Homenagem a Lula no Carnaval é fonte de desinformação em espaços religiosos: Parte 3 – evangélicos em latas de conserva
O desfile da Acadêmicos de Niterói no Carnaval do Rio, em 2026, foi marcado por controvérsias políticas e religiosas que extrapolaram o clima da tradicional festa popular. Os holofotes se viraram para a escola, estreante no grupo de elite das 12 Escolas de Samba do Rio neste ano, por conta do enredo intitulado “Do Alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, construído em forma de homenagem ao presidente da República.
A representação carnavalesca da vida de Lula foi simbolicamente narrada pela mãe dele, D. Lindu, iniciada com a infância pobre no Nordeste do Brasil, passando pela liderança sindical como metalúrgico em São Paulo que o projetou à cena política e à Presidência da República em dois mandatos. O enredo ainda levou ao Sambódromo os revezes na vida do atual presidente do país, destacando a recente prisão que impediu sua recandidatura em 2018 até a posse no terceiro mandato como presidente da República, em vigor desde 2023.
Dois dos principais focos de reação política foram as acusações ao presidente Lula e à agremiação de propaganda eleitoral antecipada e uso ilícito de verbas públicas para campanha, tratados nas partes 1 e 2 desta matéria. Outro eixo de polêmica emergiu depois do desfile, realizado no domingo 15 de fevereiro, a partir de trechos do enredo e de fantasias consideradas por grupos religiosos, mais fortemente da parte de lideranças evangélicas, como depreciativas ou estereotipadas. Pastores e parlamentares ligados ao segmento protestaram publicamente e estimularam fiéis que o fizessem, acusando a escola de intolerância religiosa e de desrespeito à fé cristã. O episódio reacendeu debates recorrentes no Carnaval carioca sobre liberdade artística, laicidade e os limites entre sátira social e ofensa religiosa.
O julgamento dos desfiles anunciado na Quarta-Feira de Cinzas, 18 de fevereiro, concedeu a vitória à Escola Unidos do Viradouro e deixou em último lugar a Acadêmicos de Niterói. Com isso, a agremiação retorna para a Série Ouro do Carnaval, pela qual desfilava desde 2023, tendo sido campeã em 2025 e, consequentemente, promovida ao Grupo Especial em 2026. O rebaixamento da Acadêmicos de Niterói, situação recorrente de escolas de samba menores que chegam ao Grupo Especial, manteve vivas nas redes digitais religiosas as polêmicas em torno do caso.
Bereia produziu um levantamento sobre o conteúdo que circulou mais intensamente em espaços digitais de identidade evangélica sobre o caso para verificar a veracidade e a falsidade em torno dele. Nesta terceira parte da matéria é apresentada uma verificação sobre o caso das fantasias sobre famílias em latas de conserva.
Controvérsia sobre as fantasias de latas de conserva
Depois das amplas discussões nos espaços digitais sobre propaganda eleitoral antecipada e sobre o repasse de verbas às escolas de samba para realização de campanha política, após o desfile da Acadêmicos de Niterói, emergiu um dos temas mais comentados do Carnaval 2026. Foi a ala da escola “Neoconservadores em conserva”, com fantasias que retratavam figuras caricaturadas em latas metálicas, associadas a discursos moralistas e religiosos instrumentalizados politicamente. Segundo a própria escola, a alegoria buscava representar criticamente segmentos associados ao neoconservadorismo contemporâneo, como evangélicos, agronegócio, elites econômicas, militares e defensores da ditadura. A ala integrava o enredo em homenagem ao presidente Lula da Silva, com uma abordagem dos conflitos ideológicos em torno da trajetória política dele forjada nas esquerdas.

