Do altar às urnas: como lideranças religiosas e políticos ocupam os mesmos palcos em períodos eleitorais

A presença de políticos em cultos religiosos, seja em momentos de oração, bênção ou reconhecimento público, tem se tornado cada vez mais frequente no ambiente evangélico brasileiro. Em diferentes denominações e regiões do país, líderes políticos são recebidos em púlpitos, apresentados às congregações e, em alguns casos, associados simbolicamente à autoridade espiritual das lideranças religiosas.

Esse fenômeno, que se intensifica em períodos eleitorais, levanta questionamentos sobre os limites entre liberdade religiosa e uso de espaços de culto como plataforma de projeção política, tema que já foi analisado pela Justiça Eleitoral e por quem pesquisa religião e política.

O que diz a Justiça Eleitoral sobre cultos e campanha

A discussão ganhou novo fôlego a partir de decisões recentes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que têm reafirmado o entendimento de que a instrumentalização de templos para promoção eleitoral pode configurar abuso de poder político e econômico.

Como já apontou o próprio órgão em julgamento recente, ao negar recurso de candidatos do município paulista de Votorantim nas eleições de 2024. A Corte reforçou que a utilização de igrejas como ambiente de campanha fere a isonomia eleitoral e compromete a integridade do processo democrático, o que foi noticiado por Bereia em maio passado. 

Os políticos haviam utilizado a estrutura e o altar da Igreja do Evangelho Quadrangular local para pedir votos explicitamente durante um culto. Na ocasião, o pastor declarou que a instituição estava “fechada” com os candidatos e convocando os fiéis a trabalharem pela campanha.

No relatório do ministro Antônio Carlos Ferreira, o TSE reafirma que, embora o “abuso de poder religioso” não constitua uma figura jurídica autônoma na legislação, as condutas que instrumentalizam a fé e a estrutura dos templos configuram abuso de poder político e econômico. A decisão ressaltou que a liberdade religiosa não é absoluta e não pode ser invocada como um salvo-conduto para contornar as normas que garantem a igualdade de condições na disputa eleitoral.

Evangélicos reagem criticamente

Se por um lado as cúpulas partidárias e certas lideranças forçam a entrada da política nas igrejas, por outro, os bancos das congregações dão sinais claros de saturação. Ao contrário do que aponta o senso comum de que o voto religioso é de cabresto, a ampla maioria dos fiéis rejeita o avanço dos palanques sobre os altares. Uma pesquisa nacional realizada pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Representação e Legitimidade Democrática (INCT ReDem, da Universidade Federal do Paraná), realizada em 2025, revela que 75% dos evangélicos condenam a realização de campanhas eleitorais dentro dos templos.

O levantamento aponta ainda que a politização escancarada é exceção, não a regra no cotidiano das igrejas. Os dados indicam que 34,1% dos pastores entrevistados afirmaram que lideranças de sua igreja apoiaram algum candidato nas eleições municipais. Embora expressiva, essa proporção mostra que a maior parte do segmento busca preservar o ambiente de culto, mesmo que o índice de engajamento político dos líderes evangélicos seja cerca de duas vezes maior que o registrado entre os católicos (16,9%).

O lugar das Assembleias de Deus

Por ser a maior denominação evangélica do país, com cerca de 13 milhões de seguidores segundo o IBGE, as Assembleias de Deus concentram historicamente o maior assédio de políticos interessados em sua capilaridade. A trajetória do ex-deputado federal Eduardo Cunha (Republicanos-MG) ilustra de forma nítida essa dinâmica. Originalmente membro da igreja Sara Nossa Terra, que contava com pouco mais de 1 milhão de fiéis, Cunha migrou estrategicamente para as Assembleias de Deus para expandir suas bases no Rio de Janeiro. Em um dos episódios gravados na Catedral das Assembleias de Deus em Santa Cruz, o pastor local o apresentou formalmente como o “candidato oficial da nossa convenção”, o que o ajudou a se consagrar como o terceiro deputado mais votado do estado. Em 2024, ao participar do culto que marcou o centenário das igrejas Assembleias de Deus, no Rio de Janeiro, o deputado foi vaiado.

A tradição de abrir as portas para o poder político é personificada hoje pelo pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC). O trânsito de Malafaia entre diferentes forças políticas é antigo: em 2014, a inauguração da nova sede de sua igreja reuniu no mesmo altar nomes como Lindbergh Farias (PT), Eduardo Paes (PSD) e Luiz Fernando Pezão (PMDB). Na época, o respaldo litúrgico de Malafaia funcionou como um verdadeiro “escudo eleitoral” para Pezão concorrer no segundo turno para o governo do Estado do Rio contra Marcelo Crivella (Republicanos). Isto mostrou ao eleitorado tradicional que o candidato do PMDB não possuía hostilidade contra os evangélicos em geral, mas apenas contra a cúpula da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), da qual fazia parte seu concorrente direto.

Desde a campanha eleitoral de 2018, Silas Malafaia abandonou a diversidade e estreitou laços com a família Bolsonaro e partidos da extrema direita. Em maio deste ano, um culto que reuniu o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o ex-governador Cláudio Castro (PL-RJ) e os deputados Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) e Marcelo Crivella (Republicanos-RJ), Malafaia convocou os membros da igreja a estenderem as mãos em direção aos políticos. Proferindo uma oração que pedia “bênção e vitória” nas urnas, o pastor aproveitou o momento sagrado para tecer duras críticas ao governo federal e ao Poder Judiciário, atacando nominalmente o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

Imagem: Reprodução Instagram

O caso da Igreja Batista Atitude

Outro reduto político importante no Rio de Janeiro, neste caso com apoio voltado para a família Bolsonaro, é a Igreja Batista Atitude, liderada pelo pastor Josué Valandro Jr. A congregação, frequentada pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, costuma receber autoridades públicas para momentos de oração. Durante o período em que esteve na Presidência da República (2019-2022), o próprio Jair Bolsonaro participava, com frequência, dos cultos na sede da igreja no bairro da Barra da Tijuca, recebendo, no altar, orações públicas conduzidas pelo pastor.

A atuação de Valandro Jr., no entanto, ultrapassa as preces e assume contornos de blindagem política. O pastor saiu em defesa do pré-candidato à Presidência da República pelo PL Flávio Bolsonaro, após o vazamento de áudios que revelaram o envolvimento do senador com repasses de altos valores em dólares pelo empresário preso por corrupção Daniel Vorcaro. Em suas declarações para a comunidade, o líder religioso afirmou não ver indícios de crime no episódio, criticou o que chamou de distorções políticas da esquerda contra a direita e defendeu que os recursos tratados na conversa eram de natureza puramente privada, legitimando a conduta de Flávio Bolsonaro perante os fiéis.

Imagem: Reprodução do site da revista Comunhão

A postura da Igreja Mundial

Na disputa por espaço e influência com suas concorrentes, a Igreja Mundial do Poder de Deus, liderada pelo apóstolo Valdemiro Santiago, ex-bispo da IURD, também desenha suas alianças políticas. Se no passado a denominação deu sustentação à candidatura de Luiz Fernando Pezão para fazer contraponto à IURD, hoje, ela serve de abrigo para a ressurreição política de Eduardo Cunha, que historicamente mantém forte presença em ambientes evangélicos e articulação com diferentes lideranças religiosas. 

O ex-deputado e ex-presidente Câmara Federal esteve preso de outubro de 2016 até março de 2020, devido a escândalos de corrupção. Depois de obter o direito a prisão domiciliar, Cunha obteve decisões favoráveis no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná), em 2022, para a retirada de tornozeleira eletrônica e teve condenações anuladas pelo STF, além de conseguir a suspensão de sua inelegibilidade pelo TRF-1 (Brasília e mais 13 estados brasileiros: Acre, Amapá, Amazonas, Bahia, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Piauí, Rondônia, Roraima e Tocantins).

Cunha fixou residência em Belo Horizonte (MG),  com o objetivo de construir uma nova base eleitoral para as eleições de 2026, tendo se filiado ao Republicanos e passado a frequentar os cultos da Igreja Mundial como base. A filha, a deputada federal Daniela Cunha (PL-RJ), tem visitado as igrejas da denominação com certa frequência. 

