“Detox digital”: a proposta desconectada da ministra Damares

A ministra Damares Alves propôs em suas redes sociais, no último sábado, 30, um “detox digital” como desafio para o Dia Nacional da Família, que será celebrado no próximo domingo, 8. O objetivo da proposta, segundo a ministra, é alertar a população para os riscos do uso excessivo da tecnologia e “reconectar” as famílias do Brasil.

A iniciativa faz parte do Programa Reconecta, do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, lançado oficialmente no início de julho, e que tem como pauta principal “fornecer acesso mais amplo ao conhecimento cientifico às famílias e à população em geral, a respeito do uso de recursos tecnológicos de maneira inteligente, abordando aspectos sociais, educacionais, e de saúde física e psíquica, visando assim a aquisição de uma maior consciência sobre consequências do uso tecnológico”.

A ministra Damares convocou, por meio de vídeo postado em seu twitter, o presidente Jair Bolsonaro, a primeira dama, Michelle, e os ministros a não usarem o celular durante as 24 horas do dia 8. Ela também estendeu o desafio aos pastores.

Apesar da boa intenção do Programa Reconecte, o real desafio que o/a brasileiro/a precisa não é um “detox digital”, mas aprender a desenvolver uma consciência digital no novo contexto social que vive.

Antonio Spadaro, padre, escritor, teólogo e diretor da revista jesuíta Civiltà Cattolica afirmam que “as recentes tecnologias digitais não são mais simples instrumentos completamente externos ao nosso corpo e à nossa mente, mas um “ambiente” no qual nós vivemos. A rede é um espaço de experiência que sempre mais está se tornando parte integral, em maneira fluida, da vida cotidiana: é um novo contexto existencial. Portanto, a rede não é, um simples ‘instrumento’ de comunicação que se pode usar, mas se evoluiu em um espaço, um ambiente cultural, que determina um estilo de pensamento e cria novos territórios e novas formas de educação, contribuindo para definir também um modo novo de estimular as inteligências e a estreitar as relações, um modo de habitar o mundo e organizá-lo. Não é, portanto, um ambiente separado da vida ordinária, mas ao contrário, sempre mais integrado, conectado com aquele da vida cotidiana.”

A partir desta reflexão pode-se entender que o desafio a ser proposto seria o inverso – Reconectar-se com o novo contexto social encarando-o como um ambiente de vida. O estímulo deveria ser para dentro da Rede e não para fora dela. A internet já está imersa na vida de todos, e o nosso real desafio “não é mais apenas “utilizar” bem a internet, como frequentemente se acredita, mas “viver” bem nos tempos da internet.”

Os Bots e a Esfera Pública

Derivação de robots (robôs), os bots são utilizados na rede mundial de computadores, por meio de perfis falsos, para a manipulação de discursos empregados nas redes sociais. A influência da internet e das redes sociais no desenvolvimento de posicionamentos político-ideológicos têm impactado fortemente a formação da opinião pública. As campanhas eleitorais não ficam à margem desse fenômeno. Países como Índia, Israel, Espanha e EUA já haviam conhecido, anos antes, o impacto das redes sociais na formatação da opinião do eleitorado. No Brasil, o efeito dos bots apareceu de forma embrionária nas eleições de 2014 e, de forma incisiva, na eleição do ano passado, a ponto de chamar a atenção do TSE para providências mais rigorosas quanto ao uso manipulativo de informações distorcidas ou falseadas. 

 
O modo deliberativo do cidadão e a maneira como este relaciona-se com o poder político são ameaçados pela influência de um sistema gerenciado por algoritmos. Os aplicativos de mensagens, diferente das redes sociais tradicionais, inovam na medida em que proporcionam o diálogo com um grande número de pessoas em ambiente privado. Isso poderia, em princípio, gerar um resultado positivo: o efetivo debate entre candidatos e eleitores, aprimorando a formação da opinião e da vontade decisional. No entanto, como afirma Marília Maciel, em estudo a respeito, “o uso de aplicativo de mensagens instantâneas pelos candidatos tem focado no espraiamento de conteúdo, mantendo-se na lógica de comunicação unidirecional que caracteriza as mídias mais tradicionais”. 

 
Tais ferramentas tecnológicas não permitem a ampliação da participação nem a qualificação do debate político. Geram, ao contrário, a instrumentalização dos meios de participação. Ao disparar mensagens sem lastro com fatos ou destituídas de um conteúdo proposicional verdadeiro, a pessoa não se dá conta de que as mesmas foram preparadas e pensadas estrategicamente por grupos de interesses, cuja pretensão não é o esclarecimento ou a reflexão ponderada, mas, sim, a manipulação. 

 
Em 2015, o escritor e filósofo Umberto Eco fez uma declaração polêmica ao alegar que “as redes sociais deram o direito à palavra à uma legião de imbecis que antes falavam apenas em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”. Diante da contemporaneidade do assunto, parece que a frase de Umberto Eco deve ser atualizada. A internet não deu o direito à palavra para as pessoas. Essas, maioria das vezes, sequer fazem uso da palavra, do discurso. Antes, pelo contrário, são meras transmissoras de fake news produzidas em série. Esse esparrame de notícias falsas, sem o mínimo de questionamento, tem potencializado o surgimento de cidadãos apolíticos, transformando a política em uma arena cada vez mais rarefeita e distante de nós. 

Artigo publicado na Folha de Londrina, edição de 19-20/10/2019, e no Jornal Ecos de Sant’Ana, edição 19-20/10/2019.