A ala integrou o 5º setor do desfile, intitulado “Assim que se firma a soberania”. O roteiro apresentado pela Acadêmicos de Niterói à Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) e divulgado pela imprensa, introduziu a representação desta forma:
“O humor segue em voga para caracterizar os chamados ‘neoconservadores’. Um grupo que atua fortemente em oposição a Lula, votando contra a maioria das pautas defendidas por ele, como privatizações e o fim da escala de trabalho 6×1. O movimento em ascensão no Brasil passou a se associar, dentro do campo político, aos seguidores da extrema direita.
A fantasia traz uma lata de conserva, com uma defesa da dita família tradicional, formada exclusivamente por um homem, uma mulher e os filhos. Na cabeça dos componentes, há uma variação de elementos para enumerar os grupos que levantam a bandeira do neoconservadorismo, são eles: os representantes do agronegócio (na figura de um fazendeiro), uma mulher de classe alta (perua), os defensores da ditadura militar e os grupos religiosos evangélicos. No Congresso Nacional, formam um bloco conservador que defende pautas como flexibilização do porte de armas, exaltação às Forças Armadas, interesses do agronegócio e dos valores tradicionais da família”.

A repercussão negativa foi imediata entre lideranças políticas e religiosas alinhadas ao conservadorismo. Parlamentares e influenciadores evangélicos classificaram a ala como ofensiva à fé cristã e aos valores familiares, alegando que símbolos religiosos, como a Bíblia, teriam sido ridicularizados. A senadora evangélica Damares Alves (Republicanos-DF) afirmou que “usar verba pública para ridicularizar a igreja evangélica é inadmissível”, enquanto o deputado federal também evangélico Nikolas Ferreira (PL-MG) acusou a esquerda de zombar da família cristã por que a odeia.


Nas mídias sociais, a polêmica foi articulada como mobilização digital. Políticos de oposição, influenciadores e usuários de mídias digitais críticos ao governo federal passaram a publicar imagens de “famílias em conserva” em resposta ao desfile, criando uma tendência que viralizou após a apresentação da escola. A reação foi explicitamente apresentada como defesa de famílias conservadoras diante do que classificaram como ridicularização carnavalesca. Postagens virais classificaram a ala como “cristãos enlatados” ou “ataque à fé”, ampliando o alcance da controvérsia em plataformas como X, Instagram e YouTube. Veículos de mídia alinhados à extrema-direita política passaram a incentivar a adesão do público à campanha.




Com a força destas manifestações massivas nas mídias digitais, em algumas horas a Acadêmicos de Niterói, o governo Lula e as esquerdas políticas passaram a enfrentar mais uma acusação relacionada ao Carnaval 2026: intolerância religiosa. Desta vez com alto grau de afetação emocional no público cristão. Além das manifestações de parlamentares que anunciaram o acionamento do Ministério Público Federal, outros políticos vinculados à direita se manifestaram contra o que classificam como crime de intolerância religiosa da escola de samba, que os veículos de mídia alinhados passaram a chamar de “lulista”.

Também foram divulgadas notas de repúdio no mesmo tom por parte da Frente Parlamentar Evangélica, da Frente Parlamentar Católica, da Associação Nacional de Juristas Evangélicos (Anajure) e da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção RJ (desde 2024 presidida por advogada alinhada às Assembleias de Deus, como o Bereia já informou). A Igreja Universal do Reino de Deus e a Arquidiocese do Rio de Janeiro também divulgaram palavras oficiais críticas à apresentação da escola de samba.

As mídias digitais também foram espaço para lideranças evangélicas não conservadoras divulgarem posicionamento em contraposição ao discurso então predominante. Entre os que militam na esquerda política, o pastor presbiteriano e teólogo Luis Sabanay, membro do Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores e coordenador do Núcleo de Estudos sobre Religião da Fundação Perseu Abramo publicou artigo intitulado “Família e violência: a cortina moral que desvia o debate público para o Carnaval”. O evangélico coordenador do setorial inter-religioso do PT comenta sobre desfile da Acadêmicos de Niterói Gutierres Barbosa, em entrevista à CNN, defendeu a autonomia das escolas de samba e afirmou que o governo foca em projetos como a escala 6×1 e a isenção do Imposto de Renda, e não em interferir em manifestações culturais.
Já o pastor o Hermes Fernandes publicou reflexão contrapondo a noção de família plantada em jardim/pomar (cultivada em amor, respeito e liberdade) à da família enlatada (cultivada artificialmente e padronizada por discursos tóxicos).