Imagem:Reprodução/Instagram

Em abril de 2025, no culto realizado em Araxá (MG), Cunha sentou-se ao lado do apóstolo Valdemiro Santiago no palco principal. O líder tomou a palavra para elogiá-lo explicitamente, chamando-o de “eterno deputado” e afirmando que ele foi “um dos melhores que já viu”, justificando que as decisões tomadas por Cunha na presidência da Câmara foram fundamentais para a nação, apesar do sofrimento que lhe custaram. Pouco tempo depois, a cena de legitimação se repetiu na sede da igreja no Brás, em São Paulo, onde Cunha dividiu o altar com o apóstolo e com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), consolidando sua reinserção no meio evangélico.

Imagem: Reprodução site da Revista Liberta

A posição da Igreja Internacional da Graça de Deus

Não é apenas na igreja do apóstolo Valdemiro que Eduardo Cunha encontra abertura. Na Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD), liderada pelo missionário R. R. Soares, a fusão entre liderança eclesiástica e representação parlamentar ganha contornos de um modelo corporativo e familiar, servindo também de palco para consolidar suas alianças. 

O ex-deputado estendeu sua rede de influência a R.R. Soares por meio de um expressivo acordo comercial e de comunicação: Cunha cedeu horários em suas novas emissoras de rádio no interior de Minas Gerais para a transmissão da programação religiosa da denominação. O arranjo foi celebrado e declarado abertamente pelo próprio missionário durante um culto na sede de Belo Horizonte, chancelando a proximidade e o apoio mútuo entre a instituição e o político no estado. 

Imagem: Reprodução vídeo YouTube

A prática de aproximar a gestão pública dos interesses da igreja é rotina na IIGD, onde o R. R. R. Soares costuma apresentar políticos aliados diretamente no púlpito. Foi o que aconteceu na inauguração do grande templo de Sorocaba (SP), quando as lideranças pastorais chamaram à frente o prefeito Rodrigo Manga (Republicanos), referindo-se a ele como um “obreiro de Deus” que realizava um trabalho excelente na cidade. Manga, figura central no meio evangélico local, chegou a ser afastado do cargo pela Operação Cópia e Cola da Polícia Federal, por suspeitas de desvios na área da saúde. O prefeito de Sorocaba, porém, retornou ao posto graças a uma liminar impetrada no STF e concedida pelo ministro do STF Kassio Nunes Marques. 

Imagem: Reprodução YouTube

Para além do apoio a aliados externos como Cunha e Manga, R.R. Soares utiliza a estrutura e a capilaridade da denominação para promover a carreira de seus próprios filhos, transformando o rebanho em uma base eleitoral sólida e hereditária. Adotando o slogan “Mesmo sangue, mesma fé e mesmo amor”, o televangelista legitima religiosamente os mandatos de sua família. 

A estratégia tem garantido o sucesso nas urnas de David (Podemos-SP) e Marcos Soares (PSDB-SP) como deputados federais, além de Filipe e Daniel Soares como deputados estaduais no Rio de Janeiro (PSDB) e em São Paulo (União), respectivamente. O único filho fora do parlamento atualmente é André Soares (União), que não conseguiu se reeleger após cumprir três mandatos na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). 

Imagem: Reprodução do site Ongrace.com

O espaço da IURD

Com grande destaque no espaço público, Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) opera a política sob uma lógica de centralização institucional e rígida disciplina de voto. Fundada pelo bispo Edir Macedo, a denominação foi pioneira na criação de um projeto oficial de poder, ocupando um partido político, antes o Partido Republicano do Brasil (PRB), hoje Republicanos. A IURD elege bancadas expressivas na Câmara Federal ao utilizar a estrutura de seus templos, da Rede Record de TV e da Rede Aleluia de Rádio como catalisadores eleitorais.  

A expressão máxima desse projeto é o bispo licenciado e deputado federal Marcelo Crivella (Republicanos-RJ), ex-prefeito do Rio de Janeiro (2013-2016). Sua gestão na Prefeitura ficou marcada pelo tensionamento entre o dever público e os interesses da denominação, cujo ápice foi o escândalo em torno de uma reunião secreta no Palácio da Cidade. Na ocasião, em áudio vazado, Crivella ofereceu a pastores facilidades em cirurgias de catarata e no IPTU de templos, cunhando o famoso jargão: “É só falar com a Márcia”.  

Políticos em contraponto

Em contraposição à exposição frequente dos candidatos nos altares, o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva tem adotado uma postura de maior distanciamento de palanques religiosos durante períodos de campanha eleitoral. Embora tenha frequentado templos ao longo de seus mais de 50 anos de vida pública, o católico Lula hoje defende enfaticamente a separação entre Igreja e Estado. O presidente tem reiterado em seus discursos que a fé constitui um momento de conexão sagrada e intimidade do cidadão, e que não deve ser explorada politicamente para a obtenção de votos. 

Como reflexo prático desse posicionamento, Lula ausentou-se do evento evangélico conduzido pela Igreja Renascer em Cristo Marcha para Jesus, em São Paulo. Ele justificou  que preferia não transformar um encontro de natureza estritamente espiritual em palco para disputas partidárias, buscando preservar o respeito à fé dos fiéis.

Imagem: reprodução/Itatiaia

Esse posicionamento encontra eco direto na atuação do deputado federal Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ). O líder religioso e parlamentar de esquerda manifesta, reiteradamente, em publicações em suas contas nas redes digitais, e em entrevistas que concede à imprensa, um cansaço compartilhado por muitos fiéis que não aceitam ver a mensagem bíblica ser instrumentalizada por projetos personalistas de poder. Vieira enfatiza que o debate público faz parte da caminhada cristã, mas repudia veementemente o controle do voto por meio do constrangimento espiritual.

“Não é sobre tirar o debate público da fé, é sobre impedir que a autoridade espiritual seja usada para controlar voto, punir divergência e transformar culto em comitê”, defende o deputado. Para ele, o papel da igreja deve ser o de zelar pela consciência crítica e pela democracia, mantendo uma distância saudável da idolatria partidária. “A Igreja não é espaço de manipulação. A fé precisa ser espaço de consciência, liberdade, justiça e bem comum, não de idolatria ao poder”.

Somando-se a essa convergência, está a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ), parlamentar histórica com trajetória consolidada na defesa dos direitos sociais e evangélica presbiteriana. Ela tem atuado como um elo central na denúncia contra o pragmatismo eleitoral baseado na fé. 

Benedita da Silva, que vivencia o ambiente religioso muito antes da atual onda de polarização política, desde que foi membro das Assembleias de Deus, argumenta que o papel do cristianismo nos espaços institucionais deve se pautar na promoção da dignidade humana e da justiça, e nunca no sequestro da consciência dos fiéis para benefícios individuais de poder. 

Ao abordar o tema em pronunciamento em fevereiro deste 2026, em sua conta oficial no Instagram, a deputada pontuou de forma contundente. “A fé que eu aprendi no evangelho não anda de mãos dadas com a mentira, porque a mentira aprisiona. Como irmã, eu te peço: não entregue sua fé a quem quer usar o nome de Deus por interesses políticos e eleitorais. Olhe para os frutos. Fé de verdade não se usa, fé de verdade se vive.” A parlamentar reforça que a manipulação do sentimento religioso desidrata o debate democrático e degrada a própria espiritualidade, devendo os fiéis rejeitar candidatos que reduzem a sacralidade do altar a um balcão de negócios por votos. 

Essa postura de preservação do espaço sagrado também ganha contornos dentro do próprio campo da direita conservadora, evidenciando que o desgaste com a partidarização da fé ultrapassa fronteiras ideológicas. Exemplo disso é o posicionamento do deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ). Pastor evangélico e declaradamente de direita, o parlamentar rompeu com o discurso radical ao contestar publicamente a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que afirmou em um culto sofrer perseguição religiosa e ter seu “culto doméstico cerceado”. Ao rebater a narrativa de Michelle Bolsonaro, o deputado classificou a tese de “guerra espiritual” como puro oportunismo político. “É uma narrativa falaciosa, mentirosa, oportunista e para autoproteção essa de que nós estamos diante de uma guerra religiosa. Eu sou a única voz a estar nesse contraponto com eles, única voz dissonante. Porque não quero que levem a igreja para essa vala comum”, declarou.

