07/brasil-paralelo-usou-laudo-falso-para-atacar-maria-da-penha/ Acesso em 28 ago 2025

https://www.gov.br/agu/pt-br/comunicacao/noticias/agu-processa-portal-por-desinformacao-sobre-caso-maria-da-penha/copy_of_ACPmariadapenha.pdf Acesso em 28 ago 2025

https://www.institutomariadapenha.org.br/quem-e-maria-da-penha.html Acesso em 28 ago 2025

https://www.tjdft.jus.br/informacoes/cidadania/nucleo-judiciario-da-mulher/o-nucleo-judiciario-da-mulher/quem-e-maria-da-penha Acesso em 28 ago 2025
https://www.nexojornal.com.br/brasil-paralelo-extrema-direita-ascensao-pesquisa Acesso em 29 ago 2025

Foto de capa: José Cruz/Agência Brasil

AGU entra com ação contra Brasil Paralelo por desinformação sobre caso Maria da Penha

A Advocacia-Geral da União (AGU) moveu uma Ação Civil Pública contra a empresa Brasil Paralelo por disseminar conteúdo desinformativo a respeito do emblemático caso Maria da Penha, que deu origem à principal lei de combate à violência doméstica no país. A ação, protocolada em 28 de março passado, exige uma indenização de R$ 500 mil por danos morais coletivos e determina a veiculação de material informativo correto sobre o caso.

O vídeo em questão, produzido e distribuído pela empresa de comunicação alinhada à extrema direita, apresenta uma versão distorcida dos fatos para privilegiar argumentos do agressor e ex-marido de Maria da Penha, Marco Antonio Heredia Viveros. O material disseminado pela Brasil Paralelo não menciona que essas alegações já haviam sido rejeitadas pela Justiça. 

O conteúdo da produtora sugere que o processo judicial não considerou devidamente a versão do acusado. Segundo a AGU, este tipo de abordagem mina a credibilidade não apenas da decisão judicial, mas também da Lei Maria da Penha e das políticas públicas de proteção às mulheres.

A publicação do vídeo desencadeou uma onda de ataques misóginos nas redes sociais, além de impulsionar buscas por frases como “Maria da Penha mentiu”. A AGU alerta que esse tipo de narrativa estimula a violência de gênero e desencoraja vítimas a buscarem ajuda.

Em nota oficial, o Ministério das Mulheres reforça que a Justiça brasileira condenou Marco Viveros por tentativa de feminicídio e que o Brasil foi responsabilizado internacionalmente pela demora na decisão sobre o caso pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH/OEA). A AGU exige que a Brasil Paralelo publique uma retificação, destacando esses fatos em todas as plataformas onde o vídeo foi veiculado.

O caso de Maria da Penha mudou a legislação brasileira. Em 1983, ela sofreu uma tentativa de feminicídio quando seu então marido atirou nela, deixando-a paraplégica. O agressor alegou que o crime foi resultado de um “assalto”, mas a Justiça rejeitou a versão e o condenou. A lentidão do processo, no entanto, fez com que o caso fosse denunciado à CIDH, que em 2001 responsabilizou o Estado brasileiro por negligência. 

As recomendações da CIDH levaram à instituição da Lei Maria da Penha (2006), marco no combate à violência doméstica. A ação da AGU reforça que desinformação sobre o caso ameaça direitos conquistados e que o Estado tem o dever de garantir a integridade das políticas públicas voltadas às mulheres.

O Brasil Paralelo acumula diversos problemas na Justiça relacionados à disseminação de desinformação. Durante a pandemia de covid-19, a produtora foi investigada pela CPI da Covid no Senado Federal, embora tenha sido poupada no relatório final. Houve ação judicial da empresa com decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, que limitou o acesso e posteriormente ordenou a destruição dos documentos obtidos por meio da quebra dos sigilos da empresa.

No contexto eleitoral de 2022, várias publicações da Brasil Paralelo contendo informações falsas ou distorcidas foram removidas ou desmonetizadas por determinação do Tribunal Superior Eleitoral. Em 2023, o ministro do órgão Alexandre de Moraes chegou a intimar os donos da produtora para depor à Polícia Federal a fim de esclarecer o impulsionamento de conteúdo contra o Projeto de Lei 2630/2020, que propõe regulamentar a operação das plataformas de mídias no país.

Referências:

AGU

https://www.gov.br/agu/pt-br/comunicacao/noticias/agu-processa-portal-por-desinformacao-sobre-caso-maria-da-penha Acesso 31 mar 25

Carta Capital

https://www.cartacapital.com.br/politica/antidoto-contra-a-desinformacao/ Acesso 31 mar 25

Poder 360

https://www.poder360.com.br/congresso/cpi-da-covid-pede-quebra-de-sigilo-da-jovem-pan-e-de-sites-bolsonaristas/ Acesso 31 mar 25

Foto de capa: divulgação