Na mesma linha, um expressivo número de publicações de pessoas evangélicas e outras sem identificação religiosa criticaram o que consideram um movimento articulado contra a apresentação da Acadêmicos de Niterói. Em textos e imagens são feitas denúncias de hipocrisia diante de casos como o dos quase 500 mil reais escondidos em sacos de dinheiro, pelo deputado federal evangélico Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), e o da ex-deputada federal evangélica Flordelis (PSD-RJ), presa por ter sido condenada de ser mandante do assassinato do marido.


É, também, expressiva a reação de usuários nas redes digitais com comentários críticos nas postagens dos políticos e influenciadores que publicaram imagens de IA com suas famílias em latas de conserva:

Especialistas em religião e em cultura problematizam a acusação de intolerância religiosa
Bereia ouviu o antropólogo Lucas Bártolo, que defendeu, neste fevereiro de 2026, a tese “No altar do samba: a religião no mundo do Carnaval”, pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Cultural do Museu Nacional/UFRJ para uma avaliação do que está em torno desta controvérsia. Ele explica que “o carnaval é um tempo de festejos marcado pelo excesso e pela licenciosidade que antecedem o período austero da Quaresma. Ao mesmo tempo, é um modelo de festa de inversão que brinca com a ordem social e cósmica: por meio do riso, da paródia e do exagero, oferece uma linguagem divertida e crítica de comentário social, político e moral. Por isso, até a própria religião entra nesse jogo, passando a fazer parte do universo simbólico carnavalizado. Inclusive a Igreja, como figura de autoridade, também vira objeto da brincadeira”, afirma. Bártolo acrescenta que “é importante reconhecer o lugar social do carnaval como expressão coletiva, em que a sociedade pode se ver, se criticar e se reinventar por meio da festa”.
Em artigo publicado no Nexo Políticas Públicas, Lucas Bártolo mostra como controvérsias em torno da presença de símbolos religiosos nos desfiles carnavalescos e das tentativas políticas de regulamentação da prática, não são novas, sobretudo no universo das escolas de samba do Rio de Janeiro. O antropólogo explica que esses debates “revelam tensões recorrentes entre visibilidade pública, classificações sociais e disputas por legitimidade na representação das religiões no espaço público”. Ao descrever disputas históricas e recentes Projetos de Lei para limitação da liberdade de expressão sobre religião no Carnaval, Bártolo fala do uso da ideia de intolerância e perseguição contra cristãos para controlar expressões carnavalescas em torno do cristianismo. Ele mostra no artigo como se tem consolidado “uma estratégia retórica centrada na noção de ‘cristofobia’, que afirma a existência de perseguição aos cristãos (católicos e evangélicos), a despeito da hegemonia histórica do cristianismo como matriz cultural dominante na sociedade brasileira”.
A especialista em economia comportamental Déborah Bizarria, em artigo para a Folha de S. Paulo, nota que o desfile da Acadêmicos de Niterói pretendia ironizar o neoconservadorismo bolsonarista por meio da sátira da “família tradicional”, num contexto de homenagem ao presidente Lula. Ela avalia que a apresentação foi interpretada como deboche do significado de família na sociedade brasileira, não como crítica à instrumentalização conservadora da instituição. A economista aponta que, como resultado, esse sentimento vem sendo capturado pela oposição para fortalecer o projeto político que o desfile pretendia criticar.