Para ele, o uso de discursos vitimistas nos altares serve apenas como blindagem para lideranças políticas, rebaixando a fé dos fiéis e a instituição religiosa ao papel de escudo partidário.

O impacto simbólico dos púlpitos e a resistência nas igrejas

A presença de candidatos e lideranças políticas nos púlpitos não produz apenas efeitos eleitorais. Para especialistas que estudam as relações entre religião e política, a prática mobiliza símbolos centrais da experiência religiosa e pode gerar tensões dentro das próprias comunidades de fé.

A pesquisadora em Comunicação, Política e Religiões e editora-geral do Coletivo Bereia Magali Cunha destaca que o altar ocupa um lugar de forte significado para quem participa de uma celebração religiosa. Segundo ela, quando um político é apresentado, homenageado ou abençoado nesse espaço, a mensagem transmitida ultrapassa o gesto protocolar. “Os púlpitos estão em altares, e o altar é uma simbologia muito forte. É o lugar onde se professam os sacramentos, a pregação, as orações de onde parte a ação de culto, a ação celebrativa que envolve a fé coletiva daquelas pessoas”, explica.

Para a pesquisadora, a autoridade simbólica das lideranças religiosas confere peso adicional a esse tipo de exposição pública. Pastores, padres e demais líderes costumam ser reconhecidos por suas comunidades como referências espirituais e morais, o que faz com que manifestações de apoio político produzam impactos que vão além do campo partidário.

Ao mesmo tempo, a pesquisadora ressalta que os frequentadores das igrejas não recebem essas mensagens de forma passiva. Segundo ela, o que foi confirmado na pesquisa da Universidade Federal do Paraná, cresce entre evangélicos a resistência ao uso dos espaços de culto para promoção de projetos políticos específicos. “As pessoas estão cada vez mais críticas nas igrejas a esse abuso religioso de forçar uma relação da fé com personagens específicos. Fere uma ética comunitária, porque não diz respeito a um pastor ou pastora na condução de uma comunidade definir voto de ninguém”, aponta.

Os limites legais e o entendimento da Justiça Eleitoral

Enquanto o debate ético avança dentro das próprias comunidades de fé, a Justiça Eleitoral vem consolidando parâmetros cada vez mais rígidos sobre a participação de candidatos em templos durante períodos eleitorais.

Como mostrou reportagem publicada pelo Bereia, o TSE reafirmou, em maio de 2026, o entendimento de que a utilização de igrejas para promoção eleitoral configura abuso de poder e pode resultar em cassação de mandatos e inelegibilidade. A matéria do Bereia Explica sobre abuso de poder religioso também traz informações sobre a posição da Corte.

Bereia ouviu o professor de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais Alexandre Bahia sobre os casos. Ele explica que a legislação proíbe tanto a propaganda eleitoral quanto a propaganda antecipada em templos religiosos, classificados pela Lei das Eleições como bens de uso comum.

Segundo o jurista, a simples presença de políticos em celebrações religiosas não constitui irregularidade. O problema surge quando o culto é transformado em espaço de promoção eleitoral. “A justiça eleitoral tem certamente uma dificuldade para localizar, em alguns casos, porque não é proibido para pessoas que estão na política frequentar cultos. Mas o que não pode acontecer é a transformação do culto em um palanque, em que seja dada palavra ao líder político ou ao candidato para falar sobre propostas, ou que o líder religioso aponte aquela pessoa como sendo alguém em quem os fiéis devem votar”, explica.

De acordo com Bahia, a irregularidade não se limita ao pedido explícito de votos. A Justiça Eleitoral também pode considerar abusivas situações em que o ambiente de culto é utilizado para promover uma candidatura ou associar determinado político à autoridade religiosa da liderança que conduz a celebração. “Discursos políticos durante a realização da reunião religiosa, qualquer associação de um candidato com a vontade de Deus, ou algo assim, pode inclusive configurar abuso de autoridade por parte do líder religioso”, garante o professor.

O jurista ressalta ainda que as consequências podem ser severas. “As propagandas irregulares têm possibilidade de multa por parte da Justiça Eleitoral e, se configurar abuso de poder político ou abuso de poder econômico, isso pode levar à cassação do registro da candidatura. Se ele já tiver sido eleito, esses fatos podem configurar causa de perda do mandato e inclusive inelegibilidade por oito anos”, completa.

**************************************************************************

A linha que separa o exercício legítimo da cidadania e da fé da instrumentalização política dos altares tornou-se um dos terrenos mais vigiados da democracia brasileira. Os dados sociológicos e as manifestações de resistência interna revelam que a grande maioria dos fiéis repudia a transformação dos cultos em comitês eleitorais, exigindo que o espaço sagrado permaneça ético e focado em sua missão espiritual.

Ao mesmo tempo, as decisões recentes e unânimes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mandam um recado claro a candidatos e lideranças eclesiásticas: a liberdade religiosa não é um salvo-conduto para burlar a legislação. A integridade do voto e a igualdade entre os concorrentes continuam sendo os pilares soberanos do processo eleitoral, e o uso abusivo do púlpito como palanque será punido com o rigor da cassação e da inelegibilidade.

Referências

Consultor Jurídico

https://www.conjur.com.br/2026-mai-20/uso-de-igreja-para-promover-candidatos-e-abuso-de-poder-diz-tse/ – Acesso em 22 jun. 2026

Coletivo Bereia https://coletivobereia.com.br/justica-eleitoral-decide-campanha-por-votos-em-templos-religiosos-e-abuso-de-poder-e-e-crime-eleitoral/ – Acesso em 22 jun. 2026

Folha de S.Paulo 

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/03/cada-vez-mais-disputados-evangelicos-rejeitam-campanha-nos-pulpitos.shtml – Acesso em 22 jun. 2026

Instagram – Pastor Henrique Vieira

https://www.instagram.com/reel/DX61-dgO4Ge/ – Acesso em 22 jun. 2026

Senado Federal (reprodução de reportagem do Estadão) 

https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/513754/noticia.html – Acesso em 22 jun. 2026

UOL Notícias 

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2024/06/30/eduardo-cunha-e-vaiado-durante-culto-da-assembleia-de-deus-no-rio-veja.htm – Acesso em 22 jun. 2026

O Globo https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2025/05/11/biblia-boi-e-bola-cunha-mira-mg-e-investe-em-estacoes-de-radio-time-de-futebol-e-visitas-a-igreja-e-leilao-de-gado.ghtml – Acesso em 22 jun. 2026

Vai na Fonte 

https://vainafonte.ig.com.br/2025-02-12/eduardo-cunha-comprou-predio-bh-e-candidato-a-deputado-por-mg.html – Acesso em 22 jun. 2026

O Dia 

https://odia.ig.com.br/noticia/brasil/2014-04-06/pezao-e-lindbergh-vao-a-inauguracao-de-templo-de-silas-malafaia.html – Acesso em 22 jun. 2026

Tempo Real RJ 

https://temporealrj.com/malafaia-ora-douglas-ruas-bolsonaro-rio/ – Acesso em 22 jun. 2026

Veja

https://veja.abril.com.br/brasil/a-rapida-expansao-da-igreja-que-virou-parada-obrigatoria-para-politicos-do-rio/ – Acesso em 22 jun. 2026

https://vejario.abril.com.br/cidade/pastor-familia-bolsonaro/ – Acesso em 22 jun. 2026

YouTube 

https://www.youtube.com/watch?v=t1RHba1cznc – Acesso em 22 jun. 2026

ICL Notícias 

https://iclnoticias.com.br/em-defesa-da-minha-familia-tradicional/ – Acesso em 22 jun. 2026

Comunhão 

https://comunhao.com.br/pastor-defende-flavio-apos-audio/ – Acesso em 22 jun. 2026

Tribunal Superior Eleitoral (TSE) 

https://www.tse.jus.br – Acesso em 22 jun. 2026

Ministério Público Eleitoral (MPE) 

https://www.mpf.mp.br/pge – Acesso em 22 jun. 2026

Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3)

https://www.trf3.jus.br – Acesso em 22 jun. 2026

G1 Sorocaba e Jundiaí

https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/ – Acesso em 22 jun. 2026

Veja

https://veja.abril.com.br/coluna/marcela-rahal/deputado-da-frente-evangelica-fala-sobre-polarizacao-na-eleicao-da-bancada

Organizador da Marcha para Jesus 2023 em Florianópolis e pastor da cidade são presos em operação contra a corrupção

*Atualizado às 09:39 de 16/12/2024 para correção de informações

Circulam em mídias sociais publicações que afirmam que o ex-secretário adjunto de Assistência Social de Florianópolis – e organizador da Marcha para Jesus 2023, na capital catarinense – Jeferson Melo foi preso, em 3 de dezembro passado. A prisão se deu pela operação da Polícia Civil de Santa Catarina, denominada Pecados Capitais, que investiga agentes públicos e dirigentes de organizações sociais envolvidos em desvio de dinheiro público na Prefeitura de Florianópolis.