Bizarria analisa que dois comportamentos opostos acabam reforçando essa situação: de um lado, setores progressistas que ridicularizam ou tratam com desprezo a noção de família; de outro, grupos conservadores que tratam a família como algo sagrado e intocável. Para Bizarria, nenhum desses extremos ajuda de fato as famílias reais, que são diversas e mudam ao longo do tempo. Ela lembra que família não é um conceito religioso fixo, mas uma construção cultural que assume muitas formas e precisa ser respeitada em sua diversidade.
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Bereia seguirá acompanhando os desdobramentos deste caso e alerta leitores e leitoras sobre o uso político da ideia de intolerância religiosa para impedir críticas à instrumentalização da religião para fins políticos. Este tema já foi tratado em várias matérias do Bereia, em especial por conta do uso do termo “cristofobia”. Ao mesmo tempo, recomenda atenção a debates e reflexões em torno do tema família, pois esta noção, como recomendam competentes analistas que estudam religião, deve ser sempre tomada no plural.
Referências
Correio Braziliense https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2026/02/7356921-familias-em-conserva-politicos-ironizam-desfile-de-carnaval-veja.html?utm_source=chatgpt.com Acesso em 23 fev 2026
O Estado de S. Paulo
https://www.estadao.com.br/politica/escola-de-samba-que-homenageou-lula-mirou-evangelicos-agro-e-oposicao-em-ala-familia-em-conserva-nprp Acesso em 23 fev 2026
Frente Parlamentar Evangélica
https://www.facebook.com/photo?fbid=1245763927744018&set=pcb.1245763984410679 Acesso em 23 fev 2026
Frente Parlamentar Católica
https://www.instagram.com/p/DU5nE66gDny/?igsh=d3ppY29xbGp6aXVz Acesso em 23 fev 2026
Associação Nacional de Juristas Evangélicos (Anajure)
https://www.instagram.com/p/DU3FtSPgFkM/?img_index=1 Acesso em 23 fev 2026
Ordem dos Advogados do Brasil – Seção RJ
https://www.instagram.com/p/DU3fLU_ibTV/?img_index=1Acesso em 23 fev 2026
Igreja Universal do Reino de Deus
https://www.universal.org/noticias/post/desfile-da-academicos-de-niteroi-provoca-reacao-apos-ala-sobre-evangelicos/?utm_source=chatgpt.com Acesso em 23 fev 2026
Arquidiocese do Rio de Janeiro
https://arqrio.org.br/wp-content/uploads/2026/02/A-Importancia-da-Familia-e-da-Religiao.pdf Acesso em 23 fev 2026
Partido dos Trabalhadores
https://pt.org.br/familia-e-violencia-a-cortina-moral-que-desvia-o-debate-publico-para-o-carnaval/ Acesso em 23 fev 2026
CNN
https://www.youtube.com/watch?v=5xdlnICEGp4 Acesso em 23 fev 2026
O Globo
https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2022/11/20/caso-flordelis-entenda-como-foi-o-homicidio-do-pastor-anderson-com-base-no-que-foi-dito-no-julgamento.ghtml Acesso em 23 fev 2026
Nexo Políticas Públicas
https://pp.nexojornal.com.br/opiniao/2026/02/09/o-carnaval-como-campo-de-disputa-politica-do-conservadorismo-cristao Acesso em 23 fev 2026
Revista Fórum
https://revistaforum.com.br/cultura/bancada-evangelica-ataca-gavioes-da-fiel-por-desfile-corajoso-contra-intolerancia-religiosa/Acesso em 23 fev 2026
Metrópoles
https://www.metropoles.com/carnaval-2018/intolerancia-religiosa-diz-crivella-sobre-desfile-da-mangueira Acesso em 23 fev 2026
Folha de S. Paulo
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/deborah-bizarria/2026/02/deboche-progressista-e-idolatria-conservadora-tornam-a-familia-uma-arma-cultural.shtml Acesso em 23 fev 2026
Religião e Poder
https://religiaoepoder.org.br/artigo/familias Acesso em 23 fev 2026