Imagem: publicação do vereador Leonel Camasão (PSOL, Florianópolis) em seu perfil no X/Reprodução

Bereia checou as informações. Já no primeiro levantamento sobre o caso, foi constatado que alguns veículos de imprensa também noticiaram a prisão do pastor Marcos Ramos na mesma ação investigativa, por desvio de recursos da Prefeitura de Florianópolis para a prestação de serviços de assistência à população empobrecida e em situação de rua. 

Imagem: reprodução Revista Fórum

A operação policial

A operação Pecados Capitais, organizada pela 1ª Delegacia Especializada no Combate à Corrupção da Capital da Polícia Civil de Santa Catarina (PC-SC), investiga o desvio de recursos destinados aos projetos socioassistenciais da Prefeitura de Florianópolis, Passarela da Cidadania e Restaurante Popular.

A apuração da PC-SC identificou indícios de irregularidade no processo de escolha das  organizações Núcleo de Recuperação e Reabilitação de Vidas – Nurrevi Brasil, para gerir o projeto Passarela da Cidadania, e a Associação de Assistência Social e Educacional Amor Incondicional – Instituto Aminc, responsável pelo Restaurante Popular. Os contratos foram firmados entre 2020 e 2022. 

As investigações também apontaram superfaturamento e lavagem de dinheiro por meio de repasses a empresas contratadas pelas organizações para serviços como transporte, lavanderia, manutenção e compra de equipamentos, conforme apurou o grupo catarinense de comunicação ND.

Além das prisões preventivas de Jeferson Melo e Marcos Ramos, a operação cumpriu 21 mandados de busca e apreensão em Santa Catarina e no Mato Grosso, sequestros de bens e valores que superam a quantia de R$ 3 milhões.

Jeferson Melo e atuação no esquema investigado

O influenciador e coach Jeferson Amaral da Silva Melo foi secretário adjunto de Assistência Social da Prefeitura de Florianópolis entre os anos de 2020 e 2023. De acordo com o portal NSC Total, a juíza responsável pelo caso considerou, em despacho, que Melo e os demais investigados desviavam recursos repassados pela Prefeitura de Florianópolis aos projetos que lideravam.

O esquema seria mantido por meio da emissão de notas fiscais fraudulentas e do superfaturamento de serviços para o funcionamento do Restaurante Popular e da Passarela da Cidadania.  

Conforme consta no site da Prefeitura de Florianópolis,  os serviços oferecidos pela Passarela da Cidadania eram prestados pela Nurrevi. A parceria foi firmada por Termo de Colaboração, válido até dezembro de 2022, e a escolha da instituição foi definida por Edital de Chamamento Público da Secretaria Municipal de Assistência Social, em 2020.

O projeto Passarela da Cidadania atende à população em situação de rua com vagas de pernoite, realização de atividades complementares, disponibilização de alimentação, espaço para higiene de roupas e guarda de pertences. A unidade também oferece atendimentos com assistentes sociais e psicólogos. 

Evangélico, cuja igreja de vinculação o Bereia não conseguiu identificar, Melo participou da organização do evento deste segmento cristão Marcha para Jesus, realizado em Florianópolis em 2023. Em publicação feita em 27 de junho daquele ano, Jeferson compartilhou momentos do “lançamento” do evento religioso. “Um dia para entrar na história de Florianópolis (…) que momento histórico”, disse.

Imagem: reprodução Instagram

Em maio de 2023, em publicação em seu perfil no Instagram, o ex-secretário comemorou, ao lado do vereador Claudinei Marques (Republicanos) e do prefeito (reeleito nas eleições deste ano) Topázio Neto (PSD), a implementação de uma medida que beneficiou templos religiosos em Florianópolis: a não incidência da taxa de IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) e da taxa de coleta de lixo em imóveis destinados a atividades religiosas.

Jefe Melo, como é conhecido nas redes digitais, é uma figura de representatividade significativa nas mídias e entre o público evangélico, com mais de 50 mil seguidores em seu perfil do Instagram. O ex-secretário é fundador do Club Café com Líderes, comunidade que reúne empresários e diz buscar o fortalecimento do ambiente de negócios. A iniciativa já realizou eventos até mesmo fora do Brasil, em Portugal.

Por meio do Café com Líderes, Jefe Melo atua como coach, oferece mentorias, descontos em redes de empresas parceiras e eventos como o Empreende Brazil – que acontece em Santa Catarina e São Paulo -, onde o ministro da Economia Paulo Guedes do governo de Jair Bolsonaro (2019-2022) e o também influenciador e coach evangélico Pablo Marçal já figuraram como palestrantes.

Em meio a publicações sobre prosperidade no mundo dos negócios, há postagens de cunho religioso. “Deus pode mudar a sua história”, comenta em uma publicação do último 15 de julho. Em outra postagem, feita no dia 20 de julho, Jefe exalta seu papel na política: “Fortalecer suas redes na política não é apenas sobre quem você conhece, mas como você colabora para um futuro melhor”. O vídeo na postagem mostrava cenas de um evento do Partido Liberal (PL) em Santa Catarina.

“Jefe Melo”, já fez publicações nas redes digitais em tom elogioso a personalidades da política conhecidas pela utilização de estratégias desinformativas, como Donald Trump e Pablo Marçal. Melo também aparece em postagens ao lado da deputada estadual Ana Caroline Campagnolo (PL-SC), conhecida por seu posicionamento antifeminista entre outras pautas da extrema-direita.

Pastor Marcos Ramos e indícios de enriquecimento 

Marcos André Pena Ramos é pastor da Igreja Batista Creia, anteriormente chamada Igreja Batista Central do Kobrasol. Foi a partir da atuação da Batista Creia que surgiu o Núcleo de Recuperação e Reabilitação de Vidas (Nurrevi), agora envolvido na investigação da Polícia Civil de Santa Catarina. A Igreja também atua na gestão de projetos sociais desempenhados pelas organizações investigadas na operação Pecado Capital. 

Imagem: reprodução Instagram 

Ramos é vice-presidente do Instituto Aminc, gestor do Restaurante Popular em Florianópolis, após se colocar como única entidade interessada na gestão do projeto. De acordo com apuração do NSC Total, a polícia considera que, juntas, a Nurrevi e o Aminc receberam cerca de R$ 40 milhões da Prefeitura da capital catarinense.

No Instagram, Marcos Ramos se apresenta como conferencista, palestrante e assessor do terceiro setor para assuntos de administração, governança e gestão. Com quase 10 mil seguidores, seu perfil é usado para divulgar conteúdos religiosos, motivacionais e ações desenvolvidas pelo Instituto Aminc, que possui convênios não apenas em Florianópolis, mas também em outras cidades catarinenses, como Joinville, onde o instituto gere dois restaurantes populares.

A polícia trabalha com a possibilidade de que o pastor Marcos Ramos tenha sido o principal beneficiado com o superfaturamento das duas organizações. No inquérito, o enriquecimento dele é apontado como “meteórico e sem justificativa”, e seus bens – entre os quais há imóveis e um veículo da marca alemã BMW – foram avaliados em cerca de R$ 5 milhões.

Bereia entrou em contato com o Instituto Aminc e com o Nurrevi, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria.

***

Bereia classifica o conteúdo checado como verdadeiro. Conforme documentado em portais de notícias locais, Jeferson Melo e Marcos Ramos, ambos ligados a organizações e eventos de cunho religioso, foram presos preventivamente pela Operação Pecado Capital, deflagrada pela Polícia Civil de Santa Catarina. Se confirmadas as evidências levantadas pela PC-SC, ficará constatada a participação de instituições religiosas em processos fraudulentos. 

Referências de checagem:

Café com Líderes

https://cafecomlideres.com/#link Acesso em: 11 dez 2024

G1
https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2024/12/03/pastor-ex-servidor-comissionado-presos-operacao-desvio-florianopolis.ghtml Acesso em: 10 dez 2024

Instagram:

https://www.instagram.com/p/C7eejyEuKl3/ Acesso em: 8 dez 2024

https://www.instagram.com/p/DCEwfuqs8oC/ Acesso em: 8 dez 2024

https://www.instagram.com/p/CuxAAQDgg5-/ Acesso em: 8 dez 2024

https://www.instagram.com/p/DC3zhaNRnMO/ Acesso em: 8 dez 2024

https://www.instagram.com/p/C1uFXWMLHmb/ Acesso em: 10 dez 2024

https://www.instagram.com/p/Ct_6TMlrRyg/?img_index=1 Acesso em: 10 dez 2024

https://www.instagram.com/claudineimarquesoficial/reel/DAlh5Vvxq8u/ Acesso em: 10 dez 2024

https://www.instagram.com/claudineimarquesoficial/reel/C6_2PRsx94R/ Acesso em: 11 dez 2024

https://www.instagram.com/cafecomlideresoficial/ Acesso em: 11 dez 2024

https://www.instagram.com/rooftopdoslideres/ Acesso em: 11 dez 2024

Instituto AMINC
https://institutoaminc.org/instituto/ Acesso em: 11 dez 2024

ND+
https://ndmais.com.br/justica/como-funcionava-operaca-de-desvio-de-verbas-de-projetos-de-assistencia-social-em-florianopolis-segundo-investigacao/ Acesso em: 8 dez 2024

https://ndmais.com.br/seguranca/pastor-de-florianopolis-e-preso-e-apontado-como-maior-beneficiado-em-esquema-de-corrupcao-diz-policia/ Acesso em: 8 dez 2024

NSC Total https://www.nsctotal.com.br/colunistas/anderson-silva/os-detalhes-do-que-motivou-a-operacao-pecados-capitais-em-florianopolis  Acesso em: 8 dez 2024

https://www.nsctotal.com.br/noticias/quem-sao-o-pastor-e-o-ex-secretario-presos-por-desvio-de-verba-publica-em-florianopolis Acesso em: 8 dez 2024

Nurrevi
https://www.nurrevi.org/ Acesso em: 10 dez 2024

Polícia Civil de Santa Catarina
https://pc.sc.gov.br/?p=24988 Acesso em: 10 dez 2024

Prefeitura de Florianópolis
https://www.pmf.sc.gov.br/entidades/semas/index.php?cms=passarela+da+cidadania&menu=0 Acesso em: 11 dez 2024

Revista Fórum
https://revistaforum.com.br/brasil/sul/2024/12/4/pastor-ex-servidor-presos-em-sc-por-desviar-recursos-para-pessoas-carentes-170374.html Acesso em: 8 dez 2024

YouTube

https://www.youtube.com/@cafecomlideres Acesso em: 8 dez 2024

Foto de capa: SECOM/SC

Eleições 2024: religiosos e políticos usam falsa perseguição a igrejas no Brasil como tema de campanha durante Marcha para Jesus de SP

Circulam em espaços digitais religiosos postagens que repercutem o discurso de Estevam Hernandes, apóstolo da Igreja Renascer em Cristo, proferido na 32ª edição da Marcha para Jesus, da qual é líder, realizada na cidade de São Paulo, em 30 de maio passado. 

Organizado pela Igreja Renascer em Cristo, o evento contou com um público estimado em dois milhões de pessoas, que lotou as ruas da capital paulista para acompanhar uma série de atividades, incluindo shows e discursos de destacados nomes do cenário evangélico e político brasileiro.

Além disso, a marcha também serviu como palco para discursos políticos e demonstrações de apoio a Israel. 

Em uma das manifestações dirigidas à multidão, o pastor Estevam Hernandes mencionou que, apesar do que ele considera “uma perseguição às igrejas no Brasil”, ainda foi possível reunir um grande número de fiéis para o evento, segundo a perspectiva do pastor sobre a comunidade evangélica no país.

Imagem: reprodução/X

As alegações de Estevam Hernandes foram reproduzidas pela página oficial da Marcha para Jesus na rede X (antigo Twitter), em reafirmação à suposta “perseguição à igreja”. Os vídeos reproduzem um pequeno trecho das falas do pastor, em que ele se dirige à multidão e conclama o respeito 

“à luta das gerações passadas ao defenderem o evangelho no país” o que resulta na dimensão do aglomerado de “pessoas cantando os louvores a plenos pulmões”.  

As declarações do líder da Igreja Renascer em Cristo foram endossadas por figuras políticas, como a vereadora evangélica paulistana Sonaira Fernandes (PL), que está em campanha para as eleições municipais 2024,  e repercutiu a fala de Estevam Hernandes em suas mídias sociais.

Imagem: reprodução/X

Bereia tem verificado que o discurso em torno de uma suposta perseguição aos fiéis evangélicos no país tem sido muito repetido e reafirmado por lideranças cristãs, especialmente em períodos eleitorais. Nesta matéria, Bereia retoma o assunto com foco nas palavras do apóstolo da Igreja Renascer e da vereadora do PL em São Paulo, e busca localizá-lo no contexto eleitoral de 2024.

A cada edição da Marcha para Jesus, observa-se a intensificação dos discursos e apelos políticos. Em 2024, observa-se uma grande presença de representantes eleitos, como os governadores do Estado de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e do Estado de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), o prefeito da cidade de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), e mais de uma dezena de prefeitos, deputados estaduais e federais. 

Mesmo convidado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não participou do evento e, assim como em 2023, enviou o ministro da Advocacia-Geral da União (AGU) Jorge Messias, evangélico, que leu uma carta enviada pelo presidente. 

A participação do chefe do Poder Executivo na Marcha para Jesus ocorreu apenas durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ele marcou presença no evento como candidato em 2018 e, após eleito, compareceu às edições de 2019 e 2022. Na edição seguinte à sua eleição como presidente da República, Bolsonaro foi fotografado ao simular um gesto de fuzilamento, imagem que se tornou emblemática. Ele foi o único presidente da República a participar da Marcha para Jesus. 

Imagem: reprodução/X

Sobre a suposta perseguição a igrejas e a cristãos

Bereia já realizou checagens de diversas publicações sobre o tema, dentro e fora do país, entre elas: o falso vídeo que atribuía ao Superior Tribunal Federal (STF) o cerceamento da pregação da palavra de Deus no Brasil; a notícia sobre a prisão de pastores na Nicarágua como forma de repressão religiosa; a utilização de um relatório das Nações Unidas em prol do respeito a diversidade da comunidade LGBTQIA+ que foi manipulado para levar a crer que coibiria a liberdade religiosa. 

Imagem: reprodução/Bereia

Em 14 de março passado, Bereia contribuiu para um artigo na revista  Carta Capital que traz um panorama político e social do discurso da perseguição aos cristãos no Brasil e como ele está intrinsecamente ligado ao período eleitoral de 2018, com a eleição de Jair Bolsonaro (PL) à Presidência do país. Bolsonaro e correligionários do espectro da direita brasileira, desde a extrema-direita até os de centro-direita, utilizaram essa estratégia como plataforma para alcançar a parcela evangélica do eleitorado, que totaliza cerca de 30% da população brasileira.  

A ideia se tornou lema de campanha e foi assimilada por grupos cristãos, devido ao apelo emocional que ela acionou, com disparos em mídias sociais e abordagens em pregações religiosas pelo país afora. Nas eleições subsequentes, as municipais de 2020 e as nacionais em 2022, não foi diferente, o discurso foi retomado e volta a aparecer como tema de campanha para o próximo pleito municipal de 2024.

Em levantamento realizado pelo Bereia, em 2022, os temas que mais circularam nas checagens realizadas, em 12 meses, pelo coletivo, foram o discurso de perseguição religiosa e os tópicos relacionados às eleições, ou seja, foram os conteúdos que mais circularam em espaços digitais segundo acompanhamento da equipe.

A partir destas checagens e pesquisas, Bereia afirma que é falsa a afirmação de que haja perseguição aos cristãos no Brasil, e que as alegações de fechamento de igrejas e perseguição são estratégias de desinformação usadas por políticos e líderes religiosos para manipular o medo e influenciar o eleitorado, distorcendo a realidade e criando uma falsa sensação de vitimização. 

A pesquisadora em Religião e Política Brenda Carranza, em texto para o Bereia, desmistifica o termo “cristofobia”, apontando que o termo é inadequado, visto que o Cristianismo é a religião dominante e goza de ampla liberdade no país. As alegações de fechamento de igrejas e perseguição são estratégias de desinformação usadas por políticos e líderes religiosos para manipular o medo e influenciar o eleitorado, distorcendo a realidade e criando uma falsa sensação de vitimização.

Por que Estevam Hernandes e Sonaira Fernandes repercutem o falso discurso da perseguição a cristãos? 

De acordo com as checagens do Bereia, líderes religiosos e políticos repercutem o falso discurso da perseguição a cristãos para mobilizar a comunidade evangélica e fortalecer apoios. Esse discurso aumenta a visibilidade e o apoio de figuras políticas, como o caso de Sonaira Fernandes, que é apontada para compor a chapa de eleições municipais de São Paulo. 

Com o avanço e a democratização do acesso à internet, as mídias sociais se tornaram instrumentos chave de marketing político. Desde 2018, pesquisadores observam o recurso à desinformação para alavancar candidaturas. Dessa forma, durante o período eleitoral,  há um crescente número de políticos que propagam desinformação como forma de autopromoção em época de eleições, de todos os níveis da administração pública. Essa prática pode ser considerada como uma nova forma de “convencer e fazer política” em ambientes religiosos com lideranças políticas de um grupo específico. 

De acordo com universidades dos Estados Unidos, a Universidade de Nova Iorque (NYU) e a da França, a Universidade Grenoble Alpes (UGA),  a desinformação gera seis vezes mais engajamento do que as notícias embasadas em fatos reais. Esse é o resultado de uma pesquisa realizada entre 2020 e 2021, com a análise de mais de 2,5 mil páginas de notícias no Facebook.  

Quando o tema é religião, é possível compreender que, ao compartilharem de uma mesma perspectiva, de confiarem em seus irmãos de fé e de seus mentores espirituais, o senso de comunidade e união refletem uma semelhança no modo de pensar, agir e de se comportarem, conforme pesquisa do Instituto NUTES/UFRJ, que gerou o projeto Bereia. Mesmo quando há questionamentos sobre autenticidade, dúvidas se o conteúdo de fato é plausível, a tendência é de adotar o que é mais alinhado com seus valores, suas crenças e a comunidade que as cercam. 

A Marcha de Jesus como palco político

A Marcha para Jesus é avaliada em círculos religiosos como o “maior evento popular cristão do mundo”. Ela demonstra claramente a capacidade de mobilização e a força da comunidade evangélica no país. No Brasil, a primeira Marcha para Jesus aconteceu em São Paulo, em 1993, e reuniu 350 mil pessoas. É um evento que, a cada ano, se torna mais palco político e campo de disputa dominado por lideranças religiosas ultraconservadoras e políticos extremistas de direita. 

Segundo a pesquisadora da Universidade Federal Fluminense (UFF) Christina Vital, a esquerda ainda falha na comunicação com esse público. Enquanto a direita tem trabalhado diariamente dedicando tempo, recursos e criado iniciativas para engajar os evangélicos, a esquerda encontra uma grande dificuldade em firmar diálogo e parcerias com esses grupos religiosos.

É nesse sentido que temas como a falsa perseguição sistemática a cristãos no Brasil passa a ser utilizado como estratégia eleitoral no evento. A publicação da vereadora paulistana Sonaira Fernandes é um exemplo.

Quem é Sonaira Fernandes?

Sonaira Fernandes de Santana (PL-SP) é, desde 2020, vereadora na Câmara Municipal da cidade de São Paulo. Eleita pelo Republicanos, desde 2014 atua no apoio ao deputado federal de Eduardo Bolsonaro (PL-SP), em campanhas e em cargos comissionados no gabinete dele. Foi eleita como “a vereadora da família Bolsonaro” e das pautas que defende estão a liberdade e defesa da família, da fé e dos princípios cristãos. 

De vinculação confessional não identificada, a vereadora evangélica define-se, em seus perfis de mídias sociais, como cristã, conservadora, pró-vida, defensora da família e da liberdade. Em 2023 foi nomeada pelo governador Tarcísio Freitas (PL) como secretária de Políticas para a Mulher do Estado de  São Paulo. Deixou o cargo em  abril passado, quando reassumiu o mandato de vereadora, tendo em vista as eleições municipais de 2024. O noticiário alinhado à direita extremista tem divulgado que o ex-presidente Jair Bolsonaro trabalha nos bastidores para indicar a vereadora para compor como vice a chapa da reeleição de Ricardo Nunes (MDB) à prefeitura de São Paulo.

Imagem: reprodução/X

Comparada à ex-ministra e senadora Damares Alves, Sonaira Fernandes usa sua página pessoal nas mídias sociais para críticas duras ao governo federal, à esquerda, ao feminismo e para defender a pauta antiaborto. Suas ações na Câmara Municipal e nas redes, indicam que a política segue o modus operandi da direita extremista no país, que, desde as eleições de 2018, utiliza da propagação de conteúdos falsos e enganosos dirigido a grupos religiosos, com referências ao fechamento de igrejas no Brasil, ao cerceamento da fé cristã e à ameaça aos valores tradicionais da família em campanhas eleitorais. 

Imagem: reprodução/Desinformante

Classificada como demasiadamente extremista até mesmo pelo prefeito paulistano Ricardo Nunes para compor com ele a chapa de reeleição à Prefeitura capital, Sonaira Fernandes marcou presença na edição 2024 da Marcha para Jesus. Na página pessoal do X (antigo Twitter), a ex-secretária repercutiu o discurso do apóstolo Estevam Hernandes no evento e  apregoou que, mesmo numa ‘época em que a igreja está sendo perseguida’, o evento ficou marcado como um dos maiores da história.

***

Bereia reafirma, o que já desenvolveu em outras matérias de checagem e análises, que o tema da perseguição aos cristãos no Brasil é uma falsa alegação, usada mais intensamente como campanha de convencimento eleitoral, desde as eleições de 2018, com recurso ao medo como principal estratégia política. 

A Marcha para Jesus, evento evangélico com milhões de participantes, ao consolidar-se como veículo de propagação política da direita e da direita extremista do país,  promove e dá espaço a discursos que lançam mão de conteúdo desinformativo e propagador de medo e insegurança com fins eleitorais. 

Bereia chama leitores e leitoras para a importância da postura crítica frente ao uso da religião e dos fiéis, suas crenças e emoções, em campanhas eleitorais. Todo e qualquer discurso que faça uso de temas e símbolos relacionados à fé neste ano de eleições, da parte de líderes religiosos, de candidatos e seus apoiadores,  deve ser verificado antes de ser assimilado e compartilhado.

Referências de checagem:

ABI. http://www.abi.org.br/desinformacao-e-problema-de-desigualdade-social-diz-jornalista-premiada/ . Acesso em: 4 jun. 2024.

Agência Pública. https://apublica.org/web-stories/grupos-da-igreja-no-whatsapp-sao-usados-para-disseminar-desinformacao/ . Acesso em: 4 jun. 2024.

Bereia. https://coletivobereia.com.br/a-mentira-que-nao-quer-calar-sobre-perseguicao-a-cristaos-no-brasil /. Acesso em: 3 jun. 2024.

https://coletivobereia.com.br/cristofobia-perseguicao-a-cristaos-e-fechamento-de-igrejas-estao-entre-os-temas-com-mais-desinformacao-em-espacos-religiosos-nestas-eleicoes/ . Acesso em: 3 jun. 2024.

https://coletivobereia.com.br/montagem-que-denuncia-perseguicao-do-stf-a-cristaos-tem-conteudo-falso/ . Acesso em: 3 jun. 2024.

https://coletivobereia.com.br/portal-de-noticias-propaga-condenacao-de-pastores-na-nicaragua-como-perseguicao-religiosa/ . Acesso em: 3 jun. 2024.

https://coletivobereia.com.br/site-desinforma-contra-relatorio-apresentado-a-onu-sobre-abusos-da-liberdade-de-religiao-contra-direitos-lgbt/ . Acesso em: 3 jun. 2024.

https://www.brasildefato.com.br/2024/05/27/bolsonaro-quer-sonaira-fernandes-para-vice-de-nunes-mas-prefeito-de-sp-resiste-ao-nome-por-ser-bolsonarista-demais . Acesso em: 4 jun. 2024.

Câmara Municipal de São Paulo. https://www.saopaulo.sp.leg.br/vereador/sonaira-fernandes/ . Acesso em: 3 jun. 2024.

CNN Brasil. https://www.cnnbrasil.com.br/politica/fake-news-sobre-eleicoes-geram-mais-engajamento-que-noticias-legitimas/ . Acesso em: 4 jun. 2024.

Le Monde Diplomatique. https://diplomatique.org.br/fake-news-nas-igrejas-uma-epidemia-a-ser-curada/ . Acesso em: 4 jun. 2024.

Gazeta do Povo. https://www.gazetadopovo.com.br/sao-paulo/sonaira-fernandes-preferida-jair-bolsonaro-chapa-prefeitura-de-sao-paulo/ . Acesso em: 3 jun. 2024.

Marcha para Jesus. https://www.marchaparajesus.com.br/ . Acesso em: 3 jun. 2024.

Nós, Mulheres da Periferia. https://nosmulheresdaperiferia.com.br/sonaira-fernandes-conheca-a-secretaria-de-politicas-para-mulheres-sp/ . Acesso em: 4 jun. 2024.

O Globo. https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2024/05/30/em-marcha-para-jesus-nunes-diz-a-fieis-paulistanos-eu-amo-jesus.ghtml . Acesso em: 3 jun. 2024.

Olhar Digital. https://olhardigital.com.br/2021/09/03/internet-e-redes-sociais/fake-news-geram-mais-engajamento-que-noticias-verdadeiras-diz-pesquisa/ . Acesso em: 4 jun. 2024.

Publica. https://apublica.org/2024/05/em-ano-eleitoral-marcha-para-jesus-e-terreno-politico-em-disputa. Acesso em 06 de junho de 2024.

Carta Capital. https://www.cartacapital.com.br/politica/na-marcha-para-jesus-bolsonaro-admite-tentar-reeleicao-em-2022/. Acesso em 06 de junho de 2024.

UOL.

https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2019/06/20/jair-bolsonaro-marcha-para-jesus.htm. Acesso em 06 de junho de 2024.

https://noticias.uol.com.br/colunas/observatorio-das-eleicoes/2020/12/05/fake-news-em-2020-repetem-2018-misoginas-e-reforcando-a-polarizacao.htm. Acesso em 06 de junho de 2024.

Gazeta do povo. https://www.leiaisso.net/wl9fs/. Acesso em 06 de junho de 2024.

Poder 360. https://www.poder360.com.br/poderdata/55-dos-catolicos-e-27-dos-evangelicos-aprovam-lula-diz-poderdata/. Acesso em 06 de junho de 2024.

Criador da Marcha Para Jesus, Estevam Hernandes foi preso com dólares na Bíblia

* Matéria atualizada às 19:40 para correção de referência de checagem

Bereia recebeu pedido de checagem da notícia dada pelo site de notícias Diário do Centro do Mundo em 9 de julho, que informou sobre a realização da Marcha Para Jesus/2022, em São Paulo, e disse que o criador do evento no Brasil, bispo da Igreja Renascer em Cristo,  Estevam Hernandes, foi preso em 2007 por tentar entrar em Miami com dólares não declarados, escondidos na Bíblia.

O site publicou: “no dia 14 de janeiro de 2007, a caminho de Miami, Sônia, Estevam, dois filhos e três netos embarcaram na primeira classe de um voo levando US$ 56.467 em dinheiro. Ao pousar, tentaram passar pela alfândega americana sem declarar o valor. Acabaram presos, admitiram a culpa e cumpriram pena de reclusão em regime fechado e semi-aberto”.

A Revista Fórum também publicou sobre o tema e informou que Estevam Hernandes e a esposa Sônia foram condenados e ficaram presos nos EUA por tentarem entrar com dinheiro não declarado. “Estevam e sua esposa, a bispa Sônia, foram presos e condenados nos Estados Unidos quando tentaram, em 2007, ir para Miami com mais de 56 mil dólares não declarados.  Parte, por ironia, escondida numa Bíblia”.

Também a revista Carta Capital  declarou que “na época do crime internacional, em 2007, Estevam e Sônia Hernandes foram condenados a 140 dias de cadeia, outros cinco meses em prisão domiciliar e dois anos de liberdade vigiada […]. No Brasil, já foram acusados de lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e estelionato, mas acabaram absolvidos pelo Supremo Tribunal Federal em 2012”.  

O boletim jurídico ConJur também noticiou o fato em agosto de 2007, quando o casal Hernandes  recebeu sentença pelo crime: “O casal de bispos da Igreja Renascer em Cristo, Estevam e Sônia Hernandes, deve cumprir cinco meses de prisão em regime fechado e mais cinco meses de prisão domiciliar nos Estados Unidos. A sentença foi proferida, nesta sexta-feira (17), pelo juiz Federico Moreno do Tribunal Federal do Sul da Flórida”.   

O caso foi notícia de destaque na grande imprensa da época. O casal chegou a aparecer por vídeo na Marcha pra Jesus de 2007 e 2008, porque cumpria prisão domiciliar nos EUA, e por isso não pode viajar para estar no evento no Brasil. Sonia Hernandes foi enviada no dia 21 de janeiro de 2008 para prisão em Talhahasee, na Flórida, EUA, onde cumpriu pena intercalada à do marido, Estevam Hernandes que ficou preso “do início de agosto até o dia 29 de dezembro de 2007. Eles foram condenados a cumprir cerca de cinco meses de prisão em regime fechado e mais cinco meses de prisão domiciliar nos Estados Unidos”, conforme noticiou o site G1, à época.

Outros problemas com a Justiça

Este não foi o único problema da Igreja Renascer em Cristo e de seus líderes com a justiça. Também em 2007, Estevam e Sônia Hernandes  foram denunciados pelo Ministério Público Federal à Justiça Federal de São Paulo, acusados de “sonegação de Imposto de Renda, PIS e contribuições sociais da empresa RGC Produções. A denúncia foi recebida pelo juiz Hélio Egydio Nogueira, da 9ª Vara Federal Criminal de São Paulo. O casal consta como administrador da empresa RGC Produções Ltda. O argumento do MPF é o de que, em 1998, Sônia e Estevam Hernandes omitiram de sua declaração fiscal depósitos bancários de origem não comprovada, reduziram o valor de tributos a serem pagos no IR de pessoa jurídica, do PIS e das contribuições sociais da companhia.

A Marcha em 2022

No início de julho os organizadores da Marcha para Jesus – 2022, em São Paulo, reuniram milhares de seguidores  para mais um evento que apresenta artistas famosos da música gospel no Brasil, além da caminhada com orações e discursos políticos. No palco estavam líderes evangélicos e o criador e presidente do evento no Brasil, o apóstolo Estevam Hernandes, da Igreja Renascer em Cristo. O presidente Jair Bolsonaro esteve mais uma vez presente e fez discurso na abertura.

Os participantes da Marcha percorreram cerca de 3,5 km em caminhada até a Praça Heróis da Força Expedicionária Brasileira, na Zona Norte da capital. A Marcha Para Jesus completou 30 anos e voltou a ser presencial depois da interrupção em 2020 por causa da pandemia da Covid-19.

Data Oficial

A Marcha para Jesus já é reconhecida como data oficial no calendário de celebrações no Brasil, e em 2009 o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sancionou a Lei nº 12025 de 03/09/2009, que instituiu o Dia Nacional da Marcha para Jesus e determinou que o evento deveria acontecer anualmente, no primeiro sábado 60 dias após o feriado de Páscoa.

A Marcha para Jesus também tem sido tema de vários trabalhos acadêmicos que objetivam estudos sociológicos e antropológicos sobre as igrejas evangélicas no Brasil e sua atuação política, a partir do evento que ganhou visibilidade nos últimos 30 anos. 

Um artigo publicado em 2014 pela antropóloga Raquel Sant’Ana apresenta dados sobre a origem da Marcha para Jesus em Londres, no Reino Unido: “A Marcha para Jesus é herdeira direta da City March, realizada em Londres em 1987, em resposta às diferentes formas de manifestação a que os grupos descontentes com o governo Thatcher, especialmente os de juventude, herdeiros da “contracultura” estavam vinculados”. 

Conforme a doutoranda, “A March for Jesus, como passou a ser chamada, se tornou um evento internacional, realizado em mais de uma centena de cidades de todo o mundo”. Segundo Sant’Ana, a versão brasileira da Marcha para Jesus, diferente da marcha em outros países, que procura unir protestantes e católicos, aqui “passa a ser realizada em 1993 através de esforços da Igreja Renascer em Cristo, que busca uma maior visibilidade aos ‘evangélicos’ no país”.

O artigo mostra que “o centro do evento, desde seu surgimento, era a utilização da música como forma privilegiada para o evangelismo, extrapolando ‘as paredes dos templos’[…]”, e que no Brasil, a Marcha para Jesus foi articulada com importantes setores da indústria fonográfica                A Igreja Renascer em Cristo teve importante papel na “formulação do que veio a ser chamado de música gospel no Brasil, termo que foi inclusive patenteado pela bispa Sônia Hernandes, líder dessa denominação”. 

Sant’Ana faz uma análise da questão do exorcismo presente nos cultos de igrejas pentecostais e neopentecostais que participam da Marcha para Jesus no Brasil e afirma que “em lugar de exorcismos que combatem a ‘possessão’ individual com técnicas que incluem um repertório imagético da violência urbana transformada em espetáculo da mídia, a Marcha produz uma espécie de exorcismo da cidade” utilizando-se do modelo de megashow.

O artigo cita o crescimento quantitativo e qualitativo da Igreja Evangélica no Brasil, nas últimas décadas, que foi acompanhado de “grandes transformações também nos modos de atuação evangélica no espaço público”. Em sua análise a antropóloga afirma que “o crescimento pentecostal e neopentecostal teria influenciado de maneira marcante as demais denominações, tanto no modo de ocupar a política institucional quanto na produção midiática”.  Sant’Ana traz então a questão levantada por outros pesquisadores sobre a possibilidade de existir um modo evangélico de fazer política apontando uma disposição para que “a prática de estimular votos em candidatos apoiados pela denominação, por exemplo, uma marca da entrada da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) na política institucional, influenciasse a maneira de lidar com a política parlamentar das demais denominações”.

***

Bereia conclui que é verdadeiro que o criador da Marcha Pra Jesus e bispo da Igreja Renascer em Cristo, Estevam Hernandes, foi preso em 2007 por tentar entrar em Miami com dólares não declarados, escondidos na Bíblia.  

Referências de checagem:

Carta Capital. https://www.cartacapital.com.br/politica/casal-de-pastores-amigo-de-bolsonaro-ja-foi-preso-com-dolares-na-biblia/. Acesso em 23 jul 2022

Conjur.

https://www.conjur.com.br/2007-ago-17/casal_renascer_condenado_prisao_eua. Acesso em 27 jul 2022

https://www.conjur.com.br/2007-abr-09/justica_aceita_denuncia_casal_renascer

Diário das Leis. https://www.diariodasleis.com.br/legislacao/federal/212165-dia-nacional-da-marcha-para-jesus-institui-o-dia-nacional-da-marcha-para-jesus.html

Diário do Centro do Mundo. https://www.diariodocentrodomundo.com.br/criador-da-marcha-para-jesus-pastor-amigo-de-bolsonaro-foi-preso-com-dolares-na-biblia/?fbclid=IwAR10wugvvzp3K6tqGpoRE7mR1p_Rl5EubdRzrGW2IoABc2lpCPrAzudxK_s. Acesso em 15 jul 2022

G1.

https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2022/07/09/marcha-para-jesus-reune-milhares-de-fieis-em-sao-paulo-neste-sabado.ghtml. Acesso em 26 jul 2022

https://g1.globo.com/Noticias/Politica/0,,MUL1291943-5601,00-LULA+SANCIONA+LEI+QUE+CRIA+O+DIA+DA+MARCHA+PARA+JESUS.html. Acesso em 26 jul 2022

https://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL533422-5605,00-APOSTOLO+HERNANDES+NAO+CITA+PRISAO+DURANTE+MARCHA+PARA+JESUS.html. Acesso em 02 ago 2022

Revista Fórum. https://revistaforum.com.br/brasil/2017/6/15/pastor-que-foi-preso-nos-eua-abre-marcha-para-jesus-pregando-contra-corrupo-21335.html. Acesso em 27 jul 2022

Marcha pra Jesus. https://www.marchaparajesus.com.br/ Acesso em 26 jul 2022 

O Som da Marcha: evangélicos e espaço público na Marcha para Jesus. Raquel Sant’Ana. Museu Nacional/UFRJ – Rio de Janeiro Rio de Janeiro – Brasil.  https://www.scielo.br/j/rs/a/qpg6SH3RX3sQ9yGChY74jjr/?lang=pt&format=pdf Acesso em 26 jul 2022 

***

Foto de capa: frame de vídeo no YouTube

Imagens de réplica de arma gigante na Marcha Para Jesus viralizam em mídias sociais

Circularam em mídias sociais fotos e vídeos de arma gigante, atribuídas à  Marcha para Jesus, no Espírito Santo.  Bereia recebeu o pedido de leitores para verificação da veracidade de tais imagens que provocaram muita controvérsia.

O evento

Em visita a Vitória (ES) no dia 23 de julho, o presidente Jair Bolsonaro (PL) participou da Marcha para Jesus, organizada pelo Fórum Evangélico Nacional de Ação Social e Política. O evento envolveu também um café da manhã e um culto para lideranças políticas e foi encerrado com uma motociata saindo de Vitória em direção a Vila Velha, no Espírito Santo.   

Imagem: reprodução do Vimeo

Durante a Marcha, foi proibido pela organização que políticos discursassem para o público,  no entanto, Bolsonaro foi exceção. Uma escultura em formato de arma , confeccionada por um apoiador do governo, foi levada para o evento, no qual também ocorreu a soltura de 90 pombos pintados de verde e amarelo.

Imagem: reprodução do Diário do Ação

***

Bereia classifica que as imagens que mostram a réplica de uma arma gigante na Marcha para Jesus como verdadeiras. O evento contou com ampla cobertura da mídia e também dos apoiadores do governo, que divulgaram os acontecimentos por meio de vídeos e fotos em suas contas de mídias sociais. A equipe Bereia lembra aos leitores e leitoras que ações como essas serão comuns nos próximos meses e cumprem uma função de agenda política para os candidatos que pleiteiam cargos eleitorais. Como a campanha de Jair Bolsonaro defende o armamentismo desde 2018, é coerente que seus apoiadores, mesmo em ambientes religiosos, recorram a  símbolos relacionados a armas.

Referências de checagem:

Vimeo. https://vimeo.com/732747498?embedded=true&source=vimeo_logo&owner=82927209 Acesso em: 29 jul 2022.

Brasil de Fato. https://www.brasildefato.com.br/2022/07/23/ato-de-bolsonaro-no-es-tem-replica-de-arma-gigante-durante-marcha-para-jesus Acesso em: 29 jul 2022.

Diário do Aço. https://www.diariodoaco.com.br/noticia/0099074-motociata-e-marcha-para-jesus-em-vitoria-tiveram-revolver-gigante-e-caixao-do-pt Acesso em: 29 jul 2022.

Rede Brasil Atual. https://www.redebrasilatual.com.br/politica/2022/07/marcha-para-jesus-no-es-tem-bolsonaro-arma-gigante-e-caixao-do-pt/ Acesso em: 29 jul 2022.

Foto de capa: reprodução do Twitter